Início Site Página 136

Por uma tecnologia da informação para todos

Todos sabem que há uma carência de programadores no nosso país, mas não é por falta de gente inteligente não, e sim, por falta de valorização da cultura, necessidades comunicacionais e formas de enxergar o mundo daquelas camadas mais pobres.

Sou uma apaixonada pela tecnologia da informação. Adoro as rotinas, procedimentos e funções dos programas que desenvolvo e me tiram o sono devido ao esquecimento de uma vírgula aqui e acolá: coisas de uma programadora desajeitada.

Hoje decidi refletir um pouco sobre a tecnologia da informação e me doeu saber que tantas pessoas estão longe dela, principalmente as chamadas “minorias”, aqueles que são os menos vistos pelas grandes ciências, os que batem às portas das casas fechadas que nunca abrem com medo de encontrarem do outro lado um bandido ou ladrão.

Falo das mulheres pobres, negras, obesas, homossexuais, moradoras de periferias iguais a mim.

A minha luta para entrar no mundo da tecnologia da informação não tem sido nada fácil. É uma batalha atrás da outra para ser reconhecida como uma programadora de computadores. Essa é uma ciência formada pela sua ampla maioria de homens brancos, heteros e de classe média para cima.

Nunca vi em toda a minha vida um programador que se declarasse transsexual. A tecnologia da informação é uma ciência elitizada.

Certa vez, quis trazê-la para a minha comunidade onde moram crianças que correm descalças atrás de caranguejos, mas não encontrei apoio logístico para isso. Como ensinar às crianças a programarem se elas não dispõem de um computador? Se lhes falta comida e brinquedos?

Sim, crianças pobres estão distantes de terem contatos com os bits e bytes da nossa tecnologia. O meu maior desejo é que as linguagens de programação falem o mesmo idioma que o meu, pois isso encurtaria a distância da programação a respeito da população mais pobre.

Vivemos num país de desigualdades de todos os tipos e a que mais mexe comigo é a tecnológica.

Chegará um tempo em que tudo será feito por máquinas. Como as pessoas mais pobres poderão fazer uso dessas máquinas se não sabem como funcionam por dentro? Para muitos, não importa que o usuário comum saiba quais comandos são dados para que aquela máquina funcione, mas apenas que ela dê as respostas solicitadas.

As populações vulneráveis são sempre as que mais sofrem desigualdades neste nosso país de ricos e brancos. Temos tão poucos negros nos cursos de ciências da computação, tão poucos índios, tão poucos ciganos.

Luto pela inclusão da tecnologia da informação nas escolas públicas. Não falo aqui de montar uma sala com cinco ou dez computadores ligados a internet e chamá-la de sala de informática. Não! Isso não é fazer ciência!

Fazer ciência na sala de aula é primeiro nunca faltar a merenda escolar e segundo ensinar às crianças e jovens a programar numa linguagem materna.

Os brancos são tão eficientes no quesito criatividade e ainda não inventaram uma linguagem de programação que converse de igual para igual com uma criança. Por que será? O adultocentrismo se abraça com o classismo e o racismo.

Direitos iguais para todas as crianças, independente da cor da pele. Crianças negras também precisam estudar. Crianças negras também acordam com o nascer do som. Leia mais!

Tenho receio dessa exclusão dos homossexuais do mundo da tecnologia. Claro que há muitos dentro do armário porque se mostrarem a sua orientação sexual poderão sofrer preconceitos dos mais diversos, as empresas do futuro não estão preparadas para lidar com essa gente linda que ama em desassossegos. Conheço alguns amigos que são bons programadores e homossexuais, mas mantém um cuidado exagerado para não terem as suas vidas íntimas expostas aos seus colegas de trabalho.

Continuarei lutando para que a tecnologia da informação possa entrar em cada escola dos mais longínquos locais do Brasil não apenas para que as crianças façam cópias do que encontram navegando pela internet, mas para que elas possam usar do pensamento lógico e crítico criando pequenos códigos executáveis e mergulhando nos vales filosóficos da inteligência artificial.

Comecei a programar com dezoito anos de idade. Talvez cedo demais para uma jovem negra e pobre. Na minha pequena escola nunca vi um computador, só tive acesso a um quando conquistei o meu primeiro emprego.

Não quero que isso aconteça com as pessoas próximas a mim que sofrem com as desigualdades sociais, culturais, econômicas e agora tecnológicas. A minha luta precisa do seu apoio, do seu grito, da sua coragem para junto comigo levar a tecnologia da informação às populações vulnerabilizadas.

Pintam a tecnologia da informação como uma senhora de cara feia e de salto alto que a qualquer momento está pronta para dar uma bronca em alguém teimoso, mas ela não é assim.

Ao contrário de tudo isso, dá até para fazer códigos executáveis de poesia ou outras artes: a liberdade pode ser recitada tanto em códigos como em sonetos ao vento. Um poeta português que morreu recentemente, conhecido como Melo e Castro, já conseguiu provar isso. Ele é o criador da Infopoesia. Nós podemos vestir na tecnologia da informação roupas coloridas que possam alegrar os olhos das crianças, adultos e idosos. Quem disse que um idoso não pode aprender a programar?

O problema maior dos nossos programadores é que eles complicam tanto a tecnologia da informação que o aluno iniciante acaba desistindo de aprender. Barreiras invisíveis se somam, excluindo as mentes dos corpos que não importam.

Esses gurus da frustração colocam exercícios que exigem além do conhecimento da programação o conhecimento da matemática. Todos nós sabemos da precariedade do ensino da matemática nas escolas públicas.

As crianças tendem a ter mais facilidade com as letras nos primeiros anos de estudo, raras são aquelas que preferem os números. Qual criança de oito anos de idade vai saber fazer uma rotina para achar um número primo se a ela nunca foi ensinado o que é um número primo?

Todos sabem que há uma carência de programadores no nosso país, mas não é por falta de gente inteligente não, e sim, por falta de valorização da cultura, necessidades comunicacionais e formas de enxergar o mundo daquelas camadas mais pobres, daqueles esquecidos pela sociedade branca e rica que não se preocupa em oferecer um ensino de qualidade, diverso e múltiplo em códigos de comunicação democrática.

Querem que sejamos depósitos de conhecimentos porque têm medo de que aprendamos a pensar criticamente e logicamente. Esta é a verdade.

Quando um talentoso homossexual negro vai para televisão à procura dos seus direitos, ele assusta à sociedade branca e elitizada, porque jamais se poderia esperar que tal pessoa tivesse um conhecimento diferenciado das demais pessoas ao seu redor.

Continuarei lutando para que a tecnologia da informação chegue às populações mais vulneráveis. Que possamos todos aprender a programar as nossas máquinas para que elas trabalhem conforme as nossas necessidades, entornos culturais e subjetividades. Afinal, um aparelho pessoal deve ter uma alma irmã, compatível com a do seu detentor. Um bit à entrada da periferia vendendo picolé por 1,00. E quem sabe o menino descalço que corre atrás de um caranguejo à tarde inteira possa sentar-se diante de uma tela de computador e escrever um algoritmo que ajude a sua mamãe a preparar a receita do seu bolo preferido.

Eu e mais duas amigas estamos escrevendo um livro que trata mais profundamente do tema deste artigo. Gostaria de saber se você teria interesse de ler um livro assim? A sua opinião, leitor, é muito importante para que continuemos o nosso projeto.

Leia também sobre a minha ideia sobre Inteligência Emocional: (Crianças com inteligência emocional tendem a absorver o ensino-aprendizagem de forma mais rápida e eficiente. Elas não têm medo de errarem por que sabem que todos erramos, logo não ficam tão ansiosas diante das avaliações).

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Em defesa dos professores

Sou a favor de um país que se desenvolve investindo de verdade na Educação. E contra qualquer postura que afete negativamente essa maravilhosa classe: os professores.

Estou recebendo dezenas de mensagens de pessoas, do Brasil todo, revoltadas com a postura dos professores e, consequentemente criticando minha defesa a essa classe. Dizem que os professores estão dando uma de “deuses do olimpo” se achando melhores do que outras classes profissionais por desejarem receber a vacina prioritariamente.

Então seguem algumas explicações, já que minha função como professor que sou é ensinar:

1 – Não queremos ser vacinados antes que ninguém, pois justamente por termos estudado, sabemos ser humildes e reconhecer o valor de todos. O que estamos dizendo é que não queremos ser obrigados a voltar a dar aulas presencialmente sem a vacina.

Podemos esperar sim, basta que o poder público nos vacine antes de nos obrigar a voltar. Querem que as aulas recomecem? Vacinem os professores antes!

2 – Dizer que “os professores são pagos com os nossos impostos” é de uma injustiça ainda maior. Os políticos incompetentes (não são todos, graças a Deus) não agilizaram a vacinação, não conseguiram investir no lugar certo, e agora obrigam os professores a pagar pela falta de planejamento deles. E também os políticos são pagos com os nossos impostos.

Ah, só lembrando, do salário do professor é retirado uma porcentagem (com o nome de impostos) que vai para a Educação, ou seja, os professores também pagam para que seus filhos e os nossos estudem em escolas públicas.

3 – Se um professor for contaminado, ele (como as pesquisas já mostraram) contamina praticamente todos os alunos antes de perceber os sintomas. As crianças contaminam os pais e os avós e um surto aumenta quase imediatamente. Vários países voltaram a cancelar as aulas apenas algumas semanas depois do retorno presencial. Aprendemos com a história? Creio que não.

4 – Acreditar que as crianças vão obedecer aos protocolos de segurança (máscaras trocadas a cada duas horas, álcool em gel sendo utilizado sempre que outra criança tocar em seus pertences, manter a distância interpessoal e lavar com frequência as mãos) é de uma ingenuidade impressionante. Convido essas pessoas a ver como funciona uma escola para que vejam de perto como é. Nem sabão a maioria tem. Bem, não é uma boa ideia, pois essas pessoas podem estar contaminadas.

5 – Sei que as crianças em casa são outro problema, talvez muito grave, mas por que colocá-las numa situação de perigo ainda maior? Se a promessa é de que logo todos estejam vacinados, porque não permanecemos nas aulas virtuais apenas mais um tempo? Está difícil, cansativo, improdutivo em alguns casos, mas é uma solução menos perigosa.

6 – Valorizamos todas as classes profissionais e certamente contribuímos para a formação desses profissionais, mas um empregado numa empresa, isolado numa mesa tomando todas as precauções e com colegas que fazem o mesmo é MUITO diferente de obrigar um professor a dar aulas para crianças que simplesmente não vão obedecer tais regras. A maioria porque são crianças vivas, alegres, animadas e de bem com a vida, mas muitas porque simplesmente não obedecem nem aos pais, imagine obedecer a normas de saúde como essas.

7 – Cuidado para não colocar a sociedade contra os professores. Dar aulas online é chato, amamos dar aulas presenciais. Mas amamos nossa vida e a vida de nossos familiares. Não nos recusamos a educar, muito menos nos consideramos superiores, mas queremos que sejam justos com a gente. E, por incompetência do nosso país que não investiu adequadamente em pesquisa não temos a vacina a tempo (apesar disso parabéns aos pesquisadores brasileiros que estão à frente da maioria dos países) e também por incompetência não compramos as vacinas a tempo. E tendo a vacina estamos vacinando 24 horas por dia para acelerar a vacinação? Duvido que seja realidade.

8 – Dizer que os professores não querem trabalhar é não ter acompanhado nenhuma das aulas dos próprios filhos, pois se tivessem acompanhado teriam visto o enorme esforço dos professores em criar materiais novos, adaptar metodologias e ser criativo em todo o resto. E se a pessoa não tem filhos, poderia ter perguntado antes para então criticar.

9 – E dizer que eu defendo os professores não é crítica, pois eu defendo sim. Amo a classe e sempre defenderei cada professor desse país. Quer saber o valor de um deles?

Quando estivermos vacinados vá assistir uma aula presencial numa escola (a maioria) sem papel higiênico, sem sabão para lavar as mãos, sem materiais adequados e sem manutenção. MUITAS escolas são assaltadas com frequência e seus professores são ameaçados caso chamem a polícia.

Vá lá. Passe uns dias conversando com professores e com alunos. Veja a realidade. E não são só escolas do Rio de Janeiro (como são mais divulgadas pela mídia), mas da quase totalidade das capitais e de uma boa parte das escolas das outras cidades. E se por sorte você visitar uma que tem pelo menos um cafezinho na sala dos professores, pergunte de onde veio o pó. Com certeza de uma vaquinha entre os mestres.

10 – E por último, vamos confrontar NÃO OS PROFESSORES que estão desde o início ao lado da população, mas os responsáveis por nosso país estar assim. E pelo amor de Deus, não estou falando que o problema é só da atual gestão federal, pois há centenas de anos nosso país não tem um plano nacional de valorização da educação (onde os professores fariam parte).

Ou seja, o problema continua sendo de cidadãos que preferem atacar-se uns aos outros que criticar quem realmente merece ser criticado.

Esquerda contra direita deveria ser apenas no campo das ideias, mas pessoas morrem porque a defesa de um ou outro medicamento toma viés político. Meu Deus! Deixem os médicos decidir.

E a ordem de prioridade para a vacinação?

NUNCA deveria ter sido objeto de decisão política, mas de um plano bem fundamentado por uma equipe multidisciplinar da Defesa Civil, dos ministérios de Saúde e de Planejamento, dos especialistas em pandemias, endemias e epidemias e principalmente de profissionais experientes que realmente poderiam ter trazido informações científicas relevantes para a produção de um plano excelente. Essa equipe apresentaria o plano para o governo federal e aí sim teríamos sua execução. Mas, da forma como foi feito, prefeitos e governadores ficam de mãos amarradas por não terem autonomia, mesmo tendo mais competência que muitos “federais”.

E por último, atenção: vou excluir, nem vou comentar, comentários a favor ou contra qualquer partido político. Não sou contra nem a favor a nenhum deles.

Sou a favor de um país que se desenvolve investindo de verdade na Educação. E contra qualquer postura que afete negativamente essa maravilhosa classe: os professores.

Autor: Marcos Meier

Edição: Alex Rosset

Renascer das cinzas

A tristeza tem cheiro de cinza, mas é possível reiniciar um novo momento de vida. Recomeçar o fogo que há dentro do nosso coração e reavivar a alma com o impulso de pessoas que amamos, convivemos e nos querem bem.

A combustão da queima da madeira, usada para muitos fins que se resulta a energia, para aquecer, para gerar movimento, para obter o calor, para cozinhar. Sem esse processo, não há produto.

Nesse processo de produção energética o principal fator é o fogo. É ele que permite a realização do processo. Disso tudo, sobra a cinza. A cinza não é fogo. Ela é passado. A cinza não dá energia, não aquece, não ilumina, tampouco move.

O fogo é movido pelo oxigênio que permite a combustão, já a cinza é um concentrado de gás carbônico, produto morto. Nela não há vida, a morte supera a vida.

Metaforizando o dito, percebemos que, quando encontramos cinza em nossas vidas, ela atrapalha, pois atinge o psicológico. O ser humano começa a morrer.

A pandemia levou muita gente às cinzas. Por quê? Porque a pressão psicológica, o medo de se contaminar, o encarceramento humano, a privação da sociabilidade, a limitação do trabalho foram apagando o fogo que existe em nós e necessita diariamente ser alimentado.

Eu mesmo passei por uma situação cinzenta que, em meus anos de vida, nunca tinha experimentado. Sempre fui muito resolvido naquilo que sonhava, acreditava e persisti até conseguir. Porém, experimentar o gosto da cinza me deixou pensativo em várias questões, nunca antes pensadas. O que fiz de minha vida? As escolhas que fiz foram as melhores? Não tive filhos. Quem irá me cuidar? Quem sou eu? Muitas pessoas próximas me diziam: – Mas você é muito querido e admirado por todos. Mas o que isso me importa?

A cinza não é o que aquece. A cinza é apenas o que sobra do fogo. Não serve pra nada. Tem gosto de morte. A vida fica com um tom cinzento. Nada motiva.

A frase de Camões perde o sentido: “amor é fogo que arde sem se ver”. Não existe amor, muito menos, motivo e alegria. Não nos reconhecemos mais.

É preciso ressurgir das cinzas. O que nos faz ressurgir? Na verdade não existe renascer, ressurgir das cinzas. Cinzas são cinzas, amontoado de carbono. Resíduo de vida. Delas não saem mais nada. Precisamos iniciar novamente o fogo. Colocar lenha, encontrar motivo no oxigênio a respirar.

No meu caso, as pessoas próximas ofereceram combustão e eu, como apaixonado que sou pelo trabalho de mestre educativo, aos poucos fui ressurgindo nesse início de ano letivo, mesmo remoto, a partir de indícios da convivência com os alunos, com os jovens nos permitem iniciar um novo fogo, novas motivações.

Nesta semana, trabalhando com linguagem, muitos alunos me deram motivos para considerar que a vida pode ser bela, sempre, e que são as pessoas que nos ajudam no recomeçar.

Em especial, gostaria de compartilhar com vocês uma reflexão de um aluno, com ênfase na figuração linguística. Ele me alegrou. Uma bela reflexão sobre tristeza, porque a cinza pode ser associada a tristeza em nossa vida, no momento em que ela permeia a maior parte dos dias.

João Lucas Asman de Carvalho, trouxe uma reflexão de um poeta. E ele ainda estava preocupado se o poema estava a altura do solicitado. “Olá professor. Ao invés de usar a temática do amor, usei a temática da tristeza. Tentei usar a maior quantidade possível de figuras de linguagem. Professor, o senhor pode de algum jeito confirmar a veracidade do meu poema? Eu queria que o senhor tivesse certeza de que eu o escrevi”.

 Tristeza
  
 Tristeza é algo passageiro?
 Sim, mas pode não ser.
 Ela pode ser como uma doença
 que nos consome, sem que possamos perceber.
 Seria possível morrer de chorar?
 Talvez algo assim possa existir
 Por que as pessoas não morreriam de tristeza
 Se as pessoas podem “morrer de rir”?
 A tristeza nos faz descer ainda mais para baixo?
 Possivelmente, mas isso é uma incógnita
 Mas chega de fazer perguntas
 Pois sobre a tristeza também tenho respostas.
 Por tristeza eu mataria
 Apenas para preencher um vazio
 Por tristeza eu levaria a você
 O mais gélido frio.
 Assim como a escuridão
 A tristeza me deixa cego
 e nesse momento me pergunto:
 Como farei o certo se tudo parece incerto?
 Em meio a tantos questionamentos
 Tristeza e alegria andam lado a lado
 Uma hora me levanto em alegria
 Na outra me abaixo desolado.
 Talvez seja inútil tentar compreender
 Esses sentimentos, a felicidade e a dor
 Mas penso, sou humano
 e contra isso não posso me opor.
 O que é a tristeza?
 é melhor apenas sentir
 Chorar quando quiser chorar
 e rir quando quiser rir.
 Pois, ser humano é isso, não é?
 rir, chorar, morrer
 no fim é bem simples
 A nós, cabe apenas viver. 

Podemos perceber que a tristeza tem cheiro de cinza, mas é possível reiniciar um novo momento de vida. Recomeçar o fogo que há dentro do nosso coração e reavivar a alma com o impulso de pessoas que amamos, convivemos e nos querem bem. Renascer das cinzas não é possível, mas é possível iniciar um novo fogo, um novo motivo, um novo momento de vida.

Leia também um das reflexões mais acessadas em minha coluna no site: “Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão…” Quando vi médicos que tem a profissão neste mundo para cuidar da saúde dos outros seres humanos. Perguntava-me: Como estão com o cigarro na mão? Que ensinamento pelo exemplo pode dar? Porque não venham me dizer que o exemplo não educa, educa sim. Mais do que as palavras”.

Autor: Laércio Fernandes dos Santos

Edição:Alex Rosset

Inflação para as famílias mais pobres é o dobro daquela enfrentada pelas famílias de maior renda

Informe do Dieese com base em dados divulgados pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que a taxa de inflação
enfrentada pelas famílias mais pobres (6,75%) no Brasil é o dobro em
relação às de maior renda (3,43%). Confira a íntegra da análise.

A diferença se deve à pesada alta nos preços dos alimentos, que impactam mais no orçamento de famílias de menor renda, e à baixa no preço dos serviços, mais consumidos pelas faixas de maior poder aquisitivo.

As famílias mais pobres gastam cerca de 25% do seu orçamento com alimentos, enquanto os mais ricos gastam menos de 10%.

O indicador divulgado pelo Ipea divide as famílias brasileiras em seis
faixas de renda e avalia como a inflação afeta, mês a mês, cada um
desses grupos. Na tabela abaixo a variação dos últimos doze meses fica
evidente.

Setores de renda baixa e de renda média-baixa, onde se enquadra a maior parte dos educadores(as) da rende estadual, também sofrem com taxas de 1,6 a 1,8x maiores do que os setores de renda alta.

Os trabalhadores(as) da educação estão há mais de SEIS ANOS sem qualquer reposição. Somente as perdas inflacionárias já corroeram 40% do poder de compra da categoria.

Os professores(as) e funcionários(as) de escola estão entre os servidores(as) mais mal pagos do Rio Grande do Sul e sentem na pele a combinação de arrocho e alta de preços.

Queremos respeito e salário digno!

ReposiçãoJá!

Esta publicação foi originalmente publicada no site do CPERS.

Autor: CPERS

O conhecimento transdisciplinar e os sentidos da educação

A educação se efetivará, como uma prática com sentido, se considerar e partir dos conteúdos advindos das possibilidades evidenciadas na vida concreta.

Costumamos reproduzir alguns pensamentos como se eles estivessem claros e corretos. No entanto, no momento que exercitamos a reflexão, que é pensar o próprio pensamento, as palavras e os conceitos utilizados demonstram sua obscuridade e sua complexidade.

Quando proferimos ou reproduzimos pensamentos mecanicamente, estamos inconscientemente, reproduzindo conteúdos petrificados de uma cultura específica. Um exemplo ilustrativo, desta reprodução mecânica e irreflexiva, pode ser visualizado no comportamento da educação formal, seja ela de nível básico ou superior.

A opção por enfrentar o debate e a reflexão, com o objetivo de visualizar o sentido da educação, implica explicitar os sujeitos reais da mesma. Ao optar por este comportamento, será possível identificar que os ideais de ser humano e de sociedade podem entrar em contradição e em confronto com os objetivos do mercado.

Ao pensarmos o ser humano, devemos entendê-lo, não apenas como produto, mas também como sujeito construtor da sociedade. Ao explicitar a construção do social e o sentido do mercado, podemos identificar as contradições, disputas e confrontos entre o lucro e os ideais humanos e sociais.

Os permanentes debate sobre a adequada seleção e organização dos conteúdos, para que eles sejam interligados, conectados com o mundo vivido e tenham sentido, passam pela defesa da conexão de áreas do conhecimento e da transdisciplinaridade. No entanto, esta defesa teórica produzida por especialista em educação e formalizada por planos de gestão pedagógica não evolui satisfatoriamente em sua materialização.

As constantes reformas curriculares, agregando ou eliminando disciplinas, não contribuem para efetivar a necessária interligação, conexão e relevância dos conteúdos.

A educação se efetivará, como uma prática com sentido, se considerar e partir dos conteúdos advindos das possibilidades evidenciadas na vida concreta.

Um indicativo metodológico está nas produções de pensadores consolidados, que apesar do  etiquetamento de sociólogo, pedagogo, psicólogo, historiador, físico, químico, economista, desenvolvem conteúdos que partem das pessoas. 

Trata-se de conferir centralidade para os temas basilares, desprestigiados na cultura da educação escolar, que envolvem as relações humanas entre as dimensões físicas, mentais e espirituais.

Ao seguirmos este indicativo, estaremos partindo da vida concreta e de situações problemas, nos distanciando do comportamento orientado pelo reducionismo de uma disciplina,  praticando a transdisciplinaridade e concretizando uma educação com sentido.

Um mundo de especialistas em objetos de estudo cada vez menores. Essa realidade é motivo de reflexão do pensador francês Edgar Morin (1921). Criador de uma teoria do conhecimento que busca se adequar às exigências do mundo contemporâneo, a produção de Morin aponta para a importância de reconectar os saberes, fazendo com que os estudantes sejam capazes de ter acesso aos conhecimentos específicos, mas sem perder de vista o todo. Assista!

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Ensino remoto: como os fantoches podem ajudar na educação infantil

Os fantoches atraem a atenção porque conversam com as crianças e lhes dão atenção, tudo o que elas mais querem nessa época de distanciamento social.

Eu tinha apenas quatro anos quando ganhei o meu primeiro fantoche. Fiquei feliz. Muito feliz. Com ele, comecei a fazer os meus primeiros roteiros teatrais. O meu público eram as minhas bonecas de pano, que também são ótimas para o ensino na educação infantil.

 Penso que toda criança deveria ter um fantoche e que o teatro poderia ser estudado desde a educação infantil, pois a gente vê poucos dramaturgos e roteiristas nas periferias brasileiras. Refiro-me às periferias como quem é moradora de uma e sabe bem o que fala quando se refere a um povo esquecido e sofrido.

O fantoche que é colocado na mão para ser manipulado pela criança imitando uma voz conhecida, abrindo e fechando a boca ao partir do movimento de seus dedinhos pode ser um bom elemento nas aulas do ensino remoto na educação infantil.

O imaginário das nossas crianças tem sido tão pouco explorado. Necessitamos fazer com que elas criem novos mundos, novos monstrinhos, novas formas de ver e estar por aqui e que essas formas sejam todas das suas cabecinhas pensantes. Sem o imaginário não sobreviveríamos às dificuldades que o mundo nos coloca todos os dias, todos os momentos.

Um fantoche pode ser feito em casa mesmo com alguns pedaços de tecidos e costurados até mesmo à mão. Quanto mais simples for o fantoche, mais ele chamará a atenção da criançada. Qualquer professor poderá produzir um caso tenha facilidade com artesanato. Hoje temos ao nosso favor a internet que tudo ensina, e podemos aproveitá-la para aprendemos coisas lindas e maravilhosas.

Aprendi a fazer os meus próprios fantoches aos doze anos de idade. Mas, desde os cinco anos, que os manipulo. Sempre inventei personagens, sempre vivi em mundos diferentes do real e sempre fui uma criança feliz com os meus brinquedos fabricados em casa pela minha mamãe ou bisavó.

As professoras e professores podem adaptar as mais diversas histórias dos livros paradidáticos para o teatro. O texto narrativo pode tornar-se um diálogo entre os personagens e as crianças.

Combinado a isso, o professor também pode incluir o assunto da aula no roteiro. Sei que pode parecer difícil, mas não é. Um pouco de força de vontade, dedicação e gosto pelo teatro incentivará no processo dessa nova forma de dar aulas às crianças da educação infantil e, certamente, elas vão adorar. Toda criança gosta de bonecos, de conversar e quem sabe se a professora for mais criativa fazer com que os alunos interajam nos roteiros.

Os fantoches atraem a atenção porque conversam com as crianças e lhes dão atenção, tudo o que elas mais querem nessa época de distanciamento social.

Fazer um teatro com esses bonequinhos pela câmera do celular ou computador será uma forma agradável de se ensinarem às crianças os mais diversos conteúdos, até mesmo a matemática pode ser ensinada dessa forma. Os fantoches também são ótimos para ensinarmos biografias e fazermos com que as crianças imitem pessoas conhecidas usando do lúdico para aprenderem.

Não é somente na escola que é possível aprender brincando. Sim, o ensino remoto também nos traz várias possibilidades de ensino-aprendizagem.

Os fantoches transmitem emoções as mais diversas e as crianças, do outro lado da telinha, podem se sentir bem atraídas por esses bonecos com voz e jeito de ser parecidos ou não com elas, que muitas vezes dão conselhos e noutras contam anedotas.

Não será o fantoche o grande responsável pelo êxito da sua aula, professora ou professor, mas a sua criatividade, o roteiro que você criará para dar a sua aula através desses bonecos.

Sabemos que as crianças estão cansadas das aulas remotas, por isso todos os dias é preciso nos reinventarmos. Não é fácil conseguir atrair uma criança por quarenta a cinquenta minutos. Precisa-se de uma metodologia bastante criativa.

Para manipular um fantoche, não se faz necessário fazer curso nenhum. A sua aula não precisa ser profissional.

Vejo muitos professores que se preocupam e ao me ver gastam dinheiro à toa fazendo cursos sobre temas que poderiam aprender assistindo a vídeos na internet ou fazendo leituras. Podemos poupar o nosso dinheirinho nos esforçando um pouco na autoaprendizagem. Sei que muitos têm dificuldades de aprender sozinhos, porém o resultado é gratificante. Também não fico apenas na teoria, porque na prática já dei muitas aulas com fantoches.

O importante nisso tudo é saber reinventar-se. Reinventar é a palavra do momento com o ensino remoto. Descobriram e passaram a valorizar não só o professor de Artes Visuais e Cênicas da escola, mas os professores de todas as disciplinas. Leia mais!

A minha experiência com os fantoches foi encantadora. As crianças do outro lado da telinha queriam tocar no boneco, se aproximavam da tela, queriam chegar até mim e boquiabertas sorriam quando o boneco lhes contava algo engraçado. Consegui com isso que as minhas crianças aprendessem a fazer continhas sem medo da matemática, também aprenderam a pronunciar palavras corretamente e acabaram perdendo vícios de linguagem difíceis de serem tirados na sala de aula presencial.

Eu fiz um fantoche que recebeu o nome de “Portugol”. O “Portugol” era um fantoche que conhecia as palavras difíceis da língua portuguesa e com isso as crianças aprenderam diversas novas palavras que nunca tinham ouvido antes.

Ensinar também é uma arte. Atualmente, tem sido mais arte do que técnica. Faz-se poesia quando se transmite-se beleza e alegria. As crianças não querem muito para sorrir e também não precisam de muito para aprender coisas novas, porque são por demais curiosas. Elas só querem todos os dias um jeito novo de aprender.

As aulas com os fantoches podem ser uma novidade que apresente ludicidade, poeticidade e, ao mesmo tempo, potencialize o ensino-aprendizagem de forma mais fácil e rápida. Sim, é possível ensinar através do lúdico. Todos nós gostamos de sorrir, as crianças não gostam de pessoas carrancudas. Elas querem aprender sorrindo.

Na minha infância, infelizmente, não fui alfabetizada com fantoches e quase não estudei o teatro. Tive o prazer de ler muitos livros em prosa e muita poesia, também. No entanto, em casa eu estudava com os meus fantoches, e eles eram os companheiros a quem dava vida através das minhas mãozinhas.

A criança quer apenas que lhes passemos um pouco de cuidado, elas não gostam de repetições e nem de ficar longos minutos ouvindo coisas que não são atraentes. Elas querem o susto, o inesperado, a surpresa. De repente, o fantoche que estava vivo ganha vida e diz “olá” surpreendendo a criançada.

Temas como a morte, a saudade, a perda, a dor, a coragem nesses momentos de distanciamento social e pandemia podem ser trabalhados com os fantoches. Tudo pode ser ensinado através dos fantoches, mas, para isso, é preciso que a criatividade da professora seja alimentada com leituras, filmes e música.

Professora, você pode mostrar ao seu aluno que, no mundo dos fantoches, também existem dificuldades e pessoas chatas, para que ele se reconheça no fantoche. Pode até mesmo fazer um roteiro sobre a história de um aluno da sua turma, enfocando sempre o ensino-aprendizagem para que esse aluno diga para si o quanto a história do fantoche é parecida com a sua e passe a imitá-lo uma vez que aprendeu com ele a vencer o obstáculo, a dificuldade, o problema, a dor.

Fantoches despertam interação num ambiente onde o acolhimento com o abraço ainda não é possível.

Fabrique o seu próprio fantoche, professora ou professor. Comece hoje mesmo a fazer os seus roteiros pequeninos. Quem sabe descobrirá o artista que mora dentro de você. Brinque com a sua criança usando o fantoche para fazer perguntas curiosas sobre a sua vida e as suas expectativas em relação as coisas ao seu redor. Saiba que o fantoche é o seu duplo.

Como professora, Enir Tormes sempre priorizou a educação da qualidade, onde muitas vezes teve que utilizar de recursos próprios para qualificar sua prática pedagógica, onde investiu muita na profissão, fazendo formações, comprando livros e materiais para poder ofertar aprendizagens significativas junto às crianças.Sempre gostou de contar histórias e foi aperfeiçoando as técnicas para envolver, ao máximo, as crianças. Conheça história desta professora.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Silêncio dos enterrados

Nem sequer temos o conforto de contar com um velório decente e uma despedida digna. Mortos partem sozinhos, dividindo a tristeza e a solidão com os membros da família enlutada e destroçada.

Silêncio de uma ausência, de um espaço vazio, de um vácuo sem fundo, de um nome e de um rosto que para sempre partiram, de uma história brutal e precocemente interrompida.

Silêncio dolorosamente estridente, quase ensurdecedor, como nos faz recordar a canção em homenagem a Jacob do Bandolim, composta pelo poeta Sérgio Bittencourt e imortalizada na voz de Nelson Gonçalves:

“Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã /Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída não doía assim / Agora resta uma mesa na sala /E hoje ninguém mais fala do seu bandolim / Naquela mesa ‘tá faltando ele / E a saudade dele ‘tá doendo em mim”.

Ouça esta bela canção Naquela Mesa – Nelson Gonçalves (Stefano Mota)

Passado mais de um ano desde que o novo Coronavírus desembarcou em território brasileiro, quantas “casas e jardins” desertos, quantas “mesas num canto”, quantos sofás órfãos na sala, quantos “bandolins” abandonados, quanta dor “tão doída”, quantas saudades sem fim?

E que falta fazem aquelas histórias contadas e recontadas na roda íntima da família – gratuitamente, sabiamente, calorosamente – sobretudo quando restou apenas o eco sombrio e desolado das palavras silenciadas! Por que se apagou a luz e o brilho que “nos seus olhos era tanto”, deixando espalhadas ao vento as cinzas invisíveis de uma catástrofe? É como se até mesmo a memória se desvanecesse com a separação do ente querido.

Nem sequer temos o conforto de contar com um velório decente e uma despedida digna. Mortos partem solitários, dividindo a tristeza e a solidão com os membros da família enlutada e destroçada.

Um ano de pandemia. Um ano de intenso combate a esse inimigo silencioso, invisível e letal. Um ano em que um exército inumerável de profissionais de saúde teve que tomar decisões que deixaram esses soldados, a si próprios, com feridas abertas talvez para o resto de suas vidas.

Um ano de convívio diário e impactante com o fim trágico de parentes e amigos. Um ano marcado por mais de 300 mil vítimas fatais.

No fundo, uma batalha tão mortífera como poucas o têm sido ao longo da história humana. Guerra que mata e mutila de forma aleatória e descontrolada, mas, em particular, abrevia a vida de não poucos anciãos ou enfermos mais vulneráveis.

Assim se foram Fulano, Sicrano, Beltrano – nomes que simbolizam a tantos que riram, choraram, trabalharam, lutaram e sonharam nos mesmos caminhos que juntos trilhamos, mas que perderam o combate para o Covid-19. Assim, permaneceram as famílias a quem os falecidos pertenciam.

Um golpe mortal os separou para sempre, povoando os cemitérios com os cenários mais macabros, onde reina o silêncio retumbante dos enterrados.

Junto a esse silêncio – de ausência, vazio e solidão – cresce também uma voz surda e muda, mas nem por isso menos crítica e consciente do desgoverno das autoridades brasileiras.

Desgoverno que não se refere somente à área da saúde. Ao contrário, reflete-se no desmonte sistemático e não raro irreversível de políticas públicas construídas a custo nas últimas décadas.

Nesse desmonte, não seria difícil elencar, por exemplo, a questão do meio ambiente, das relações exteriores, da segurança dos cidadãos, da educação básica e superior, da ciência, cultura e pesquisa… Daí a ira viva, ativa e subterrânea que vai estendendo suas raízes pelo tecido esgarçado de uma sociedade dividida e fragmentada.

Parafraseando o escritor estadunidense John Steinbeck, prêmio Nobel de literatura (1962), na escuridão úmida do solo, a revolta faz florescer e amadurecer com força “as vinhas da ira”, prontas para a vindima. Não importa quando virá a colheita, mas lentamente os brotos vão se multiplicando e de abrindo para o ar livre, o céu azul e a luz do sol.

Se é verdade que as derradeiras décadas do século XX representaram uma época de colheita, e se é verdade que uma geração dificilmente é premiada com mais de uma safra, também é certo que a semeadura prossegue laboriosa e conscientemente.

Autor: Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

O novo credo

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.

Estamos infectados pelo vírus da imbecilidade. Nunca antes, na história deste país, ser imbecil foi tão “cool”. Na religião, arte, filosofia, ciência e política: quanto mais idiota, melhor, está ok?

Poucos se arriscam a fazer uma ligação entre o péssimo momento da cultura em geral e o recrudescimento de posturas políticas extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Existe o medo de represálias, incentivadas pela onda do politicamente correto, ameaçando afogar qualquer um que ouse discordar do “mainstream” pós-moderno.

No entanto, é muito claro que, assim como na arte, filosofia e afins, na política quem comanda o baile é o discurso monossilábico, retrógrado, digno de um pré-adolescente com déficit de aprendizagem.

Vivemos em uma sociedade imbecilizada, voltada para o extremo do consumismo e sem qualquer valor posto acima disso e do bem-estar imediato.

É ensinamento epicurista que, mesmo quando se busca o prazer, é preciso ter cuidado, pois a procura irrestrita pela satisfação de todos os desejos leva, mais cedo ou mais tarde, a dor extrema e, não raro, a autodestruição.

Porém, em uma sociedade imbecil, incapaz de tecer pensamentos mais complexos, de ver e representar distintos pontos de vista, de lidar com a extrema e caduca trama da realidade — viver o presente de forma responsável, sem perder de vista o futuro, é praticamente uma utopia, daquelas mais loucas e inatingíveis.

Tanto faz se o amanhã trará, em função de nossas ações atuais, desconforto, guerra e ruína. O importante é seguirmos o “mito” do momento, o imbecil capaz de canalizar toda nossa estupidez, livrando a todos do fardo de ter que pensar.

Viver na complexidade cansa. Viver com gente complexa cansa. Gênios sempre tiveram fama de chatos, atrapalhados e excêntricos. Imbecis são mais dóceis, em todas as áreas, para todas as tarefas.

Imbecilidade na religião, acaba gerando extremismo; na arte, por meio de um minimalismo tosco e nada original; na filosofia, na forma de jargões vazios de autoajuda; na ciência, na formação de um pensamento acrítico e no corte de investimentos; e, por fim, mas não menos importante, imbecilidade, é claro, na política, esgoto no qual toda essa lama fétida deságua, grande bueiro de nossa terrível incompetência, de nossa demoníaca indigência intelectual.

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.

Não raro observamos pessoas usando o seu status social, econômico ou educacional para menosprezar os outros. Isso é sinal de superioridade ou simplesmente de arrogância e idiotice? Tema: imbecilidade arrogante (Sérgio Cortella)

Autor: Aleixo da Rosa

Edição: Alex Rosset

Jesus no caminho da cruz

Muitas pessoas, fazendo a experiência do sofrimento, na proximidade da morte, tem descoberto o verdadeiro sentido para suas vidas. E foram confirmadas na sua esperança.

A nova conjuntura iluminada pela profecia de Isaías, sobre o Servo Sofredor, trouxe para Jesus a certeza que a manifestação do Reino seria diferente do que ele se imaginava inicialmente. A vitória do Servo Sofredor viria pela resistência, condenação e morte.

Em outras palavras, a cruz aparece no horizonte, não mais como uma possibilidade, mas como uma certeza. Contudo, Jesus não muda sua compreensão do Reino, que já está presente, atuando no mundo de forma dinâmica e progressiva. Nem muda sua relação com o Pai, cada vez mais íntima e profunda. E a compreensão que Jesus tem do Pai, é a do salmista (Sl. 144): Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão.

O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. De fato, ternura e misericórdia de Deus continuarão sem limites na compreensão de Jesus.

Mas, a nova conjuntura e a compreensão que Jesus passa a ter dela, muda a sua vida e a direção de sua missão, em diversos aspectos: Jesus começa a mudar o jeito de anunciar o Reino.

A partir desse momento, as parábolas se referem mais a essa nova realidade. Elas se direcionam mais para o futuro julgamento e para o fim dos tempos, por exemplo, os vinhateiros homicidas e o devedor implacável, etc. A partir desse momento Jesus já não realiza tantos milagres como vinha realizando. Começa a falar constantemente de sua paixão e morte. Deixa de falar mais para o povo e seu ensinamento se destina mais aos seus discípulos.

No caminho para Jerusalém faz um levantamento: “Quem dizem os homens que eu sou”? Depois de ouvir a resposta, Jesus começou a falar da sua paixão e morte na cruz.

Pela reação de Pedro percebe-se que os discípulos estão longe de compreender a proposta de Jesus e até tentam levá-lo por outro caminho, A partir desse momento uma grande crise começa a ser gerada nos discípulos.

No meio da crise, Jesus mostra com clareza o seu caminho e qual deve ser a disposição de quem quer segui-lo.

“Quem quer ser meu discípulo renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me, pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida, por causa de mim, vai encontrá-la”.

A partir desse momento, Jesus insiste muito na vigilância e nas exigências do seguimento, com uma nova compreensão da cruz. Tão bem expressa por São Paulo quando fala aos romanos, dizendo: os judeus pedem sinais, os gregos buscam sabedoria, mas nós anunciamos o poder do mistério da cruz, que para os judeus é escândalo e para os gregos é loucura.

O momento da prisão, da paixão e da morte de Jesus na cruz, é o auge da crise dos discípulos: dormem enquanto Jesus está no horto em profunda agonia e dor; Pedro o nega quando é perguntado pelos soldados se ele o conhecia; Judas negocia a vida de Jesus com as autoridades; quase todos eles estão ausentes na hora de sua morte.

Os discípulos revelam a nítida impressão que estavam decepcionados e pensavam ter perdido quase tudo o que tinham buscado até então. A superação da crise somente irá acontecendo com a ressurreição de Jesus.

A crise dos primeiros discípulos continua sendo vivida por muitos cristãos, hoje, por falta de uma compreensão mais profunda do verdadeiro sentido da vida, pela falta de uma compreensão mais evangélica do sofrimento, da cruz, que carregamos no seguimento de Jesus e da compreensão da própria morte, e porque não dizer, por falta de esperança na ressurreição sobre a qual, hoje, temos provas históricas muito convincentes.

Contudo, muitas pessoas, fazendo a experiência do sofrimento, na proximidade da morte, tem descoberto o verdadeiro sentido para suas vidas. E foram confirmadas na sua esperança.

Quem sofre, portanto, tem uma maravilhosa oportunidade de crescer moral e espiritualmente em sua vida, mesmo com essa experiência profundamente dolorida. É claro, que isso depende da capacidade mística de se abandonar, incondicionalmente, nas mãos de Deus.

Autor: Pe. Euclides Benedetti

Edição: Alex Rosset

Veja também