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Covid-19 e a produção da ignorância

Assim como o conhecimento, a ignorância é uma construção. Ignorância não é simplesmente falta de conhecimento.

O primeiro ano da pandemia covid-19 nos ensinou muitas lições no campo da saúde coletiva. Uma das mais importantes, contudo, talvez tenha recebido menos atenção: a questão da ignorância.

Assim como o conhecimento, a ignorância é uma construção. Ignorância não é simplesmente falta de conhecimento. Pelo contrário, a ignorância tem sido ativamente construída e produzida socialmente dentro de determinados contextos e processos políticos. Compreender a produção da ignorância é essencial para saber como enfrentá-la com conhecimento e informação.

A importância de observar mais criticamente a ignorância tem sido evidente em quase todos os lugares que olhamos neste primeiro ano da covid-19 — especialmente, mas não somente, no Brasil.

“Quando a ignorância desafia a verdade, abrem-se as portas para as mentiras. Quando a ignorância desdenha da ciência, a evolução dá com a cara na porta da insensatez. Quando há portas abertas para a discriminação, a ignorância se esbalda. Quando a ignorância passa pela porta, surge o inconsciente coletivo. Quando a ignorância bate à porta, acaba a inteligência e a civilidade. Então, feche as portas para a ignorância!” (Luiz Carlos Schneider) Leia mais!

É evidente, por exemplo, na falta geral de compreensão dos mecanismos básicos de infecção com SARS-CoV-2. Também está presente na confusão sobre a epidemiologia social da covid-19 — com destaque para as formas que a pandemia afeta comunidades e populações distintas com base em classe, raça e etnia, gênero e outros marcadores de diferença social. É visível na conturbada e traumática polarização ideológica em torno das práticas de prevenção e promoção da saúde e das alternativas e opções de tratamento.

É possível ainda percebê-la nas formas pelas quais esses debates criam cortinas de fumaça artificiais que escondem e mistificam não apenas informações científicas básicas, mas também as relações subjacentes dos sistemas de produção capitalista, relações comerciais e direitos de propriedade intelectual, e estruturas políticas e econômicas que operam para disfarçar iniquidades sociais — que a pandemia poderia, de outra forma, torná-las óbvias. E é quase surpreendentemente vívida na discussão estreita sobre produtos e políticas de vacinas, questões de acesso, e iniquidades globais que fazem com que as afirmações sobre a governança efetiva da saúde global pareçam quase cômicas — se não fossem tão trágicas.

O desafio de enfrentar a extensão e as dimensões da ignorância em relação a esta pandemia torna-se ainda mais difícil porque historicamente o campo da saúde coletiva tem dado pouca atenção à produção da ignorância. Isso é especialmente irônico porque este campo vem enfrentando níveis significativos de ignorância ao longo de sua história.

No entanto, talvez porque as demandas de implementação de programas e enfrentamento de emergências em saúde tenham sido tão grandes, tenhamos feito pouco na busca de compreender os fatores e forças responsáveis pela produção da ignorância.

O tamanho expressivo da ignorância em todos os lugares em relação à covid-19 — junto com as contribuições quase obscenas vindas de políticos, formuladores de políticas e líderes de opinião — nos exige dar um passo atrás e desenvolver uma análise crítica mais cuidadosa dos desafios que enfrentamos nesta era da ignorância — mesmo que pareça que estejamos abrindo uma nova área para investigação sem as ferramentas conceituais e teóricas que poderiam nos ajudar a avançar adequadamente com este projeto.

Felizmente, não temos que começar do zero. Há uma história de investigação sobre a ignorância em outros campos e áreas que são relevantes para observar as formas de ignorância que se apresentam no campo da saúde coletiva.

Creio ser possível destacar três questões-chave, especialmente úteis para entender diferentes dimensões da ignorância que a covid-19 parece ter descoberto — e quero, de fato, argumentar que ela desencadeou e estimulou o que podemos descrever como: (1) a construção social da ignorância; (2) a epistemologia crítica da ignorância; e (3) o uso da ignorância para fins estratégicos.

Forças sociais e políticas e interesses econômicos têm construído ativamente a ignorância de forma altamente complexa — e em contextos sociais e culturais muito específicos demarcando esse modo de construção social da ignorância. Há ainda complexos processos sociais e culturais de exclusão que fundamentam a epidemiologia social da covid-19 e nos estimulam a refletir sobre o papel que a ignorância desempenha na formação da pandemia.

Isso nos ajuda a entender, por exemplo, as razões pelas quais tal ignorância parece ser tão difícil de ser desalojada do que acreditamos ser conhecimento científico “correto” —e ainda porque pedagogias acríticas são destinadas a não oferecer respostas efetivas à pandemia.

E, por fim, há as investigações sobre a ignorância para fins estratégicos que demonstram o uso de afirmações de ignorância para justificar a tomada de posições (de outro modo, questionáveis) por parte de políticos ou gestores e graves falhas feitas nos processos de governança em campos como as políticas econômicas, o desenvolvimento sustentável e mudança climática, e a saúde global.

Tudo isso nos revela alguns dos impedimentos mais fortes relacionados à necessidade de organizar planos concretos e exequíveis para garantir acesso às vacinas contra a covid-19 para a maioria das populações em países mais pobres — além da produção e promoção de medicamentos e tratamentos promovidos irresponsavelmente por lideranças políticas e gestores públicos em diversos países.

Autor: Richard Parker, Diretor-Presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e professor visitante sênior do IESC/UFRJ

Fonte:https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/opiniao/pos-tudo/covid-19-e-a-producao-da-ignorancia

Edição: Alex Rosset

Da doença à desordem!

 Corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos (1Ts 5,14).

Este é parte do título de um livro de autoria da pesquisadora Paula Montero que retrata a leitura da doença a partir de uma religião de matriz africana. Na interpretação da autora, a situação de doença não é apenas um problema físico. Retrata também uma situação de desordem existencial, a ser sanada, da qual a enfermidade física é um sinal visível.

Junto com a cura física faz-se necessário operar a cura existencial, uma tarefa mais complexa que envolve não apenas o aparado dos fármacos. Segundo ela a cura se dá também pela via religiosa que vai harmonizando a vida da pessoa e consequentemente operando a cura. É possível acrescentar um adendo nessa reflexão.

A enfermidade física ou existencial não se refere apenas à pessoa. Diz respeito ao grupo maior, primeiramente a família, àqueles mais próximos, fisicamente e afetivamente. E pode estender-se para a sociedade. Já tem passado um ano que vivemos marcados pela enfermidade. O corona vírus se manifestou e espalhou-se pelo mundo.

Estamos ainda condicionados por uma enfermidade globalizada, que tem atingido, de forma diferenciada, as diferentes regiões do mundo. Por isso, classificação como pandemia.

A forma como cada país se organizou para enfrentar esta enfermidade indica maior ou menor eficácia no combate.

No caso do Brasil enfrentamos a irresponsabilidade e desorganização governamental no enfrentamento, somado à resistência de parte da população em adotar medidas de prevenção e o desrespeito às orientações quanto à segurança sobretudo no que se refere a evitar eventos que gerem aglomerações.

Certamente muitas contaminações, internações e mortes poderiam ser evitadas. A enfermidade gerada pela contaminação da Covid 19 apresenta características especiais que interferem no tratamento dos doentes.

Devido ao alto grau de contaminação recomenda-se o isolamento da pessoa e, quando é internada, fica difícil o contato com familiares pelos riscos que apresenta.

O enfrentamento acontece em muitos momentos sem o contato com os familiares. É ruim para o doente e também para a família. Junto a enfermidade, enfrentamos a realidade de luto e também em um contexto especial.

O isolamento não permite o processo de despedida da pessoa ainda com vida, o que seria muito importante. Também não há velório pela necessidade de cuidado com as possíveis contaminações. Costuma-se dizer da necessidade de ritualizar as passagens da vida. E a passagem da morte também precisa de rito: último olhar, lágrimas, despedida, prece, consolo mútuo. Infelizmente não acontece.

Vivemos um contexto de enfermidade e luto. Estas situações fazem parte da trajetória humana. Todavia agora acontecem com grande rapidez e impacto em nossas vidas.

Repentinamente, as pessoas adoecem e partem ficando um grande vazio. A desordem acontece também na economia das famílias. O desemprego chegou a muitos lares. Os pequenos empregadores não têm fôlego para ficarem tantos dias fechados. Alguns estão sucumbindo.

O despreparo e omissão do governo em organizar um amparo para os setores mais fragilizados têm gerado muita insegurança para os pequenos empreendedores.

O horizonte não parece muito promissor. Tal situação de desordem pode ser combatida primeiramente pela responsabilidade em contribuir com as iniciativas que podem frear o ritmo das contaminações.

Enquanto cidadãos temos responsabilidades também. Não basta cobrar dos governos se não fizermos a nossa parte.

Em segundo lugar, a atitude de cuidar dos que estão caindo à beira do caminho, como fez o samaritano. Ele não hesitou em adiar a viagem, aproximar-se e cuidar da pessoa com a vida ameaçada (Lc 10, 34ss).

Podemos fazer o que é possível. Aquela explosão de solidariedade do início da pandemia precisa continuar com ações organizadas, porque para muitos a realidade difícil ainda persiste e começa a faltar o básico para a sobrevivência. Lembremos o pedido de Jesus aos discípulos diante da multidão com fome: Dai-lhes vos mesmo de comer (Lc 9,13)

O terceiro compromisso diz respeito ao consolo. A insegurança, a enfermidade e o luto têm trazido muito sofrimento para as pessoas. Muitos estão precisando de consolo, de um apoio.

Cabe assumir esta iniciativa junto aos que estão mais marcados pelas perdas. Lembremos do que pede Paulo à comunidade dos Tessalonicenses: corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos (1Ts 5,14).

 Em tempos de desordem existencial e insegurança, próprios dessa pandemia, cabe assumir o compromisso curativo e de consolo. Este está ao nosso alcance.

Como sairemos desta pandemia? Médico Arnaldo Porto responde: “gostaria que saíssemos melhores, mas temo que não aprendamos muito. Que no futuro próximo esqueçamos tudo o que estamos vivendo hoje. O exemplo das ruas cheias, logo após a abertura do comércio nas cidades, comprova que, talvez, não aprendamos a conviver de um jeito novo, aproveitando os aprendizados que estamos tendo com a pandemia. Leia mais:!

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis

Edição: Alex Rosset

A humanidade se acostumou com a morte?

Não podemos ficar indiferentes diante da morte produzida pelo coronário de vírus, bactérias, fome, desigualdades e injustiças. 

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) disse que Deus morreu. Não pode ser verdade, em hipótese alguma. Independente do nome que se lhe atribua, Ele está vivo. Muito vivo e presente. Assim creio. – Você tem provas disso, indagou o matemático? – Sim, respondi. – Quais? – Todas aquelas que não podem ser refutadas pela fé e mais todas as que se pode associar pela razão. Então, o antropólogo emendou: – Sim, Ele está presente para vigiar e punir.

Essa pandemia é a prova concreta do castigo de Deus sobre a humanidade por causa do pecado. Bem, aí o assunto fica bastante delicado: Será Deus um “vigilante castigador”? Se não o for, por que permite as tragédias, as pandemias e a morte?

Não pretendo refletir aqui sobre as questões acima. Elas são muito complexas e esse texto é muito breve. Ademais, é extremamente difícil tentar explicar a existência, a essência e a atuação de Deus com nossas categorias humanas e científicas.

De minha parte, creio que, em essência, Deus é uma profusão de amor; uma fusão de misericórdia com justiça; um misto de cuidado com liberdade. E nisso reside o mistério diante do qual uns duvidam, outros ignoram; uns se amedrontam e outros o buscam e a Ele se entregam.

Se misteriosa é a existência e presença de Deus entre nós, igualmente o é a origem, a consistência, a duração, o trépido fim ou a continuidade da nossa vida. E com a morte em eminência, atacando toda a humanidade de muitos modos e há um bom tempo também de forma persistente, aguda, grave, global e insólita por meio no “novo” (já nem tanto) coronavírus, tais questões emergem ainda mais retumbantes em nós.

Neste cenário de morte por atacado, estará a humanidade se acostumando com ela? A pergunta parece mal formulada. Como pode alguém se acostumar ou ficar tranquilo diante da morte, da sua e da dos demais?

Depois de um ano de incômoda (trágica, para um grande número de pessoas) convivência com o Covid-19, entre muitos a solidariedade se fortaleceu, o cuidado consigo e com os outros se ampliou; a dedicação e a abnegação de inúmeros profissionais na linha de frente foi e está sendo algo emocionante. Esse é um lado da história, que precisa sempre ser ressaltado e aplaudido.

Entretanto, há outro lado que é o da banalização da doença, do sofrimento humano e da morte. É o lado na negação da importância, do empenho e dos alcances da ciência. Soma-se a isso, o fundamentalismo político, religioso, étnico e de gênero, que produz a cegueira, o fanatismo e, no limite, o patrocínio da barbárie e da morte.

As bandeiras sobem e descem. Depois voltam a subir no campeonato brasileiro (e mundial) da morte. Elas têm cores convencionadas por gravidade de perigo que vão do amarelo ao preto.

Neste triste campeonato em que a bandeira preta está hasteada em muitos lugares, precisamos garantir a vitória da vida e da saúde, o que é possível com os cuidados redobrados e vacina para todos, urgentemente! Mas, é indispensável também vencer os negacionismos, o individualismo pessoal e familiar, a cultura do ódio, as guerras mudas sobre assuntos essenciais.

Não podemos ficar indiferentes diante da morte produzida pelo coronário de vírus, bactérias, fome, desigualdades e injustiças. Dar ouvidos a quem grita, estender a mão a quem precisa, superar preconceitos e discriminações, aprender com o sofrimento próprio e alheio, cultivar o diálogo com todos, produzir unidade na diversidade sempre é tempo. E agora é mais necessário do que nunca!

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alex Rosset

Três pandemias virtuais e uma real

Um poderoso e pequeno vírus mostrou que há algo muito mais poderoso e amedrontador a se enfrentar: a luta pela vida saudável, tão medonho como as injustiças sociais e as guerras convencionais.

O empregado não saiu pro seu trabalho
pois sabia que o patrão também não tava lá.
Dona de casa não saiu pra comprar pão
pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
pois sabia que o ladrão, também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
pois sabia que não ia ter onde gastar
. (Raul Seixas)

Nesse tempo de recolhimento compulsório da maioria da população mundial devido à pandemia do novo Coronavírus Covid-19, consolo-me, pois até o momento, ainda não tinha presenciado grandes tragédias que resultaram na morte de milhões de pessoas, como aconteceu nas I e II Guerras Mundiais, por exemplo. Pois é chegado o tempo.

Milhares de pessoas em todo o mundo estão perdendo a vida, levando-as a desejar ardentemente uma vacina salvadora. E o pior é que, por enquanto, ainda não há vacinas suficientes para contê-la o mais cedo possível, bem como ninguém sabe ao certo o que virá pela frente sendo que, no Brasil, já há quase 400 mil vítimas fatais (e sem previsão de número de vítimas até o final da pandemia) e outros tantos sequelados.

Pergunta-se então quais serão as consequências futuras da pandemia da Covid-19 no âmbito da saúde pública, da economia e principalmente no comportamento social?   

Os leitores podem não acreditar, mas como professor de Literatura, tive o privilégio de ler e viver três pandemias, isto é, sentir como três obras ficcionais abordaram as pestes em tempos passados, as quais também vitimaram milhões de pessoas.

A primeira, Decamerão, escrita pelo poeta italiano Boccaccio, em 1350. A segunda, A Peste, de Albert Camus, escrita em 1947; a terceira, o romance Ensaio sobre a Cegueira, escrita em 1995 pelo romancista português José Saramago.

Nas três experiências de leitura pude confirmar a tese de Heráclito de Éfeso de que “a guerra é a mãe de todas as coisas”, pois contém, pelo menos, a duplicidade, isto é, a vida e a morte, a doença e a saúde, o bem e o mal, o trágico e o heroico, o vírus e a ciência, o medo e a coragem, dentre outras antíteses.

Atualmente, em tempos da pandemia Covid-19, estamos em plena guerra, pois a letalidade poderá chegar a centenas de milhares de vítimas. Soma-se a isso o desemprego, a fome, o isolamento social, os hospitais superlotados, as aflições e as doenças de ordem psicológica, dentre outros efeitos maléficos que virão num futuro bem próximo.

Se na guerra convencional a espera é pela paz, na pandemia do Coronavírus a espera é pelas vacinas salvíficas, que já se constituem outra guerra de ordem política e econômica.   

Nessa busca, há muitos laboratórios na corrida para proteger os humanos contra um vírus tão pequeno, mas tão letal. Isso é a pandemia real. Resta saber quando terminarão as outras guerras pela posse, autoria e distribuição das vacinas.    

No que se refere às pandemias ficcionais, digo literárias, a obra Decamerão, de Boccaccio, redigido por volta de 1350, inaugura a prosa de ficção ocidental, sendo a pioneiro a reunir múltiplos contos para tecer uma estrutura complexa na forma de romance e novela. Nesse sentido, funda a tradição romanesca que se estende até os dias atuais e estabelece um modelo para o que viria a ser o conto ficcional e, mais tarde, a novela e o romance.

A obra junta cem narrativas contadas por sete damas e três cavalheiros que, para fugir da peste negra, que afligia os habitantes da cidade italiana de Florença, recolhem-se para passar o tempo e celebrar a vida, narrando histórias uns aos outros para ganhar tempo e para fugir do isolamento social. A história parece se repetir com diferenças, sendo que, naquele tempo, a era industrial ainda estava longe da modernidade atual, predominando o mercantilismo. 

Por seu lado, em tempo de Coronavírus – Covid 19, exatamente na segunda década do Século XXI, mais precisamente entre os 2019 e 2020, explode a pandemia na China, espalhando-se à Itália, Espanha, Inglaterra, EUA, Portugal, Brasil, dentre outros países. O fato é que na Itália, novamente na Lombardia, cuja capital é Milão, cidade industrial, que, há pouco, a doença vitimou milhares, pois seu prefeito menosprezou a expansão da doença para ter o agrado dos empresários. Porém, a doença matou milhares de pessoas. Vê-se claramente o desdobramento da história com suas semelhanças e diferenças. 

A obra ficcional A Peste, de Albert Camus, foi publicada em 1947, um pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial.

O romance conta a história da chegada de uma epidemia na cidade argelina de Orã. A personagem principal é o médico Rieux, que combate a doença até o momento em que ela se dissipa ceifando a vida de muita gente.

O narrador descreve como a população reage, indo da apatia à ação, bem como alguns profissionais se expõem na linha de frente para enfrentar e eliminar a peste. Denuncia também que há oportunistas e aproveitadores, como um personagem que lucra com um mercado paralelo de produtos. Num primeiro momento, as autoridades insistem em esconder a doença, fato que Camus veria de forma crítica, no sentido de sempre nomear as coisas ao público. Por fim, há na obra o cuidado de se mostrar as coisas como elas são de fato. O livro fala que existem problemas de abstração, como a desinformação e a abstração, as quais geram histeria e comportamentos levianos ou xenofóbicos, como temos visto no Brasil.

 Em A Peste, o número de mortes é anunciado diariamente numa rádio. Por outro lado, o narrador descreve algumas das mortes, o que faz os leitores senti-las de uma forma mais direta. Por coincidência, o que se verifica na imprensa brasileira é a divulgação do número de óbitos diários, que é informado diariamente pelos consórcios de televisão, rádios, jornais na forma de gráficos e bandeiras coloridas: branca, preta, azul, laranja e vermelha.   

Por seu turno, o romance Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995 pelo escritor português José Saramago, narra a história da epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e vai acometendo um por um de seus habitantes, trazendo o caos e abalando as estruturas de uma sociedade civilizada. É um romance que não apela pelo engraçado e nem ao religioso, tanto que não há nele espaço à comicidade e à piedade. É uma obra que, mesmo sendo uma ficção, é bem detalhista e realista.

Contrastando com a cegueira preta, a cegueira branca é de natureza metafórica, pois ironiza a cegueira moderna, a qual não vê o óbvio, isto é, as injustiças, a fome, a corrupção, a falta de ética, a violência contra as mulheres, negros, índios e contra diferentes gêneros. O texto não questiona Deus, nem os governos, mas questiona o sistema de vida que rege as pessoas no cotidiano moderno e urbano que, feitas semáforos, sinalizam quando avançar ou parar, e que, por isso, confina as pessoas nos manicômios dos afetados pela falta de visão daquela visão, isto é, pela cegueira branca.  A obra também foi transposta para o cinema e o autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Parece que Saramago, alinhando-se aos antecessores Boccaccio e Camus, profetiza a Pandemia do Covid-19 para esse início do Terceiro Milênio.Como “a guerra é a mãe de todas as coisas”, a pandemia do Covid-19, está deixando suas indeléveis marcas tanto de caráter positivo, quanto negativo.

De negativo são, até o momento, as mais de 02 milhões de óbitos no mundo e as quase 250 mil no Brasil; a fome e o desemprego; o isolamento social; a corrução na compra e distribuição das verbas ao combate do Coronavírus; a suspensão das atividades escolares, religiosas, culturais, esportivas e recreativas; as patologias de ordem física e psicológica, dentre outras, que deixarão cicatrizes por décadas.

Por seu turno, a pós-pandemia Covid-19, trará benefícios capazes de qualificar os padrões de higiene, a convivência, a solidariedade e a ética, sem contar com os benefícios de ordem virtual e de enriquecimento linguístico. Mudarão o sistema de moeda corrente, o controle de doenças endêmicas, o sistema de ensino, educação, transporte, saúde, esportes, o emprego, a economia e a segurança.

Durante a Pandemia, por exemplo, já foram incorporadas à Língua Portuguesa inúmeros vocábulos, os quais se tornarão estrangeirismos em pouco tempo, tanto que os brasileiros comuns já sabem o que significam os termos ingleses lockdown, lives, delivery, home office, home school, loungs, drive thru, upgrade, hand over, hand in, e assim por diante.  Quem sobrevir ao Covid-19 logo verá!

Enfim, a guerra contra a Covid-19, ou Coronavírus, traz em seu bojo, elementos positivos e negativos que, quer queira, quer não, profetizam que a humanidade deverá dar uma guinada extraordinária a partir desse início do Terceiro Milênio.

Um poderoso e pequeno vírus mostrou que há algo muito mais poderoso e amedrontador a se enfrentar: a luta pela vida saudável. Este vírus é tão medonho como as injustiças sociais e as guerras convencionais.

Ah, se pudéssemos escolher as vacinas contra a Covid-19! Que tal Sinovac? AstraZeneca?  Coronavac?  Pfizer-BioNTech?  Oxford?  Sputinik 5?

Uni, Duni, Tê…

Esta é uma edição revisada de publicação originalmente publicada em 01/08/2020. Link da versão inicial.

Autor: Eládio Weschenfelder     

Edição: Alex Rosset  

Educação e atuação social de professores e professoras

Nelso dos Santos mora e atua no município de Nonoai, interior do RS. Nelso tem uma trajetória que conjuga atuação profissional como professor em sala de aula e atuação social, a partir de lutas sindicais e partidárias, buscando melhorias sociais para a comunidade.

De fala mansa, Nelso dos Santos transpõe seus conhecimentos para a sabedoria, que adquiriu depois de muitas experiências coletivas e muita disposição pelo trabalho social. Sereno, mas firme e convicto em seus ideais, é uma referência para muitos e muitas de seus pares, professores e professoras que, no Estado do RS, vivem tempos difíceis por falta de reconhecimento e valorização profissional.

Entrevistar professor Nelso é reafirmar os compromissos que a educação exerce junto às comunidades de nosso estado. Nelso representa uma geração de professores e professoras que souberam interpretar a importância da educação como ferramenta de transformação social.SITE NEIPIES: Como, quando e porquê decidiu empreender sua vida como professor? Quais foram suas motivações?

NELSO DOS SANTOS: No início, tudo parecia muito caótico e confuso. Recém havia concluído o 2º Grau na CNEC, em NonoaI, e não tinha clareza do rumo a seguir.

Sou o mais jovem de cinco irmãos de uma família de pequenos agricultores. Desde muito cedo meus pais me incentivaram a estudar. Embora também trabalhasse na terra e compreendesse bem a importância e o sacrifício do pequeno agricultor, dividir uma colônia de terra em três irmãos não me parecia razoável.

Em meados de 1982 recebi o convite para substituir dois professores em duas escolas isoladas no interior do então distrito de Rio dos Índios. Uma delas, multisseriada, anos iniciais, e a outra, na comunidade onde eu morava com ensino fundamental incompleto, hoje desativada. Nesta última, trabalhei com as disciplinas de Língua Portuguesa, Educação Artística, Educação Física e Ensino Religioso para 5ª e 6ª séries onde também fui diretor, posteriormente. Lembro que as condições de trabalho, material didático e a estrutura física destas escolas eram precárias.

A gente precisava improvisar em quase tudo. Nesta época, Rio dos Índios contava com trinta escolas – muitas brizoletas – e só havia ensino fundamental completo na sede distrital – Escola Estadual Romano Padoan.

Eu tinha pouco mais de dezoito anos e liderava o grupo de jovens da PJ na minha comunidade – Bom Retiro – o JUCC. A PJ era muito bem estruturada e em cada comunidade, à época, havia um bom grupo de jovens.

Contávamos com o apoio e a assessoria dos Irmãos Maristas que por muitos anos trabalharam em Nonoai. Queria muito prestar vestibular, mas só fui receber meu primeiro salário como professor, alguns meses depois de iniciado o trabalho. Ainda naquele ano (1982) houve eleição municipal e a primeira para governador já no final da Ditadura Militar. Como eu era apenas contratado e por não admitir cerceamento de opinião política, fui demitido junto com outros professores. Porém, em função da mobilização e do vínculo construído junto àquela comunidade fui recontratado no início do ano seguinte.

Foi aí então que comecei a entender melhor o meu papel, a importância do professor e da educação numa comunidade interiorana, onde viviam mais de cento e cinquenta famílias. No nosso pequeno grupo de professores, todos jovens, tínhamos sonhos e histórias em comum.

Em poucos anos, com o apoio dos pais e estudantes, aquela escola havia sido transformada. Em 1984, finalmente, pude começar minha primeira graduação em Chapecó-SC, onde também militei no movimento estudantil. Aqui já não tinha mais dúvidas de que este era o caminho: a educação como profissão e compromisso com a vida. Permaneci por dez anos consecutivos na rede municipal exercendo diferentes funções até 1992, quando em definitivo, assumi a rede pública estadual permanecendo até hoje.

SITE NEIPIES: A política, como busca do bem comum, sempre cruzou a sua vida. Como conciliastes a profissão docente com a política? Qual é a importância de professores e professoras politizados?

NELSO DOS SANTOS: A política, na verdade, veio como consequência dos compromissos que fui assumindo ao longo da militância social ainda na juventude. Em 1986 fomos encorajados a participar do debate sobre o processo constituinte em nossa Diocese e isso nos permitiu atuar depois em outras frentes, espaços de lutas e participação além da PJ: oposição sindical STR e a luta pela terra, sendo que Nonoai tem uma grande história relacionada à origem do MST no RS, assim como a própria fundação do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais em 1990.

A luta sindical, nesse período, foi marcada por grandes mobilizações que visavam a garantia de direitos que ainda eram negados aos trabalhadores do serviço público municipal. Foi a partir desse engajamento social que inicia a minha participação no campo da política partidária.

Em 1996, fui eleito vereador pelo Partido dos Trabalhadores-PT.

Desde muito cedo, portanto, compreendi que precisamos ter posição e lado na história. Não existe neutralidade. Assumir um posicionamento tem custo e risco, mas é imprescindível.  É na política que as grandes decisões são tomadas em todos os níveis de governança. Posso ser apático à política, não participar, ficar indiferente a tudo, mas não me livrarei jamais das suas consequências. Pois ela impacta decisiva e diretamente as nossas vidas.

Vivíamos um momento de ascensão, de fortes mobilizações regionais e aquilo tudo contribuiu significativamente com a vitória de um projeto de governo democrático e popular no Rio Grande do Sul em 1988 e, mais tarde, à Presidência da República em 2002. Com o grupo de apoio que construímos, conseguíamos conciliar nosso trabalho no magistério e a atividade parlamentar. Em 2005 optei pela licença do magistério para exercer o mandato de vice-prefeito até 2008.

Atualmente, concilio o mandato de vereador com o trabalho administrativo na escola. Entendo que a interação, a liberdade de organização e expressão em todos os espaços é fundamental. Mas ela requer muita responsabilidade, coerência, exemplo e disciplina, sobretudo. Não dá pra levar de qualquer jeito.

É preciso, paciência, prudência, fazer o bom debate, sem perder o foco e ter presente que o mandato é passageiro, que vivemos do nosso trabalho e não da política. Terminado o mandato, a vida profissional segue. Daí a importância da nossa profissão. O mandato precisa estar a serviço da comunidade, não o contrário.

SITE NEIPIES: Conte-nos como é hoje ser vereador e professor, servindo sua comunidade de Nonoai?

NELSO DOS SANTOS: É uma bela oportunidade, um espaço conquistado coletivamente onde é possível dar visibilidade às angústias, aos apelos e as demandas dos mais variados segmentos sociais.

Embora tenha sido eleito dialogando mais diretamente com as questões sociais, educação e agroecologia, a função e o papel do vereador é muito ampla. Você se depara na Câmara com uma série de rituais, burocracia, demandas acumuladas, contradições, reinvindicações antigas não ou mal resolvidas, leis que não são cumpridas, sem nexo, e no dia a dia sempre vão surgindo novas demandas. Cabe ao vereador, portanto, cobrar, propor, representar, fiscalizar e denunciar, quando necessário, e é nessa perspectiva que atuamos.

O fato de ser professor permite e contribui, no campo político, para a construção de um olhar atento e sensível sobre as diferentes interfaces que permeiam a vida em sociedade.

SITE NEIPIES: Que boas lembranças o senhor carrega do período em que exerceu a função de Coordenador Pedagógico na Coordenadoria Regional de Educação de Passo Fundo? Que políticas educacionais marcaram o RS naquela época?

NELSO DOS SANTOS: O período ali vivenciado, de fato, foi muito valioso e um grande desafio. Recentemente havia concluído o mandato de vice-prefeito que me permitiu coordenar em nível local a implementação de uma série de programas e políticas na área educacional e agricultura familiar. Todavia, conhecer e trabalhar com colegas, equipes diretivas e lideranças de 120 escolas distribuídas entre os trinta munícipios que integram a 7ª CRE foi algo extraordinário.

A complexidade das tarefas e a infinidade de programas e demandas cotidianas a responder, se apresentam como uma importante lacuna a ser superada. Todavia, aos poucos, fomos conquistando confiança, construindo novas relações de amizade e respeito que até hoje me orgulham muito.

Foi um tempo de intensa mobilização pela reestruturação curricular do ensino médio e pelos processos de formação que realizamos em grupos de escola em todas as regiões. Os conflitos afloravam em acalorados debates, mas não fugíamos deles. Estudávamos muito e esperança não faltava. Tínhamos um projeto e perspectivas de futuro com os processos formativos, com a valorização da carreira, do concurso, das promoções e da modernização das nossas escolas.

Lembro-me do Mais Educação, do Proemi, Pronatec, do Pacto pelo Ensino Médio entre outros programas federais que ajudamos a desenvolver neste período, marcas profundas que permanecem vivas em nossas escolas. Mesmo com todas as limitações e contradições, as políticas e programas desenvolvidas naquele momento fizeram toda a diferença em nossas vidas profissionais, escolas e comunidades. Lamentavelmente, não tiveram continuidade no período seguinte.

Tão significativa e marcante foi à questão curricular do ensino médio no Rio Grande do Sul entre 2011 a 2014 que nos motivamos a resgatá-la como tema da dissertação de mestrado concluída e aprovada pela UFFS – Chapecó/SC em 2017: “Implementação do Ensino Médio Politécnico no Rio Grande do Sul: concepções, desenvolvimento e Gestão.” Guardo boas lembranças deste período e quiçá, possamos, em breve, retomar as nossas mobilizações e acender outra vez a centelha da esperança que mantínhamos viva naquele momento.

SITE NEIPIES: A educação está passando por profundas mudanças, através da Nova BNCC e da reforma do Novo Ensino Médio. Como o senhor vê estas mudanças?

NELSO DOS SANTOS: Sempre me questionei porque alguns têm uma educação integral, de qualidade social, que trabalha e aprofunda o tempo todo o que de melhor nossa civilização acumulou e construiu ao longo da história em termos de conhecimentos gerais à luz da ciência, da cultura, do mundo do trabalho e das diferentes tecnologias. Enquanto a absoluta maioria dos nossos jovens precisam conciliar seus estudos com a questão do trabalho na perspectiva primeira da sua própria sobrevivência.

A “simples” ampliação e permanência do jovem no ensino médio na rede pública de ensino do RS a partir de 2012, como sabemos, de 800 para 1000 horas foi e tem sido uma equação bem difícil.

Mais do que inovar o currículo, é preciso, de fato, torná-lo, atraente, dinâmico sob todos os aspectos, que possibilite de fato aprendizagens significativas para os jovens, que amplie seus horizontes, que sinalize para um projeto de vida em sociedade, onde ele seja protagonista das suas escolhas.

Contudo, precisamos pensar nas condições reais, nos meios para que possamos, na prática, tornar tudo isso uma realidade possível no chão da escola. A experiência de EMTI feita pela Escola Maria Dulcina em 2019, como escola indicada pela 7ª CRE, ficou aquém das expectativas, pois a promessa de suporte técnico, pedagógico e estrutural, praticamente em nada se materializou, em que pese não tenha faltado recursos para a alimentação dos estudantes.

Precisaremos rever ainda uma série de questões que passam pelo espaço físico, pela formação dos professores, funcionários, recursos para manutenção, material didático e novas tecnologias, recuperação dos salários e valorização da carreira, pela questão de direitos que nos foram subtraídos recentemente, entre outras. Sem dúvidas, a nova tarefa será desafiadora.

Embora as condições socioeconômicas e a brutal desigualdade que vivenciamos hoje sejam o principal entrave para a permanência dos nossos jovens da escola, isso não pode ser motivo para desistirmos do sonho e do projeto de construirmos uma escola pública boa e uma educação de qualidade social que inclua a todos (as) e faça a diferença na vida dos nossos jovens e adolescentes.

SITE NEIPIES: A BNCC propõe a flexibilização curricular e o protagonismo juvenil como estratégias para atrair e vincular os jovens com a escola para o término do Ensino Médio, a partir de 2022. O que a comunidade Escolar Maria Dulcina, uma das maiores escolas da região próxima de Passo Fundo, espera das mudanças que vem sendo anunciadas?

NELSO DOS SANTOS: Desde 1989, a Escola Maria Dulcina oferta ensino médio nos três turnos além da EJA a partir de 2003. Para milhares de jovens esta escola tem sido à porta de entrada e de acesso a uma oportunidade no mundo da vida e do trabalho. Possui uma estrutura invejável sob todos os aspectos construída ao longo das últimas décadas mantendo cerca de 1000 estudantes matriculados atualmente.

 A construção da EJA e a implementação do Ensino Médio Politécnico foram experiências marcantes para a escola que, articuladas com programas nacionais como o Proemi, Mais educação e o Pacto pelo Ensino Médio, dinamizaram e potencializaram o currículo escolar, tornando-se referências de bons exemplos que deram certo e fizeram a diferença na vida de tantos estudantes e professores.

Conhecendo o grupo de professores, o acúmulo de experiências nos seus 91 anos de história, somados ao compromisso e participação da comunidade no cotidiano da escolar, acredito que se houver suporte técnico, financeiro e pedagógico, além de respeito e valorização dos profissionais, as mudanças anunciadas podem sim fazer a diferença no atual contexto de crises e incertezas.

Todavia, um dos grandes problemas que enfrentamos em nível de estado e de país, é que a maioria dos programas sociais e/ou educacionais não tem continuidade com a alternância de governo, especialmente no Rio Grande do Sul que até então nunca reelegeu governador desde a primeira eleição pós-período ditatorial.

SITE NEIPIES: Uma das ações recentes do governo Estadual do RS é fechamento de turmas EJA (Educação de Jovens e Adultos). Como esta ação está afetando Nonoai e as cidades próximas?

NELSO DOS SANTOS: A Educação de Jovens e Adultos – EJA está presente na Escola Maria Dulcina desde 2003. Foi ainda no contexto da Constituinte Escolar, à época no Governo Olívio Dutra (1999/2002) que construímos esta modalidade de ensino na escola começando pelos anos iniciais e depois consolidamos a proposta até o Ensino Médio.

Nestes dezoito anos mais de oitocentos jovens e adultos da cidade, interior de Nonoai, comunidade indígena e munícipios vizinhos puderam concluir o ensino médio através da EJA/Emadu. 

O nosso município oferece matrícula no ensino fundamental e a Escola Maria Dulcina no Ensino Médio. São mais de quarenta estudantes matriculados na T8 e T9 em 2021, sendo que outros 28 jovens aguardam autorização de abertura da T7 para efetivar matrícula e iniciar seus estudos. A demanda continua grande, mas a escola dispõe de estrutura física e humana para atendê-la. Aguarda apenas a autorização para as novas matrículas.

Nonoai tem recebido nos últimos meses dezenas de migrantes que procuram trabalho nos frigoríficos na região e, também por isso, se justifica a continuidade desta modalidade de ensino.

 Por isso, enquanto vereador, também tenho cobrado dos órgãos oficiais e competentes ações efetivas no sentido de impedir que a EJA seja extinta até o final deste ano letivo na escola, bem como em toda a rede pública de ensino do RS. Isso representaria um enorme prejuízo e um grande retrocesso à comunidade escolar.

Trata-se de uma ação política nefasta do Governo Leite (PSDB) que tem a ver com a lógica perversa do Estado Mínimo, onde as questões sociais e a educação em particular, tem sido relegada em segundo plano. Cortar, enxugar, privatizar, municipalizar e extinguir, tem sido verbos prioritários que este governo sabe conjugar e articular em favor do Mercado, a quem serve e representa com maestria.

SITE NEIPIES: Os professores e professoras do magistério estadual vivem dias difíceis no que tange à valorização profissional e financeira e ao reconhecimento do trabalho docente. Com a pandemia, o trabalho dos professores ficou mais difícil ainda, quando estes, a partir de suas casas, garantem o estudo remoto durante a pandemia. Como o senhor percebe os professores e professoras diante deste contexto?

NELSO DOS SANTOS: Há seis anos consecutivos, lamentavelmente, nos encontramos com salários congelados. O custo da cesta básica vem aumentando constantemente também nas pequenas cidades, e o cenário com que nos deparamos enquanto categoria, a partir do início da pandemia, sobretudo, é muito preocupante. É desolador em muitos aspectos, pra dizer como.

Olhando a partir do setor administrativo da escola onde atuo, sinto também a angústia dos colegas professores que precisaram no curto prazo se reinventar, se reorganizar para enfrentar os novos tempos e desafios da profissão em plena pandemia.

Foi preciso conciliar a luta cotidiana em defesa da saúde, da vida, da sobrevivência, e focar no atendimento aos estudantes de forma remota como continua sendo feito em 2021. Mesmo diante de tanto esforço, não faltaram, ao longo de 2020, crítica ao funcionalismo em geral, no sentido de desqualificar e por em xeque o trabalho desenvolvido.

Não há dúvida de que além da pressão, da angústia, aumentou também, neste período, a demanda de trabalho dos professores e equipes diretivas que a partir da escola, de forma presencial, continuam garantindo suporte aos pais e alunos, face à todas as fragilidades decorrentes do contexto atual.

O cansaço é visível. Muitos adoeceram e outros, inclusive, perderam familiares para a Covid19. Embora acredite que nada substitui a presença e a interação direta professor/aluno em sala de aula, creio sim, que a coragem, o desejo de acertar e a capacidade de resiliência em tempos de incerteza e dor, podem potencializar a construção de novos e múltiplos saberes.

SITE NEIPIES: Qual é, hoje o papel e a função de um Sindicato como o CPERS na representação e na luta dos professores/as pela manutenção de direitos?

NELSO DOS SANTOS: Um sindicato como uma entidade de classe ou uma ferramenta a serviço de uma determinada categoria profissional, para defendê-la de forma mais eficiente, precisa em primeira mão estar sempre “afiado”, como nos ensinava o saudoso amigo e Dep. Federal Adão Preto-PT/RS. A ferrugem impede que a ferramenta corte e o roçado renda.

Partindo desta pequena metáfora, acredito que renovação sindical no CPERS está mais que na hora de acontecer. A oxigenação é necessária, e apesar do momento difícil de pandemia, haveremos de mobilizar um grande número de colegas em torno do processo eleitoral que se avizinha.

Além da luta em defesa da urgente reposição salarial, da luta para impedir ainda mais retrocessos às nossas categorias (magistério e servidores de escola), acredito que outra tarefa urgente e necessária para o próximo período seja mobilizar e investir mais na formação sindical, na organização de base a partir das escolas, ampliando o número de associados e construindo novas lideranças.

Precisamos, acima de tudo, defender com clareza a necessidade e a importância de construirmos um novo projeto de educação e de humanidade, inclusivo e transformador. Por fim, acredito que uma direção, por mais segura que esteja, por prudência, não poderia e não poderá tomar decisões extremamente difíceis e comprometedoras sem ouvir as bases da categoria, mesmo que o processo possa ser mais penoso e demorado.

SITE NEIPIES: Na sua visão e na sua sabedoria, o que estamos aprendendo, como sociedade, a partir da pandemia?

NELSO DOS SANTOS: Primeiro, estamos confirmando que a história de fato se repete. A civilização ocidental, sobretudo, de onde temos mais conhecimento, já viveu em diferentes momentos situações semelhantes. A peste negra e a gripe espanhola são dois exemplos para serem reestudados.

Em que contextos estas pandemias ocorreram? Que consequências trouxeram para a humanidade? Que mudanças culturais, políticas e econômicas provocaram? E assim poderíamos já escrever para as futuras gerações como enfrentamos a pandemia do Novo Coronavírus: as contradições do nosso tempo, as questões ideológicas em disputa, o negacionismo científico.

É nessa direção que Boaventura de Souza Santos nos ensina: “estamos impondo a vida humana à Terra. “O vírus nos diz: ‘se os humanos continuarem a destruir o planeta da forma como estão destruindo, não é [apenas] esta pandemia, são muitas outras que virão.”  Em outra análise, afirma se tratar de uma reação do planeta frente às ações violentas e egoístas, pautadas pela lógica do consumo desenfreado, ambição e ignorância.

O momento atual é oportuno para a reflexão, para conhecer a nós mesmos, nossas potências e fragilidades. Precisamos aprender a valorizar e defender as nossas conquistas no campo das políticas públicas hoje consolidadas a exemplo do SUS, a valorizar o poder da ação consciente e coletiva em favor da vida.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que leram até aqui.

NELSO DOS SANTOS:Mesmo diante da tragédia humana, como nos ensina Mia Couto, “é preciso falar de esperança todos os dias só para que ninguém esqueça que ela existe.” Externo aqui minha solidariedade às famílias de tantas vítimas.

Basta de negacionismo! Não podemos permitir que a dor do outro, o sofrimento e a morte sejam banalizados e naturalizados entre nós. Este genocídio precisa ter fim. O SUS é nosso, a ciência e as nossas instituições de pesquisa, bem como os profissionais da saúde precisam ser respeitados e valorizados. Vacina para todos e auxílio emergencial decente para socorrer que mais precisa. A vida acima de tudo! Abraço à todos! (Nelso dos Santos, Professor e Vereador (PT), Mestre em Educação – UFFS/Chapecó.)

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

A filosofia e a literatura criando florestas de sabedoria

A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação.

Saudações, ó senhora Natureza! Tu que és beleza e mistério, sorriso aos nossos olhos, espanto ao nosso ente. Invocamos as ninfas, estas mulheres que embelezam os campos, para abraçar o homem moderno à sua sapiência. 

Saint-Exupéry passando por Natal se espantou diante de uma árvore de tamanho gigantesco: o baobá.

Dizem que Saint-Exupéry se inspirou no nosso baobá para ilustrá-lo no seu livro: O Pequeno Príncipe. Mas o nosso baobá, não é mais nosso. É propriedade privada, e alguém tinha que comprar o baobá para que ele recebesse os cuidados de uma criança. Esse menino que apareceu no deserto querendo o desenho de um carneiro para salvar a sua rosa, sua única amiga em todo o Universo. Eis que alguns poucos homens, ainda, tomam a natureza como amiga. Bom seria que fôssemos todos príncipes e princesas como nos contos de fadas. 

Há crianças que brincam no meio da floresta, de tomar banho de rio, de contar as estrelas, de ver São Jorge na lua, de querer passar embaixo do arco-íris. Ah! Essa vida cheia de brincadeiras, de sorrisos, de comer as goiabas do vizinho e sujar a camisa com nódoa de caju.

Assim são os homens, cheios de mimos, de espanto, de curiosidade. Homens que investigam a natureza à procura de respostas às suas indagações. Afinal, já perguntava Sócrates: “Quem sou eu?” Esta pergunta nos leva a indagar sobre o futuro da humanidade e quem seremos nós daqui a alguns anos com esse crescimento desenfreado.

Ah! As gaivotas azuis estão no pantanal seguras, eu vi, eu vi, eu vi ontem na televisão. E como fiquei feliz ao saber que uma pesquisadora olhou-as com os olhos de espanto e das mil encontradas, hoje temos quatro mil. As gaivotas azuis estão em extinção…que pena! que pena! a vida parece ter se tornado tão pequena.

Em contrapartida, estão matando as nossas baleias! Que fazermos agora? Dizem que a baleia orca é a baleia assassina, será mesma? Ou assassinos somos nós, sim, nós que invadimos os oceanos sem pedir permissão a natureza. Paz nos oceanos eu suplico!

As baleias são mamíferos e têm direitos iguais aos homens. Salvem as baleias! Salvem as baleias! Que vêm de lugares distantes, que viajam mares adentro…que vêm de algum lugar muito longe neste mundo que ainda tem muita água…ainda…

De onde vêm as coisas? Foi esta pergunta que intrigou os nossos primeiros filósofos que buscaram respostas na natureza. Tales de Mileto disse que o princípio das coisas está na água, que a chuva dá esse movimento de criação das coisas.

Como é bom tomar banho de chuva, se meter embaixo da biqueira e ficar lá deixando a água cair em cima da nossa cabeça, molhando o nosso corpo. Mas as biqueiras estão desaparecendo e com elas as brincadeiras. E a chuva? Poderá desaparecer, também?!

A água, este elemento primordial à vida do homem. Princípio de todas as coisas. Mas os rios choram lágrimas de tristeza, nas suas águas correntes. Gritam as ondas do mar, no seu movimento de levar e trazer os objetos que jogamos no chão. O mar, ainda, tem forças para expulsar do seu corpo aquilo que não lhe pertence. Mas os mangues não têm esta força. Nas suas mais diversas espécies de plantas ficam presos restos de lixo que jogamos no meio da rua, e acabam correndo para os rios.

Como sustentar a teoria de Tales daqui a alguns anos? Poderá esta água poluída ser princípio das coisas? Para dar vida é preciso estar sadio. A saúde da água depende tão-somente da nossa consciência. Conscientizar o homem da importância da água é nosso objetivo. Que procurem outro lugar para a saída dos esgotos. Sim, nós queremos água limpa e pura. Do jeitinho que a natureza nos deu.

Andersen, o maior escritor infantil de contos de fadas, escreveu A Pequena Sereia. O conto faz um elogio à água, ao oceano. Vejamos nas suas palavras:

“Ninguém pensa que lá embaixo só há um solo de areia branca. Lá crescem árvores e plantas, das mais esquisitas, de hastes e folhas tão flexíveis que ao menor movimento da água se movem como se tivessem vida.”

A Pequena Sereia é uma das diversas histórias que podemos contar às crianças, enfatizando a importância da água, a beleza do oceano, falando da vida que há lá embaixo, deixando-as soltar a imaginação com as sereias e outros bichos do mar.

Devemos tomar este caminho para chamar atenção das crianças da importância que o meio ambiente tem para o homem. Se, de repente, o oceano começar a ficar cheio de lixo, com certeza desaparecerá a beleza do conto, e chegará um dia que não poderemos mais contá-lo, porque a realidade corromperá a imaginação.

Voltando ao conto de Andersen, quando uma das sereias sobe à terra ela se depara com uma cena linda aos seus olhos como podemos ver nas suas palavras:

“Ficaram-lhe, porém, gravadas na memória, as belas florestas, as colinas verdes, e as lindas crianças que nadavam na água…”

Sim, são estas florestas e crianças que queremos conservar no amanhã. Nós somos responsáveis por isso. Podemos e devemos contribuir para a preservação do meio ambiente.

Não adianta aulas de campo, filmes, fotos, se não as situarmos dentro do mundo imaginário que se liga à realidade. O imaginário de alguma forma está presente no pensamento da criança, e é através dele que conseguimos apresentar a realidade.

Devemos abordar o imaginário, seja através da contação de histórias, do desenho, da escrita, da encenação. As histórias estão escritas, e têm vida eterna. Da mesma forma, temos os rios, as florestas, os animais, enfim uma natureza que é real e que faz parte do imaginário da criança. Fazer uma ponte entre esses dois mundos, com o objetivo de uma educação para o pensar é transmitir o “ar” da sabedoria ao vento que desalinha os cabelos desses meninos e meninas que correm, suam, sujam suas roupas e se metem mata adentro atrás de um coelho.

Imaginem, vocês, como poderemos contar a história de Chapeuzinho Vermelho se daqui a alguns anos não existirem mais florestas? A bondade e a perversidade podem ser exploradas nesta história, mas também podemos abordar o desmatamento, as queimadas. A floresta e as flores de Chapeuzinho Vermelho nos mostram a beleza e a magnitude da natureza para a escrita de uma história infantil.

Se não desligarmos as serras elétricas e não quebrarmos os machados, estaremos fadados a dar um fim aos nossos próprios sonhos.

Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não existe “produção” sem “destruição”. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão maior do processo produtivo) significa “destruir”.(Marcus Eduardo de Oliveira) Leia mais!

Pegue o desenho de uma criança e você sempre se deparará com o sol, a lua, as estrelas, uma árvore, uma flor, uma pedra, uma montanha, um homem, enfim…tudo é natureza. Mesmo aquelas crianças que moram em cidades grandes têm predisposição para colocar nos seus desenhos algum elemento da natureza. Mas, se não abraçarmos esta causa e colocá-la no colo dando-lhe mimos e carinhos, criaremos nas nossas crianças mundos imaginários cheios de pedra, cimento, tijolo e ferro.

Anaximandro, outro filósofo da natureza, disse que o princípio das coisas está no apeíron (ilimitado). Este princípio nada mais é do que o movimento de separação e segregação dos corpos. Os corpos ao se separarem constituem novas vidas, o mesmo ocorre quando segregam. Mas para que este movimento continue é preciso o equilíbrio da natureza.

Para Anaximandro a terra é um disco suspenso no ar. O ar se movimenta, a terra também. Desse movimento os corpos se separam, se encontram, segregam. Com a natureza em desequilíbrio esses corpos podem sofrer influências e perderem este princípio ilimitado.

O conto de fada Branca de Neve faz parte desse movimento. Branca de Neve chega à casa dos sete anões, e adormece. O tempo que ela leva dormindo, o mundo gira suspenso no ar. Os corpos se encontram, se extinguem, se separam. Coisas acontecem, como a bruxa preparando a maçã enfeitiçada para Cinderela adormecer e a produção do trabalho dos sete anões.

A realização do feitiço pode criar novos corpos, novas vidas; o labor dos sete anões, também. Este é um conto aonde podemos usar esse movimento ilimitado do mundo, mostrando às crianças que este movimento está em harmonia e é preciso que a natureza também esteja, ao contrário essas formas de vida começarão a desaparecer.

Em Branca de Neve pode ser trabalhado o passar do tempo e como as coisas ocorrem neste período. Este tempo que passa trás as estações do ano, os dias, as noites, o vento, e se este tempo não estiver em equilíbrio a natureza sentirá a terrível dor de uma pancada que pode provocar os desastres naturais, tais como: furacões, terremotos, relâmpagos e etc.

Outra história que pode abordar este princípio ilimitado é a de Dom Quixote de la Mancha, escrita por Miguel de Cervantes. Enquanto Dom Quixote vive no seu mundo de fantasia e pureza querendo combater a injustiça, a sua criada e sobrinha destroem seus livros e vão dando novas formas de vida às coisas. É o apeíron responsável por este movimento. Dom Quixote sai pelo mundo afora e se depara com diversos corpos da natureza: pedras, rios, vento, florestas. Nada para, tudo está em constante movimento.

A construção de grandes edifícios, a poluição do ar e dos rios, o desmatamento, as queimadas, podem influenciar no apeíron. E este movimento ilimitado poderá sofrer alterações. Precisamos conscientizar as crianças que este é o tempo de agir, que a natureza é ilimitada, que seu movimento é eterno, que enquanto brincamos o frio unido ao quente proporciona novas formas de vida.

Respiremos e deixemos o ar entrar no nosso corpo e bailar na melodia desta tarde colorida com o verde das nossas matas. Sim, eis o ar. Este elemento da natureza do qual Anaxímenes criou a sua teoria sobre a origem das coisas. Tudo provém do ar. Tudo se origina no ar.

E agora? Como poderemos daqui há alguns anos termos vida na terra se estamos poluindo o nosso ar? E a proposição de Anaxímenes, como poderá se sustentar com toda esta ingratidão que temos oferecido à natureza? 

O conto de fadas A bela Adormecida pode nos mostrar que mesmo dormindo continuamos respirando. E esta respiração nos proporciona vida, do mesmo jeito que através do ar fazemos o fogo, as pedras se formam da transformação do ar. Quanto ao ar temos muitas histórias na nossa literatura infantil que podemos abordar: O Pequeno Polegar, o Gato de Botas e Cinderela. É só mostrarmos às crianças que todos eles precisam do ar para viver, que os demais elementos da natureza existentes na história provém do ar.

Uma aula de química pode se tornar belíssima com esta proposição de Anaxímenes. Como também uma aula de geografia, história, língua portuguesa. Sim, língua portuguesa! Não se espantem! A língua portuguesa pode ensinar às crianças a criarem textos, a buscarem nos dicionários o significado de palavras que se relacionam com o ar. Só para uma ilustração seguem as palavras: cosmologia, rarefeito, condensação e etc. Escrever uma redação falando da importância do ar à natureza, do desmatamento, das queimadas, da poluição dos rios.

A geografia pode explicar como ocorre o movimento do vento, qual a importância do ar para a formação das rochas e pedras.

A filosofia especula, ela cria a teoria, e coloca nas mãos das outras ciências o direito de explicar as suas suposições. O filósofo não é o dono da certeza, porque nem sabemos se a certeza existe. Há sempre dúvida em tudo. E tudo é investigado, tudo se desassossega no pensamento do filósofo, porque ele é um oceano com barcos naufragados cheios de tesouros valiosos como assim também são as crianças. Tesouros que podemos chamá-los de: porquês.

Nós queremos criar florestas de sabedoria. É preciso plantar. Plantemos sabedoria…a terra é boa, as sementes estão prontas, o imaginário infantil precisa ser plantado quando ainda tem curiosidade, quando ainda nenhum adulto encheu o baú do pensar da criança de conhecimentos. É preciso permitir que a criança descubra as coisas por si mesma, nós somos apenas mestres e o papel do mestre é ensinar o caminho e não seguir com a criança.

A educação ambiental que se faz por uma pedagogia do amor exigirá, então, mais que informações sobre espécies, ciclos e processos vitais, a vivência da natureza. Conhecer para amar, e amar para conhecer: eis o círculo do sentido humano do conhecimento. De um conhecimento que é prazer, pois confere valor àquilo que assim reconheceu como significativo. (Sérgio Augusto Sardi) Leia mais!

Do mesmo jeito que o ar pode ser explorado pelas demais disciplinas a água, e o fogo, também. Na cidade de Éfeso, perto da colônia jônica pertencente à Grécia, nasceu um filósofo chamado Heráclito. Para Heráclito tudo provém do fogo. O elemento que dá origem às coisas provém do fogo. E aqui imaginamos ficar sentados à beira-mar, meia-noite, diante de uma fogueira. As cinzas e a fumaça dando origem a novas formas de vida, nem damos conta disso.

Dos contos de fadas mais interessantes para se abordar sobre o fogo nada mais interessante do que o conto do Soldadinho de Chumbo, de Andersen. No final do conto, ele prova a teoria de Heráclito quando nos diz:

“O soldadinho derreteu, transformou-se numa bolinha de chumbo, e quando, no dia seguinte, a criada tirou as cinzas, viu que a bolinha tinha a forma de um coraçãozinho de chumbo. Da bailarina só restava a lantejoula queimada, preta como carvão.”

Do mesmo jeito que o Soldadinho de Chumbo se transformou numa bolinha de chumbo, as coisas podem se transformar em outras, dando novas formas de vida à natureza.

Um dos maiores filósofos, Platão, nos presenteou o mito da caverna no seu livro A República, onde nos apresenta os elementos da natureza: fogo, ar, sol e água. Claro que a água e o ar estão invisíveis na escrita do mito, mas com certeza existiam, pois se havia vida naquela caverna, e se como nos diz Platão moravam homens acorrentados imaginemos que de alguma forma eles precisavam respirar e beber água para viver. Lá fora, os dois últimos elementos: o fogo e o sol. Mas é o sol, o grande responsável pela sabedoria do homem.

Só aquele que enxerga o sol na sua excelência pode se tornar um sábio. O sol que na nossa região Nordeste, é tão apreciado pelas crianças e pelos adultos. Pois, que tomemos o sol como o mestre dos mestres e apresentemos as nossas dúvidas no caminhar dos dias, pois ao anoitecer a lua que recebe luz do sol pode nos auxiliar na compreensão do que antes era incompreensível.

Já dizia o filósofo Kant: “As crianças devem ser abertas e de olhar tão sereno como o sol.”

Os primeiros filósofos amavam e respeitavam a natureza. Alguns deles deixaram escritos belíssimos sobre a natureza. Eles não mexeram aqui e acolá, eles apenas investigaram e apreciaram tudo o que a natureza faz. O homem pode construir represas, prédios, fábricas, abrir estradas, mas não pode destruir a natureza para satisfazer seus desejos. Não pensem que ela não fala. Fala, sim.

Ela não tem um dono, todos somos donos da natureza. A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação. Vocês estão convidados a plantar, plantar sementes de sabedoria nos canteiros das grandes avenidas e das praças públicas com grades de ferro.

Para nossas últimas palavras deixamos cócegas no pensamento de vocês, e que possam sair daqui com a consciência de que somos capazes de parar esta história que estão construindo da natureza. A história da natureza foi escrita pelo bem-supremo, não há que se construir outra, muito menos modificá-la. Ao homem foi dada a razão, que esta razão seja utilizada em prol da preservação do meio ambiente.

Se os biólogos estiverem certos, o desenho do futuro é assombroso, uma vez que nos próximos cem anos os humanos – a nossa espécie pensante, taxonomicamente chamada de sapiens, vejamos a ironia aí presente – poderão eliminar de 20% a 50% de todas as espécies da Terra. (Marcus Eduardo de Oliveira) Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Escolas na pandemia: horizontes de dentro e de fora delas

A escola faz parte da sociedade, é uma organização que compõe a dinâmica social e por isso qualquer saída ou solução sobre retorno às aulas presenciais dependerá do comportamento do vírus e do comportamento da sociedade.

Giane Guerra, jornalista, expôs, de forma brilhante, uma opinião pessoal com refinado trato jornalístico sobre a relação deste momento da pandemia e a volta às aulas presenciais, em rede social sua no dia 06 de março de 2021. Leia na íntegra.

A pressão pela volta às aulas presenciais é justificada por muitas razões mas, principalmente, ocorre pela necessidade que as crianças, adolescentes e jovens têm da socialização, do encontro, do convívio e do prazer em conviver coletivamente.

Após leitura e interpretação desta crônica, construímos convicção de que o seu conteúdo interessa aos leitores do site, aos pais e mães, aos professores e professoras, aos estudantes e à toda comunidade que vive a angústia pela volta às aulas de forma presencial.

Levando em conta a sua forma e seu conteúdo, resolvemos repercuti-la por conta de seus pertinentes argumentos e ponderações sobre tão delicado e controverso tema que vem pressionando a sociedade gaúcha: a abertura das escolas para as aulas presenciais.

Ao analisar a crise pandêmica e as consequências dos filhos estarem em casa há mais de um ano, a jornalista pondera que este momento é o mais crítico para enviá-los à escola, justamente pela agressividade das novas variantes.

Assim escreveu: “não estamos lidando com o mesmo vírus do ano passado. Elas avançam em ambientes onde imunizados e não imunizados convivem e geram os escapes para surgimento das variantes, potencializada pela vacinação no ritmo que temos. Tenho ainda o receio do comportamento das pessoas fora da escola. A situação se agravou porque a população buscou uma “normalização” da vida quando se aplicava ainda meia dúzia de vacinas lá em janeiro. Imagina agora”.

Como a maioria dos pais e mães, a crônica da jornalista aborda que o maior medo dos adultos é mesmo um medo pelas crianças, um medo de fazê-las sofrer, um medo de perdê-las.

Revelando conhecimento das peculiaridades e diferenças entre escolas das redes de ensino privadas e públicas, Giane Guerra se posiciona: “há o abismo entre educação pública e privada, pais que não têm onde deixar os filhos, famílias que não se adaptaram ao homeschooling, mas estamos em um dos piores momentos da pandemia fora da escola e sabemos que o distanciamento entre crianças e adolescentes não acontece de forma tão efetiva para realmente não ocorrer a transmissão”.

De maneira objetiva e jornalística, Guerra acha que é momento, sim, de discutir a volta às aulas, mas levanta questionamentos bem pertinentes: as famílias estão engajadas realmente nos seus protocolos familiares fora da escola? Estamos preparados se as variantes chegarem nelas com mais força? Nosso sistema de saúde está? Nosso coração e mente estão preparados?

Guerra faz menção a consulta que fez a um médico virologista, professor da Feevale e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Em respostas a algumas de suas perguntas, o especialista referiu que, infelizmente, as novas variantes estão associadas a casos mais importantes em adolescentes e que esta questão precisa ser considerada no retorno às aulas. O especialista ainda refere que seria necessário um esforço concentrado da sociedade mais a vacinação para conter novas variantes. “Já vemos bons efeitos nas poucas faixas etárias vacinadas, mas isso pode se perder se continuarmos com novas mutações”.

Sobre a volta às aulas, o consultado explica que a questão central sobre a circulação das crianças nas escolas é que estas acabam conectando famílias que, de outra forma, não estariam ligadas. A volta às aulas deveria ser pensada fora do pico da pandemia. A volta segura às aulas deve ser em período de pouca circulação do vírus.  Mesmo com a vacinação dos professores, é importante que se considere o contexto de que há uma população da escola em risco do vírus ou de transmitir o vírus. Quer pensar na escola? Tem que pensar o horizonte fora da escola, como está o vírus fora da escola, enquanto a vacinação não estiver universalizada”.

Sobre a educação infantil, a constatação do especialista é de que o distanciamento físico é difícil e que as crianças podem excretar cargas altas de vírus, se tiverem infectadas. Por outro lado, como toda sociedade reconhece, a educação infantil é o setor mais frágil no sentido da sustentabilidade financeira das escolas e da necessidade de trabalho das famílias e pela necessidade de muitas famílias não terem onde deixar os filhos para poder trabalhar.

Como observamos na crônica que estamos analisando, as implicações e a complexidade da volta às aulas presenciais, no pior momento da pandemia no Brasil e no RS, são enormes e de proporções incertas.

A escola faz parte da sociedade, é uma organização que compõe a dinâmica social e por isso qualquer saída ou solução sobre retorno às aulas presenciais dependerá do comportamento do vírus e do comportamento da sociedade.

O retorno às aulas presenciais deverá ser feito de forma segura e no melhor momento de enfrentamento da pandemia. O funcionamento regular das escolas movimenta toda a sociedade, envolve os pais, mães, tios, avôs e avós, professores e professoras, funcionários e funcionárias, gestores e gestoras, podendo irradiar a disseminação do vírus, com consequências em toda sociedade.

Escolas abertas e funcionando regularmente não são a solução para os problemas decorrentes do impacto da pandemia na sociedade, mas podem colaborar, no momento mais apropriado, para a construção de soluções que valorizem a vida e promovam a saúde e o bem-estar de toda sociedade.

As experiências de enfrentamento ao coronavírus mais bem sucedidas no planeta colocaram a vida em primeiro lugar e já estão colhendo os frutos da retomada da economia. Todavia, como uma tática para desagregar ainda mais a população, no Brasil resolveram abrir escolas no pior momento, forçaram as pessoas ao trabalho presencial, mesmo sabendo que logo teriam que fechar e que seriam necessárias medidas mais restritivas, por força das mortes, do colapso da saúde ou de decisão da Justiça.(Aline Kerber) Leia mais!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

A vingança pertence a Deus?

Por mais que soe estranho aos nossos ouvidos, a vingança divina é motivada pelo amor, assim como qualquer outro de Seus atributos morais. A vingança de Deus nada mais é do que a retribuição exigida por Sua justiça, e a Sua justiça é um exigência do Seu amor.

“V de Vingança” é uma adaptação cinematográfica da série de quadrinhos de mesmo nome publicada pela DC Comics sob a sua marca Vertigo. Tendo Londres como cenário, o filme retrata uma sociedade distópica num futuro próximo, regida por um ditador fascista, bem ao estilo de Hitler, que usa e abusa de táticas de repressão como sequestros, torturas e assassinatos de quem se opõe ao regime.

Com a mídia sob o seu controle, a censura impera e se estende por todas as formas de manifestação cultural, desde as artes à religião. É neste cenário caótico que surge a enigmática e carismática figura de V, o mascarado defensor da liberdade, disposto a vingar-se dos que o desfiguraram.

V se dispõe às últimas consequências, inclusive explodir prédios públicos e fazer justiça com as próprias mãos. À serviço do sistema, a polícia empreende uma frenética busca para capturá-lo, antes que se deflagre uma revolução.

O personagem inspirou manifestações ao redor do mundo exigindo a queda de regimes totalitários e a prisão de políticos corruptos.

É raro assistir a uma manifestação popular em que sua máscara não apareça em meio à multidão. De repente, o que era considerado uma vicissitude, passou a ser considerado uma virtude. Mesmo assim, não parece de bom tom atribuir a Deus um ato de vingança, assim como muitos encontram dificuldade em atribuir-lhe ira e castigo.

Todos reclamam em uníssono da impunidade que impera no país, e sentem-se realizados quando veem uma figura importante do cenário político ou empresarial sendo presa, mas insistem na ojeriza à ideia de um Deus que puna. Afinal, dizem eles, como um Deus de amor poderia irar-se? Ou como um Deus misericordioso poderia castigar? Ou como um Deus que nos ensina a perdoar seria capaz de vingar-se?

Mas, fato é que não faltam passagens nas Escrituras que atestam tais atributos. Já houve quem afirmasse, com base em passagens do Antigo Testamento, que o Deus ali revelado não seria o mesmo a quem Jesus chamava de Pai. Entretanto, o Novo Testamento está cheio de passagens que falam de ira divina, bem como de Sua vingança contra toda a injustiça praticada pelos homens.

À luz de uma boa teologia, nenhum desses atributos entra em choque com os atributos do amor, da misericórdia e do perdão. Aliás, eles deveriam nos soar como um incentivo para que fôssemos amorosos, misericordiosos e perdoadores.

Repare, por exemplo, na recomendação de Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Romanos 12:17-19).

Portanto, não nos cabe vingar-nos, mas tão-somente amar e perdoar, deixando que Deus se encarregue de exercer o Seu juízo. Querer vingar-se é tomar o lugar de Deus. Obviamente, a vingança divina não é da mesma natureza da vingança humana, assim como a ira divina nada tem a ver com a ira humana. Nas palavras de Tiago, a ira dos homens não produz a justiça requerida por Deus (Tiago 1:20).

A vingança humana costuma ser desproporcional, pois é motivada pelo ódio, pela mágoa, pelo rancor, bem diferente da vingança divina, motivada pelo amor. Isso mesmo! Por mais que soe estranho aos nossos ouvidos, a vingança divina é motivada pelo amor, assim como qualquer outro de Seus atributos morais. A vingança de Deus nada mais é do que a retribuição exigida por Sua justiça, e a Sua justiça é um exigência do Seu amor.

Quem busca fazer justiça com as próprias mãos nem sempre pretende dar uma punição justa, e sim causar sofrimento ao outro, porque é motivado pelo ódio. Um claro exemplo bíblico disso é o de Sansão que havendo sido trapaceado por alguns homens em uma aposta feita no dia de seu casamento, decidiu vingar-se, destruindo plantações e matando muita gente (Juízes 15:7-8).

Qualquer leitor atento das Escrituras perceberá que o herói hebreu errou na mão. A vingança também pode ser dirigida contra a pessoa errada. Depois que Sansão causou toda aquela confusão, os filisteus resolveram se vingar na sua esposa e no seu sogro, que, definitivamente, não deveriam ser culpabilizados pela situação (Juízes 15:6). Fica claro que o que eles pretendiam era atingir indiretamente a Sansão, causando-lhe dor e prejuízo. Pessoas vingativas não se preocupam com os efeitos colaterais de suas ações, mesmo que inocentes sejam atingidos.

Como seguidores de Cristo, estamos desautorizados a nos vingar a nós mesmos. O máximo a que temos direito é a dar lugar à ira, isto é, à indignação pela injustiça.

Entretanto, mesmo esta santa indignação não nos autoriza a odiar aos que nos injustiçaram. “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo”, diz o Senhor, “mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Levítico 19:18).

A melhor maneira de combater qualquer foco de ódio, rancor ou vingança em nosso coração é cultivando nossa confiança na justiça divina. Mesmo que pareça tardar, ela certamente não falhará. Ela segue sigilosamente, sem alarde, até o momento determinado por Deus para que se manifeste. “Acaso não guardei isso em sigilo? Não o selei em meio aos meus tesouros mais secretos?”, indaga o Senhor, “a mim pertence a vingança e a retribuição (…) Porque o Senhor fará justiça ao seu povo, e se compadecerá de seus servos!”(Deuteronômio 32:34-35a,36a).

De uma coisa podemos estar certos: Deus não está fazendo vista grossa aos desmandos dos que oprimem o Seu povo. Toda injustiça será retribuída. Por isso, Ele ordenou: “Dizei aos turbados de coração: Sede fortes, não temais; eis que o vosso Deus virá com vingança, com recompensa de Deus; ele virá, e vos salvará” (Isaías 35:4).

Somente Deus tem o direito à vingança porque só Ele é justo para dar a punição correta. Quanto a nós, temos que aprender a perdoar e a retribuir o mal com o bem (Romanos 12:17-21). Perdoar não é colocar panos quentes, fazer vista grossa ou dizer que a pessoa não mereça punição, mas deixar de fazer da punição uma exigência que vise saciar nossa sede de vingança. Quando perdoamos deixamos a punição a critério de Deus.

Se quisermos ter a certeza de que perdoamos, teremos que conferir o que desejamos que aconteça a quem nos ofendeu. Não adianta dizer que perdoamos, se, lá no fundo, ainda nutrimos um desejo de vingança.

Perdoar é abrir mão do direito de revanche. Devemos, portanto, seguir as pegadas de Jesus, que “sendo injuriado, não injuriava, padecendo, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (1 Pedro 2:23).

Romano Guardini, teólogo italiano, concluiu: “Enquanto você estiver emaranhado no erro e na vingança, golpe e contragolpe, agressão e defesa, você será constantemente atraído para um novo erro […] Apenas o perdão nos liberta da injustiça dos outros.”[1]

De acordo com Lewis Smedes, “a vingança é uma paixão de acerto de contas. É um desejo ardente de devolver tanto sofrimento quanto alguém lhe afligiu […] O problema com ela é que nunca alcança o que deseja; nunca chega ao empate. A justiça nunca acontece.

A reação em cadeia iniciada por cada ato de vingança sempre segue o seu curso desimpedida. Ela amarra ambos, o injuriado e o injuriador, a uma escada rolante de sofrimento. Ambos são impedidos de prosseguir na escada quando se exige paridade, e a escada não para nunca, nunca deixa ninguém descer.”[2]

Só há uma maneira de descer dessa escada rolante: perdoando. Perdoar é permitir que as coisas sigam seu curso natural. É liberar as pessoas que nos magoaram para que sejam felizes, apesar daquilo que nos infligiram.

Quando perdoamos, quebramos um interminável ciclo de ofensas. Por mais que a justiça clame: “Olho por olho, dente por dente”, o amor deve falar mais alto. Ghandi tinha razão ao observar que, se todos exigissem “olho por olho”, no final todos estariam cegos.

Referências:

[1] GUARDINI, Romano. The Lord. Chicago: Regnery Gateway, 1954. p. 302.

[2] SMEDES, Lewis B. Forgive and forget. São Francisco: Harper & Row, 1984. p. 130.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Fratelli tutti: pensar e gerar um mundo aberto

Sem educação para a fraternidade, a igualdade se fecha no “círculo” dos sócios. O bem comum e a sociedade que supere o individualismo que corrói as relações, só se alcança tendo como base a amizade social e a fraternidade em que o outro é visto com uma dignidade, a tal ponto, que a sua vida valha a minha.

No terceiro capítulo da Fratelli Tutti, o Papa Francisco dá um passo a mais em direção ao tema da fraternidade universal e amizade social. Para isso instiga o leitor a sair das bolhas fechadas e pensar e gestar um mundo aberto ao outro, para além dos afetos, do sangue, da nação.

Amar-se é fácil, amar a família é naturalmente fácil, amar os que nos amam é fácil, amar os amigos é fácil, amar e ser amigo dos que tem poder, prestígio, são bem cheirosos e com dinheiro, é fácil.

Difícil e desafiante é amar o diferente, o sujo e mal cheiroso. O Papa não quer pouco, ele nos puxa para a transcendência, desafiando para o sublime, o grandioso, para o excelso. Amar os “não naturalmente amáveis”, os pobres, os estrangeiros, os que não nos amam, eis o grandioso e o sublime.

Há algo em nós que resiste ao outro, mas há algo em nós que nos impulsiona ao amor ao outro. Sem o outro, quem somos? Os outros, no seu encontro e relação, definem a identidade pessoal de cada humano. E, sobretudo, na doação ao outro é que cada um se encontra em sua plena humanidade.

Fora do outro não há salvação. Não há um Robinson Crusoé ontológico. Os individualistas e egoístas estão equivocados. Na geografia constatamos que há ilhas, mas na alma e no corpo humano o que há é relações. Fora das relações não há salvação.

Essa parece ser a síntese desse capítulo da Fratelli Tutti, que o Papa desdobra em seis pontos:

1.Hospitalidade e amor para além da “bolha”. A questão aqui não é teórica ou especulativa. Não há ser humano que não possa testar e atestar em favor da experiência existencial de que “a partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência” (FT 88), arrancando a pessoa de si mesmo e projetando-a para o outro. O amor nos puxa para fora da “caverna do eu” e nos conduz para a luz, a beleza, a graça, o dom, a revelação que vem do outro.

O outro não é “um inferno”, como dizia Sartre. Até pode ser, mas não em essência e sempre. Naturalmente, somos o paraíso um do outro. Não é assim com a mãe e o pai? Não é assim com os irmãos de sangue? Não é assim com os amigos? Há coisa melhor do que estar junto aos amigos e familiares e aos que se ama? Contudo, esse círculo ainda é restrito.

A novidade vem do além, da hospitalidade inclusive com o estranho. “Não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo com minha própria família, porque é impossível compreender a mim mesmo sem uma teia mais ampla de relações” (FT 89). Alguém pode objetar e dizer que o que importa são relações intensas e com poucas pessoas, porém, diz o Papa, as relações intensas de vínculo de casal ou de amigos, podem esconder um egoísmo disfarçado de amor. O amor e as amizades autênticas habitam “corações que se deixam completar”. E o Papa diz mais: “Os grupos fechados e os casais autorreferenciais, que se constituem com um “nós” contrapostos ao mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas, de egoísmo e mera autoproteção”(FT 89).

O Papa, nesse aspecto, é radical, isto é, vai à raiz. Ele diz que as virtudes éticas tais como a fortaleza, temperança, sobriedade, laboriosidade etc, só são tais se forem completadas com a caridade, sem a qual, recordando Santo Tomás de Aquino, o Papa diz que “a temperança de uma pessoa avarenta nem sequer é virtuosa” (FT 91). Em outras palavras, sem a caridade, as outras virtudes não cumprem autenticamente os propósitos de Deus.

Há pessoas que pensam que a sua grandeza está na força de domínio sobre o outro. Enganados estão. A grandeza de uma pessoa é medida pelo amor e pelo bem que faz ao outro “considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas e morais. O amor ao outro por ser quem é impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível a amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”(FT 94).

2.A progressiva abertura do amor. Muros, fronteiras e periferias demarcam o “eu e o outro”, o centro e a margem. O medo e a insensibilidade fecham o humano em si mesmo e, no máximo, com os seus. O amor, contudo, rompe diques, muros, ultrapassa fronteiras e periferias ampliando tanto o círculo de fraternidade quanto ampliando o círculo da formação da subjetividade que constitui a identidade pessoal.

Diz o Papa: “Por sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, uma maior capacidade de acolher os outros, em uma aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: ‘Todos vós sois irmãos’”(Mt 23,8) (FT 95). A progressiva abertura do amor ultrapassa os limites geográficos e também existenciais.

O Papa fala da necessidade de acolhida ao estrangeiro, de outra nacionalidade, de outras culturas, contudo, não se esquece dos “outros” que são periferias existenciais, mesmo fazendo parte da mesma cidade e até mesmo sendo vizinho. Há “exilado ocultos” na própria terra. “Cada irmão que sofre abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país”(FT 97). O Papa fala dos idosos e dos deficientes como os mais ocultos e esquecidos pela cultura do descartável e que não promove “a pertença e a participação”, tornando muitos cidadãos sem cidadania plena.

O amor progressivo respeita a diversidade, mas aponta para a universalidade concreta em que a base será o que o Papa chama de “amizade social”, começando pelos últimos. Não se trata, portanto, de um universalismo abstrato ou autoritário. Ambos seriam noções inadequadas de um amor universal.

3.Superar um mundo de sócios. Neste item o Papa retoma, num primeiro momento, a parábola do bom samaritano para dizer que os personagens que passaram ao lado do homem ferido no caminho “não se concentraram no chamado interior de fazer-se próximas”, mas estavam preocupadas e concentradas no seu prestígio e função que exerciam na sociedade. “Sentiam-se importantes para a sociedade de então, e o que mais as preocupava era o papel que deviam desempenhar” (FT 101). Para o papel que exerciam na sociedade, o homem ferido no caminho era um “incômodo”, uma “interrupção” do seu papel, justamente para com alguém que não exercia papel algum dentro da sociedade.

O caído era um “zé ninguém”. É de se notar que justamente um samaritano, um estrangeiro, fora de qualquer categoria social de destaque, um estranho, livre das etiquetas sociais e livre das possíveis “imagem” a preservar, justamente ele se faz próximo do “zé ninguém”. Foi uma relação de “ninguém para ninguém”. Que crítica profunda aos “bem incluídos das rodas sociais e das igrejas”, Jesus não estava fazendo ao contar essa parábola?

Parece que Jesus estava querendo dizer que para a vida em sociedade mais vale ser próximo do que ser sócio. Sócio compartilha papéis e funções e se interessa com os “iguais”, mas não “perde tempo” para com os “outros’, sobretudo os que nada tem a oferecer em troca. Assim não se constrói sociedade.

Só se constrói sociedade na base da fraternidade como horizonte e medida da liberdade e da igualdade. A liberdade e a equidade são duas irmãs da fraternidade, contudo, da liberdade e da igualdade não surge, necessariamente, a fraternidade. Sem fraternidade a liberdade se reduz à autonomia para “pertencer a alguém” ou na capacidade de escolha de objetos de consumo, o que convenhamos, é pouco.

Sem educação para a fraternidade, a igualdade se fecha no “círculo” dos sócios. O bem comum e a sociedade que supere o individualismo que corrói as relações, só se alcança tendo como base a amizade social e a fraternidade em que o outro é visto com uma dignidade, a tal ponto, que a sua vida valha a minha.

4.Amor universal que promove as pessoas. Só há um caminho seguro para caminhar rumo à amizade social e a fraternidade universal. Esse caminho é pavimentado pelo princípio da dignidade humana, única, universal e intransferível.

Nesse aspecto, Papa Francisco faz eco à ideia Kantiana que diz que “as coisas têm preço, os humanos têm dignidade”.

De fato, assim é, pelo menos para Kant. (Kant não postulava direitos dos animais e não lhe passava pela cabeça que, talvez, esses também têm dignidade). Se os humanos tivessem preço, poderiam ser trocados no mercado de valores relativos. As coisas têm preço, os humanos, todos eles, têm dignidade. Isso significa que a escravidão não tem legitimidade moral. Isso significa também que não se pode avaliar uma pessoa pelo que tem, produz ou pela sua utilidade. “Quando não se salvaguarda esse princípio elementar, não há futuro para a fraternidade universal nem para a sobrevivência da humanidade” (FT 107).

O problema está no fato de que há sociedades que acolhem apenas parcialmente esse princípio. Os defensores da meritocracia e do mercado auto regulador, por exemplo, são desse grupo. Estes defendem que as possibilidades existem para todos e que “tudo depende de cada um”.

Segundo essa perspectiva parcial, não faz sentido apostar nos fracos, lentos e menos dotados. Investir em pessoas frágeis e vulneráveis seria, segundo essa concepção, uma injustiça para os que empreendem por conta própria e vencem na vida.

Papa Francisco desmonta a tese da meritocracia e do mercado total de uma forma serena, sutil e definitiva. Diz o Papa: “Alguns nascem em famílias com boas condições econômicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão de um estado ativo e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra com uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades.

Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficácia, não haverá lugar para tais pessoas e a fraternidade não passará de uma mera palavra romântica” (FT 109). Como dizer mais e melhor? Enquanto o sistema econômico produzir exclusões e vítimas, as palavras como “democracia”, “liberdade” e “fraternidade” esvaziam-se de sentido e longe estará a festa da fraternidade universal.

5.Promover o bem moral. A superação de uma sociedade que proclama o “eu” acima dos “nós” e que tende a se expressar na cultura do egoísmo que funda o capitalismo excludente, tem na defesa da dignidade humana um pilar seguro.

O outro pilar é a educação para os valores morais e bens espirituais mais altos. A família e a escola são os lugares preferenciais para a educação para o bem.

A crise civilizacional se dá, em boa medida, por alimentarmos desejos infinitos de bens materiais e deixarmos em segundo plano os bens de ordem moral e espiritual. Papa Francisco tem clara noção do que está posto quando fala de valores morais e dá um destaque todo especial ao valor da solidariedade que, ao lado da honestidade, bondade e a fé, são um fundamento seguro para a amizade social e a construção da fraternidade universal. “A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros…

Os menos favorecidos, em geral, praticam aquela solidariedade tão especial que existe os que sofrem…Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos.

É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais” (FT 115-116).

Só com espírito de solidariedade realizaremos o bem comum que implica em renúncia do interesse próprio em nome de um bem maior e mais excelso. É o caso de alguém que tendo água em abundância, é capaz de poupar em favor da preservação da casa comum e dos interesses da humanidade. Só uma consciência moral elevada que possibilita transcender a si mesmo, como é o caso da solidariedade, será capaz de um ato tão nobre.

6.Função social da propriedade. “O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nessa terra com a mesma dignidade” (FT 118) diz o Papa Francisco ao se referir ao direito que os humanos têm a uma vida integralmente desenvolvida. Recorda, para tanto, a longa tradição da igreja que defende, intransigentemente, o direito dos pobres e a necessária função social da propriedade.

Papa Francisco recorda São João Crisóstomo, que diz que se alguém não tem o necessário para viver com dignidade é porque outros se apropriaram indevidamente. Nas palavras de Crisóstomo citados pelo Papa Francisco: “‘não fazer os pobres participar dos próprios bens é roubar e tirar-lhe a vida; não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos’”(FT 119).

São Gregório Magno não é menos incisivo. Diz Gregório: “quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, não oferecemos o que é nosso; limitando-nos a restituir o que lhe pertence”. (FT 119).

Mais direto e definitivo, impossível. Contudo, o Papa Francisco vai além e repete o que já tinha dito na Laudato si’, a saber: “a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada” (FT 120).

Papa Francisco encerra a reflexão sobre a função social propriedade, elogiando os empresários que fomentam o desenvolvimento, contudo, chamando-os à responsabilidade para que o desenvolvimento esteja a favor da vida e não para a acumulação do capital. E conclui com a sua tradicional defesa dos direitos humanos para além das fronteiras dizendo: “Se toda pessoa possui uma dignidade inalienável, se todo ser humano é meu irmão ou minha irmã e se, na realidade, o mundo pertence a todos, não importa se nasceu aqui ou vive fora dos limites do seu próprio país. Também minha nação é responsável por se desenvolvimento” (FT 125).

Em conclusão, pensar e gerar um mundo aberto parece ser algo utópico e distante no horizonte da vivência societária, mas não é impossível, desde que as bases da amizade e da fraternidade sejam assentadas na defesa da dignidade e na promoção dos valores morais e espirituais mais nobres. E aqui valem as palavras do Papa Francisco: “Trata-se, sem dúvida, de outra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nessa lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio” (FT 127).

Somos todos irmãos ou a fraternidade e a amizade social não passam de um devaneio? Dizer que não somos todos irmãos e que somos, antes, inimigos uns dos outros e que deveríamos acentuar e acirrar a inimizade, implodiria a vida societária e só um irresponsável poderia assim pensar. E o Papa não é um irresponsável. Mas também não é um idealista a tal ponto de pensar que já vivemos integralmente a fraternidade. Não. A fraternidade é um ideário e para concretizá-la é indispensável enfrentar alguns desafios. Leia mais!

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

É a luta por uma educação voltada à vida!

Imaginem se as aulas não tivessem sido suspensas, quantas mais seriam as vítimas no RS?

É duro decidir, ainda mais quando envolve tantas pessoas e um contexto complexo e de polarizações acirradas. Poucos se posicionam e decidem. Faltam lideranças e, principalmente, governos responsáveis, mesmo quando tratamos de preservação da vida. Sobram hipócritas! Mas quem fica em cima do muro está sendo injusto com o lado certo ou com o que precisa ser feito.

No caso de decidir pela vida – com tantas dores, renúncias e perdas no caminho, ainda mais em uma situação de calamidade e de ausência de governantes dialógicos, é duríssimo, mas o que há de mais democrático é a luta pela vida!

Muito embora não agrade a todos a decisão de suspensão das aulas em bandeira preta no RS, existe uma minoria barulhenta constituída de egoísmos, ignorância e defensora do estado mínimo. Nos falta escutar as vozes de quem pega ônibus lotado todo dia, das mães das periferias para compreender melhor o cenário.

O mais difícil é que em um contexto de fome, de crescimento exponencial da miséria e das desigualdades sociais, precisamos ainda lutar contra um mentiroso, acéfalo e genocida no poder central, rodeado de cínicos, autoritários e oportunistas.

Essa é a base do negacionismo, uma tecnologia de “governo da morte”, que serve para manter as estruturas desiguais, os privilégios e para matar aceleradamente como política contra aqueles que sempre estiveram na mira e viram os seus morrerem – seja pela violência cotidiana, seja pela violência institucional em razão da insegurança de outros direitos, sobretudo o de existir.

Toda solidariedade e escuta aos que sofrem e estão em luto e luta neste momento que é o pior da pandemia.

Mas há uma distopia muito grande no ar. Tem até Prefeito (Curitiba) proibindo a entrega voluntária de comida aos moradores de rua e uma infecunda discussão na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, com dinheiro público, sobre o “kit covid” – sabidamente ineficaz e que já provou, inclusive, que agrava os quadros de COVID em pacientes que chegam nas UTIs, além de causar outras doenças graves e a necessidade de transplante.

O prefeito Rafael Greca (DEM) encaminhou à Câmara Municipal de Curitiba (CMC) um projeto que prevê multa para quem distribuir comida aos sem-teto sem autorização da prefeitura. Atualmente, são quase 3 mil sem-teto em Curitiba, segundo a prefeitura. Pela proposta, quem “distribuir alimentos em desacordo com os horários, datas e locais autorizados pelo Município de Curitiba”, poderá ser multado de R$ 150 a R$ 550, após advertência. Veja mais!

As evidências estão aí. Caos! Março de 2021 bateu recorde de sepultamentos em Porto Alegre, 2000 enterros/cremações, o Estado do Rio Grande do Sul está sem vagas em UTI’s, profissionais da saúde precisaram escolher quem atender primeiro nas UTIs. Imaginem se as aulas não tivessem sido suspensas, quantas mais seriam as vítimas?  

Quem tem lucidez e dignidade e votou no atual Presidente ou no seu discípulo local prefeito Melo deve estar com algum sentimento bem desconfortável. Mas a vida deve ser sempre para frente! Está mais do que na hora dessas pessoas pedirem desculpas e reverem seus posicionamentos.

Precisamos da união de todos em favor da vida e da ciência. Chega de negar os fatos!

59% da população brasileira reprova o atual Presidente. Será que é pouco? Se cada um fizer a sua parte, que começa com consciência e empatia, logo podemos sair destas trevas. Onde estão as vacinas?

Precisamos acelerar a vacinação urgentemente! Até lá seguir o clamor da voz das ruas que gritaria, se pudesse, #ForaBolsonaroGenocida e fora tudo que ele representa, como vimos nas carreatas pela vida e pela vacina no início do ano, gerando, uma repressão desnecessária através de multas, sobretudo por “buzina em carreata”. Em Porto Alegre, um grupo de mais de 10 pessoas ingressou na justiça com “ação anulatória de multas cumulada com danos morais”. 

Bolsonaro boicotou a compra das vacinas e desestimulou a vacinação, duvidou da eficácia da máscara, aglomerou sem máscara, inclusive, boicotou o distanciamento social e insistiu na falta de auxílio emergencial para garantir isolamento social e o controle da pandemia, trazendo discursivamente uma falsa dualidade: morrer de fome ou morrer do vírus.

“Entregue a sua vida pela economia”, esse foi o lema, declamado pelo Prefeito de Porto Alegre Melo. Nossa cidade virou notícia no mundo, no New York Times, e não foi pelas nossas virtudes: viramos o epicentro do mundo da COVID com um sistema de saúde colapsado, no país que tem mesmo número de mortes pela doença que os 10 países depois do Brasil com mais número de vítimas letais.

Já são mais de 325 mil vidas perdidas porque preferem manter essa falsa dicotomia entre vida x economia x escola e o “salve-se quem puder”.

As experiências de enfrentamento ao coronavírus mais bem sucedidas no planeta colocaram a vida em primeiro lugar e já estão colhendo os frutos da retomada da economia. Todavia, como uma tática para desagregar ainda mais a população, resolveram abrir escolas no pior momento, forçaram as pessoas ao trabalho presencial, mesmo sabendo que logo teriam que fechar e que seriam necessárias medidas mais restritivas, por força das mortes, do colapso da saúde ou de decisão justiça.

Tudo colapsou, mesmo com as aulas suspensas, embora ontem o centro de Porto Alegre estivesse com uma cena lamentável de aglomeração intensa, filas e muitas pessoas sem máscara. A cena da mãe com bebê no colo e com máscara no queixo choca.  Imaginem com escolas abertas neste momento…

No RS, foram 20.063 mil vidas perdidas pela COVID-19, muitas pessoas próximas de quase todos nós, sobretudo em Porto Alegre, e só em março temos 36% dos casos todos, considerando desde o início da pandemia, há 1 ano.

Esse cenário estava claro em fevereiro, os especialistas avisaram, tanto que o Governador Leite suspendeu a cogestão e avançou para a bandeira mais crítica do Modelo de Distanciamento Controlado no Estado.

Infelizmente, fica cada dia mais demonstrável a importância da decretação da bandeira preta no RS, são constantes os aumentos expressivos de contágio e de mortalidade pela COVID-19, batendo recordes diários. Março fechou pior do que iniciou, UTIs ainda mais superlotadas e com centenas em filas de espera, falta de medicamentos, inclusive para intubação e descontrole da pandemia em relação à saúde, proteção social e controle da disseminação do vírus e da fome.

Não é só o arbítrio das pessoas que faz com que muitas não usem máscara ou façam festas. Foi a decisão política de cogestão e corresponsabilidade dos governantes a abertura de comércio, bares e restaurantes, a lotação de ônibus de trabalhadores das periferias da Capital e RMPA porque não foi disponibilizado mais frota ou outros modais para mobilidade urbana.

A quinta-feira Santa, véspera de feriado de Páscoa, tem grande movimentação de pedestres no centro de Porto Alegre. Apesar das restrições impostas pelas autoridades em função da pandemia de coronavírus, a maioria das ruas de comércios na Capital estava cheia. Entre os itens mais procurados, pescados e chocolates. Veja mais.

As escolas fechadas em regime de plantão com altas taxas de contaminação porque não houve protocolos suficientes e principalmente por imperar a negação da importância das medidas restritivas que levaram à suspensão das aulas presenciais no RS.

Por falta de “culhão” político, restou à justiça gaúcha e ao STF que decidissem pela suspensão das aulas presenciais durante a bandeira preta no RS a partir de Ação Civil Pública que envolveu a Associação Mães e Pais pela Democracia, CPERS e SINPRO/RS, com apoio público da Sociedade Brasileira de Pediatria. Decisão dura sim, mas necessária! Vidas estão sendo salvas. Logo saberemos o impacto.

A presidente Aline Kerber, em entrevista exclusiva ao nosso site, fala das motivações que levaram a AMPD a ingressar com esta ação na Justiça, bem como das repercussões que esta decisão alcançou logo após proferida decisão judicial. Fala também sobre a importância de preservarmos vidas, evitando aglomerações a partir das escolas e dos espaços públicos de convivência. Leia mais.

Aguardamos, por um lado, respostas urgentes do Presidente, Governadores e Prefeitos para a evitar a quebradeira das escolas e para o desemprego em massa na educação privada e, de outro, o plano para uma volta às aulas que considere as escolas públicas, além de privilegiar um trabalho educacional voltado aos enormes déficits emocionais e pedagógicos acumulados e os traumas e lutos gerados, sobretudo aos órfãos da COVID.

Não podemos admitir uma volta às aulas só para alguns e precisamos de um ambiente seguro e uma pandemia controlada para isso acontecer. São 779 crianças com até 12 anos que morreram da doença no país. Um estudo de outubro na revista científica The Lancet Infectious Disease aponta que aumenta em 24% a taxa de propagação do coronavírus com a abertura de escola, analisando 28 dias de voltas às aulas em 131 países.

Já vivemos uma desigualdade imensa, não é viável aumentar essa desigualdade pela educação. A educação deve ser pensada por completo, enquanto temos algumas escolas privadas que são ventiladas e com protocolos rígidos, com poucos alunos e que conseguem abrir com condições sanitárias, há tantas outras sem as condições ideais nas redes pública e privada.

Por exemplo, no Estado são 328 escolas públicas estaduais que nem banheiro tem e ainda só 26% das escolas estaduais com água encanada, segundo dados apresentados pelo DIEESE no ano passado. Isso é um escândalo.

A política do Governador Leite na educação é um fracasso. Ele fecha escolas (mais de 60 foram fechadas, inclusive a Escola Rio Grande do Sul), não oferece estrutura para alunos e professores para as aulas online/remotas e reduz matrículas até na EJA como política de educação mínima e se omite na busca por vacinação dos educadores e trabalhadores da educação e testagem, rastreamento e monitoramento dos casos nas escolas e não consegue encontrar soluções aos problemas estruturais mais simples como o das “janelas emperradas” nas salas de aula, sem falar dos principais problemas como citados acima.

Só sairemos desta juntos! Esse é o principal aprendizado da pandemia, mas precisamos que TODOS realmente queiram encontrar saídas para virarmos este jogo. Os Governantes precisam agir, não podem só ficar no discurso, ou como disse o Governador na campanha, “precisa levantar a bunda da cadeira”!

Vivenciamos a cruel pedagogia do vírus, como disse o Boaventura de Sousa Santos, inclusive que nos ensina, embora nem todos queiram ou consigam aprender, e ainda ataquem quem luta em defesa da vida e da vacina, que nada substitui a escola na nossa sociedade para a garantia dos direitos, inclusive para alargarmos a concepção da educação que deve estar voltada à vida, à diversidade e ao pensamento crítico e plural.

Por uma educação libertadora e por isso a luta agora é pela vida, pela redução de danos e pela sobrevivência!

Estou recebendo dezenas de mensagens de pessoas, do Brasil todo, revoltadas com a postura dos professores e, consequentemente criticando minha defesa a essa classe. Dizem que os professores estão dando uma de “deuses do olimpo” se achando melhores do que outras classes profissionais por desejarem receber a vacina prioritariamente.  Então seguem algumas explicações, já que minha função como professor que sou é ensinar. (Marcos Meier). Veja a resposta.

Autora: Aline Kerber

Edição: Alex Rosset

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