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Não à Lei do Talião

Se adolescer é nascer para a sociedade, há que se ter um controle nas explosões, entendendo-se que conviver socialmente implica respeito aos regramentos elaborados pelas instituições, como o resguardo à vida.

O termo Talião deriva do latim Lex Talionis, isto é, lei de tal tipo, condizendo com a ação na devida proporção da agressão, quer dizer a justa reciprocidade da pena de acordo com o crime praticado. Há indícios da Lei no antigo Código de Hamurabi (1780 a.C.) nos tempos do antigo reino da Babilônia.  

Hoje, em pleno início do Terceiro Milênio, no Facebook, ainda há aqueles apressadinhos que invocam a Lei do Talião com frases sentenciais do tipo “… tem que castrar, tem que enforcar, tem que matar”, especialmente quando ocorre um crime hediondo, contra a vida humana e contra o patrimônio.

Como querer aplicar a ultrapassada Lei do Talião, se nem pena de morte temos no Brasil?

Esse é apenas um pretexto para discutir os atos praticados por dois jovens que praticaram atos de vandalismo, estilhaçando mais de 60 vidraças com uma arma de pressão. 

O fato aconteceu em meados de abril/2021, quando um jovem de 21 anos, na carona de um caminhão-baú, juntamente com seu motorista de 31 anos, percorreram as cidades de Porto Alegre, Viamão e Gravataí, estourando as vidraças de bancos, revendas de automóveis, lojas e repartições públicas, além de danificar os carros novos expostos nas revendas.

A Brigada Militar (BM) registrou uma série de ocorrências de vandalismo em dezenas de estabelecimentos da Região Metropolitana de Porto Alegre entre a terça-feira (13) e esta quarta (14). Pequenas esferas de metal foram disparadas contra vidraças, provocando destruição em bancos, restaurantes, lojas, clínicas, automóveis e prédios. Leia mais!

Devidamente identificados pelas câmeras de vídeo, os dois jovens confessaram à Polícia Civil que cometeram os atos de depredação por mera diversão tendo, para tanto, três razões: sensação de poder, liberdade e prazer.  

Enfim, que tudo teria sido uma brincadeira de mau gosto imposta pelo filho do proprietário do veículo, hoje com 21 anos. O pai, 43 anos tem o caminhão como fonte de renda, com o qual sobrevive mediante fretes. Confessou que presenteou o filho depressivo com uma inocente arma de pressão.  No entanto, como tem problemas de érnia de disco, contratou um conhecido motorista, frequentador de igreja, para dirigir o veículo na companhia do filho, que não tem CNH.

Jamais imaginou que os dois fariam um ato de tamanhas proporções e repercussões e, que o filho autor dos disparos, nunca teve vida pregressa. E o pior, que seu filho vem sendo medicado por apresentar crises depressivos.

Pelo exposto acima, é fácil depreender que o pai foi ingênuo e um tanto irresponsável ao presentear o filho com uma arma de pressão. Assim, o filho ficou capacitado a causar sérios danos, caso usasse, inadequadamente e irresponsavelmente, a arma contra si, contra as pessoas e contra o patrimônio.

Em segundo, o motorista do caminhão, com 35 anos, mesmo pressionado pelo filho do patrão, não foi capaz de impedir que tantos tiros fossem disparados contra o patrimônio público. Ou foi ameaçado de perder o emprego, ou desconhecia a gravidade dos atos praticados pelo livre e poderoso passageiro. Portanto, é cumplice, tendo que ser responsabilizado pelo ato de omissão.  

Ser jovem em tempos de pandemia, não é moleza! O distanciamento, com lockdown, a liberdade fica prejudicada, pois a vida em grupos fica emudecida, ainda mais para os adolescentes.

 Para Mário Corso, ZH, 28.04.21, “a adolescência sabe ser sombria e, quando emudecida, tende a ser pior. Atuações perigosas são as mais comuns em quem sente-se a ocultar o que sente e pensa. Quem trabalha e convive com adolescentes sabe que, nesses casos são mais frequentes os comportamentos agressivos, toxicômanos, destrutivos, automutilações e até risco ao suicídio”.

A vida humana é constituída de várias explosões: explosão à vida, explosão à morte, explosão de raiva, explosão de alegria, explosão de prazer, explosão ao adolescer.

A escritora Clarice Lispector, no livro A Hora da Estrela, através da personagem Macabea, revela as múltiplas explosões a que somos submetidos vida afora, especialmente no processo de adolescer em sociedade.

Saindo do resguardo dos pais, os jovens buscam na sociedade a liberdade, o prazer e o poder, exatamente como manifestaram os infratores à polícia.

No entanto, se adolescer é nascer para a sociedade, há que se ter um controle nas explosões, entendendo-se que conviver socialmente implica respeito aos regramentos elaborados pelas instituições, como o resguardo à vida, deixando a César o que é de César intacto.

Quando os meios de comunicação noticiaram os atos de vandalismo, buscando identificar os infratores e suas causas, imediatamente associei que fossem atos explosivos contra o racismo, contra a falta de vacinas, contra a inoperância do governo. Nada disso!  

A tendência é que o pai seja condenado a pagar os prejuízos causados pelo filho que provou, equivocadamente, o prazer, a liberdade e o poder ao usar irresponsavelmente as explosões de vento de uma inocente arma de pressão. Portanto, longe de se aplicar aos vândalos a Lei do Talião. Se assim o fosse, sem saber os motivos pelos quais, estaríamos cometendo outro crime contra a vida. Tudo o que se faz ou se deixa de fazer tem suas consequências. Que a justiça faça a justiça na medida certa!

Autor: Eladio Vilmar Weschenfelder

Edição: Alex Rosset

Investimentos em educação no RS sofrem corte de 46% em cinco anos

Se os patamares de investimentos fossem ao menos mantidos, o crescimento esperado deveria ser compatível com a inflação do período, acumulada em 36,96% (IPCA/IBGE).

De acordo dados do portal da transparência do Estado, analisados pelo Dieese, áreas prioritárias registraram significativa redução de investimentos nos últimos anos.

Na comparação entre 2015 e 2020, a educação sofreu retração de 46% (36,4 milhões a menos). Proporcionalmente ao total de investimentos, a fatia do setor foi reduzida de 13,7% para 7,5%.

Na Saúde, a redução foi ainda mais drástica; entre 2015 e 2019, o arrocho ceifou 97% dos investimentos, que caíram R$ 18,8 milhões. No entanto, com os aportes especiais devido à pandemia, o ano de 2020 registrou um aumento de 39% em comparação com 2015.

Também chama atenção a queda da participação dos investimentos na área, que desabaram de 3,4% em 2015 para 0,1% em 2019 do total investido pelo Estado.

Os investimentos consideram gastos com planejamento e execução de obras, incluindo aquisição de imóveis, instalações, equipamentos e material permanente.

As variações são em termos nominais. Se os patamares de investimentos fossem ao menos mantidos, o crescimento esperado deveria ser compatível com a inflação do período, acumulada em 36,96% (IPCA/IBGE).

Ler na íntegra a análise do Dieese

Autor: CPERS

Edição: Alex Rosset

Não estão preocupados com a educação

Por que os professores estão tão irritados, magoados e ansiosos? Porque nós estamos sendo atacados por todos os lados.

A preocupação é ter onde deixar o filho do pobre para esse pobre poder trabalhar (lembrando que todos nós, assalariados, somos pobres). Mentir em lives e mandar as aulas presenciais voltarem em uma entrevista pela internet, é muito fácil.

Quando defendem que a criança precisa ir para a escola para ter onde se alimentar estão confirmando que o papel da escola é cuidar e alimentar, não ensinar e educar. Eles não estão preocupados com a educação.

Quando dizem que os alunos precisam voltar porque precisam se alimentar estão confirmando que todo o sistema está errado, que todo o resto deu errado, que não tem emprego, que não tem auxílio, que não tem distribuição de renda, que não tem assistência social que dê conta (toda a minha solidariedade aos profissionais dessa área), então resolveram colocar mais essa responsabilidade nas costas das escolas e dos educadores.

É muito fácil o jornalista famoso defender a volta às aulas presenciais quando está trabalhando em casa e seus filhos estão tendo aula online na escola particular.

É muito fácil o deputado (do partido mais corrupto do Brasil) falar que o professor não quer trabalhar sabendo que para ele vai ter hospital, mas para os professores e para as famílias desses alunos pode não ter.

Nenhum deles está preocupado de verdade com saúde, alimentação ou educação das crianças. Tudo isso é mentira e eu tenho pena de quem acredita nessa mentira. Quem está de verdade preocupado com os alunos, fazendo “vaquinha” para dar cestas básicas para as famílias e se esgotando de tanto trabalhar é o professor!

Em nenhum momento nós, professores, paramos de trabalhar. Em nenhum momento eu parei de me preocupar com a alfabetização dos meus alunos.

Se depender de nós, vagabundos, o ano não vai ser perdido, porque improvisamos, com o que temos, em nossa casa. Do governo, só cobrança, sem contrapartida. Aliás, faz muitos anos que isso ocorre. Mas continuamos sendo atacados por não trabalharmos. (Laércio Fernandes dos Santos) Leia mais!

Estamos trabalhando muito mais, fazemos vídeos, atendemos ao vivo em grupos, individualmente, respondemos whatsap, preparamos aulas para turma e para as particularidades de cada aluno e ainda damos conta da burocracia.

Em nenhum momento postei qualquer reclamação sobre o excesso de trabalho, apesar de todo o cansaço e a ansiedade.

Me preocupo com a minha saúde e com a saúde das pessoas que eu mais amo nesse mundo. Minha esposa e minha mãe são professoras e nem consigo pensar na possibilidade de acontecer algo com elas, pois meu mundo desabaria.

Se algo acontecer comigo, o mundo delas que desaba. Já nas escolas alguns dias depois alguém estaria no nosso lugar.

Por que os professores estão tão irritados, magoados e ansiosos? Porque nós estamos sendo atacados por todos os lados. Eu tenho sorte porque os pais dos meus alunos são empáticos e nunca foram grosseiros comigo ou me xingaram, mas cada xingamento para colegas nas redes sociais corta o meu coração.

Por que estamos nos defendendo tanto? Porque nenhum outro setor da sociedade defende os professores. Somos nós por nós e nós pelos nossos alunos!

Enquanto uma maioria luta bravamente para garantir sobrevivência, apenas pequena parte da população tem condições de garantir estudo e disponibilidade plena das crianças e adolescentes aos estudos. Outra questão, igualmente importante, é a expectativa imensa que a sociedade alimenta sobre a volta das aulas presenciais. Mas não vemos nenhum grande movimento, nem das escolas e nem da sociedade, para ressignificar esta volta presencial de aulas. Queremos voltar, sim. Mas voltar para quê? Que mudanças e que novos significados vamos incorporar na volta às aulas? Leia mais!

Autora: Camila de Freitas, professora rede Municipal de Charqueadas.

Edição: Alex Rosset

Escola boa é a escola onde professores estudam

Altair Fávero é Coordenador do PPG-EDU, Programa de Pós Graduação da UPF (Universidade de Passo Fundo). Atua e atou de maneira intensa em formação de professores, sobretudo de formação de professores da educação básica.

Nesta entrevista exclusiva ao site, Altair vai abordar a importância da formação dos professores e professoras, bem como a importância da atualização e aperfeiçoamento de estudos através de Mestrado e Doutorado. Fávero revela, ainda, a importância de algumas pessoas e de alguns estudos e experiências que consolidaram a sua atuação como docente no Ensino Superior e na sua trajetória na formação de professores e professoras.

Fávero vai ainda explicitar a forma com que a UPF (Universidade de Passo Fundo) vai colocar à disposição dos professores e professoras da educação básica, sobretudo os da rede municipal de Passo Fundo, a sua estrutura e as possibilidades de aperfeiçoamento profissional.

Conheçamos a história deste professor por ele mesmo.

SITE NEIPIES: Professor Altair, quando, como e porquê decidiu ser professor?

Altair Fávero: Fui alfabetizado pela minha mãe, Leontina Bissani Fávero, que completou 88 anos de idade neste ano de 2021. Ela alfabetizou por 31 anos toda uma geração de pessoas no comunidade de Santo Agostinho, interior de Vila Maria/Marau. Sempre digo a ela, que na sua simplicidade de uma professora alfabetizadora que aprendeu a ser professora pela experiência e pela dedicação foi uma excelente educadora.

Me lembro que nos idos da década de 1970 preparava seus diários de classe à luz de vela, pois nem sequer tinha luz elétrica. Tinha numa mesma sala alunos da primeira até a quarta série e mesmo assim conseguiu contornar os desafios de alfabetizar toda uma geração. Ainda hoje é chamada de professora na comunidade. Duas das minhas irmãs (Marilene Fávero Turra e Zenaide Fávero Marini) também se tornaram professoras e dedicaram sua vida a levar adiante o legado da mãe. Pensando agora, retrospectivamente, talvez a dedicação de minha mãe e o zelo de minhas irmãs também me impulsionaram para ser professor.

Os primeiros 4 anos de minha escolarização (1975-1978), conforme mencionei acima, estudei com minha mãe na Escola Municipal Santos Dumont. Eram tempos difíceis, de poucos recursos e nas comunidades do interior a vida escolar terminava na quarta série. Como desde pequeno fui instigado a seguir a vida religiosa, em 1979 ingressei como interno no Colégio Gabriel Taborin de Vila Maria e lá permanecei até a oitava série. O Colégio era mantido pelos irmãos da Sagrada Família e nesses quatro anos, certamente, deve ter tido o auge do número de alunos. Me lembro que no ano que ingressei havia quase 120 alunos internos, além dos alunos externos que somente frequentavam as aulas. Entre 1983 a 1985 cursei o Ensino Médio no Seminário Nossa Senhora Aparecida em Passo Fundo. Foi um tempo precioso, pois tive a oportunidade de ter bons professores, uma vasta biblioteca e principalmente a sistemática de estudo que carrego comigo até hoje. Tínhamos aula de segunda à sábado das 7h20 até 12h15, estudos a tarde e à noite. Além das disciplinas tradicionais do ensino médio, tive o privilégio de estudar latim, inglês e francês. Foi um tempo muito especial, pois os padres que na época acompanhavam os seminaristas tinham uma significativa trajetória de envolvimento pastoral.

De 1986 até 1989, realizei o Curso de Licenciatura em Filosofia na UPF e certamente foi um dos momentos mais importantes de minha vida que se tornaram decisivos para ser professor, pois além do aprendizado realizado na Universidade, também tive um intenso envolvimento com a Pastoral da Juventude (PJ). Na Universidade, tive a oportunidade de estudar as grandes tradições filosóficas com excelentes professores que marcaram minha vida como o professor Elli Benincá, Gilvan Hansen, Luiz Carlos Luckmann, Eldon Henrique Mühl, Jaime Giolo, dentre outros.

Além dos professores, tínhamos um grupo de colegas altamente engajados em conhecer a filosofia e suas tradições. Organizamos desde os primeiros semestres grupos de estudos e usávamos parte das férias para aprofundar temáticas que não tinham sido suficientemente abordadas nas aulas.

Com o professor Benincá nos envolvemos em projetos de pesquisa, como trabalho voluntário, e posso dizer com toda segurança que foram estes engajamentos que se tornaram o diferencial em minha formação e também dos colegas. Concomitante, a formação acadêmica também tinha o engajamento pastoral, principalmente no trabalho com os jovens. Foram anos intensos de estudos, de assessorias e aposta num projeto de mudança, de democratização do conhecimento e de compromisso com a mudança social. Foram incontáveis os finais de semana que assessorei grupos de jovens nas comunidades do interior e nas paróquias da Diocese de Passo Fundo.

No segundo semestre de 1989, fiz meu estágio numa turma de segundo ano de Ensino Médio do Menino Deus. A experiência de estágio foi tão significativa e me senti tão realizado que decidi desistir da vida religiosa e me tornar professor. Em fevereiro de 1990 fui contratado como professor de Filosofia e Sociologia no Colégio Notre Dame e como professor de Ensino Religioso no Colégio Bom Conselho. Aí se iniciou uma caminhada que já completa 31 anos.

Difícil dizer em poucas palavras porquê me tornei professor, mas posso dizer retrospectivamente que foram 3 grandes motivos: a) por sentir que a sala de aula é o melhor espaço para compartilhar conhecimentos e socializar as aprendizagens; b) por acreditar que a educação transforma pessoas, estruturas e realidades; c) por perceber que nas crianças e na juventude está a esperança de construir um país decente para se viver.

SITE NEIPIES: Quais são, na sua visão, os maiores desafios e as maiores realizações da profissão docente?

Altair Fávero: Ser professor não é tarefa fácil, pois implica defrontar-se com a complexidade do processo educativo. Os que dizem que ser educador é tarefa simples e qualquer um é capaz de fazer, ou não sabe o que está dizendo ou simplesmente banaliza aquilo que que há de mais importante no ser humano, sua formação.

Em seus escritos Sobre Pedagogia, o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) dizia que a Educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações.

Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações anteriores, tem a possibilidade de estar melhor aparelhada para exercer uma educação que desenvolva melhor as aptidões de cada um, e assim poder melhorar a própria espécie.

Nós não nascemos prontos, nascemos com potencialidades que podem ou não ser desenvolvidas. Por isso que a educação talvez seja o maior e o mais árduo problema que a humanidade precisa enfrentar. Por isso, sabiamente, Kant diz que “não se deve educar as crianças segundo o presente estado da espécie humana, mas segundo um estado melhor, possível no futuro, isto é, segundo uma ideia de humanidade e de sua inteira destinação”.

É nesse sentido que acredito que a educação pode fazer a diferença não só para a vida individual das pessoas, mas para sociedade como um todo.

Não é possível construir uma grande nação ou um lugar mais decente para viver sem a educação. No entanto, isso está completamente esquecido na realidade brasileira, nos discursos e práticas de muitos governantes e no entendimento de um grupo expressivo de pessoas influentes que compreendem a educação como um negócio para ganhar dinheiro e com isso mercantilizaram os processos formativos. Temos realizados muitos estudos junto ao Gepes nessa direção.

Em 2019, nos debruçamos longamente sobre o livro A escola não é uma empresado pesquisador francês Christian Laval (2004). Desses estudos produzimos diversos artigos dentre eles destaco: “A subjetivação capitalista enquanto mecanismo de precarização do trabalho docente na educação superior” (Fávero; Bechi, 2020), “Escola conveniada ou charter school? Uma abordagem sobre termo de colaboração entre a prefeitura e o terceiro setor para oferta da educação básica em Porto Alegre” (Fávero; Consaltér e Pires, 2020), “O Neoliberalismo Pedagógico como Produto do Sujeito Empresarial: ameaças à democracia educacional” (Fávero; Tonieto e Consaltér, 2020), “Quando a educação se torna um negócio: ideologia neoliberal na educação e a cristalização do novo senso comum pedagógico” (Fávero e Trevisol, 2020); “A lógica do mercado e suas implicações nas políticas e processos de avaliação da Educação superior” (Fávero; Consaltér e Tonieto, 2020) e “Os impactos da globalização sobre a Educação do Campo: políticas públicas de resistência” (Stefanello e Fávero, 2020). Além de todos estes artigos o Gepes também produziu a volumosa coletânea Leituras sobre Educação e Neoliberalismo (Fávero; Tonieto e Consaltér, 2020), composta de 22 capítulos, publicada pela editora CRV de Curitiba.

Esse cenário desanimador e cruel de mercantilização da educação pode ser enfrentado se tivermos a capacidade de pensar em outras perspectivas. O próprio Gepes caminhou nessa direção em 2020, quando se debruçou sobre os estudos da filósofa Martha Nussabaum que pensa a educação a ideia de sociedade e de educação para além da limitada perspectiva econômica. Estuados diversas obras de Nussbaum dentre as quais destaco Sem fins lucrativos (Nussbaum, 2017), Fronteiras da Justiça (Nussbaum, 2013), El cultivo de la humanidade (Nussbaum, 2005), Educação e Justiça Social (Nussbaum, 2014), Crear capacidades (Nussbaum, 2012) dentre outras.

Os intensos estudos realizados durante o ano de renderam a publicação da coletânea Leituras sobre Marta Nussbaum e a educação (Fávero; Toneito; Consaltér e Centenaro, 2021), também publicada pela CRV/Curitiva e um conjunto de artigos, alguns dos quais já estão publicados: “Reforma do Ensino Médio no Brasil e crise mundial da educação: uma análise reflexiva da flexibilização das humanidades na educação básica” (Fávero; Centenaro e Costa, 2019) e “Reformas curriculares e o ataque ao pensamento reflexivo: o sutil desaparecimento da filosofia no currículo da Educação Básica no Brasil” (Fávero; Centenaro e Santos, 2020).

Tentando ser objetivo, pois a pergunta renderia um livro, penso que são muitos os desafios nos dias atuais para a profissão docente.

Me atrevo a elencar alguns: a) tornar a educação o centro das atenções de governantes e da sociedade de modo geral; b) fortalecer e qualificar a escola pública; c) aproximar a universidade da educação básica; d) qualificar e vitalizar a profissão docente; e) combater o pensamento autoritário/fascista que tem tomado conta do cenário político e nas redes sociais; f) reabilitar certos valores fundamentais para a educação como solidariedade, diálogo e justiça social; g) defender a ciência como ferramenta imprescindível para exercer a educação e combater o obscurantismo; h) aproximar a escola da comunidade onde está inserida; i) formar novas lideranças políticas que possam colocar de volta a sociedade nos eixos (talvez seja importante adjetivar); j) qualificar o debate sobre educação nos meios de comunicação e nas redes sociais; l) tornar a profissão docente tão interessante e valorizada que as crianças e os jovens queiram ser professores.

Me considero muito realizado como professor e se tivesse uma outra vida, certamente gostaria de ser professor novamente. Nestes mais de 30 anos de profissão, tive a oportunidade de ser professor de muitos alunos. Certamente minha atuação não influenciou positivamente em todos eles. Certamente, muitos dos milhares que passaram pelas minhas aulas nem sequer lembram que fui seu professor. Mas um grupo significativo de bons profissionais de distintas áreas do conhecimento eu acredito ter feito a diferença em sua formação.

Guimarães Rosa já dizia que o professor é aquele que escreve na rocha, pois sua atuação deixa registros profundos na vida de seus alunos. Acredito nisso, e talvez seja exatamente essa crença que me leva todos os dias a tentar ser um pouco melhor e fazer com que outros também sejam bons professores.

SITE NEIPIES: Desde quando trabalha com formação de professores? O que lhe encanta nesta tarefa de formar educadores?

Altair Fávero: Sou professor da UPF desde 1992. Todos estes anos sempre trabalhei nos cursos de licenciatura. Em todos estes anos tive a oportunidade de trabalhar com muitos alunos que se tornaram professores.

Além de trabalhar com as licenciaturas, ministrei muitas aulas em Cursos de Especialização lato sensu e muitos deles eram voltados para a formação de professores. Além disse atuei em muitos cursos de formação continuada. Durante mais de uma década estive a frente com alguns colegas no belo e exitoso projeto Educação para o Pensar – Filosofia com Crianças e Jovens. Por meio deste projeto realizamos mais de 300 cursos em centenas de escolas do Rio Grande do Sul e em outros estados. Ao todo foram mais de 2 mil professores que realizaram algum dos módulos de formação ligado a esse projeto. O combustível que sempre me moveu em atuar na formação de professores é atualizar a ideia de que não se zela bem da educação se não houver um processo cuidadoso de formação dos seus educadores. Educar o Educador foi o título de um livro que escrevi em parceria com a professora Carina Tonieto, publicado em 2010 pela editora Mercado de Letras que aborda algumas reflexões sobre a formação docente. Penso que é nessa direção que deveríamos pensar as políticas educacionais em seus diversos âmbitos. Não podemos falar em educação de qualidade sem cuidar da formação docente.

No entanto, não se pode confundir formação com treinamento ou com titulação. Há muitos treinamentos que podem ser qualquer coisa, menos formação. Há treinamentos que deformam, que imbecilizam e que prestam um desserviço à educação. Há treinamentos realizados por certas instituições que estão mais preocupadas em ganhar dinheiro do que em oportunizar formação para os professores.

Escrevi com a pesquisadora Rosimar Esquinsani (2011), o artigo “Me ame, me abrace e me acolha! Saberes docentes e políticas de formação continuada” onde analisamos e denunciamos a profusão de cursos e eventos que apelam para a afetividade como argumento de metabolismo para o cotidiano dos professores. Também com meu orientando de doutorado Evandro Consaltér (2018) escrevi o artigo “Pedagogia do afeto e a banalização da formação continuada de professores: uma análise da literatura de autoajuda nos processos formativos”, onde analisamos a banalização dos processos de formação continuada de professores a partir da pedagogia do afeto que se materializa por meio da literatura de autoajuda para professores. 

Na mesma direção também escrevi com Carina Tonieto e Evandro Consaltér (2019) o artigo “Relaxar ou Refletir? um Ensaio sobre a Formação Continuada de Professores em Escolas Públicas do Rio Grande do Sul”, onde analisamos 11 projetos de formação continuada executadas por 11 escolas estaduais da região Norte do Rio Grande do Sul. No artigo mostramos que tais projetos indicam que a formação continuada de professores nem sempre prima por um processo reflexivo e que muitas vezes acaba caindo na banalização da literatura deauto-ajuda  e de alguns momentos de relax diante do estressante exercício da profissão.

A distinção entre titulação e formação também é importante de ser esclarecida, pois muitos acreditam que ter em mãos um diploma ou um certificado é suficiente para ser professor. Assim, temos hoje muitas instituições com credibilidade duvidosa que literalmente vendem diplomas. Por conta disso, muitos tem tomado o caminho mais fácil para serem professores. Realizam cursos de curta duração, muitos deles à distância, e em pouco tempo tem em mãos o título de graduado em pedagogia ou em qualquer outra licenciatura.

Muitos destes “titulados”, realizaram o “curso” de qualquer jeito, mandando fazer trabalhos, cumprindo protocolos para ter aprovação das disciplinas, nem sequer fizeram estágio, tem dificuldade de leitura e interpretação, muitos com muita dificuldade de escrita e elaboração e se tornam professores. Que tipo de professores? O que tem a oferecer a seus alunos? Que visão de ciência, de conhecimento, de sociedade, de cultura carregam em sua bagagem formativa? Certamente, uma forma muito reduzida de compreender o mundo e o universo educacional.

Não se resolve o problema da educação com titulação, nem com compra de “pacotes formativos”, muito menos com discursos vazios e boas intenções. Educação exige planejamento, investimento, escola pública de qualidade, formação de professores e políticas públicas articuladas.

SITE NEIPIES: Qual é a importância a formação continuada e permanente de professores?

Altair Fávero: Em nosso tempo, toda e qualquer profissão exige atualização, formação continuada, aprendizagem em exercício.  São muitos os nomes e não tenho espaço aqui para fazer as distinções. Talvez, em tempos mais antigos, tal exigência não seria uma obrigação tão rigorosa, mas hoje isso é condição de sobrevivência, de dignidade da própria profissão. Na educação escolar não poderia ser diferente. No entanto, o que se vê é que muitos professores ainda não entenderam essa exigência.

Em minhas andanças pelas escolas, ouvindo o depoimento de alunos que recentemente saíram da educação básica, ou tomando contato com as pesquisas que se debruçam sobre a problemática, há narrativas assustadoras de “professores” (coloco entre aspas, porque talvez não deveriam ter esse título) que cometem verdadeiro epistemicídio pedagógico em suas práticas. São professores que estão na escola, mas não deveriam estar; são professores que até podem ter uma titulação, mas não deveriam estar exercendo a profissão; são pessoas que pararam no tempo, que não estudam, não lêem, não problematizam suas práticas, geralmente tem uma postura autoritária ou fazem o jogo dos “coitadinhos”; acreditam erroneamente que o magistério é uma “vocação” ou que escolheram errado sua profissão; reclamam do salário, da falta de respeito dos alunos, da má qualidade da escola pública, das condições de trabalho e da vida infeliz. São poucos, mas estão presentes em muitas escolas.

Minha hipótese é de que muitos destes agiriam de forma diferente se houvesse autênticos e democráticos processos de formação continuada nas escolas. O professor não está pronto no dia da formatura e não são seus 10 ou 20 anos de experiência que o tornam melhor ou pior professor.

O professor se torna melhor quando consegue pensar sobre sua própria condição profissional.

Nesse sentido, concordo com António Nóvoa quando diz que “a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal” (1995, p. 25).

SITE NEIPIES: “Uma escola boa é a escola onde os professores estudam”. Por quê?

Altair Fávero: Gosto muito dessa frase, que não é minha, mas do saudoso Gilberto Dimenstein, jornalista educador, falecido recentemente vítima de um câncer. Ouvi essa frase na conferência “O aprendiz do futuro” proferida pelo próprio Dimenstein em agosto de 2000 num evento em Porto Alegre. Desde então tenho incorporado essa frase com um princípio pedagógico fundamental para pensar a educação de qualidade. Essa frase também tem relação com a ideia de Paulo Freire que que o ser humano é um ser inacabado.

Eu diria que o professor é um ser inacabado e quem consegue compreender isso percebe que o SER PROFESSOR é um processo continuo de construção. Essa construção se dá por meio do estudo, de vivência, de práticas e do exercício permanente de reflexividade crítica de sua própria ação. Só consegue fazer isso o professor que pensa, que ama o que faz, que sistematiza sua prática, que tem um referencial teórico para analisar sua ação e, principalmente, que tem na profissão um projeto de vida. Essa é a diferença entre um autêntico professor e um simples técnico/instrutor que faz da profissão uma ocupação para sobreviver.

SITE NEIPIES: Uma das formas de mudar as práticas pedagógicas é através da sistematização. Por que esta prática, embora reconhecida como exitosa, ainda é pouco praticada pelo conjunto de professores e redes de ensino?

Altair Fávero: Um dos meus grandes mestres foi o saudoso professor Elli Benincá, falecido recentemente. Como poucos, Benincá foi um mestre no profundo sentido do termo. Foi com ele que aprendi muito do que sou como professor e pesquisador. Ainda no final dos anos de 1980 quando fui seu aluno, aprendi que a melhor forma de compreender algo é sistematizar em forma de registro, de preferência por meio da escrita. Isso serve para uma aula, uma prática, uma pesquisa ou mesmo por meio da vivência.

Padre Elli Benincá, em entrevista à UPF (Universidade de Passo Fundo).

Me recordo até hoje de um dos seus depoimentos em uma de suas aulas de Filosofia da Educação quando falava da importância do registro como forma de reflexão da ação. Contava ele sobre a situação de uma senhora viúva que numa determinada ocasião foi procurá-lo para buscar conselhos para contornar os conflitos diários que tinha com a filha adolescente.

A indicação do Mestre Benincá foi simples: “pegue um caderno ou qualquer papel que possibilite você registrar teus sentimentos, o que te incomoda todas as vezes que vocês tem conflitos; faça isso sempre que possível, até diariamente se for necessário; faça seus registros sem que sua filha perceba; daqui a um mês você retorna para conversarmos novamente”. Passaram-se duas semanas a senhora retornou dizendo: “teve uma transformação profunda; depois de uma semana que comecei a fazer registro minha filha me perguntou: ‘o que está acontecendo contigo mãe? Você está diferente, está mudada, não briga mais comigo, não me julga, está interessada no que eu faço, no que eu penso, no que estou sentido”.

Esse sábio ensinamento do mestre Benincá é uma ferramenta poderosa de reflexividade da própria prática. Quando me tornei professor, incorporei boa parte desses ensinamento “benincanianos” nas minhas práticas.

Me recordo, por exemplo, que quando atuei como professor na Escola Menino Jesus e fiz parte da equipe de coordenação pedagógica da escola, incorporamos essa prática de registro nos conselhos de classe. Cada professor fazia seu registro do semestre e no conselho fazia a leitura do mesmo. É interessante porque os professores se transformavam. Aquele espaço tenso de deliberação, de queixas, de conflitos, se tornava um lugar de compartilhamento de experiência, de proposições, de possibilidades.

Foi a prática de registro que me tornou pesquisador. A pesquisa é exatamente isso: a capacidade de sistematizar o estudo, as investigações, o exercício de síntese das problemáticas investigadas.

Infelizmente, são poucos os professores que realizam o trabalho de registrar suas próprias práticas, até porque escrever leva tempo, exige rigor, disciplina, disposição. Nem todos gostam de se defrontar com seus próprios dilemas e dificuldades que a prática da escrita revela. E talvez esse seja o desafio te tornar a escola um espaço em que o professor estuda. A dinâmica escolar tem sido “exageradamente tarefeira”.

Vivemos, nos últimos anos, e agora mais do que nunca, um intenso e perverso processo de precarização do trabalho docente que se traduz na regressão dos direitos do professores, no aumento da carga horário de trabalho, na atuação em duas ou até quatro escolas, na agressão de pais e alunos, nos julgamentos irresponsáveis da grande mídia que criminaliza o professor.

Se faz muitas coisas na escola e muitas vezes a sociedade delega funções à escola que não deveriam ser sua tarefa. Às vezes são atividades desconexas e muitas vezes vazias ou interesseiras que se esgotam na própria atividade. O espaço escolar deveria ser o espaço do conhecimento, do estudo, da vivência, também do professor. Está posto o desafio para gestores pensar carinhosamente nesta direção.

SITE NEIPIES: Qual é a importância de um professor qualificado, que busca pós-graduações, mestrado ou doutorado?

Altair Fávero: Desde 2008, sou pesquisador e docente permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado e Doutorado) da UPF, atuo no alinha de Pesquisa em Políticas Educacionais e, nos últimos três anos, excerço a função de coordenador do Programa.

O Mestrado e o Doutorado até pouco tempo eram realidades distantes para muitos professores da educação básica, mas hoje pode ser uma realidade bem próxima para muitos que estiverem interessados em fazer a diferença nos seus espaços de trabalho.

Temos hoje muitos mestrandos e doutorandos que são professores da educação básica e certamente farão a diferença em sua atuação na escola e na sala de aula se tornarem as problemáticas da prática objeto de investigação. Mas para isso é necessário realizar um processo de planejamento conjunto entre secretarias de educação, escolas e universidade para que os professores possam ter as condições para realizar adequadamente o processo de formação e que suas pesquisas possam estar focadas nas problemáticas das escolas. Para os professores que tem a oportunidade de realizar um mestrado ou doutorado num bom programa de pós-graduação a formação pode se revelar uma poderosa ferramenta para autoavaliar sua trajetória profissional. Escrevi sobre isso um artigo com Aline Silva e Aline Bordin (2019) um artigo intitulado “Autoavaliação como Recurso Formativo e Formador: da Educação Superior ao Contexto Escolar” no qual discutimos a importância dos processos de autoavaliação e de reflexão que podem se fazer presentes na formação e atuação docente. O artigo problematiza o papel da educação superior no trabalho com o tema no contexto da formação inicial e continuada de professores, bem como no enfrentamento dos desafios de se consolidar como espaço de construção de saberes indispensáveis à profissionalização docente.

SITE NEIPIES: O que o PPG-EDU (Programa de Pós-graduação) da UPF tem a oferecer ao conjunto dos docentes neste momento histórico?

Altair Fávero: Nosso programa tem avançado na direção de um diálogo com a Educação Básica. Há diversos projetos que estão focados em problemáticas da Educação Básica. Eu mesmo coordeno um projeto sobre Políticas Curriculares para o Ensino Médio que tem por escopo acompanhar o processo de implantação do Novo Ensino Médio nas 10 escolas piloto da 7ª Coordenadoria de Educação. Com a indicação do Dr. Adriano Teixeira para a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo estão se abrindo diversas possibilidades de parcerias que vai da formação de professores a realização de convênios para oportunizar que professores da rede possam fazer mestrado e doutorado na UPF.

De certa forma, a preocupação com a Educação Básica tem sido uma das metas do PPGEdu. A título de exemplificação, das 82 dissertações defendidas nos últimos 4 anos, 39 delas dialogam diretamente com a educação básica; e das 38 teses defendidas no mesmo período, 6 delas estão focadas na educação básica. Somando temos um percentual de 45% das teses e dissertações focadas na educação básica. Penso que nos próximos anos podemos avançar muito nessa direção.

Eu não tenho dúvidas que a presença comprometida de mestres e doutores nas escolas melhora a qualidade formativa. Mas para isso é necessário planejamento e transformar a própria escola e as salas de aula, em comunidades de investigação.

Infelizmente, nem todas as gestões municipais tem compreensão, conhecimento ou vontade política do potencial que existe na Universidade para qualificar os processos formativos das escolas. Não se trata de dizer que a Universidade e a Pós-graduação tem as respostas ou as “receitas” para solucionar as problemáticas do cotidiano das escolas. Isso seria ilusório e cair na mesma vala que a “mercantilização dos pacotes formativos” oferecem e que muitos municípios acabam “comprando”.

Realizar um mestrado ou doutorado tendo como objeto de pesquisa as problemáticas da escola, pode aprimorar ferramentas metodológicas e referenciais teóricos que nos possibilitam “ver” e compreender de forma mais alargada as próprias problemáticas e assim enfrentá-los com mais sabedoria e discernimento.

SITE NEIPIES: Por que os docentes, historicamente, manifestam-se muito pouco acerca das questões educacionais, sendo eles os sujeitos que operam a educação, na prática cotidiana?

Altair Fávero: Infelizmente, nossos processos educativos primam pouco pela escrita. Se copia muito e se escreve pouco. Copiar não é escrever. Encher um caderno ouelaborar gigantescos relatórios mecânicos do “cópia e cola” não é escrever, muito menos estudar. A escrita exige pensamento, ideias, reflexões, conhecimentos, interpretações, elaborações. Escrever é um exercício intelectual exigente, pois implica em colocar no papel um conjunto de proposições que precisam ter coerência, consistência e validade.

Escrever é um ato de compromisso com o que está sendo escrito, com a divulgação de ideias, com o posicionamento sobre algo. Escrever exige tempo, maturidade, ousadia, sutileza, sensibilidade. O ato de escrita mobiliza um conjunto de habilidades, competências e capacidades que extrapola o ato mecânico de juntar palavras. Digo tudo isso para considerar algumas das razões pelas quais os professores, infelizmente escrevem pouco e quando escrevem, dificilmente escrevem sobre suas práticas.

Alguns podem objetar dizendo que hoje em dia as coisas são diferentes, que as redes sociais estimularam a escrita, que qualquer um emite mensagens no Facebook, no Instagram ou no Twitter. No entanto, se prestarmos atenção, veremos que há muita cópia e imagem, mas pouca escrita.

As pessoas se limitam a compartilhar, comentar atropelando a gramática e ortografia, apoiando ou condenando certas polarizações, mas dificilmente escrevendo. Num mundo sem lei das redes sociais, as fakes news se tornaram a ordem do dia. Penso que a escola e a sala de aula, também deveriam ser um espaço e um tempo importante para auxiliar os próprios professores e os alunos para não embarcarem em qualquer compartilhamento e para distinguir uma fake news de um fato. Para isso é necessário reflexão, pensamento crítico, capacidade de interpretação, sensibilidade ao contexto, exercício de escrita, comunicação clara. 

SITE NEIPIES: O que a pandemia acrescenta como desafios da educação?

Altair Fávero: Existem algumas pautas da educação que são perenes, que precisam ser permanentemente propostas e revistadas, que não envelhecem enquanto temática de discussão e investigação. Dentre elas destacam a questão da formação continuada, o problema da relação teoria e prática, o papel das tecnologias da educação.

O pesadelo da pandemia que atinge o mundo recoloca estas pautas em outras trilhas que precisam e, portanto, precisam ser repensadas a partir de outras bases e em outras direções. A forma abrupta com que se instauram os efeitos da pandemia para a sociedade e de forma pontual para a escola, a decretação do isolamento social, os conflitos ideológicos e sanitários que se estabeleceram exigem uma profunda e cuidadosa reflexão que não pode ser terceirizada e nem adiada.

Não resta dúvida que a pandemia está mudando as relações pedagógicas e que, possivelmente, irá afetar a organização escolar no cenário pós-pandemia. Isso significa que está em curso uma ressignificação da relação teoria e prática e mesmo a forma como a escola se relaciona com a sociedade e com o mundo das tecnologias.

Por seu turno, a formação de professores também está sendo profundamente afetada e passará por diversas mudanças a curto e médio prazo. Como os professores irão enfrentar seus próprios medos e inseguranças de um mundo em transformação, que exige todo um cuidado de higiene e distanciamento? Como não se deixar seduzir por soluções fáceis que reduzem a educação a uma simples instrumentalização por plataformas digitais? De que forma enfrentar os traumas ocasionados pela própria pandemia?

Que estratégias mobilizar para combater ou neutralizar o obscurantismo ou o fanatismo religioso que tomou conta da vida de muitas pessoas e que coloca em risco certas conquistas fundamentais para a existência de uma sociedade democrática? Como ajudar os alunos para que saibam distinguir notícias falsas (fakes news) que circulam nas redes sociais, em sites criminosos de notícias baseadas em fatos de um bom jornalismo?

Como evitar que o terrorismo virtual dissemine o ódio, a violência e as mais variadas formas de perversão?  São questões complexas, problemáticas e de difícil solução. No entanto precisam ser apresentadas como pautas importantes para o debate educacional do presente e do futuro.

SITE NEIPIES: Que mensagem deixa para os que leram entrevista até aqui.

Altair Fávero: Me agrada pensar com Anísio Teixeira que a educação não é privilégio e sim direito.Talvez uma das lutas mais importantes que precisam ser enfrentadas por todos é justamente a defesa desta bandeira: A educação é um direito de todos.

Mas tal bandeira não pode ser apenas um discurso retórico ou uma frase pronta para ser dita num palanque eleitoral. Ela deve estar na plataforma de cada cidadão, de cada brasileiro, de cada profissional que quer um país decente para viver. Sua materialidade, no entanto, depende de políticas públicas bem articuladas, de investimentos robustos e de uma escola pública fortalecida e qualificada.

Somo minha convicção às vozes de Jan Masschelein e Maarten Simons, dois pesquisadores da Universidade de Louvain (Bélgica), que estarão no PPGEdu no dia 10 de novembro, participando da IV Mostra de Educação organizada pelos mestrandos, doutorandos e egressos do PPGEdu da UPF (todos estão convidados à participar). Em 2013 os referidos pesquisadores publicaram o livro Em defesa da escola: uma questão pública, traduzido para o português em 2017.

Me somo a eles quando dizem que “exatamente hoje – numa época em que muitos condenam a escola como desajeitada frente à realidade moderna e outros até mesmo parecem querer abandoná-la completamente – que o que a escola é e o que ela faz se torna claro: a escola oferece um tempo livre e transforma o conhecimento e as habilidades em ‘bens comuns’, e, portanto, tem o potencial para dar a todos, independentemente de antecedentes, talento natural ou aptidão, o tempo e o espaço para sair de seu ambiente conhecido, para se superar e renovar o mundo”. É em defesa dessa escola que mobilizo minhas energias que me fazem acreditar na educação.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Referências mencionadas na entrevista:

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. Educar o educador: reflexões sobre formação docente. Campinas: Mercado de Letras, 2010.

FÁVERO, Altair AlbertoESQUINSANI, Rosimar Serena Siqueira. Me Ame, Me Abrace, Me Acolha! Saberes Docentes E Políticas De Formação Continuada. Contrapontos (UNIVALI), v. 11, p. 1-8, 2011. Disponível em: https://siaiap32.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/2430

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro. Pedagogia do Afeto e a Banalização da Formação Continuada de Professores: uma Análise da Literatura de Autoajuda nos Processos Formativos. Atos de Pesquisa em Educação (FURB), v. 13, p. 394-411, 2018. Disponível em: https://proxy.furb.br/ojs/index.php/atosdepesquisa/article/view/6292

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro. Relaxar ou Refletir? um Ensaio sobre a Formação Continuada de Professores em Escolas Públicas do Rio Grande do Sul. Imagens Da Educação, v. 9, p. 95-112, 2019. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ImagensEduc/article/view/45420

FÁVERO, Altair AlbertoBECHI, Diego. A subjetivação capitalista enquanto mecanismo de precarização do trabalho docente na educação superior. Archivos Analíticos de Políticas Educativas / Education Policy Analysis Archives, v. 28, p. 13-24, 2020. Disponível em: https://epaa.asu.edu/ojs/article/view/4891

FÁVERO, Altair AlbertoCONSALTÉR, Evandro ; PIRES, Daniela de Oliveira. Escola conveniada ou charter school? Uma abordagem sobre termo de colaboração entre a prefeitura e o terceiro setor para oferta da educação básica em Porto Alegre. Revista Espaço Pedagógico, v. 27, p. 110-130, 2020. Disponível em: http://seer.upf.br/index.php/rep/article/view/10577

FÁVERO, Altair AlbertoTONIETO, CarinaCONSALTÉR, Evandro. O Neoliberalismo Pedagógico como Produto do Sujeito Empresarial: ameaças à democracia educacional. Currículo Sem Fronteiras, v. 20, p. 233-250, 2020. Disponível em: http://curriculosemfronteiras.org/vol20iss1articles/favero-tonieto-consalter.pdf

FÁVERO, Altair Alberto; TREVISOL, Marcio Giusti. Quando a educação se torna um negócio: ideologia neoliberal na educação e a cristalização do novo senso comum pedagógico. Educacão Unisinos (ONLINE), v. 24, p. 1-19, 2020. Dipsonível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/educacao/article/view/edu.2020.241.18

FÁVERO, Altair Alberto; CENTENARO, Junior Bufon; SANTOS, Antonio Pereira dos. Reformas curriculares e o ataque ao pensamento reflexivo: o sutil desaparecimento da filosofia no currículo da Educação Básica no Brasil. Revista Digital de Ensino de Filosofia, v. 6, p. 1-17, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/refilo/article/view/42599

FÁVERO, Altair AlbertoCONSALTÉR, Evandro ; TONIETO, Carina. A lógica do mercado e suas implicações nas políticas e processos de avaliação da Educação superior. Educar Em Revista, v. 36, p. 1-20, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602020000100145&tlng=pt

FÁVERO, Altair Alberto; COSTA, Daiana Rodrigues; CENTENARO, Junior Bufon. Reforma do Ensino Médio no Brasil e crise mundial da educação: uma análise reflexiva da flexibilização das humanidades na educação básica. Ensino Em Re-Vista, v. 26, p. 656-676, 2019. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/emrevista/article/view/50979

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa. Londrina: Planta, 2004.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Piracicaba: Editora Unimep, 1999.

MASSCHELEIN, Jan; SIMONS, Maarten. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

NUSSBAUM, Martha. Crear Capacidades: propuesta para el desarrollo humano. Barcelona: Paidós, 2012.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.

NUSSBAUM, Martha. Educação e Justiça Social.Trad. de Graça Lami. Ramada: Lisboa: Pedago, 2014.

NUSSBAUM, Martha. El cultivo de la humanidade:  uma defensa clásica de la reforma em la educación liberal. Barcelona: Paidós, 2005.

NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da Justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução de Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

SILVA, Ivone Maria Mendes; BORDIN, Aline Paula Pochmann; FÁVERO, Altair Alberto. Autoavaliação como Recurso Formativo e Formador: da Educação Superior ao Contexto Escolar. REVISTA FAEEBA, v. 28, p. 70-88, 2019. Disponível em: https://revistas.uneb.br/index.php/faeeba/article/view/7169

STEFANELLO, Flavia; FÁVERO, Altair Alberto. Os impactos da globalização sobre a Educação do Campo: políticas públicas de resistência. Revista Brasileira de Educação do Campo, v. 5, p. 1-21, 2020. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/campo/article/view/10846

FOTOS: Divulgação/arquivo pessoal

Educação e escolarização na era digital

De que forma nossas crianças podem fazer uso das tecnologias sem que se tornem escravos e dependentes delas? Existe uma idade certa para colocar a criança em contato com as tecnologias?

Quando se trata da comunicação, não estamos limitados por fronteiras geográficas como há séculos atrás. A internet revolucionou os relacionamentos, bem como a produção e divulgação de conteúdos que ganhou o reforço e a velocidade que nunca imaginaram nossos pais e avós.

A espera por informações que chegavam em uma carta enviada pelos correios cedeu lugar a segundos de um clique no WatsApp ou no Messenger, a própria escrita cedeu lugar a mensagens de voz motivadas pela pressa do emissor.  A educação e a escolarização de nossas crianças e adolescentes não fica de fora dessa realidade marcada pela facilidade, velocidade e fluidez. 

Ano passado, a pandemia da Covid 19 escancarou, dentre outras situações, a necessidade de pensarmos no uso das tecnologias para a educação e escolarização de crianças, adolescentes, jovens e adultos. Entendemos, para fins deste escrito, que a educação acontece no seio familiar e é reforçada pela escola que oferece acesso a ampla cultura produzida pela humanidade, neste sentido professores reforçam através do ensino de conteúdos valores já presentes, e por vez assimilados desde a tenra idade dos educandos.

Como fazer o uso equilibrado das ferramentas tecnológicas, como não desvalorizar o essencial dos processos formativos, a interação humana que ocorre no contato, no encontro de olhares que se compreendem em suas necessidades, ânsias, angústias e esperanças?  

De que forma nossas crianças podem fazer uso das tecnologias sem que se tornem escravos e dependentes delas? Existe uma idade certa para colocar a criança em contato com as ferramentas do” mundo digital”?

Antes de ensaiar algumas respostas para essas problemáticas quero evidenciar que esse texto é desprovido de intenções doutas, mas tem como objetivo partilhar ” dicas” para a educação e escolarização.

É importante ressaltar que esse olhar indutivo pode destoar de conceitos da psicologia infantil e da experiência daqueles que vivem a missão de paternar e ou maternar.  Desejo que após sua leitura revisite suas vivências, suas concepções de formação humana e as teorias que fundamentam suas práticas, para então, elaborar seu parecer e enriquecer essa partilha.   

O contexto que estamos vivendo há mais de um ano, nos apresenta inúmeros desafios para a educação tanto no âmbito familiar quanto no âmbito escolar.  Sem a pretensão de esgotar o assunto interrogado acima expomos a seguir o que vai fundamentar a exposição do que convencionamos chamar de ” dicas” para bem educar.

“O ensino remoto tem seus problemas, porém uma coisa podemos afirmar: aproximou pais e filhos”. (Rosângela Trajano) Leia mais!

Entende-se por educação um processo que se inicia desde o ventre materno, segundo teorias da ciência o bebê escuta desde a 20º semana de gestação e já cria vínculos com o som da voz de seus pais, sendo assim o que escutamos antes do nascimento, pode interferir em nossos gostos e comportamentos, segundo o canal Danone Nutrícia:

Mesmo antes de as crianças falarem as primeiras palavras, a escuta da linguagem altera a percepção dos sons da fala. Embora no nascimento os efeitos sejam pequenos e sutis, após os seis meses os bebês começam a mostrar clara preferência pela linguagem. No entanto, o aprendizado de um idioma começa muito antes. Durante o desenvolvimento no útero, o cérebro sofre alterações que podem ser influenciadas em algum grau pela fala a que estão expostas. O bebê não apenas começa a aprender um idioma e suas nuances, mas aprende as características específicas da voz da mãe[1]”.

Deste ponto de vista ouvir boas músicas, ler histórias para o bebê ainda no ventre, pode ser, mesmo que de forma sutil, útil para o desenvolvimento de crianças apaixonadas pelo mundo da leitura, com habilidades e competências que contribuem na escolarização dos pequenos. Para bem educar seu filho (a) apresente-o (a) para os livros, leia para eles e com eles, incentive com seu exemplo. Opte por contos de fada, histórias que contemplem a magia, visto que precisamos acreditar em um outro mundo possível, desenvolver mística e espiritualidade que nos ajudem suportar as agruras da realidade.

Para essa primeira dica tomamos como significado para magia o que nos informa o dicionário Aurélio, segundo esse “magia é a arte, ciência ou prática baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos não naturais, valendo-se da intervenção de seres fantásticos e da manipulação de algum princípio oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de fórmulas rituais ou de ações simbólicas”. 

A humanidade carece dessas leituras, a natureza “geme em dores de parto (Rm 8,22) aguardando o nascimento de uma nova consciência. Essa novidade depende também da educação familiar e escolar, de atitudes pautadas na admiração e no respeito por todas as formas de vida.

Essa formação que julgamos iniciar no ventre materno, não se conclui com a alfabetização, nem com o final da educação básica e ou escolha de uma profissão. Ao contrário, entendemos que o ser humano está aberto a múltiplas possibilidades que se apresentam ao seu ser, como já defendiam alguns filósofos existencialistas, dentre os quais salientamos Kierkegaard, Heidegger. 

Essa concepção de formação também está em sintonia como o filósofo, pedagogo e sociólogo Paulo Freire que costumava dizer “Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele[2]”.  Essa ideia da inconclusão deve permear nossa formação desde a socialização primária, que ocorre no seio da família e se estende para as outras instituições tornando-se secundária, e terciaria se levarmos em conta os espaços virtuais de encontro.

Falando em espaços virtuais de encontro e vivendo uma escolarização que tem perpassado o uso das tecnologias precisamos pensar, repensar e reelaborar a compreensão que temos dessas, como já enunciamos aqui são ferramentas e precisam ser utilizadas como tal, não substituem o diálogo face a face, não tomam o lugar da atenção e do cuidado que precisa ser dado por pais e professores. Um celular e ou tablet não deve ser usado como consolo para lágrima, nem como anestésico para crises infanto juvenis, pelo contrário tal uso deve ser evitado, visto que não traz benefícios nem para a saúde e nem para a socialização indispensável na educação e escolarização.

A esse respeito existem algumas divergências. Não negamos a importância das tecnologias nos processos de ensino aprendizagem, mas questionamos a intensidade e a intencionalidade do uso das ferramentas.

No âmbito familiar é comum que alguns pais presenteiem seus filhos com celulares e tabletes, por vezes a intenção é inserir a criança no contexto de alfabetização digital, ou ainda, igualar o filho a colegas de escola, a outros pares. Infelizmente, na educação familiar, há mãe e pais que usam os equipamentos eletrônicos como distração, consolo diante do choro da criança, em alguns casos isso ocorre ainda na primeira infância. Andrea Ramal falando a redação do G1 enfatiza que:

“Há quem defenda que celulares são objetos só para maiores – é o caso, por exemplo, do filósofo espanhol Enric Puig Punyet, que acredita que os dispositivos digitais não são tão inofensivos como parecem e não deveriam ser usados antes dos 18 anos. Ele próprio integra a tribo crescente dos “desconectados”, pessoas que decidiram apagar seus perfis em redes sociais e desligar a internet. Mesmo sem ir tão longe, cada vez mais estudiosos alertam sobre os riscos envolvidos no uso de celulares por crianças e adolescentes”.

O uso inadequado de celulares, tablets, jogos de entretenimento e de interação online, especialmente por parte das crianças é altamente prejudicial para a educação e escolarização das mesmas; o tempo prolongado em telas causa dependência psicológica, diminui a atenção, em alguns casos reduz o apetite, enfraquece a reação aos estímulos do ambiente, inviabiliza a socialização primaria e secundária o que é altamente prejudicial para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Isto se torna ainda mais grave considerando que na primeira infância ocorre o desenvolvimento do cérebro, para que ocorra de forma saudável e traga benefícios para a escolarização e formação humana é preciso desplugar das tecnologias, dos jogos e das redes sociais. 

A quem realiza a missão de paternar e maternar é aconselhável brincar com as crianças, conversar com elas sobre trivialidades, fazer perguntas, questionar respostas. Que tal brincar com sua filha e com seu filho de pega –pega, de esconde esconde, amarelinha, resta um? 

A melhor coisa é que as crianças tenham contato com mais brinquedos e brincadeiras que desenvolvam a mente e o corpo, pois é preciso um equilíbrio entre os dois. E que não seja permitido a nenhuma criancinha ficar sentada por horas diante de um aparelho eletrônico sem experimentar o correr, pular e brincar vivendo a sensação maravilhosa de espalhar os brinquedos pela casa toda até se cansar. (Rosângela Trajano) Leia mais!

Que tal recuperar os jogos de tabuleiro, de trilha?  Vocês ainda podem ousar e correr na chuva, fazer bonecos com argila.  No ato de brincar a criança vai descobrindo o mundo, criando laços que fortalecem relacionamentos saudáveis, geram confiança e real desenvolvimento cognitivo. Desconectar pode se converter em um ato revolucionário que trava a aceleração de um vício, visto que para o filósofo espanhol Enric Puig Punyet, “A hiperconectividade é prejudicial à saúde, como o tabaco”[3].  Tendo presente o exposto até o momento concordamos com Andrea Ramal:

“Por tudo isso, vale refletir bastante antes de entregar um celular a uma criança antes dos 12 anos de idade. Isso não significa que crianças de 6 ou 7 anos não tenham grandes competências tecnológicas e que não possam usá-las em atividades de lazer ou de aprendizagem, em casa ou na escola. Mas para ter o próprio aparelho eletrônico, com conexão à web e autonomia de uso, é necessário ter a suficiente maturidade intelectual e emocional. O problema não é a tecnologia – que, em si, não é boa nem má -, mas sim o risco de que a internet se torne o único ambiente a partir do qual se vê o mundo. Moderação, equilíbrio e monitoramento são fundamentais”.

 A escolarização, que nesse momento não ocorre sem o uso das tecnologias precisa utilizar do potencial das ferramentas online, usá-las para colocar estudantes em contato com informações e conhecimentos uteis para a vida. Cabe aos professores priorizarem atividades que possam ser realizadas na presença dos familiares, sugerir atividades de criação, produções artísticas desenvolvem a sensibilidade para lermos o mundo com coerência e de forma amorosa, despertando sonhos de uma outra realidade possível, mobilizando esforços humanizadores. 

Por fim, mas sem a pretensão de encerrar o assunto entendemos que a educação iniciada no ventre materno se estende por toda vida, carece de contatos humanos, de intencionalidade formativa. A escola na sua prática pedagógica fortalece a educação que se recebe em casa, daí a importância do diálogo entre as instituições em que ocorre a socialização da criança. Em alguns casos, podemos afirmar com certeza que se faz necessária a reeducação dos pais para que utilizem de forma adequada as tecnologias e ensinem através da palavra e do exemplo a importância das relações e contatos humanos.

Pistas para aprofundar o tema:

  1. Música Desconecta: https://www.youtube.com/watch?v=3ykXuF9Gz7s
  2. Dicas para departamento infantil: https://www.youtube.com/channel/UC89Ayccl0wJeccKDNFhZTnA
  3. Blogspot: https://ministerioinfantiltiaquelly.blogspot.com/

Então, nesse momento você pode estar se perguntando: como fazer ensino remoto então? Será que é retrógrado manter os pequenos longe das telas? 

Autor: Marciano Pereira

Edição: Alex Rosset

[1] https://www.danonenutricia.com.br/infantil/gravidez/desenvolvimento/vinculo-com-o-bebe-na-barriga-ajuda-na-cognicao Acesso 16/04/2021

[2] Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, 1997.

3. http://g1.globo.com/educacao/blog/andrea-ramal/post/celular-para-criancas-partir-de-que-idade.html

[3] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/tecnologia/1487959523_030409.html

A sublime arte de envelhecer

Envelhecer com arte exige a sabedoria dos agradecidos que reconhecem ser tudo graça de Deus, que tudo depende da solidariedade humana, pois sozinhos não somos ninguém, principalmente, na velhice.

Roubei o título do monge beneditino, Anselm Grün, pois fiquei encantado com esse título, que diz mais da metade daquilo que tenho a pretensão de dizer com este artigo.

É sumamente importante saber que se pode viver com arte, mesmo na velhice, e que essa é, uma forma sublime de viver. Pelo que percebo na minha própria vida, o envelhecimento vai chegando de mansinho, como algo que chega, dando mil avisos prévios, que não podem ser ignorados por quem os recebe.

A arte de envelhecer bem, é uma construção que vem de longa data e à medida que a idade chega, exige do construtor redobrada atenção.

Envelhecer com arte supõe que se tenha aprendido a viver, já que a vida é uma longa escola de infinitas oportunidades de aprendizagem. A velhice, pode até não ter mais tantos encantamentos, mas com certeza, nos ensina a ver além das aparências e tem a oportunidade de revelar segredos, que guardou ao longo do tempo, e que ainda podem fazer suspirar profundamente o coração.

Envelhecer com arte, não supõe tanta ciência, mas não dispensa, de forma nenhuma, a sabedoria, principalmente, a sabedoria dos humildes para aceitar que seus passos sejam mais lentos, que seus joelhos já não se dobrem com tanta facilidade e não sejam mais tão firmes.

Não dispensa a sabedoria dos humildes para aceitar as incertezas como companheiras do cotidiano da vida, para aceitar que o olhar esteja constantemente mergulhado no infinito, que os desassossegos sejam companheiros das mateadas no entardecer e que a saudade goste de matear com mil lembranças que ficaram de outros tempos.

Envelhecer com arte é ter a sabedoria dos humildes que aceitam que a mente pode estar dando sinais de esquecimento, que a finitude insista em nos dizer, que o fim pode estar   próximo e que numa busca de consolo e segurança, dizer, como vi escrito na porta do quarto de uma irmã velhinha do Colégio Rosário de Rio Pardo: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde”.

Envelhecer com arte exige a sabedoria dos agradecidos que reconhecem ser tudo graça de Deus, que tudo depende da solidariedade humana, pois sozinhos não somos ninguém, principalmente, na velhice.

É no entardecer da vida que os agradecidos deixam aflorar hinos e cânticos de ação de graças, que os agradecidos deixam brotar preces de gratidão por mil palavras que soaram como se fossem melodias em seus ouvidos e até chegaram ao coração, quem sabe, sofrido pelos desencantos e infortúnios do tempo.

Envelhecer com arte é reconhecer mil gestos de pessoas que, no caminho da vida, se associaram a nós e foram tomando parte da nossa história, gratuitamente, como pessoas amigas.

Envelhecer com arte é manter a alegria que as limitações da vida tentam roubar, é conformar-se por não ter mais os impulsos inovadores da juventude, é não criar perigos imaginários, “sabendo que muitos temores nascem do cansaço e da imaginação”.

Envelhecer com arte é elaborar, ao longo do tempo, uma imagem bonita de Deus, um Deus companheiro que com sua misericórdia torna os nossos pecados pequenos, como nos disse o Papa Francisco, um Deus que protela o castigo que merecemos pelas nossas faltas, até que perca a validade, um Deus que faz abundantes semeaduras no campo da vida, apesar de conhecer, muito bem, a aridez do solo, um Deus que ama, acima de tudo, a justiça e o direito, um Deus que nos enche de bênçãos e de graças diariamente, um Deus que é novo em cada manhã, por isso, supera o prognóstico dos sociólogos.

Quem quer envelhecer com arte, terá que ter também a compreensão que nos relacionamentos, nesta idade, se pode ter decepções com as pessoas que, nos buscavam por utilidade. Mais do que nunca, nesta idade, quem quer ter saúde de alma e de corpo deve selecionar as fontes de abastecimento.

Alguém disse ao ser perguntado pela idade que tinha: “Não pergunte pela minha idade, pergunte pelo que eu ainda posso fazer.”  É uma ótima resposta de alguém que, mesmo sentindo a idade chegando, não se deixa abater por ela e se mantém na ativa e feliz com aquilo que ainda pode fazer.

A arte de viver, que torna a vida sublime, mesmo na velhice, certamente está ao alcance de todos, mas não acontece por acaso. É construção de cada um de nós que reconhece ter se tornado responsável por este dom maravilhoso que é a vida e se tornou um sublime construtor.

Para Iltomar Siviero, “as condições de vida são importantes porque interferem no envelhecimento tardio e até em evitar que certas doenças e demências se manifestem. Mas, por melhor que sejam as condições de vida, elas não atrasam os anos e, com o avanço da idade surgem, gradualmente, dificuldades e lentidão física, afetando diversos órgãos que desafiam as pessoas a buscar novos interesses e formas de relacionamento, impactando, de algum modo, na dimensão pessoal, social e mental/espiritual”. Leia mais!

 Autor: Pe. Euclides Benedetti

Edição: Alex Rosset

O que o mangue pode ensinar às crianças?

No mangue, e a partir dele, as crianças podem aprender muitas coisas bacanas e serem instigadas a pensar de forma reflexiva sobre o cuidado com o planeta e a natureza.

Moro perto de um mangue bonito, desde minha infância. Foi nele onde aprendi a tornar-me mulher, sim, porque como disse a nossa filósofa Simone de Beauvoir, ninguém nasce mulher: é preciso uma força exterior, algo além de si, algo que vem do desconhecido, algo que surge do inquieto para tornar-se mulher além do que está escrito no registro civil.

O mangue me fez ser assim meio mulher desobediente às regras de uma sociedade que todos os dias me cobrava uma beleza física da qual eu não dispunha. Nunca aprendi a andar de salto alto porque meus pés cheios de calos e cortes se acostumaram a pisar na lama do mangue.

O meu mangue ainda resiste às ações humanas. Apesar das construções desenfreadas, do desmatamento, do aterramento e do lixo jogado todos os dias nas suas águas, ele resiste e me proporciona horinhas felizes onde eu posso poetizar vendo um caranguejo passear pelas suas raízes vermelhas, um chama-maré vir me desejar boa sorte ou um peixinho vir brincar comigo.

O meu mangue ainda tem vida e é nele onde renasço todos os dias quando o sol surge e corro para vê-lo se ainda está feliz, sim, porque ser feliz hoje em dia para o meu mangue é uma questão externa e vai além do que ele sente. O homem tem a felicidade do meu mangue nas suas mãos.

No mangue, as crianças podem aprender muitas coisas bacanas e serem instigadas a pensar de forma reflexiva sobre o cuidado com o planeta e a natureza. É preciso uma educação de respeito ao meio ambiente.

A educação ambiental inicia como educação da uma interioridade que gesta a sua comunhão com a exterioridade. E se faz consciência da pertença à teia da vida, em conduta amorosa e ativa, religando o cuidado de si ao cuidado com o derredor. Quem ama, cuida. Não porque necessita cuidar, mas porque deseja”. (Sérgio Augusto Sardi) Leia mais!

As nossas crianças precisam, urgentemente, saber que não se deve jogar lixo nas ruas e nem poluir os rios e mares com garrafas plásticas. Fico triste quando preciso entrar no meu mangue para tirar tanto lixo que as pessoas da minha comunidade jogam dentro dele. Tiro sacos e mais sacos de lixo todos os dias.

Vejo o mangue chorar com tanto lixo. Vejo a vida dos bichinhos serem perdidas por causa da poluição do lixo. Não podemos permitir que continuem invadindo o mangue dessa forma.

É importante que professores, pais e responsáveis ensinem às suas crianças que os mangues são ecossistemas que trazem muitas vidas frágeis. A fauna e a flora do mangue são importantes para a sustentabilidade da natureza.

Devemos educar desde cedo às crianças que moram próximas do mangue a não pescarem caranguejos fêmeas, também, pois poderemos contribuir para a extinção desses bichinhos. Também devemos ensinar às crianças que moram longe do mangue e até mesmo para aquelas que nunca conheceram um sobre a sua importância para as populações que moram em seu entorno de onde retiram os seus alimentos todos os dias.

Chamo atenção dos professores para conscientizarem os seus alunos a preservarem os mangues, pois são lugares onde existem muitas vidas e que se houver um desiquilíbrio ambiental corremos o risco de nunca mais vermos esses bichinhos passeando pela lama que hoje é suja e fétida devido a poluição que se instalou nesses locais onde antes eu podia passear de canoa com os meus pés descalços sem me preocupar de que me cortaria num caco de vidro.

Sim, o mangue está cheio de garrafas de vidro, de vasos sanitários velhos, de escombros e restos de materiais de construções. Quem está sujando o mangue? Nós, os humanos que reclamamos do calor, do tempo que ora esquenta ora esfria e nunca sabemos direito como vai ficar o dia. Por quê? Porque mexemos desenfreadamente na natureza.

Na infância, quando saía da escola a primeira coisa que eu fazia era correr para o meu mangue junto com o meu tio amado que me levava para passear de canoa. Havia muitos caranguejos naquele tempo no meu mangue, muitos camarões, muitos gaviões e urubus, alguns guaxinins e dezenas de chama-marés, lembro-me bem do tesoureiro que cortava as folhas do mangue para se alimentar.

Naquela época o mangue era enorme, parecia um outro mundo. Era um mundo só meu onde eu podia ser a sua princesinha. A coisa que eu mais gostava de fazer naquele passeio com o meu tio era cuidar dos caranguejos pequenos que não conseguiam subir nas raízes das plantas e eu, cuidadosamente, os ajudava a chegar lá no alto perto dos seus pais. Eu era a menina mais feliz do mundo no meu mangue.

Os professores podem ensinar aos seus alunos a como cuidarem do mangue através de vídeos, aulas passeio, ilustrações, poesias e tantos outros materiais que podem se tornar didáticos e ensinarem de uma forma lúdica a preservação desse ecossistema tão importante ao meio ambiente.

Sei que tem poucas poesias sobre o mangue para as criancinhas poderem assimilar com mais facilidade esse conhecimento, mas podemos mostrar para elas através de figuras dos bichinhos que vivem no mangue o quanto eles são importantes às nossas vidas. Do mangue muitas pessoas tiram os seus alimentos, e isso deve ser mostrado às crianças através da contação de histórias que envolvam marisqueiras e catadoras de caranguejos.

Tudo o que tem vida merece respeito. No mangue há uma diversidade de vidas. Os professores podem ensinar aos seus alunos através de vídeos como essas vidas surgem no mangue e o que elas significam para as nossas vivências.

Muitas vezes, a criança não sabe que o camarão que ela come nasceu num mangue ou que um bom goiamum comido numa barraca de praia veio do mangue também. É preciso educar a criança para preservar o mangue das ações humanas que cada vez mais estão o afetando. Se a criança puder fazer algo em prol da sua preservação já estará contribuindo para um mundo melhor e todos nós queremos que o mundo se torne melhor mesmo aqueles que acham fazerem algo quando na verdade só nos causam problemas desflorestando os nossos mangues para construírem casas dentro deles.

Na minha meninice, eu tinha um lugar na canoa do meu tio e um pequeno remo. Eu remava a canoa com os meus bracinhos frágeis e ia entrando mangue adentro à procura de dragões e unicórnios, mas me dava conta que ali existiam bichinhos mais especiais que precisavam da minha ajuda.

Vi, certa vez, um cardume de Tainhas pularem à frente da nossa canoa e quis pegar umas para mim. Eu sentia fome naqueles tempos, pois não tinha comida em casa. E o meu tio muito gentil pegou três Tainhas para eu almoçar naquele dia maravilhoso. Depois daquele dia, descobri que podia trazer comida para casa e alimentar a minha mãe e os meus três irmãozinhos menores. Eu tinha apenas oito anos e uma responsabilidade enorme pela frente.

No mangue, as crianças aprendem que se sujar faz bem à saúde. Aquela criança que vive presa dentro de casa e nunca brinca na areia corre sérios riscos de ter a sua imunidade baixa, ao contrário da criança que mora perto do mangue e se suja de lama, nada nas águas do rio, enfrenta o sol e a chuva para catar os seus caranguejos que se escondem dentro de buracos profundos. A mãozinha vai lá dentro do buraco e com jeito traz o bichinho para fora que servirá para o alimento do dia.

Não estou dizendo aqui que toda criança deva se sujar de lama para ser saudável, mas que um pouco de contato com a natureza propicia o desenvolvimento de um sistema imunológico muito mais forte para o corpo.

Crianças devem conhecer de perto a natureza. Se, desde cedo as crianças aprenderem que os mangues são locais de onde muitas famílias tiram os seus alimentos e precisam deles para continuarem vivendo, claro que elas terão cuidado de os preservarem, porque é desde a tenra idade que formamos o nosso espírito para o bem, ou seja, atentamos para as coisas que precisam de nós, da nossa compreensão e respeito.

Respeitar o mangue é uma questão de ética e não só ambiental, por isso esse respeito deve ser trabalhado de forma interdisciplinar.

Os professores que adotam nas suas aulas materiais didáticos de preservação ao meio ambiente também podem incluir nesses materiais novas formas de ensino-aprendizagem sobre a preservação dos nossos mangues e a importância dos mesmos para o meio ambiente. É o que peço. É o que espero de um ensino muitas vezes que é pautado em currículos que nunca servirão à vida prática da criança e até mesmo da sua vida adulta.

Muitas vezes vi o sol de pôr no mangue. Eu sabia que era hora de voltar para casa, mas queria colocar o mangue para dormir antes de deixá-lo sozinho. Depois de amarrar a canoa junto com o meu tio num tronco de árvore, sempre dava um último olhar para o mangue para saber se ele estava dormindo mesmo e como via os caranguejos, siris, ostras, chama-marés e goiamuns tudo quietos sabia que podia ir pra casa feliz.

Ah! Se toda criança tivesse um mangue pertinho da sua casa assim como eu tenho. Àquelas que vivem em prédios e condomínios fechados podem ser presenteadas pelos seus professores, pais ou responsáveis com um passeio por esse ecossistema maravilhoso com tanta coisa linda para se conhecer!

Vale a pena conferir o que o mangue tem de bonito pra nos mostrar! Eu sou a princesinha do meu mangue… você, professor, não quer tornar os seus alunos príncipes e princesas de um mangue também?

Vamos incentivar as crianças a adotarem um pedaço da natureza para que possam ter responsabilidades e cuidados para com ela, pois cada um de nós devemos desde cedo aprendermos a cuidar das coisas ao nosso redor e termos deveres para com o nosso planeta.

A vida nos mangues pede passagem. Eu cresci, mas nem por isso deixei de ser a princesa do meu mangue. Seja você, o príncipe ou princesa da natureza mesmo que ela só possa ser vista pela tela do computador. Há formas de transformarmos bits e bytes em grama verde e lama de mangue. Tente descobrir uma. Ame o mangue!

Em outra reflexão publicada no site, escrevemos:A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação”. Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Trilha Formativa Ensino Religioso e Escola Pública

O Ensino Religioso é uma das ciências de conhecimento que faz parte do processo de formação humana integral e que precisa ser entendida, conhecida, respeitada e abordada no contexto escolar com a propriedade que merece, diante do todo que a mesma representa.

A SME (Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo) está organizando, para o ano de 2021, um conjunto de Trilhas Formativas para os seus professores e professoras.

O objetivo da formação é o oportunizar aos professores da Rede Municipal de Ensino de Passo Fundo suporte pedagógico, por meio de percurso formativo que seja flexível, auxiliando o professor a realizar sua atualização profissional a partir de seus interesses e necessidades, contribuindo em seu planejamento e no desenvolvimento de habilidades e competências essenciais que visam a constituição de cidadãos críticos, inovadores e capazes de impactar positivamente à sociedade.

Nesta direção, foi organizado o primeiro encontro desta trilha com o tema “Religiosidade e fé na Pandemia”, que ocorreu neste último dia 20 de abril de 2021, com a presença de 06 entidades religiosas que congregam o CONER (Conselho do Ensino Religioso) – Seccional Passo Fundo.

O encontro teve por objetivos:

  1. Aproximar as entidades religiosas do CONER Seccional Passo Fundo com professores e professoras da rede municipal;
  2. Buscar entendimentos sobre religiosidade e fé na pandemia;
  3. Construir pontes para que professores e professoras, escolas e estudantes possam realizar atividades de conhecimento não presenciais.

Apresentamos, brevemente, uma ideia das falas dos participantes deste importante encontro virtual, através da trilha formativa.

Assista ao vídeo, na íntegra: https://youtu.be/eH9N-gQpsY0?t=792

Muhammad Nivaldo Lucena representou a Comunidade islâmica de Passo Fundo. Expressou profundo respeito com os professores e sua missão honrada de levar informações e orientar os estudantes sem tomar uma religião melhor ou maior do que outra. Lembrou a importância de falar de Deus e que isto é de suma importância para todas as religiões e para a formação das crianças.

Pastora Roseli Buchmeier, representou a Igreja de Confissão Luterana do Brasil (IECLB). Em suas palavras, referenciou a vida e a prática de Jesus, relacionando-as com as nossas práticas cotidianas. Neste sentido, apontou para a construção do reino de Deus desde agora, na nossa passagem terrena. Destacou a importância da cultura de paz como uma das tarefas da escola e da sociedade, através do respeito e da solidariedade.

Paulo Eberhardt, representando o Centro Espírita Dias da Cruz, refletiu sobre o sofrimento, as dores e dificuldades que nos afetam no plano moral e material. Falou da importância de sermos testemunhos de resignação e esperança. A pandemia, o vírus, na sua visão, nos igualou, nos colocou todos na mesma posição, independente de posição ou classe social. “A melhor coisa a fazer é termos fé, resignação e esperança porque Deus não brinca com nossas vidas”.

Berel Natan Engelmann, líder religioso da comunidade judaica, destacou, em sua participação, que os desafios que o mundo judaico enfrenta é o mesmo que todo mundo teve de enfrentar. Destacou iniciativas pessoais e comunitárias para buscar o equilíbrio e as adaptações que o momento exige. Destacou, ainda, que precisamos renovar as nossas crenças e construir senso de responsabilidade pessoal e coletiva. Destacou também o papel dos profissionais da saúde e a busca por vacinas em todo mundo. Finalizou, dizendo, em hebraico, expressões Fé, saúde e paz!

Ipácio Carolino, representando a Umbanda, abordou na sua exposição sobre a importância da fé e da necessidade de ressignificar a mesma neste momento tão difícil. “A vida é finita, nós somos frágeis”. Nos fortalecemos na espiritualidade, mas temos de cumprir com nossa responsabilidade por este momento que estamos passando aqui na terra. A sua proposta é que professores trabalhem nas salas de aula temas fé e religiosidade com questionamentos e reflexões abrangentes, além das crenças e das religiões.

Leonardo Maria Foschiera, professor da rede municipal e estadual, atual presidente do CONER Seccional Passo Fundo, abordou o papel e o esforço do CONER em contribuir com a formação de professores na perspectiva da formação integral dos estudantes. Reportou sobre a liderança do Papa Francisco que aponta para o conjunto das dificuldades que operam no mundo, mesmo antes da pandemia, como a desigualdade econômica e social. Neste aspecto, apontou na sua reflexão de que o mundo deve voltar diferente de como era antes, colocando as pessoas e suas necessidades em primeiro lugar.

Para Angelita Scottá, Coordenadora Pedagógica da Secretaria Municipal de Passo Fundo (SME Passo Fundo), a formação dos professores, neste caso de professores que atuam no Ensino Religioso na rede municipal, desde a Educação Infantil até os anos finais, é de extrema importância. O espaço da escola envolve o desenvolvimento de habilidades e competências que são essenciais para o aprendizado. O Ensino Religioso é uma das ciências de conhecimento que faz parte deste processo e que precisa ser entendida, conhecida, respeitada e abordada no contexto escolar com a propriedade que merece, diante do todo que a mesma representa.

 Segundo Scottá, as formações vem ao encontro dessa necessidade, auxiliando o professor em seu fazer pedagógico, dando a oportunidade de repensar sua prática, o seu planejamento, dando suporte pedagógico para qualificar ainda o ensino e aprendizagem.

No dia 25 de junho de 2020 a SME Passo Fundo, em parceria com CONER Seccional Passo Fundo, também organizou atividade formativa com o tema Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia! Este evento teve a presença de dois professores: Joni Roloff Schneider e Vilson Francisco Selch.

Joni Roloff Schneider lembrou de dimensões importantes como Alegria – alegrar-se com as pequenas coisas do dia a dia, com os resultados, com os sorriso. Tempo – dar um tempo para si, para refletir, para desenvolver-se como pessoa e profissional. Cuidado – cuidar de sua saúde, cuidar e amar as pessoas com as quais convivemos, cuidar da natureza, fazer boas ações. Esperança – o/a professor/a é um ser da esperança, do verbo esperançar, por isso, não deixa de semear. Leia mais!

Vilson Francisco Selch lembrou que é por meio das práticas pedagógicas empregadas em seu trabalho que o professor pode contribuir para afirmar e reconhecer a sua espiritualidade, inspiradas nas seguintes perspectivas: Criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana. Mudanças. Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo. Adaptações. Mudanças geram sentimentos de sofrimento e frustração para alcançarmos metas e objetivos. Pensar. O sofrimento nos faz pensar. O pensamento se faz com algo que não existe: ideias. Ideias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem. Leia mais!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

As escolas sob alta tensão nesta pandemia

A construção do conhecimento e a convivência social são os dois maiores pilares a partir dos quais se assenta a educação contemporânea.

Uma das coisas mais evidentes que se desnudou durante a pandemia, a partir do ano de 2020, foi a desigualdade no acesso aos meios para uma boa educação, como também no acesso aos meios tecnológicos. Esta desigualdade revela o grande abismo social e econômico que existe na população brasileira.

Enquanto uma maioria luta bravamente para garantir sobrevivência, apenas uma pequena parte da população tem condições de garantir estudo e disponibilidade plena das crianças e adolescentes aos estudos.

Outra questão, igualmente importante, é a expectativa imensa que a sociedade alimenta sobre a volta das aulas presenciais. Mas não vemos nenhum grande movimento, nem das escolas e nem da sociedade, para ressignificar esta volta presencial de aulas. Queremos voltar, sim. Mas voltar para quê? Que mudanças e que novos significados vamos incorporar na volta às aulas?

Diante de realidades tão diferentes, as escolhas das redes de ensino (públicas e particulares) em muito se assemelham através das aulas remotas.

Pensar a escola de agora, neste momento pandêmico, com seus limites e potencialidades e com a possibilidade de maior uso das tecnologias e das plataformas educacionais, parece ser o caminho para melhorá-la. Fora disso, nossa tentação será repeti-la como mera reprodutora de conteúdos e sem diálogo com a vida e com as maiores necessidades humanas.

“Mas com ensino remoto tudo fica mais difícil. Estou tentando fazer algo com a mesma essência que fazia presencialmente: incentivo pelo trabalho coletivo, pela pesquisa e pela criatividade. Não encontrei ainda um caminho. Enquanto isso, aposto no velho e poderoso diálogo. Sobre aulas, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino remoto dando condições para que crianças e jovens tenham boa internet em casa e equipamento adequado para isso. E, antes de um tablet, que tenha comida dentro de casa porque com fome ninguém faz nada, muito menos tarefas assíncronas”. (Elika Takimoto) Leia mais!

Seguem questões, que remetemos à breves reflexões.

Qual foi a escolha dos sistemas de ensino? Em grande medida, foi transformar os professores em meros entregadores de conteúdos, planilhas, relatórios, devolutivas. Nada, ou muito pouco, de relação, de diálogo, de trocas, de conversas sobre a vida e a pandemia.

Neste quesito, há poucas diferenças entre o ensino público e privado. Resta perguntar: a escola sempre foi assim? Onde ficou e onde fica a dimensão relacional, mesmo que de forma remota e precária? Ou ela nunca contou nas relações de ensino-aprendizagem?

Parece que a escolha unânime das redes de ensino é pela validação do ano escolar, através da burocracia.

Qual vem sendo a relação de Afetividade e aprendizagem na pandemia? Percebe-se pouca preocupação com esta questão, embora sempre tenha sido relevante, para muitos estudiosos da educação.

“Abordar a inteligência emocional como a principal estratégia, associada a um bom conteúdo, pode evitar o abandono das crianças, adolescentes e jovens da escola. Precisamos de um olhar mais atento às necessidades afetivas do ser humano, que em muito se perdeu sem o contato presencial. Como trabalhar de forma mais ampla e eficaz esses aspectos num convívio semipresencial? Mais do que nunca, escola e família devem estar juntas para minimizar as perdas e prejuízos das crianças e adolescentes, que são os mais frágeis deste processo” Leia mais!

A preocupação com a aprendizagem? Os professores e professoras trabalham muito, mais do que nunca estão atarefados, mas com poucas iniciativas que foquem aprendizagens significativas (aquelas que tenham sentido e valor para a vida dos estudantes e a vida das famílias).

Mas aí alguém poderá dizer que as aprendizagens significativas se constroem com metodologias ativas ou invertidas. Pode ser que estas ajudem, mas a mudança mais importante parece ser mudar o foco e o sentido da escola e da aprendizagem. Reduzir as soluções tão complexas de sentido e significado das aprendizagens para aplicações ou abordagens metodológicas, não é o caminho.

Paulo César Carbonari, em reflexão publicada no site, escreve: “É difícil dizer o que significa aprender! E o que é ensinar, então? Aprendemos que ensinar e aprender são dois verbos que se conjugam na transitividade da relação de presença entre sujeitos. Ensinamos que aprender e ensinar encontram sua síntese e finalidade nos sujeitos e sua mediação nos múltiplos liames da vida e nas diversas formas de fazer o viver. Sendo assim, que sentido tem a transitividade entre sujeitos e as mediações numa época cada vez mais “digital”? Leia mais!

Quem está ouvindo as nossas crianças, adolescentes e jovens? Quem está dialogando com as famílias? Qual é o espaço que as escolas estão oportunizando, a partir das Aulas e reuniões Meet para os estudantes vivenciarem uma socialização tutelada pelos professores?

Como estão os prédios e estruturas físicas das escolas públicas? Estão inutilizados e fechados, em compasso de espera pela volta das aulas presenciais. Poderiam e deveriam ser uma referência na vida das comunidades como um Centro de Informações sobre saúde, pandemia e educação, distribuição de alimentos (a partir da merenda escolar).

Os prédios poderiam estar recebendo algumas reformas e adequações, bem como poderiam estar sendo preparados para o retorno presencial dos estudantes, equipados com boa internet e estruturas digitais. As estruturas e prédios poderiam estar sendo ressignificadas em seu papel social nas comunidades.

E o conteúdo da pandemia? E os conteúdos que os alunos deveriam receber? O que vai acontecer com eles? O psiquiatra e professor da UPF (Universidade de Passo Fundo), Francisco Carlos dos Santos Filho, em evento para professores no início do ano letivo em Passo Fundo, RS, afirmou: “A pandemia é o conteúdo, a experiência que todos estamos vivendo é o conteúdo, assim como o são a possibilidade de trabalhar in loco as ideias do espírito coletivo, da compaixão, da humanidade e da solidariedade, para assim criar uma experiência conjunta que é o melhor conteúdo possível que se pode fazer ingressar no interior de qualquer disciplina”. Veja mais sobre a capacidade de pensar.

Por que então este conteúdo e este contexto não é objeto de estudo proposto pelas escolas aos estudantes? O que poderia ser mais relevante do que o conteúdo da dura realidade social, econômica e sanitária a que todos estamos submetidos nesta pandemia?

Como pensamos os traumas que a pandemia está causando em todos nós? Parece que a sociedade, assim como o conjunto das redes de ensino, tentam lidar com os traumas a partir do esquecimento, mesmo na contramão do que afirmam os especialistas. “Então, se a vivência é coletiva, a experiência que cada um de nós leva consigo de um acontecimento traumático, assim como seus efeitos, é absolutamente singular. De toda forma, precisamos ter claro que os efeitos de um traumatismo nunca se resolvem enquanto dura o trauma; o efeito desse traumatismo levará anos para ser elaborado, isso se nós trabalharmos direito sobre ele. E, além disso, somente a memória e o trabalho de pensamento permite “curar” o trauma”. (Francisco Carlos dos Santos Filho, psiquiatra)

Como voltaremos às nossas escolas físicas? Voltaremos às aulas presenciais no modelo híbrido? Qual é o suporte que daremos aos estudantes para que ressignifiquem a presencialidade? Qual é o suporte pedagógico e psicológico que daremos aos professores e professoras? Será uma volta com ou sem vacinas? Ainda usaremos máscaras? Teremos protocolos seguros de distanciamento e salas de aula com ventilação?

Crédito: Getty Images

Como será a escola do futuro?

Deveríamos aproveitar o advento da pandemia e os questionamentos sobre a escola neste momento histórico para ressignificar o sentido e o papel da escola na perspectiva humanizante, onde a centralidade da mesma seja a construção permanente de conhecimentos, envolvendo os sujeitos aprendentes: professores e estudantes. Uma escola onde a socialização seja uma dimensão que se incorpora às práticas educativas, de forma permanente, de maneira intencionada e valorizada pedagogicamente.

O que podemos conjugar nas mudanças que operam na escola?

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. Vejamos o papel da escola neste contexto: Assista ao vídeo.

Como já escrevemos em outra publicação: “O fato de vivermos na era da tecnologia e da informação não quer dizer que podemos suprimir a importância da oralidade, da escrita e outras formas de comunicação como a arte, a linguagem corporal, a linguagem simbólica e religiosa, o audiovisual, dentre tantas outras. Afinal, o ser humano é um ser integral e as suas diferentes dimensões (características) devem ser desenvolvidas e articuladas no seu processo de ensino-aprendizagem”.

A construção do conhecimento e a convivência social são os dois maiores pilares a partir dos quais se assenta a educação contemporânea. Fazer educação, nos dias atuais, significa compreender o sentido da escola, do mundo e do ser humano, contemplando a diversidade e a complexidade social que construímos até aqui como humanidade.

A sociedade, sobretudo os pais e as mães, está descobrindo o potencial e a riqueza que é a convivência e a integração social a partir do distanciamento físico e social dos estudantes. A cobrança pela volta das aulas presenciais revela justamente esta necessidade das crianças, adolescentes e jovens conviverem coletivamente no ambiente escolar, tutelados pela presença e pelo olhar dos adultos.

Marcos Piangers, apresentador, locutor de rádio e escritor, sintetiza, de forma interessante, a relação das novas tecnologias educacionais na educação e a formação integral das nossas crianças, adolescentes e jovens. Suas ideias estão em sintonia com o que pensamos como escola e como educação.

Crédito foto: Giselle Sauer

“Considero minhas filhas felizes quando estão interagindo com amigos com ferramentas tecnológicas, mas nunca as vi mais alegres do que quando estão correndo em um parque ou na praia ou na escola. Antes de andar, a criança dança; antes de falar, ela canta; antes de escrever, ela desenha. A arte, o brincar e o interagir são chamas fortes dentro da fogueira humana. Sonho com a escola como um ponto de encontro onde imperam o contato com o outro e com a natureza. Uma escola que interage com a comunidade, que conduz as crianças ao voluntariado, que ensina sustentabilidade, generosidade, equidade. Uma escola que é laboratório de experiência, de aprendizado pelo erro. Uma escola que considera o aprendizado técnico importante, mas menos importante do que todas as outras coisas mais importantes. Uma escola que ri de si mesma. Uma escola terapêutica, que cuida da saúde mental de pais e filhos e seja iluminação e conforto para as famílias. Uma escola para todos, ricos e pobres”. A escola na pandemia.

 Acesse a entrevista: https://youtu.be/M8jmOi3wYDE?t=66

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Das inquietudes dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade – CTS na educação fundamental

É possível pensar num ensino de ciência, tecnologia e sociedade voltado para os anseios das crianças? Por que não temos uma literatura sobre ciência, tecnologia e sociedade para crianças?

A Ciência, Tecnologia e Sociedade – CTS aborda assuntos que podem ser adaptados às crianças e vamos discorrer o quanto é fundamental à educação fundamental.

São conceitos que estão cada vez mais próximos do mundo da criança e do pré-adolescente envolvidos com as ciências e a tecnologia, seja na escola ou em casa, mas ausentes de uma teoria mais elaborada de conscientização e criticidade.

Tendo por base a relação que as crianças nessas séries entram em contato com a ciência e a tecnologia muito mais rapidamente do que antigamente, e precisam saber viver em uma sociedade que exige delas cada vez mais, principalmente nas escolhas que poderão influenciar na vida adulta.

Tomando por referência os argumentos citados acima, perguntamos: é possível pensar num ensino de ciência, tecnologia e sociedade voltado para os anseios das crianças? Por que não temos uma literatura sobre ciência, tecnologia e sociedade para crianças?

Como poderíamos ensinar ciência, tecnologia e sociedade às crianças? Quais contribuições poderíamos oferecer aos infantes com a introdução da ciência, da tecnologia e dos ensinamentos da dinâmica da sociedade?

A disciplina de ciências é lecionada sem que os alunos tenham noções teóricas do que é ciência e suas bases epistemológicas, qual sua importância no dia a dia, para que serve, o que podemos fazer com ela, quais benefícios nos oferece. As crianças vão para sala de aula cheias de curiosidade, anseios, vontades. É nesse momento que a ciência propriamente dita poderia explorar todos esses sentimentos para mostrar a sua importância no mundo.

Parece-nos haver uma lacuna entre o processo de conhecimento do aluno não só no ensino de ciências, mas das outras disciplinas também. Essa lacuna se dá quando o aluno recebe o conhecimento e não sabe o que fazer com ele, o que ele é ou pode vir a ser. O aluno passa a usar palavras que nem mesmo sabe seus significados.

Esse uso das palavras, sem conhecer o significado, não permite que as crianças possam avaliar as representações reais das do seu entorno. Como exemplo, podemos citar o uso da palavra tecnologia, que todos associam a qualquer produto eletrônico moderno capaz de processar informações rápidas. Fica o conceito criado pelas grandes empresas ou pela mídia que não interage com o processo cognitivo da criança, alienando-a e prendendo-a num casulo.   

“Podemos aprender muito com as tecnologias, não podemos ir do oito ao oitenta. Nem deixar à vontade, nem proibir. Nesse tempo em que estamos em casa, utilizar a internet vai ser o principal recurso de acesso à escola, mas para tudo precisamos ter limites, não podemos sobrecarregar nossas crianças. Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela”. (Professora Graziela Bergonsi Tussi). Leia mais!

Nos PCN´s do ensino fundamental, a disciplina de ciências deve ensinar o corpo humano, a alimentação, o meio ambiente, etc., mas não se preocupa com o mundo ao redor do aluno cheio de perguntas e inquietações, ou seja, o que é ciência, para que serve, que importância terá na minha vida, que posso fazer com ela. É como se pulássemos essa etapa do conhecimento prejulgando que o aluno já conhece tudo isso.

Estamos numa era na qual as crianças e os pré-adolescentes adquirem contatos com as ciências e a tecnologia muito cedo, na prática, sabem utilizar os aparatos tecnológicos que lhes são oferecidos, mas quando questionados no como ou no porquê eles não sabem responder ou, mais grave ainda, não pensam essas questões como importantes para a elaboração e representação do conhecimento. 

Um outro problema que constatamos é que as ciências ficam distantes da tecnologia nos materiais didáticos do ensino fundamental como se as duas não estivessem próximas uma da outra. Fala-se muito em vacinas, higiene, bactérias, fungos, fauna e flora, mas esquecem de ensinar o que tudo isso representa para o planeta e quais os substratos teóricos que afirmam, para que esses conhecimentos nos servirão além de aprender a viver bem, ao invés de ensinar o que é o viver e o que é o bem-estar no âmbito das ciências.

Cremos que a ciência está no mundo para melhorar a vida das pessoas, por isso deve haver uma preocupação maior ao falarmos dela para os alunos. Sempre devemos procurar mostrar que a ciência é de suma importância na vida de todos.

Alguns professores se detêm no óbvio, mas não levam o aluno a pensar cientificamente, ou seja, a investigar através de métodos ou que validade o conhecimento passado tem verdadeiramente para o homem. 

Estamos ensinando ciências não com a preocupação de criar pensamentos críticos e reflexivos diante das coisas ao nosso redor, mas oferecendo conhecimento que não se permite ser aberto para investigação, isto é, para ficar apenas em um exemplo, dizemos que as mãos devem ser lavadas antes das refeições, para evitar as doenças, mas não dizemos por exemplo, o ser das doenças, a unidade de estar saudável e adoecer, as ideias por trás de um bem-estar ou as questões que surgem com as doenças.

A verdade é que ensinamos conhecimentos desnecessários ao viver da criança e do adolescente, pois no seu grandioso mundo não cabem tais saberes. E aprender algo que não nos interessa não causa prazer. Surge, então, o desconforto e o desânimo.

É difícil apaixonar-se pelo que não nos é apresentado como belo, ou seja, com amor e paixão por parte de quem está ensinando. A simples tarefa de transmitir conhecimento já não tem mais espaço nas salas de aula, atualmente há uma troca de saberes entre professores e alunos. Ninguém pode ser baú de conhecimentos, mas questionador do que lhe é ensinado.

Podemos adiar os conceitos das coisas para depois, ao longo dos anos os alunos aprenderão, hoje é desnecessário, não compreenderão mesmo. Pensamento errado esse. Ou se aprende desde cedo o conceito de algo corretamente ou mais tarde teremos vários conceitos de uma coisa só sem sabermos quais deles é o certo. Ensinar o que é o conhecimento deveria ser tarefa de todo professor.

Assim, caímos no dilema de como ensinar o conhecimento e mais ainda como ensinar o conhecimento da ciência sem ser através de explicações elaboradas com palavras que muitas vezes não dizem nada para o aluno, porque o que dizemos não chega ao seu conhecimento de mundo, as suas vivências e experiências adquiridas. É preciso que todo conhecimento ensinado seja antes ligado a um pertencimento do aluno.

Parece-nos que no ensino de ciências da educação fundamental tudo está pronto para o aluno que copia, faz os exercícios, recebe as notas das avaliações e pronto. É uma disciplina com um currículo sem ritmo ou melodia para os professores ousarem novos desafios em sala de aula, porque seu ensino-aprendizagem detêm-se também aos cartazes, as colagens, vez ou outra a uma aula de campo para diversão de todos.

Apenas isso. Mas isso é pouco. O material didático está pronto, os alunos recebem as aulas, depois todos vão para casa. Como se o mundo fora dos muros da escola não exigisse desse aluno mais do que o conhecimento dos livros didáticos. 

O ensino de ciências na educação fundamental apresenta bons conteúdos que preenchem quase todas as necessidades do aluno, porém é um currículo que exige revisão.

O mundo vive hoje a grande revolução das ciências e da tecnologia ultrapassando fronteiras e diminuindo distâncias, com isso os alunos precisam ficar mais próximos desse novo universo, procurando compreender essas mudanças e no que elas afetam a nossa existência e a sobrevivência do planeta.

É como se precisássemos ensinar o que está na camada mais inferior da ciência, ou seja, seu alicerce. No que ela se constitui e como podemos fazer dela um instrumento que vai além do conhecer e chega a investigar as suas causas e consequências no que concerne ao conhecimento de mundo e para o mundo.

Talvez, se começássemos pelo tripé ciências, tecnologia e sociedade para que, porquê e como, para depois explorarmos questões mais complexas dentro de cada uma dessas três grandes áreas, fosse uma oportunidade de oferecer um ensino-aprendizagem completo.

Antes do aluno ter aulas de robótica, ele precisa saber o que é uma sociedade, as suas regras, os seus costumes e tradições; precisa, ainda, aprender o significado de ciência, sua importância, sua criação, quando o homem começou a fazer ciência. Mais importante do que o robô é a pessoa que o criou. São questões como essas que estão faltando aos nossos alunos do ensino fundamental.

Não há um incentivo nas escolas para filmes de ficção científica. É consabido que a curiosidade precisa de um estímulo. Nesses filmes o que parece impossível torna-se realidade, é com esse pensamento que o aluno vai para o laboratório pesquisar e buscar soluções para os problemas do mundo.

Acompanhamos as aulas de ciências de várias escolas onde as crianças aprendem a não poluir o meio ambiente e preservar as florestas elaborando cartazes, desenhando, criando redações ou participando de concursos de fotografias.

Claro que está aí um grande estímulo para um mundo melhor, se levássemos essas crianças a pensar como verdadeiros cientistas, ou seja, pesquisando as áreas atingidas pelo desflorestamento, como eram antes como são hoje, o que acontecerá no futuro, seus impactos para a sociedade, e ficcionalmente ou virtualmente criando alternativas para melhorias desses problemas.

Vivemos uma época em que os valores humanos estão se perdendo e que os laços familiares estão sendo substituídas por máquinas. Precisamos resgatar urgentemente esses valores, para isso faz-se necessário que o aluno da educação fundamental aprenda a importância da família, dos amigos, dos parentes, do vizinho. A sociedade está cada vez mais individual, violenta, egoísta. Sentimentos de posse doentia são demonstrados todos os dias.

Urge o ensino dos bons modos de se viver em uma sociedade com harmonia e paz. O homem criou sistemas e máquinas que possibilitaram um bem-estar fabuloso à sociedade, como o avião, o metrô e o navio.

Ao mesmo tempo que o avião reduz a distância entre as pessoas também destrói vidas, sendo utilizado em guerras. Como usarmos a tecnologia para fazer o bem à sociedade é uma grande questão. Quantas câmeras de segurança têm desvendado crimes e salvado vidas nos últimos anos! São coisas assim que precisamos questionar junto aos alunos.

Não é possível mais vivermos sem os benefícios da ciência e da tecnologia. Vivemos a era das redes sociais e das amizades virtuais. Temos milhões de amigos que não conhecemos, mas que sabemos tudo sobre eles. Que sociedade é essa? Que laços são possíveis criar em uma rede social?

As crianças são pequenas demais para entenderem tudo isso, mas já estão todas em rede conversando umas com as outras e querem privacidade das suas conversas com os amigos virtuais, para isso é necessário que essas crianças saibam os valores morais que regem uma sociedade para poderem criar as suas regras no mundo virtual.

Nas escolas há as constantes feiras de ciências, onde os alunos preocupam-se em criar robôs ou fazer experimentos químicos, mas pensamos que antes de fazer tudo isso é preciso que se conheça o que e para que está se estudando tal coisa. Não adianta ensinar robótica se não ensinar o que é tecnologia, não adianta ensinar um experimento químico se não ensinar o que é a química, cada coisa tem a sua necessidade de apresentar-se antes de ser utilizada. Os alunos usam a tecnologia nos computadores que lhes são entregues atualmente nas escolas, contudo não sabem o porquê desse uso.

Temos visto uma grande evasão nas escolas principalmente de pré-adolescentes e adolescentes que estão cansados de um ensinamento que não acrescenta nada aos seus mundos. O ensino precisa acompanhar o ritmo do discente, pois ele está ávido para conhecer aquilo que faz parte do seu mundo, mas ele não entende por que gosta tanto de algo que não sabe que tipo de bem-estar vai proporcionar-lhe.

Faz uso por fazer, porque a mídia incentiva ou por que vê todos os outros amigos fazerem, mas logo cai no desânimo e na troca por outro que preencha seus vazios. As crianças e os jovens estão a todo tempo buscando questões que expliquem esse aparato de conhecimento que recebem nas escolas e não sabem o que fazer com ele.

O ensino não pode mais se deter a simples decoreba. O aluno que decora esquece tudo, muitas vezes, antes da prova. Chegou o momento de ensinarmos ciências e tecnologia para aproveitar essa bolha gigantesca que envolve os alunos em meio a tantas questões cruciais sobre o mundo.

Na disciplina de ciências não há uma preocupação maior em mostrar aos alunos a importância da ciência como criadora e renovadora de ideias, das coisas ao nosso redor no mundo atual, o uso da tecnologia, como viver em harmonia na sociedade.

Sentimos uma distância muito grande da realidade com o material didático dos alunos das séries iniciais do ensino fundamental I e II. Tampouco, temos professores preparados para falar sobre esse tema que, de certa forma, é o que move as relações humanas no mundo contemporâneo.

No que diz respeito às ciências e a tecnologia o importante é que fixemos conteúdos teóricos de um pensar reflexivo e que se crie uma postura crítica diante das coisas. Sabemos que o progresso da ciência e da tecnologia é muito rápido, por isso precisamos informar aos nossos alunos o porquê dessa rapidez, suas astúcias e sua relevância.

Para sanar os problemas mencionados acima vividos pelos jovens alunos é que propomos ser acrescentada a disciplina de Ciências e Tecnologia como tema transversal nos PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacionais.

Autora:Rosângela Trajano.

Edição: Alex Rosset

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Veja também