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Por que há pessoas com deficiência?

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Sou pai de uma linda menina com deficiência. Rayane, hoje com vinte e nove anos, sofreu uma lesão cerebral ocasionada pela falta de oxigenação na hora do parto, afetando tanto a fala, quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Graças a uma intervenção divina, ela veio andar aos seis anos, contrariando o prognóstico médico. Sinto-me privilegiado por ter sido escolhido por Deus para ser pai de este ser maravilhoso que tanto me tem ensinado acerca do amor e da força de vontade em superar limites. Definitivamente, eu não seria o mesmo sem Rayane.

Pesquisando pela internet, percebo quão raro é encontrar literatura cristã tratando do assunto. Seria este um tabu entre os cristãos? Quantas mensagens já ouvimos sobre o tema em nossos púlpitos? Por que outras tradições religiosas como o espiritismo kardecista se debruçam sobre ele sem qualquer recato, enquanto as igrejas preferem varrê-lo para debaixo do tapete?

Pior do que ignorar é oferecer respostas carregadas de preconceitos e pressupostos simplistas. Enquanto uns preferem espiritualizar a questão, outros preferem fazer uma leitura moralista, como se a pessoa com deficiência fosse um castigo divino aos erros de seus progenitores.

O que as Escrituras têm a nos dizer?

Começando pelo Antigo Testamento, a primeira coisa que percebemos são as restrições à participação de pessoas com deficiência física ou mental em atividades sacerdotais. Para alguns, fica a impressão de que o Deus dos hebreus não tem qualquer apreço por estas criaturinhas indefesas.

Veja, por exemplo, o que diz Levítico 21:16-24:

“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. E Moisés falou isto a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel.”

O que será que Deus teria contra esses indivíduos? Por que os proibiu de ser sacerdotes? Seria este um juízo moral?

Alguns exegetas afirmam que a perfeição física exigida aos sumo-sacerdotes apontaria para a perfeição moral de Cristo, o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança. Uma vez que, segundo Paulo, a Lei continha a sombra de uma realidade que só se revelaria sob os auspícios da Nova Aliança, há de se supor que tal interpretação possa estar correta. Porém, não encerra toda a verdade.

Primeiro, devemos ressaltar que estas regras só se aplicavam ao cargo de Sumo Sacerdote. Somente ele poderia atravessar o véu e se achegar ao altar para oferecer o sacrifício. Àquela época, ninguém se tornava sacerdote por escolha própria. Apenas os descendentes de sacerdotes podiam exercer o sagrado ofício.

Portanto, independente de sua condição física, um descendente de Arão era alçado à posição sacerdotal. Todavia, se possuísse qualquer deficiência física ou mental, não poderia ser um Sumo Sacerdote. Um anão, por exemplo, não conseguiria abater um animal oferecido em sacrifício, nem tampouco alcançaria as hastes da Menorah que media mais de três metros de altura para acender as luzes do lugar santo, atividades que ele deveria exercer sem apelar para ajuda de ninguém. Imagine agora um sacerdote coxo tendo que ficar de pé entre sete e catorze horas encabeçando o ritual de abatimento de animais. E como um cego poderia identificar as veias certas do animal a ser degolado, evitando um sofrimento desnecessário? Como alguém com defasagem intelectual poderia julgar os delitos cometidos pelas pessoas?

Portanto, tais regras não visavam excluir as pessoas com deficiência, mas poupá-las de um trabalho para o qual não estavam habilitados devido à sua condição.

Ninguém, em sã consciência, confiaria a um cego a direção de um carro. Porém, isso jamais deveria ser pretexto para que subestimássemos a capacidade de pessoas com deficiência. Se não podem exercer uma ou outra atividade, certamente são plenamente capazes de tantas outras. Alguns chegam mesmo a nos surpreender, desenvolvendo habilidades notáveis.

Em todas as sociedades, tais indivíduos sempre foram alvo de preconceito. Em algumas delas, como a grega, apesar de seu avanço no campo da filosofia e das artes, as pessoas com deficiência eram descartados assim que nasciam, por serem consideradas um peso extra. Se não pudessem lutar pela cidade numa eventual invasão inimiga, logo, não tinham o direito de viver.

Basta uma olhada mais atenciosa no Antigo Testamento para verificar que, graças às instruções contidas na lei, o povo hebreu experimentou um avanço na compreensão da dignidade que deveria ser atribuída ao deficiente. O respeito com que deveriam tratar as pessoas com deficiência revelaria o grau de temor e reverência que tinham para com Deus.

Repare a ênfase do mandamento:

“Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19:14

Era como se Deus dissesse: Quem mexer com eles vai se ver comigo! Ainda que o surdo jamais ouça os xingamentos e maldições lançados sobre ele, nem o cego veja o tropeço posto em seu caminho, Deus toma tais ofensas como se dirigidas a Ele próprio. Como todo mandamento, há sanções aplicadas àqueles que desrespeitam a pessoa com deficiência: “Maldito quem desviar o cego do seu caminho” (Dt.27:18).

É característica do justo tratar bem a pessoa com deficiência. Por isso, Jó declara, ao relembrar de seus tempos áureos, que costumava ser “os olhos do cego e os pés do coxo” (Jó 29:15), o que evidenciava a pureza de seu caráter.

Apesar dos avanços patrocinados pela lei entregue por Deus a Moisés, ainda restava um ranço de preconceito contra as pessoas com deficiência entre os hebreus. Prova disso é o injustificável ódio que Davi nutria contra esses indivíduos durante uma fase de sua vida. Tente não sentir-se constrangido diante do relato abaixo:

“Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá. E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa.” 2 Samuel 5:5-8

Como alguém dotado de sensibilidade ímpar como Davi seria capaz de odiar indivíduos indefesos? Que bom que, como todo ser humano, Davi teve a oportunidade de rever sua postura extremamente preconceituosa. Tanto que ao tomar conhecimento da existência de um filho com deficiência de seu saudoso amigo Jônatas, mandou buscá-lo em casa e o constituiu príncipe em seu reino. Davi sustentou a Mefibosete até o fim de sua vida, mesmo sendo neto de seu arquirrival Saul (2 Sm.9:13).

Davi jamais poderia imaginar que séculos depois, um deficiente visual que mendigava à margem da estrada foi o primeiro a enxergar o que ninguém parecia ter notado: Aquele jovem galileu que arrastava multidões por onde andava era ninguém menos que o Descendente prometido por Deus a Davi e que assumiria seu trono para sempre.

É um consolo ler que as Escrituras buscam resgatar o valor da pessoa com deficiência. Porém, isso não responde a mais das intrigantes perguntas: por que há pessoas com deficiência?

Esta pergunta também intrigava os discípulos de Jesus. O que os levou a perguntar a razão pela qual um homem era cego desde que nascera. Ecoando crenças difundidas entre os judeus, indagaram a Jesus se sua cegueira teria sido causada por seus próprios pecados ou pelos pecados cometidos por seus pais. Sem titubeios, Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo.9:3).

A crença articulada pelos discípulos atribuía qualquer deficiência física ou mental congênita ao pecado, quer por parte do próprio portador (talvez numa vida anterior), ou por parte dos seus progenitores (neste caso, a deficiência seria uma espécie de maldição hereditária). Jesus desfere um golpe neste tipo de raciocínio raso e perverso. A graça por Ele revelada subverte a lógica do carma.

Em vez de um juízo moral, Jesus prefere enxergar naquela deficiência a oportunidade para a manifestação das obras de Deus.

Ora, que “obras” Deus poderia manifestar ao mundo através desses indivíduos? Nesse caso em particular, Jesus restaurou-lhe a visão. Será que tais obras se limitariam à realização de milagres? Caso seja, então, por que nem todos os cegos são curados? Por que a maioria das pessoas com deficiência segue em sua débil condição mesmo depois de conhecer o amor de Cristo revelado no Evangelho?

São questões inquietantes, responsáveis pela postura equivocada adotada por muitas igrejas. Se o milagre não acontece, logo, conclui-se que a glória de Deus não se manifestou, restando-lhe uma alternativa: atribuir aquela condição à falta de fé do indivíduo ou daquele que intercedeu. Para eles, a glória de Deus só se manifesta se o paralítico saltar da cadeira de rodas e sair andando, se o mudo soltar a língua e falar, se o surdo ouvir perfeitamente e o cego puder descrever a aparência do pregador. É lamentável ver quantos destes deficientes já foram vítimas de todo tipo de sensacionalismo por parte dos que se apresentam ao mundo como a solução de todos os problemas.

Recentemente deparei-me com um anúncio publicado no facebook em que um autodenominado apóstolo se apresenta como ex-síndrome de down, que teria ido ao inferno sete vezes e morrido cinco vezes. Como se não bastasse, o sujeito cobra uma considerável quantia em dinheiro para assistir às suas palestras e receber sua oração.

É este tipo de coisa que atenta contra a credibilidade da igreja atual. Quanta esperança falsa está sendo alimentada no coração dos incautos? Espero que da próxima vez que ele for ao inferno, ele fique por lá. Mas parece que nem o diabo caiu no seu conto e resolveu devolvê-lo com casca e tudo. Perdoem-me o sarcasmo. Mas só assim para aturar este tipo de coisa sem dizer impropérios. Ele deveria estar na cadeia.

Que Jesus segue curando, não tenho a menor dúvida. Minha filha é uma prova disso. Desenganada pela medicina, ela passou a andar em pleno culto dominical, sem que ninguém mandasse. Porém, ela não deixou de ser uma pessoa com deficiência. Todavia, as obras de Deus não se manifestam nestes indivíduos apenas através de um eventual milagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Mefibosete. Este era paraplégico. Não de nascença, mas por causa de uma queda sofrida quando ainda era um bebê. Que “obra” Deus manifestou ao mundo através dele? Que milagre o Senhor teria feito? Nele, nenhum. Pelo menos, não um milagre físico e aparente. Mas através dele, Deus operou um grande milagre no coração de Davi. Como vimos algumas linhas acima, Davi odiava “cegos e coxos”. Para que pudesse ser, de fato, um homem segundo o coração de Deus, Davi teria que aprender a amar o que Deus ama, sem jamais desprezar o que Deus não despreza. Convidar a Mefibosete para que ocupasse lugar de honra em seu reino foi um enorme salto na vida de Davi. Ouso dizer que o preconceito que teve que vencer em si mesmo foi um gigante muito maior do que Golias.

Portanto, concluo que as pessoas com deficiência são canais através dos quais a graça de Deus nos é ministrada. A maneira como lidam com suas limitações nos enternece o coração e nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.

Vejamos, ainda, o caso de Moisés.

“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:10-12

Já ouvi argumentos afirmando que Deus não seria responsável pelo nascimento de pessoas com deficiência. Porém, nesta passagem, Deus toma para Si a responsabilidade. Foi Ele quem as criou, e as fez com um propósito.

Não sabemos ao certo qual seria a deficiência de Moisés. Cogita-se que ele fosse gago. Ainda assim não sabemos se sua “gagueira” teria origem emocional ou neurológica. Mas Deus o envia ao homem mais poderoso da Terra, a fim de confrontá-lo e libertar Seu povo da escravidão.

Ele faz uso de pessoas com deficiência, seja física ou mental, para dar exemplo de vida para quem aparentemente é saudável (Leia 1 Co.1:25-29). Quantos exemplos de pessoas que mudaram radicalmente sua postura, depois de ver ou ouvir testemunhos de superação de pessoas com algum tipo de deficiência. Emocionamo-nos quando percebemos o legado de pessoas como Stephen Hawking, o famoso físico que do alto de sua cadeira de rodas ocupa a cátedra que um dia foi ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Emocionamo-nos quando tomamos ciência de que algumas das mais lindas sinfonias foram compostas por um deficiente auditivo. Refiro-me a ninguém menos que Ludwig Van Beethoven.

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Consola-nos saber que tais deficiências não se constituem numa sentença irrevogável. Nossas limitações, sejam quais forem, são temporárias. Paulo diz em 1 Coríntios 15:53 que “é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.”

Um dia, quando Cristo despontar no horizonte celeste, os deficientes serão plenamente restaurados. “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías 35:5-8).

Enquanto não chega este dia, convém-nos lutar pelos direitos da pessoa com qualquer deficiência, sem subestimar seu potencial de superação, mas também respeitando suas limitações sem jamais nos esquecer de nossas próprias.

Se você tem um destes seres especiais em sua casa, sinta-se um privilegiado. Deus só dá pessoas especiais para famílias especiais. Trate-os, não apenas como portadores de necessidades especiais, mas como portadores de uma mensagem do céu para você, sua família e toda a humanidade.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

As crianças no mundo da lua e a sua colonização sustentável

Que esse homem tenha sempre o cuidado de colonizar a lua e outros planetas de forma sustentável e que continue desenvolvendo projetos que possam não somente proteger a lua, mas proteger o lugar de suas origens, a terra. Aqui é o nosso lugar. É aqui onde devemos plantar uma bandeirola com os seguintes dizeres: Terra, planeta verde!

Disse Neil Armstrong ao pisar na lua “É um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade.” O primeiro homem a pisar na lua antecipava o futuro das pesquisas para alcançarmos o espaço. Não só queremos pisar na lua, mas em Marte e, em breve, outros planetas começarão a ser explorados pelos homens. O espaço é fascinante.

Eu sou uma apaixonada pelo espaço, pelas estrelas, pelos astros e por tudo o que diz respeito a astronomia. Se pudesse moraria no planeta Marte com a minha árvore predileta, um caderno com um lápis e o meu gato fofo.

O robô Perseverance que passou uns tempos no solo do planeta Marte colheu muita coisa legal. Uma das coisas bacanas foi o barulho do vento e outros sons que ainda estão sendo estudados pelos pesquisadores. Esses sons inspiraram o jornalista e cantor Chesea Gohd a criar uma música com eles. Se temos os sonhos de algumas coisas do planeta Marte, em breve teremos outras coisas que tornarão cada vez mais possíveis uma missão tripulada e que possa criar uma estação espacial para se passar alguns dias neste planeta. Vamos colonizar sem agredirmos os ambientes.

Todo cuidado é pouco quando se diz respeito a lua e a outros planetas, porque já temos problemas demais por aqui. Que possamos colonizar com os cuidados necessários para se manter a paisagem original do lugar.

Vocês já imaginaram quando estivermos com tripulantes em Marte cultivando flores e criando pólen? Em conversa com um dos estudantes do projeto “Habitat Marte” ele falou ser possível. Um garoto entusiasmado com a sua estufa numa estação presencial que simula o planeta Marte. Eu fiquei a sonhar e sentir o cheiro das flores do planeta Marte e fiquei a pensar se poderíamos cultivá-las de uma forma que custassem mais tempo a murcharem.

Apenas uma das minhas ideias, pois sou apaixonada por flores. As abelhas poderiam nascer em Marte se levássemos alguns dos seus ovos para lá. Sim! Poderíamos ter mel nas refeições da tripulação. Um mel mais rico em glicose e frutose. Assim, a nossa tripulação não precisaria usar o açúcar comum e nem adoçante. Além do mais, o mel poderia servir para fabricação de outros alimentos. Tudo é possível!

Como disse o heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa “À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Também tenho em mim todos os sonhos do mundo de poder, um dia, chegar a lua ou até mesmo ao planeta Marte nem que seja de forma virtual. Ainda custará muito para que conquistemos esses sonhos, mas o homem trabalha para isso e que nunca deixemos de sonhar.

Apesar do meio século que me toma o corpo sinto-me como uma menina a sonhar com as estrelas e a conversar com a lua todas as noites da minha janela. Talvez não como o filósofo Tales que diziam viver no mundo da lua, mas sempre que posso dou uma olhada no espaço da minha pequena janela. E que o espaço seja colonizado de forma segura e com cuidados. É o que espero.

Conquistar o espaço não é coisa fácil. É preciso a união de muitos cientistas, pesquisadores, astronautas além de muita verba pública e privada. Nós poderíamos conquistar também o espaço, o que nos falta é o Estado investir neste projeto. Com um único astronauta apenas a viajar pelo espaço o nosso atual ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações Marcos Pontes fica difícil ousarmos investir num projeto de colonização da lua ou de um planeta qualquer.

Mas, poderíamos trazer a astronomia para as escolas públicas da educação infantil e do ensino fundamental onde fosse possível ensinar as crianças sobre as maravilhas que existem no espaço, alimentar o sonho dos pequenos em conhecer a lua, o planeta Marte e tantos outros planetas.

As crianças são fascinadas em coisas novas e elas gostam de estudar sobre coisas que as levam a outros mundos imaginários e fora dessa realidade que já conhecem.

Sempre defendi o ensino da astronomia em sala de aula porque eu nunca estudei nada sobre as estrelas na minha vida escolar. Tudo o que aprendi sobre elas é fruto da minha curiosidade humana. Fui atrás de cursos, livros, filmes e documentários que me trouxessem conhecimento sobre a astronomia e o seu mundo. Eu fiquei encantada com o que aprendi! Acredito que toda criança deveria aprender um pouco de astronomia na escola e que o ministro Marcos Pontes poderia junto com o Ministério da Educação incluir esta área no ensino de ciências para que pudéssemos despertar o sonho de mais crianças e jovens desejarem chegar à lua e se tornarem astronautas, cientistas ou pesquisadores. Quem sabe surgir daí um prêmio Nobel de ciências.

O nosso futuro está nas crianças que estão chegando agora nas salas de aulas. Devemos começar a investir nestes pequenos seres e nas suas curiosidades. Quanto mais investirmos no poder que as crianças têm de criatividade mais estaremos incentivando-as a descobrirem coisas novas e inovar. As ciências não são apenas para pessoas maduras e experientes, os jovens também sabem fazer ciências e muito bem. O problema é que nem toda escola pública dispõe de laboratórios de ciências, muito menos de um simples telescópio para as crianças serem incentivadas a conhecerem as estrelas.

Chegamos até a lua em 20 de julho de 1969. Já faz algum tempo que poderíamos ter aproveitado essa conquista e termos realizado novas pesquisas, novos estudos, formado novos astronautas ao redor do mundo. Os países da América Latina quase não falam na criação de foguetes a habitarem a órbita terrestre. Temos muito lá em cima satélites, mas precisamos desenvolver novas tecnologias capazes de ajudar o homem aqui na terra a viver melhor. Com a aprendizagem do que não podemos fazer no espaço seremos conscientes daquilo que também não podemos fazer aqui na terra. E esse conhecimento deve ser divulgado para todas as crianças e jovens nas escolas.

A NASA tem desenvolvido pesquisas de sustentabilidade para a lua e, também, para uma possível missão tripular até o planeta Marte. Não está longe de criarmos uma estação espacial neste planeta que tanto nos fascina.

Colonizar a lua e o planeta Marte de forma sustentável é um dos maiores desafios dos cientistas da NASA. Mas, coisas interessantes já estão sendo desenvolvidas e até mesmo colocadas em prática aqui na terra. Isso tem sido maravilhoso para todos nós! A preocupação com o meio ambiente por parte dos cientistas da NASA parece grande quando se trata de criar e reinventar coisas que nos proporcionem um viver melhor tanto aqui na terra quanto lá no espaço.

Só para vocês terem uma ideia do que estou falando, existe um grupo de pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, que tem um projeto intitulado “Habitat Marte” do qual já mencionei lá em cima. Neste projeto, os estudantes dessa universidade são solicitados a criarem projetos sustentáveis para uma estação espacial virtual e presencial. Vocês podem conferir esse projeto no canal do youtube. São vídeos fantásticos e maravilhosas ideias de jovens cheios de criatividade.

Duas das criatividades sustentáveis que mais me fascinam da NASA é a de transformar a urina humana em água e as fezes em energia. Enquanto nós aqui na terra não damos o menor valor para as nossas urinas e fezes, no espaço isso é bem diferente. A preocupação com a água dos astronautas é imensa. Já que se tornaria impraticável ficar levando água do planeta terra para o espaço, os cientistas desenvolveram tecnologias de transformar a urina dos astronautas em água potável que eles podem beber sempre que sentirem sede. Claro que essa urina passa por vários processos para se livrar das impurezas e tornar-se água apropriada para o consumo.

Já pensou se fizéssemos isso aqui na terra? Se pudéssemos baratear essa tecnologia e aproveitássemos a nossa urina para criarmos água para bebermos? Talvez diminuíssemos muito a falta de água no mundo.

O outro projeto da NASA que falei acima é o de aproveitamento das fezes humanas para geração de energia. Se todas as fezes humanas fossem aproveitadas para gerarem energia também poderíamos contribuir para reduzir os seus preços e ter uma energia limpa sem agredir o meio ambiente. Isso pode ser possível? Claro que sim! O que falta é que essa tecnologia seja desenvolvida para uso aqui na terra e não somente pelos astronautas.

O que fazemos para salvar a lua da poluição humana também serve para salvarmos o planeta terra. Afinal, esta é a nossa casa. Claro que devemos nos comportar bem fora de casa, mas se não aprendermos a cuidar do lugar onde moramos como vamos cuidar de um lugar que visitamos pouco?

Críticas à parte, o que importa é que essas tecnologias sustentáveis estão cada vez mais perto de se tornarem realidade aqui na terra. Falta apenas vontade dos nossos políticos e empresários para investirem dinheiro em novas pesquisas, pois a ciência já mostrou do que é capaz e sem a ciência nada somos.

Outro dia navegando na internet encontrei um sutiã que foi desenvolvido pelos cientistas para uso das astronautas. Ele possui um gel que se move de acordo com as atividades realizadas. Esta foi uma descoberta maravilhosa porque toda mulher odeia sutiã e praticar esporte com aquela peça por dentro molhada e saindo do lugar a todo tempo é muito desconfortante. A criação desse novo sutiã esportivo foi encabeçada pela designer de produtos da Reebok, Danielle Witek, que teve o contato com esse tipo de tecnologia pela primeira vez enquanto folheava um jornal científico. O modelo foi desenhado como uma versão moderna dos trajes especiais da Nasa, que protegem os astronautas de detritos que voam em alta velocidade no espaço. Eis um grande passo na moda íntima feminina que vem do espaço.

Quanto mais confortáveis estejam as astronautas, melhor poderão desenvolver os seus trabalhos. Assim são as mulheres aqui na terra. Elas precisam de sutiãs capazes de proporcionarem segurança e conforto no dia a dia.

No projeto “Habitat Marte” já mencionado acima, temos uma estufa com vários tipos de plantas que aproveitam a água para o viveiro de peixes, ou seja, a água que rega as plantas passa por um processo de limpeza que depois serve para o viveiro e que poderia servir também para a irrigação de pequenos sítios criadores de vaquinha e plantadores de feijão e milho próximos da estação presencial que é um prédio na cidade de Caiçara do Rio dos Ventos no Rio Grande do Norte.

A estufa produz alimentos para os astronautas da estação, como: tomate, alface, repolho, coentro, cebola, cenoura, batata e outros. Se vocês tiverem curiosidades verão que já existem outros projetos de estufas desse mesmo modo sendo pesquisados em outros lugares do mundo para uma possível missão tripular ao planeta Marte.

Uma outra tecnologia apontada nos diversos projetos que podemos encontrar na internet sobre sustentabilidade no espaço é o aproveitamento do suor da tripulação para a fabricação de sal de cozinha. Essa tripulação como deve se manter sempre em forma praticando esportes uma hora por dia, no mínimo, poderia fazer uso de toalhas de papel ecológicas que se desmanchariam quando em contato com algum elemento químico separando o suor para ser aproveitado na produção de um sal saudável à saúde da tripulação.

A ideia de se usar toalhas de um papel ecológico que se desmancha rapidamente para enxugar o corpo do astronauta enquanto transpira no seu exercício também é fantástica porque economiza água, sabão e energia se fosse ser lavada numa máquina de roupas qualquer. Outra ideia genial que também vem das pesquisas dos cientistas da NASA é a de se utilizar todo material de cozinha feito de um único tipo de plástico capaz de ser colocado numa impressora 3D e que possa virar um outro objeto para uso.

Como vemos, somos capazes de criar muitas tecnologias bacanas que podem ser sustentáveis ao planeta terra. Tem uma indústria que usa o mesmo tipo de plástico nos seus produtos e que esses desaparecem rapidamente quando descartados. Eu não lembro o nome dela agora, só posso afirmar que também está no Brasil. O futuro é verde. As empresas estão preocupadas com a nossa sustentabilidade. Aqueles que não trazem o selo verde de proteção ao meio ambiente estão cada vez mais sendo boicotados e deixando de ser utilizados pelos jovens que na sua maioria sabem o que é melhor para o nosso planeta.

Sim, parece que os jovens estão fazendo bem a lição de casa quando diz respeito ao cuidado com a nossa natureza.

A ideia de se criar uma lavanderia no projeto “Habitat Marte” surgiu de uma discussão numa das suas reuniões virtuais da qual participei. Uma lavanderia pode aproveitar água para uso em outros locais. Se não podemos desperdiçar água na terra imagine em Marte que não existe, apenas congelada como foi provado até o momento pela ciência. Mas, se pudéssemos retirar a água das profundezas do solo de Marte através de um robô e transformá-la em água potável? É possível? Creio que sim. O mesmo podemos fazer com a neve que cai sempre no inverno nas regiões do sul e sudeste do nosso país. Já pensou se ao invés de deixarmos essa neve tornar-se líquida e correr para os esgotos aproveitássemos para transformá-la em água? Se não temos tecnologia o suficiente para torná-la potável poderíamos usá-la para lavar calçadas, carros, dar descarga no banheiro e tantas outras invenções.

A ideia da criação do No-Mix Vacuum Toilet surgiu aí, como uma tentativa de diminuir o desperdício de água e também reciclar o material considerado nojento, mas muito rico em propriedades. O vaso sanitário criado pelos pesquisadores separa a urina das fezes utilizando apenas uma fração da quantidade normal de água. Para eliminar a urina, a nova privada usa apenas 190 ml e para as fezes é necessário cerca de 1 litro. Se comparados com os 4 a 6 litros de água consumidos por descarga atualmente, o mecanismo criado pelos pesquisadores é muito econômico, assim nos diz o site do canaltech. Certamente, esta é uma ideia originada nas tecnologias da NASA sobre o bom uso da urina e das fezes. O que tem ajudado muitas pessoas a reduzirem as suas contas de água.

Uma descarga comum num vaso sanitário simples é capaz de usar bastante água. Já imaginou se duas pessoas em casa sofrerem com uma infecção intestinal por dois dias? Quanto de água será consumido nesse intervalo!

No entanto, se os jovens estão cada vez mais sendo ativistas em prol do meio ambiente precisamos agradecer aos vovôs e vovós que sabem bem a importância que a natureza tem para nós, por isso eles também deveriam ser ouvidos nas pesquisas da NASA sobre como colonizar a lua e o planeta Marte de forma sustentável. Tenho certeza que muitos deles saberiam dar ideias maravilhosas.

A minha mãe conta hoje setenta e seis anos de idade, mas foi com ela que aprendi a economizar água. Toda a nossa água da pia de lavar louças e da máquina de lavar roupas é reaproveitada no vaso sanitário, na lavagem da calçada e da nossa varanda. É preciso saber os 5Rs: reciclar, reutilizar, repensar, recusar e reduzir. Se cada um de nós tivermos na ponta da língua essas 5 propostas sustentáveis, tenho certeza que o mundo será um lugar melhor para se viver.

Uma outra tecnologia que foi criada para ser usada pelas mulheres é o uso do coletor de silicone que colhe o líquido menstrual e é capaz de fertilizar plantas, sendo considerado um dos fertilizantes naturais mais eficazes para combater pragas e fortalecer as plantas. Como é sabido, mesmo no espaço o ciclo menstrual das mulheres não é modificado o que pode causar transtornos na troca dos absorventes. Mas, novas tecnologias já foram criadas para evitar esses transtornos como o uso de pílulas, de medicamentos e até mesmo de implantes na pele para que a mulher fique sem menstruar por uns tempos. O sangue da menstruação é limpo e sem odor. Não é nada nojento como algumas pessoas pensam por aí.

E falar de menstruação para crianças e jovens deve ser algo importante e necessário nas salas de aulas, pois toda menina chegará na sua fase de menstruação. Eu, por exemplo, menstruei aos onze anos de idade. Ainda brincava de boneca quando sangrei pela primeira vez. Sorte a minha de ter sido preparada pela mamãe e pela minha professora do quarto ano fundamental. Os absorventes utilizados atualmente pelas mulheres causam um grande impacto negativo ao meio ambiente, pois eles custam a se decompor. O bom seria que voltássemos a usar absorventes de pano como usavam as nossas vovós. Conheço mulheres que fabricam esses tipos de absorventes de uma forma cuidadosa e respeitosa tanto ao corpo da mulher quanto ao meio ambiente. São feitos de tecidos que não agridem ao corpo e nem a natureza. Vale a pena conferir.

Tendemos a ouvir e ler muito informações sobre lixo no espaço, mas pouco se fala sobre as tecnologias que a NASA tem produzido para melhorar a vida dos astronautas na lua e para as missões que logo chegarão até o planeta Marte que são sustentáveis. É preciso saber bem onde procurar as informações e como fazer uso delas. Tem muita coisa importante sendo criada para proteger o meio ambiente. Muitas empresas de cosméticos já não fazem mais testes em animais e só utilizam embalagens recicláveis.

É pouco ainda o que estamos fazendo para salvar as nossas florestas e animais, mas vale a penas começarmos a comemorar as boas ações. Se cada um de nós agirmos fazendo algo como não jogar um copo plástico nas ruas já estaremos dando a nossa contribuição.

Ninguém joga nada “fora”. O “fora” não existe. Vivemos no planeta Terra e lá fora estão outras galáxias com uma porção de estrelas. Mesmo que saíssemos daqui para jogar o nosso lixo lá no espaço ainda assim não seria “fora”. Temos uma imaginação equivocada de que tudo que não está dentro das nossas casas faz parte do mundo lá fora. O lá fora é o caminho por onde você passa todos os dias quando vai trabalhar, o caminho por onde seu filho vai à escola ou até mesmo o lugar onde o seu amigo mais próximo mora. Cuidar do lá fora é também cuidar da sua casa. Pense nisso.

Se quisermos colonizar a lua e o planeta Marte de forma sustentável como vemos tantos belos projetos sendo desenvolvidos em universidades e centros de pesquisa devemos aprender a cuidar do planeta terra também. Não é porque algumas milhares de pessoas são analfabetas em educação ambiental que vamos abandonar os cuidados que devemos ter para com o nosso planeta.

Devemos educar as crianças para o dia em que chegarmos ao planeta Marte não produzirmos lixo demais o quanto produzimos aqui. Não sujarmos a estação espacial e mantermos sempre limpos os nossos locais de trabalho e estudo.

Os pais e professores devem mostrar as suas crianças o quanto o planeta Marte é lindo e aqui recomendo a série da Netflix intitulada “Marte” com vários episódios que trazem uma tripulação de pesquisadores que passam a viver neste planeta com o mínimo necessário para o bem-estar de todos.

Ouvindo a canção “Pisando na lua” de Hungria Hip Hop que diz nos seus versos “Tem hora que eu tenho uma vontade de pisar na Lua, tá ligado? / O mundo tá mó em guerra
Tá mó deslealdade, tá ligado? / Tenho mó vontade de fazer a festa na Lua / Já pensou? / Brisa nessa ideia aí.”

Assista ao clipe Hungria Hip Hop – Pisando na Lua (Official Music Video) #CheiroDoMato: https://youtu.be/GjjxdOPSVoE?t=18

Eu lembrei dos desflorestamentos e das queimadas que vêm ocorrendo mundo a fora sendo uma guerra da natureza para com o homem. Sim, o homem que faz guerra em tudo o que acha feio, chato e minoria. Também já tive vontade de ir morar na lua ou no planeta Marte para fugir das injustiças, do ódio, da violência e da estupidez humana toda vez que vejo alguém defender o desflorestamento em favor do desenvolvimento. O capitalismo está destruindo o verde que há nos corações dos nossos governantes. É triste ver tantos governantes darem entrevistas falando da nossa Amazônia como se tudo estivesse bem com ela, quando sabemos que as coisas andam de mal a pior com a exploração dos madeireiros e garimpeiros.

A vida na Amazônia se tornou insuportável. Os nossos indígenas são explorados, ameaçados, estuprados e violentados por pessoas más que só visam o lucro em cima das nossas florestas.

Para finalizar o nosso ensaio deixo vocês com o poema do nosso queridíssimo Carlos Drumond de Andrade intitulado “O Homem; as Viagens” que diz em seus versos “O homem, bicho da terra tão pequeno / Chateia-se na terra / Lugar de muita miséria e pouca diversão, / Faz um foguete, uma cápsula, um módulo / Toca para a lua / Desce cauteloso na lua / Pisa na lua /Planta bandeirola na lua / Experimenta a lua / Coloniza a lua / Civiliza a lua / Humaniza a lua.” 

Que esse homem tenha sempre o cuidado de colonizar a lua e outros planetas de forma sustentável e que continue desenvolvendo projetos que possam não somente proteger a lua, mas proteger o lugar de suas origens, a terra. Aqui é o nosso lugar. É aqui onde devemos plantar uma bandeirola com os seguintes dizeres: Terra, planeta verde!

Em outra publicação escrevemos: “devemos manter o respeito pelas florestas e pelos animais que nela habitam. Assim como devemos acreditar em alguma força sobrenatural que movimenta o planeta terra e que é possível a existência de deuses dentro e fora dos nossos pensamentos cheios de bits e bytes. Por isso gostaria de trazer uma canção de Maria Bethânia intitulada “Invocação” que diz Deus dos sem deuses / deus do céu sem Deus / Deus dos ateus / Rogo a ti cem vezes / Responde quem és? / Serás Deus ou Deusa? / Que sexo terás? / Mostra teu dedo, tua língua, tua face / Deus dos sem deuses.” Leia mais: https://www.neipies.com/o-que-os-deuses-as-ninfas-e-as-arvores-podem-ensinar-as-criancas/

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Maniqueísmo na política interessa a quem?

Maniqueísmo é utilizado como estratégia de marketing político, como modo eficiente para arregimentar multidões e aniquilar controles críticos, filtros e produzir barreiras para outras possibilidades, num jeito de sequestrar de consciências, intelectualidades e liberdades.

Passadas as comemorações alusivas ao dia da independência do Brasil e expectando sobre os desdobramentos dos movimentos e ações que marcaram essa data, compartilho uma reflexão sobre um tema que tem me intrigado e provocado inquietações. Uma singela análise sem muitas pretensões, a não ser estimular reflexões e debates.

Com propósito crítico, com abordagem aberta e construtiva, convido a tratar sobre alguns sentidos dos conceitos maniqueísmo ou maniqueísmos. Filosofia ou concepção sobre o mundo, surgida no século III, de origem religiosa; sincrética e dualista e que vê e concebe o mundo dividido em duas partes: o bom e o mau, Deus e o Diabo. 

Se as palavras surgem num contexto, ou se dá nome as coisas a partir de uma determinada realidade, é fato que, sem muita demora, o nome das coisas servem para definir e reconhecer outras tantas, se incorporam e se aplicam em tantas outras realidades e segmentos da vida social.

Na política, maniqueísmo tem sido associada a extremismos e polarizações, até mesmo a expressão tem sido estimulada, desenvolvida e empreendida, como ferramenta para marcar e destacar essa divisão entre o bem e o mal, entre nós e eles, quem concorda ou discorda com este ao aquele ato ou situação fatalmente será enquadrado ou marcado em um desses mundos ou nos dois mundos: ou será de Deus ou discípulo do demônio como resultado ou produto de idolatrias, endeusamentos e demonizações.

A propósito, maniqueísmo não reconhecido, mas efetivo, tem sido utilizado como estratégia de marketing político, como modo eficiente para arregimentar multidões e aniquilar controles críticos, filtros e produzir barreiras para outras possibilidades, num jeito de sequestrar de consciências, intelectualidades e liberdades, ao meu ver.

A quem interessa isso? A quem serve essa simplificação perigosa da vida e da política?

Muitos movimentos de massa comprometem a consciência individual e aniquilam, como dito, o senso crítico, desencadeando verdadeiros oportunismos e iniciativas diversionistas com o firme propósito de afastar da sociedade a análise e discussões sobre temas essenciais e decisivos para o aprimoramento do convívio, para a vitalidade da vida democrática e para o respeito às diferenças.

Quando expressões elementares da nossa vida são invocadas a todo o instante, os sinais é de que o que vemos e constatamos é a sua efetiva falta, a ausência, a reclamar que as invoquemos, como um esforço indispensável de que as mesmas e a civilidade não sucumbam.

Equilíbrio, ponderação e lucidez nunca foram tão necessários, assim como estabilidade, segurança e confiança nas instituições democráticas. Todas necessitam de narrativas e ações adequadas, críticas e responsáveis.

Num ambiente de instabilidade e desorientação há quem tenha vantagens econômicas e até políticas, alimentando e estimulando conflitos, promovendo e propagando o ódio e a intolerância, mas não tenho dúvidas que a maioria, a grande maioria, é e continuará sendo prejudicada.

Como a vida é mais rica do que os extremos e não é recomendável que não se construa e se estimule outras possibilidades do que essa visão e estratégias maniqueístas, num dualismo danoso e perigoso, podemos cogitar e buscar a vida e possibilidades ricas que estão entre esses extremos? A virtude está no meio, como já afirmou no passado o sábio Aristóteles.

Em introdução na obra O maniqueísmo em nossas vidas: a bondade dos maus e a maldade dos bons, Editora Movimento, 2015, Jorge A. Salton afirma: “o pensar maniqueísta, a divisão entre nós, os bons e eles os maus, é sinal patognomônico do surgimento da maldade – no sentido de sinal ou sintoma que por si só afirma a presença de algo. Ao dissecar o fenômeno, encontraremos, em sua base, o reducionismo, a generalização, a dogmatização, uma forma de pensar que, a partir de uma suspeita qualquer, já salta para a conclusão, a ausência de autocrítica, a inexistência de empatia e a necessidade de inimigos”.

Autor: Alcindo Batista da Silva Roque

Edição: Alex Rosset

A insuficiente necessidade da ciência

Ao negar a necessidade básica de aprender a aprender, aprender a viver e conviver, nega-se também a identidade humana fundamental de aprender a ser e a ser mais e melhor.

Nenhuma necessidade básica pode ser considerada supérflua para quem a possui. E há muitos com múltiplas necessidades básicas não satisfeitas. De outra parte, uma pequena parcela da sociedade alça seus desejos ilimitados e insaciáveis como necessidades irrevogáveis, originando e dando sustentação à perversa desigualdade social que caracteriza o capitalismo ultraliberal. Então, podemos afirmar que ao par do mundo das necessidades há o mundo das insuficiências.

Refiro-me aqui mais especificamente à importância e à necessidade da ciência. Ela foi e se apresenta cada vez mais indispensável na sociedade pós-moderna. Todas as ciências, embora imprescindíveis, também são insuficientes. E assim ocorre porque nenhuma delas, em particular, e nem todas juntas são capazes de abarcar a complexidade da realidade e o mistério da vida.

Entretanto, atualmente há uma tendência, que se acentua de forma assombrosa, de negar o valor e o alcance da ciência. Fenômeno que se associa à negação da verdade, da realidade, da vida e da dignidade humana. Tempos de todo estranhos!

Dos gregos aprendemos que filosofia é a ciência da amizade com a sabedoria (philos= amigo; sophia = sabedoria). E aprendemos também que o prefixo “a” exprime negação. Assim, o neologismo asophia traduz a noção e a possibilidade real de negarmos a sabedoria, quer consciente, quer inconscientemente. E pode-se, inclusive, chegar a gabar-se de negar o conhecimento, a sabedoria, a ciência e o necessário processo permanente do aprender.

Ao negar a necessidade básica de aprender a aprender, aprender a viver e conviver, nega-se também a identidade humana fundamental de aprender a ser e a ser mais e melhor.

Conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Pode-se conhecer apenas de forma racional, somente com a cabeça. O conceito sabedoria faz pensar no saber para além do conhecer. No saber que inclui conhecimento, mas remete para o ser e o fazer. Ser sábio é diferente de ser conhecedor. A junção do conhecimento com a sabedoria constitui a verdadeira educação.

Nas palavras do educador Paulo Freire, cujo centenário de seu nascimento celebramos em setembro de 2021, a verdadeira e necessária educação precisa ser libertadora e humanizadora.

No desejo de buscar conhecimento, pode-se ir à Universidade. Nela é possível construir conhecimento, mas não só; também sabedoria. Pelo reverso, é possível não construir nem um nem outra. Ao invés de fortalecer a filosofia, pode-se elevar a asophia. Esse é o pior resultado que um ambiente universitário pode produzir. E, infelizmente, não é raro constatar esta realidade, onde educadores (ex= fora; ducere = conduzir; conduzir para fora) se transformam em meros transmissores de conhecimentos e estudantes se condicionam a ser meros depositários de informações.

O estudante universitário que afirma: “tirei nota baixa, mas o importante é que passei” nega a ciência, o processo educativo e também a capacidade de se aprimorar na sabedoria. O governante que nega a gravidade de uma pandemia, que orienta ao consumo de medicamentos de eficiência não comprovada, nega a ciência, age sem prudência e promove perdas vitais e irreparáveis. O líder religioso que utiliza da fé do povo e das Escrituras Sagradas para oprimir, alienar e produzir fanatismo também nega a verdadeira religião, a Ciência Teológica e a prática da libertação.

Toda informação, toda tecnologia, todo conhecimento e toda ciência são importantes. Porém, se não vierem acompanhados do diálogo, do respeito, da sabedoria e da sensibilidade poderão pôr tudo a perder. Conhecimento com arrogância se torna desprezível.

Ciência sem sabedoria pode se tornar perigosa. Tecnologia sem prudência pode gerar o caos e a barbárie. Portanto, trata-se de buscar sempre o que é necessário sem desconsiderar o essencial. No equilíbrio entre o necessário e o essencial poderemos avançar no caminho que nos torna mais humanizados, tal como enfatizou Paulo Freire!

Em outra publicação escrevemos: “que triste quando ninguém lê ou, mesmo lendo, não “curte”. Mas a curtição depende do sentido ou não do que se escreve para quem lê. Vale aqui lembrar o que outrora escreveu Bertolt Brecht: “Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas, estão em pior situação ainda os ouvintes que não encontrem quem tenha algo a dizer-lhes”. Leia mais: https://www.neipies.com/para-que-escrever/

Publicação originalmente publicada em site Unisinos: http://www.ihu.unisinos.br/612377-a-insuficiente-necessidade-da-ciencia?

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alex Rosset

Reposição já: vigília permanente por salário digno e contra a retirada de direitos

O CPERS entra setembro em vigília permanente pela justa reposição salarial da categoria. Já são sete anos sem nenhum centavo de reajuste, levando professores e funcionários de escola a situação de miserabilidade.

Diferente do discurso de campanha, quando afirmava que bastava levantar da cadeira para valorizar os educadores, o governador Eduardo Leite elegeu a educação como sua inimiga e vem, sucessivamente, retirando direitos históricos.

Confisco do salários dos aposentados(as), fim de vantagens temporais, descontos acumulados do vale-transporte e o não pagamento dos dias trabalhados para recuperar a greve são alguns dos ataques que minguam ainda mais os já ínfimos recursos da categoria.

“O governo Leite segue com as mesmas políticas de Sartori, só que aprofundando ainda mais a retirada dos nossos direitos. Bolsonaro fez a reforma da previdência, taxando os aposentados, e imediatamente o governador fez o mesmo aqui. O sucateamento da educação pública e o desmonte dos serviços públicos fazem parte do projeto de ambos. Seguimos na luta contra este projeto de destruição do Rio Grande do Sul e do Brasil”, observou a presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer.

O segundo vice-presidente do CPERS, Edson Garcia, frisou que o salário da categoria não acompanha os índices da inflação e nem a alta dos preços. “Houve aumento do gás, da luz, da gasolina, da alimentação, de tudo. E o nosso salário segue o mesmo. Um governo que não olha para a educação, não faz investimento no futuro”, frisou.

Juçara Borges, diretora do CPERS, lembrou do impacto aos aposentados. “A retirada dos nossos direitos nos deixa sem condições de termos uma vida digna. Estamos sendo penalizados, pagando novamente a previdência”, destacou.

“Os educadores estão tendo que escolher entre comer e pagar as suas contas. Isso é inaceitável. Ano que vem tem eleições estaduais e nacional. Vamos dar a resposta nas urnas”, afirmou a diretora Alda Bastos Souza.

“Os funcionários da educação recebem o menor salário na pirâmide salarial do estado do Rio Grande do Sul. Têm que escolher entre pagar as contas ou comprar comida. O que Eduardo Leite faz é desumano”, ressaltou a diretora Sonia Solange Viana.

A diretora Glaci Weber alertou para o risco do fim da paridade dos aposentados. “Os aposentados repudiam o sequestro dos seus salários, realizado por Leite e Bolsonaro através da reforma da previdência. Agora querem fazer a reforma administrativa para terminar com a paridade.”

“Nossa categoria está miserável, endividada com os empréstimos no Banrisul para tentar sobreviver. Precisamos da reposição para termos um mínimo de dignidade. Governador, respeite quem faz a educação desse estado”, disse a diretora Rosane Zan.

“Hoje estamos apoiando também o movimento do pessoal do Sindiágua e da Corsan, contra a privatização. E sempre lembrando da nossa necessária reposição salarial”, enfatizou o diretor Amauri Pereira da Rosa.

“Não é possível imaginar um país ou estado que cresça sem valorizar a educação pública. Não é tarefa do estado economizar, ter dinheiro em caixa, ao contrário, o estado precisa investir, especialmente em educação, para que servem 2,7 bilhões de superávit se educadores ganham somente para se alimentar?”, observou a diretora Carla Cassais.

Fotos: CPERS/Sindicato

Edição: Alex Rosset

Para quê estudar Teologia?

O processo reflexivo da Teologia, considerando a sua estruturação a partir da fé, está marcado pela racionalidade. O compromisso de fé tem o mesmo peso do compromisso com a racionalidade. É uma ciência da fé e da razão e se utiliza delas em busca da verdade.

A região de Passo Fundo (RS) é servida por inúmeras Instituições de Ensino Superior – IES, voltadas à formação de pessoas em grau superior para atuação qualificada em diferentes áreas da sociedade. Esta realidade faz da região um polo de atração de pessoas de outros lugares do Brasil que vêm buscar a formação superior.

Desde 1982, existe na cidade de Passo Fundo uma Instituição voltada à formação teológica, a Itepa Faculdades. Tem como mantenedoras a Arquidiocese de Passo Fundo e outras Dioceses associadas. A principal oferta da Itepa Faculdades  é o Curso de Bacharelado em Teologia. Este curso está voltado à formação de presbíteros, religiosos e religiosas, também aos leigos e leigas, que atuam nas comunidades exercendo o compromisso de batizados.

Para conhecer mais sobre o ITEPA, acesse aqui: https://itepa.com.br/

Historicamente, a Igreja sustenta a tradição de formar seus agentes para uma atuação qualificada, eficaz e comprometida com os pilares da fé cristã. As disciplinas componentes do Curso de Bacharelado em Teologia estão voltadas a esta formação qualificada porque ela exibe um conjunto de conhecimentos ordenados, com objeto, método, unidade, sistematização próprios (cf. CNBB 2011, n. 23) que lhe legam o estatuto de ciência. É a ciência que tem Deus, o ser humano e o mundo como seus interlocutores.

A Teologia é uma área do conhecimento que tem como ponto de partida a revelação de Deus à humanidade. O termo se origina do grego Theo + logia que significa estudo de Deus, ou ciência de Deus.

Não é um estudo qualquer. A certeza da Teologia, e, nisto se difere das outras ciências especulativas, que partem da dúvida ou da necessidade de comprovarem hipóteses, é que Deus se revelou ao ser humano. É a auto manifestação de Deus ao longo da História que se plenifica na pessoa de Jesus Cristo. Sobre isto a Teologia não coloca dúvidas sobre o risco de fazer ruir a sua própria estrutura de saber. Isto não implica em perda da racionalidade.

O processo reflexivo da Teologia, considerando a sua estruturação a partir da fé, está marcado pela racionalidade. O compromisso de fé tem o mesmo peso do compromisso com a racionalidade. É uma ciência da fé e da razão e se utiliza delas em busca da verdade. Como ciência tem um estatuto próprio. Sua identidade que, por sua vez não é fechada, é aberta ao diálogo com as outras ciências.

A partir dessa certeza a Teologia avança na especulação, tendo como referência o próprio Deus que se dá a conhecer, o ser humano que acolhe revelação divina e o contexto de vida de cada homem e mulher, sua historicidade. Então, a Teologia tem responsabilidade ao pronunciar-se sobre Deus, o ser humano e o mundo. Este pronunciar-se se funda no compromisso com a verdade.

Também deve considerar a sua responsabilidade eclesial, porque a Teologia além de ser uma ciência que parte da fé e considera a fé no seu desenvolvimento, também é uma ciência eclesial, porque a tradição reflexiva, da qual é herdeira e dá prosseguimento, desenvolve-se no seio da Igreja (Cf. CNBB 2011, n. 19). Ela contribui para que a Igreja apresente ao mundo as razões da sua fidelidade ao Senhor, aquele que se revela à humanidade fundado no amor e na gratuidade. Assume também a “grave” responsabilidade de tornar crível para os interlocutores as razões do seu acreditar.

Ao mesmo tempo em que presta um serviço à humanidade a Teologia ajuda também a Igreja, porque esta tem a missão de apresentar Jesus Cristo e o seu projeto salvador ao mundo.

Tendo presente o aspecto pessoal, de cada crente, é salutar o interesse em aprofundar-se na sua vida de fé. Se costuma cantar “creio Senhor, mas aumentai minha fé” também é factível que se procure compreender melhor esta fé, as razões de crer. Esta inquietação salutar diz respeito ao crente que procura compreender o conteúdo da sua crença a partir do próprio conteúdo que ele confia (cf. Fisichella, 2000, p. 59). Nesta caminhada pessoal, dialogante com a Igreja, dá-se o encontro entre a fé e a razão, pois uma fortalece a outra.

Compreendamos também a referência pastoral do estudo teológico. Faz-se necessário uma boa formação dos agentes de pastoral. No diálogo eclesial, a teologia fundamenta os processos formativos. Como toda a instituição de referência social, a Igreja necessita formar seus quadros humanos. A Teologia é a espinha dorsal dessa formação, sem desconhecer outras dimensões.

Por fim, a Teologia é uma necessidade para o mundo. Neste caso ela assume uma perspectiva profética. Não pode abster-se de ocupar, em nome da fidelidade ao Deus revelado, o seu lugar dialogante com o mundo, sobretudo em tempos onde o próprio nome de Deus é usado em processos desconectados da sua proposta amorosa e libertadora.

Comprometida com a profecia, a Teologia assume o compromisso com a verdade que vem de Deus e não se limita a quaisquer denominações ideológicas.

Neste sentido justifica-se a necessidade humana e eclesial de se estudar Teologia. Tenhamos mais pessoas dispostas a estudar Teologia. É uma necessidade pessoal, eclesial e de toda a humanidade.

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis

Edição: Alex Rosset

Brasil triplamente refém

Pandemia, Bolsonaro e Centrão. Paga a conta a multidão dos sem-terra, sem-teto e sem-trabalho.

O Brasil é refém da pandemia e de Bolsonaro, e o presidente refém do “Centrão”. Este tem representado o lado mercenário da política. Movido a “emendas parlamentares”, constitui um ralo sem fundo, por onde escoa parte considerável da riqueza nacional.

Não basta o chefe de plantão pagar e o apoio está resolvido uma vez por todas. Os membros do centrão vivem do jogo da chantagem. Votam pelos interesses do Planalto na medida em que (e somente na medida em que), nas votações da Câmara, vez por vez o governo irriga com dinheiro público a quota de gastos de cada parlamentar.

Em lugar de um compromisso definitivo, a fidelidade deve ser paga gota a gota, emenda a emenda. Afinal de contas, como é notório, o parlamentar tem de trabalhar duro para manter sua cadeira cativa no Congresso Nacional!

Resta saber quem paga a conta dessa hemorragia gigantesca sofrida periodicamente pelos cofres públicos. E a resposta tem alguns endereços pontuais. Primeiramente, paga a população mais pobre, carente e vulnerável, com rostos desfigurados pelo cansaço e o abatimento. Encontram-se nas filas das unidades de saúde, muitas vezes sequer chegando a ser atendidos, e em certos casos falecendo antes de chegar a um consultório médico.

A conta recai também sobre os ombros das crianças desfavorecidas, com uma educação cada vez mais distante da realidade socioeconômica e político-cultural do país; dos migrantes e das pessoas em situação de rua; dos desempregados, subempregados e todos os que subjazem nos subterrâneos do mercado informal.

Numa palavra, o dinheiro que sobra no crédito dos parlamentares, para a população de baixa renda, faltará na mesa e no vestuário, no transporte e na moradia, na escola e na saúde. Paga a conta a multidão dos sem-terra, sem-teto e sem-trabalho, para usar os três “T” do Papa Francisco.

Leia também: Ninguém sem teto, ninguém sem terra e ninguém sem direitos. https://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/1783548-ninguem-sem-teto-ninguem-sem-terra-ninguem-sem-direitos-premium

Mas o círculo vicioso do toma-la-dá-cá tem outro endereço bem preciso. Agrava a desigualdade social e econômica, item em que o Brasil figura como uma das nações mais assimétricas de todo mundo.

De acordo com Thomas Pikety e com Jessé de Souza – ambos com estudos recentes sobre a distribuição desigual da riqueza – na virada do século XX para o XXI, aprofundou-se o fosso abissal entre os que ocupam a base da pirâmide social e aqueles que se encontram no pico.

A pequena fatia de apenas 1% da população mundial detém cerca de 50% de toda a riqueza produzida, enquanto a subnutrição, a miséria e a fome alcançam cerca de um bilhão de pessoas. No Brasil, praticamente a metade da população sofreu nos últimos dois anos algum tipo de insegurança alimentar. Daí o crescimento das filas pela marmita e pela cesta básica.

Ademais do progressivo desequilíbrio entre os que gozam o luxo do andar de cima da pirâmide e os que se escondem no andar de baixo, entretanto, outra distância cresce em igual proporção. Eleitos e eleitores se desconhecem cada vez mais. Os primeiros, ao conquistar pelos votos um lugar cativo no Planalto Central, parecem viver ali como verdadeiros extraterrestres. Navegam numa órbita muito superior aos que, na planície, experimentam “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias” (Gaudium et Spes, n. 1) do dia a dia.

A extensa quilometragem e o poder de compra que divide os parlamentares de um lado, e os pobres mortais de outro, é tamanha que estes últimos sequer sonham com as despesas diárias daqueles. E inversamente, os deputados sequer imaginam as dores e penas que sofrem os cidadãos que lhes dão os votos, menos ainda trabalham por seus interesses e direitos básicos.

O círculo vicioso se perpetua de eleição para eleição. A vitória do político abre novas portas para empreendimentos econômicos, ao passo que a força econômica garante maior poder de fogo no próximo processo eleitoral.

As pontas se juntam, se fundem e se estreitam, sendo que esse jogo perverso consolida, ao mesmo tempo, a concentração de renda e a exclusão social. Nunca é demais lembrar, porém, que a fidelidade do centrão é irmã gêmea de sua infidelidade. Quando o dinheiro escasseia ou quando se rompe o véu da transparência, o conta gotas deixa de pingar. Opositores voltam a ser o que sempre foram – inimigos!

Autor: Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

Pedagogia da Escuta

Em termos educacionais, exercer a pedagogia da escuta significa dar-se conta dos sinais e das vozes que vem de forma atravessada, que na maioria das vezes decodificamos de forma apressada e equivocada e, por isso, julgamos e compreendemos erroneamente.

Hermann Hesse, importante escritor e pintor alemão, prêmio Nobel da Literatura em 1946, autor de consagradas obras como Sidarta, Demian e O lobo da estepe, dizia em um dos seus textos que “para a arte de viver, é preciso saber a arte de ouvir, sorrir e ter paciência sempre”. Saber ouvir, sorrir e ter paciência não são somente conselhos para viver bem, mas são imprescindíveis para ser educador no sentido pleno da palavra.

Nosso inesquecível Paulo Freire em seu belo escrito Pedagogia da Autonomia dizia que “ensinar exige saber escutar”, pois “somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise de falar a ele”. Mas o que significa saber ouvir? No que consiste a pedagogia da escuta?

É de Rubem Alves a ideia de que precisamos urgentemente de um curso de “escutatória”. Há muitos cursos de oratória, pois todo mundo quer aprender a falar, mas poucos estão interessados e propensos a aprender a ouvir. Escutar é complicado e sutil, requer humildade, abertura, simplicidade, sabedoria, tempo, paciência, cuidado. Num mundo marcado pelo “destempero” do imediatismo, da urgência, da velocidade, da fugacidade, tempo para ouvir é considerado “perda de tempo”.

Queremos ser escutados, mas não temos paciência e sobriedade para ouvir.

Valendo-se do poeta Alberto Caeiro, Rubem Alves ressalta: “Não basta ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Talvez por isso temos dificuldade de ouvir o que o outro tem a dizer sem logo dar um palpite melhor e assim misturamos aquilo que ele diz com o que nós pensamos ou julgamos ser melhor. Assim, nossa escuta é falsa, cínica ou de conveniência. Fazemos de conta que estamos escutando, mas no fundo já temos nosso próprio julgamento. Como ressalta Rubem Alves, “nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa ignorância e vaidade”.

Precisamos sim de um curso de “escutatória”, pois escutar no sentido mais profundo da alma é “auscultar”, do verbo latino auscultare, ou seja, a escuta dos sons internos do corpo que nos possibilita compreender o que não enxergamos, ver aquilo que está oculto aos olhos.

Em termos educacionais, exercer a pedagogia da escuta significa dar-se conta dos sinais e das vozes que vem de forma atravessada, que na maioria das vezes decodificamos de forma apressada e equivocada e, por isso, julgamos e compreendemos erroneamente.

Praticar a pedagogia da escuta é compreender as múltiplas experiências para além do imediato, do utilitário, do padrão convencional. Assim, talvez, tenhamos chance de perceber que a indisciplina que ocorre muitas vezes na sala de aula, o desinteresse de muitos alunos pela aprendizagem, a forma como alguns negativamente reagem a forma como realizamos nosso trabalho, não é a negação da educação, mas um sinal de que precisamos exercitar a pedagogia da escuta para compreendê-los.

Em outra publicação, escrevemos: “Enganam-se aqueles que acreditam que a felicidade está em comprar coisas, em adquirir bens materiais ou atingir certas metas planejadas. Como horizonte, ela sempre nos escapa quando tentamos capturá-la. A felicidade não está nas coisas ou num lugar, mas na capacidade humana sempre inconclusa de viver intensamente a vida nas pequenas coisas”. Leia mais!

Autor: Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

O que os deuses, as ninfas e as árvores podem ensinar as crianças

Devemos manter o respeito pelas florestas e pelos animais que nela habitam. Assim como devemos acreditar em alguma força sobrenatural que movimenta o planeta terra e que é possível a existência de deuses dentro e fora dos nossos pensamentos cheios de bits e bytes.

Eu já escrevi muitos poemas para crianças, mas se fosse a terra faria o que nos diz Khalil Gibran “arvores são poemas que a terra escreve para o céu.” Que um dia possamos saber ler cada um desses poemas e cultivar os seus ensinamentos mostrando as crianças que quando poetizamos a natureza estamos, na verdade, criando outros mundos possíveis dentro de nós, mundos esses subjetivos e únicos capazes de transformar pensamentos alheios em coisas boas, em benquereres e amores que parecem cafonas aos homens da atualidade.

Mandar flores ainda é um gesto de amor, e escrever poemas para alguém ainda é dizer um eu te amo de verdade. E que de verdade possa ser sempre o amor das crianças pelas nossas árvores.

Os indígenas e alguns velhos africanos acreditam que nos troncos de árvores habitam deuses. São esses troncos moradas de deuses que cuidam das florestas, protegendo-as contra todas as forças humanas que querem a todo instante derrubá-las com machados ou serras elétricas. Os deuses fazem o que podem. Não é por serem deuses que impedirão os homens com livre arbítrio de derrubarem as suas árvores seculares. O que um deus pode fazer é cuidar e proteger, mas evitar que a maldade humana chegue até as florestas é uma tarefa impossível, pois antigamente os deuses castigavam os homens pelos seus malefícios e, infelizmente, hoje são os deuses os castigados pelos homens.

Deram tanto poder aos homens que eles conseguiram tomar o lugar dos deuses na natureza. Isso é a maior das tristezas que podemos constatar nos dias atuais, os homens se colocando nos lugares de deuses. Em breve vão querer ser imortais e logo não tardará que inventarão o elixir da vida longa. Esperem um pouco.

O deus Pã na mitologia grega é aquele que cuida dos bosques, das montanhas, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Vive em grutas e caminha pelas florestas e montanhas sempre a brincar com as ninfas. É representado com orelhas, chifres e pernas de bode, amante da música, traz sempre consigo uma flauta. É temido por todos aqueles que necessitam atravessar as florestas à noite, pois as trevas e a solidão da travessia os predispõem a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente, e que são atribuídos a Pã; daí o termo “pânico”. Esse deus é um dos protetores das florestas e antigamente os homens o temiam.

Hoje, somente as crianças temem os deuses e os seus castigos. Quer dizer, algumas crianças porque os adultos estão adultizando as crianças logo cedo e essas perdem o imaginário e passam a se sentirem corajosas e a não temerem nada.

Em suas brincadeiras com as ninfas pelas florestas, o deus Pã estava sempre ali cuidando da natureza. Quando as ninfas o distraíam uma vez ou outra algum homem tentava invadir as florestas, mas assim que percebia tal gesto ele combatia com os seus castigos tal homem. A missão do deus Pã era proteger as árvores, os rebanhos e os pastores.

Os deuses nunca se cansam de fazer coisas boas. Se não continuarmos ensinando as nossas crianças que o deus Pã existe e que ele é forte e corajoso no combate a preservação da natureza deixaremos de lado a parte mais bela da nossa história que os indígenas e velhos africanos contam às suas crianças, os deuses tudo podem e por isso devemos temê-los. Quando menos esperamos eles nos castigam.

Mas não são somente os deuses que habitam as florestas. Temos outras figuras importantes e muito conhecidas da mitologia grega: as ninfas ligadas a elementos naturais. Os gregos acreditavam que as ninfas viviam em lagos, montanhas, campos e bosques. Além de serem responsáveis por levar felicidade e alegria para as pessoas, eram uma espécie de deusas-espírito da natureza que representavam o dom de fertilidade da natureza. As ninfas serviram de fonte de inspiração para a arte greco-romana, emprestando suas características a seres mitológicos de culturas posteriores, por exemplo, os elfos, fadas e gnomos.

De acordo com a mitologia grega, as ninfas eram divindades benéficas que representavam elementos da natureza. Portanto, as ninfas viviam por muitos anos sem jamais envelhecer, permanecendo jovens, belas e graciosas. Contudo, não eram imortais, mas, despertavam a paixão de deuses e homens. Habitavam em fontes, lagos, rios, riachos, mares, bosques, florestas, prados e montanhas. Onde podiam viver livres e independentes, além de auxiliar os deuses em suas funções. Além disso, as ninfas eram ligadas a terra e a água, sendo classificadas de acordo com o lugar em que habitavam.

Essas figuras mitológicas eram descritas usando vestidos leves, esvoaçantes e quase transparentes, com cabelos compridos soltos ou entrelaçados. Segundo a lenda, as ninfas raptavam um mortal quando se apaixonavam por ele, como o mortal Hilas da lenda de Hércules, que ao retirar água de uma fonte foi raptado por uma delas. Da mesma forma, Hermafrodito, que ao banhar-se em uma fonte, despertou o amor da ninfa Salmacis. Que o abraçou e pediu aos deuses para que fundissem seus corpos em um só.

Uma das ninfas mais conhecidas e estudadas até hoje é Eco do mito de Narciso. Um mito que é bastante estudando na literatura, na psicologia e psicanálise. Existe a flor Narciso e podemos encontrá-la em alguns jardins urbanos. Narciso foi um jovem que ao nascer seus pais o levaram ao oráculo onde ficou dito que ele poderia viver por muitos anos se não visse o seu próprio rosto nunca.

Narciso cresceu nos bosques e gostava de caçar veados e outros animais. Até o dia em que a ninfa Eco o conheceu e passou a amá-lo. Eco amou tanto Narciso que ao ver-se desprezada por ele foi falar com uma deusa para castigá-lo por tal desprezo. Certo dia, Narciso passeando nos bosques encontra um lago de águas límpidas e se aproxima para beber da sua água. De repente, ele vê um rosto nas águas e se apaixona perdidamente por esse rosto que é o seu. Narciso fica tão apaixonado que chega a gritar com as águas do rio. Começa definhar, a entristecer com o desprezo do rosto no lago. Eco preocupada e arrependida pelo que fez com Narciso acaba morrendo e virando uma pedra. Narciso morre de tanto amor pelo rosto no lago e vira uma flor. A flor narciso.

Entrando um pouco no mundo da psicanálise é interessante também no mito que seja Eco (que usualmente conhecemos pelo som gerado por uma única voz em lugares grandes e vazios, condição frequentemente encontrada em cavernas) a buscar Narciso. Nesse sentido, podemos considerar que Narciso (aquele que está condenado a amar a si mesmo) não pode se relacionar com nada a não ser com seu próprio Eco. Nesta passagem, é muito interessante quando Eco diz para Narciso se juntar a ela e ele diz: “Prefiro morrer a te deixar me possuir”. Ou seja, não há nada mais assustador e terrível para o narcisismo que se deixar possuir por um outro, que não ele mesmo.

Assim é que quando a necessidade dos vínculos é negada, quando há um fechamento da libido em si mesmo, negando-se a própria condição de dependência e fragilidade humana, o que resta é a inanição e a morte.

Algumas pessoas costumam chamar outras de narcisistas. Sem saber bem o que isso representa. Narcisista é uma pessoa que só pensa em si, que só pensa em sua beleza física e não se preocupa com a beleza da alma. Um narcisista é alguém que ama demais a si mesmo, e esquece de amar as pessoas ao seu redor. A principal mensagem do mito de Narciso é como a vaidade e a arrogância podem ser prejudiciais ao ser humano.

O mito de Narciso poderia servir também para ser estudado em sala de aula pelas crianças através da beleza dos bosques onde ele tanto costumava brincar e onde morava Eco. Os professores poderiam interrogar aos alunos o que eles pensam sobre Narciso e Eco, se ainda existe perto das suas casas um bosque tão bonito quanto o de Narciso com águas límpidas e animais. A flor Narciso poderia ser mostrada às crianças na sala de aula em retrato ou até mesmo natural.  A partir das reflexões das crianças poderia se chegar a um diálogo porque Narciso só amava a si próprio, o que ocorre com essas pessoas, por que Eco sofreu tanto, qual foi o erro de Eco e tantos outros elementos que podem ser retirados do mito para serem trabalhados em sala de aula.

O importante é que fique no pensamento das crianças a beleza dos bosques e das pessoas que convivem neles porque ainda há muitos indivíduos que moram ao redor de bosques, assim como pessoas que vivem em casas de campo.

Mas, para não esquecermos da literatura que traz as ninfas vamos falar um pouco sobre ela. O mito da Ilha dos Amores é contado por Luís de Camões, nos Cantos IX e X d’Os Lusíadas. Nestes cantos, é relatada a vontade da deusa Vênus em premiar os heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha paradisíaca, no meio do oceano, a Ilha dos Amores. Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos. Durante um banquete oferecido aos portugueses, a ninfa Sirena canta as profecias sobre a gente lusa que incluem as suas glórias futuras no Oriente.

O mito da Ilha dos Amores, narrado por Camões, é fruto da sua imaginação, quer povoada dos lugares maravilhosos onde as suas viagens o levaram, quer influenciada pelas míticas ilhas da literatura grega ou de outras lendas árabes e indianas. No mito de Camões, podemos ver que apesar da Ilha dos Amores ser produto da sua imaginação ele consegue resgatar a beleza dos bosques, das ilhas e das ninfas da mitologia grega, para alegrar os seus soldados navegadores que voltavam felizes das suas viagens marítimas depois de enfrentarem muitos desafios. As ninfas são as grandes anfitriãs da festa da Ilha dos Amores mostrando que todo aquele que volta de uma grande empreitada merece o nosso respeito e a nossa recepção com festas e alegrias.

Eu, particularmente, tenho um grande amor pelas ninfas. Fico a imaginá-las belamente tomando banho nos rios ou caminhando pelos bosques cuidando das flores, dos lagos e dos rios. Sentadas em pedras, correndo pelas florestas com os seus cabelos longos. Talvez se procurarmos direitinho dentro de nós ainda encontraremos muitas ninfas nas florestas que tentam a todo instante protegê-las da ação maldosa do homem e conversam com os deuses sobre tais ações fazendo com que se rebelem e nos castiguem. Não é à toa que temos tantas enchentes, tempestades e furacões. São os deuses mostrando os seus poderes. Quem diz que eles não existem está enganado. Ainda há muitos que acreditam nos seus poderes.

Os indígenas acreditam incansavelmente nos poderes dos seus deuses. Eu também acredito. Mas o homem cruel não tem medo dos castigos dos deuses. Ele vai para dentro da floresta com as suas espingardas caçar animais inocentes para pendurarem as suas cabeças nas salas das suas mansões.

A arvore é uma fonte de forças ativas. O contato com ela pode nos enriquecer de energias novas e nos transmutar internamente. Tem como função universal ser a mediadora entre a Terra e o Céu, enquanto o ser humano é o intermediário entre o Céu e a Terra. Quando abraçamos uma árvore nos tornamos um só ser. Podemos sentir a sua energia entrar em nossos corpos. Se permitirmos as forças da árvore são transmitidas para dentro de nós. Ficamos mais fortes e dispostos para enfrentarmos as dificuldades do dia, por isso é importante ter uma árvore perto de casa.

Se toda pessoa soubesse a primeira coisa que fazia antes de começar o seu dia era abraçar uma árvore. As árvores têm poderes sobrenaturais de cura, de motivação, de felicidade, de bem-estar. Elas se conectam com os deuses e esses passam a ouvir o que dizemos para elas. Devemos ensinar as crianças a abraçarem as árvores com muita vontade e alegria para que possam receber delas forças para um crescimento saudável.

Em algumas regiões do continente africano, acredita-se que nos troncos dos baobás moram deuses. Alguns jovens são iniciados nos rituais de culto a esses deuses pelos velhos griots das aldeias que cuidam de zelar a tradição e de passá-la adiante. Além das árvores que podem curar doenças da alma e do corpo temos também algumas plantas medicinais que esses velhos griots e os indígenas brasileiros sabem muito bem seus benefícios. Antes mesmo de sermos levados ao médico costumamos tomar alguma espécie de chá em casa para aliviar uma dor aqui ou acolá.

As pessoas que acreditam nos poderes de curas das plantas pouco adoecem e estão sempre de bom humor. Conheço pessoas que passam o dia todo tomando chás. As plantas assim como as árvores têm poderes sobrenaturais capazes de curar todas as doenças dos nossos corpos e almas. Nós é que nos preocupamos muito em comprarmos remédios de laboratórios industrializados.

No poema de Ricardo Reis heterônimo de Fernando Pessoa intitulado “Deixemos, Lídia, a ciência que não põe” encontramos nos versos “Colhendo flores ou ouvindo as fontes / A vida passa como se temêssemos. / Não nos vale pensarmos / No futuro sabido” aqui numa análise simples do poema podemos dizer que o poeta fala desse colher flores nos bosques e ouvir a canção das águas das fontes ser mais vida e nos presentear com muito mais esperança de poder viver intensamente, pois tememos perdê-la rapidamente. É como se estar perto das flores dos bosques nos mostrasse a grandiosidade desses elementos da natureza diante das nossas vidas frágeis. E mesmo que colhamos as flores e possamos ouvir as fontes ainda assim as nossas vidas passam porque somos mortais e um dia todos iremos morrer, por isso é que não devemos pensar nesse futuro que já nos aguarda.

Vale a pena viver cada instante que nos for oferecido diante da natureza para que ela possa nos presentear com mais vida e energias capazes de enfrentarmos os nossos medos e obstáculos tirando assim as pedras dos nossos caminhos e colocando flores e fontes para que possamos sentir e ouvir a natureza.

Os indígenas retiram das florestas apenas aquilo que lhes são necessários, tais como elementos que possam lhes dar alimentos, utensílios e moradias. Se seguíssemos os ensinamentos dos nossos povos indígenas talvez houvesse menos queimadas e desmatamentos porque eles são os verdadeiros guardiões das nossas florestas. As crianças poderiam ser levadas para passarem um dia numa tribo indígena e manter junto com eles o contato com a natureza. Ainda se cultivam nas escolas o mito do indígena que só sabe pintar o corpo, dançar e andar de canoa. Atualmente, os nossos indígenas estão nas academias universitárias, atuando como políticos, sendo médicos e se destacando como grandes escritores.

O indígena faz parte da floresta e ele luta todos os dias para conservá-la sabendo que seus deuses moram nelas. O homem moderno está querendo acabar com os rituais indígenas e colocando de goela abaixo nesses povos as suas culturas. Todo povo deve ter respeitados os seus costumes e culturas.

Eu gosto muito de uma música do cantor Paulo Ricardo intitulada “Ninfa” que diz em alguns dos seus versos “Noites assim todos a fim, todos a fim de tudo / Então é sábado e tanta gente querendo acreditar / Em fadas, ninfas, duendes e em sereias do mar.” Na sua canção, Paulo Ricardo tenta nos mostrar o homem moderno que está sempre a fim de tudo, principalmente de divertir-se, de acreditar em algo sobrenatural numa noite de sábado que possa lhes acontecer como conhecer um grande amor, viver uma noite de sábado feliz na balada e que essa felicidade seja tão encantadora o quanto são as fadas, ninfas, duendes e as sereias do mar.  Essa gente que procura todos os sábados uma forma de se divertir para esquecer o cansaço da semana de trabalho. Por que não acreditar nas ninfas? Não seriam elas capazes de aparecerem de repente e modificarem a vida de algum jovem cansado e estressado por ter passado o dia quebrando a cabeça com um programa de computador? As ninfas não poderiam fugir das florestas um só minuto para alegrar o sábado de um jovem que espera pela sua beleza, jovialidade e astúcia possível de vestir-se num ser humano para lhe fazer companhia na balada.

Assim como as crianças esperam nas noites de sábado que seus pais as levem para um passeio e que algo sobrenatural possa acontecer como ganhar um presente que não esperavam. Tudo pode acontecer num sábado ou num dia qualquer desde que acreditemos que é possível que as fadas ou as ninfas existam e podem fazer coisas sobrenaturais acontecerem em nossas vidas.

Devemos manter o respeito pelas florestas e pelos animais que nela habitam. Assim como devemos acreditar em alguma força sobrenatural que movimenta o planeta terra e que é possível a existência de deuses dentro e fora dos nossos pensamentos cheios de bits e bytes. Por isso gostaria de trazer uma canção de Maria Bethânia intitulada “Invocação” que diz Deus dos sem deuses / deus do céu sem Deus / Deus dos ateus / Rogo a ti cem vezes / Responde quem és? / Serás Deus ou Deusa? / Que sexo terás? / Mostra teu dedo, tua língua, tua face / Deus dos sem deuses.”

Que toda pessoa mesmo aquela que não tem um deus em si possa desfrutar da felicidade de viver perto de uma árvore e que essa passe a ser a sua cuidadora e a sua amiga íntima mostrando os seus dedos, a sua língua e a sua face porque apesar de não ser deus as árvores podem responder quem são e quem somos nós através do balanço das suas folhas. Rogo a ti cem vezes responde quem és quando plantas uma semente no coração de uma criança.

Além dos deuses e das ninfas que protegem as nossas florestas também temos os duendes e os gnomos. Esses seres pequeninos que vivem nos troncos das árvores, também. Os duendes são conhecidos por serem divertidos e extremamente sensíveis. Gostam de brincar com as crianças nas florestas e as ajudam a encontrarem o caminho de volta para casa quando se perdem. Já os gnomos são seres maravilhosos que fazem artesanatos com os elementos da natureza. Esses seres são figuras maravilhosas e costumam aparecer nos contos de fadas abrilhantando o imaginário mundo das crianças.

Trago mais uma canção essa de Carlinhos Brown intitulada “Duendes” que nos diz em seus versos “Duende / Duende Vem da floresta / Do centro da mata / Do ventre da rosa / Do verso cantando.” Que todos os duendes e gnomos possam habitar os sonhos das crianças para sempre amarem e protegerem as florestas.

Mas, não poderia finalizar este ensaio sem falar dos “Smurfs” essas pequenas criaturinhas azuis que vivem numa aldeia no meio de uma floresta e são atormentadas pelo mago Gargamel e seu gato Cruel.

Os “Smurfs” são velhos conhecidos das crianças e amam as florestas. Este é um belo filme para ser passado em sala de aula com o objetivo de ensinar as crianças as belezas das florestas, como é a vida nelas, que criaturas más vão existir em todos os locais quando se trata do mago Gargamel, mas também das virtudes e valores da família “Smurf” e dos ensinamentos do papai Smurf que é o mais velho de todos e guarda na memória muitas vivências e experiências que ajudam os smurfs mais novos como o atrapalhado e zangado chamado de Ranzinza e a bela Smurfete que está sempre pronta para ajudar a todos.

Assista ao filme dos Smurfs. Veja alguns trailers: https://youtu.be/ss6pmjE2faA?t=6

Em outra publicação, escrevemos: Temos a floresta Amazônica onde moram diversos bichos e podíamos fazer contos de fadas os mais diversos para despertar nas crianças o cuidado por ela e a sua preservação. Convido os autores de literatura infantil para se voltarem à biodiversidade da floresta Amazônica e começarem a explorá-la nos seus mais diversos contos. Leia mais!

Autora: Rosangela Trajano

Edição: Alex Rosset

A maçã podre do cesto

O Brasil precisa sim de ordem, respeito, cuidado com a Casa Comum e com o outro, mas essa ânsia de buscar o perfil ideal de um “messias”, precisa ser revista.

Meu pai foi uma pessoa de origem extremamente humilde. Seus pais moravam muito longe da cidade, no interior de Passo Fundo e mal tinham o que comer. Meu pai me contava que seu pai, capataz da prefeitura, vinha ainda de madrugada trabalhar na cidade, junto com o seu pai, e os meninos mais velhos vinham junto. Até que um dia, um agricultor chegou na casa deles e disse que era proprietário daquelas terras, e os expulsou de lá: seus pais vieram para a cidade como retirantes, sem nada, apenas com os filhos e uma vaquinha que era a única fonte de alimento. Acabaram trocando a vaquinha por um terreninho na periferia.

Meu pai, trabalhando com o pai dele, fez o muro do regimento da Brigada Militar. Lá trabalhando, sua honestidade foi testada. Ele contava que o tenente pagou ele, com um valor bem acima do que ele recebia e que aquilo encheu os olhos (não vamos passar aperto nesse final de semana, vai dar para comer melhor!), mas mesmo sabendo que aquele dinheiro era uma boa ajuda, ele sabia que aquilo não era o certo e a decisão dele, baseada no que tinha de valores, trilhou o seu caminho a partir daquele momento: ele foi até o responsável, o qual ele chamava de tenente, e explicou que deveria ter havido um engano, pois, aquele valor era, 3 vezes mais o que ele recebia.

Segundo ele, o tenente sorriu, e em poucos dias, o chamou e mandou que escrevesse seu nome em um papel. Meu pai escreveu e “apesar da letra feia por estar sentando alicerce”, como dizia meu pai, o tenente o convidou para ser “brigadiano”. A partir daquele dia, a história dele mudaria um pouquinho, pois seria o único da família com um emprego reconhecido, com um certo “status”.

Meu pai foi reconhecido, pelos seus serviços durante seu tempo na família brigadiana: foi presenteado com troféu e medalha de honra ao mérito, entregues pelo governador do estado (um baita feito, para o antes retirante), pelos seus serviços prestado a BM e por nunca, em todo o seu tempo de polícia militar, ter sofrido uma advertência de um superior, uma queixa de civil, nada!

A cada eleição que tinha meu pai ponderava os candidatos, falava sobre seus feitos e sobre as promessas. Meu pai fazia o que a gente faz hoje: “tenta achar o menos pior”. Lembro que meu pai nunca votava no partido, mas sim na pessoa, tentando fazer pelo melhor.

Meu pai nunca teve problema em votar no PT quando achava que isso era positivo. Assim como nunca teve problema em votar na direita quando achava que essa seria a melhor escolha.

Talvez você esteja se perguntando. Onde ela quer chegar?

Meu pai foi um militar o mais honesto que eu conheci. Eu sou uma admiradora da polícia (queria ser militar, mas minha altura não cooperou). Minha filha quer ser militar, porém, a pessoa que está à frente do executivo federal, não representa o conceito que eu conheço por militar: honra, honestidade, família, lealdade, etc.

Meu texto vem dizer para você, caro leitor, que esse ser humano perturbado, irônico, que desmerece a fome do pobre, a dor do pobre, não é a identidade de um militar (pesquisem a história dele no exército!).

Alguém leu sobre a major de Porto Alegre que profissionaliza os presos das cadeias? Isso é ser militar! (vide: https://ocorreio.com.br/pm-cachoeirense-e-a-primeira-mulher-a-assumir-o-comando-do-presidio-central/)

O Brasil precisa sim de ordem, respeito, cuidado com a casa comum e com o outro, mas essa ânsia de buscar o perfil ideal de um “messias”, precisa ser revista.

Pense um pouco: estamos prestes a uma guerra civil motivada por uma pessoa doente. Você realmente acha que o fanatismo resolverá os problemas do Brasil?

Ah, e antes que digam que eu sou petista, não sou nem um pouco! Existe vida inteligente além dessa disputa!

Autora: Daiane Panosso

Edição: Alex Rosset

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