Início Site Página 133

As palavras e as coisas em tempos críticos de pandemia

Quando as pessoas falam sobre o externo ou sobre alguém, estão revelando o que pensam de si. Tomara que se escutem também e que tenham essa possibilidade de se escutar para saírem do sofrimento que massacra a si e aos outros.

Que saibamos cuidar uns dos outros com sensibilidade e inteligência!

Observar baixinho, com empatia e compaixão, as vezes é só o que podemos fazer. Tenho dito isso para muitas pessoas que me abordam diariamente com situações que nos parecem surreais.

Uma amiga me dizia ontem que não era possível alguém recusar a vacina da covid-19. Estávamos tristes com uma situação próxima. Parece que não é, mas é.

Escutamos os argumentos e não sentimos que fosse o momento para nos contrapor. O tempo e o jeito da fala são fundamentais para construirmos o enlace. Aí que está a chave para as pontes, penso.

O medo da morte também está presente nessa lógica de não tomar vacina, vencendo o instinto de vida.

Além de outros fatores como a ideia de que são sempre os outros os ideológicos e os que partidarizam tudo (a própria pessoa acha que não faz e não tem ideologia, são só os outros que têm), uma face do NEGACIONISMO que também é uma recusa à vida e ao coletivo. E isso atravessa a esquerda e a direita. E entre os políticos mais ainda, porque há cálculo de voto e esse é o pensamento hegemônico. Que triste…

Nas periferias não é esse o pensamento que impera, felizmente. Temos visto isso de perto neste debate de volta às aulas seguras, pois a maioria das mães é contra o retorno, vide o percentual de retorno às aulas nas escolas públicas no ano passado e agora.

“Vai quem quer” é o que dizem os governos para se desresponsabilizarem pelas vidas perdidas e pelas políticas públicas para garantir uma escola segura e condições básicas de acordo com profissionais da educação, como vacinação ou testagem em massa.

E essa ideia tem muita força: cada um por si, que se tenha a liberdade de levar ou não, exceto os professores que são obrigados, “mas sempre foi assim e é uma escolha essa profissão que ninguém respeita e defende”, a ideia de preguiça dos professores (reflexo do colonialismo e servidão), “não dê o peixe, ensine a pescar” (mesmo em contexto de PANDEMIA).

A democracia tem sido defendida como uma escolha individual de quem tem recursos e, inclusive, soberana à vida frente a uma pandemia, com uma relativização de vida que não se ancora nas condições sociais, materiais e sanitárias da realidade.

A escola, concebida como essencial para resolver todos os problemas e para se responsabilizar por atender integralmente ao aluno pelo desmonte de quase todas as políticas sociais. A ideia de estado mínimo, a necessidade e a distorção da lógica em pleno vigor por uma política autoritária e genocida segue dando a linha…

Uma escola para aprender e ensinar com liberdade pressupõe que o ambiente não seja dominado pelo medo e que tenha professores valorizados, escutados e voltados ao aluno, que é o centro do debate da educação. Por isso eu também comprei essa briga.

Qual a eficácia pedagógica e de resolução do problema da “mãe que precisa levar o filho para poder trabalhar” desse sistema de escala ou revezamento dos estudantes em aulas presenciais? As escolas clandestinas ou os cuida-se vão deixar de existir? Quem fica com as crianças nos outros dias?

Do ponto de vista do desenvolvimento da aprendizagem a presença escalonada dos estudantes compensa os riscos de contaminação do entorno deles (familiares, professores, servidores e demais profissionais envolvidos no retorno das aulas presenciais) e de toda a sociedade? Esse é o questionamento central e que tem sido desprezado nessa guerra de narrativas do libera geral e cada um por si.

Em tempos de necessário isolamento e distanciamento pela pandemia, pelos desgovernos, pela polarização e pela negação, a palavra pode positivar e nos salvar!

Eu leio, escuto, falo e escrevo muito. Tenho me mantido firme, embora com muitas desilusões e necessários perdões diários no caminho.

Tenho construído diversos espaços para isso, mas um deles tem sido um pilar de sustentação, ao lado também de mulheres incríveis e que estão a fim de olhar o dentro e o fora para terem sanidade na luta pela vida, com muita leveza e capacidade de recriação dessa realidade! Um grupo de psicanálise!

Quanto legado para entendermos as palavras e as coisas, né Foucault?!

Quando as pessoas falam sobre o externo ou sobre alguém, estão revelando o que pensam de si. Tomara que se escutem também e que tenham essa possibilidade de se escutar para saírem do sofrimento que massacra a si e aos outros.

Que saibamos cuidar uns dos outros com sensibilidade e inteligência! Vamos superar esta cegueira com muita escuta, afeto e ação coletiva!

Nunca houve no mundo tantos dizeres, tantos discursos, tantas coisas ditas como salvação ou como ameaça. Maltratada ou respeitada, profanada ou sacralizada, amada ou estuprada, a Palavra, misteriosa e miserável, na forma de larva e pá que lavra ou abre a vala à semente, sobrevive enlouquecida na ascendente Babel da atualidade. Como disse Gabriel Garcia Marques, a quem parafraseio, o grande derrotado é o silêncio, nunca a Palavra. (Pablo Morenno) Leia mais!

Esta publicação foi originalmente publicada em: https://www.brasildefators.com.br/2021/05/04/as-palavras-e-as-coisas-em-tempos-criticos-de-pandemia

Autora: Aline Kerber

Edição: Alex Rosset

ASSEPSIAS

O resultado desta infância asséptica é uma geração de adultos imaturos emocionalmente, sem resiliência, sem empatia, sem coragem, dependentes dos pais ou do Estado.

Tenho algumas cicatrizes de criança. Os hospitais eram longe, as benzedeiras perto. Porém, dez filhos vezes cinco choros por dia é igual a cinquenta idas à benzedeira. Muito para uma só mãe. Um abraço e um assopro – Deus na criação – curava tudo, ou quase. Foram-se as feridas, ficaram as cicatrizes. Cicatrizes são apenas histórias plásticas e indolores.

Meus irmãos e eu nascemos em casa. Minha mãe gostava de exibir seu ventre sem cortes. Achava virtude sua.

Tempos em que andar descalço era comum. Desde bebê. E os calos das solas, depois, tornavam-se proteção contra pontas de pedras e espinhos.

Meus pais não tratavam pequenas dores como parte da vida. E os medos também. Aliás, meu pai contava muitas histórias assustadoras, sem dó nem piedade.

Agora são tempos de antidepressivos. Curingas emocionais. Trocam-se frustrações por pílulas, amores por pílulas, mortos por pílulas, sonhos por pílulas, notas baixas por pílulas, contas por pílulas, dúvidas por pílulas…*

A dor anda estigmatizada pela anestesia. Heróis sofredores já não seduzem ninguém com sua fortaleza. Popularizaram-se os analgésicos, os hospitais, os médicos, os especialistas, as cesarianas. Benzedeiras são falsas, as parteiras perigosas, as mães ignorantes. Uma nuvenzinha de dor no horizonte, chamamos o helicóptero. Com tantos diagnósticos precoces e eficazes, é fútil a função orgânica da dor.

A assepsia do medo também invade as casas e as escolas. Há pouco, um programa do Ministério da Educação fez chegar às crianças contos de fadas sem bruxas, sem monstros, sem maldade. A única maldade é com a infância, olhada como se fosse uma falha da vida. 

Se a vida não é isenta de dores e medos, por que não preparar nossos filhos para isso? O resultado desta infância asséptica é uma geração de adultos imaturos emocionalmente, sem resiliência, sem empatia, sem coragem, dependentes dos pais ou do Estado.

Os pais e mães de hoje se desesperam ante qualquer dorzinha do filho. Se chora ou não dorme, se arrotou diferente, se o xixi aumentou, soará o celular do pediatra. E o sangue, então? Partem em desespero para o pronto- socorro mais próximo. Um assopro nem seria cogitável. Ficam tão angustiados que perdem o fôlego.

Não sou advogado da dor. Não. Jamais. Da dor física, nunca. Não defendo masoquistas, nem sádicos.

O problema é que a anestesia para o corpo contaminou a alma. Ninguém mais tem coragem de amadurecer suas dores, ninguém mais está preparado para seus ferimentos, suas pequenas e necessárias cruências interiores.

 Coincidência. Médicos da alma são os mesmos do corpo. Fez-se da alma um órgão ou um membro esmiuçado em alguma especialidade. Nela, parece, tudo se cura com um mesmo remédio: eritema, equimose, feridas, fraturas, tumores.

Graças às descobertas científicas, os meninos de hoje não precisarão levar para o futuro cicatrizes corpóreas. Com as cirurgias plásticas, um ventre sem corte não ensejará virtude ou coragem.

Quanto às dores e medos da alma, contudo, uma pílula curinga não parece ajudar. Quem sabe, para a alma, valha mesmo a ciência das benzedeiras, das parteiras e dos pais assopra-dores. Cicatrizes e calos, no corpo ou na alma, são escudos para a vida.

  • *Nota: Ressalvo casos em que a medicação é necessária para evitar danos maiores a si ou aos outros. Minha crítica é a uma simplificação do uso, ou, em alguns casos, ao uso indiscriminado sem acompanhamento médico.

Autor: Pablo Morenno

Editor: Alex Rosset

Desmonte da Educação Pública e Reforma do Ensino Médio em livros

Temos o prazer de apresentar duas importantes publicações com autoria do professor Gabriel Grabowski e convidados.

Grabowski é graduado em Filosofia Plena pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Dom Bosco (1985), com Especialização em Sociologia (Ufrgs, 1997), Mestrado em Educação Profissional (Ufrgs, 2004), Doutorado em Educação (Ufrgs, 2010) e MBA de Gestão Universitária pela UCS/Comung (2017). Atualmente é docente e pesquisador da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, RS; pesquisador do Programa de Qualidade Ambiental e Mestrado em Letras; e professor do Centro Universitário Metodista de Educação (IPA), em Porto Alegre. Integra a Diretoria da Associação de Escolas Superiores de Formação de Profissionais do Ensino (Aesufope) e o Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEEd/RS).

Seus estudos e pesquisas versam sobre os seguintes temas: Educação e Trabalho, Financiamento da Educação, Ensino Médio, Educação Profissional, Juventudes e Formação de Professores. É autor de A desconstrução do futuro: juventudes, reforma do ensino médio e retrocessos das políticas educacionais (Carta Editora, 2019, 144 p.)

Desmonte da Educação Pública – Políticas educacionais, Ensino Médio, Pandemia e EaD (Carta Editora, 2020, 192 p.).

Exemplar impresso: R$ 20.00 + taxa correio

Pedidos: ggrabowski153@gmail.com

Neste segundo livro publicado pela Carta Editora, o autor aborda os desdobramentos das políticas educacionais recentes e a desconstrução do ensino no país. Professor e pesquisador da Feevale, Gabriel Grabowski, amplia a análise crítica do contexto de destruição da educação, da ciência, da cultura, do meio ambiente, da vida e do futuro da nação brasileira.

Produzido com apoio do Sindicato dos Professores – Sinpro/RS Publicações – o livro está organizado em dois capítulos e conta com a colaboração dos professores, pesquisadores e especialistas em educação Jaquline Moll (Ufrgs) e Iula Santana (professora rede estadual); Acácia Zeneida Kuenzer, docente aposentada da UFPR; e do professor e investigador Dr. Amílcar Coelho, de Portugal.

ARTIGOS – A primeira parte contém artigos publicados de Gabriel Grabowski publicados entre fevereiro de 2019 e junho de 2020 no portal do Jornal Extra Classe, do qual o autor é colaborador desde 2018. Os textos foram revisados e atualizados e analisam de forma crítica a dinâmica e destruição da educação no atual governo nacional.

ENSAIOS – O segundo capítulo aborda, a oferta do ensino médio no Rio Grande do Sul, a reforma do ensino médio no Brasil e a escola pública de Portugal enquanto experiência internacional.

São três ensaios de grande relevância para o momento educacional que vivenciamos.

Em Direito ao ensino médio e os governos do Rio Grande do Sul no período pós-Emenda Constitucional n. 59/2009: discursos, propostas e descontinuidades, as pesquisadoras e educadoras Jaquline Moll (Ufrgs) e Iula Santana (professora rede estadual), observam que não há política de Estado, mas programas de governo, que se renovam a cada quatro anos, resultando em descontinuidades administrativas, pedagógicas e curriculares.

Gabriel Grabowski e a pesquisadora Acácia Zeneida Kuenzer, docente aposentada da UFPR, por sua vez, analisam a Reforma do “Novo” Ensino Médio no Brasil, desencadeada através da Medida Provisória 764/2016 e em implementação.

No terceiro ensaio, a obra traz a reflexão e colaboração do professor e investigador Dr. Amílcar Coelho, de Portugal, abordando as Perspectivas do Ensino@Distância em Portugal em tempo de pandemia.Desde a Revolução dos Cravos – 25 abril de 1974 –, Portugal tem tem realizado uma caminhada na educação que merece ser analisada. Porém, é na última década que tem se destacado no âmbito a OCDE e União Europeia com seus avanços qualitativos no desempenho escolar.

A Desconstrução do Futuro: Juventudes, Reforma do Ensino Médio e Retrocessos das Políticas Educacionais (Carta Editora, 144p., 2019).

Exemplar impresso: R$ 18,00 + taxa correio.

Pedidos: ggrabowski153@gmail.com

Versão Ebook Kindle Amazon: US$ 2.99

O livro reúne 25 artigos que analisam os retrocessos das políticas educacionais no período de janeiro de 2017 a janeiro de 2019. Em textos breves, o autor analisa a reforma do “novo” ensino médio, aprovada sem debate com a comunidade escolar, e o seu impacto no acesso e permanência na educação básica e superior; a Base Nacional Curricular Comum (BNCC); a condição dos jovens brasileiros; a desregulamentação e flexibilização da modalidade de educação a distância no ensino superior, com forte impacto nos cursos de formação de professores e cursos superiores de tecnologias, quanto na educação profissional e ensino médio; entre outros temas.

“O conjunto de retrocessos na educação básica e superior, desencadeado a partir de 2016, que deverá ter continuidade no governo Bolsonaro, impactam no presente e no futuro dos estudantes brasileiros. Nem os direitos constitucionais (art. 227) para com as crianças, adolescentes e jovens estão preservados, entre os quais: o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, ressalta Grabowski.

Como assinala o professor Gaudêncio Frigotto no prefácio da obra, Grabowski convida a um embate teórico e ético-político ao analisar “as medidas e contrarreformas que interditam a dupla cidadania para a maioria dos jovens da classe trabalhadora e condenam o Brasil ao trabalho simples e a ser uma nação sem autonomia e soberania”.

“Dois aspectos são preocupações constantes nas avaliações do autor em seus textos: a precarização progressiva da formação dos professores e o comprometimento das potencialidades da juventude brasileira em decorrência do descaso das elites com a educação dos jovens”, assinala o diretor do Sinpro/RS, Marcos Fuhr. O livro tem o apoio do Sinpro/RS Publicações.  

Créditos fotos: divulgação

Edição: Alex Rosset

COVID-19 e os cultos religiosos

A fé é um instrumento valioso que ajuda as pessoas a lidarem com as adversidades da vida, entretanto, neste momento difícil em que tantas vidas já foram perdidas, ficar em casa é uma das melhores formas de prevenção contra o COVID-19.

Desde o início da Pandemia, provocada pelo vírus COVID-19, há uma discussão na sociedade brasileira sobre a abertura e o funcionamento presencial dos templos religiosos. A polêmica tem dividido a opinião pública, assim como setores do judiciário brasileiro.

O debate tem se dado em função da liberação de cultos religiosos pelo ministro do Supremo Tribunal de Justiça (STF), Kássio Nunes. O referido ministro acatou um pedido da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE), o qual solicitava a liberação de cultos dos templos religiosos durante a Pandemia. A entidade religiosa alega que os prefeitos e os governadores não poderiam proibir um direito individual das pessoas, em razão do Brasil ser um estado laico.

Os que argumentam serem favoráveis defendem a tese de que a prática religiosa in loco é um auxiliar na manutenção da saúde mental do brasileiro em função do conforto espiritual que as igrejas podem ofertar. Sendo assim, os serviços religiosos devem ser considerados atividades essenciais, bem como supermercados, postos de gasolinas, farmácias, etc.

Por outro lado, alguns segmentos entenderam que as entidades religiosas precisam da suspensão de suas atividades para evitar possíveis aglomerações sujeitas à disseminação do vírus. As comunidades cristãs evangélicas e católicas têm por tradição a organização de eventos de massa. Por exemplo, ao longo do ano a Igreja Católica organiza procissões, missas campais, festivais de músicas, acampamentos de orações, festas domiciliares; e as missas costumam aglomerar centenas de pessoas.

Lideranças das religiões evangélica, católica e muçulmana contam como tem mantido as atividades no período de isolamento.

Vale lembrar que de acordo com o censo do IBGE realizado em 2010, o número de católicos no Brasil é de 64% da população. Mesmo com a queda do número de fiéis e muitos não indo às igrejas, a presença semanal de adeptos católicos nos templos é significativa.

Para o segmento evangélico, é interessante pontuar considerações a respeito da abertura dos templos. Os evangélicos têm crescido muito nas últimas décadas, os dados do IBGE de 2010 apontam 22,2% da população brasileira. A fé evangélica é expressada em eventos com grande quantidade de pessoas. São realizados anualmente: show, cultos, passeatas, festas religiosas e outras atividades.

No tocante ao período da pandemia, líderes religiosos evangélicos, conhecidos nacionalmente, posicionam favoravelmente que os templos religiosos são atividades essenciais e não devem ser fechados. Um dos fatores para tal é o simples fato que as atividades religiosas são empreendimentos geradores de quantidades financeiras gigantescas, uma vez que o fiel colabora financeiramente com os produtos vendidos.

Interessante é que o Ministro Kássio Nunes atendeu um pedido de uma instituição que legalmente não poderia solicitar tal questão para o STF. O próprio ministro reconhece isso no parecer para justificar o seu voto. Entretanto, a questão levantada é a de que Kássio Nunes sinalizou por meio do seu voto, apoio aos segmentos da comunidade evangélica e católica, corroborando para o discurso negacionista assumido pelo governo federal desde o início da crise sanitária. Não se pode esquecer que ele foi indicado pelo Bolsonaro ao STF com a aposentadoria do decano Celso de Melo.

O pedido da ANAJURE é reflexo de um pensamento negacionista instalado em algumas ramificações religiosas do Brasil. Aglomerar implica dar chance ao vírus contaminar outras pessoas. Infelizmente, o sistema de saúde está em colapso e o governo federal pouco faz para reverter tal situação.

A fé é um instrumento valioso que ajuda as pessoas a lidarem com as adversidades da vida, entretanto, neste momento difícil em que tantas vidas já foram perdidas, ficar em casa é uma das melhores formas de prevenção contra o COVID-19.

Caminhos da fé: religiões aprendem lições com a pandemia no RS. Assista!

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis

Edição: Alex Rosset

O livro infantil, o adulto e a criança: obras de artes entrelaçadas

O mundo da criança é só dela. O adulto só entra quando é convidado. Mas não é todo adulto que é convidado para visitar esse mundo. Tem que ser um adulto especial, com espírito infantil e sábio.

O livro infantil trata de coisas que podem acontecer com qualquer um de nós na idade adulta ou infantil. Claro que a ficção está por trás de muitas situações, mas isto não impede que a criança leitora aprenda a lidar com os problemas do seu cotidiano. Ela enfrenta os problemas relacionados à vida e aos obstáculos que nela encontra de uma forma menos dolorosa.

Alguns autores defendem livros humanistas para crianças; não tenho do que reclamar dos livros surgidos no começo da nossa literatura infantil. As fábulas de Esopo e os contos de fadas têm essa característica exigida: são cheios de ideias da humanidade. Ideias que foram resgatadas dos contos populares, das histórias criadas pelo povo e para o povo. Entendo por ideias da humanidade aquelas que mostram a vida e os sentimentos do povo.

E como nos diz o filósofo Montaigne, “tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito.”

Sendo assim, a criança tem o direito de escolher o que quer ler, como quer preencher seu mundo imaginário, quais personagens quer colocar dentro dele e como vão agir nesse mundo. As crianças vão saber escolher quais as melhores histórias, pois devemos considerar que toda história deixa alguma coisa no espírito infantil que cedo ou tarde florescerá. 

Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados. (Padre César Moreira). Leia mais!

No começo foi bastante difícil seguir essas palavras de Montaigne, pois tudo era imposto à criança. Hoje, já é possível ver um pequeno número de crianças nas livrarias e bibliotecas escolhendo os livros que lhes interessam para leitura. Antes, os pais aconselhados pelos educadores obrigavam seus filhos a ficarem sentados por horas e horas lendo livros sem graça e de difícil compreensão, muitas vezes com recortes que deixavam as crianças curiosas, como aconteceu com Os Lusíadas, de Luís de Camões, que nas escolas teve um grande corte para se adaptar ao pequeno mundo da infância. Esses cortes só despertavam mais ainda a imaginação das crianças. Elas ficavam curiosas para saber o porquê daquela censura. E procuravam ler às escondidas o texto completo.

Nesse aspecto que Montaigne acerta quando diz que cabe às crianças escolherem o que ler e não aos adultos. Submeter uma criança a uma leitura que ela não aprecia é como um castigo até a última página, pois para se chegar até lá o caminho é árduo e sem graça.

O adulto não consegue compreender que a criança busca até mesmo nos livros didáticos o seu mundo do faz-de-conta e o lúdico. Claro que esses dois elementos devem vir recheados com ideias coesas, palavras e expressões instrutivas e não de termos ou chavões que não se adequam aos espíritos ainda em formação.

Os livros devem ser lidos pelas crianças como um pássaro voando no céu, ou seja, com liberdade. E as crianças devem escolher a melhor posição para ler um livro, um livro que seja agradável.

O melhor livro é aquele que se torna travesseiro quando a criança cansada descansa sua cabeça sobre ele. Há crianças que gostam de ler deitadas no piso da sala ou do quarto de dormir, outras preferem se deitar na poltrona, algumas escolhem uma árvore para sentar-se embaixo dela e ficar ali se deleitando com aquele livro que está quase terminando, e o herói ainda não conseguiu vencer o mal.

O mundo da criança é só dela. O adulto só entra quando é convidado. Mas não é todo adulto que é convidado para visitar esse mundo. Tem que ser um adulto especial, com espírito infantil e sábio. A criança quando gosta de alguma coisa tende a apertar, abraçar, tocar para sentir que existe já que o seu mundo do faz-de-conta costuma criar essas coisas imaginárias e quando se depara com elas na realidade fica pasma. Mas, essa mesma criança que gosta também sabe responder aquilo que não gosta, e assim ela fecha a cara, se afasta e se cala.

Não temos o direito de invadir esse mundo, devemos respeitá-lo se quisermos ter o amor da criança, talvez o maior presente que um adulto pode receber, um presente tão raro e tão pouco valorizado.

O mundo mágico da criança é habitado por heróis, princesas, príncipes, duendes, fadas, bruxas, animais, a natureza em geral, e quando muitos desses adultos mais próximos sabem compreendê-la se transformam numa dessas figuras. Ser uma fada ou um príncipe de uma criança dá um gostinho especial à vida solitária que nós, adultos, levamos atolados no exercício das atividades cotidianas.

É na infância quando mais temos tempo e liberdade de fazer o que gostamos. A criança dispõe de tempo suficiente para todas as coisas que quiser fazer.

Sim, são nas obras obras-primas em que as crianças deveriam ser iniciadas desde a tenra idade para uma formação mais perfeita e sólida. De fato, as crianças que têm acesso aos clássicos da literatura infantil são mais abertas ao diálogo, sabem se expressar, perdem a timidez e se colocam nas apresentações escolares ou comunitárias sempre como heroínas. Isso porque sabem que é preciso entender o mundo como seus heróis das historinhas.

Um livro é uma obra de arte. A leitura de uma obra nunca é a mesma. Ela fala muitas línguas, mostra muitas imagens, apresenta muitos significados. Na verdade, a obra de arte nunca é aquilo que pensamos ser, ela é sempre mais alguma coisa. Se uso essas palavras para exemplificar um livro como uma obra de arte também me vejo em diferentes interpretações de leituras.

A hermenêutica aparece aqui distinguindo uma linguagem da outra. O que é uma coisa para mim, para um outro indivíduo pode significar outra. O sentimento que uma palavra ou imagem desperta na minha alma pode ser diferente em outra. 

Assim são os livros infantis. Eles nunca afirmam nada. Eles contam histórias. Se as crianças vão interpretá-las de um jeito ou de outro, cada uma tem o livre arbítrio para pensar o que quiser. Dá asas à imaginação e criar a sua própria interpretação. A figura que uma criança interpreta num livro só de ilustrações pode ter a interpretação completamente diferente daquilo que o ilustrador quis apresentar. Por isso, o livro se torna uma obra de arte das mais clássicas e fiéis ao seu público.   

O livro para crianças não deve ter somente caráter educativo. O livro que se propõe a ser uma obra de arte deve acima de tudo ter figuras de linguagem. As onomatopeias são as mais apreciadas pelas crianças. O livro infantil deve ter palavras de encanto, pequenas, grandes, que sejam difíceis de pronunciar e engraçadas quando se dobra a língua e não se consegue falar. Não deve ser dono da verdade, porque a verdade deve ser traçada pela criança, logo permitir que se abra espaço ao imaginário.

O dono da história não deve ser o personagem, mas a criança, por isso cada vez mais temos visto livros escritos na primeira pessoa. O eu chama a criança para dentro do livro, é como se o eu fosse a própria criança que está lendo e não o personagem.

O bom livro é aquele que o escritor fez dele a sua principal obra de arte. Criou-o com todo o cuidado e delicadeza pensando no seu leitor. Uma plurissignificação surge exatamente como a leitura de uma obra de arte, ou seja, o caráter de subjetividade de cada criança. Um bom livro não tem um só significado, mas muitos. Pode criar vários mundos diferentes no imaginário da criança.

Além do mais, assim como a obra de arte, não nos basta para termos uma única interpretação da vida, o livro que é uma boa obra de arte deve se abrir para mais de uma visão da vida. A criança deve refletir sobre os possíveis mundos ao seu redor para escolher em qual deles quer realmente habitar definitivamente, antes que cresça, ou antes, que um adulto chegue, a pegue nos braços e a jogue lá dentro de um desses mundos que ele acha ser melhor para ela.

E, para não esquecer, obra de arte lembra imagem, pensamos nos livros ilustrados, com capas duras, o miolo em papel especial. Feitos exclusivamente para chamar a atenção do pequeno leitor num primeiro olhar. Os desenhos, às vezes, falam mais do que mil palavras. Alguns livros são constituídos só por desenhos. E os escritores juntamente com os ilustradores criam suas obras de arte exatamente como pensam as crianças.

Um dos livros que mais admiro como uma verdadeira obra de arte é o livro “Adivinha quanto eu te amo” de Sam Mcbratney. Tanto as ilustrações quanto as frases curtas e a mensagem que o livro nos transmite encantam não só as crianças, mas muitos adultos que buscam a beleza do amor. O amor desprovido de interesse e contado em imagens.

Esta relação entre o livro infantil, o adulto e a criança deve ser mantida ao logo da vida para que todos se beneficiem pelo amor à literatura e aos personagens que muitas vezes nos salvam de dores e traumas que poderíamos carregar por longos anos.

O professor Eládio Weschenfelder diz que “a leitura gera, com o tempo, necessidade de imitar, escrevendo como aqueles que a gente aprendeu a ler”. Veja vídeo sobre a importância da leitura e literatura, bem como de projeto Bando e Bandinho de Letras.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Nós não precisamos mais dar aula!

A escola pública está perdida. O perigo está anunciado para onde se envereda a educação: o precipício. A escola particular aproveita o momento para se fortalecer no seu lado positivista e conteudista. Em que ao aluno apenas cabe o papel de mero reprodutor.

Há dias quero escrever um texto. Desejo que o meu texto seja algo que chame atenção do leitor e dialogue com ele em questões importantes do nosso tempo.

Sigo as obrigações cotidianas. A principal delas é sentar em frente a um computador.  Manter a animação e motivação para representar um profissional que não está decepcionado com a forma educacional que vem sendo adotada. Mais tarde vou ao mercado. Academia para me manter vivo.

Saio no final de semana em contato com um ou dois amigos para desfrutar a natureza. Isso permite uma revitalização da alma. A indignação me empurra para o desabafo. Esse alívio tem de ser pela escrita. Minha mente viaja. 

Penso no leitor. Sobre o que o meu interlocutor deva pensar ao ler algo. Resolvo preparar uma aula “top”. Meu aluno merece. Sou impedido por muitas exigências que me são cobradas. Nenhuma delas no foco principal: aprendizagem do aluno. Faço e tomo um suco de maracujá.

Dou aula remota a tarde toda. Pego o meu celular. Muitos recados da coordenação “pedagógica”. Muitas notificações advindas de alunos exigindo resposta. Minha cabeça está exausta. Preciso ir à academia.

Pego o capacete para sair. Nesse momento fui interrompido por uma chamada do colega Nei Alberto Pies…Por acaso, não tens alguma reflexão nova para publicação no próximo final de semana?

Há dias estou pensando num assunto que me tira o sono e permeia meus pensamentos diários. Estou indignado.

O que menos importa é o aluno agora. A aprendizagem não é o foco. O planejamento de uma boa aula que foque em estratégias para o desenvolvimento reflexivo através da linguagem, é o que menos importa.

Você só deve se dedicar para responder mais de 99 notificações dos alunos e da coordenação. Por que quanto tempo leva para pensar uma aula? Você deve planejar. Planejar. Para quê? Para estatística. Não para pôr em prática. O que é prática? Importam os números. Não a aprendizagem ou como o aluno aprende.

Esse planejamento é de dados. Não para futuras práticas de aprendizagem. O aluno não é o centro desse planejamento. É para a Coordenadoria Regional de educação verificar. Para a Secretaria de Estado da Educação monitorar. Monitorar o quê? Se o professor está se ocupando. Com o aluno? Não. Isso não interessa.

Levei uma semana preenchendo tabelas, planilhas. Porcentagem da porcentagem. Daquela porcentagem. Que no montante geral vira porcentagem. Para mandar para a Coordenadoria.

Você dá uma boa aula? Nunca ninguém se interessou. Estratégias para ajudar o aluno a aprender. Não precisa. Preencham as tabelas. E as habilidades que estão no plano anual, no plano trimestral? Enfeitam. São bonitos dizeres pedagógicos.

Para a prática? Não. E também não vem ao caso. O que mais interessa é você imitar a lógica. Assim você é um bom profissional. Olha o whatsapp. Visualiza. Visualiza. Posta. Posta de novo. Refaz. Refaz de novo, mudou a orientação. Não questiona. Remove o aluno da turma tal. Adiciona aluno. Adiciona. Remove. Remove. Adiciona. Posta recado. Preenche. Preenche.

Faz a porcentagem. Porcentagem da aula. Porcentagem dos alunos. Porcentagem das atividades. Porcentagem do geral. Envia. Compartilha. Segue a orientação. Não discuta. Não questione. Tempo pra isso? Não interessa. Isso mais parece sistema capitalista. Beba. Vista. Coma. Compre. A mecanização me assusta.

Escrevo o que não gostaria de estar escrevendo. Minha crônica poderia estar falando do suporte tecnológico e pedagógico para o aluno. Falando de estratégias para tornar a aula remota menos mecanizada. Gostaria.

Queria que minha crônica falasse de alegria de descobrir e ensinar com novas formas. Tanto estudei. Tanto refletimos. Passamos por fases históricas em que o professor era o centro.

Mudamos o foco para o aluno. Enxergamos o aluno como ser aprendente.  Evoluímos. Agora estamos com o foco no sistema. Sistema para demonstrar que o governo não desampara. Que a estatística mostra que os alunos foram aprovados. Todos. Dados artificiais.

Professor e estudante são sujeitos aprendentes, mas professor tem a função de organizar processos formativos com intencionalidade de aprendizagem. Reflexão bem atual de Paulo César Carbonari. Leia mais!

A aprendizagem não ocorre. As coordenações, que deveriam ser pedagógicas, hoje exercem um papel paradoxal de meros reprodutores de recados, advindos da mantenedora. Também estão sufocadas e mecanizadas pelo sistema.

A escola pública está perdida. O perigo está anunciado para onde se envereda a educação: o precipício. A escola particular aproveita o momento para se fortalecer no seu lado positivista e conteudista. Em que ao aluno apenas cabe o papel de mero reprodutor.

Queria que minha crônica tivesse o brilho do olho do jovem opinando. Refletindo. Aprendendo. A vitalidade e o entusiasmo do professor fazendo o que lhe cabe. Ensinando satisfatoriamente. Não queria que minha crônica falasse da usurpação do direito da sua profissão que é ensinar.

Esperamos que a presencialidade devolva o espírito da aprendizagem. Que a presencialidade nos devolva a dualidade dos conteúdos x construção de processos de aprendizagem. Assim, outra crônica poderá surgir como o sorriso na face de cada educador satisfeito pela profissão que escolheu. Não pelo choro provocado pelo sufocamento sistêmico.

O Sistema Educacional não está preocupado com a aprendizagem, mas com a estatística. Infelizmente!

Como será a escola do futuro? Deveríamos ressignificar o sentido e o papel da escola na perspectiva humanizante, onde a centralidade da mesma seja a construção permanente de conhecimentos, envolvendo os sujeitos aprendentes: professores e estudantes. Uma escola onde a socialização seja uma dimensão que se incorpora às práticas educativas, de forma permanente, de maneira intencionada e valorizada pedagogicamente. (Nei Alberto Pies) Leia mais!

Autor: Laércio Fernandes dos Santos

Edição: Alex Rosset

Crianças nas escolas quando for seguro para todos!

Vejo um monte de pessoas reclamando que as escolas não estão abertas, mas não vejo essas pessoas lutando pela vacinação dos profissionais da escola, todos os profissionais de uma instituição de ensino. Porque escola não é só professores e direção.

“Cansada de ver postagens do tipo “as crianças estão ficando doentes em casa”, ” lugar de criança é na escola”, “nesse momento a escola é o lugar mais seguro”, “as crianças estão traumatizadas”, e assim vão outras falas.

A criança precisa de um lugar seguro, de cuidado, de carinho, de amor, de saúde, de brincar, de correr, e muito mais.

Algo está errado se a criança está ficando doente e deprimida em casa.

A casa é o espaço de referência da criança, é lá que ela aprende a ser educada, gentil, ser amorosa, a se alimentar, a se higienizar, a falar, a andar, conquista a sua autonomia, aprende amar e ser amada.

É no seio da família que a criança aprende as melhores histórias, as melhores brincadeiras, dá as melhores gargalhadas, anda de bicicleta, cai e aprende a levantar, é em casa que aprende a ouvir e obedecer, a ter a suas responsabilidades, mesmo que seja com seus brinquedos ou com o seu chinelo.

A escola é lugar de EDUCAÇÃO CIENTÍFICA e FORMAL, escola não é a salvação dos filhos. Escola não é a salvação dos filhos de ninguém. Os/As mestres ensinam brilhantemente os filhos de outros, contudo a sua missão acaba ali.

Os filhos voltam para casa, porque filho é eterno e aluno é transitório.

Lugar de criança é na escola sim! Jogar com os amigos, frequentar a biblioteca, SOCIALIZAR, (tá na moda né?), brincar no parque, no intervalo, andar em grupinhos (Ô tempo bom!). As pessoas têm um pensamento utópico de que a escola voltará a funcionar como antes, de antemão já aviso: NÃO IRÁ!

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. (Nei Alberto Pies) Veja vídeo.

Eu sei como é a realidade de uma escola, de uma sala de aula, dos alunos.

Por muito tempo, a escola não será como antes.

As famílias precisam parar de usar a escola como responsável por fazer por seus filhos o que a família não faz, em poucas palavras: ser tapa-buraco.

Pega a sua criança e conte uma história, faça um cinema em casa, brinque de carrinho, boneca, faça de conta, brinque com seus filhos, jogue com seus filhos, role no chão com seus filhos, dê atenção!

Filho não é status, não é foto nas redes sociais, não é brinquedo.

“Ah, mas eu trabalho e não tenho tempo! Ah, eu chego cansado! Ah, eu estou estressada! SE VIRA!

Quando decidiu ter filhos já sabia como seria.

Não jogue a responsabilidade da vida da sua criança para a escola, não é função da escola criar ninguém, suprir carência de ninguém, ser babá de ninguém. Essa função é única e exclusiva da Família.

Vejo um monte de pessoas reclamando que as escolas não estão abertas, mas não vejo essas pessoas lutando pela vacinação dos profissionais da escola, todos os profissionais de uma instituição de ensino. Porque escola não é só professores e direção.

Por fim, faça a sua parte como instituição familiar e aguarde a pandemia desacelerar para que a instituição escolar volte a funcionar para levar o conhecimento formal e científico para os vossos filhos.

Enquanto isso, ame a sua criança e não faça dela um fardo prestes a ser dispensado com urgência em uma instituição de ensino.

“Nenhum deles está preocupado de verdade com saúde, alimentação ou educação das crianças. Tudo isso é mentira e eu tenho pena de quem acredita nessa mentira. Quem está de verdade preocupado com os alunos, fazendo “vaquinha” para dar cestas básicas para as famílias e se esgotando de tanto trabalhar é o professor”! (Camila de Freitas) Leia mais!

(Autoria Desconhecida)

Sobre a foto: Artista Eduardo Kobra “Coexistência”, que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP) Conheça mais sobre o projeto.

Vista do trabalho recente do artista Eduardo Kobra “Coexistência”, que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo Coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP).

Edição: Alex Rosset

Narrar e amar: a importância estruturante do ato de contar histórias às criancinhas

Mais importante do que aquilo que se conta é a maneira de contar. O contador de histórias enquanto amante do belo deve amar a criancinha. Quem conta histórias não ama somente as histórias, mas ama, principalmente, quem as ouve.

Este ensaio é uma indagação a respeito da seguinte questão: onde reside a força da contação de histórias para o desenvolvimento da fantasia infantil?

A partir da observação de que as criancinhas sentem a carência de afetividade, ou seja, de amor propriamente dito – e vendo que isso as motiva a juntar-se em grupos para ouvir histórias -, levanto a hipótese de trabalho de que, para a criancinha, o importante não é a história em si, mas a forma como ela é contada, ou seja, os gestos e voz do contador, que contagiam de amor o ambiente e cativa o espírito delas.

Em outra reflexão neste site, já escrevemos: não é preciso ter curso para contar histórias, pois todos nós contamos histórias o dia todo das nossas vidas, das vidas dos nossos filhos, vizinhos e amigos. O importante e o cuidado que se deve ter é conhecer a história que se vai contar para não gaguejar na hora ou esquecer algumas partes, por isso faz-se necessário que o bom contador saiba improvisar, também. Leia mais!

A criancinha ouvinte de histórias ama e é amada. Ao abrir o coração e a fantasia, ela deixa-se envolver pelo momento em que está ouvindo a história, aprendendo tanto com o conteúdo da história quanto pela forma pela qual é narrada, que é a grande arte do contador de histórias que seria o amante principal.

A criancinha se sente hoje muito isolada e sozinha no mundo, não consegue sentir-se amada. Abandonada ao rádio ou a televisão e sem contato mediador com o livro, sente-se desmotivada, desorientada, apática e destituída da capacidade de pensar e fantasiar, o que lhe acarreta sérios problemas existenciais.

Sem amor, se sente desprotegida para lidar de forma mais segura e criativa com os problemas e as dificuldades que o mundo oferece.

Winnicott defende o ato de amparar e cuidar naquilo que denomina holding. Platão também fala desse amor no seu diálogo “O Banquete” em que Eros aparece através do diálogo e busca compreender o amor através do filosofar e do saber. O amor em Platão está entre a pobreza e a riqueza, a ignorância e sabedoria, o mortal e o imortal, logo o amor também está entre o contador de histórias e a criança.

O contador é o elemento conectivo entre a criança e o livro. É preciso que o contador de histórias saiba narrar com amor criando um vínculo da criancinha com o saber virtuoso.

Platão enquanto contador de histórias narra seus mitos afirmando ser possível através deles levar a verdade às criancinhas mesmo que seja em forma de metáforas. Verdade essa constituída de ensinamentos de valores e virtudes. Enquanto contador de histórias Platão procura despertar o amor no seu ouvinte. Aquele que busca o saber também busca o amor, pois Eros como já disse Platão é amor.

Logo, as criancinhas buscam no saber não só contadores que instruam e divirtam, mas que as amem contando histórias com o coração e com palavras que permeiem o espírito infantil. O contador deve ser sábio no que concerne ao cuidado e zelo com a criancinha.

A mãe é a responsável por esse cuidado e zelo da criancinha, mas atualmente os pais não têm tempo para essa dedicação exclusiva e entrega o filho a uma vida solitária e difícil quando outras pessoas são pagas para cuidar delas e não para amá-las. Muitas vezes a criancinha se entrega a pessoa que está ao seu lado e quando seu amor não é correspondido a incompreensão diante do mundo assusta e causa traumas insuportáveis.

O contador de histórias vai amparar e cuidar dessa criancinha cheia de medos e temores em relação à vida e as pessoas que a cerca. Zeloso com os seus gestos e carinhos, sua maneira de narrar busca o sorriso e a alegria de viver na criancinha perturbada por um mundo violento e desumanizado. Através do contador de histórias a criancinha percebe que ainda é possível amar e ser amada, principalmente nas situações mais difíceis da vida em que ouvir uma história acalenta a dor e alimenta o coração.

Além de Platão e Winnicott, também explorarei esse zelo e amor do contador de histórias fazendo uma comparação com os mitos de Narciso e de Édipo.

Sendo Narciso um jovem belo, como toda criança ele necessita do amor de um bom contador de história para aprender a amar-se logo esse contador de histórias seria Eco. Já o espelho que na psicanálise é visto como a visão da nossa alma, a visão que temos de nós, seriam as histórias contadas.

Sendo o contador de histórias visto como Eco ele poderá ensinar aos vários Narcisos-crianças ouvidoras de histórias que o mundo é belo e elas não estão condenadas à morte devido essa beleza, pois o amor de Eco (contador de histórias) que deixará de evocar ecos e transmitir-lhes a palavra, ou seja, aqui trabalharemos com a possibilidade de Narciso mesmo tendo sido condenado à morte não morrerá porque tem um espelho que lhe ensina a beleza da compreensão e assimilação da história e tem Eco que lhe conta histórias belas.

Eco será amada por Narciso porque sabe como amá-lo a partir do zelo e cuidado estudado através do conceito de holding, de Winnicott, e o espelho será esse mundo de histórias belas que são apresentadas às crianças pelo contador de histórias.

Da mesma forma que ocorre com Narciso, também encontraremos em Édipo a condenação à morte, mas esse será zelado e receberá cuidados e amor da esfinge que, de uma certa forma, é uma contadora de histórias astuta e sábia com os seus enigmas. Aqui, tratamos de uma questão importante no que diz respeito aos contadores de histórias para criancinhas com câncer, vítimas do vírus da AIDS ou de alguma doença incurável em que estando praticamente perto da morte poderão prolongar suas vidas ou transformar a dor num sorriso através das histórias contadas pela esfinge.

Assim, nem Narciso e nem Édipo morrerão por falta de amor e zelo, mas estarão fortes o suficiente para escapar dos seus destinos através das histórias que lhes foram contadas pelo bom contador de histórias.

Usarei uma metáfora para apresentar os vários Narcisos e Édipos que existem no mundo necessitando do amor de uma Eco ou de uma Esfinge, para que as suas vidas tomem rumos de um bom pensar, de um caminhar firme em relação ao futuro, de um olhar cheio de esperança para o amanhã e o que é mais importante liberto de medos e traumas que tanto sufocam os adultos trazidos de uma infância descuidada.

Quantos meninos e meninas passam por nós todos os dias necessitando ouvir uma história, com medo de se olhar no espelho da vida ou de encontrar-se com uma esfinge e não saber quem são ou o que dizer. É preciso amar as criancinhas, ter paixão como Eros para ser um bom contador de histórias.

Não adianta pintar-se, fazer cursos de performance, fazer teatro, ler livros sobre técnicas de contar histórias se você não tem o dom da história dentro de você, aliás, se você não tem o amor para oferecer a uma criancinha através da sua fala, da sua palavra, do som maravilhoso que sai da sua boca.

Este ensaio se propõe a investigar o papel e a importância do amor na constituição do imaginário infantil, tomando por base as teorias de Winnicott, o amor de Eros segundo Platão, o mito de Narciso e Édipo como elementos para construção do contador de histórias que tem amor pela sua arte e o encontro com o dom de contar histórias.

Mais importante do que aquilo que se conta é a maneira de contar. O contador de histórias enquanto amante do belo deve amar a criancinha. Quem conta histórias não ama somente as histórias, mas ama, principalmente, quem as ouve.

É preciso que o contador de histórias seja um amante do tipo Eros, segundo Platão no seu diálogo O Banquete, quando nos diz: “e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio, enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão.” Todo artesão faz seu trabalho com amor, logo o contador de histórias também narra com amor.

A criancinha que ouve histórias com contadores amantes está mais propícia a enfrentar a vida e os seus obstáculos de forma a não se machucar nem se sentir sozinha no mundo. O contato da criancinha com o contador de histórias pode criar vários vínculos afetivos, tais como: amizade, carinho, afeição, companheirismo, coragem, esperança, paciência, prudência, temperança e sabedoria.

O contador de histórias, ao mesmo tempo, que narra também transmite valores e virtudes para uma vida melhor, proporcionando à criancinha a ideia de que é amada do jeito que é, sem querer mudar ou ser igual ao amiguinho que todos gostam.

A criancinha deve se sentir amada sem precisar mudar. Por isso, o contador de histórias precisa amar e zelar essas crianças como se elas fossem Narciso ou Édipo.

O contador precisa fazer das histórias contadas um espelho magnífico, real, encantador, porém que possibilite a criancinha enxergar-se dentro dessas histórias utilizando seu imaginário infantil para isso. É importante alimentar o imaginário sempre, para que a criança possa assim poder brincar com a dura realidade que a acompanha todos os dias.

Para Winnicott, a criança precisa de amparo e cuidados. A criancinha cria seu mundo baseada no mundo das pessoas que estão ao seu redor, primeiro com os pais depois com os mestres. Sendo os pais seus primeiros contadores de histórias ela se sente protegida e amada. Sabe que nada lhe faltará. Ouvir histórias na hora de dormir é um momento grandioso e gratificante à criancinha. No entanto, muitos pais não têm mais tempo para fazer isso. Essa tarefa passou para o contador de histórias.

É importante que o contador olhe com atenção para cada criancinha que está lhe ouvindo e não dê preferência a uma ou a outra. A narrativa deve ser branda e suave e a voz só deve ser exaltada quando a história pedir, mesmo assim com o cuidado que se faz preciso.

O contador deve criar um ambiente de magia e encanto onde tudo se identifique com o amor.

Na obra de Winnicott percebo que no conceito de holding, as mães dedicam carinho, atenção, zelo, cuidam da alimentação e da higiene da criancinha, das suas necessidades primeiras quando não podem resolver sozinhas. É essa dedicação das mães que as criancinhas conseguem perceber nos contadores de histórias que narram com amor.

É preciso antes de tudo cuidar do espírito da criança e não se deter apenas na narrativa. Antes e depois de contar a história o contador estará vivo na criancinha por um determinado tempo, e esse tempo pode ser definido por ele a partir da forma que expressar seu amor. Quanto maior for o amor do contador de histórias mais tempo permanecerá vivo no pensamento da criancinha.

Através do conceito de holding mostro como mudar a vida de várias crianças baseadas em Narciso e Édipo que sofreram com a falta de amor e cuidado.

Muitas criancinhas têm passado por tratamentos médicos e psicopedagógicos com traumas e medos, hiperativas, mentirosas, tímidas, baixa capacidade de concentração, redução da aprendizagem e o que é pior, vítimas da incompreensão dos adultos.

O mundo moderno disponibiliza à criança os brinquedos eletrônicos, o videogame e a Internet. O isolamento se torna cada vez mais frequente. A criancinha moradora de condomínios fica presa aos muros altos e cheios de proteção. A criancinha moradora de bairros da periferia se tranca dentro de casa com medo da violência.

Nas escolas, os professores não se preocupam em dar-lhes amor demasiado amor, mas em ensinar as matérias básicas para a aprendizagem. Quando chegam a casa, diversas tarefas lhes esperam.

Assim, embaralhada com um mundo que só exige de si a criança começa a achar a vida difícil e as pessoas não se diferenciam umas das outras, sendo sempre vistas como adultas que só sabem mandar. Para essas crianças o mundo cobra demais e nada lhes oferece.

Logo, suas emoções serão terrivelmente prejudicadas e pedirão ajuda num grito com o professor, numa briga com o colega da turma, na quebra do vaso mais querido da mãe. A criancinha nessa fase está pedindo para ser ouvida. É aqui que entra a responsabilidade de amparo e zelo dos pais e daqueles que cuidam da formação do espírito da criança. 

Narrar com amor é doar um pouco de si ao outro. O contador de histórias doa o seu amor à criança mostrando-lhe a vida que parece só existir nos sonhos. Através da forma como o contador narra as histórias, a criancinha pode criar uma ponte entre o mundo imaginário e o real, comparando o amor que há num e no outro. Trazendo o amor do imaginário para o real, possibilitando um viver mais feliz e sábio.

O caminho que pretendo percorrer consistirá na comparação do conceito de amor no Banquete, no conceito de holding, de Winnicott e nos mitos de Narciso e Édipo como criadores de crianças “brincantes”, ou seja, crianças que sabem brincar com as coisas mais simples do mundo fazendo da vida uma gostosa brincadeira por mais difícil que ela seja.

Nesta comparação buscarei analisar qual a relação existente entre os Eros, Narciso, Eco e o conceito de holding, detendo-me na maneira de contar histórias encontrada nas diversas partes do mundo, seja em escolas, hospitais, asilos, abrigos, shopping centers, livrarias, festas e eventos.

Analiso aqui a forma como as criancinhas das mais diversas classes socais se sentem ao ouvir histórias comparando a vida dessas crianças com a vida daquelas que não escutam através da teoria e prática.

Busco mostrar que a forma de narrar do contador de histórias é imensamente importante para transmitir o amor à criança. Indago se a forma de narrar é uma arte que se adquire com a técnica, o dom e ou a experiência? Mais ainda: se somos inspirados pelos deuses para contar histórias.

Além de apresentar também as necessidades das criancinhas, seja em momentos de raiva e abandono, no ato de ouvir histórias para aprenderem a lidar com as próprias emoções. A criancinha abandonada pelas ruas de uma cidade grande ou um beco sujo de lama preferirá uma história contada por um Eco (contador amante) ou trocará esse por um ato de violência ou delinquência? Fica a questão. 

Esse movimento da arte chama atenção por onde passa, pois a literatura passa a ser vista com outros olhos, e, acima de tudo, sentida. Assim, percebe-se, por parte dos espectadores, que a literatura mexe com as emoções e sentimentos de cada ser humano. Coisa que é inerente à arte no sentido amplo. (Laércio Fernandes dos Santos) Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

FRATELLI TUTTI: as religiões a serviço da fraternidade no mundo

As religiões têm a nobre missão de conduzir o humano ao transcendente, mas cumprem, igualmente, a não menos nobre missão de conduzir o humano ao humano, colaborando para a fraternidade universal e a defesa da justiça.

A religião cristã fala a partir de Jesus Cristo, mas reconhece a legitimidade de outros pontos de vista e de experiências religiosas e, em diálogo, sonha com um mundo onde reine a paz. Essa parece ser a síntese do oitavo e último capítulo da Encíclica que o Papa elabora dois momentos.

O fundamento último

Poderá haver razões sólidas e seguras para a fraternidade universal sem a “abertura ao Pai de todos”?

Para o Papa Francisco essa é a questão de fundo a ser respondida e a sua resposta é “não”. Sem uma referência última a Deus, diz o Papa, não há como fundamentar uma convivência fraterna.

A Razão, diz o Papa, não é capaz, por si só, de fundar a fraternidade. No máximo, é capaz de fundar a igualdade e a liberdade cívica, porém, a fraternidade só é possível se houver reconhecimento da transcendência amorosa de Deus.

A afirmação do Papa parece apologética, dogmática e acrítica, afinal, a razão humana não pode ser descartada como formuladora de princípios últimos e de valores universais capazes de estabelecer acordos em torno de direitos humanos, por exemplo, que faculte a vivência da fraternidade e da paz.

Contudo, o Papa Francisco insiste que sem o postulado de Deus, a razão será sempre parcial e ideológica, levando, cedo ou tarde para totalitarismos e triunfos da força do poder que oprime e cultua ídolos. E diz mais, sem a religião o mundo entra em crise, perde a esperança, e os ideais de paz, justiça e fraternidade se esfumaçam. Só pela afirmação da transcendência pode o humano se libertar do individualismo e materialismo a que fomos conduzidos pela modernidade.

O Papa Francisco reivindica o direito de recolocar a religião no patamar que nunca deveria ter perdido no debate público e na formulação de políticas e ações efetivas que “promovam o homem e a fraternidade universal”.

Com isso não está querendo desconhecer a autonomia da política e, muito menos pretende “disputar poderes terrenos”, mas oferecer o que a religião tem de sabedoria acumulada na história e que pode ajudar para recuperar a esperança num mundo melhor (FT 172-276).

O Papa Francisco fala a partir da religião cristã, contudo reconhece o valor das outras religiões e com elas cria pontes de diálogo e reconhecimento, sabedor de que não há paz entre os povos e culturas sem paz entre as religiões.

O que une as religiões é muito maior e mais importante do que as dividem e por isso, convoca a todas as religiões a se congregarem em torno da paz, fraternidade e justiça a serviço da humanidade (FT 277- 280).


Religião e violência

“Entre as religiões, é possível um caminho de paz!” (FR 281). O ponto de partida e horizonte comum, para tanto, deve ser o olhar de Deus. E o olhar de Deus é o olhar com o coração que ama, tanto o crente quanto o ateu.

O amor de Deus a todos e a tudo alcança e nele não há espaço para violência e vinganças. Se alguém, em nome de Deus, se vale do recurso da violência, saiba, diz o Papa, que está interpretando equivocadamente a Deus e interpretando erradamente as fontes das religiões. “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações” (FR 282).

Nesse sentido, o terrorismo é um desvio, um erro, um ato execrável e sua origem não se deve à religião, embora os terroristas a instrumentalizem, mas tem “origem em interpretações erradas de textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, injustiças, de opressão e arrogâncias” (FT 283).

Por isso diz o Papa, é preciso parar de financiar o terrorismo e denunciar quem patrocina, pois são tão criminosos quanto quem o pratica. E faz uma afirmação e um apelo final. Às vezes, diz o Papa, as violências em nome da religião são devido a imprudência dos seus líderes que deixam de ser o que deveriam ser, a saber, mediadores dialogantes da paz. O apelo é de que as religiões nunca incitem à violência ou ao derramamento de sangue e não reivindiquem para si sentimentos de ódio e de extremismos, mas sejam um caminho de paz, justiça e fraternidade.

O Papa é ou não é um oásis no deserto e uma luz que brilha na escuridão?

Leia também um trabalho mais aprofundado da estrutura do Documento FRATELLI TUTTI, na forma de um roteiro ou guia para a leitura.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

O Jesus Cristo da história

Se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político a época em que ele viveu – uma época marcada por uma perspectiva de revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria.

ZELOTA: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré

Este livro, escrito por iraniano-americano Reza Aslan, procura recuperar o Jesus histórico e o cotidiano político e religioso da Palestina de 2.000 anos atrás.A partir da leitura de vários artigos sobre a obra, ofereço esta análise.

O livro de Aslan é uma tentativa de recuperar, tanto quanto possível, o Jesus da história, o Jesus antes do cristianismo: o revolucionário judeu politicamente consciente que, há 2 mil anos, atravessou o campo galileu reunindo seguidores para um movimento messiânico com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus, mas cuja missão fracassou.

Depois de uma entrada provocadora em Jerusalém e um audacioso ataque ao Templo – ele foi preso e executado por Roma pelo crime de sedição. É também sobre como, após Jesus ter fracassado em estabelecer o Reino de Deus na terra, seus seguidores reinterpretaram não só a missão e a identidade de Jesus, mas também a própria natureza e definição do messias judeu.

Para muitos, descobrir a verdadeira identidade de Jesus seria possível via as ferramentas científicas modernas e a pesquisa histórica que nos permitiriam descobrir sua verdadeira identidade. Para outros esta tentativa é perda de tempo. O verdadeiro Jesus já não importa. Devemos concentrar-nos no único Jesus que é acessível para nós: Jesus, o Cristo.

O grande teólogo cristão Rufolf Bultman gostava de dizer que a busca pelo Jesus histórico é, no fim das contas, uma busca interna. Os estudiosos tendem a ver o Jesus que eles querem ver. Muitas vezes eles veem a si próprios, seu próprio reflexo na imagem que construíram de Jesus.

Mesmo assim, essa melhor e mais bem-informada hipótese pode ser suficiente para, no mínimo, questionar nossas suposições básicas a respeito de Jesus de Nazaré.

Se expusermos as reivindicações dos evangelhos ao calor da análise histórica, podemos limpar as escrituras de seus floreios literários e teológicos e forjar uma imagem muito mais precisa do Jesus histórico.

De fato, se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político a época em que ele viveu – uma época marcada por uma perspectiva de revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria.

O Jesus que é revelado nesse processo pode ser o Jesus que esperamos, e ele, certamente, não será o Jesus que os cristãos mais modernos reconheceriam. Mas, no final, ele é o único Jesus que podemos acessar por meios históricos.

Todo o resto é uma questão de fé.

Autor: José Ernani de Almeida

Edição: Alex Rosset

Veja também