Início Site Página 99

Incentivar a competitividade é bom para a criança?

Que toda criança possa ser grande na arte de viver e nas competições que a vida lhe trouxer para saber ganhar ou perder, o importante é o existir além da vitória, nas nuvens, nas ondas do mar, num espanto do peixinho na beira do rio a pular para ver o seu olhar assustado.

Trago os versos daquele que é filho de Portugal, país que nos colonizou e tornou este um lugar lindo para se morar se não tivessem massacrado os nossos indígenas seria mais lindo ainda. Mas, sei que se ele estivesse numa daquelas naus de Cabral não teria permitido que nenhum indígena tivesse sido ferido ou violentado, porque ele é e sempre será “O menino da sua mãe”.

Falo do poeta Fernando Pessoa e trago o seu poema intitulado “Havia um menino” que diz “Havia um menino / que tinha um chapéu / para pôr na cabeça / por causa do sol.” Que todo menino ou menina possa ter um chapéu mágico para colocar na cabeça e assim num passe de mágica aprender a amar e respeitar o outro.

Competir nos ensina antes de qualquer coisa que a vida é dura e difícil e que vamos crescer sempre lutando pelos nossos ideais e objetivos. Cresceremos em busca dos nossos sonhos, mas sempre respeitando as regas da vida e os amigos que poderão se tornar os nossos adversários no jogo do tempo.

A competitividade é algo meio difícil entre as crianças. Se por um lado ela motiva e faz com que a criança tenha vontade de ir em frente, de ganhar, de lutar de ser cada vez melhor naquilo que faz por outro ela nos consome as energias muitas vezes e nos deixa tristes quando perdemos e não sabemos como perder. Estamos acostumados a somente ganhar e valorizamos as conquistas.

A infância é o momento de descobertas, de buscas e encontros com o novo. É neste momento que queremos mostrar para nós mesmos e para os amigos que somos fortes, inteligentes, corajosos e que vencemos tudo o que desejarmos. É quando construímos a nossa identidade, formamos o nosso espírito, nos proclamamos seres pensantes e muitas vezes precisamos nos reafirmar perante os amigos e familiares, para isso precisamos ganhar as coisas que desejamos, a nós só importa a vitória.

Ninguém quer ser chamado de perdedor ou fracassado. Muito menos as crianças. Elas não sabem lidar com as perdas. Elas vão sofrer se forem o tempo todo incentivas a competirem para ganhar. É preciso que pais, responsáveis e professores estabeleçam limites e digam para elas que competir é um ato de bravura e de demonstrar que somos iguais aos outros competidores e estamos ali pelos nossos méritos. Se vamos ganhar ou não é uma outra questão.

O fato de querermos competir já nos traz o espírito de campeões na vida, nas lutas, nas batalhas e em nas nossas emoções e sentimentos porque muitos não sabem competir.

E, para competir, é preciso ter um espírito valente e saber aceitar as perdas e as vitórias sem se deixar magoar tanto, sem se deixar sofrer muito e, principalmente, não ficar envergonhado diante dos amiguinhos porque perdeu o pênalti que daria o campeonato para o seu time ou ficou em último lugar na competição da natação da escolinha. Precisamos ensinar às nossas crianças que perder faz parte da vida, nem só de vitórias vive o homem contemporâneo.

Estamos num momento da humanidade em que competir é preciso em tudo. No trabalho, na academia universitária, nas relações afetivas e até mesmo conosco. Nos preparamos durante anos para uma competição e, muitas vezes, no dia da prova não nos sentimos bem, ficamos nervosos demais e acabamos perdendo. Também pode ocorrer do adversário ter treinado mais do que a gente.

Ensinar às crianças que é preciso respeitar os seus adversários também é dever dos pais e professores. Nem sempre ela será a melhor em tudo. Pode ser que apareça alguma criança mais preparada, que estudou mais, que se dedicou mais ou que teve mais sorte do que ela. Uma competição além de preparo psicológico e físico exige sorte. A criança deve respeitar todos os seus amiguinhos da escola mesmo sabendo que é a melhor nas disciplinas, que tem altas habilidades e grande criatividade.

Como dizia o filósofo grego Sócrates “Só sei que nada sei” deve ser ensinado às crianças desde cedo a humildade, a prática da empatia, o amor ao próximo, o respeito as opiniões alheias e ao outro e mais do que isso o respeito pelo resultado da competição tratando o seu adversário com cuidado e gentileza e não como um inimigo.

Os nossos pequenos querem ser os mais inteligentes da sala de aula, os mais queridos pelas professoras, os mais altos das turmas e os primeiros da fila da merenda. Querem se destacar nas brincadeiras e atividades da escola, querem ser escolhidos pelas professoras para fazerem alguma tarefa específica ou ajudá-la em sala de aula, ou seja, querem ser os melhores em tudo.

Aliás, quem não quer ser o melhor em tudo? Até nós, adultos, vivemos atrás disso, imagine as crianças.

Devemos incentivar as crianças a serem boas em tudo o que fizerem, mas nunca ficarem tristes se não conquistarem o que desejavam porque deve sempre ser dito para elas que existirão novas oportunidades, que elas poderão tentar novamente no próximo semestre, no ano seguinte. É necessário deixar claro que uma perda não significa o fim do mundo, que tudo vai passar, que perder faz parte da vida.

Os pais e professores devem atentar para que a competitividade não se torne algo negativo na vida da criança. Afinal, uma coisa é ter motivação para competir sempre e outra é querer ganhar sempre ou ser o melhor em tudo sempre. É neste ponto que se encontra a competitividade saudável e a tóxica.

Se a criança se frustra com qualquer coisa é importante que os pais passem a observar este comportamento e trabalhe com elas uma mudança interior e exterior mostrando-lhes exemplos de atletas e pessoas que vivem ganhando e perdendo competições. A vida é uma constante competição entre o bem e o mal e as crianças assimilam isso desde cedo.

Elas aprendem isso nos contos de fadas ou nas demais histórias que são contadas para elas sobre quem vai vencer no final da historinha, até torcem pelo herói que muito sofre.

Numa competição vencer é bom e todo mundo gosta quando atinge os seus objetivos e conquistas, porém quando a competitividade é exagerada e passa por cima do outro, desrespeita as normas da competição, falta empatia, passam por cima da solidariedade e da cooperação ela se torna algo negativo, tóxico para a criança e para as pessoas que estão ao seu redor.

Nas escolas, ainda que existam competições, os professores devem incentivar a cooperação, a solidariedade e a empatia com as crianças.

Comparar notas, dar estrelinhas para os melhores da turma, desvalorizar os que não vão bem nas disciplinas, sempre colocar um vencedor nas atividades ou procurar sempre um aluno melhor do que o outro pode ser uma competitividade tóxica que tem o feito contrário à motivação, desestimulando as crianças e os colocando um contra o outro, causando transtornos na autoconfiança, autoestima e autocuidado.

Para os pais é importante fazer cobranças exageradas. O importante não é o resultado, mas a participação da criança no evento. A sua coragem e força de vontade de competir sem ter vergonha dos demais amiguinhos.

Comparar a criança a outras crianças pode torná-la insegura e numa situação desconfortável. Transferir os seus desejos e expectativas para a criança pode ser bastante prejudicial. Se a sua criança participará de alguma competição o importante é apoiá-la no que precisar, mas não incentivá-la que só a vitória vale.

Ademais, numa competição o aprendizado e a experiência valem mais do que a vitória e isso é que deve ser ensinado à criança para uma relação saudável diante da competitividade. Muitas vezes o perdedor é alguém que se dedicou muito, se esforçou muito, quis muito, mas não conseguiu por algum motivo que não cabe ficar procurando.

O importante mesmo é sempre competir, dizer para a criança estudar mais, treinar mais que existirão outras oportunidades e que nem sempre vence o melhor. Às vezes o melhor pode não estar num dia bom, afinal todos nós temos dias bons e ruins.

Nós adultos devemos ensinar para as crianças que o espírito de equipe e de cooperação devem sempre prevalecer e que os esforços de todos precisam ser valorizados independente do resultado final. Ensine a sua criança a parabenizar o seu adversário vencedor, isso faz parte da empatia e da solidariedade no esporte.

A criança que é ensinada na escola e em casa a competir com espírito de cooperação e solidariedade crescerá preparada para os desafios da vida contemporânea. Ela não ficará extremamente triste com uma perda.

Na vida, as crianças vão se deparar com muitas perdas e isso precisa ficar claro desde a tenra idade. O melhor é que elas aprendam a competir para superarem os seus medos e ansiedades diante das perdas, e saibam desde cedo que o importante é a participação é o espírito competitivo. A dedicação aos estudos e ao esporte, ou seja, qual for a modalidade da competição não vai torná-la melhor do que as outras crianças.

Uma criança que esnoba do fracasso do seu amiguinho em sala de aula, que se torna logo cedo a “mais sabida” da turma como dizem as demais crianças e passa a ter comportamentos de egoísmo e ambição acaba prejudicando a sua formação enquanto cidadã com valores e virtudes morais.  Toda criança deve ser ensinada a ter empatia pelo outro, seja ele quem for, principalmente se for o amiguinho da sala de aula que não consegue sucesso no ensino-aprendizagem.

O ideal é que o professor ao invés de incentivar competição oferecendo estrelinhas para os melhores da turma, incentive que aqueles que são melhores em determinadas disciplinas ajudem os demais que sentem dificuldades sendo uma espécie de monitores e ajudando na sala de aula o ensino-aprendizagem. Muitas vezes o aluno que não consegue um bom desempenho escolar traz sérios problemas de casa ou até mesmo pode ter algum problema emocional que o impede de aprender o que lhe é ensinado com sucesso.

Na verdade, há diversas formas de ensinar as crianças a serem competitivas. Alguns pais não gostam de expor os seus filhos a coisas competitivas, já tem outros que acham ser uma boa lição de que eles vão levar para a vida adulta. Acredito que todos os pais e professores devem saber a dose certa para uma criança competir com confiança e saber aceitar o resultado. Não basta apenas ganhar é preciso saber participar.

Para finalizar eu deixo vocês com os versos do meu poeta português Fernando Pessoa do poema intitulado “Liberdade” que nos diz “Grande é a poesia, a bondade e as danças… /  Mas o melhor do mundo são as crianças, /  Flores, música, o luar, e o sol, que peca / Só quando, em vez de criar, seca”.

Que toda criança possa ser grande na arte de viver e nas competições que a vida lhe trouxer para saber ganhar ou perder, o importante é o existir além da vitória, nas nuvens, nas ondas do mar, num espanto do peixinho na beira do rio a pular para ver o seu olhar assustado. Viva as crianças!

Jogos cooperativos ensinam crianças a conviver em grupo. Projeto “Jogos Cooperativos” melhora o desempenho escolar dos alunos, unindo Educação Física à Língua Portuguesa. Assista!

Autora: Rosângela Trajano

A dor se transformou em vida

“Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história” Hannah Arendt

A vida é construída de retalhos. De dores que geram histórias. De histórias que povoam as pessoas. De pessoas que contam e compartilham um pouco de si mesmas com os semelhantes. De contos reais ou inventados que ajudam a preservar o grande tesouro humano: a memória.

A lenda da mãe preta é assim. Narrativa popular mais conhecida de Passo Fundo, surgiu da boca do povo. Como patrimônio oral de uma comunidade inteira, foi sendo contada e recontada; por vezes esquecida, exaltada em outros momentos. Para não se perder a sua essência, ergueu-se um monumento em sua homenagem. O concreto simbolizando uma história da tradição folclórica, que resiste firme, apesar dos pesares.

Resgatar, recontar, relembrar. É com esse intento que nasceu o projeto A lenda da mãe preta: resgate de uma Passo Fundo viva, pelo escritor e contador de histórias Gabito. A ideia surgiu de um outro projeto, intitulado Conta Gaúcho, que está levando a escolas municipais contações de histórias e exposição de artes visuais com temática regionalista. https://www.neipies.com/a-lenda-da-mae-preta-resgate-de-uma-passo-fundo-viva/

A narrativa, envolta em aspectos históricos, ambientais e até mesmo místicos, traz a saga de Mariana, escrava do Cabo Neves, um dos pioneiros na fundação de Passo Fundo. Mãe preta, dada a sua origem africana, tinha em seu único filho o grande tesouro de sua existência. Certo dia, porém, o menino fugiu para longe. Mariana, como toda mãe em desespero, chorou. Do seu pranto desconsolado nasceu uma fonte. A dor se transformava em vida.

É interessante notar os efeitos que um conto da tradição oral provoca sobre os ouvintes e as mensagens contidas nele. Usando quase sempre de um simbolismo metafórico, reporta consigo lições de vida, dramas, questões humanas essenciais, numa construção onde o mágico e o sobrenatural prevalecem. Essa forma de suportar a própria dor é o que oferece a segurança para continuarmos em pé. Narrar é, portanto, uma forma de sobrevivência diante do caos, do inesperado, do desconhecido.

O caso da mãe preta, cuja dor foi aplacada pelo próprio Cristo, segundo a lenda, exemplifica de maneira clara essa questão. Quando uma lágrima encharca o solo e, unida a um pranto sincero de saudade forma uma fonte, há uma mensagem explícita de resistência e de esperança. É a subversão da lógica, a negação da morte; não é o fim de uma mãe ferida pelo destino e sim o seu renascimento, a sua metamorfose. É também um ato de doação, onde a protagonista abdica de si mesma, afirmando: “e como lembrança quero deixar essa fonte. Assim, quem dela beber sempre retornará a esse local”.

Hoje, o projeto A lenda da mãe preta: resgate de uma Passo Fundo viva, busca recontar e difundir essa história.

Publicada em livro, a narrativa agora não estará apenas na memória de poucos, mas na mãos de muitos. Circulará entre jovens e adultos, será objeto de estudos e debates; há de se sentir orgulho dela. Pois a oralidade popular nada mais é do que um ato de protesto contra o fim. Quem relembra o percurso de seus antepassados, não se perde jamais. Quem conta suas histórias não morre nunca.

Curiosidades sobre os monumentos das duas mães de Passo Fundo: Assista: https://youtu.be/O7m4FSBp_sw?t=108

Fotos da Praça da Mãe Preta: obtidas do vídeo Nexjor UPF: https://youtu.be/O7m4FSBp_sw?t=91

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin

Quando a vaidade toma conta da vida

Mas, o que é a vaidade? Como ela se manifesta na vida das pessoas? Por que constitui-se uma das principais características da sociedade pós-moderna? Como age o vaidoso?

A vaidade é considerada um dos sete pecados capitais ao lado da preguiça, luxúria, avareza, gula, inveja e ira. Certamente é uma das características que marcam o modo de ser de muitas pessoas na nossa sociedade considerada pós-moderna, por alguns autores.

O homem pós-moderno, segundo esses autores, vagueia pela vida de fragmento em fragmento, tem dificuldade de encontrar uma identidade duradoura, vive como um “eterno turista”, fica indiferente perante os problemas sociais, é alheio com as injustiças e maldades que cruzam sua existência, possui escassa formação humanística, tornou-se entusiasta da superficialidade, do consumo, da diversão sem limites e da permissividade.

Na expressão muito bem cunhada pelo pensador francês Gilles Lipovetsky, o homem pós-moderno vive acometido pelo crepúsculo do dever. No entanto, uma das suas principais características que marcam o modo de ser do homem pós-moderno é a cultura da vaidade.

Mas, o que é a vaidade? Como ela se manifesta na vida das pessoas? Por que constitui-se uma das principais características da sociedade pós-moderna? Como age o vaidoso? Onde reside sua perversidade que causa um desalento moral contemporâneo? Que escolhas e atitudes alimentam a vaidade? Enfim, por que a vaidade é a escolha do caminho invertido na escolha de uma vida ética?

Se formos ao Aurélio, encontraremos a seguinte definição de vaidade: “qualidade do que é vão, ilusório, instável e pouco duradouro; desejo imoderado de atrair admiração ou homenagens; coisa fútil ou insignificante, frivolidade, futilidade, tolice”. Pela definição do dicionário encontramos de imediato diversos traços que levam a indicar a vaidade como característica do nosso tempo e identificá-la como algo negativo que deturpa a busca de um comportamento moralmente aceitável.

Alguém pode objetar dizendo que vaidade é algo positivo, pois significa amor próprio, gostar de si, valorizar suas qualidades, cuidar da aparência, buscar a auto-afirmação. Mas é exatamente aqui que reside o grande problema: o senso comum confunde vício com virtude.

Para Yves de La Taille, reconhecido estudioso da psicologia do comportamento moral da Universidade de São Paulo (USP), “o conceito de vaidade é estranho à dimensão moral, pois não faz sentido dizer que alguém é generoso ou justo por vaidade”.

Uma pessoa vaidosa costuma atribuir valor a aparências, não a virtudes. Por isso, o vaidoso cuida de forma excessiva do espetáculo de si mesmo, pois para ele é “essencial” convergir para si o olhar e a admiração dos outros, exibir e ostentar uma suposta imagem mesmo que temporária e ilusória.

Há uma moral heterônoma no comportamento do vaidoso porque reduz o juízo do outro a uma dependência unilateral. O outro, não é reconhecido pela alteridade e sim pela possibilidade de ser um adulador capaz de expressar elogios, um subserviente espectador que aplaude e reconhece a identidade superficial do vaidoso.

Exagero! Nem tanto. Se prestarmos atenção aos constantes apelos publicitários que diariamente invadem nossas vidas, se vasculharmos os diversos conteúdos implícitos que comandam o império do consumo, se analisarmos as razões que levam milhões de homens e mulheres realizarem intervenções cirúrgicas em seus corpos por motivos puramente estéticos, então compreenderemos que a vaidade se traduz na grande marca de nosso tempo.

A escola também pode se tornar um dos tantos espaços em que a vaidade pode ser caprichosamente alimentada e inflamada. Não estar atento a este fenômeno hodierno é perder uma rica oportunidade de pensar filosoficamente sobre essa importante temática que caracteriza fortemente nosso cotidiano, inclusive escolar.

Certamente é por isso que numa das cenas derradeiras do famoso filme O advogado do diabo, quando Kevin Lomax (principal protagonista do filme) pergunta a John Milton (interpreta o diabo) sobre as razões que o levaram a tomar decisões moralmente tortas, Milton responde que foi por causa da vaidade, e que esta é um dos seus pecados prediletos.

Autor: Altair Alberto Fávero

A superação da fome e miséria como programa de Estado

As situações de crise econômica, que agravam a miséria e fome são geralmente fruto de má condução econômica. Quando a economia vai mal, as primeiras vítimas são os pobres.

Duas notícias foram publicadas recentemente. A primeira diz respeito à insegurança alimentar. Esta condição significa incerteza quanto ao ter o que comer no dia seguinte pela situação de pobreza e miséria.

Por segurança alimentar compreende o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis (Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional). O não preenchimento destes requisitos indica que a pessoa, família ou sociedade vive uma realidade de insegurança alimentar, não está segura quanto ao direito ao alimento saudável.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatista (IBGE) classifica a insegurança alimentar em três níveis: leve, moderada e grave. Aa insegurança grave diz respeito à falta de comida mesmo. A pessoa vai dormir sem comer e, no outro dia, não tem certeza se vai conseguir comer.

Semanas atrás noticiou-se que o percentual de brasileiros vivendo nessas condições chega a cerca de 33 milhões de pessoas. É uma situação preocupante sobretudo em um Brasil que tem grande área agrícola e que produz muitos grãos. Então a pergunta: produz para quê é para quem? O Brasil produz muito, mas muitos ainda passam fome.

A segunda notícia diz respeito à possibilidade de o governo em exercício potencializar os gastos sociais em vista das próximas eleições, atitude também tomada em governos anteriores e com consequências graves pelo descontrole de gastos e pelo risco de não continuidade. Não demonstra interesse real em atender as pessoas em situação de vulnerabilidade mas garantir a vitória no pleito eleitoral a partir de um engodo.

No Brasil, todo o governo é eleito por um período e quatro anos, com possibilidade de reeleição para mais um mandato. Um bom plano de governo elege algumas prioridades a serem enfrentadas em quatro anos de atividade governamental.

É mister que em um país com déficit nutricional, tenha o combate a fome como prioridade. Todavia esta diretriz também é um limitante. Depende da proposta daquele grupo que ora governa o país.

Um governo equilibrado e preocupado com a equidade social terá condições pelas ações empreendidas de aliviar os níveis de pobreza a começar pela boa gestão da economia. As situações de crise econômica, que agravam a miséria e fome são geralmente fruto de má condução econômica. Quando a economia vai mal, as primeiras vítimas são os pobres.

Agrava o fato de o Brasil ser um país estruturalmente desigual. Indica que tal realidade é estrutural mais que conjuntural. A conjuntura de crise e má gestão apenas torna-a mais grave.

A tese a ser sustentada é que devido a nossa tradição de diferentes déficits sociais o combate à miséria e à fome deve ser uma política de Estado, independente deste ou aquele governo. Isto perduraria até que se chegue a uma situação que fuja aos riscos sazonais, à mercê de crises econômicas, de fome e miséria.

Diferencia-se Estado de Governo. O Estado é uma instituição social fundada em um povo, por ele governado; um território e um conjunto de leis visando a coesão social. Também é possível compreender como um conjunto de instituições permanentes que organizam e controlam o conjunto da sociedade. São os poderes executivos, legislativo e judiciário. Por governo compreende-se o conjunto de pessoas que administram o Estado por determinado tempo, portanto com caráter transitório.

O combate à fome e à miséria, sendo política de Estado, teria perenidade. Não ficaria à mercê de ideologias políticas e jogo eleitoreiro e também daria uma finalidade social à economia que hoje vive um processo de centripedação, gira ao redor de si mesma, não se importando com o mínimo de dimensão social.

Enquanto estruturada como política de Estado considera-se também a preocupação com a forma de aplicação das iniciativas para que não sejam meramente assistencialistas, mas que provoquem a emancipação e melhoria real das condições de vida da população vulnerável. Sendo uma política de Estado, que envolve todos os poderes, não fica sujeita aos humores e opções dos governos que estão exercendo o poder no momento.

Aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social, enfrentado a fome merecem uma consideração maior. Como dizia Betinho: quem tem fome tem pressa.

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis

Pandemia ampliou desigualdade no ensino, evasão escolar e perda de aprendizagem

Os desafios e esforços de estudantes, famílias e educadores no pós-pandemia ainda são grandes. Pelo país, professores e alunos sofrem com a ansiedade, depressão e outros problemas relacionados à saúde mental, principalmente com retorno das aulas presenciais, depois de dois anos de pandemia, e problemas estruturais nas escolas.

A maior crise sanitária do século jogou luz e ampliou as desigualdades no ensino público no Brasil. Escolas fechadas, evasão escolar, problemas de aprendizagem, falta de estrutura nas escolas, queda nas matrículas e saúde emocional de alunos/as e professores/as abaladas são alguns dos problemas que a educação pública brasileira enfrenta.

De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Datafolha, em janeiro, 4 milhões de estudantes abandonaram a escola durante a pandemia. As principais motivações foram a dificuldade do acesso remoto às aulas e problemas financeiros, em que os alunos que lideraram a taxa de abandono pertenciam às classes D e E.

Além disso, um em cada quatro brasileiros não têm acesso à internet, representando cerca de 46 milhões de pessoas, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC), de 2018. Durante dois anos de pandemia de Covid-19, 38 milhões de alunos de escolas públicas enfrentaram 287 dias de escolas fechadas entre 2020 e 2021, segundo o Inep. A média equivale a quase um ano letivo e meio.

A professora de história da rede municipal de Maracanaú, município do estado do Ceará, que fica a 24 km da capital Fortaleza, Nivia Marques Monteiro, vivenciou esse drama de perto. “Muitos alunos não conseguiram acompanhar as aulas remotamente, a gente teve uma evasão muito grande por muitas questões (…). Aqui, a desigualdade social é grande e tinha alunos sem equipamentos para estudar, sem materiais, e daí muitos deles se afastaram da escola”, conta.

O município foi um dos últimos do estado a voltar às aulas presenciais devido aos muitos problemas estruturais nas escolas, adequação dos protocolos sanitários e escolas não padronizadas. O resultado foi muita defasagem de aprendizagem e problemas de evasão nas escolas.

O que a professora relata é comprovado pelo levantamento do jornal Folha de S. Paulo que aponta que o fechamento de escolas na pandemia em 2020 derrubou em 72,5% o aprendizado esperado.

Os dados da rede estadual paulista mostram ainda que o risco de abandono cresceu 365% durante o período em que as escolas ficaram fechadas e a falta de aulas presenciais fez esse risco médio crescer no mínimo 247% (ou seja, mais que triplicar), mesmo em cidades em que a pandemia foi mais leve.

Para Nivia, que também é secretária de políticas de gênero do Sindicato Unificado dos Profissionais em Educação no Município de Maracanaú (Suprema), o atraso nas tomadas de decisões da prefeitura, que cortou vários benefícios dos professores/as, levou docentes e estudantes a terem problemas físicos e emocionais.

“O ano de 2020 foi bem difícil aqui em Maracanaú porque quando veio a pandemia a gente teve um atraso grande em tomar uma decisão. As escolas foram fechadas, mas demorou a pensar como seria o ensino remoto e ficou todo mundo ansioso e confuso com o que estava acontecendo”, completa.

O documentário “Desconectados”, com pré-estreia agendada para esta semana, mostra histórias de como foi viver este isolamento, na voz dos que viveram na pele o que milhares de outras famílias passaram durante a crise sanitária.

Prejuízos para toda sociedade

A falta de coordenação do MEC do governo federal e a ausência de apoio para as prefeituras e estados levou o período sem aulas presenciais à desigualdade na oferta do ensino remoto, que esbarrou em problemas estruturais, como a falta de conectividade de rede de internet. Menos da metade dos estudantes brasileiros (39%) tiveram acesso às aulas de reforço durante o isolamento provocado pela pandemia, o que intensificou a desigualdade educacional.

“São prejuízos para toda sociedade e com certeza para a educação, que é uma parte fundamental do desenvolvimento do nosso país, sofreu muito porque não houve um investimento adequado durante e depois da pandemia”, afirma Ieda Leal, professora e secretária de Combate ao Racismo da CNTE.

Para ela, a educação está numa situação caótica porque houve perdas irreparáveis de colegas de trabalho, alunos que desapareceram na pandemia e famílias que foram devastadas. Segundo os dados da “Educação na perspectiva dos estudantes e suas famílias”, realizada pelo Datafolha, por outro lado, os alunos que tinham aulas online antes da pandemia foram menos prejudicados pelo fechamento das escolas, tanto no risco de abandono quanto na perda de aprendizagem.

“A pandemia aumentou a miséria, a desigualdade social e, de quebra, a desigualdade escolar. Se a gente não tem a condição normal de aprender, perdemos essa possibilidade e serão anos para retornar. Precisamos fazer um esforço para enfrentar essa disparidade entre alunos que conseguiram acompanhar remotamente com internet, aparelho celular, e tivemos alunos que não acompanharam porque tiveram problema de sinal e de energia”, finaliza a dirigente.

Como a reportagem da CNTE já mostrou, os desafios e esforços de estudantes, famílias e educadores no pós-pandemia ainda são grandes. Pelo país, professores e alunos sofrem com a ansiedade, depressão e outros problemas relacionados à saúde mental, principalmente com retorno das aulas presenciais, depois de dois anos de pandemia, e problemas estruturais nas escolas.

Autor: CPERS SINDICATO

Artigo publicado no site do CPERS SINDICATO em 24/08/2022: https://cpers.com.br/pandemia-ampliou-desigualdade-no-ensino-evasao-escolar-e-perda-de-aprendizagem/

Nem azul, nem rosa: criança veste qualquer cor

Parece que vivemos um retrocesso no que diz respeito a educação das nossas crianças. Por mais que as sociedades mudem, sempre permanecerá o machismo dando as suas ordens e mostrando que ainda é forte nas sociedades contemporâneas.

Trago hoje o poeta português Fernando Pessoa com os versos do seu lindo poema “Eros e Psique” que nos diz “Conta a lenda que dormia / Uma Princesa encantada / A quem só despertaria / Um Infante, que viria / Do além do muro da estrada.”

Não importa se a princesa encantada se veste de azul o seu infante vai de qualquer jeito a salvar e não porque é a sua obrigação como homem salvar uma mocinha, mas porque ele a ama.

Ainda se cultiva a prática de comprar roupinhas para o bebê da cor rosa ou azul entre alguns pais brasileiros. Quanto mais a sociedade se desenvolve tecnologicamente, politicamente, culturalmente e economicamente parece que mais andamos para trás iguais a caranguejos.

Parece mentira que, em tempos de tanta tecnologia e diversidade, alguns pais ainda vibrem ao saberem o sexo da criança que está para nascer mostrando os seus lados machistas e patriarcais. Eu às vezes não quero acreditar que ainda vivo em uma sociedade tão machista e ignorante.

Outro dia vi as fotografias da festa de uma criança do sexo masculino que está para nascer e tudo era decorado de azul. O azul que é a cor de menino, professora. Assim me disseram e eu tive que concordar que sim, que estava bonita a decoração com azul em tudo quanto era canto. Por que não usaram outras cores? Por que criticamos tanto as coisas antigas e continuamos agindo como se estivéssemos em pleno século vinte?

Eu vejo tanta coisa no meu dia a dia que discordo em relação às crianças. Só para citar um exemplo: quem disse que é bonito uma menina de apenas três anos de idade ter as suas unhas pintadas? É apenas uma criança, gente. Deve agir e se comportar igual a uma criança que está descobrindo o mundo. Não deve se comportar como adulto.

Vou voltar para as cores das roupas no próximo parágrafo. É que fico indignada com essas coisas que alguns pais fazem com seus filhos. Querem adultizar as crianças cedo demais.

Antigamente, o enxoval do bebê só era feito depois que as mães ficavam sabendo do seu sexo. Se fosse menina tudo seria da cor rosa e se fosse um menino seria da cor azul. A criança por muito tempo só vestiria uma dessas duas cores. Ai de quem chegasse com um presente de outra cor. Existem costumes que não se acabam e esse das cores das roupas dos bebês é um deles.

Por mais que as sociedades mudem, sempre permanecerá o machismo dando as suas ordens e mostrando que ainda é forte nas sociedades contemporâneas.

Vivemos tempos em que a diversidade está tão presente em nossas vidas seja no trabalho, na escola, na igreja ou no futebol. Tempos em que as pessoas escolhem um nome social conforme se identificam com o seu gênero, tempos em que mais cedo as pessoas estão saindo do “armário” e dizendo as suas orientações sexuais sem se preocupar com opiniões alheias. São esses tempos que derrubam o patriarcado e o machismo e acabam com esse costume de menina veste rosa e menino veste azul.

Crianças ficam lindas vestidas em qualquer cor desde que se sinta bem e estejam confortáveis dentro das mais diversas roupinhas que as mamães cuidadosamente escolhem para elas. É preciso ter cuidado com as roupinhas das crianças para não ficarem apertadas demais em seus corpinhos ou grandes demais. Tudo tem que ser no tamanho certo. Uma roupinha colorida vai chamar a atenção da criança.

Quanto mais cores, mais bonitas são para os seus olhinhos cheios de brilho e encantamento que ainda estão em processo de conhecimento das coisas ao seu redor.

Não quero esquecer-me das crianças com deficiência visual. Para elas, não importa a cor da roupa, mas se é confortável ou não. Se consegue colocar o bracinho rapidamente na manga da camisa e a perna rapidamente no calção. Essa coisa de escolher cor de roupa para a criança conforme o seu gênero não era para existir mais. Porém, o patriarcado é quem dita as normas nas nossas sociedades que querem mostrar avanços culturais e vivem presas ao passado.

Parece que vivemos um retrocesso no que diz respeito a educação das nossas crianças. Querem que as meninas voltem a usar a cor rosa e os meninos a cor azul, querem que as crianças voltem a estudar em casa e não querem que elas aprendam sobre sexualidade nas salas de aulas que é tão necessário para evitarmos que vivam certas situações constrangedoras e violentas com os seus corpos.

Digo às mamães e aos papais que as suas crianças não serão mais mulheres ou menos homens se deixarem de vestir a cor rosa ou a cor azul. A questão da homossexualidade não é uma doença ou algo que se aprende através dos tempos. Nascemos assim. Não vai ser cor de roupa que vai mudar a orientação sexual do seu filho, papai. O menino que só veste azul e não pode brincar de boneca e muito menos falar fino não quer dizer que ele será um homossexual quando tornar-se adulto.

A nossa filósofa e escritora francesa também feminista Simone de Beauvoir nos deixou uma frase bonita que diz “não se nasce mulher, tornar-se mulher”. Esta é uma frase para quebrar com o machismo e acabar de uma vez por todas com o patriarcado nas famílias brasileiras. Não é que seu menino vá tornar-se uma mulher pelo simples fato de vestir roupas da cor rosa. Ele pode tornar-se uma mulher porque está na sua essência, no seu ser, naquilo que o constitui como pessoa humana.

Sem contar que o tornar-se mulher de Simone de Beauvoir é o agir conforme a delicadeza e sensibilidade de uma mulher, é se colocar no lugar da mulher e procurar viver os seus desafios e lutas junto com elas e nunca se deixar ser tomado por atos e palavras machistas que ameaçam os direitos de igualdades de gênero. Tornar-se mulher é uma inspiração para os homens sentirem no peito e na alma as verdadeiras batalhas feministas.

Na verdade, há uma explicação até mesmo não machista para o fato da menina vestir rosa e o menino vestir azul que eu acho bonita. Sim, esse era o padrão indicado pelos especialistas em roupas infantis em 1939. Uma revista para pais, também dos Estados Unidos da América, argumentava que o rosa remete ao vermelho, cor do deus da guerra, Ares/Marte, enquanto o azul estaria associado a Afrodite/Vênus e à Virgem Maria.

Algumas vezes na escola pode ocorrer do menino que estiver vestido de rosa sofrer bullying por parte dos amigos, mas cabe a escola chamar a atenção das outras crianças conversando com elas, explicando, mostrando exemplos e fazendo questionamentos sobre as suas vidas fora da escola para descobrir de onde elas tiraram esse conhecimento errado.

Os meninos sofrem mais bullying do que as meninas com as cores das roupas, isso porque o machismo ainda é grande nas nossas sociedades e os pais começam a ensiná-lo cedo aos seus filhos porque não é possível que crianças de seis ou sete anos já saibam que a cor rosa é de menina e menino que a veste pode tornar-se um afeminado.

Se as crianças que fazem bullying com os meninos que vestem a cor rosa trazem esse conhecimento de casa é porque algum adulto as ensinou. E isso deve ser combatido pela escola porque nela só há lugar para um mundo diverso onde as crianças possam se apresentar do jeito que quiserem e serem livres para mostrarem as suas orientações sexuais desde cedo.

Temos muitas histórias de adultos transexuais e travestis que sofreram bullying na escola, quando crianças, por se apresentarem como se sentiam por dentro. Esta é uma questão muito complexa, eu sei. Questão difícil de ser abordada, mas o que eu quero alertar aos pais e professores é sobre a cor da roupa das crianças. A escola deve estar preparada para enfrentar esses comportamentos e aprendizagens errados e preconceituosos que as crianças trazem de casa e mostrar-lhes o correto, por isso é tão importante o ensino da sexualidade.

Alguns pais pensam que as aulas sobre sexualidade é ensinar as crianças a fazerem sexo ou se tornarem homossexuais. Que vão mexer na piroca do seu filho ou no piu-piu das suas meninas, mas não é isso, pais! Nunca será isso! O ensino da sexualidade em sala de aula vai muito além do que ensinar a como fazer sexo, ele alerta para os cuidados que a criança deve ter com o corpo e quebra muitos tabus que não podem ser mais aceitos como este do menino não poder vestir a cor rosa porque pode virar um homossexual.

Vivemos em uma sociedade em que se uma mulher está grávida de uma menina, automaticamente, ela recebe presentes de cor rosa e, se for menino, de cor azul. 

Quando o bebê nasce e é uma menina, lhes dão de presente bonecas e “coisas de menina” e se for menino, carrinhos e “coisas de menino”.

Parece que os bebês chegam rotulados a este mundo, e as cores começam a adquirir importância na vida deles. Porém, o que importa na vida das crianças não são as cores que lhes digam que são mais apropriadas a eles, mas sim que se sintam bem e que saibam que sua integridade é o principal em qualquer momento da vida deles. Talvez uma menina goste de azul e um menino de rosa, e isso é normal.

Não devemos rotular as nossas crianças por gostarem mais de uma cor do que de outra, como também não podemos rotulá-las por gostarem de brincadeiras que são ditas apenas de meninos como o futebol. Muitas meninas adoram jogar futebol e hoje temos grandes jogadoras profissionais de futebol que não deixaram de ser mães, esposas e donas de casa! 

Não foi o futebol que fez com que elas mudassem as suas orientações sexuais. Do mesmo jeito ocorre com os meninos que brincam de bonecas. Existem muitos estilistas que são casados, pais e donos de casa. Nem por isso deixaram de exercer as suas masculinidades.

Os pais não devem se deixar levar pelas cores, mas sim deverão, ao longo do crescimento da criança, respeitar os gostos dos filhos, sejam quais forem. Por exemplo, para não cair na tentação de decorar o quarto de uma menina de rosa ou de um menino de azul, então, o ideal seria pensar em cores neutras que não enquadrem a criança dentro de um gênero ou outro. Ou simplesmente pensar em uma cor que as crianças gostem. Sem importar se ela for a cor rosa, azul ou qualquer outra cor.

Na verdade, a criança não está preocupada com as cores das suas roupas ou das paredes dos seus quartos, o que elas querem é serem bem tratadas conforme são verdadeiramente, sem precisarem esconder o que sentem, o que pensam, as suas dúvidas e medos em relação aos seus corpos e as suas orientações sexuais.

As crianças precisam ter em quem confiar essas coisas da sexualidade que são tão difíceis de serem compreendidas, por isso que a escola deve estar preparada para falar sobre isso já que em casa os pais, muitas vezes, evitam essas conversas ou desconversam por não saberem como começar explicando às crianças o que elas tanto costumam perguntar.

Quando um menino ou uma menina está brincando, acaba sendo apropriado oferecer-lhes toda a oportunidade de brincar com todo tipo de brinquedos. Por exemplo, se for uma menina, você pode oferecer carrinhos ou aviões e se for um menino pode oferecer bonecas e ursinhos de pelúcias e se estão brincando juntos os meninos e as meninas, oferecer todo tipo de brinquedo para que sejam eles que escolham com qual brinquedo preferem se divertir.

Se a menina quer vestir a cor azul ou outra cor e não gosta da cor rosa não é uma questão de impor para que ela venha a gostar dessa cor e passe a usá-la nas suas vestimentas. Na verdade, trata-se de uma questão que os pais devem respeitar os gostos e afinidades dos seus filhos.

Se o menino gosta da cor rosa e pede roupas e outras coisas dessa cor, os pais têm como cuidado e respeito aceitar e lhes oferecerem aquilo que vai fazer-lhes bem.

Afinal, ser criança é algo tão difícil e complicado que não devemos complicar ainda mais impondo as nossas vontades como se fôssemos verdadeiros tiranos e elas as nossas súditas.

É fundamental respeitar os filhos pelo que são e não pelo que desejamos que eles sejam, não podemos sufocá-los com as nossas ansiedades e expectativas em relação aos seus comportamentos, pois os seus espíritos ainda em formação podem se sentir sufocados ou asfixiados e acabarem sendo prejudicados. O ideal é que deixemos as crianças escolherem sempre o que desejam desde que aquilo seja bom para elas.

Para finalizar, eu deixo vocês com o poema de Cecília Meireles intitulado “O menino azul” que nos diz nos seus lindos versos “O menino quer um burrinho / que saiba inventar histórias bonitas / com pessoas e bichos / e com barquinhos no mar. […] (Quem souber de um burrinho desses, / pode escrever / para a Ruas das Casas, / Número das Portas, / ao Menino Azul que não sabe ler.)”

Que apareçam meninos rosa, verde, amarelo ou vermelho que também queiram um burrinho para com ele passear.

Reforçando papéis construídos socialmente, lá na infância, fazemos com que os adultos naturalizem que o trabalho doméstico e ensinamos que cuidar dos filhosé uma função da mulher, que o homem deve ser agressivo,correr de carro, demonstrar masculinidade portando armas… (Ingra Costa e Silva) Leia mais: https://www.neipies.com/coisa-de-menino-e-coisa-de-menina/

Autora: Rosângela Trajano

O que a Bíblia diz sobre o armamento da população?

Seria a Bíblia favorável ao armamento da população? E o que diria Jesus acerca disso? Dar ao cidadão comum o direito de possuir ou portar uma arma coibirá ou estimulará ainda mais a violência?

O Brasil está entre os cinco países com maior número de feminicídios no mundo, cerca de 315 mil estupros estimados em menores de 15 anos, o país que mais mata LGBT, e também o país com maior número de casos de depressão da América Latina. Em nenhum outro país, a flexibilização da posse de arma de fogo como forma de combate a violência teve resultados positivos.

Para quem já viveu nos EUA e testemunhou um tiroteio na vizinhança da escola em que estudavam seus filhos, em que um dos seus colegas tirou a vida dos próprios pais, é lamentável ver que isso agora poderá ocorrer no Brasil com frequência cada vez maior.

Seria a Bíblia favorável ao armamento da população? E o que diria Jesus acerca disso? Dar ao cidadão comum o direito de possuir ou portar uma arma coibirá ou estimulará ainda mais a violência?

Pasmem, mas boa parte dos que se apresentam como seguidores de Jesus, o maior pacifista de todos os tempos, é favorável não apenas à posse, como também ao porte e uso de arma de fogo por parte do cidadão comum.

Tal postura se deve em muito ao fato de que muitas das denominações evangélicas brasileiras terem suas raízes nos Estados Unidos, país reconhecido como o de maior distribuição per capita de armas.

Pregadores sacam versos bíblicos para defender o armamento da população com a mesma rapidez com que pistoleiros sacavam suas armas num duelo no velho oeste.

De todas as passagens usadas, a considerada a “bala de prata” é, sem dúvida, a encontrada em Êxodo 22:2-3:

“Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue. Se, porém, já havia sol quando tal se deu, quem o feriu será culpado do sangue; neste caso, o ladrão fará restituição total, mas, se não tiver com que pagar, será vendido por seu furto.”

Segundo eles, esta passagem autoriza o uso da arma para a defesa da propriedade, bem como da família. O que eles parecem desconsiderar é que tal concessão fora feita a um povo nômade em vias de se estabelecer numa terra sem lei, onde não havia qualquer tipo de policiamento, nem código penal, nem mesmo um governo organizado.

Em outras palavras, era cada um por si. Ademais, se é para cumprir o mandamento ao pé da letra, sugiro que não usem a arma para matar, apenas para ferir, e que o façam à noite, jamais à luz do dia, e que, por fim, vendam o ladrão como escravo para pagar eventuais prejuízos.

Se a bala de prata falhar, os teólogos-pistoleiros recorrem à que poderia ser considerada a “bala de ouro”. Afinal de contas, é o próprio Jesus que lhes dá munição. A passagem está registrada em Lucas 22:35-36:

“Então Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sacolas de viagem, ou sandálias, faltou-vos alguma coisa? Responderam eles: Nada. Disse-lhes: Pois agora aquele que tiver bolsa, tome-a, como também a sacola de viagem; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma.”

Quem ousaria contestar Jesus? Foi Ele mesmo quem, não apenas autorizou, mas ordenou que Seus discípulos comprassem armas. Lembre-se de que a espada era a arma mais letal daquela época, equivalente hoje a uma arma de grosso calibre. Mas antes que cheguemos a uma conclusão precipitada, que tal lermos o verso seguinte?

“Digo-vos que é necessário que se cumpra em mim o que está escrito: com os malfeitores foi contado…”

Numa época em que levantes populares eram frequentes, ao portar uma arma, um judeu estava transgredindo uma lei romana e, portanto, era considerado um malfeitor, um fora-da-lei.

Apesar de ordenar o porte de arma aos seus discípulos naquele momento específico, Jesus não autorizou o seu uso. Pelo contrário. Quando Pedro quis dar uma de valentão, puxando da espada e ferindo um servo do sumo-sacerdote que estava na comitiva que vinha prender seu mestre, Jesus o repreendeu: “Guarda a tua espada, pois todos os que usarem a espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e ele me mandaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras que dizem que assim deve acontecer?” (Mateus 26:52-54).

A razão pela qual os discípulos deveriam estar armados era a mesma pela qual não deveriam fazer uso de suas armas: o cumprimento das Escrituras.

Jamais foi propósito de Cristo endossar o porte, tampouco o uso de armas, mesmo sendo para autodefesa.

Paulo, o apóstolo dos gentios, declara que “embora vivendo como seres humanos, não lutamos segundo os padrões deste mundo. Pois as armas da nossa guerra não são terrenas, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas! Destruímos vãs filosofias e a arrogância que tentam levar as pessoas para longe do conhecimento de Deus, e dominamos todo o pensamento carnal, para torna-lo obediente a Cristo…” (2 Coríntios 10:3-5 NVI). Em Romanos 13:12, ele diz que “a noite é passada, e o dia é chegado”, razão pela qual devemos rejeitar “as obras das trevas” e nos vestir “das armas da luz.” 

O arsenal de que dispomos é infinitamente mais eficiente do que qualquer armamento bélico. A única espada que devemos empunhar é a espada do Espírito que é a Palavra de Deus (Efésios 6). O resto, deixemos por conta das autoridades constituídas para prover nossa segurança.

Se as políticas de segurança pública estão falhando, façamos uso de outra arma legítima e poderosa: o voto.

Armar a população não vai resolver o problema, mas poderá agravá-lo substancialmente. Nos Estados Unidos, por exemplo, pode-se comprar armas de fogo em supermercados como o Walmart. Não é à toa que, vire e mexe, ocorrem tiroteios em escolas e faculdades.

Imagine o povo latino, passional como é, tendo acesso às armas facilitado. Imagine alguém que numa briga de trânsito, em vez de contentar-se em xingar, resolve recorrer à arma guardada em seu porta-luvas.

O deputado Peninha (PMDB-SC), integrante das bancadas “da Bíblia” e “da Bala” é autor de um projeto de lei que pretende aumentar a circulação e o uso de armas no país.

Recentemente, o parlamentar fez um post assustador, com a imagem de um revólver em cima de uma Bíblia com a seguinte legenda: “Bandido bom é bandido morto”. Quanto cristianismo numa única imagem! 

Onde é que foi parar o “não matarás”? Como conseguiram suprimir os mandamentos de Jesus de que devemos amar nossos inimigos, oferecer a outra face, abençoar os que nos perseguem?

Alguns argumentam que enquanto a população for mantida desarmada, os bandidos farão a festa. Então, em vez de desarmar a bandidagem, a saída é armar o restante do povo? Vamos apagar fogo com fogo? Como garantir que os bandidos se inibiriam diante de uma população armada? Se eles não se inibem nem diante de policiais exaustivamente treinados para combatê-los, por que se inibiriam diante de um chefe de família qualquer? Talvez isso fizesse com que mudassem a abordagem e já chegassem atirando, antes que pudesse haver uma reação.

que nossa sociedade precisa é de desarmar seu espírito, de modo que possa entender que ninguém nasce bandido. O crime é resultado da injustiça predominante na sociedade. Onde há menos injustiça social, o índice de criminalidade é menor.

Em vez de munir a população com extintores para apagar o incêndio, não seria melhor impedir que o incêndio acontecesse? Medidas preventivas costumam ser mais efetivas do que paliativos usados para remediar.

Por essas e outras que digo não ao armamento. Que a espada esteja nas mãos de quem possua competência para manejá-la e não nas mãos de qualquer um que possa machucar a inocentes e a si mesmo.

Autor: Hermes C. Fernandes

“Doutor, como estão os loucos hoje?”

Uma de minhas netinhas, aos três anos de idade, passou por uma porta de vaivém, eu vinha atrás dela, e me disse: “Que loucura essa porta, né, vovô?!”. Um pequeno exemplo dos inúmeros significados que a palavra loucura tem.

Esse termo não é mais usado na psiquiatria. Antigamente, referia-se ao que hoje se chama de psicose ou estado psicótico: sofrimento do cérebro que leva o paciente a confundir imaginação com realidade. Algumas doenças podem provocar momentos psicóticos: esquizofrenia, transtorno bipolar, dependência química, por exemplo.

Loucura, hoje, refere-se a comportamentos fora do padrão esperado pelo meio social em que se vive. Seu uso é tanto no sentido positivo quanto negativo. Também no sentido engraçado.

Positivo quando se admira determinada ação por ser difícil e de grande risco. “Louco Abreu” foi um jogador de futebol uruguaio que fazia jogadas fora dos padrões, de grande risco de darem errado e que, na maioria das vezes, davam certo. Salvador Dali, para citar outro exemplo, era “louco de bom!”. Lembram da sua famosa frase? “A única diferença entre eu e um louco é que eu não sou louco!”

Negativo quando se refere a comportamentos que provocam espanto, revolta, perplexidade: “Hitler e Stálin eram loucos!”. Os dois, diga-se de passagem, não apresentavam qualquer doença mental.

Tentativas foram feitas de enquadrar todas as maldades dentro de patologias mentais. As pessoas “normais” não seriam maldosas. Ao contrário disso, apenas uma pequeníssima parte da maldade praticada no mundo tem por trás uma doença mental. A maior parte é realizada por indivíduos sem diagnóstico psiquiátrico.

Quando me perguntam o que é ser louco ou o que é ser normal, eu não sei responder. Nós, psiquiatras, não classificamos as pessoas assim. O que fazemos é avaliar se há sofrimento e se esse sofrimento vem de uma doença que podemos tratar.

Uma vez fui chamado a dar uma entrevista na TV e o jornalista abriu nosso diálogo em pleno ar me perguntando: “Doutor, como estão os loucos hoje em dia?”.

Eu vacilei antes de explicar para ele o que falei acima. Estava diante de alguém com um comportamento fora do padrão esperado. Fui pego de surpresa. Sim, jamais esperava começar uma entrevista com essa pergunta. Vacilei para responder, pois minha vontade era dizer: “Cara, que loucura essa tua pergunta!”.

Autor: Jorge Alberto Salton

Gratidão!

Use a sua consciência para policiar-se a praticar o exercício de gratidão em suas mais inúmeras tarefas.

Eu sei, gratidão é mais uma palavra da moda e talvez, por isso, você até mesmo tenha relutado ao investir algum tempo neste texto. Caso for o caso, eu lhe entendo e confesso que até eu mesma preciso fazer um esforcinho para bloquear a associação que tenho entre gratidão e aquele infeliz ser humano que irradia uma positividade tóxica e agradece até mesmo a falta de sorte e de visão de ter pisado em um coco de cachorro (sem, é claro, verdadeiramente querer agradecer).

Mas, querido leitor, fora as brincadeiras, gratidão é muito mais que isso, e é justamente o que filosofaremos por aqui hoje. E, então, credita-me algumas moedas de sorte e vamos ler o texto de hoje? Quem sabe você não ganha algo com ele no final!

Você já parou para refletir no que significa gratidão ou muito obrigada?

Ao menos para mim, durante um bom tempo, um muito obrigado, ficou estritamente vinculado a uma formalidade social. Agradecer, portanto, tratava-se de boas maneiras, de uma forma de se comportar socialmente sem necessariamente uma conexão emocional.

Talvez, isso possa ter a ver com a minha e até mesmo a sua educação, quer ver só?! Quem aqui aprendeu a dizer um muito obrigado, até mesmo quando você abria o seu presente de aniversário e eram meias? (deixa um comentário se esse for o seu caso e a assim, a gente dá risada, juntos). Raras as exceções, nenhuma criança gosta de ganhar meias, mas, a sua mãe estava lá para lhe fuzilar com um olhar que dizia: nem pense em chorar ou fazer cara feia!

Mesmo compreendendo que você não havia gostado nenhum pouco daquilo e não estava nada agradecido com o fato, olhava-lhe e dizia: o que se deve dizer filha?! Muito obrigada! Acredito que isso por si só explica um pouco da minha concepção, digamos, deturpada de gratidão, e você leitor, acredita que essa relação faça algum sentido? (Discordar também faz parte do processo, viu).

Mas, esse meu conceito, assim como grande parte da vida, acabou sendo reajustado com o tempo… em um período, não muito distante comecei a enxergar a gratidão com uma certa frequência. Não, não era porque eu estava me sentindo agradecida, mas, porque a moda havia inundado com a palavra gratidão, as canecas, camisetas, ímãs de geladeiras, livros e por aí segue. Eu não entendi bem aquilo, cogitei ser até mesmo uma estratégia forçada de se educar a população com boas maneiras (brincadeira), mas, pensei: um “muito obrigada” quase nunca é demais.

Como curiosidade é um “mal” que atinge a espécie humana, eu não me contentei em apenas observar aqueles exemplares de “gratidão” e procurei compreender mais sobre aquele, digamos, fenômeno. E, surpresa, eu descobri que a neurociência estava fazendo o mesmo. Em um vídeo do Club Saúde da Mente, o Dr. Marco Antônio Abud [1] evidenciava que a atenção plena trabalhava os quatro estados mentais mais estudados como precursores do bem-estar. E adivinha, a gratidão estava lá, ao lado da curiosidade, compaixão/gentileza e perdão.

Mas, às coisas ainda estavam confusas, eu não conseguia compreender como um mísero muito obrigada poderia ter tanta relevância a ponto de ser estudado pela neurociência. Então, eu continuei a minha busca…

Conforme lia mais sobre, ia descobrindo que de novo, mesmo, eram apenas as canecas da gratidão, pois, se tratava de uma técnica antiga, potencializada pela sabedoria de muitos povos de modo a promover o bem-estar. Você talvez já deve ter se deparado com ela no ato de agradecer o alimento ou até mesmo o seu dia ao deitar, como são instruídos os Cristãos, ou de passar alguns minutos fazendo a sua mente recordar de coisas boas, conforme praticam os Budistas.

Mestre Eckhart, por exemplo, (um dos grandes símbolos intelectuais da Idade Média) lembrava que se a única oração que você fizesse na vida fosse muito obrigada, já seria o suficiente.

Suficiente? Com a minha percepção simplista de gratidão, eu ainda me questionava, como ela poderia fazer tanta diferença na vida das pessoas…

Até que a neurociência resolveu me fornecer algumas explicações relativamente aceitáveis. E, tudo começa com àquela história de que o nosso cérebro possui uma tendência natural a focar no lado negativo das coisas (caso você ainda não está por dentro desta teoria, sugiro conferir este texto aqui). Um mecanismo natural que foi extremamente necessário em nosso processo evolutivo e que ainda hoje contribui para a nossa sobrevivência.

O maior problema, é que estamos percebendo que viver constantemente com o foco no que pode dar errado, não é uma estratégia muito saudável de preservar as nossas vidas; isso porque, dependendo da frequência de nossos pensamentos negativos, eles podem elevar, cronicamente, os níveis de estresse e inflamação no organismo.

E, nesses casos, a tentativa de autopreservação é capaz de até mesmo sair pela culatra, quando descalibramos o nosso filtro, aumentamos desproporcionalmente os nossos medos e preocupações, nos isolamos a fim de nos proteger, com isso ficamos suscetíveis a cairmos na depressão ou até mesmo nas garras de uma ansiedade generalizada, além de nos tornarmos suicidas em potencial (credo, falando em negatividade, o que foi esse parágrafo?! Vamos melhorar isso no próximo!).

Contudo, se o viés da negatividade é uma tendência natural, cabe a nós aceitarmos e conviver com ele, não é mesmo? Errado.

A neurociência comprovou a possibilidade de alterar as nossas percepções por intermédio da neuroplasticidade (a capacidade do nosso cérebro em se adaptar e criar novas conexões), utilizando o pensamento consciente. Em outras palavras, você pode ter uma tendência a olhar o lado negativo das coisas, mas, também pode treinar a sua mente a enxergar o lado positivo e extrair todos os sentimentos bons que essa prática pode lhe proporcionar.

Dependendo do seu grau de negatividade, isso, de início pode soar até mesmo impossível. De acordo com a nossa maré de mau-humor, encontrar uma coisa boa, se quer, em nossas vidas, parece tarefa para a próxima encarnação, mas, não é. Você precisa de treino e persistência, acredite.

Com a prática, nós podemos treinar a atenção em focar cada vez mais nos aspectos positivos, nas coisas que estão indo bem e quanto mais praticamos esse olhar, mais fácil fica focar nas coisas boas. E com o tempo, passamos naturalmente a ter um olhar mais positivo sobre o mundo” (Meditopia — meditação da Gratidão [2]).

Talvez, a dificuldade de encontrar coisas boas aconteça, justamente, por termos uma noção um tanto quanto equivocada de felicidade ou até mesmo de bem-estar. Muitos de nós possuímos implantada a ideia de que necessitamos conseguir algo de que ainda não temos para nos sentirmos bem e felizes. O problema disso, é que a nossa felicidade se torna condicionada, volátil, além de lançada para um eterno devir, ou seja, ela nunca chega genuinamente.

É por essas que, aos poucos, fui descobrindo que a gratidão é tão especial, pois, ela possui a capacidade de romper com a nossa compreensão insustentável de felicidade, além de traze-la para o agora. Por exemplo, pare um pouquinho e olhe o pequeno ‘habitat’ em sua volta.

Perceba, você está protegido agora, não há sol, nem chuva ou qualquer algo que possa lhe fazer mal neste ambiente. Além disso, pressuponho que você esteja sentado confortavelmente em algum objeto que recebe todo o peso do seu corpo e lhe permite descansar. A luz e a energia permeiam o seu espaço e lhe iluminam, facilitando as suas tarefas, a sua vida. Falando nisso, muitas pessoas não enxergam, mas, você enxerga. Muitas pessoas não têm condições de tirar um tempo para ler, mas você tem, tem tempo para ler um texto e a possibilidade de se tornar melhor depois de cada experiência, de cada leitura.

E aí, se sentiu um pouquinho melhor, que seja?

Tudo isso, são pequenos exemplos de coisas boas que acontecem o tempo todo com a gente, sem darmos o devido valor, até que a nossa energia falte e precisamos tomar um banho de água gelada no inverno.

O interessante da história, é percebermos que, sem o conhecimento de como o nosso cérebro costuma agir, você pode se tornar um refém da negatividade e o resultante disso, é muitas vezes cruel. Sentimos remorso e arrependimento pelo valor que devíamos ter dado as coisas e, principalmente, as pessoas enquanto elas estavam aqui.

Entretanto, obviamente que, eu não estaria retratando a “saga da busca pelo entendimento da gratidão” sem, ao menos, aplica-la em minha vida e comprovar os seus benefícios. Depois de um tempo mostrando para o meu cérebro, diariamente, que a vida tem rosas além de espinhos, eu comecei a identificar alterações importantes na minha percepção de mundo, as quais gostaria de compartilhar com vocês, com um bônus de hipóteses sobre o porquê acho que de fato elas fazem sentido.

(se estiver cansado até aqui, está tudo bem. Este não é um texto curto e estou muito feliz que, mesmo assim, você ainda me acompanha. Caso considerar necessário, faça uma pausa e coloque um lembrete para lembrar de mim e retornar ao texto mais tarde 😉)

A primeira delas, é que me senti mais CONECTADA com tudo a minha volta. Talvez, isso possa ser em decorrência da capacidade que o nosso cérebro tem, em digamos, misturar um pouco as coisas — já explico.

Quando alguém realiza algo muito importante para você, a sensação que muitas vezes sentimos é que aquela pessoa, de alguma forma, sabe do que você está passando. Sentimo-nos conectadas com ela e ao receber ajuda, somos inundados por sentimentos de cuidado, carinho e proteção.

Depois que eduquei a minha mente a pensar que os objetos ao meu redor facilitavam a minha vida (isso parece conversa de louco, mas funciona), eu conseguia sentir a mesma sensação de bem-estar e conexão, quase como se fosse com outra pessoa. Com isso, a impressão que tinha era de que o mundo estava querendo me ajudar de alguma forma. E isso pode parecer bobagem, mas a verdade é que “a nossa mente e maneira de pensar, transformam a nossa realidade, pois a realidade nada mais é que a forma como percebemos o mundo” (Meditopia [2]).

E então, eu acabei comprovando por si o que já havia lido em algum texto de filosofia Budista: o fato de que o mundo em si não é bom e nem mesmo ruim, pois, isso tudo é relativo à forma como nos relacionamos com ele.

O modo como lidamos e como conduzimos os nossos pensamentos é o que o torna algo maravilhoso ou monstruoso. E aqui, entramos em uma questão importante, a qual pretendo fazer um texto especial apenas com este assunto: o poder dos seus pensamentos! (nada exotérico, algo bem pé no chão mesmo).

Por exemplo, você pode olhar para um objeto e considerar que ele serve para lhe servir, e não faz nada a mais que sua obrigação. Pensando assim ou não pensando, observe que é bem difícil conseguir nutrir algum sentimento bom com essa, digamos, relação. Por outro lado, você também tem a oportunidade de olhar para uma simples caneta e sentir gratidão por ela lhe permitir escrever e ajudar você a não esquecer de algo, dar vazão aos seus sentimentos e por aí segue…

E isso é apenas um pequeno exemplo de como a nossa forma de pensar pode ser utilizada a nosso favor — invocando sentimentos que nos tragam bem-estar — ou ao contrário de tudo isso. Falando, ainda, um pouco do lado negativo adotando como base que a nossa forma de pensar acaba permeando o mundo e de que o nosso cérebro parece ter uma dificuldade em dividir algumas formas de tratamento entre coisas e pessoas, gostaria que você notasse o fato de que muitos seres humanos possuem uma mentalidade de que o mundo existe para lhe servir (olha o ego dando as caras por aqui).

Conhece alguém assim?

Em que o pensamento se fundamenta no fato de que as coisas devem lhe servir e quando quebram ou não cumprem a sua função, elas não passam de incompetências ou porcarias? E, como é o comportamento dela com as outras pessoas? Abusivo ou desrespeitoso, com uma tendência em ter sempre razão, em considerar que as coisas devem ser como ela quer, caso contrário, todo o resto, incluindo pessoas, pode ser considerado descartável?

Pois, então, caro leitor. A observação que gostaria de fazer com esses exemplos é que a forma como pensamos e agimos permeia a nossa vida como uma teia transparente, mas pegajosa. E se você não estiver atento, pode, facilmente, confundir as importâncias e colocar tudo na mesma caixinha.

Já se encaminhando para o final do nosso texto, gostaria de expor a você a maior mudança que o exercício da gratidão me concedeu, ou seja, o entendimento de que eu não sou dona de ninguém. Mas, ok. Na verdade, ninguém é dono de ninguém e talvez, você, assim como eu não se sinta dono de alguém. Então, Ana, de que diabos você está falando?

Bem, a impressão que tenho é que tudo começa com um processo de linguagem, ou seja, com a forma como significamos, e as conexões que criamos junto ao termo “dono” e seus semelhantes. Ser dono de algo significa que ele é seu. Essa relação é muito fácil de imaginar quando se trata de objetos. Eu sou dono de um carro, por exemplo.

Quando dissemos “isso é meu”, a impressão que tenho é a de que invocamos um pedacinho de nós que se chama ego. Esse último aí, acaba fazendo com que a gente se aproprie das coisas de tal forma que se constituam como uma parte de nós. O ego é apegado, grudento e egoísta. Mas, tem o seu lado bom. É ele também que nos faz cuidar com zelo e amor aquilo que é nosso…E, afinal, o que tem a ver linguagem, ego e ser dono de pessoas? Na verdade, minha suposição se encontra na forma como o ego se apropriada das coisas utilizando os pronomes possessivos. Ou seja, educamos o nosso ego a se apropriar daquilo que chamamos de “meu”. Note que, são justamente os mesmos pronomes que utilizamos com pessoas próximas, ou seja, meu pai, minha mãe, meu amigo, etc.

E aqui, eu reitero a minha hipótese de que o nosso cérebro não é bom em separar as coisas. E ao relacionar os pronomes possessivos com pessoas, a informação que transmitimos para o ego é a de que, de alguma forma, aquela pessoa faz parte de mim. Nos casos mais extremos, nos sentimos donos, mesmo, de um ser humano, como é o caso da percepção de alguns pais para com seus filhos.

O ponto “x”is da questão, é que essa forma ensinada de pensar e se relacionar com o mundo acaba, também, influenciando em nossos níveis de apego. E é agravada pelo fato de que o ego parece viver na eternidade, e não computa bem a ideia de que nós, as pessoas que amamos e os objetos que nos pertencem também irão perecer. Então, quando perdemos algo ou alguém, a sensação que muitas vezes sentimos, é a de que um pedaço de nós foi arrancado.

Sabe aquela história do “copo meio cheio ou meio vazio”? Pois, bem, depois de um bom tempo praticando a gratidão, eu alterei a minha percepção de mundo de uma pessoa que vivia no futuro, sentindo-se engolida pelo tempo, sofrendo com o fato de que as pessoas que amo vão morrer — e isso pode ser hoje — e, portanto, participando da vida com a ideia de que “um dia vivido é um dia a menos de vida”; para uma ser humano que busca viver no presente, esforçando-se para dar atenção a essas pessoas e se voltando para a ideia de que um dia de vida é um dia a mais vivido.

Eu entendo que ler isso pode parecer besteira e não significativo de ser anunciado como a grande mudança, mas posso afirmar que para mim, convencer-se disso, verdadeiramente, era como fornecer doses homeopáticas para o meu ego e libertador, de algum modo. E, agradecendo, eu insistia em convence-lo do óbvio. Consciente da efemeridade de tudo em minha volta, eu fazia o meu cérebro perceber, dia após dia, de que não viveríamos para sempre. De que eu não tinha o controle do mundo e muito menos a posse de algo ou de alguém.

Era como seu eu pegasse o ego pelo braço e puxasse um pouquinho por vez, fazendo-o soltar das pessoas e das coisas. No início, foi difícil aceitar a ideia, a impressão que eu tinha com isso era a de que eu estava deixando de me importar com elas. Aos poucos, fui compreendendo que era possível amar sem necessariamente se apegar, e que aquilo se tratava de uma forma saudável de lidar com o ego, utilizando a sua capacidade de me sentir conectada, mas, ao mesmo tempo, respeitando e aceitando o fluxo natural da vida.

Por mais que eu me esforce em tentar retratar um pouco da minha percepção de como a gratidão mudou as coisas na minha cabecinha, nada substitui a prática, ou seja, há muitas coisas na técnica que só descobriremos e sentiremos mesmo se tentarmos. Mas, espere. Não saia por aí agradecendo tudo loucamente! (isso vai parecer loucura e você vai desistir em dois dias, sentindo-se ridículo).

Eu tenho uma sugestão para você iniciar, segue uma técnica simples para lhe ajudar nesta caminhada:

Primeiramente, é necessário um esforço e organização de sua parte. Não pense que alguns dias pensando voluntariamente em coisas boas, mudarão o seu cérebro, precisamos de treino e constância, tudo bem? Para começar, sugiro ter um caderninho em mãos e separar dois momentos do seu dia para agradecer a quatro coisas em sua vida, escrevendo-as (gosto de fazer isso ao acordar e antes de deitar).

É importante que neste primeiro momento você escreva, mesmo; tira as palavras de sua cabeça e coloque em algo que você consiga visualizar. (No início, eu me deparei com alguma dificuldade em encontrar coisas boas, mas, depois, eu percebi que era só uma questão de treino).

Sugiro fazer isso por 15 dias. Depois, nos próximos 15, você continua reservando os 2 momentos para esse treino, mas, vai alternar entre um dia escrevendo e um dia agradecendo apenas no seu pensamento. Nos próximos 15, a ideia é a de que você vá largando o caderninho e comece a se esforçar para enxergar a gratidão em seu dia-a-dia. Vamos precisar de mais esforço aqui, pois, a tendência de nosso cérebro é voltar aos padrões anteriores!

Eu eduquei-me a “ligar o modo gratidão” principalmente, quando eu estou um pouco desanimada ou algo ruim acontece, por exemplo: um dia fui trocar a torneira da pia, desliguei o registro, mas, a caloura aqui esqueceu de abrir a torneira para deixar sair a água do cano (aham). Resultado: molhou a cozinha inteira!

É claro que eu soltei uns palavrões na hora e também me senti amaldiçoada (não pensem que vivo em um mundo mágico do bem-estar constantemente), mas, logo na sequência, o pensamento que me esforcei em invocar foi: “bem, pelo menos considero que vou me lembrar disso da próxima vez que precisar trocar algo assim (mais um aprendizado). Ah, menos mal que meu piso é vinílico e não laminado, e pode molhar, sem problemas. Logo logo a gente seca tudo e está resolvido!”

Então, use a sua consciência para policiar-se a praticar o exercício de gratidão em suas mais inúmeras tarefas. Se esforce para encontrar algo a agradecer, até mesmo em um elevador (quem sabe só o fato dele ter lhe poupado vários lances de escada não seja suficiente?). Se ainda assim, estiver com dificuldade, pense em como aquele objeto ou aquela pessoa está facilitando a sua vida de algum modo. Vamos, seja criativo!

E, lembre-se, a felicidade é algo que conquistamos por meio de nossos esforços conscientes. Não basta querer mudar, é preciso disciplina e dedicação para que isso aconteça. Além de muito autoconhecimento. Estou orgulhosa por você ter concluído esse textão e espero muito que ele tenha lhe ajudado de alguma forma! A gratidão possa ser, também, o seu ponto de apoio!

Então, chegamos ao final deste texto reflexivo. Caso ele tenha lhe ajudado de alguma forma, compartilhe com seus amigos e amigas, quem sabe ele não os ajude também!

Autora: Ana P. Scheffer

[1] Vídeo do Club Saúde da Mente; mini curso saúde total da mente, Vídeo 01 — Meditação Mindfulness.[2] Meditopia! é um app que amo e que fornece meditações guiadas com vários temas específicos. Cada um deles é acompanhado de uma introdução, com informações relevantes sobre comportamento humano fundamentadas na neurociência.

Veja também