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Simplificar e relativizar: uma nova forma de dominação

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. (O Último Discurso, do filme O Grande Ditador, de Charlie Chaplin)

Há uma tendência generalizada, no atual momento histórico, de simplificar a vida, a realidade e os processos de convivência social e de governança institucional. Ao invés de encarar a complexidade das diferentes realidades, procura-se escamotear o que acontece, utilizando-se de sofisticados meios para adaptar às narrativas que se quer contar.

Percebe-se, também, certo desprezo pela representação política de diferentes categorias sociais, quando se tenta a manipulação direta das pessoas, como se não mais precisasse de representação política e social destes.

Acontece, por exemplo, quando, através de enquetes bem direcionadas, procura-se saber da satisfação ou qualidade da gestão de um certo setor do serviço público. De forma maquiada, busca-se respostas direcionadas pelas hierarquias de poder, subordinando os sujeitos diretamente envolvidos apenas a uma consulta genérica sobre a realidade. Com a devolutiva genérica destes dados, elabora-se, então, uma narrativa de que houve consulta com ampla participação dos envolvidos, procurando demonstrar assim uma prática democrática.

Puro engodo! As consultas, as enquetes podem até servir de subsídio, como base para levantamento das realidades, mas estes dados precisam ser submetidos a uma discussão mais ampla a partir daqueles que estão diretamente envolvidos ou interessados.

Se alguém quer conhecer determinada realidade ou grau de satisfação de determinado grupo social, deve também submeter-se ao diálogo, à escuta e à participação direta ou por representação política dos sujeitos. Deste modo, ampliam-se os horizontes de compreensão da realidade, sem a pretensão de esgotar-se o entendimento das complexidades e das variáveis que nela operam.

Acontece também quando se processam discussões sobre o racismo estrutural na sociedade. A simplificação ocorre quando se diz: “os próprios negros e negras praticam racismo e discriminação”. Ou quando se diz que os próprios negros ou negras querem ser tratados de forma diferente, não querem se igualar aos brancos, uma vez que a abolição da escravatura já aconteceu faz bom tempo. Em ambos os casos, transforma-se as vítimas em pessoas culpadas. Quem assim procede, não está disposto a ouvir, a se colocar no lugar de quem sofre o preconceito racial. Não há, neste caso, predisposição de reconhecimento social e nem reconhecimento aos dados estatísticos que reforçam esta discriminação social.

As questões centrais são: como os brancos, que não conhecem discriminação pela cor da pele, irão determinar como os negros e negras deveriam agir diante de uma sociedade que lhes impõe a exclusão e lhes dificultam muito as oportunidades de vida e de realização profissional? Como tratar igualitariamente os que historicamente tratamos desiguais, sem nenhum tipo de reparação?

Acontece, ainda, a partir de afirmativas de que a maioria das pessoas mais pobres não gosta de trabalhar, não aproveita as oportunidades de trabalho que a sociedade oferece. Ou quando se interpretam, friamente, números estatísticos de busca de emprego, por exemplo. E, muitos, que já tem suas teses mesmo sem base científica e sem antes analisar a realidade na qual os mais pobres estão envolvidos historicamente, acabam fazendo afirmações sem nenhum fundamento. Por que? Por que não se precisa fundamentar, na visão destes, o que é certo, o que está visível aos olhos de quem queira ver.

Deste modo, relativiza-se a crueldade e a dramaticidade das relações sociais que, historicamente, foram e continuam sendo muito desiguais e perversas para esta imensa parcela da população. Assim, a realidade deste contingente de pessoas pobres e desassistidas socialmente, nunca é estudada e não é levada a sério para aperfeiçoamento de políticas de inclusão social, cidadania e trabalho. Ou mesmo, para muitos, erroneamente, a questão do trabalho é apenas uma questão de mérito e conquista pessoal.

O perigo maior da simplificação e da relativização ocorre quando as realidades viram apenas números, estatísticas, questionários, pesquisas quantitativas, enquetes. As ferramentas digitais podem, e devem, favorecer o conhecimento superficial das realidades sociais, mas jamais substituirão os aspectos dialógicos, de imersão e de reflexão a que as realidades devem ser submetidas.

Conhecer mais profundamente as diferentes realidades supõe uma postura de abertura, de diálogo, de escuta, de discernimento mais amplo, de comprometimento com mudanças que sejam significativas para quem está diretamente envolvido na realidade. Bem diferente de impor ou maquiar uma narrativa que serve para justificar o que penso e sobre o que pretendo realizar, diante de determinados contextos.

Nunca é recomendável autodeterminar-se democrático ou de espírito colaborativo; mais sensato é colocar-se em busca da compreensão da complexidade que envolve as relações humanas, os desejos e as realizações dos diferentes grupos sociais que compõem toda a sociedade. A democracia se faz no percurso, não é anúncio ou intencionalidade formal de ninguém.

Autor: Nei Alberto Pies

Como lidar com o erro da sua criança

Estamos tão mal-acostumados com crianças certinhas que nunca fazem nada errado que mal sabemos acolher os seus erros quando elas erram e se sentem envergonhadas diante de si próprias e do outro em relação ao que fizeram.

No seu lindo poema “Pontinho de vista” o poeta Pedro Bandeira nos diz nos seus lindos versos “Eu sou pequeno, me dizem, / e eu fico muito zangado. / Tenho de olhar todo mundo / com o queixo levantado. / Mas, se formiga falasse / e me visse lá do chão, / ia dizer, com certeza: / – Minha nossa, que grandão!” É assim que alguns adultos veem as nossas crianças, ou seja, elas são grandes demais e já cresceram muito para continuarem errando. Deixemos que continuem crescendo e aprendendo com os seus erros, pois só se aprende alguma coisa nessa vida quem tenta, quem erra, quem começa de novo.

Pedro Bandeira declama Mais respeito, eu sou criança! Assista: https://youtu.be/CDtSrW-qM-o?t=52

Como você se sente quando erra? Que palavras motivadoras você usa na sua conversa interna? Elas te fazem acreditar que é capaz de agir diferente? Elas te empoderam? Elas te trazem coragem de fazer de novo? Ou, ao contrário, te ofendem e te oprimem passando a sensação de desprezo e de fracasso? É dessa forma que fala com o seu filho?

A sensação de vergonha causa muitos problemas na criança. Procure agir de outro jeito. Se coloque no lugar da sua criança, use da empatia. Muitas vezes errar é necessário para que passemos a nos reconhecer melhor.

Estamos tão mal-acostumados com crianças certinhas que nunca fazem nada errado que mal sabemos acolher os seus erros quando elas erram e se sentem envergonhadas diante de si próprias e do outro em relação ao que fizeram. Esperamos tanto das nossas crianças como se elas tivessem experiências e vivências para fazerem tudo que é certinho e que nos agrada, como se elas estivessem ali para nos agradar sempre.

Para nós, adultos, as crianças não podem errar nunca. Se errarem, ficarão de castigo, serão chamadas de fracas e desmotivadas a continuarem a fazer o que estavam fazendo e acabaram parando devido a um erro inesperado.

Os erros acontecem conosco a todo instante, só não damos conta de quantas vezes erramos no nosso dia a dia. Mas, os erros das crianças são mais fácies de serem conhecidos por nós que parecemos vigilantes e tiranos prontos para castigar firmemente qualquer vacilo da nossa criança.

Tantas vezes erramos no nosso trabalho, com os nossos amigos e familiares e até mesmo com as nossas crianças e nem damos conta disso. Estamos sobrecarregados de atividades, estressados, perturbados com os problemas do dia a dia e nem atentamos para os nossos erros graves que cometemos na nossa rotina de pessoas apressadas que não têm tempo para nada, sequer para acolher o pranto da nossa criança que chora com medo de ser castigada porque descobriu que errou.

Errar é humano, já diz o ditado. Com os erros aprendemos a crescer, amadurecemos mais rapidamente. Devemos tentar tantas vezes seja necessário para que alcancemos os nossos objetivos e sonhos. Sabemos que vamos errar uma, duas, três ou mais vezes. Estamos dispostos a seguirmos em frente na busca pela perfeição. Afinal, o homem que fugiu da caverna de Platão também cometia erros quando acreditava que aquelas sombras eram reais e ao ver a luz do sol descobriu que viveu o tempo todo enganado, errando, e volta para a caverna para corrigir os seus amigos, mas não é compreendido por eles.

Assim, caminha a humanidade. As nossas histórias são cheias de erros e falhas. Não devemos deixar as crianças envergonhadas por errarem ou desmotivá-las naquilo que erraram. A criança precisa sentir-se acolhida, amada, cuidada. Ela deve voltar a fazer a sua lição, a fazer o seu desenho, a juntar os cacos do vaso quebrado, a calçar o sapato direitinho, a pedir desculpas para a pessoa que chamou de “feia”. Em nenhum momento a criança deve sofrer com os seus erros.

A criança está em fase de aprendizagem assim como os robôs programados com a Inteligência artificial. Elas aprendem conforme o número de acertos e erros que cometem no dia a dia. Um erro nunca será repetido na aprendizagem de máquina, mas com a criança pode ser que aconteça novamente e não a julgaremos por isso, afinal quem está aprendendo necessita ser estimulado a continuar fazendo novas tentativas e chegar até o término da sua tarefa. Mesmo que os seus erros sejam maiores que os seus acertos.

Na escola, a criança deve ser incentivada a fazer avaliações que usem o pensamento crítico e reflexivo e não a responderem questões objetivas que devem ser marcados o certo ou o errado com um X. Esse tipo de avaliação está caduco.

O bom professor sabe explorar o erro da criança e incentivá-la a buscar a resposta correta através do diálogo. Abrir novos caminhos do pensar da criança, fazê-la pensar o motivo pelo qual escolheu aquela resposta que não é a certa para a sua lição, ser crítica diante das suas opiniões e refletir sobre o que escreve buscando interpretar o seu texto.

Os erros das crianças são necessários ao seu bom desenvolvimento. Não reclame com ela ou diga “errou de novo”. Uma criança é um ser em crescimento e descobertas de novas aprendizagens estão em constante movimento assim como o devir de Heráclito. O movimento do pensamento cognitivo, a linguagem, a expressão corporal demonstram como a criança reage ao nosso jeito de lidar com os seus erros.

Nunca obrigue a sua criança a pedir desculpas pelos seus erros, pois ela fará isso apenas por interesse próprio talvez para não ser castigada ou punida, e não porque está verdadeiramente arrependida ou preocupada. O melhor é que você ensine seu filho a ter empatia, a entender o motivo que fez com que o outro se sentisse mal. Contudo, se ele não entender naquele momento, vale dar um tempo e conversar depois.

A criança não nasce com a empatia plenamente desenvolvida. Ela só vai começar a entender o que é isso a partir dos dois anos de idade. Mas, a consciência de que o outro tem sentimentos e histórias começa aos seis ou sete anos de idade. Assim, até os seis anos de idade a criança não consegue identificar se o seu erro é coisa legal ou não e que deve se retratar para com o outro.

Não ter medo de arriscar e errar é fundamental para ser criativo, usar a criatividade na sala de aula ou em casa, criar coisas maravilhosas e encantar-se com o mundo ao seu redor. A criança criativa tende a errar mais porque faz mais experimentos, lida mais com o desconhecido e com o novo. Não podemos sair apontando os seus erros como se eles fossem a coisa mais horrível do mundo.

O erro faz parte do aprendizado, mas, quando apontado pelo outro, humilha. Por outro lado, quando a criança, sozinha, se dá conta do próprio erro, o resultado é aperfeiçoamento, autoeducação e autocorreção.

Ensina a criança a não esperar o outro dizer em que ela precisa melhorar. Só para citar um exemplo: se você vir que a criança vestiu a blusa pelo avesso a leve até o espelho e mostre para ela o seu erro. Ria junto com ela e a ajude a vestir a blusa da forma correta.

Nenhuma criança erra porque quer. Ela erra por não saber direito fazer escolhas ou por não ter compreendido bem o que lhe ensinaram. Quando erra o seu medo é tanto que logo pede desculpas e outras começam a chorar com medo de serem castigadas. Elas sabem que erraram pelo olhar desaprovador que alguns pais lhes dão, pelos xingamentos que ouvem ou pelo desprezo. Sim, porque muitas crianças são desprezadas quando erram.

Permitir que a criança experimente novas sensações, novas brincadeiras e aventuras, faça novos amigos e brinque mais é um exercício para que ela se sinta segura no seu dia a dia e quando errar não tema o que ouvirá por parte dos que dizem lhe amar. Que ela não precise esconder o seu erro de ninguém por medo de ser castigada, que ela procure um adulto e conte o que fez com confiança e a certeza que será acolhida.

O medo de ser castigada devido a um erro causado faz da criança um ser assustado e prejudica o seu desenvolvimento. Ela passa a ser tímida e sente-se potencialmente frágil para tentar novamente aquilo que errou. Vai crescer sendo um adulto que desistirá fácil das coisas, que não saberá ir atrás dos seus sonhos, que terá medo de enfrentar os seus chefes e amigos de trabalho. Vai crescer muitas vezes desmotivada a aprender novas coisas.

Toda criança deve ser incentivada desde a tenra idade a fazer o que gosta, a brincar, a pular e correr. Claro que elas devem ouvir os nossos conselhos, mas se por acaso elas não nos ouvirem vez ou outra causando erros que nos desagradam que saibamos lidar com esses erros mostrando-lhes e incentivando-as a fazerem as coisas de maneira correta, pois assim todos ficarão bem.

Lidar com os erros das nossas crianças exige paciência, amor, cuidado e mais do que isso a sempre presença na sua educação dentro e fora de casa. Os pais estão tão ocupados com os seus afazeres que não acompanham mais o desenvolvimento das suas crianças e quando veem já se passaram vários anos e a criança continua fazendo a coisa errada como fazia na pequena infância. Ninguém a corrigiu. Continua sentando-se de maneira errada na cadeira, continua pegando no lápis de maneira errada, continua fazendo birra por coisas simples. O tempo que passou longe dos pais ao cuidado de avós ou cuidadores não foi suficiente para que eles corrigissem os seus erros porque as encheram de mimos.

Não é tão somente com amor que se educa uma criança. Ela precisa de limites. Ela precisa ser corrigida quando fizer algo errado. Claro que de uma maneira que não amedronte e nem a desmotive a seguir em frente. Todos devemos saber como lidar com os erros das nossas crianças porque também erramos bastante e não gostamos de sermos corrigidos por terceiros. Muitas vezes um erro pode prejudicar uma empresa inteira, do mesmo jeito ocorre na infância que pode prejudicar a vida da criança por inteira se não soubermos como lidar com o seu erro.

Deixe a sua criança fazer o que ela gosta, o que ela deseja. Abra espaço para ela se aventurar experienciando novas sensações e descobrindo novos olhares diante do mundo ao seu redor. Para que ela possa aprender com os erros que a vida é dura, e não será fácil com ela na idade adulta. É preciso desde a tenra idade saber que errar faz parte da nossa vivência.

Se a criança cair, deixe que ela por si só se levante, não seja o primeiro a ajudá-la, pois na idade adulta nem sempre você estará por perto quando ela errar no trabalho ou na prova de um concurso.

Os erros das nossas crianças são um estímulo para a aprendizagem. Elas conseguem produzir conhecimentos a partir deles. Elas descobrem as suas fraquezas e estranhezas diante do mundo, e com isso buscam o aperfeiçoamento dos seus gestos e atitudes. Não devemos nunca rir do erro da nossa criança e muito menos julgá-la. Todos erramos e isso é certo. A diferença das crianças para os adultos é que elas erram e não conseguem compreender o tamanho do problema que os seus erros podem causar para outras pessoas já nós, adultos, temos esse conhecimento.

Antes de desmotivar a sua criança de que ela não é capaz de fazer nada certo, de puxar as orelhas dela ou de colocá-la de castigo por quebrar todos os seus vidros de esmalte, por quebrar os óculos do vovô ou por riscar as paredes da casa dê uma chance para que ela se explique e diga o motivo pelo qual fez isso ou aquilo. Conversar com a criança sobre algo que ela fez de errado e você não gostou vai passar confiança e despertará o sentimento de não repetição do gesto ou atitude que é considerado errado por quem a ama.

O diálogo ainda é o principal motivador entre o adulto e a criança para que ela confie os seus medos e erros.

Não esconder embaixo da cama o que fez de errado e sim ter coragem para falar, dizer onde errou, pedir desculpas pelo seu erro sem sentir-se extremamente culpada e julgada. Afinal, não existe quem não erre nessa vida de desafios e incompreensões.

O segredo é entender a mensagem que cada falha nos passa. E, principalmente, entendermos o segredo da vida porque a nossa fala vira a conversa interna da criança. Assim como a dos adultos contribuíram na sua formação. Que a sua criança possa ter um diálogo construtivo a partir de você, consigo mesma.

Para finalizar este ensaio que nos leva a reflexão de como lidar com os erros das nossas crianças eu trago a nossa poeta Cecília Meireles com o poema “Para ir à Lua” que nos diz: “Enquanto não têm foguetes / para ir à Lua / os meninos deslizam de patinete / pelas calçadas da rua. / Vão cegos de velocidade: / mesmo que quebrem o nariz, / que grande felicidade! / Ser veloz é ser feliz. / Ah! se pudessem ser anjos / de longas asas! / Mas são apenas marmanjos!”

Assista em vídeo: https://youtu.be/Nw5JPjDX77A?t=14

Que as nossas crianças possam ser felizes iguais aos meninos de Cecília Meireles nos seus erros e acertos, o importante é chegar à Lua ou a outro lugar qualquer onde a imaginação possa voar.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Água – fonte da vida

Trabalhar na escola sobre a água, fonte da vida, abre leque imenso de conhecimentos para todos, a partir de atividades gratificantes elaboradas pela criatividade dos professores. Mãos e mentes à obra!

Trago subsídios para trabalhar este tema em sala de aula do Ensino Religioso e de forma interdisciplinar, envolvendo, por exemplo, as Ciências Naturais, História, Geografia, Língua Portuguesa, provocando no aluno profunda reflexão na dimensão intelectual, sócio emocional e espiritual que motivará a sua conscientização sobre a importância do cuidado em preservar o líquido precioso para a vida.

Os educadores precisam ter em consideração a necessidade de estimular as   várias dimensões da inteligência dos educandos: a racional, as inteligências múltiplas com suas peculiaridades individuais, a emocional, a moral e a espiritual para motivá-los a se interessarem e se envolverem na temática da aula.

A proposta pedagógica de cada aula deve ser desafiante para cada aluno envolvido, daí a importância do incentivo inicial, no primeiro momento do encontro. Provocar impacto, para chamar a atenção de todos e envolve-los, predispondo-os ao aprendizado.

A linguagem simbólica das diversas formas de Arte: a literária, a musical, a dança, o desenho, a pintura, a escultura, o teatro, acionam as emoções e os sentimentos profundos do ser humano e ajudam-no a se abrir para novas reflexões em relação ao conhecimento e compreensão da vida e a se autoconhecer. 

O aluno vai se percebendo como parte integrante do contexto da criação divina, um ser excepcional, único, com grande capacidade e habilidades que precisam ser desenvolvidas no grupo, pois ele é também um ser social e histórico.

A água é recurso natural, de valor inestimável, essencial à existência e a sobrevivência dos seres vivos do planeta Terra.

Ela é um composto químico formado por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. A sua preservação é fundamental para a biodiversidade, ela se apresenta na natureza em um ciclo de etapas: evaporação, condensação, precipitação, infiltração e transpiração, mantendo assim a vida planetária. Ao longo da História da humanidade, nas sociedades primitivas, os grupos humanos se estabeleciam em planícies junto aos rios. 

No Ensino Religioso, por exemplo, pode-se solicitar aos alunos, numa roda de conversa, depois de introduzir o assunto, que cada um explique de que forma a água é cultuada na sua denominação religiosa, qual o seu significado e qual o seu uso.

Para motivar a participação e discussão sobre esta questão, sugerimos a utilização dos seguintes recursos, entre outros:

O poema da música de Guilherme Arantes, Planeta Água, para ser lido com o grande grupo e seguido pela visualização de um dos clips da música que tem no youtube.

Segue sugestão de link:https://youtu.be/oPwnAq2xMUg?t=13

Planeta água

Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre o profundo grotão.
Água que faz inocente riacho e deságua na corrente do ribeirão
Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias e matam a sede da população
Águas que caem das pedras no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranquilas no leito dos lagos, no leito dos lagos
Água dos igarapés, onde Iara, a mãe d’água é misteriosa canção
Água que o sol evapora, pro o céu vai embora, virar nuvem de algodão
Gotas de água de chuva, alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água de chuva, tão tristes, são lágrimas na inundação.
Águas que movem moinhos são as mesmas que encharcam o chão
E sempre voltam humildes pro fundo da terra, pro fundo da terra.
Terra, planeta Água,
Terra, planeta água
Terra, planeta água.

A música facilita o relaxamento, aumenta a coordenação motora, reforça e proporciona a motivação, a autoconfiança, a autoestima e a independência do aluno predispondo-o a participação ativa nas atividades de sala de aula pois é excelente recurso para manter a atenção pois estimula várias partes do cérebro ativando  memórias e emoções adormecidas.   

No dizer de Franz Lizt “A música é o coração da vida, o amor fala através dela, com ela tudo é formoso.”

A importância da audição de peças de músicas clássicas como as de Mozart, Vivaldi, Brahms, Bach, Villa Lobos, Carlos Gomes e outros, bem como a boa música popular, inseridas no contexto da aula, representa recurso valioso para estimular e motivar as emoções profundas dos alunos e despertar o âmago inerente de cada um de nós o que é bom, belo e verdadeiro.

 O poema Santa Água, do poeta Benedito Rodrigues de Abreu, recebido pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, oferece ótima reflexão para ser feita pelos alunos em relação a utilidade da água na linguagem simbólica da literatura que apresenta a Natureza como um livro de páginas vivas e eternas, onde nada permanece sem propósito, sem finalidade justa.

Santa Água

Recordemos as virtudes da Santa Água,
Água da chuva que fertiliza o solo,
Água do mar que gera a vida,
Água do rio que sustenta a cidade,
Água da fonte que mitiga a sede,
Água do orvalho que consola a secura,
Água da cachoeira que move a turbina,
Água do poço que alivia o deserto,
Água do banho que garante o equilíbrio,
Água do esgoto que assegura a higiene,
Água do lago que retrata as constelações,
Água que veicula o medicamento,
Água que é carícia, leite, seiva e pão, nutrindo o homem e a natureza,
Água do suor que alimenta o trabalho,
Água das lágrimas que é purificação e glória do espírito…
Santa água é a filha mais dócil da matéria tangível,
Alongando os braços líquidos para afagar o mundo…
Água que lava,
Água que fecunda,
Água que estende o progresso,
Água que corre, simples, como sangue do globo!…

Outra poesia, desta feita, de Casimiro Cunha, do livro Cartilha da Natureza, são rimas singelas para análise em torno do tema abordado:

A Água
Água que lavas o corpo
De todas as criaturas,
És fonte de bondade
Que dimana das alturas.

Sangue vivo do planeta,
Na forma que aperfeiçoa,
Nos campos do mundo inteiro
Toda terra te abençoa.

O teu impulso amoroso
É vida, perfume, essência,
Mãe das forças da existência.
És em todos os recantos,

Por ti, há pomares fartos,
Doçuras no lar que abriga,
Ventos frescos no deserto,
Orvalho na noite amiga.

Água tranquila e bondosa
Que acaricia o sedento,
Lavas manchas, lavas sombras,
Desde o solo ao firmamento.

Aclaras a imensidade,
Na borrasca, no escarcéu,
Circulas em toda a terra,
Depois de voltar do céu.

Água, água, irmã da paz,
Da abundância, da limpeza,
Garantes o dom da vida
Nas luzes da natureza.

Trabalhar na escola sobre a água, fonte da vida, abre leque imenso de conhecimentos para todos a partir de atividades gratificantes elaboradas pela criatividade dos professores. Naturalmente, a abordagem deve se adequar ao ano escolar, a faixa etária dos alunos e ao trabalho interdisciplinar planejado pelo corpo docente. Mas, não podemos esquecer que a Natureza oferece valioso patrimônio que revela mensagens silenciosas e especiais sobre as quais precisamos refletir com as crianças e jovens.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

Edição: Alexsandro Rosset

A palavra, acima de tudo

Porque narrar é isso: desnudar-se, sem vergonha de ser apontado como falho, entregando-se a um jogo onde, acima de tudo, há um universo de histórias, que merecem ser contadas e que fazem dos seres humanos verdadeiramente especiais.

As histórias compõem o ser humano. Os narradores são os responsáveis por disseminá-las. Todos somos narradores, bem sabemos. Alguns, porém, destacam-se por usarem dessa arte de modo profissional. São artistas da palavra, cuja missão é usar da oralidade para encantar diversos públicos, lançando mão (ou não) de elementos externos, como música, fantoches, objetos. Na atualidade, nascem contadores de histórias a todo instante.

Quem conhece a fundo, sabe que a narração oral vem ocupando espaços antes inexplorados. A pedagogia se apropriou dela para auxiliar no ensino de sala de aula. As ciências ligadas à saúde a inseriram em seus contextos de trabalho como forma de desenvolvimento de terapias mais humanizadas, onde o indivíduo consegue se conectar consigo mesmo e se trabalha com mais eficácia o processo de cura. As empresas a trouxeram para junto de si, como forma de impulsionar o desenvolvimento organizacional, motivar funcionários e criar identidade da marca com seu público alvo. Até em matrimônios as histórias têm pousado. A lista é inesgotável.

À frente disso, um narrador. Alguém que empresta sua voz e corpo e, preparando-se para aquele momento, atua portando todo um elemento mágico junto de si. Eu também sou um contador de histórias.

Já contei histórias em vários dos contextos referidos, mas a minha preferência é pela narração oral em seu modo artístico-cultural. Estar junto de alunos e educadores em escolas, por exemplo. Vibrar com o público nos centros culturais ou nos teatros. Ocupar as bibliotecas e fazê-los ver que o mundo da leitura é digno, gostoso e gratuito. Assim é o meu fazer.

Contar histórias me envaidece, confesso. Faço parte de um grupo de pessoas cada vez mais atuante. O interesse do público cresce junto com as novas atividades por todo o Brasil e o mundo. A cada novo convite, tenho a sensação de estar cumprindo algo único, especial, que durará para sempre no coração de quem me ouvir. Pois, como diz Garzón Céspedes, famoso narrador oral cubano, “a oralidade é sempre com o outro e não para o outro; é plural”.

Esse exercício de pluralidade, de abertura, de partilha, dignifica a nobre arte, engrandece quem dela se utiliza, seja por diversão ou profissionalmente. Diante de tanto encantamento, porém, caio em mim e percebo: eu não sou a estrela.

A caminhada na contação de histórias me fez perceber isso. O trabalho do narrador somente se materializa porque tem algo a mostrar. Ao centro deve estar sempre a história. Ela deve ser a protagonista e a ela deve confluir todo o esforço de quem a conta.

Cada suspiro, cada palavra, cada olhar, estão voltados para a narrativa. O aplauso não é do contador de histórias. Não são para ele as loas quando se encerra uma narrativa e o público se enche de contentamento pelo que presenciou. É inegável o mérito de quem provocou aquilo; todavia, somente existe o êxito porque o profissional estava a serviço do narrar. É pela palavra, com a palavra e para a palavra que ele deve viver e atuar.

A entrega total à arte diferencia os excelentes dos medíocres. A disposição em imprimir uma marca própria, sem perder de vista a essência daquilo que a história contada expressa, conduz artista e plateia no caminho de uma grande descoberta. Porque narrar é isso: desnudar-se, sem vergonha de ser apontado como falho, entregando-se a um jogo onde, acima de tudo, há um universo de histórias, que merecem ser contadas e que fazem dos seres humanos verdadeiramente especiais.

“Atualmente, sei que meu trabalho deve se destinar a um propósito: despertar a fábula que existe dentro de cada pessoa. Fazê-las encontrar a si mesmas em cada texto, cada livro, cada história narrada, cada compartilhamento de vivências. Se, no meio desse percurso, houver uma repercussão, um impacto social, uma ressonância maior, ficarei feliz”. Leia mais sobre minha história nesta entrevista ao site: https://www.neipies.com/quando-a-arte-e-as-historias-se-impoem/

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin

Edição: Alexsandro Rosset

Pais que não cuidam de si, podem cuidar de seus filhos?

Neste mês em que reverenciamos os pais, que eles, por amor aos seus filhos, amem-se também e procurem mais a medicina preventiva.

Vou partir da obviedade de que ninguém pode dar aquilo que não tem, e isso vale tanto para bens materiais quanto para valores morais, éticos, ou mesmo para atitudes. A lógica do título é a mesma: como um pai que não cuida de si próprio pode cuidar de seus filhos?

Um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Osvaldo Cruz buscou entender sobre o porquê de os homens procurarem menos os serviços de saúde do que as mulheres. Este estudo, somado a um levantamento inédito da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a dados do Sistema de Informação Ambulatorial do Ministério da Saúde, aponta um levantamento de que até a metade deste ano (2022) foram atendidas em consultórios e ambulatórios cerca de 60 milhões de mulheres a mais do que homens. Se olharmos para especializações médicas, veremos que neste ano somente 200 mil homens procuraram atendimentos com urologistas, enquanto que mais de 1,2 milhão de mulheres foram atendidas por ginecologistas, seis vezes mais!

Vários motivos influenciam a isso, e o cultural pode ser um: “…à medida que o homem é visto como viril, invulnerável e forte, procurar o serviço de saúde, numa perspectiva preventiva, poderia associá-lo à fraqueza, medo e insegurança”, aponta o estudo da Fiocruz.

Por outro lado, o ditado popular que diz que “quem procura acha” é muito forte e é seguido por muita gente, o que faz do não ir às consultas médicas preventivas uma forma de autoproteção, uma negação à realidade. Também há, em muitos homens, a vergonha de tirar a roupa, de expor suas partes íntimas em uma consulta ou de permitir a um estranho (ainda que seja um médico) o toque para um exame de próstata.

Já, do ponto de vista de instalações de hospitais e ambulatórios, não há unidades específicas para atendimentos masculinos, o que também serve de alegações, desculpas. Outras tantas evasivas são argumentadas, mas ninguém duvida de que pesam também as dos altos custos para pagamento de consultas, exames e para a compra de medicamentos, ou ainda, de que é muito demorado o atendimento quando agendadas as consultas pelo SUS, o que pode levar meses ou passar de ano.

Muitos são os motivos que o homem pode alegar para justificar seu desleixo nos cuidados com sua saúde, porém, não passam de desculpas egoísticas.

Quantos filhos gostariam de estar comemorando mais um Dia dos Pais junto aos seus? Quantos pais perderam a vida por terem sido negligentes descuidando-se da prevenção e/ou do tratamento de sua saúde?

Neste mês em que reverenciamos os pais, que eles, por amor aos seus filhos, amem-se também e procurem mais a medicina preventiva. Saibam os pais que seus exemplos poderão, no futuro, alterar esta triste realidade fazendo com que seus filhos possam viver mais e com mais qualidade.

Aos pais, nossos cumprimentos.

Autor: César A R de Oliveira

Psicólogo – whats app (54) 99981 6455

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Edição: Alexsandro Rosset

A linguagem simbólica da lenda “O negrinho do pastoreio”

A análise desta lenda abre espaço importante para a discussão dos direitos e deveres da criança e do jovem que hoje tem a seu favor o Estatuto da Criança e do Adolescente que todos devem conhecer.

A narração ou a leitura da lenda “O Negrinho do Pastoreio” na aula do Ensino Religioso abre espaço para ampla reflexão em torno dos episódios que fazem parte deste texto literário e que envolve temas como: preconceito, discriminação, escravidão, autoritarismo, machismo, direitos humanos, respeito, injustiça, a fé, entre outros e que podem ser trabalhados de forma interdisciplinar, além de fortalecer a ideia de pertencimento uma vez que esta proposta pedagógica parte de uma lenda gaúcha.

A lenda tem raízes afro-cristã, surgida no Rio Grande do Sul no final do século XIX, ainda no período da escravidão no Brasil. Toda lenda resguarda um fundo de verdade, algo que realmente ocorreu, mas que foi sendo divulgado de forma oral e, no dizer popular: quem conta um conto aumenta um ponto. Posteriormente, ela foi escrita e existem várias versões.

Assista: https://youtu.be/1iXYsMc_37I?t=65

A linguagem simbólica da literatura possibilita ao leitor ou ouvinte a sua identificação com os personagens, com as suas emoções básicas como o medo, a tristeza, a raiva, a alegria. Na análise dos fatos ocorridos com o escravo adolescente, o Negrinho tinha 14 anos, o professor, na roda de conversa com os alunos, pode questionar: – Que emoções o Negrinho sentia em relação a forma como era tratado pelo patrão?  Como ele encontrou forças para enfrentar tanto sofrimento?  Estas reflexões possibilitam amplo debate de ideias.

A lenda é muito rica na questão da fé que se expressa na simbologia da vela acesa.  Provocar debate em torno da questão: qual o significado da chama, da vela, da luz na denominação religiosa de cada aluno.

Todos vão poder expressar suas emoções em relação aos acontecimentos da lenda, e lidar com elas, fazer relatos de suas experiências, criar vínculos com o professor e colegas.  Trabalhar a devoção à Maria, mãe de Jesus, entidade feminina, maternal que acolhe quem sofre injustiça mas tem fé, esperança, e percebe o sentido profundo da vida, sempre de acordo com a crença de cada um.

Para enriquecer esta proposta educativa, os alunos poderão trazer representantes das suas denominações religiosas na sala de aula, em outro momento previamente planejado, para conversarem e responderem perguntas sobre as peculiaridades de cada religião ali representada.

É interessante proporcionar, na sala de aula, a audição da música que é uma página clássica do folclore gaúcho e a visualização de um dos clipes do youtube, sugerimos com a cantora Alana Moraes e com Renato      Borghetti na gaita. O poema é de autoria de Barbosa Lessa e poderá ser lido no grupo.

Negrinho do Pastoreio
Acendo esta vela para ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi.
Negrinho do Pastoreio,
Traze a mim o meu rincão
Eu te acendo esta velinha,
Nela está meu coração.
Quero ver meu lindo pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
A brincar n’água da sanga

Quero trotear pelas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade.
Negrinho do Pastoreio
Acendo esta vela para ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi.
Negrinho do Pastoreio,
Traze a mim o meu rincão
A velinha está queimando
Aquecendo a tradição

A análise desta lenda também abre espaço importante para a discussão dos direitos e deveres da criança e do jovem que hoje tem a seu favor o Estatuto da Criança e do Adolescente que todos devem conhecer.  Questões como: violência e abuso infantil, exploração de menores, negligência familiar, podem emergir merecendo tratamento adequado por parte do professor. Cabe à escola formar o cidadão consciente, crítico e responsável.

Enfoques com base em texto literário, como nesta lenda, proporciona a conclusão no grupo, em sala de aula, sobre a importância do respeito ao outro, o quanto o convívio saudável com os outros proporciona o desenvolvimento de aptidões adormecidas no âmago de cada um, tornando-o mais tolerante, compreensivo, bondoso e gentil.  

Hans Christian Andersen, o grande escritor dinamarquês voltado para a infância, escreveu belo conto que trata de tema semelhante à lenda em foco, A Pequena Vendedora de Fósforos, em 1875, onde ele traz as cenas do impiedoso mundo da fome, da miséria, do abandono e da solidão que algumas crianças viviam naquela época do século XIX, na Europa.

Narrou   Andersen: “Fazia um frio terrível, nevava e começava a escurecer. Era a última noite do ano, véspera do Ano Novo.  Em meio à escuridão caminhava pela rua uma menina pobre” …. O belo e triste conto A pequena  vendedora de fósforos – conto Clássico Fantástico de Hans Christian Andersen, está à disposição neste link: https://www.contosdeterror.site/2019/12/a-pequena-vendedora-de-fosforos-conto.html

A narração deste conto de origem dinamarquesa, oferece perceber situação semelhante entre o aconteceu com os dois personagens principais, a menina, na Dinamarca e o menino, no Rio Grande do Sul, na mesma época. Ambos sofrem sentimentos e emoções dramáticas que os educandos vão se identificando e educando suas próprias reações face aos desafios da vida cotidiana, dando-se conta que os adultos também se equivocam. 

Os dois textos, na linguagem simbólica da literatura, uma lenda e um conto, representam situações emocionais simbolizando o que ocorre na fase infanto-juvenil e como a dimensão espiritual da inteligência, que nos remete às experiências transcendentes da vida, apresenta solução para situações extremas através da fé e da confiança na divindade referente à religiosidade básica que é inata no ser humano e que independe de qualquer religião convencional.

Nos dois textos, a luz da chama da vela e dos fósforos mostra o caminho transcendental que promove o autoconhecimento, amadurecimento e a habilidade de buscar solução para os problemas da vida individual e o controle de suas emoções e sentimentos.

A nossa sugestão representa uma trilha pedagógica, um caminho seguro que pode ser conduzido pelo professor, em sala de aula, utilizando a linguagem simbólica da Arte que vai proporcionar, além de conhecimento, aprendizado ao aluno de como lidar com as suas emoções, expressá-las, desenvolver a sua autoconfiança para a tomada de decisões, trazer à tona conflitos pessoais e busca de possíveis soluções, melhorar o raciocínio, a memória e a concentração.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

Edição: Alexsandro Rosset

 

Cidades educadoras: o que temos a ver com isso?

Pretendemos construir respostas para a pergunta acima – o que temos a ver com isso? – ao longo deste VII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo. Do mesmo modo, é nosso desafio refletir sobre o papel da escola numa Cidade Educadora.

O embrião do movimento “Cidades Educadoras” foi originalmente lançado em Barcelona, em novembro de 1990, no I Congresso das Cidades Educadoras. As cidades presentes pactuaram a luta em prol de um objetivo: trabalhar juntas em projetos e atividades para melhorar a qualidade de vida dos habitantes.

O documento norteador para as cidades que fazem parte do projeto, a “Carta das Cidades Educadoras”, foi lançado nesse mesmo Congresso e contou como principais referências: a Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), a Declaração Mundial da Educação para Todos (1990) e a Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2001). Dentre os princípios da Carta, destacam-se:

  • Trabalhar a escola como espaço comunitário;
  • Trabalhar a cidade como grande espaço educador;
  • Aprender na cidade, com a cidade e com as pessoas;
  • Valorizar o aprendizado vivencial;
  • Priorizar a formação de valores.

Esse movimento cresceu e, atualmente, está presente em cerca de 479 cidades de 35 países, distribuídos em seis continentes, que formam a Associação Internacional das Cidades Educadoras (AICE). Na América Latina, aproximadamente 80 cidades de 10 países fazem parte do projeto. A Argentina é a nação com mais associados (32), cabendo a Rosário a supervisão da delegação desse continente. No Brasil, no ano 2000, surge a Rede Brasileira de Cidades Educadoras, que conta com gestão itinerante. Atualmente, cabe à cidade de Curitiba a presidência da Rede.

Em nosso país, 25 cidades aderiram ao projeto, sendo grande parte delas gaúchas: Camargo, Carazinho, Gramado, Guaporé, Marau, Nova Petrópolis, Passo Fundo, Porto Alegre, Santiago, São Gabriel, Sarandi e Soledade.

Desde o início, o debate sobre as cidades educadoras se fez presente na sociedade sul-rio-grandense, embora alterando momentos de maior recrudescimento com relativo ostracismo. A experiência inicial de Porto Alegre, nos anos 90, através de sua política do orçamento participativo, e de diferentes políticas sociais e educacionais cidadãs, deu consistência e referência ao tema.

Por volta de 2016, através da UPF, com o Programa UniverCidade Educadora e Inteligente, observou-se a irradiação desses princípios pela região, o que resultou na adesão de 4 cidades ao projeto. A partir de então, o movimento se amplificou, passando a contar com a participação de Passo Fundo recentemente. Diante do que está posto, fica um questionamento: o que temos a ver com isso?

A Diretoria Colegiada do CMP Sindicato buscou se apropriar do tema de diferentes maneiras: participamos do III Encontro das Cidades Educadoras, ocorrido em Marau; realizamos uma reunião com o Comitê Gestor do Programa UniverCidade Educadora, da UPF; fomos a Soledade conversar com a Secretária de Educação, Ádria Brum, e sua equipe.

Registros das iniciativas e participações:

A diretora Geniane Dutra e o Diretor Nei Alberto Pies participaram, também, do programa Educação e Debate na TV Câmara de Passo Fundo para discutir e divulgar a temática e a programação do VII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo.

Link do programa: https://youtu.be/3CauaoFjLGg?t=533

Longe de exaurir o tema Cidades Educadoras, essas conversas reafirmaram algumas percepções sobre o projeto das Cidades Educadoras:

  1. Objetiva-se a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, jamais a disputa e/ou conquista de prêmios por parte de políticos.
  2. Trata-se de políticas públicas articuladas, que demandam continuidade. Devem ser ações planejadas pelo Estado, durante um período de longa duração, não atividades feitas por governos esporadicamente.
  3. A tolerância e o respeito às diferentes vozes devem acontecer para que nossas cidades sejam verdadeiramente espaços democráticos, nos quais o contraditório seja acolhido e não perseguido.
  4. Cidades Educadoras não é um projeto que se vincula exclusivamente a uma Secretaria de Educação, mas a cidade não pode ignorar ou prescindir da participação efetiva e estratégica das escolas do seu território, especialmente as escolas da rede municipal, que participam dos contextos das diferentes comunidades da cidade.

Pretendemos construir a resposta para a pergunta acima – o que temos a ver com isso? -ao longo deste VII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo. Do mesmo modo, é nosso desafio refletir sobre o papel da escola numa Cidade Educadora.

Bom congresso a todos(as)!

Registros do VI Congresso dos Professores Municipais 2019.

Edição: Alexsandro Rosset

O amiguinho imaginário da sua criança

Quanto mais proximidade com outras crianças do mundo real tiver a criança melhor será para ela, afinal não se pode viver o tempo inteiro no mundo de fantasias.

Muitas vezes pegamos as crianças falando sozinhas, tipo: o que você quer fazer hoje? Por que você não quer comer? Por que você quebrou o vaso da sala? Caso escute a sua criança falando sozinha não se assuste, certamente ela estará conversando com o seu amiguinho imaginário que tende a chegar por volta dos três a quatro anos de idade. É uma companhia saudável às crianças e traz maturidade emocional.

Busque não se apropriar do amiguinho imaginário da sua criança, fazendo perguntas do tipo: seu amiguinho gostou do lanche? De que horas ele gosta de dormir? Lembre-se que só a criança deve conversar com o seu amiguinho imaginário, senão ela vai começar a pensar que você se apropriou do seu amiguinho e vai deixá-lo de lado. É uma forma de proteção da criança o amiguinho imaginário que deve ser só dela e de mais ninguém.

A criança tende a contar as suas ideias ao seu amiguinho imaginário, como também costuma colocar a culpa de algo errado nele. Isso tudo é normal. O amiguinho imaginário só existe no mundo de faz de conta da criança, ela o cria como busca de compreensão ao mundo real, por isso faz questionamentos a esse amiguinho.

Toda criança tem um amiguinho imaginário para com ele poder brincar e confiar os seus segredos, pode ser uma boneca, um urso, um soldadinho de chumbo. Lembrando que esse amiguinho é produto da imaginação fértil da sua criança, quanto mais fértil ela for mais peraltices fará o seu amiguinho.

Os pais não precisam se preocupar com o amiguinho imaginário dos filhos, pois eles desaparecerão com o passar dos anos, lá por volta dos sete ou oito anos ele vai embora assim como chegou, pois a criança percebe que já sabe lidar com a realidade e não precisa mais da ajuda do seu mundo de fantasias.

Porém, se a criança começar a evitar fazer amigos de verdade, brincar com outras crianças ou isolar-se em seu quarto, isso é motivo de preocupação e precisa da ajuda de um psicólogo. Geralmente, o amiguinho imaginário não faz mal nenhum à criança, ao contrário demonstra que seu mundo de fantasias é saudável e consegue produzir coisas bonitas.

Não é nada demais que a criança tire dúvidas com o seu amiguinho imaginário, pois com isso ela está buscando se autoconhecer. É preciso saber lidar com o amiguinho imaginário da criança respeitando-o e não entrando em sua intimidade nunca.

Na infância, toda criança inventa um amiguinho imaginário para com ele descobrir os porquês da vida, conhecer melhor as pessoas, interpretar as coisas que lhe dizem e ter a quem culpar quando quebrar um objeto ou fizer algo errado para que não o coloquem de castigo. 

A criança com o amiguinho imaginário consegue aprender mais rapidamente a lidar com as dificuldades da vida, pois ao se conhecer também passa a conhecer o mundo ao seu redor e como se apresenta para ela. Muitas vezes, o amiguinho imaginário serve como um companheiro para brincadeiras em que não estão presentes os amigos de verdade. A criança combina fantasia com realidade, ela extrai do real aquilo que o seu pequeno mundo compreende.

O amiguinho imaginário é confiável, ajuda a tomar decisões e escolher roupas para vestir. Também aconselha à criança no que deve ou não fazer, sendo tudo isso fruto do seu próprio pensamento.

Os pais necessitam deixar os seus filhos à vontade com os seus amiguinhos imaginários, pois só assim poderão vivenciar os seus mundos de fantasias que na infância é um lugar seguro de se viver e povoado por personagens criados pela criança, assim como: dragões, bruxas, fadas, princesas, príncipes.

É nesse mundo onde mora o amiguinho imaginário que vem brincar com a sua criança sempre que não tem um amiguinho de verdade com quem brincar naquele instante. O amiguinho imaginário como o próprio nome já diz é aquele que está por perto sempre que for preciso e cuidará da criança, mesmo sendo fruto da sua imaginação.

Apesar de ser um amiguinho imaginário não esqueça de ficar atento ao tempo que a sua criança dedica a ele, pois é motivo de preocupação quando ela não quer mais ir à escola, esquece as suas atividades rotineiras e deixa de lado a convivência com crianças reais.

Busque investigar o que está fazendo com que a sua criança não queira largar o seu amiguinho imaginário e se for o caso procure ajuda de um especialista.

O convívio social com outras crianças não pode de forma alguma ser substituído, por isso é importante que a criança frequente a escola, participe de festinhas, vá a um circo, cinema, praia, faça uma festa de pijama na sua casa e convide os amiguinhos da sua criança a passarem uma noite divertida com ele, isso será muito bom. 

Quanto mais proximidade com outras crianças do mundo real tiver a criança melhor será para ela, afinal não se pode viver o tempo inteiro no mundo de fantasias.

Autora: Rosângela Trajano.

Edição: Alexsandro Rosset

Educação profissional e reforma do ensino médio: flexibilização irresponsável

A técnica não é a mesma coisa que a essência da técnica. (…). Assim, pois, a essência da técnica também não é, de modo algum, algo técnico. Mas, de modo mais triste, estamos entregues à técnica quando a consideramos como algo neutro”. (Martin Heidegger – A questão da técnica)

A simplificação da formação técnica e qualificação profissional prevista como quinto itinerário da reforma do ensino médio é como a ideologia da meritocracia: não entregará o que propõe e promete aos jovens estudantes.

A era da meritocracia contribuiu na deterioração da dignidade do trabalho enquanto criador de vida. Trabalho é tanto econômico quanto cultural. Ao induzirmos os jovens nesta lógica mercadológica estamos corrompendo os jovens e deseducando-os, além de induzir ao sofrimento emocional e material.

Seria um absurdo colocar em dúvida a importância da preparação profissional nos objetivos das escolas e das universidades. Mas a tarefa da educação, especialmente da educação básica, pode realmente ser reduzida à formação de técnica e qualificação profissional?

Priorizar exclusivamente a profissionalização dos estudantes, como a reforma do ensino médio está priorizando, significa perder de vista uma dimensão universal da função formativa da educação.

A dimensão que para o filósofo Nuccio Ordine (Universidade Calábria, Itália) concebe que nenhuma profissão poderia ser exercida de modo consciente se as competências técnicas que ela exige não estejam subordinadas a uma formação cultural mais ampla, capaz de encorajar os jovens a cultivarem autonomamente seu espírito e a possibilitar que expressem livremente sua curiositas.

Bolsa-formação

A técnica moderna somente entrou em curso quando ela pode apoiar-se sobre a ciência exata da natureza. O início da ciência moderna remonta ao século 17 enquanto a técnica das máquinas de força somente se desenvolve na segunda metade do século 18.

Para Martin Heidegger, a determinação somente instrumental da técnica se torna ilusória, gerando uma aparência enganadora de que a técnica moderna é uma ciência da natureza aplicada.

Um conjunto de atos regulatórios do MEC que entrou em vigor nos últimos meses amplia e reforça esta dissociação entre a formação e qualificação profissional das diversas ciências, fragmentando a oferta da educação profissional e configurando uma flexibilização irresponsável na formação dos estudantes brasileiros na educação básica, especialmente no ensino médio.

Sem uma política pública de Estado para a educação profissional e o descumprimento das metas do PNE 2014-2024 de “triplicar as matrículas da educação profissional” e ampliar a oferta integrada da EJA com essa modalidade de ensino, o MEC publica a Portaria nº 359/2022 em 1° junho e, que entrou em vigor em julho, autorizando o fomento de cursos de qualificação profissional via Bolsa-Formação, modalidade do Pronatec criado em 2011.

Durante o Pronatec, o Sistema S foi responsável por 88,6% das matrículas nesta modalidade de Cursos de Formação Inicial e Continuada (FIC) conforme comprovado na tese de Neila Drabach (IFRS).

Esta portaria permite, na prática, que a carga horária mínima de 1.200 horas prevista na lei 13.415/2017 que reformou o ensino médio seja cumprida através do quinto itinerário de formação técnica e qualificação profissional.

O objetivo central da portaria é justamente “autorizar o fomento, por meio da Bolsa-Formação, de cursos de qualificação profissional com certificações, a partir de saídas intermediárias que compõem itinerários formativos dos Cursos Técnicos do Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT)”, ou seja, amarra os cursos às saídas intermediárias do Cadastro Nacional de Cursos Técnicos (CNCT) e não mais à Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).

Flexibilização e negação

O mais grave é o que prevê No Art. 2º que “os cursos de que trata o art. 1º podem ser fomentados de forma desvinculada dos cursos técnicos correspondentes e caberá à instituição de ensino indicar o curso técnico correspondente ao curso de qualificação profissional, para fins de cálculo da carga horária mínima”.

Essa flexibilização permite que mantenedoras públicas e privadas desenvolvam 40% do currículo do novo ensino médio com cursos de qualificação sem comporem um Curso Técnico e, pior, os vincula a qualquer Curso Técnico, descaracterizando Planos de Cursos, Projetos Pedagógicos das Escolas e a própria CBO.

Qual a implicação desta flexibilização? Tanto os Cursos Técnicos podem ser descaracterizados como o ensino médio, através do quinto itinerário, tornando-se um Frankenstein sem identidade e unidade epistemológica, pedagógica e formativa.

Trata-se de institucionalizar uma concepção fragmentada de formação sem uma concepção homogênea de currículo. E, inclusive, trata-se de uma negação de um currículo escolar e acadêmico.

A outra normativa é uma Portaria de n° 314 publicada em 03 maio de 2022 que amplia critérios para Instituições Privadas de Ensino Superior (IPES) se habilitem para ofertar cursos técnicos de nível médio.

O que muda, segundo MEC, é que a portaria facilita especialmente a ampliação dos cursos técnicos à distância (EAD).

Enquanto a portaria anterior previa a necessidade de apresentação de um pedido para cada endereço e polo, agora basta um único pedido que será estendido aos demais campus e polos.

Esta medida, também, amplia para as IPES a oferta de qualificação profissional via bolsa-formação – incialmente autorizado somente para instituições públicas federais, estaduais e municipais e o sistema S – e, dialoga com a reforma do novo ensino médio que permitiu que 30% do currículo seja cumprido à distância.

Um exemplo concreto já em vigor é o Convênio no valor de R$ 38 milhões firmado entre o governo do Paraná e a Unicesumar, faculdade privada, para oferta de aulas a distância para estudantes da rede estadual que optaram pelo quinto itinerário.

O estado do Rio de Janeiro, também, já firmou cooperação com o Sistema S (Senai). No caso do Paraná os estudantes já protestam e denunciam da falta de qualidade do que lhes é propiciado por esta faculdade.

Cabe destacar que entre as IPES temos Universidades Públicas, Comunitárias e Particulares de qualificados serviços de ensino, pesquisa e extensão, com conceitos altos na avaliação do MEC.

Porém, a grande maioria das Instituições de Ensino Superior (IES) são faculdades, algumas com conceitos 3 (mínimo para funcionar) e tantas outras com conceitos insuficientes (1 e 2).

Isso se agrava quando, nos sistemas estaduais e municipais de ensino, não há avaliação da qualidade dos cursos técnicos e muito menos dos cursos de qualificação ofertados por instituições meramente com fins lucrativos e que poderão compor o novo ensino médio.

Cabe, ainda, destacar que a capacidade de uma IPES para oferta de ensino superior não se transpõe automaticamente para a oferta de cursos técnicos de nível médio.

Os cursos técnicos não se resumem a apenas estrutura física, laboratórios, sala de aula e professor qualificado. Requer-se um projeto político-pedagógico, Plano de Curso, metodologias e estratégias apropriadas para trabalhar com jovens-adolescentes (14 a 17 anos), condição diferente da formação com jovens e adultos que são desenvolvidas no ensino superior.

Neste vale-tudo, a Resolução CNE/CP Nº 1, de 06 de maio 2022, “entrando já em vigor em 1 de junho deste mês, ou seja, 22 dias após sua promulgação. Uma aceleração e pressa injustificável, inaplicável e suspeita.

Notório saber

A professora e pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Marise Ramos, em entrevista concedida em maio, após a publicação da resolução (Revista Poli, nº 84, julho/agosto 2022), argumentou que o que as novas diretrizes fazem é “não deixar nada fora da lei”, prevendo todas as possibilidades de formação que já existem, como: cursos de graduação de licenciatura, cursos de especialização lato sensu em docência na educação profissional, programas especiais de formação, de caráter excepcional, e cursos destinados à formação pedagógica para licenciatura de graduados não licenciados, mais “outras formas, em consonância com a legislação”, incluindo uma formação em serviço a ser propiciada pela instituição a profissionais com o denominado “notório saber”.

Na verdade, para a pesquisadora, a partir desta resolução, todos os cursos de habilitação docente podem, até mesmo não existir, porque tudo pode ficar na base do reconhecimento do “notório saber”. Diga-se de passagem, notório saber não disciplinado, apenas exigindo que a instituição apresente um plano de habilitação ao órgão supervisor do respectivo sistema de ensino.

No artigo 2º, a resolução prevê que os cursos e programas devem ser organizados por Habilitação Profissional ou, de modo mais abrangente, por Eixo ou Área Tecnológica. “É uma restrição absurda. Então você vai se formar como um professor da sua habilitação específica, por exemplo, dentro da gerência em saúde, sem ter uma formação na área da saúde como um todo?”, critica Ramos.

Nesta perspectiva, o professor não é mais um sujeito formado em uma área que, em razão dessa formação, se torna habilitado a ensinar. Ele é alguém que se forma para somente para ensinar.

Formação científica e humanista

Muitas análises anteriores já destacaram que o quinto itinerário técnico e de qualificação profissional apresenta o mais grave risco de precarização na formação dos estudantes do ensino médio brasileiro.

Nele a formação técnica e profissional pode ser ofertada tanto a habilitação profissional técnica quanto a qualificação profissional, por meio de cursos básicos, incluindo-se o programa de aprendizagem profissional em ambas as ofertas, com possibilidade de concessão de certificados intermediários de qualificação profissional técnica; podem compreender a oferta de um ou mais cursos de qualificação profissional, desde que contemplem programa de aprendizagem profissional, desenvolvido em parceria com as empresas empregadoras, incluindo fase prática em ambiente real de trabalho no setor produtivo ou em ambientes simulados.

Na educação básica brasileira, as melhores experiências de formação técnica estão nos Institutos Federais (IFs), Escola Politécnica da Fiocruz do RJ, CEFETs, Fundação Escola Técnica Liberato de Novo Hamburgo/RS, Escolas Estaduais e Escolas Agrícolas com Ensino Médio Integrado, nos Cursos Técnicos do Sistema S, entre outras.

Currículos

Esses currículos, além de integrarem formação básica geral e técnica, se alicerçam numa concepção mais ampla de educação tecnológica, sob sólida formação científica e humanista, com projetos político-pedagógicos robusto, pesquisa e trabalho como princípios pedagógicos, com uma média de 4.500 horas-aula.

Agora, a BNCC, a reforma do ensino médio e o conjunto desses últimos atos do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do MEC promovem um reducionismo curricular extremo de 1.800 horas de Formação Geral Básica (FGB), mais 1.200 horas de qualquer coisa de qualificação profissional, por qualquer profissional que tiver o tal de “notório saber” reconhecido, para jovens trabalhadores que necessitam de uma ampla e sólida formação em tempos tão complexos e exigentes.

Este “novo ensino médio”, para Gaudêncio Frigotto (UERJ), é uma traição à juventude que frequenta a escola pública, pois o que lhes oferece é “um pastel de vento” que acaba com o sentido de uma educação básica a qual supõe um equilíbrio entre as disciplinas que permitem entender as leis da natureza (química, física, biologia) e as que permitem entender e atuar nas relações sociais (história, sociologia, filosofia, literatura, arte, etc.).

O que se prioriza são conhecimentos instrumentais, mas que sem o que é básico instrumentaliza o “vento”. Liquida-se o esforço de décadas para superar, pelo ensino médio integrado, a dualidade estrutural: educação geral para a “elite” e adestramento profissional para o povo.

*Esta publicação foi originalmente publicada no Jornal do SINPRO-RS, Extra Classe: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2022/08/educacao-profissional-e-reforma-do-ensino-medio-flexibilizacao-irresponsavel/

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alexsandro Rosset

O que seria uma cidade, sem considerar as pessoas?

Fui convidada a participar do Cine Debate do CMP Sindicato para comentar o documentário “O corpo e a cidade modernista”, evento que faz parte do VII Congresso dos Professores e Professoras municipais com o tema: Cidades Educadoras: o que temos a ver com isso? Foi um prazer dividir os conhecimentos e reflexões que seguem.

Começamos a nossa reflexão, fazendo uma análise do Documentário “O corpo e a cidade modernista”, um documentário sobre a influência do urbanismo modernista de Brasília na relação afetiva de seus habitantes, seus espaços urbanos e relações interpessoais.

Caso desejar conferir o documentário na integra acesse: https://youtu.be/DC8UqPxfnY4?t=115

O narrador estreia o documentário com um simples, mas não raso, questionamento: o que constitui uma cidade? E eu voz pergunto: São as pessoas? Os edifícios? As ruas? Os carros? O conjunto de tudo isso?

Penso que cidade é uma daquelas palavras que o significado não comporta. A gente pode definir ela de inúmeros modos, mas a sua complexidade nos faz sentir que há mais no não dito que no descrito.

A Arquiteta & Urbanista Raquel Rolnik (1988), no livro O que é Cidade, trabalha o conceito por meio de uma metáfora: “a cidade é antes de mais nada um ímã, antes mesmo de se tornar local permanente de trabalho e moradia”. Shakespeare, em sua obra intitulada como Coriolano, questiona por meio do personagem Sicinius:  O que é a cidade, se não as pessoas?

Pensando bem, fica evidente que a matéria-prima das cidades não é o concreto, mas as pessoas. E se a cidade é primordialmente feita por pessoas, é lógico supor que a forma que ela adquirir também vai dizer muito sobre pessoas, vocês não concordam?

Com Brasília, não foi diferente, começando pela própria localização, situada no centro do Brasil, pode querer significar um estado presente? Ou um estado vigilante? Ou um estado centralizado?

Ela é um caso bem peculiar no Brasil, particularmente é a única cidade que eu conheço por aqui que foi projetada para depois virar cidade. E tudo começou com um concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil. O vencedor, entregando, polemicamente, a proposta em uma folha branca desenhada a lápis no último do segundo tempo, foi o Lúcio Costa. Niemeyer era amigo dele e veio depois, atuando com maior ênfase na arquitetura monumental.

O Modernismo era a tendência da época, uma vertente estilística inovadora que veio com força após a Segunda Guerra Mundial. Utilizava da pré-fabricação, da tecnologia, da pureza dos elementos. Less is more, já ouviu essa frase por aí? Ou melhor, menos é mais? Pois, é, ela é a criação de um arquiteto modernista chamado de Mies van der rohe, que retratava bem o espírito da época, que talvez possa ser traduzido por otimização.  

Mas, mais do que apenas um estilo, o Modernismo pode ser visto como uma busca por ruptura com um período excessivamente ornamental e também desigual. Representava a superação da dogmática vertente neoclássica da Alemanha Nazista, por exemplo. O não aceitar mais o estado das coisas, o querer fazer diferente.

E essa história aparentemente estranha de projetar cidades do zero ou reestrutura-las surgiu graças a uma necessidade de ordem em meio ao caos gerado em função da concentração de pessoas em cidades no Período Industrial.

O Brasil, assim como todo o ocidente, se abriu a essa nova vertente. As coisas começaram a dar as caras por aqui na semana da Arte Moderna, ainda 1922. O movimento antropofágico é um exemplo disso, um impulso quase que desesperador pela busca da nossa identidade.

Brasília veio depois, inaugurada em 1960, era a consolidação das ideias modernas. Se fundamentou na carta de Atenas que concebia a cidade em quatro funções básicas: habitação, trabalho, diversão e circulação. Uma cidade de oportunidades em que cada cidadão teria acesso ao bem-estar e a sua beleza pelo menos em ideal.

Estruturada em uma cruz, talvez com intenções religiosas, no final da história ela acabou virando um avião, visto de cima. Dizem que Lúcio Costa acabou priorizando as curvas de níveis e que não foi nada intencional o desenho de avião, inclusive ele até se incomodava com esse apelido carinhoso. Mas, cá entre nós, a parte planejada era justamente chamada de plano piloto, avião parecia combinar, não é mesmo?

Lúcio Costa previu Brasília em diferentes escalas ou em diferentes formas de sentir a cidade. A primeira que podemos citar principalmente em função de seu destaque é a Escala Monumental, de extremo carácter simbólico. Lúcio Costa que me perdoe, mas, para vocês compreenderem, seria o corpo do avião!

Lá estão situados a praça dos três poderes, a Esplanada dos Ministérios e também o Conjunto Cultural da República, dentre outras coisas semelhantes (é geralmente a parte de Brasília que mais aparece na TV). Segundo Lúcio Costa, é justamente nesta escala em que o homem adquire a dimensão do coletivo, do entendimento da grandiosidade e da concepção intrínseca de que ninguém faz aquilo sozinho. Ela também representa a pujança e a grandiosidade da nação brasileira.

Em um segundo momento, podemos citar a escala residencial, que seriam as superquadras, como vimos no documentário. Lá a escala é menor e se adapta ao indivíduo. As alturas máximas para construir são de 3 a 6 andares. E o térreo sobre pilotis, que seriam apenas pilares, livres para a circulação. E há uma proibição interessante, há uma proibição em instalar grades ou muros. A única cerca por lá são às árvores, ou seja, os edifícios são cercados de árvores. Existem também a previsão para o comércio de bairro, cinema, igreja e a localização da escola primária próxima ao clube de vizinhança.

Segundo o próprio Lúcio Costa, a cidade não seria dividida em bairros ricos e pobres, haveria integração ao invés de discriminação. Ele até teria orientado que os edifícios residências deveriam ter uma cota para a população mais baixa, visando a integração e socialização. Mas, como a gente viu no documentário, isso acabou não acontecendo.

E temos a escala gregária, que se situa no cruzamento dos dois eixos, que abriga os setores comercial, bancário, hospitalar e rodoviário. E que o documentário cita como a parte da cidade mais parecida com as outras.

E por fim, a escala bucólica, que como o próprio nome insinua são os parques, às áreas verdes, o lago, os gramados, os espaços “vazios” entre aspas.

Se não fosse o documentário para estragar tudo, talvez eu teria convencido vocês que Brasília é um lugar todo de bom de se viver, não é mesmo? Então, a gente pode se perguntar onde está o problema? E mais ainda, o que exatamente isso que eu estou falando tem a ver com cidade educadora?

Então, particularmente, avalio que o tendão de Aquiles de Brasília é a mobilidade. A forma como ela foi grandiosamente projetada, espraiou a cidade e criou grandes distâncias, sem o devido suporte de infraestrutura para transportar e conectar as pessoas.  

Outro ato falho, vamos dizer assim, foi a aposta tanto de Juscelino Kubitschek na indústria automobilística, como de Lúcio Costa. Acredito que ambos foram seduzidos pela potência tecnológica e ideológica que representava e ainda representa o automóvel. É claro que isso gerou riqueza e desenvolvimento para o país, e essa é a parte boa. Mas, também está causando sérios problemas não só em Brasília, e que a gente tende a negligenciar.

Um ano depois da inauguração de Brasília, em 1961, Jane Jacobs, que nem urbanista era, era uma jornalista, escreveu uma obra fantástica de bom senso chamada Morte e Vida das Grandes cidades, criticando o sistema de caixinhas. Ela não usa esse termo, mas o porém de uma cidade modernista era justamente a fragmentação ou a setorização, para dar um nome mais bonito. Os setores bem definidos que enxergamos em Brasília.

Eu não sei o que vocês pensam a respeito, mas eu julgo que essa é uma visão ainda bem enraizada no ocidente. A gente costuma ter pouca compreensão holística, e é por isso que muitas vezes fica difícil compreender o que a cidade tem a ver com educação. Isso se aplica as cidades, as profissões, a nossa visão de mundo.

Exemplo do médico quando trata do fígado com um remédio que lhe causa outro problema, ai você vai em outro médico e ele lhe dá outro remédio, mas para tratar especificamente daquele outro problema, e assim segue… vocês já passaram por uma situação assim? E no final, como fica a nossa saúde? Percebem a importância de compreender o todo?

Mas, voltando para Jacobs, o que ela defendia é que para uma cidade ter vitalidade ela vai precisar de diversidade, de conexões, de proximidade.

Utilizando palavras do nosso documentário: “uma cidade é amada quando ela é vivida”. E para a gente amar uma cidade a gente tem que se sentir parte dela.

E a certas formas de projetar que favorecem a união e a coletividade. Como, por exemplo, os espaços comunitários acessíveis, próximos da gente, que não são especificamente os shoppings centers, mas, por exemplo a praça da Gare. Que você vai para ter paz, para olhar um lago, se divertir com os cachorros correndo enlouquecidamente pela grama e roubado a sua pipoca e assim sucessivamente.

Parque da Gare de Passo Fundo, Passo Fundo, RS

Espaços que a gente aprende que pode conviver com os diferentes, pois eles também são iguais. Espaços tão belos que somos impelidos de jogar um lixo no chão. Espaços para trocar as drogas por música, apresentações, esporte e diversão. Espaço de mistura e também de respeito.

O ponto chave da educação em cidades é a coletividade, é essa troca. É como os espaços urbanos podem aproximar ou como vimos em certos lugares de Brasília, afastar. E agora a gente chega em mais um ponto importante e eu prometo que já estou acabando. A Coletividade é o oposto da individualidade. E há certos momentos em nossas vidas que precisamos usar de nossa individualidade, mas, o problema mesmo acontece quando há claramente uma falta de equilíbrio desse jogo.

Quando a individualidade toma proporções inadequadas, a gente começa a enxergar o espaço público como de ninguém ao invés de nosso, e aí não cuida. Quando um povo é muito individualista, a gente começa a perceber isso na forma em que o espaço urbano vem sendo projetado. Como por exemplo, nos investimentos em transporte individual ao invés do público. E aí de fato Lúcio Costa talvez tenha errado ou sido seduzido pela promessa do automóvel, pois ele pensou tanto na coletividade, mas esqueceu da coletividade na mobilidade, o que hoje é uma das principais raízes do problema de Brasília.

Nos referenciando pelo período atual, se a gente pensar que o importante é ter lugar pra eu passar com o meu carro e o outro que fique em casa, a gente nunca vai resolver o problema de mobilidade de uma cidade. Que se resume em transporte público de qualidade, a fim de reduzir a emissão de CO2 e números de carros circulantes, o que no final da história, fará bem a todos nós humanos e inclusive para o Planeta.

Tem outro exemplo que eu gosto de dar que é sobre os muros, proibidos em Brasília, inclusive. Quando você tem uma calçada estreita e muros altos, a sensação é de opressão, insegurança e de mal-estar. E aí quando a gente vai construir uma casa o que a gente faz? Reclama que tem o recuo obrigatório e na sequência fecha ela de preferência com muros altos para nos sentirmos protegidos. E aí, vocês lembram daquele exemplo do médico que eu dei anteriormente? Ou da falta de visão holística, do todo?

Se aplica aqui também, pois ao criar esse ambiente protegido interno, mas inseguro externo, você aumenta as chances de criminalidade na sua própria rua e isso também prejudica a você. Utilizando as frases do imperador Marco Aurélio, “o que faz bem para colmeia faz bem para abelha”! E o que faz mal para a comunidade….

Claro que teríamos muitas discussões, como por exemplo, o papel da prefeitura em uma cidade educadora, o papel das comunidades, das escolas e de cada um de nós. Mas quem sabe fica para uma próxima oportunidade.

Fotos do Evento Cine Debate, realizado no dia 03/08/2022, no Auditório da Biblioteca da UPF (Universidade de Passo Fundo). O Congresso dos Professores Municipais ocorrerá no dia 23/08/2022, com o tema: Cidade Educadora: o que temos a ver com isso?

Para quem desejar se aprofundar no assunto, tenho um vídeo no Youtube que aborda essas questões e se intitula: o que faz um urbanista? No canal diálogos da Ana. Se tiverem interesse em conferir, eu ficarei muito feliz em encontrar vocês também por lá.

Acesse aqui: https://youtu.be/FZ6_2WjzgNk?t=30

Por hoje, a mensagem que eu desejei transmitir, foi o quanto ter consciência da coletividade é importante para todos nós. E o quanto a cidade atua como agente ou impeditivo dessa coletividade. O quanto a gente pode usar a cidade, os espaços públicos para fazer refletir sobre essas ideias e até mesmo ideais.

O quanto vocês professores devem buscar por ensinar a coletividade em um mundo cada vez mais individualista em que o melhor amigo de seus alunos por vezes é uma tela. Para finalizar, eu trago uma citação de Daniel Goleman, no livro foco:

“As crianças de hoje estão crescendo numa nova realidade, na qual estão conectados mais a máquinas e menos a pessoas de uma maneira que jamais aconteceu antes na história da humanidade. Isso é perturbador por diversos motivos. Por exemplo: o circuito social e emocional do cérebro de uma criança aprende através dos contatos e das conversas com todos que ela encontra durante um dia. Essas interações moldam o circuito cerebral. Menos horas passadas com gente –  e mais horas olhando fixadamente para uma tela digitalizada – são o prenúncio de déficits.” (Goleman, p.13).

E são essas crianças que irão gerir as nossas cidades do futuro.

Fotos: Do Parque da Gare: https://www.facebook.com/passofundoemimagens/

Demais fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Autora: Ana P. Scheffer

Arquiteta e urbanista, Mestre em Engenharia com ênfase nos estudos de Mobilidade urbana sustentável, estudante de Filosofia e escritora. Mantém um canal no Youtube sobre reflexões chamado de Diálogos de Ana: Diálogos da Ana – YouTube

Edição: Alexsandro Rosset

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