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Descontinuidades contínuas: o que é ensinar e o que é aprender?


As exigências atuais estão mais no compartilhar do que no acumular; mais no observar e motivar do que no “ditar” e dirigir; mais no inspirar e acolher, do que no determinar e controlar. Que tempo é esse, o tempo “digital”?

É difícil dizer o que significa aprender! E o que é ensinar, então? Aprendemos que ensinar e aprender são dois verbos que se conjugam na transitividade da relação de presença entre sujeitos.

Ensinamos que aprender e ensinar encontram sua síntese e finalidade nos sujeitos e sua mediação nos múltiplos liames da vida e nas diversas formas de fazer o viver. Sendo assim, que sentido tem a transitividade entre sujeitos e as mediações numa época cada vez mais “digital”?

A maior parte dos pais e dos educadores é de uma época na qual o aprender se dava de forma linear, contínua, catalizadora e agregadora, capaz de a tudo dar sistematização num tempo e num lugar determinantes e determinados. Nela ensinamos que esta mesma lógica é capaz de dotar a multiplicidade diversa de sentidos unificados, unificadores, quando não uniformes e uniformizadores.

Aprendemos a pensar contra o jeito de Funes, de Borges, para quem “não havia senão detalhes, quase imediatos”, visto que aprendemos e ensinamos que “pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair”. Aprendemos e ensinamos de forma discursiva e argumentativa. Enfim, aprendemos e ensinamos de modo “analógico” e num modelo físico newtoniano, talvez, no máximo, einsteniano.

O contexto, os novos sujeitos e as dinâmicas sociais de aprendizagem, todavia, parece que são cada vez mais “digitais”. São multilinguísticos, descontínuos, híbridos e descentrados, numa física da indeterminação, quântica. Um tempo que reclama o “pensar” ao modo de Funes, como ocupar-se de “detalhes, quase imediatos”, senão imediatamente imediatos.

As exigências estão mais no compartilhar do que no acumular; mais no observar e motivar do que no “ditar” e dirigir; mais no inspirar e acolher, do que no determinar e controlar. Que tempo é esse, o tempo “digital”?

Seria o fim da presença imediata e o tempo da pura mediação – mesmo a da tela plana em múltiplas dimensões? Será que é o tempo da interatividade sem presença imediata? Ou da imediatividade mediada pelo humano-máquina da “tela quente” do vídeo conectado em tempo real? De tantos “detalhes”, que parecem ignorar o que é que faz o “detalhe ser detalhe” e do que é que é “detalhe”? Da descontinuidade contínua e da contínua descontinuidade?

Afinal, o que então significa pensar? E aprender? E ensinar?

Indagações como estas, e tantas outras, põem pais e educadores em estado de perplexidade. A elas reagem, em geral a seu modo, avessos ao que as questões propõem, até porque educados a ensinar no modelo “analógico”. Instala-se um não-diálogo. Interrompe-se a transitividade do ensinar e do aprender. Abre-se o hiato e o silêncio improdutivo.

Talvez o principal desafio dos pais e dos educadores para educar hoje seja voltar a aprender. Aprender como cada vez menos acumular continuidades e ensinar como cada vez menos mostrar continuidades; aprender como cada vez mais lidar com descontinuidades, continuamente; e ensinar como cada vez mais conectar e mobilizar descontinuidades, continuamente.

E quem vai ensinar isso aos pais e aos educadores? Certamente serão aqueles que, desde há muito, são entendidos por pais e educadores como os que nada teriam para tal, aqueles para quem se insiste em destinar o que se sabe, sem se perguntar se lhes interessa a isso aprender.

Talvez nunca antes, como em nosso tempo, ensinar e aprender sejam verbos a serem conjugados na extensividade e na intensividade múltipla da transitividade, continuamente, na descontinuidade.

No país que vivemos, que educação queremos?


Nossas escolas devem ser lugares de “vivência de direitos” e de cidadania, onde possam ser praticados valores como a solidariedade, os direitos humanos, o respeito às diversidades culturais, religiosas e étnicas, a camaradagem, a promoção da dignidade humana.

Os professores e professoras da educação básica de nossa cidade, estado e país passam diariamente por muitas dificuldades para cumprirem com sua função de educar, em tempos ligeiros, complexos e cheios de incertezas.

Como educador, definido como o professor que acredita no poder do amor, percebi que não faz sentido simplesmente reclamar dos educandos e educandas com os quais trabalho diariamente. Reclamo, com muita razão, da falta de estrutura e apoio que as redes de ensino não oferecem em nossas escolas. Da falta do reconhecimento do meu trabalho e pela autonomia dos professores em suas salas de aula.

Moro num país que ainda não reconheceu a educação como um valor, mas que ainda considera a mesma um gasto e, na melhor hipótese, um investimento sempre muito alto e que nosso país não tem condições de arcar.

Sonho e luto muito para que a educação seja prioridade, que as escolas sejam de qualidade e que o trabalho dos educadores seja reconhecido por toda sociedade. Mas, cotidianamente, tenho que arregaçar as mangas, os meus pensamentos e as minhas forças criativas para realizar o melhor trabalho como professor, sem descuidar da minha responsabilidade de lutar por melhores condições de trabalho do professor e da aprendizagem dos educandos e educandas. E de me somar com as forças de toda comunidade escolar, sobretudo dos pais dos estudantes e das organizações vivas do entorno de nossas escolas para que nossa educação tenha como rumo a qualidade social.

“O prazer maior nas relações de ensino-aprendizagem está na 
construção do conhecimento como algo útil, agradável e capaz de
desencadear alegria e realização. O educador é um dos maiores
interessados em qualidade na educação, pois ela sempre carrega
potenciais para sua satisfação (o fracasso dos educandos também
representa o seu fracasso)”. (Nei Alberto Pies)

A postura “vitimizante” do professor, adotada por muitos colegas, cega-os para reconhecer um universo de possibilidades e intervenções cotidianas que os mesmos realizam e que fazem uma grande diferença na vida de muitos estudantes e na vida das comunidades.

Nós, professores e professoras, fazemos a diferença na educação brasileira. Por isso mesmo, temos que considerar também a nossa condição humana de “seres aprendentes”. Como aprendentes, temos que nos dispor a compreender novos contextos e novas realidades que estão em processo de mudança na nossa sociedade, principalmente na vida de nossos adolescentes e jovens, mas sem deixar de lado as lutas por educação, na forma mais ampla. “Quem luta, também educa”.

O direito de aprender de nossos educandos e educandas precisa ser exercido com muita responsabilidade em nossas escolas, propiciando aos mesmos os conteúdos, habilidades e atitudes historicamente construídas e acumuladas. O direito à participação, através da opinião, de consultas e de tomada de decisões deve ser exercido permanentemente com eles. O direito à convivência saudável, organizada coletivamente no ambiente escolar, propicia aos adolescentes e jovens oportunidades únicas para o exercício de sujeitos sociais e interdependentes.

Nossas escolas devem ser lugares de “vivência de direitos” e de cidadania, onde pudessem ser praticados valores como a solidariedade, os direitos humanos, o respeito às diversidades culturais, religiosas e étnicas, a camaradagem, a promoção da dignidade humana.

Não podemos esquecer que a escola é para muitos jovens brasileiros o único lugar de reconhecimento social e representa, para a maioria deles, a grande oportunidade de humanização.

Se os jovens tem o direito de aprender, os professores tem para com eles o dever de se importar. A comunidade escolar tem o dever de acompanhar e subsidiar a compreensão das distintas realidades. Os governos tem o dever de respeitar a autonomia de cada escola e de prover as melhores condições para que a mesma possa se organizar conforme a necessidade e a vontade de quem a faz. Os estudantes tem o dever de aproveitar o que as escolhas lhes oferecem.

“Creio que um dos papéis mais importantes de um educador é 
permitir que os alunos sejam mais do que a minha geração foi
e façam o mundo um lugar melhor. Se eu puder auxiliar
eles nesta caminhada, ficarei grato. Existe uma diferença
entre facilitar e permitir. Eu, ao invés de falar para
eles estudarem, compartilho meus métodos para permitir que
desde cedo tenham o mesmo prazer que adquiri com os estudos”.
(Ivan Dourado, sociólogo) 

Nós já fazemos uma escola assim, mas ainda acreditamos pouco nos seus potenciais de humanização, inclusão, valorização e promoção de cada pessoa e de todas as pessoas que dela fazem parte. Certo é de que ninguém fará esta escola pela gente, senão a gente mesmo.

O amor na escola não é uma ilusão, mas é uma revolução! O amor transforma a vida de quem aprende e de quem ensina. O amor carrega este caráter revolucionário, porque é capaz de promover aquilo que está apagado no interior de cada um de nós.

Educação acontece quando promovemos o desabrochar das possibilidades, dos valores, dos sonhos e dos objetivos que cada ser humano carrega dentro de si.

Que em 2019, renovemos o nosso ideal de uma educação pública, de qualidade social. Qualidade social acontece quando a escola tem resultados e processos importantes para todos os sujeitos que nela se envolvem. Qualidade social na educação é sinônimo de uma escola de gente feliz, e que se realiza acreditando que o conhecimento humaniza, sempre nos torna seres humanos melhores

Na minha experiência, se a escola se construir num espaço 
onde os estudantes são convidados a se encantar com os
conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre
os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas
dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais
que alunos. Formaremos seres humanos.
(Ivan Dourado, sociólogo)

Vivemos emaranhados

Conviver intensamente e desinteressadamente
com os outros é a melhor forma de buscar felicidade.

Não existe felicidade “fora dos outros”. Na contramão desta idéia, construímos a ilusão de que felicidade pode resultar de conquistas meramente individualistas. Deste modo, fomos abrindo mão daquilo que nos é o mais essencial: a convivência e confiança nos outros. Ensimesmados e distantes dos outros, geramos um vazio existencial, hoje uma enfermidade social: o stress e a depressão.

Somos parte de uma sociedade que privilegiou as coisas, transformamo-nos também nós em anônimos, números, seres em competição.

Ao invés de vivermos o amor e a compaixão, valorizamos demais os valores da competição, egoísmo e auto-suficiência. Cultivamos sentimentos interesseiros e oportunistas, e os entendemos como forma de amar. Desaprendemos que amar significa, no sentido último, morrer para a gente, para renascer com os outros. Convivemos com os outros, visando suprir carências, esquecendo que também eles, como a gente, tem as mesmas necessidades de permanente reconhecimento.

Solidariedade e compaixão são valores e atitudes que nos unem para a superação dos sofrimentos comuns à nossa condição humana. A libertação e superação dos sofrimentos humanos requerem que a gente seja capaz de colocar-se no lugar do outro, lá onde o outro está. Para fluir compreensão e entendimento, precisamos ser capazes de escutar.

Falar e escutar são atitudes libertadoras, para a gente e para o outro. A afeição, a doçura, o amor, o perdão, a esperança e a paz são virtudes destacadas por Charles Chaplin para uma vida sem violência, uma vida a partir da própria humanidade. “Sem estas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

"Cada pessoa que passa em nossa 
vida passa sozinha, e não nos
deixa só, porque deixa um
pouco de si e leva um pouquinho
de nós. Essa é a mais bela
responsabilidade da vida e a
prova de que as pessoas não se
encontram por acaso".
(Charles Chaplin)

Dizem os estudiosos e especialistas que a natureza humana não é feita para a acomodação, mas sim para a constante superação, para o desenvolvimento de nossos potenciais. Este princípio, nem sempre é assimilado e traduzido na prática e vida cotidiana de muitos, por conta das pressões e mudanças sociais, bem como dos novos desafios de nossos tempos, sejam pessoais ou coletivos.

Mas “se pararmos no meio do caminho e nos acomodarmos, pagaremos um preço elevado por isso. Viveremos com ansiedades desnecessárias, não encontrando mais o verdadeiro sabor das coisas e, sem nos darmos conta, procurando compensações para nossas frustrações. Daí se explica por que muitas pessoas acabam deprimidas, viciadas, consumistas ou hedonistas. Essas atitudes ou características seriam consequências do não desenvolvimento do nosso potencial. Quem não cresce, adoece”. (AntônioVieira)

Vida fácil não é bela vida. A vida vale a pena quando é conquistada, a partir das pequenas e singelas superações que fazemos ao longo da existência. Cada desafio superado sinaliza conquistas para nossa felicidade.

A solidariedade deve ser um valor constante, capaz de nos propiciar sentido de vida. Ela é um sentimento que nos acompanha de forma intensa nas tragédias humanas, mas ainda não acompanha nossas relações cotidianas, capazes de nos re-aproximar conosco mesmos e com os outros. Nada melhor do que a convivência, a relação e a troca com aqueles que compartilham das mesmas necessidades.

Conviver intensamente e desinteressadamente com os outros é a melhor forma de buscar felicidade. Como disse Chaplin, “não preciso me drogar para ser um gênio; não preciso ser um gênio para ser humano, mas preciso do seu sorriso para ser feliz”.

Esta publicação faz parte do livro "Conviver, educar e participar: 
nos palcos da vida", publicado pela Editora IFIBE em 2014.

De freiras, padres, vestidos sem mangas e cabelos de menino

Tenho saudades da minha infância,
mas nenhuma da escola repressora,
nem da igreja de missas intermináveis,
sequer dos sermões moralistas e violentos.
Sinto saudades das pessoas.

Quando criança minha mãe levou a mim e a minhas irmãs ao barbeiro da cidade. O que ela pretendia só podia ser feito por um barbeiro, jamais por uma cabeleireira. Explicou direitinho como queria que cortasse nossos cabelos revelando um conhecimento bem cosmopolita. Já adulta identifiquei o corte chanel tão do gosto das européias desde os anos vinte e que minha mãe deve ter visto na revista O Cruzeiro. 

Tratava-se de um corte curtinho com franja reta e nuca batida de forma radical. Feliz com o resultado minha mãe arrumou-nos com vestidos brancos enfeitados na frente e nas barras. O dia era muito quente por isso aqueles vestidos foram os escolhidos. Eles não tinham mangas, o que era uma temeridade à época e lá fomos as três de corte de cabelo novo, vestidinhos vaporosos, rumo ao clube onde faziam sorvete com aquele cheiro inacreditável de antigamente.

E fomos vistas! E pagamos o preço logo, logo. Ao chegarmos à escola no dia seguinte esperavam por nós.

Na década de cinquenta as salas de aula eram divididas. De um lado os meninos e do outro as meninas, a exemplo da distribuição do povo católico. Na igreja as mulheres ficavam do lado esquerdo e os homens no direito. Normal para a época. Pois fomos obrigadas a sentar com os meninos, cada uma em sua sala. O motivo era o corte de cabelo igual ao dos meninos.

As freiras aproveitaram para comentar sobre nossos vestidos, completamente inapropriados para meninas católicas. Com o tempo compreendi o comportamento das freiras, assim como o do padre, que desceu do púlpito em uma manhã de domingo, para colocar mangas de papel nos braços de uma paroquiana envergonhada. Minhas irmãs e eu fomos humilhadas como aconteceu com aquela mulher. Sinais dos tempos!

Frente ao constrangimento que jamais esqueci, passei a observar atentamente o comportamento das pessoas. Meu pai alfaiate fazia roupas masculinas, mas nunca fez calças compridas para meninos, que só podiam usá-las curtas. As compridas eram conquistadas quase passando à adolescência. Usar calças compridas era sinal de ser quase um homem.

Minha mãe e meu pai demoraram a engolir o acontecido. As palavras deles soavam estranhas para a época e para a cidadezinha pequena e submissa aos preceitos ainda medievais que pautavam a filosofia do colégio e da igreja. Não demorou e nos mudamos para cá a fim de continuarmos os estudos. Minha mãe continuou assim, com seu jeito inquieto e curioso. Devo a ela e ao meu pai o senso de que há imposições ridículas, que diminuem as pessoas em nome de uma moral arcaica e discriminatória. 

Dona Lina gostava de quebrar regras, principalmente aquelas que tolhiam o que ela considerava adequado para os filhos. Assumiu tarefas quase impossíveis contando com a cumplicidade do seu Elmo, um trabalhador alegre e generoso.

Acho que vem de lá, do cabelo chanel e do vestidinho cavado, a repulsa que sinto por “normalizações”, tão comuns até hoje, quando meninas e meninos são criados com moral dupla, uma para eles e outra para elas.

Vem do exemplo da minha mãe um senso de justiça do qual me orgulho e do meu pai a alegria por ter filhos e filhas, amigos e amigas e o gosto por bailes, chopp, risadas e um pouquinho de irreverência, o que dava a ele um charme especial.

Tenho saudades da minha infância, mas nenhuma da escola repressora, nem da igreja de missas intermináveis, sequer dos sermões moralistas e violentos. Sinto saudades das pessoas. Algumas indomáveis como minha mãe, outras conformadas com as limitações que julgavam certas. Mas tudo é um patrimônio que acalento como a um tesouro

Papel da família e da escola na educação dos filhos. 

O sentido da vida

O sentido da vida não é algo que temos,
mas é ele que nos tem, a todos.
Nem somos nós que o formulamos e o criamos,
nós o recebemos e o reconhecemos.

Albert Camus, filósofo e literato francês, disse com todas as letras que a única questão fundamental a ser respondida é: por que não me mato? Muita gente tem levado essa questão a sério e tem sucumbido.

Os suicídios no mundo não param de aumentar. Os que não sucumbem, onde encontramos a razão para continuar vivendo? Ou será que paramos de fazer as grandes perguntas da vida (quem somos, de onde viemos, para onde iremos, qual o sentido de estarmos aqui?) e simplesmente vivemos uma vida biológica igual a tantos animais não humanos que vivem felizes comendo, bebendo, dormindo, se reproduzindo e curtindo a vida?

As duas perguntas são incômodas, tanto a de Camus quanto a que acabo de formular. Eu prefiro pensar que a vida não se esgota na dimensão bio-lógica e ainda mantemos viva a dimensão espiritual que pode, de alguma forma, nos ofertar “sentido último” para continuar afirmando e confirmando a vida, mesmo nas condições mais adversas, injustas e degradantes.

A religião e a filosofia são duas doutrinas de salvação exatamente por elaborarem, sistematicamente, aquilo que seria o essencial numa ordem hierárquica de valores, não só para viver, mas bem viver.

Do ponto de vista psicológico, Viktor Emil Frankl, judeu e psiquiatra austríaco, foi o que melhor formulou e estruturou uma ciência do sentido. E, em boa parte, pela sabedoria advinda da própria experiência. Ele experimentou a adversidade e o pavor em grau extremo, no campo de concentração Theresienstald, durante a segunda guerra mundial. Numa situação em que nenhum prazer da vida biológica lhe era possível, em estado de sofrimento e medo total, numa situação em que a morte era a mais incômoda das presenças reais, no inferno da banalidade do mal, sobreviveu e desejou permanecer vivo ancorado, não ao visível e sensível, que era terrível por todos os lados, mas ao invisível e ausente que da alma lhe alimentava a esperança, dando-lhe sentido e resistência. Ao seu redor, no campo de concentração, os que sobreviveram e conservaram a sanidade e dignidade, observava Frankl, o fizeram por alguma razão transcendental, da ordem do sentido, da ordem do dever e da missão, que lhes dava forças para não perder a identidade e a dignidade. E, sobretudo, lhes dava sentido para não desejar morrer.

 “Quem tem um porquê, então pode suportar quase qualquer como”. Frankl imortalizou essa frase nietzschiana e ela resume bem o que se estruturou em teoria psicanalítica, a logoterapia. A logoterapia é a cura pela estruturação da vida em torno de algo que lhe dá sentido.

A dor, o sofrimento e a neurose, podem ser de ordem espiritual e intelectual, e não somente de ordem afetivo e sexual, como pensava Freud. O sentido, contudo, não é algo abstrato e metafísico, válido igualmente para todos, mas algo identificável como missão própria e intransferível, algo que é uma espécie de vocação, um chamado que só o indivíduo implicado pode responder.

Não há humano que não tenha algo de sagrado que só ele pode preservar. Esse algo é o que lhe dá sentido. Não há nada de esotérico nisso, isto é, que só alguns possam acessar o sentido da existência. Não. O sentido da vida não é algo que temos, mas é ele que nos tem, a todos. Nem somos nós que o formulamos e o criamos, nós o recebemos e o reconhecemos. E em todas as direções ele opera.

Alguns reconhecem o sentido na fé e no dever de ordem religiosa. Outros, na fé e no dever de ordem moral. Outros na preservação das memórias e lembranças guardados no corpo e na alma. Outros, em alguma missão política e ideológica. Outros ainda, no humor, na beleza e no amor que nos tiram da banalidade do mal e nos eleva para além de nós mesmos, aproximando-nos, como diz o salmista, muito mais dos anjos do que dos animais não humanos.

Alguém poderia objetar e dizer que a vida não tem sentido nenhum, mas não custa lhe dar algum. Não compartilho dessa ideia. Custa muito dar um sentido, onde a vida mesma não nos imponha um. Cabe a cada um/a prestar atenção em qual ‘o seu sentido’ que se oferece como graça e dom, mais do que como mérito e conquista.

 4 teorias que podem explicar o sentido de vida. 

O epílogo do mito

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”. (A. Lincoln)

O pensamento mítico teve início na Grécia e nasceu do desejo de dominação do mundo, para afugentar o medo e a insegurança. A verdade do mito não obedece à lógica, nem da verdade baseada na experiência, nem da verdade científica.

Normalmente, associa-se, erroneamente ou não, o conceito do mito à mentira, ilusão, ídolo, lenda ou ficção.

O mito depende de um tempo e espaço para existir e ser compreendido. Isto posto, vamos ao “mito” recém eleito Presidente.

Quando da diplomação, no último dia 10, Jair Bolsonaro enfatizou: “Sempre me pautei pela defesa dos valores da família, pelos interesses do Brasil e pela soberania nacional”. Indaguei a meus fiéis botões: valores da família? Estes me olharam espantados.

Lembrei-me que a futura primeira-dama, Michelle, recebeu em uma conta, entre 2016 e janeiro de 2017, um cheque de 24 mil reais depositado por um funcionário do gabinete do enteado Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho do ex-capitão.

Assim, o bordão eleitoral “valores da família” soa com um significado um tanto estranho. Bolsonaro explicou que se tratava do pagamento parcial de um empréstimo feito por ele ao depositante, Fabricio Queiroz, amigo do futuro presidente.

Na frágil explicação afirmou que o dinheiro só não foi parar em sua conta, já que ele, Bolsonaro, não tinha tempo de ir ao banco. Apenas esqueceu que depois da vitória, foi duas vezes a um caixa eletrônico onde posou para fotos com fãs. Estranho!

Claramente estamos diante de um característico caso de alguém que faz parte da velha e sobejamente conhecida turma do patrimonialismo. Assim, a imagem do “mito” está definitivamente arranhada.

Para quem ganhou a eleição com o mote de ser contra “tudo o que está aí”, verdadeira flôr no pântano, demonstra ser “mais do mesmo”.

O episódio escancara a triste realidade de nossa classe média que votou em peso no “mito”. Esta é portadora de um moralismo de fachada contra a “corrupção seletiva” só da política e só da “esquerda”, como assevera Jessé Souza no livro A Classe Média no Espelho.

Pior. Elegeu um político que representa os interesses e usa dos mesmos mecanismos ilegais da elite, que a explora e a utiliza como instrumento para permanecer no poder.

Para a frustração dos eleitores conscientes, as denúncias contra a família Bolsonaro, mostram que em um ano (janeiro de 2016 a janeiro de 2017), o motorista movimentou em sua conta 1,2 milhões de reais, dos quais mais ou menos metade foi dinheiro que entrou e metade que saiu.

É preciso destacar que movimentar recursos em espécie é tido no mundo policial como uma maneira de tentar despistar as autoridades, pois o destino da bufunfa não seria nada republicano.

Perguntado sobre tais fatos o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, sempre tão severo e atento quando se trata de políticos da esquerda, desconversou e deu a entrevista por encerrada. Uau! Vem perdão por aí!

Assim é que o “mito” chega ao seu epílogo antes mesmo de assumir a presidência. Como é tempo de Papai Noel, muitos ainda o enxergam como o arauto da ética e da honestidade.

Na verdade, Bolsonaro supunha-se o Moisés que conduz seu povo à terra prometida, e vai acabar como o Panúrgio (personagem do romance Pantagruel, de François Rabeais) que se afoga com sua grei.

A classe média no espelho, Jessé Souza. 

‘Intenção de acabar com os ativismos já está em curso no Brasil’

A Declaração Universal dos Direitos Humanos está completando 70 anos. Adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, a Declaração foi uma tentativa de resposta à barbárie que assolou o planeta ao longo da Segunda Grande Guerra Mundial. O espírito geral da Declaração era estabelecer um ideal comum de humanidade a ser atingido por todos os povos e todas as nações. Nos últimos anos, porém, a percepção da barbárie, presente no pós-guerra, parece ter enfrentado um progressivo enfraquecimento.

“Chegamos a um momento onde parece que, de novo, a humanidade está em questão. Retornamos no mundo inteiro a uma situação onde se questiona se todos os humanos devem ser considerados como integrantes da categoria ‘humanidade’, ou, dito de outro modo, se é legítimo ou não que todos os humanos tenham direitos humanos”, diz Paulo César Carbonari, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. Em entrevista ao Sul21, Carbonari fala sobre a atualidade da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sobre os desafios que ela enfrenta, sobretudo no Brasil, onde o presidente eleito Jair Bolsonaro prometeu, entre outras coisas, que irá por fim a todas as formas de ativismo.

Essa intenção de acabar com os ativismos, afirma ainda Carbonari, “já está em curso no Brasil por meio de um processo de criminalização e de desmoralização das lutas, dos movimentos sociais, dos defensores e defensoras de direitos humanos”.

Sul21: A Declaração Universal dos Direitos Humanos está completando 70 anos. Ela nasceu no pós-guerra, em um momento que a percepção da barbárie estava muito presente na vida de todos que haviam convivido, direta ou indiretamente, com os horrores da Segunda Guerra Mundial. Hoje, parece que essa percepção da barbárie está enfraquecida e a própria ideia de Direitos Humanos é crescentemente contestada por setores da sociedade. Que balanço é possível fazer desse período e de como a agenda dos Direitos Humanos é percebida na sociedade hoje?

Paulo César Carbonari: A Declaração Universal dos Direitos Humanos nasceu como uma tentativa de resposta à barbárie, ao totalitarismo e à experiência histórica de eliminação massiva de seres humanos. A história é marcada por vários momentos em que nem todos os humanos são considerados como pertencendo à categoria da humanidade. Em muitos momentos dessa história, humanos foram tratados como não-humanos ou como seres inferiores. Na antiga Grécia, as mulheres eram humanas, mas eram tratadas como seres inferiores. Os escravos e estrangeiros, por razões diferentes, também eram assim classificados. Nos primórdios do cristianismo tivemos a discussão entre Paulo e Pedro sobre, se para ser cristão, era preciso ser judeu ou não, sobre quem poderia ser cristão.

Se considerarmos quando os europeus chegaram a América, a primeira carta de Cristovão Colombo a Espanha informava que os seres que tinha encontrado aqui não tinham religião. Isso significava não ter alma e não ser humano. Os indígenas só se tornaram oficialmente seres humanos por volta de 1530 em função de uma bula papal. Então, essa discussão é antiga. O que 1948 traz como marco histórico, em seu sentido mais amplo, é dizer: há uma humanidade que é comum e nenhum ser humano pode ser morto por qualquer razão que seja, ou discriminado e excluído.

O que ocorreu neste processo a partir de 1948, por um lado, foi uma tentativa de especificar o que é essa condição humana, considerando toda a sua diversidade. De lá para cá, tivemos o reconhecimento de direitos e a criação de convenções internacionais protetoras de direitos para negros, mulheres, deficientes, crianças e outros setores da sociedade. Agora, no entanto, chegamos a um momento em que parece que, de novo, a humanidade está em questão. Se formos seguir a tese do filósofo africano Achille Mbembe, diremos que estamos vivendo um momento marcado por uma necropolítica. Assim, retornamos no mundo inteiro a uma situação onde se questiona se todos os humanos devem ser considerados como integrantes da categoria “humanidade”, ou, dito de outro modo, se é legítimo ou não que todos os humanos tenham direitos humanos. No Brasil, isso se apresenta na forma de várias consignas, que são repetidas de boca cheia por aí.

Sul21: Do tipo daquelas que associam os defensores de direitos humanos a bandidos…

Paulo César Carbonari: Acho que há três dessas consignas que são mais fortes hoje. Elas são complementares, mas tem suas especificidades. Uma delas é essa que você citou. Ela é a mais antiga e vem dos anos 70, criando uma figura que não existe nem do ponto de vista jurídico nem do ponto de vista sociológico, que é a figura do chamado bandido. Essa figura coloca aqueles cuja prática foi condenada por alguma previsão legal como se não fossem merecedores da inclusão na categoria de humanidade. Essa visão é muito forte hoje no Brasil. É a ideia de que a humanidade não se aplica a esses seres humanos que, portanto, deveriam ser eliminados. Uma máxima associada a essa é aquela que diz que “bandido bom é bandido morto”, o que significa advogar a eliminação física das pessoas incluídas nesta categoria.

Enquanto a primeira versão é de um punitivismo crasso, a segunda a gente chama de seletivista. Essa versão é bem traduzida na ideia de quem diz: eu até defendo os direitos humanos, mas só para os humanos direitos. Segundo essa ideia, nem todos os humanos tem a mesma humanidade. A escala vai dependendo da circunstância, de quem vai ser atacado mais de frente. Essa é uma versão um pouco mais sofisticada do que foi o nazismo e sua estratégia de eliminação. Começa com um grupo e depois vai se ampliando a praticamente todos os seres. Essa versão é um pouquinho diferente da primeira, com uma carga de sofisticação mais perversa, pois é mais sutil.

Sul21: Pretende apresentar um certo verniz de humanidade…

Paulo Cesar Carbonari: Sim, ela reconhece uma humanidade até certa altura. Depois não tem mais. A terceira, que vem na esteira dessas posições ultra-liberais, é uma visão meritocrática, que se traduz na seguinte ideia: a gente até aceita os direitos humanos, mas para quem merece os direitos humanos, para quem faz por merecer esses direitos, para quem se empenha e se dá bem. É o discurso meritocrático de que, quem se esforça, consegue. Essa visão dialoga com o individualismo crasso que vemos hoje baseado na ideia neoliberal de que devemos ser empreendedores de si mesmo. Eu por mim em primeiro lugar. Essa visão, na verdade, acaba com a ideia de direitos humanos, transformando-os numa espécie de privilégio disfuncional ao mercado. Se eu me esforcei, eu mereço e compro os meus direitos. Essa é a ideia que vale nesta concepção. Enfim, as três visões contrariam a concepção universalista de direitos humanos.

Sul21: Logo após o final do primeiro turno das eleições presidenciais deste ano, o então candidato Jair Bolsonaro disse que, caso eleito, iria “por fim a todo o ativismo” no Brasil. Bem, ele foi eleito. Na sua avaliação, em que medida essa ameaça deve ser levada a sério?

Paulo Cesar Carbonari: Eu sou daqueles que acredita que se deve levar a sério tudo o que as pessoas dizem. Afinal, ele era candidato à presidência da República e foi eleito presidente da República. Eu, portanto, como cidadão brasileiro, ainda que não concorde com o que ele disse, devo levar isso a sério. Acho que ele vai fazer o que disse que iria fazer. A minha dúvida é de que modo ele vai fazer isso e quando. Considerando essa intenção de acabar com os ativismos, já está em curso no Brasil, infelizmente, um processo de criminalização e de desmoralização das lutas, dos movimentos sociais, dos defensores e defensoras de direitos humanos. Já há um processo em curso com a participação, em alguns lugares, do Poder Judiciário e do Ministério Público. Essa ação pode ser intensificada. Pode-se, por exemplo, responsabilizar essas pessoas por improbidade, por corrupção ou outra acusação do tipo, criando uma lógica de desmoralização. Na minha avaliação, esse processo tende a avançar.

Outra forma de “por fim aos ativismos” está relacionada ao financiamento das organizações. Ainda que tenhamos produzido um marco regulatório tratando da relação entre Estado e sociedade civil, isso não deve ser levado adiante para dificultar a obtenção de recursos por parte das organizações da sociedade civil. Não garantir recursos é outra forma de não propiciar condições para que essas organizações sigam atuando. Não sei se não haverá, inclusive, interferência na cooperação internacional que apóia, por exemplo, projetos de desenvolvimento social e de educação. A maior parte desses recursos vem de governos. Existem, portanto, vários mecanismos para ele colocar em prática aquilo que disse pretender fazer. Talvez ele não os adote de modo aberto já no início do governo. Para alguns grupos sociais, por outro lado, ele pode sair atirando logo no início, tanto no sentido metafórico como no literal, pois já os identificou como seus alvos prioritários…

Sul21: Como o MST, por exemplo…

Paulo César Carbonari: MST, MTST, movimento indígena…Mas eu acho que talvez a ação venha mais numa lógica sutil que vá criando uma rede de desmonte e de desmoralização. A criminalização é apenas um mecanismo jurídico que se completa com a desmoralização para destruir politicamente as lideranças desses movimentos. Infelizmente, já estamos vendo isso acontecer há mais tempo.

Sul21: Trazendo a conversa para o plano do Estado, qual avaliação você faz, como presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, sobre a situação dos direitos humanos no Rio Grade do Sul? Quais os principais problemas enfrentados?

Paulo Cesar Carbonari: O Conselho é um órgão novo. Ainda que o Rio Grande do Sul tenha sido pioneiro na criação de instituições de proteção aos direitos humanos – a primeira comissão legislativa foi criada aqui na Assembleia -, o Estado ainda não tinha um conselho estadual de direitos humanos, que acabou finalmente sendo criado em 2014. Gastamos quase dois anos para construir toda a parte de estruturação. Ainda estamos construindo os mecanismos mais institucionais de ação. Então, estamos falando de uma experiência ainda recente.

Temos uma composição que tem a participação do poder público, mas a maioria dela é de organizações e grupos de direitos humanos da sociedade civil. Esse é um dado importante pois a maioria dos conselhos tem uma composição paritária ou então com maioria governamental. Quanto mais independência e autonomia tiver, mais capacidade de ação política o conselho terá. Quanto mais preso à lógica governamental, mais dificuldade ele terá par agir de modo independente. E, na área de direitos humanos, se você não tiver essa capacidade de ação independente, acaba inviabilizado no trabalho fundamental. O trabalho mais importante de um conselho deste tipo é sugerir políticas e denunciar as violações de direitos.

Então, num primeiro momento, procuramos estabelecer as condições para criar um Plano Estadual de Direitos Humanos, o que significa criar políticas de direitos humanos. Fizemos uma conferência estadual para isso, mas infelizmente o atual governo vai chegando ao fim se ter feito o seu tema de casa que era formular a proposta para um programa estadual de direitos humanos. O Estado não assumiu a sua responsabilidade. Até fez algumas ações e criou uma secretaria onde os direitos humanos eram apenas um entre vários temas, sem construir uma política de Estado para essa área.

Do ponto de vista das violações de direitos humanos no Rio Grande do Sul, eu citaria três grandes temas. Temos os conflitos territoriais, as disputas por terra, especialmente nas cidades, com ocupações urbanas, despejos, falta de moradia. Tivemos o caso emblemático dos Lanceiros Negros neste contexto, mas a lista de casos é muito grande. Nós acompanhamos mais de 50 situações envolvendo esse tipo de conflito. O Conselho age no sentido de exigir que o Poder Judiciário faça as mediações necessárias para que os despejos não sejam violentos. Como, infelizmente, não há política habitacional, o que a gente consegue fazer é que a violência não se abata de modo ainda mais duro sobre os pobres que já vivem um contexto de violência. A maior parte das situações que chegam até nós envolvem esse tipo de conflito.

Em segundo lugar, vem os casos envolvendo violência policial. Tivemos diversas situações de repressão contra manifestações, ocupações e mobilizações públicas.

Tivemos, por exemplo, a ação da Polícia contra a Federação Anarquista Gaúcha e coletivos culturais com a apreensão de livros e equipamentos diversos. Nós temos no Rio Grande do Sul um protocolo de ação policial que já foi criticado quando da morte do sem terra Elton Brum, em São Gabriel. Na época, o Comitê Estadual de Combate à Tortura fez um relatório ao então Conselho de Defesa da Pessoa Humana (que agora é o Conselho Nacional de Direitos Humanos), em Brasília, que recomendou que essa normativa de ação policial fosse revisada no Estado, o que até hoje não aconteceu.

Sul21: Quais seriam os problemas envolvendo essa normativa?

Paulo César Carbonari: A mudança dessa norma significaria construir outra forma de ação policial em situações de conflito desse tipo. Toda a normativa que está em vigor hoje não segue a orientação internacional das Nações Unidas sobre como a polícia deve agir nestes conflitos. Naquela época, há mais de dez anos, já tínhamos feito essa denúncia, que estamos retomando agora. O episódio da ocupação Lanceiros Negros mostra que a polícia continua com um protocolo equivocado sobre procedimentos para desocupações forçadas e outras situações de conflito aberto.

O terceiro tema, considerando as violações de direitos humanos no Rio Grande do Sul, está relacionado à questão indígena. Tivemos uma missão do Conselho Nacional de Direitos Humanos aqui, que verificou uma série de irregularidades na política de atenção à população indígena no Estado.

Sul 21: Bolsonaro, além da promessa de acabar com os ativismos, tem dito que em seu governo a polícia terá carta branca para “matar bandidos”. Na semana passada, em duas ocorrências policiais envolvendo a Brigada Militar no interior do Estado, dez pessoas foram mortas a tiros, sendo uma delas um refém de um assalto a banco. Na sua avaliação, esses episódios indicam que as polícias já estariam se sentindo “à vontade”, digamos, para colocar em prática as concepções de Bolsonaro para a área da segurança pública?

Paulo César Carbonari: Acho que esses não são os primeiros episódios. Houve outros antes. Há uma tendência das forças policiais em insistir em não produzir ações e políticas de segurança pública que sejam consistentes, mas passíveis de crítica social. Há um autoritarismo persistente na ação policial. Eles acham que são os únicos que sabem fazer enfrentamento com a violência e que fazer isso significa repressão somente. Precisamos enfrentar o debate sobre o que significa fazer segurança pública e qual é o papel da polícia neste processo. Acho que não fizemos esse debate adequadamente, ao que se soma o punitivismo dominante na sociedade que acaba legitimando qualquer ação desde que seja para matar os bandidos.

Sul21: No caso do assalto em Ibiraiaras, a Brigada justificou a morte dos seis assaltantes afirmando que eles dispararam contra os policiais…

Paulo César Carbonari: O argumento para legitimar esse tipo de prática sempre é esse: dizer que a polícia reagiu a um ataque feito pelo outro lado. O problema é que sempre é difícil de produzir uma investigação razoável e garantir que os órgãos de controle das instituições policiais possam agir nestas situações de forma independente. Tudo ainda está por ser investigado no caso, mas uma olhada básica parece indicar que houve no mínimo um exagero. Querer autorizar a polícia a agir de modo ilegal, como se isso fosse condição para combater a violência e aumentar a segurança, é de um primarismo elementar. O que você vai conseguir, fazendo isso, é criar condições para que aqueles que querem produzir o crime também se habilitem a fazer isso de modo mais sofisticado e violento. Essa receita, ao invés de resolver o problema da segurança, criaria um estado de guerra, onde todos os lados vão se armar.

Sul21: Esse cenário não pode aumentar a insegurança para os próprios policiais?

Paulo César Carbonari: Com certeza. Para eles e para todo mundo. Se você vai para uma lógica de guerra, o outro lado também vai seguir a mesma lógica. É muito apelativo para a opinião pública dizer que se vai liberar armas para todo mundo, que a polícia estará liberada para matar. Muitas pessoas criam a ilusão de que, com isso, estarão livres dos bandidos que andam por aí. É uma ilusão. Essa lógica não produz nenhuma realidade segura que garanta a proteção das pessoas e a realização dos direitos. Do meu ponto de vista, querer tratar o problema da segurança como uma questão de guerra é o principal equívoco. Isso só ajuda a piorar a situação. As propostas do presidente eleito, portanto, são altamente discutíveis, ainda que tenham apoio popular significativo.

Sul21: Na tua avaliação, os organismos e ativistas de direitos humanos estão preparados para enfrentar o cenário que se avizinha?

Paulo César Carbonari: Estamos fazendo várias análises disso e construindo processos de proteção, de pensar como fazer para que as nossas ações e mobilizações sejam feitas de modo articulado. Também temos que dar um tempo para ver o que vai acontecer. Teremos agora praticamente uma semana inteira de encontros de diferentes grupos que atuam em diferentes frentes de direitos humanos. Em primeiro lugar, vamos nos reencontrar, conversar sobre as nossas agendas e ver como seguiremos fazendo nossa luta pelos direitos humanos neste novo contexto. Na minha avaliação, ainda vamos precisar de algum tempo para processar tudo isso que vem acontecendo no país. O que é certo e vem sendo reafirmado em todos os encontros é que não vamos arredar pé dessa luta, com os cuidados e as exigências necessárias nesta nova conjuntura que estamos vivendo.

Publicado em: dezembro
Por Marco Weissheimer
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Fonte: Sul 21

Onde nasce primeiro Jesus?

Movidos pelo constante bombardeamento de uma publicidade semtréguas, tal qual marionetes, muitas pessoas sequer se dão conta dessacomercialização do Natal. O sentido original de transforma em oportunidade parasatisfazer desejos nem sempre necessários e por vezes inconscientes.

O relato do evangelista Lucas afirma que Jesus nasceu numa gruta de Belém, em meio a uma viagem. “E Maria deu à luz o seu filho primogênito, o envolveu em faixas e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles em casa” (Lc 1, 7). Hoje, ao contrário, a imagem de Jesus tem lugar seguro e privilegiado. Nasce antes do tempo, às vezes já a partir de outubro ou novembro, primeiramente nas lojas dos grandes centros comerciais, de modo particular nos supermercados e shopping centers.

Em lugar de faixas, animais, palha, pobreza, pastores e reis magos, o presépio comercial, digamos assim, o exibe ao lado dos bens de última moda, um e outros profusamente iluminados e em lugar de destaque. Sim, muita luz, brilho intenso, ostentação, produtos de luxo, correria frenética e vertiginosa – eis o ambiente mais comum para o nascimento moderno ou pós-moderno do Menino Deus.

Nesse presépio comercial, além disso, não pode faltar a árvore de Natal, esteticamente decorada, também ela luminosa e carregada de enfeites, pacotes para presente, panetones, falsa neve e coisas do gênero. Tampouco pode ser esquecido o Papai Noel: velho e robusto ao mesmo tempo, longa barba branca, vestido a caráter, sempre sorridente, rodeado de crianças. Os pais trazem os meninos e meninas para abraçar “o bom velhinho”. Grandes e pequenos, entretanto, logo deixam o cenário natalício. Dirigem-se às lojas, de olho nas novidades do mercado. De maneira repetida e estridente, explícita ou sub-repticiamente, o marketing e a propaganda os levou até ali. É preciso comprar, consumir, não podem permanecer na sombra dos parentes e vizinhos. A festa é exigente: requer roupas em linha, sapatos novos, comida típica e apropriada.

Para trás ficou o presépio, mas ficou sobretudo, praticamente escanteado o recém-nascido. Ali, deitado numa manjedoura simulada, entre José e Maria, mais ou menos envergonhado em meio a tanta luminosidade, tanto luxo, tanta gente e tantos ornamentos.

Tendo nascido verdadeiramente pobre, humilde, longe de casa e na solidão da noite, parece sofrer um certo um mal-estar diante da multidão, dos bens à venda e do contínuo vaivém. Mas tudo leva a crer que as razões do mal-estar mergulham suas raízes em terreno bem mais profundo. A verdade é que a grande maioria dos transeuntes, que por um pouco se detêm diante do presépio, simplesmente esqueceram, ou ignoram por completo, o significado daquele cenário único e misterioso. Alguns ainda se reportam com saudade às lembranças da própria infância, mas os demais, seduzidos pelo fascínio dos produtos, correm para cumprir religiosamente o ritual das compras.

A pressa e a velocidade alucinante do mercado e da concorrência não deixa lugar à memória. Menos ainda a perguntas incomodas e inquietantes, tais como o porquê daquele nascimento inóspito e insólito, quase em segredo e há mais de dois mil anos.

No mundo contemporâneo, impõe-se de forma imperativa o “aqui e agora”. O prazer do presente tem a primazia sobre o passado e o futuro.

Destes últimos, um é melhor nem pensar, o outro… bem, o outro depois pensamos! Melhor sair do centro comercial com as sacolas abarrotadas de novidades do que com o coração atormentado por ideias que “nos tempos de hoje não fazem sentido”. Isso mesmo, melhor encher as gavetas, os armários e a casa com bijuterias, novas vestimentas, produtos de cama e mesa, bens eletrônicos e eletrodomésticos do que curtir ansiosamente o vazio que assalta a alma diante de determinados temas.

Movidos pelo constante bombardeamento de uma publicidade sem tréguas, tal qual marionetes, muitas pessoas sequer se dão conta dessa comercialização do Natal. O sentido original de transforma em oportunidade para satisfazer desejos nem sempre necessários e por vezes inconscientes.

Também na Igreja, o recém-nascido parece às vezes sofrer certa vergonha. Além de nascer com atraso em relação aos lugares de efervescência do comércio, igualmente ali se vê não raro como símbolo de consumismo sem freios. Certo, persiste a dimensão religiosa, prepara-se o templo para a festa, mantém-se viva a celebração do nascimento do Senhor; os laços de parentesco se reforçam, reconciliações são possíveis, as famílias se confraternizam; faz-se a novena em grupos, círculos bíblicos de rua ou de bairro, os vizinhos se reúnem e renovam a amizade. Mas tudo isso, em não poucas vezes, permanece como pano de fundo meio esmaecido.

As compras e a mercantilização dos festejos natalinos ocupam o primeiro plano do palco. Tanto é verdade que, segundo a confederação dos comerciantes, o tempo de Natal constitui um das datas mais rentáveis em termos de compras e vendas. O tempo litúrgico como que se retira a um refúgio íntimo, privado e espiritualizante, enquanto brilha com mais esplendor as relações exteriores, sejam estas de caráter social ou eclesial. De pé a pergunta: como transformar o nascimento de Jesus em um renascimento da fé, da esperança e da solidariedade, tanto do ponto de vista socioeconômico quanto político e cultural?

De Natal e de família. 

O jornalismo

Libertem osrepórteres. Resgatem a pluralidade de opiniões que sempre marcou, comgraduações variadas, a grande imprensa no Brasil.

A homenagem da revista Time a vários jornalistas escolhidos como Personalidade do Ano pode ajudar a revigorar uma atividade em crise como negócio no mundo todo e em crise moral no Brasil.

Jornais e revistas e o jornalismo de TV e rádio estão sendo desafiados a superar os impasses das mudanças tecnológicas, do modo de captar e disseminar informações, quando todo mundo produz ‘notícias’, inclusive os Bolsonaros.

No Brasil, o jornalismo ainda tem de superar o acovardamento provocado pelo avanço da direita. Os jornais foram cúmplices do golpe e se renderam ao mando da extrema direita.

Mas as redações ainda tentam resistir à imposição dos donos e dos altos comandos. As redações são progressistas, humanistas, libertárias. As redações quase sempre vencem.

E o jornalismo de fora das grandes empresas saberá se reinventar e sobreviver ao drama da competição em que todos podem ser fotógrafo e/ou repórter e emitir palpites sobre qualquer coisa em qualquer circunstância e em qualquer meio.


Hoje, os melhores textos do jornalismo de fôlego,
das grandes reportagens, são de mulheres.
E a melhor coisa no jornalismo é o “excesso” de mulheres,
que fazem hoje o que a repórter Celia Ribeiro
já fazia nos anos 60 e 70.
Elas já são maioria nas redações.(Moisés Mendes)

Veja mais aqui.

Os donos da imprensa, em crise de consciência desde a ascensão do bolsonarismo, sabem que somente a resistência ao fascismo poderá salvar seus negócios. As redações sempre souberam.

Libertem os repórteres. Resgatem a pluralidade de opiniões que sempre marcou, com graduações variadas, a grande imprensa no Brasil.

E que as esquerdas (sim, as esquerdas), com o suporte de setores econômico e político capazes de bancar projetos nessa área, decidam finalmente fazer jornalismo. Mas jornalismo mesmo, e não guerrilha de WhatsApp e Twitter.

O jornalismo não pode estar, com as exceções que merecem aplausos, sob o controle absoluto da direita.

O dia em que a ditadura perdeu a vergonha

Nós, setentões, tivemos o privilégio e o desgosto de participar de toda essa história. Temo pelo futuro onde se supõe que somente militares são honestos e capazes de acabar com as falcatruas no Brasil.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, há 50 anos, o período das passeatas e dos festivais de música popular, conheceu um amargo desfecho quando a ditadura militar escancarou-se com a decretação do AI 5. Abriu-se um novo ciclo de cassações de mandatos, perda de direitos políticos e expurgo no funcionalismo, abrangendo muitos professores universitários.

Escancarada, desavergonhada a ditadura afirmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº 5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime ao um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os Anos de Chumbo.

Estabeleceu-se, na prática, a censura aos meios de comunicação e, um dos muitos aspectos trágicos do AI.5, consistiu no fato de que reforçou a tese dos grupos de luta armada.

Aqui em Passo Fundo, em 14 de dezembro, um dia após a promulgação do AI.5, um discurso proferido pelo paraninfo da turma da Faculdade de Filosofia da Universidade de Passo Fundo, padre Alcides Guareschi, vice-reitor da instituição, causou grande repercussão.

 Ao saudar os formandos, referiu-se a Ernesto Che Guevara e citou trechos da letra da canção de Chico Buarque, Pedro Pedreiro: “Pedro Pedreiro não sabe, mas, talvez, no fundo espera alguma coisa mais linda que o mundo, maior que o mar… Mas, pra que sonhar se dá o desespero de esperar demais ?”.

 A mensagem central do discurso era a importância de dedicar-se a um ideal. O discurso ganhou repercussão após sua publicação e foi interpretado como pregação subversiva. O comandante da unidade local do Exército, capitão Grey Belles exigiu a cassação do vice-reitor da UPF, coisa que não aconteceu.

O episódio é revelador do grau de repressão e de censura que o país passou a viver com a vigência do AI.5 no final de 68, mesmo em comunidades pequenas como Passo Fundo.

Foi um ano que começou tranquilo: o Brasil preparava-se para viver seu “milagre econômico” e Costa e Silva governava com a Constituição, sem atos institucionais. Os Estados Unidos pensavam em como se livrar do Vietnã, o Império Soviético parecia ter tudo sob controle do lado de lá “da cortina de ferro”, as economias ocidentais estavam no auge.

De repente, veio maio na França. Os protestos universitários franceses contra a rigidez da estrutura de ensino de seu país foram reprimidos violentamente pela polícia de De Gaulle. Grande parte da população apoiou os estudantes.

Os operários entraram em greve e a reorganização da sociedade era discutida em vários centros. Os conflitos tomaram as ruas e a repressão foi intensa. As idéias, entretanto, influenciaram o movimento estudantil mundial.

E vieram os hippies e o “Paz e amor”. E mais bombas de napalm no Vietnã, LSD, Tropicalismo, Comando de Caça aos Comunistas, Panteras Negras, Festivais da Canção, Luta Armada, psicodelismo, “ É Proibido Proibir”, Jimmi Hendrix, Geraldo Vandré, Bob Dylan, Janis Joplin, Beatles, Rolling Stones, Primavera de Praga, Roda Viva, Caetano, Gil, Chico Buarque, Glauber Rocha, Cinema Novo, Os Mutantes….

O ano não admitiu neutralidade frente aos movimentos de contestação que se seguiram. A revolta dos estudantes, em praticamente todos os países do mundo, resultou num profundo questionamento dos autoritarismos de direita e de esquerda, da política tradicional, dos costumes, e introduziu novos valores na ordem do dia: o pacifismo, o feminismo, a ecologia, a contracultura, a música de protesto, as drogas, o som pop, o direito das minorias, a liberação sexual.

Entretanto, o ano terminou mais sombrio do que começou: Bob Kennedy e Martin Luther King foram assassinados nos Estados Unidos; a intervenção soviética na Tchecoslováquia acabou com o sonho de “um socialismo com rosto humano”;De Gaulle retomou o controle na França.

No Brasil, tomando como pretexto o tolo discurso do deputado Márcio Moreira Alves, que propôs que as famílias sabotassem os eventos militares da Semana da Pátria, não comparecente aos desfiles de 7 de setembro, e que as moças casadouras se recussavem a dançar com os jovens cadetes e oficiais das Forças Armadas nos bailes da semana ( Operação Lisístrata,da Grécia antiga), o presidente Costa e Silva, assinou o mais radical dos Atos Institucionais da ditadura.

O AI-5 só seria revogado em outubro de 1978, após uma resistência da imprensa alternativa, das redes de exilados, dos autores, cantores, compositores e cineastas “malditos” que não deixaram em paz os corações e mentes dos brasileiros. Nós, setentões, tivemos o privilégio e o desgosto de participar de toda essa história.

Hoje, passados 50 anos daqueles duros tempos, temo por nossas instituições democráticas depois da vitória de Bolsonaro que vem montando um governo onde se destacam generais – nenhuma objeção é legal –, porém, uma decisão estranha na história da República, partindo da suposição de que somente os militares são honestos e podem acabar com as falcatruas no País, e, um verdadeiro “taleban” de pastores evangélicos, como uma agenda obscurantista e das mais reacionárias já vistas em nossa história, que nos remete a um retorno à Idade Média.

Um pouco de história sobreos Anos de Chumbo no Brasil.

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