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​Apac: do crime à reintegração social

Segunda unidade da Associação de Proteção
e Assistência aos Condenados (Apac) no RS
será implantada em Passo Fundo.



“Acolher o preso é proteger a sociedade”. A frase do procurador de Justiça Gilmar Bortolotto, que esteve em Passo Fundo, nesta sexta-feira, 23 de agosto, apresentando o método da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), tem muito sentido num cenário caótico do sistema prisional brasileiro, com casas prisionais superlotadas.

A Apac foi tema de audiência pública realizada no Salão de Atos da Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF), promovida pela Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. 

A cada 100 presos do sistema convencional, 75 voltam a cometer um crime. A lógica é simples, mas o trabalho é um grande desafio: se recuperar esses presos, eles não voltarão a ocupar uma vaga nos estabelecimentos prisionais e, logo, não voltarão a cometer crimes na rua.

“A cada mil presos que passam pelo sistema prisional, quase 72% retornam a ele. Acolher o preso é proteger a sociedade. Temos que fazer trabalho de recuperação para melhorar o sistema. As pessoas que cometem os crimes nas ruas, quase sempre já passaram por casas prisionais. E quem quer ser morto por um egresso do sistema?”, declara Bortolotto.

As informações repassadas pelo procurador de Justiça na audiência pública têm como finalidade fazer com que a sociedade repense o olhar sobre a situação dos apenados. A recuperação deles pode ser uma das soluções para a diminuição da criminalidade.

 “As pessoas se manifestam, especialmente nas redes sociais, sem ter conhecimento do que está acontecendo no sistema prisional. As facções se utilizam do ambiente das casas prisionais para ‘catequisar’ mais gente. Utilizam os presos para mão de obra para o crime. No entanto, além dos presos, muitos familiares, dentre os quais mulheres e crianças, estão em contato com esse ambiente. Cerca de 1 milhão de pessoas circulam nos estabelecimentos penais”, enfatiza o procurador da justiça, que também já foi vítima da violência por pelo menos três vezes, tendo, inclusive, em uma delas, quase perdido a vida. 

As Apacs são associações sem fins lucrativos dedicadas à recuperação e à reintegração social dos condenados. O principal objetivo é promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena, evitando a reincidência no crime e oferecendo alternativas para o condenado se recuperar.



O modelo prisional de Associação de Proteção e Apoio aos Condenados (Apac), como o de Barracão (PR), procura uma alternativa na recuperação do encarcerado. Os próprios presos, chamados de recuperandos, mantém todo o processo de limpeza, cuidados, alimentação, estudo, num modelo que não utiliza policiais, armas ou qualquer tipo de violência. Os apenados recebem ajuda de voluntários em atendimentos psicológicos, religiosos, esportivos e sociais, reduzindo pela metade o custo de um preso, comparado ao sistema tradicional. (Padre Gérson Schmidt)



Por meio desse método, os presos têm direitos e deveres, com rotina diária. Eles têm obrigatoriedade do trabalho e do estudo, bem como regras de disciplina. São responsáveis pela sua alimentação e pela higiene e limpeza do local.

Na Apac, os presos são corresponsáveis por sua recuperação e contam com assistência espiritual, médica, psicológica e jurídica, prestadas pela comunidade. A segurança e a disciplina são feitas com a colaboração dos apenados, tendo como suporte funcionários, voluntários e diretores das entidades.

“Eu posso dar meu testemunho e dizer que essa iniciativa vale muito a pena. Eu lido com esse tema em presídios há 21 anos e vejo reações positivas. A Apac oferece uma oportunidade e o sujeito olha e decide se quer pegar ou não”, declara o procurador de justiça. 

No Brasil, o método Apac surgiu na década de 1970 e, atualmente, 150 unidades são filiadas à Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC). Estão em estados como Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo e Maranhão, bem como em outros países. No Rio Grande do Sul, a primeira unidade da Apac foi inaugurada em 2018, em Porto Alegre, e a segunda a ser implantada deverá ser em Passo Fundo. Hoje, há 11 unidades em formação no estado.



Apac de Passo Fundo prevista para 2020

A situação da maior cidade do norte do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, não é diferente da realidade brasileira. Atualmente, são quase 800 apenados no Presídio Regional de Passo Fundo, que tem capacidade para cerca de 300 presos.

A Apac de Passo Fundo já tem diretoria formada, parte dos recursos para implantação em caixa, e, em breve, as obras deverão iniciar na área cedida à entidade. “Na semana passada assinamos, no Ministério Público, o termo de cessão de uso do espaço da antiga Escola Aberta, na BR 285, uma área de cinco hectares. Logo daremos início à limpeza da área e à construção de edificações, bem como à busca por voluntários. O curso de formação deverá ser realizado em novembro, e a inauguração deverá ocorrer em 2020”, revela o presidente da Apac de Passo Fundo e professor da UPF Me. Vinícius Toazza.

Foto da Antiga Escola Aberta. Créditos foto: Matheus Moraes/DM

  
Sobre a audiência

A audiência pública contou com a presença de representantes do Poder Executivo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e da OAB, entre outras entidades parceiras da Apac. O presidente da Comissão de Segurança e Serviços Públicos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, deputado Jeferson Fernandes, conduziu os trabalhos, destacando a representatividade de instituições presentes no evento.

A reitora da UPF, professora Dra. Bernadete Dalmolin, destaca a importância da recuperação dos apenados. “Acreditamos na recuperação e na reintegração dos apenados, desde que haja condições favoráveis no período de cumprimento da pena. Assim, nos unimos à Apac para essa bela iniciativa. É preciso apostar que todas as pessoas têm, dentro de si, potencial para ser melhor”, declara a reitora.

O diretor da Faculdade de Direito, professor Me. Edmar Vianei Marques Daudt, ressalta a importância de a Universidade sediar o evento. “Estamos muito contentes em sediar mais uma audiência pública. A Faculdade de Direito proporciona aos seus acadêmicos uma visão que vai além da sala de aula, o que lhes possibilita um efetivo contato com problemas vividos pela sociedade e, por conseguinte, representa uma formação mais apropriada para contribuir com a resolução desses problemas”, pontua Daudt.

Também participou da solenidade de abertura o presidente da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF) Me. Luiz Fernando Pereira Neto. 



“Responder à violência com mais violência, costuma-se dizer, acaba só aumentando os níveis de violência na sociedade, é necessário romper o ciclo da violência e não pode ficar sustentando ele e dando mais violência”. (Dalmir Franklin de Oliveira Júnior) Veja mais aqui.

Fotos: Natália Fávero
Assessoria de Imprensa
Universidade de Passo Fundo
(54) 3316-8110 | www.upf.br
Passo Fundo – RS

Getúlio Vargas: 65 anos atrás

Getúlio, como ninguém,
aperfeiçoara dois atributos fundamentais
para todo o homem público:
a paciência histórica e o
senso de oportunidade política.

Há 65 anos, em 24 de agosto de 1954,  Getúlio Vargas  suicidou-se, pondo  fim a uma extraordinária  carreira  política  que o transformou  no personagem mais  importante  da história  brasileira do século 20.Seus  biógrafos  revelam que desde muito jovem ele  demonstrou qualidades excepcionais.

Uma reminiscência familiar  dá conta de  certa visita do senador  Pinheiro Machado  a São Borja, quando Getúlio  ainda não passava de um menininho a brincar, no chão, com soldadinhos de osso de boi.

Conta-se que Pinheiro ficara tão impressionado com a curiosidade  e a inteligência precoce do garoto que teria comentado  com o pai de Getúlio, o velho, Manuel Vargas – natural de Passo Fundo: “ Este menino vai longe! Talvez chegue  à presidência da  República”. A cena parece circunscrever-se àqueles casos em que a história é escrita com o propósito de fabular uma suposta predestinação do personagem.

A verdade  é que Getúlio  logo cedo demonstrou  interesse pela  vida política. Como acadêmico de Direito, em Porto Alegre, foi um dos fundadores  do Bloco Acadêmico Castillhista, que pelo nome  explicitava claramente sua matriz ideológica. Em 1909, aos  26 anos, Getúlio  foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano. Sua eleição foi tranquila uma vez que, na época, as  urnas rio-grandenses  jamais reservavam  más  surpresas  aos amigos  do governo. Em 1913 Getúlio foi reeleito.

A  exemplo da vez anterior, com o devido aval de Borges de Medeiros, a eleição foi garantida antes mesmo das mesas receptoras  procederem à  contagem das cédulas eleitorais. Ele foi o candidato mais votado. Entretando, para o espanto de seus pares, decidiu  renunciar à cadeira de deputado, alegando  deslealdades políticas ocorridas dentro do Partido Republicano. Somente  em 1917, Vargas voltou à política  estadual ao ser eleito deputado pelo PRR, ocupando o papel de líder natural entre os colegas de bancada republicana.

O crescimento do prestígio de Getúlio no seio do seu partido, fez com que em 1922 ele fosse indicado para a Câmara Federal e, com a ajuda da máquina  estadual republicana foi confirmado  nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir  um mandato-tampão, uma vez que o titular havia falecido. Assim, Vargas teria um período de pouco mais de um ano na Câmara Federal. No Rio, abriu portas, estabeleceu relações, conquistou interlocutores.

Quando Washington Luis foi eleito para a presidência em 1926, Vargas foi convidado para ocupar o Ministério da Fazenda, o que pareceu irônico, uma vez que, na época, o Rio Grande do Sul estava imerso em grave crise financeira. Entretanto, a imagem de austeridade que o castilhismo-borgismo havia cultivado anos a fio – controlando até mesmo a quantidade de lápis na prestação de contas de cada secretaria de estado – obtivera ressonância para além das fronteiras regionais.

Aqui no estado, o último quinquênio de  Borges de Medeiros estava chegando ao fim, como previra o acordo de Pedras Altas,que fora celebrado no final da Revolução de  1923. Getúlio, de imediato, surgiu como nome mais indicado para o governo gaúcho. Borges, depois de alguma relutância, assentiu. No papel de candidato único, Getúlio nem precisou fazer campanha para se eleger, em novembro de  1927, o novo presidente gaúcho.

Adotando uma política de conciliação, Getúlio passou a construir as bases para uma grande aliança  estadual, algo decisivo  para  as pretensões  de uma candidatura rio-grandense a presidência da República. A conciliação foi facilitada quando reunidas sob uma nova legenda – Partido Libertador – e lideradas por Assis Brasil, as oposições gaúchas decidiram oficializar a trégua em relação ao governo estadual, o que abriu caminho para uma gradativa reconciliação entre as oligarquias regionais no Rio Grande.

Ao final do governo de  W. Luiz, mineiros e paulistas, não chegaram a um acordo quanto ao candidato à sucessão do presidente que deixava o poder.

Vargas apareceu como uma alternativa, lançado à presidência pela Aliança  Liberal, formada por Minas, Paraíba  e o Rio Grande, para enfrentar Júlio Prestes, candidato de São Paulo. De São Borja Getúlio acompanhou com a conveniente distância a crônica sangrenta que marcou o último mês de campanha. Como era esperado, a candidatura oficial venceu em todas as unidades da federação, com exceção dos três estados que compuseram a Aliança.

Entretanto, a vitória nas urnas não representou a ascensão de Júlio Prestes ao poder. Uma revolução, iniciada em outubro de 1930, levou Vargas ao Catete, para governar o país por 15 anos e iniciar um grande processo de modernização. Para tanto usou de toda a sua habilidade política e, não teve dúvidas, em enveredar até mesmo para uma ditadura. Em 1945, foi obrigado a se retirar para a sua região natal pelos mesmos militares que haviam apoiado o seu projeto nacionalista de poder.

Ao ex-ditador, convertido num modesto estancieiro, apenas restaram as distrações das cavalgadas, do mate e dos charutos. Mas isto seria por pouco tempo. Em 1951 ele estaria de volta, “nos braços do povo”.

Getúlio, como ninguém, aperfeiçoara dois atributos fundamentais  para todo o homem público: a paciência histórica e o senso de oportunidade política. Há  65 anos,acossado por uma grave crise , fez  aquilo que  em muitos momentos de sua jornada política, disse que faria: cometeu o suicídio e, assim, transformou-se  em um verdadeiro mito.

Um sonho para viver, um amor para cuidar

Aprendo que o maior defeito é o auto-engano,
o desespero diante de si mesmo.

No meu silêncio residem todas as possibilidades: verdades nunca ditas, lágrimas guardadas e sorrisos que aguardam os dias e os motivos certos. Aqui, nem sempre tudo é alegria, também não é só saudade ou melancolia.

Já foi. Hoje busco me reconstruir limpando os medos e os demônios que alimentei.

Aqui e ali há de se ter um sonho para viver, um motivo para rir e um amor para cuidar, de preferência, em primeiro lugar, o amor próprio.

Não é que eu não tenha medo, angústia ou viva em fantasias incoerentes com o que é real. Trata-se, bem mais, de coerência, de aceitar o que é e tentar o que pode ser e me faz bem. “- Permita-se!”; ecoa no meu silêncio inquieto o grito da vontade e potência.

E assim, ouvindo-me em meu silêncio, reaprendo a falar e a ser. Aprendo a escolher o que deve ser dito, feito, silenciado ou desfeito. Aprendo que o maior defeito é o auto-engano, o desespero diante de si mesmo.

Aprendo que não sou um super-homem, mas que também não sou o vilão. Aprendo que não é uma guerra, é apenas a vida se entregando entre silêncios e ruídos, entre o que posso ou não.

Outras anotações da vida em marcha

Com muitas oportunidades fluidas, arcabouços da imaginação, deslizava olhares entre a multidão. Os seres, perfilados em aguardo contínuo, identificavam-se pela diferença.

Nativos, estrangeiros, estranhos e indefinidos, buscam na arte um abrigo para o espírito intangível de si mesmos. As diferentes matizes epidérmicas, as estaturas variadas, os olhos em diversos ângulos terminados, as vestes multicores, os “pseudomono” sempre poliamores, os veículos em ruídos desafinados e os transeuntes móveis, tudo e todos, parados.

Teria a arte, em traços, estagnado o aparente movimento ou tudo flui em mudança perpétua? Não sabia dizer.

O olhar, detido em esguio corpo da qualidade do de Vênus, lia nos lábios o que é uno entre o múltiplo, o que é real entre o imaginário, o que é estanque entre o móbil, o que é sabido entre o ignóbil.

A fila seguiu marcha e, outra vez, mais uma oportunidade foi perdida ou ganha porque sempre haverá algo mais oportuno para justificar a decisão.

De quem aceitar críticas

“A coisa mais difícil do mundo é
conhecermo-nos a nós mesmos e o
mais fácil é falar mal dos outros”
(Tales de Mileto)

Ao acessar o Facebook deparei-me com um destes pensamentos que faz a gente reagir rápido e impulsivamente. Sem pensar, compartilhei frase que diz: “não aceite críticas de quem não conhece suas lutas”.

Desde então, fiquei preocupado com o impacto que esta suposta verdade pudesse provocar em mim e nos outros. Por conta disso, proponho esta reflexão.

Minha história, como as histórias de tantos outros lutadores e lutadoras, é permanentemente perseguida, difamada e mal interpretada. Quem se coloca na defesa dos mais pobres e excluídos desta terra sabe o preço que paga por suas posturas e convicções.

Parece verdadeiro que só pode criticar quem conhece as minhas lutas. Que quem não conhece as lutas da gente não tem mesmo como nos criticar. Que as críticas aceitáveis podem partir somente de quem faz parte de nossos círculos, grupos ou lutas.

Após um período de ponderação, dei conta que nem todos aqueles com os quais me relaciono conhecem a minha história. Pensei que, talvez, aqueles que não conhecem minhas lutas seriam capazes de uma crítica que me ajudasse a crescer ou reavaliar minhas convicções ou posicionamentos. Pensei e concluí que a crítica pode ser importante, dependendo da intencionalidade de quem a comunica e da interpretação de quem a recebe.

Não é fácil aceitar críticas, venham elas de quem vierem. Vivemos numa sociedade avessa aos verdadeiros elogios, onde as críticas são poderosas ferramentas que usamos para destruir a reputação ou a história dos outros, sem escrúpulos. Por isso mesmo, temos dificuldades para entender a perspectiva construtiva de uma crítica.

As críticas, no entanto, quando dirigidas com a intenção de ajudar e melhorar a vida da gente, podem ser importantes para nos compreendermos sujeitos aprendentes, inacabados e incompletos.

Dos que nos são próximos, esperamos mais “bajulação” do que críticas. Dos estranhos, temos pouca ou quase nenhuma disposição de ouvir qualquer crítica ou opinião. Conclusão: não temos a cultura de ajudar e colaborar com os outros, oferecendo-lhes sinceras ponderações e pensamentos.

Não somos ensinados a ouvir o que os outros nos dizem.  Preferimos, então, viver sem a pressão e o incômodo de nos avaliar. Preferimos pensar que não precisamos mudar a partir dos outros. No máximo, mudamos com as aprendizagens duras da vida.

As críticas construtivas são aquelas que ajudam a crescer. Aperfeiçoar-se e humanizar-se são desafios humanos grandes e permanentes.

O brasileiro silencioso

O brasileiro quieto está acovardado
e tenta se convencer de que deve
se orgulhar da sua covardia.


Antes do golpe, muita gente ficou calada com o argumento de que não acreditava no êxito dos golpistas. Quando o golpe se consumou, continuaram quietos, porque imaginavam que aquilo não iria durar muito.

Quando prenderam Lula, os quietos aquietaram-se ainda mais, como se aquele fosse um drama do PT, até porque alguns diziam que Lula logo seria solto.

Quando Bolsonaro levou a facada e disparou nas pesquisas, teve gente que não acreditou no que iria acontecer, e preferiu de novo não se mobilizar contra nada, não abrir a boca, não palpitar, porque era preciso esperar.

Bolsonaro se elegeu e os quietos continuaram silenciosos, porque a situação era confusa, os interesses não estavam bem claros, a família estava dividida e o país seria salvo por algum milagre.

Quando Sergio Moro decidiu participar do governo e confirmou-se o golpe do Judiciário, como todo mundo previa, os silenciosos ampliaram seus silêncios, porque Moro era o guru da classe média ressentida e poucos tinham coragem de questionar o juiz caçador de corruptos.

Bolsonaro, Moro, os milicianos, Queiroz, os filhos de Bolsonaro, os armamentistas, os desmatadores, os grileiros, o agronegócio, os fabricantes de veneno, os assassinos de Marielle, os destruidores da educação, os adoradores de torturadores, todos eles se apoderaram do país.

E os quietos estão cada vez mais encaramujados. Os quietos são, pela quietude, parte do conluio.

Os silenciosos manejam a pior das políticas, a política do drible, do negaceio, do não-sei-nada-disso, do me-deixa-fora, do isentão e do isentinho que têm mil desculpas para não dizer e não fazer nada.

O brasileiro silencioso, acomodado na sua mudez, é o pior dos bolsonaristas, porque sua aparente neutralidade apenas fortalece a extrema direita.

O sujeito quieto, que se omite diante de todas as questões postas pelo bolsonarismo, é mais cúmplice da destruição do país do que os que aliaram ao golpe de 64 de peito aberto, como a maioria dos adesistas fez.

O omisso tenta ficar encoberto pelas próprias desculpas. Muitas vezes, domina a família, alguns amigos e até orienta posições onde trabalha. A posição dele é não ter posição, e aí é que está a posição do quietão dissimulado.

O silencioso é o colaboracionista que, como fizeram na Paris ocupada, recolheu-se ao seu acovardamento porque não queria se indispor com o entorno que havia virado nazista.

Mas hoje o cara isentão e omissão não chega a ser alguém com medo, que teme perder emprego, amigos e a admiração da direita, Ele é na essência um acomodado no desconforto geral. O desalento dos que estão na volta aprofundam sua acomodação.

O omisso vive das sobras da desgraça geral, porque ele não é da elite, não é rico, mas flana entre os que se beneficiam da desgraceira como se fosse um deles.

O silencioso se apresenta como um ser acima dos dilemas postos pelos entreveros políticos, como um cara com sabedoria superior. O brasileiro quieto está acovardado e tenta se convencer de que deve se orgulhar da sua covardia.



Há, sim, um silêncio que pode unir toda a humanidade. Mas, este não é o silêncio dos brasileiros diante de tantos desmandos no país.


O objetivo do bestialógico?

Enquanto se travam inúteis  discussões 
sobre  as necessidades  fisiológicas,
as decisões políticas  e burocráticas 
selam o destino dos recursos oficiais.

Em governos autoritários, os encarregados da propaganda sempre procuram  aperfeiçoar-se  na arte  da empolgação e envolvimento  das “multidões”  através  das mensagens políticas.

Nesse tipo de discurso, o significado das palavras  importa pouco, pois, como afirmou  Goebbels, ministro da propaganda nazista, “não falamos  para dizer  alguma coisa,  mas para obter  determinado efeito”.

Diante do bestialógico de Bolsonaro, no qual fica  evidente que lhe  falta não apenas  tirocínio, mas  também  senso moral; de suas  respostas  desmedidas, grotescas e agressivas  que revelam traços  psicopáticos  e um completo despreparo  para ocupar o cargo  de mandatário maior do País, perguntei  a meus  botões:

Tal postura faz parte de uma  tática  ou Bolsonaro  está mostrando o que  sempre foi, isto é, um  completo ignorante?

Como deputado, fez parte do chamado “baixo clero”,  formado por políticos medíocres  e irrelevantes. Como militar, deixou a tropa  depois de dois episódios  de ativismo  e indisciplina.  Referindo-se ao ex-capitão, o ex-presidente  Ernesto Geisel classificou-o  como “um mau militar”.

Intelectualmente, é sofrível. Submete a língua portuguesa a uma interminável sessão de tortura. Faz apologia de crimes contra  a humanidade  como se recitasse  um poema. Também não se espere que aprecie um bom livro.

Para alguns, entretanto, a pauta escatológica esconde, na verdade, outras  sujeiras, como  Itaipu.  Isto é, enquanto o Presidente chama atenção para assuntos banais – o cocô dia sim, dia não – por exemplo,  o governo toma decisões  que envolvem negócios  milionários, às vezes,  suspeitos.

Os feitos do governo  se materializam, efetivamente, em despachos  que formalizam  a aplicação de verbas públicas  e os negócios no setor privado.

Nesse ponto, enquanto se travam inúteis  discussões  sobre  as necessidades  fisiológicas, as decisões políticas  e burocráticas  selam o destino dos recursos oficiais.

Um tema obscuro, por exemplo, é o acordo firmado em maio entre os governos  do  Brasil e do Paraguai  sobre  a energia  elétrica de Itaipu. A revelação de  bastidores  das negociações  derrubou  autoridades do país  vizinho  e abalou o mandato  do presidente, Mario A. Benítez. Qual teria sido a razão?

No caso, a mídia paraguaia envolve  a empresa  brasileira  Leros,  ligada  à  família  Bolsonaro, segundo o noticiário.  O MP está investigando a negociação.

Tem mais.  Bolsonaro quer legalizar os  garimpos e a exploração de terras indígenas. É um mundo  de dinheiro fácil e volátil. Abrem-se oportunidades  para privilégios e negócios  escusos.

Nota-se risco de privilégio, igualmente, na  atuação  da representante  de mais de  200  faculdades  particulares, Elizabeth Guedes, irmã  do ministro Paulo Guedes. Ela é membro da ANUP  ( Associação  Nacional das Universidades  Particulares) e tem acesso facilitado  ao gabinete  da Esplanada.


Estaria Bolsonaro usando suas  manifestações  bizarras, insanas como  uma espécie de nuvem de  fumaça  para esconder  da opinião pública “tenebrosas transações”, como cantou Chico Buarque no antológico  samba Vai Passar?   Veja mais aqui.

Vamos   dar tempo  ao tempo  e fiquemos alertas. Como ensinou José Saramago, “a pior cegueira é a mental,  que faz  com que não reconheçamos o que temos pela  frente”.



Artigo baseado em matéria da plataforma Metrópoles. Conheça mais clicando aqui

“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”

Este é o tema que o Papa Francisco escolheu para o Sínodo Especial dos Bispos da Igreja Católica, que acontecerá em Roma, no mês de outubro de 2019. Espera-se que esta assembleia seja um grande exercício de escuta recíproca entre o Povo de Deus e as autoridades da Igreja.

Para a Igreja Católica, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito: um grito que brota da escravidão e do abandono e clama a Deus por liberdade e escuta e pede a presença libertadora de Deus, especialmente no momento em que os povos amazônicos enfrentam a destruição da floresta tropical, as águas de seus rios são deterioradas e envenenadas, e seus protestos e lutas são criminalizados pelas autoridades e pela opinião pública (Doc. Sínodo § 8).

Por isso, este Sínodo Especial tem o objetivo de descobrir e propor novos caminhos para desenvolver o rosto amazônico da Igreja e enfrentar as situações de injustiça da região, como o neocolonialismo praticado pelas indústrias extrativistas, pelos grandes projetos que destroem sua biodiversidade e pela imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos (Doc. Sínodo § 12).

Mesmo contando ainda com um pequeno número de missionários na região amazônica, os Missionários da Sagrada Família querem participar ativamente desse mutirão de conscientização que envolve a Igreja do mundo inteiro, e este Calendário Vocacional e Missionário é uma forma de responder ao apelo do Papa Francisco.



Nos nove países que compõem a Amazônia vivem mais de três milhões indígenas, agrupados em 390 povos e nacionalidades, e mais130 povos que decidiram viver isolados. Cada um desses mais de 500 povos tem uma identidade cultural particular, uma riqueza especí_ ca e um modo próprio de ver o mundo e de relacionar-se com ele. (Doc. Sínodo § 3).

A espiritualidade da missão na Amazônia deve assumir o estilo de Jesus: simples, humana, dialogante e samaritana, que permita celebrar a vida, a liturgia, a Eucaristia, as festas, sempre respeitando os ritmos próprios de cada povo. (Doc. Sínodo § 15).

A evangelização nos convida a trabalhar contra as desigualdades sociais e a falta de solidariedade mediante a promoção da caridade e da justiça, da compaixão e do cuidado do ser humano e de toda a criação. (Doc. Sínodo § 8).

Há um mistério a contemplar numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. Quem sabe contemplar o que há de bom nas coisas e experiências do mundo descobre a íntima conexão de todas essas coisas e experiências com Deus. (Doc. Sínodo § 10).

A família é e sempre foi a instituição social que mais contribuiu para manter vivas as nossas culturas. Em períodos de crises passadas, face aos diferentes imperialismos, a família dos povos indígenas foi a melhor defesa da vida. (Doc. Sínodo § 6).

Os missionários, sejam eles nativos ou vindos de fora, precisam desenvolver uma espiritualidade de comunhão e aprender juntos a acompanhar as pessoas, escutar suas histórias, participar de seus projetos de vida, partilhar sua espiritualidade e assumir suas lutas. (Doc. Sínodo § 15).

A região amazônica é uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, pois guarda 30 a 50% da flora e fauna do mundo, 20% da água não congelada de todo o planeta, e mais de um terço das florestas primárias da terra. (Doc. Sínodo § 1).

Tanto os missionários nativos como os que vem de fora precisam cultivar a espiritualidade da contemplação e da gratuidade, sentir com o coração e ver com os olhos de Deus os povos amazônicos e indígenas. (Doc. Sínodo § 15).

Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental e um compromisso básico dos direitos humanos. Para a Igreja, esse compromisso é um imperativo moral coerente com o enfoque da ecologia integral. (Doc. Sínodo § 5).

A riqueza das matas e dos rios da Amazônia está ameaçada pelos grandes interesses econômicos, que provocam desmatamento indiscriminado e a contaminação dos rios, lagos e afluentes, colocando em risco a sobrevivência dos povos originários. (Doc. Sínodo. § 2).

A ação evangelizadora na Amazônia não pode ignorar o cuidado e a defesa do seu território (natureza) e de seus povos (culturas), e precisa estabelecer pontes entre os saberes ancestrais e os conhecimentos modernos. (Doc. Sínodo § 9).

O evangelizador deve apoiar projetos que desenvolvam e sustentem relações vitais com os outros, com a criação e com o Criador, e isso supõe a escuta atenta do clamor dos pobres e da Terra. (Doc. Sínodo § 8).





Sínodo para a Amazônia
Amisafa (Ação Missionária da Sagrada Família)
MSF (Missionários da Sagrada Família)

Professores sob ataque

Nós, professores, continuaremos resistindo a
qualquer espectro ideológico, para que a
liberdade de pensar livremente, por mais absurdo
e contraditório que isso possa soar para alguns,
esteja sempre contemplada.


O episódio ocorrido recentemente no Colégio Marista Rosário, em Porto Alegre, envolvendo alunos, pais e um professor de Sociologia, revela que o obscurantismo ultrarreacionário de segmentos da direita em torno do discurso dogmático da Escola Sem Partido, continua sem o mínimo acanhamento a incitar a perseguição a professores.



Mas não são as crianças e adolescentes que violam as regras de compartilhamento de imagem de menores e de aulas de professores(as), adultos também o fazem e são os principais responsáveis pela viralização de vídeos dessa natureza em grupos escolares de Whatsapp, como nesse caso. (Aline Kerber, presidente Associação Mães e Pais pela Democracia)

Ensinar meninas e meninos a pensar por si mesmos é, na visão dos conservadores, algo impensável. Quem trabalha em escola sabe que famílias ( e professores ) conservadoras sempre existiram, que educação sexual, sobre racismo, diversidade, sempre os escandalizaram. Isto sempre foi muito natural nas escolas.

Entretanto, quando essas coisas deixam de ser consideradas naturais e passam a serem vistas com repúdio e desconfiança, é sinal de que a escola está sendo disputada por dentro. Há, então, um evidente sinal da tentativa de imposição de um pensamento único.

A escola é o local do pluralismo de ideias. Os defensores da Escola Sem Partido, na verdade, defendem um projeto educacional escancaradamente autoritário. Estes não tem o mínimo acanhamento de incitar a perseguição a professores e de se colocar como cruzados de uma guerra contra a liberdade de expressão.

A postura destes pais segue a linha do ministro da Educação Weintraub com seu comportamento de comediante frustrado de esquetes bobocas.

Ao saírem com faixas dizendo “Marista, sim. Marxista,não”, simplemente estão afirmando, contraditoriamente, que uma ideologia pode e que a outra não. Seria o caso de retrucar com “Marista, sim. Fascista, não”?

Sussurrei a meus botões: terão estas pessoas perdido de vez a capacidade de produzir sinapses no cérebro. Estaria este órgão adoentado e fragilizado pelo veneno diário de uma direita reacionária e pré-medieval?

A história mostra como sociedades com tendências totalitárias e autoritárias sempre atacaram a liberdade de pensamento. A luta pela educação, é preciso entender, não tem lado.

Educar para libertar, para formar cidadãos mais autônomos, é projeto que concede à escola o local que, de fato, ela merece. Já decorar hinos, fazer desfiles e registrá-los visualmente não forma pessoas mais prontas para a prática dos valores de cidadania, como muitos querem nos dias atuais.

Nós, professores, continuaremos resistindo a qualquer espectro ideológico, para que a liberdade de pensar livremente, por mais absurdo e contraditório que isso possa soar para alguns, esteja sempre contemplada.

Precisamos recuperar nossa inteligência, voltar a praticar a reflexão autônoma que é chave de tudo que a raça humana produziu de bonito e distinto na vida da espécie. Afinal, como assevera o sociólogo Jessé Souza, “tudo que foi feito por gente também pode ser refeito por gente”.



“À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver”.

Amizade, amor e afetos

O cuidado, como algo essencial e que constitui
a nossa condição humana, deve ser resgatado
se quisermos devolver à humanidade o
verdadeiro sentido da existência.

Nossa civilização “encaixotou” o afeto. Sim, logo o afeto que nos estimula a criarmos as condições para nossa plena realização humana.

O ser humano é um ser em construção e que, por isso mesmo, demanda e exige investimentos afetivos a vida toda. O cuidado, como algo essencial e que constitui a nossa condição humana, deve ser resgatado se quisermos devolver à humanidade o verdadeiro sentido da existência.

Em nossa trajetória humana, não sobrevivemos se não somos bem cuidados.

 Somos, na escala dos seres vivos, os mais dependentes de todos. Saímos da barriga da mãe, caímos nos braços de uma família. Aos poucos vamos crescendo e nos integrando aos grupos sociais da escola, da vizinhança, dos amigos, dos colegas de trabalho.

Cada fase de nossa vida, exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar, da gente e dos outros. E, somente juntos, promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos, a necessidade de nela sermos aceitos, queridos e promovidos.

A necessidade do cuidado e as carências afetivas, próprias do ser humano, não significam atestado de fraqueza humana. O que nos torna fortes, capazes de superar as nossas maiores contradições, é a nossa capacidade de encarar nossos limites e carências, pois estas nos despertam para o crescimento e discernimento pessoal, afetivo e social.

Como seres de e em relação, os outros são aqueles que, através da convivência, nos permitem imensas possibilidades de autoconhecimento.

Nossos relacionamentos afetivos e sexuados sempre carregam as marcas da sexualidade que nos compõe. Por isso, “o amor é a necessidade gostosa do outro. Fala-se em complementariedade, porque não somos felizes voltados sobre nós. Uma pessoa que admiramos carrega dentro dela uma ternura que nos faz bem”.

As amizades, relações que comungam de partilha, de compreensão, de doação, de gratuidade, de mútua ajuda e confiança são oportunidades que muitos constroem por acreditarem que a sua realização, como pessoa humana, depende da integração, convivência e complementariedade a serem construídas com os outros. São também, excelentes oportunidades de vivenciar a doação.

“O amor é doação. Tudo o que contradiz a doação, machuca. Ninguém é mais do ninguém, porque na doação todos somos iguais e temos a mesma vocação. É neste ser-doação que mora o divino de cada um”.

Redescobrir-se como um ser em permanente relação com os outros pode ser a grande contribuição que cada um, individualmente, pode oferecer para a elevação de uma nova consciência de humanidade. Reconhecer e vivenciar valores como a solidariedade, a amizade, o amor, a partilha, a alteridade pode nos possibilitar um mundo onde existam menos violentos e menos violentados.



A vida de Nita Freire, pedagoga e viúva de Paulo Freire, transita por duas palavras: amor e educação. Nesta entrevista, ela refaz os dois trajetos nos 20 anos de morte do célebre educador brasileiro.

A solução duradoura para os problemas de convivência social não passa pela construção de novos presídios, pela propagação de mais ódio e violência e nem pelo endurecimento de nossas leis.

A cura dos nossos males está na promoção da vida e da humanidade, através do cultivo do amor e do afeto. E na promoção da justiça. Está em nós. Romantismo? Não. Crença na minha e na tua possibilidade de fazer a diferença, enquanto seres que ainda acreditam na força do amor, da compaixão e da amizade.

Repare que cada dia que amanhece é sempre um convite para você crer que o amor cura e o abraço salva. A humanidade pode se salvar se viver o verdadeiro amor.

Semântica de Pai

Pai é uma epifania, aparição de ternura e fortaleza
circundada por recordações das quais é próprio fio.

O pai não é uma imagem racionalizada. Pai é teia de recordações das quais é o próprio fio. Freud diria que o pai habita o superego, cria limites, vigia a consciência; instala-se na cultura como Deus, as leis, o Estado.

Para mim, pai é uma teia de recordações das quais é o próprio fio. Um bichinho-da-seda na memória começa a fazer camisas, calças, mantas, cobertas. Inventa casas, ruas, cidades. Transbordamos o pátio com rolos de fios. Quando nos damos conta, fizemos boa parte do mundo.

O pai não é um guarda noturno. O pai é um acendedor de velas.

Ao sairmos à rua, acende uma vela e vela o seu fogo. Quando a cera se acaba, ou a querosene enxuga o pavio, ele providencia o sustento. O fogo vigiado pelo pai tem características mágicas. Aceso em casa, ilumina nossos passos onde estivermos. Ao regressarmos, neste tempo de luzes elétricas, eis lá as velas acesas dentro do pai. Quer dizer, acabamos por saber que ele mesmo é uma chama inapagável, inabalável.

O pai não está atrasado no tempo. O pai, na verdade, foi morar num tempo não chegado ainda. Um dia lá atracaremos. O ser humano, ao tornar-se pai, toma uma máquina do tempo, parte para o futuro, lá ergue sua casa, esperando os filhos chegarem para pedir conselhos.

Quando os filhos chegam no futuro, descobrem que seu pai já partiu para o outro lado do tempo.  Então, será preciso arrepender-se. Se eles soubessem dessa constituição da vida, teriam pedido conselhos agora. Mas agora seu pai é obsoleto.

Para os que aprendem a lição, as coisas se resolvem sendo eles mesmos pais no momento em que chegarem ao futuro. Tornam-se pais conselheiros para que aos filhos não escasseiem os rumos.



“Meu pai também comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros, para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me tantas coisas, demonstrando especial atenção aos valores do trabalho, do amor e a da fé”. (Nei Alberto Pies)

O problema é que, na paternidade, sem saber, tomaram a máquina do tempo e já estão mais à frente. Tudo recomeça.

O pai não é alguém quase sempre errado. Pai sempre está errado. Seu primeiro erro é crer em nossa compreensão. Engana-se. O segundo erro do pai é crer em sua argúcia e convencimento. Ilude-se. Todo pai pensa que seu filho é tão vivido quando ele, sabedor do sentido oculto das coisas.

Pai não é razão. Pai é fogo de velas. Pai é mistério do tempo. Pai é ânsia de explicar e convencer. Daí se deduz: Pai é uma epifania, aparição de ternura e fortaleza circundada por recordações das quais é próprio fio. O que a gente tem de fazer é ficar contemplando, sem perguntar se Freud tinha ou não razão, se Freud teve um pai ou era clone.



“Não importa o tipo de pai que você tenha. E não espere o tempo passar.  Se você tem vontade de fazer algo, tome essa atitude simples. Dar um beijo. Um abraço que nunca deu por timidez ou vergonha. O carinho não pode esperar. O tempo não para pra você decidir fazer depois. Mate a saudade. Ligue de um desejo de bom dia. Vá visita-lo. Diga um eu te amo!” (Laércio Fernandes dos Santos)

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