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Mais armas: mais violência

Há um culto às armas e à violência como
uma espécie de símbolo do poder.
Estima-se que nos próximos 3 anos,
tripliquem-se as armas em circulação no Brasil.

O massacre de Suzano está trazendo à tona a polêmica questão sobre a flexibilização concedida para a posse de armas e, futuramente, como defendem os mais afoitos, o seu porte.

A alegação dos defensores de tais medidas se baseia nos altos índices de violência e criminalidade verificados no país e o direito de o cidadão armar-se para se proteger.


O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, disse que armas não servem só para matar e comparou o objeto a um automóvel, ao comentar o ataque ocorrido nesta quarta-feira (13) em Suzano (SP).

O liberal defende, em síntese, a posse, e até o porte de armas, em nome do princípio absoluto da liberdade individual.

Ao defender o uso de armas de fogo pelos chamados “cidadãos de bem”, via de regra evoca o direito à defesa, à proteção de seus entes e propriedade e a suposta segurança na sociedade que resultaria do fato de haver pessoas armadas dispostas a reagir quando necessário.

É preciso lembrar, entretanto, que isto não se harmoniza com os valores conquistados pela humanidade ao longo do processo civilizatório.

Segurança pública, saúde e educação, passaram a ser dever do Estado e direito do cidadão, à medida em que a sociedade foi se estruturando.

É uma contradição defender a vida estimulando a circulação de um instrumento cuja única finalidade é a morte. Mais: a bandidagem costuma tomar armas até da polícia. Irá se fartar tirando revólver de usuário incauto.

Como teria chegado às mãos de um dos jovens assassinos de Suzano, o revólver que utilizou para matar estudantes inocentes?

Flexibilizar a posse de armas foi um erro em uma época de ódio, arbitrariedade e de “criança fazendo arminha”.  Há um verdadeiro culto às armas e à violência como uma espécie de símbolo do poder.

Na verdade, o governo trata de forma superficial o sintoma de um problema complexo, que é o da falência da segurança pública.

O líder do partido do governo no Senado, Major Olímpio, levianamente, disse que se os professores e funcionários da escola estivessem armados, poderiam ter evitado a tragédia. Escola é lugar de livros, não de armas!

As perspectivas são desastrosas. Externei aos meus espantados e fiéis botões sobre o que poderá acontecer no futuro, em termos de violência doméstica ou de massacres à moda dos Estados Unidos. Um deles, não deixou dúvidas: mais armas, mais violência!

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Militarização no governo Bolsonaro?

Esse estranho binômio, a força da influência familiar
associada à pressão dos militares, por mais iluminados
que ambos se revelem, corre o perigo de
produzir filhos abortivos em série.

Talvez seja cedo para afirmar se o governo Bolsonaro deva ser considerado um Estado militarizado ou corra o risco de sê-lo. Entre os ministros e secretários provenientes das forças armadas de um lado, e a família Bolsonaro, de outro, quem comanda a nave?

Duas sombras estranhas rondam os corredores e salas do Palácio do Planalto. Primeiro, verifica-se a crescente presença militar nos altos escalões do atual governo, o que é no mínimo preocupante. Claro que um alto representante do exército, aeronáutica ou marinha pode ter qualidades para exercer função no poder executivo. Mas é essa, em linha de princípio, a sua missão primordial?

O Brasil e o Cone Sul, entre outros tantos países ao redor do mundo, já passaram por governos de exceção em que as forças armadas tomaram o poder e o comando. Via de regra, tais experiências têm sido traumáticas, para não dizer trágicas. Conhecemos a trajetória, não raro truculenta e sangrenta, de numerosas ditaduras, oligarquias e totalitarismos. A tendência, nesses casos, é eliminar a intermediação da sociedade civil organizada, com suas associações, movimentos, igrejas, entidades, instituições e mobilizações. O mesmo ocorre com os canais, instrumentos e mecanismos de participação popular.

Nos casos mais duros, instala-se a censura aberta ou disfarçada nos meios de comunicação, na música e nas expressões artísticas em geral, chegando ao extremo de impor o recesso do Congresso Nacional, como de viu no famigerado Ato Institucional n° 5 (AI-5), de dezembro de 1968.

A outra sombra que tende a se infiltrar nas brechas do poder executivo refere-se à interferência da família Bolsonaro em momentos decisivos, como se verificou no “caso Bebianno”. O Secretário Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, foi exonerado pelo presidente após atrito com Carlos Bolsonaro.

Aqui entra em cena um conceito que vem dos tempos da monarquia, implantado no Brasil pelos colonizadores portugueses, encontrando aqui terreno fértil para germinar. Referimo-nos ao patrimonialismo.

De acordo com a definição dos dicionários, “sua característica fundamental é a de um Estado que não possui distinções entre os limites do público e do privado. Foi comum em praticamente todos os absolutismos”.

Sérgio Buarque de Holanda (em Raízes do Brasil), Victor Nunes Leal (em Coronelismo: enxada e voto) e Raymundo Faoro (em Os donos do poder) – entre outras – foram alguns dos estudiosos brasileiros que se debruçaram sobre o tema. Retomando tal conceito da tradição monárquica portuguesa, depois transplantado para o Império colonial, historiadores e sociólogos convergem em afirmar que o patrimonialismo constitui uma chave de leitura não só para ler o passado, mas também os estigmas e impasses presentes na trajetória política brasileira. Ou seja, governa-se a rex publica como se fosse patrimônio familiar.

As necessidades básicas da nação acabam por se confundirem com os interesses privados do senhor/coronel/doutor, a tal ponto que nem o governante, e tanto menos a população, sabem onde terminam umas e começam os outros. Os rumos e o destino da nação coincidem muitas vezes com o horizonte do corporativismo que reúne os proprietários privados. Disso resulta que quando os moradores da Casa Grande decidem fazer uma obra em benefício da Senzala – para usar o título do livro de outro estudioso, Gilberto Freire – tal obra, seja ela um hospital, uma escola, uma ponte, um açude, ou qualquer outra coisa, venha batizada com o nome de Fulano ou Sicrano de Tal.

Embora construída com os recursos do orçamento público, a obra ganha o caráter de ação privada. O patrimonialismo é o berço dos currais eleitoreiros e dos apadrinhamentos, além de fonte de votos.

Se, ao patrimonialismo privado, acrescentamos a militarização do poder, forja-se um casamento de consequências imprevistas e imprevisíveis. Esse estranho binômio, a força da influência familiar associada à pressão dos militares, por mais iluminados que ambos se revelem, corre o perigo de produzir filhos abortivos em série. Restar torcer para que tais pressentimentos não passem de pesadelo e esperar pelo melhor.


“Não é democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que buscam praticar e viver as ideias coletivas. Democrática é a sociedade que permite aos homens e mulheres realizarem-se em sua dignidade, preservando seu modo de ser, pensar e agir, individual e coletivamente”. (Nei Alberto Pies)
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Mito da caverna na atualidade?

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico,
se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam
e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem
apenas as ideias projetadas por outros.

Uma metáfora apresentada por Platão, no livro VI da obra “A República”, é conhecida como como Mito da Caverna. Trata-se de uma história para explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos, bem como do que seria necessário para atingir a verdade, o mundo real, baseado na razão, além dos sentidos e das aparências.

Nessa história, Platão divide a realidade em dois mundos. O primeiro é o mundo sensível, aquele experimentado a partir dos sentidos, onde reside a percepção falsa, a aparência ou as sombras da realidade. O segundo é mundo inteligível, que pode ser atingido apenas através das ideias ou dos exercícios da razão. Essa construção da Idade Antiga pode ser exemplificada por meio da frase proferida por Lula ex-presidente do Brasil, que antes de ser apresentar para ser preso afirmou: “Não sou mais um ser humano, sou uma ideia”.

A parábola platônica é um dos textos mais debatidos e conhecidos pela humanidade e se apresenta como uma ferramenta conceitual para explicar e diferenciar o senso comum de senso crítico.

Seguindo os ensinamentos de Sócrates, Platão indica que para atingir o mundo verdadeiro, o indivíduo deve exercitar o pensamento crítico e racional, transcendendo os limites dos sentidos básicos. De acordo com essa história, as pessoas que vivem em uma grande caverna, estão presas por correntes, que as forçam a estar fixadas com a olhar para as paredes em que estão projetadas as sombras.

Durante suas vidas, esporadicamente, algumas pessoas buscam se libertar das correntes, que aprisionam, restringem o conhecimento e o comportamento, ao mundo projetado por outros. Esses prisioneiros que se libertam, atingindo o conhecimento perfeito, compartilham as informações e experiências que existem para além do mundo projetado por outros, correm o risco de serem etiquetados como perigosos e criminosos.

Para evitar que as ideias perfeitas se disseminem, as pessoas que se libertam e compartilham a verdade devem ser condenadas, a exemplo do que aconteceu com Sócrates, que foi morto, para evitar a disseminação de ideias revolucionárias.

Deste modo, muitas pessoas tendem a ficar presas na caverna, com ideias pré-estabelecidas, sem buscar um sentido racional, evitando os perigos advindos da reflexão, preferindo o conforto e a segurança das informações que lhe foram oferecidas (comercializadas), por outras pessoas.

Ao aplicarmos a ferramenta conceitual disponibilizada pelo mito da caverna, entenderemos, por exemplo, que o judiciário é uma sombra da justiça. Além disso, perceberemos que as pessoas que limitam o comportamento, o pensamento e as análises sob as diretrizes institucionais do judiciário estão restritas e acorrentadas ao conhecimento imperfeito.

Essa ferramenta conceitual é útil e atual, representa as pessoas que preferem permanecer alheias ao pensamento crítico e não se comprometem com a construção da Justiça, aceitando as ideias e os conceitos que são impostos por um grupo que domina as instituições do judiciário.

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico, se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem apenas as ideias projetadas por outros.

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico, se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem apenas as ideias projetadas por outros.

Dia Internacional da Mulher

Foi só no século XIX que as coisas começaram a mudar.
Já no século XX as mulheres ganharam as ruas e
reivindicaram melhorias salariais e
redução nas jornadas de trabalho.

Por muito tempo, a mulher ficou restringida a uma imagem limitada e distorcida de si mesma. Ao longo dos séculos, identificar uma imagem positiva das mulheres na história da humanidade se tornou tarefa quase impossível.

Elas foram protagonistas de uma história marcada por dores, sofrimento, lutas e violência, devido, exatamente, à subordinação que através dos séculos, lhes foi imposta pelo machismo dominante.

Ao longo dos tempos o patriarcado determinou que as mulheres fossem inferiores e, portanto, submissas aos homens. A ideologia patriarcal colocou em oposição homens e mulheres, fundamentando-se na divisão sexual das tarefas e no controle da sexualidade feminina.

As mulheres não encontraram aliados no Renascimento. O Iluminismo, representou para as mulheres, a tão sonhada oportunidade de emancipação.

Às vésperas da Rev. Francesa, escritores e filósofos iluministas, exploraram a emancipação feminina nos seus programas políticos, reivindicando o direito à cidadania e valorização da mulher no mundo masculino. Ficou só no discurso.

Foi só no século XIX que as coisas começaram a mudar. Já no século XX as mulheres ganharam as ruas e reivindicaram melhorias salariais e redução nas jornadas de trabalho.

Em 1911, houve em Nova Iorque um incêndio na Triangle Shirtwaist Company, que vitimou criminosamente 146 trabalhadoras. A tragédia teria inspirado a criação do “Dia Internacional da mulher”.

No Brasil, a situação da mulher não foi diferente. Os desejos e sonhos femininos eram ignorados, as mulheres não eram ouvidas, ou melhor, sequer se manifestavam, pois eram educadas para o silêncio, a resignação e a obediência. Belas, recatadas e do lar.

Isto marcou a realidade do mundo feminino brasileiro durante séculos. Mas elas buscaram seu espaço até chegar a eleger uma mulher para a Presidência da República, vítima de um golpe torpe.

Agora, entretanto, na onda conservadora que atingiu a política brasileira, representada por um Presidente que transita entre o anedotário e a psicopatia, o patriarcalismo ressurge, com traços inequívocos de misoginia.

Entre o silêncio do passado e a nova polifonia, entre as esposas obedientes, a legião de executivas e as donas de casa, existe um histórico de rubores, proibições, censuras, violências, como o caso da vereadora Marielle – e uma longa batalha.

Foi um duro, espinhoso e árduo caminho percorrido pelas mulheres para consolidar sua afirmação. Não será um governo caracterizado pela intolerância e a misoginia, que as remeterá de volta a um passado de submissão.

Salve o Dia Internacional da Mulher! Salve as lutas das mulheres brasileiras!

Desafio atual no Brasil: compreender o Feminicídio, morte de mulheres pelo simples motivo de serem mulheres — em outras palavras, que tenha sido motivada por sua “condição” de mulher.

Os bons, os justos e os filhos de Deus

Só os verdadeiramente livres sabem amar,
perdoar e não julgar os outros.

A homilia do sacerdote, no Sétimo Domingo do tempo Comum (24-02-19), despertou-me para reflexão sobre como nos percebemos humanos. Neste domingo, a liturgia que sucede as bem-aventuranças, trata do modo como Jesus viveu e pregou um ideário de ser humano: capaz de amar, perdoar e de se abster de julgar os outros.

“O verdadeiro amor é doação”. Tudo o que contradiz a doação não é amor; pode ser interesse ou egoísmo.  Amar é ser capaz de desprender-se um pouco de si para compartilhar com os outros o que temos de melhor e de mais sagrado dentro de nós. Amar é também investir, apostar e acreditar que todas as pessoas podem ser melhores do que já são, cada uma a seu tempo e a seu modo.

O verdadeiro perdão significa sermos capazes de re-considerar tudo aquilo que nos atingiu negativamente; que advém dos outros e também de nós mesmos. Como perdoamos aos outros, também temos de nos perdoar. Só conseguimos perdoar a pessoa: não é possível perdoar o mal que ela fez. Perdoar as maldades dos outros seria como concordar com elas. O perdão é necessário muito mais para quem sofreu o mal do que para quem o praticou. Perdoar é uma necessidade para manter o espírito da gente em ordem e em paz.

Abster-se de julgar os outros é uma aprendizagem necessária para reconhecermos a nossa própria limitação. Quem sempre julga os outros não é capaz de avaliar as suas próprias fragilidades e fraquezas. Abster-se de julgar os outros não significa que não devamos empenhar esforços para corrigir alguém, amorosamente. O condenável sempre é o julgamento inquisitório.

A soberba não pode ser virtude de quem julga. Como ensinou um certo juiz de direito: “o meu julgamento de alguém tem de ser justo. Quem está sendo julgado, sabe, como eu, o que é justo ou injusto, certo ou errado. Se eu usar o poder de julgador para humilhar ou enquadrar moralmente o acusado, perderei minha autoridade e o meu reconhecimento. Se o critério para julgar for a justiça (não a vingança, a raiva ou o desejo de punição) poderei andar de cabeça erguida e de forma livre na rua, pois embora contrariado, o julgado saberá reconhecer que sua condenação foi justa e merecida”.

Amar, perdoar e não julgar podem ser conjugados e vivenciados cotidianamente e permitem vivermos a liberdade. Liberdade, esse sonho humano que, embora necessidade íntima e pessoal, só concretizamos na relação com os outros. Só os verdadeiramente livres sabem amar, perdoar e não julgar os outros.

A bondade e a justiça são medidas que muitas pessoas usam apenas em relações de reciprocidade. Muitos são bons e justos somente para com aqueles dos quais imaginavam receber de volta o que lhes oferecem. De forma interesseira e egoísta, julgam-se bons ou justos a partir de suas obras. Mas os filhos de Deus aprendem que a gratuidade, a misericórdia e o perdão nos conectam ao espírito e aos propósitos do Criador. Somente aqueles que fizerem este grande esforço de superação das tentações humanas colaboram para fundir o humano com o divino. Nada fácil, mas Deus convida!

Autor: Nei Alberto Pies

Matam os professores, aos poucos!

A maldita polarização política nos escolheu como doutrinadores, fanáticos, pedófilos, frustrados, massa de manobra e outros pejorativos.

Sou professor da rede pública estadual há 18 anos. A cada governo, implementam um novo modo de ver a educação. Nenhum tem sequência: conceitos, seminários, preparação para o trabalho.

Todo mundo quer palpitar na nossa profissão de uma maneira absurda como não vejo em mais nenhuma. Ninguém diz para advogados, engenheiros, médicos, como eles devem trabalhar, o que devem ler ou como conduzir suas rotinas.

A cada ano, mais arrocho, perda de poder aquisitivo, salários atrasados, parcelados, mais regulamentações, falta de profissionais melhor qualificados pois não há concurso.

A pressão psicológica sobre quem precisa de tranquilidade para formar os ditos cidadãos do futuro do país não chega às escolas: nas redes sociais, na mídia, tudo é vomitado contra nós.

“Educar sempre foi e será uma grande arte, um grande desafio, que sofrem influências de cada momento histórico. Neste momento histórico, o conceito de rede também pode ser aplicado aos desafios da educação, cada vez mais complexos, o que não permite quaisquer simplificação”. (Nei Alberto Pies)

Deixem a gente em paz, amparem que a gente precisa muito.

A maldita polarização política nos escolheu como doutrinadores, fanáticos, pedófilos, frustrados, massa de manobra e outros pejorativos.

E hoje chega mais uma paulada no RS: o fim da licença-prêmio, que eram três meses de afastamento remunerado a cada cinco anos, caso você não tenha faltas ao trabalho. E dava pra vender e conseguir uns trocos. Agora querem que seja licença-capacitação. “Mas só no serviço público tem isso!”, alguém dirá. Pois bem, no dito serviço público não tem FGTS, não tem dissídio.

Ah, nem a inflação, há tempos, é dada. Sabe as promoções? Também não.

“Procura outra coisa pra fazer!”, exclamam. Claro, diante das baixas condições de infraestrutura, penúria salarial e da enorme responsabilidade em educar quem chega com fome/frio/agredido/a pé/etc, quem você acha que vai querer ser professor?

Respondo: pobre que possa pagar a faculdade mais barata, a licenciatura com 50% de desconto, ofertada como fruto de fim de feira. Só para ter ideia, tem áreas que nem curso abre mais por falta de interessados. Geografia, por exemplo.

Meu, tem cada anta sendo contratada de qualquer jeito pra dar aula que eu tenho até vergonha de chamar aquilo de “professores”.

Nota: contratado e mesmo concursado que dá sua aula, com qualidade, não vai se ofender com o parágrafo anterior. O resto é carapuça.

Par quem defende “melhor ter algum emprego que emprego nenhum”, saibam que a teoria de o governo ter que pagar melhor por risco de ficar sem profissionais nunca vai acontecer, há sempre alguém desesperado que vai aceitar trabalhar por trocados. A educação de verdade desaparecerá.

Mas fique tranquilo, pais poderão, em breve, educar seus filhos em casa! E pais com qual formação/poder aquisitivo você acha que poderão fazê-lo?

Maioria dos pais da rede pública, sim, maioria, não sabe nem a turma do filho. No Ensino Médio não aparecem para reuniões ou pegar boletins. Mas já vi muitos deles palpitando sobre economia, política, blá, blá, blá, nas redes sociais. Santa Paciência, olhai por nós.

Maldita hora que partidarizaram Paulo Freire, a ponto das pessoas não quererem/conseguirem entender como ele denunciava que o oprimido tem sido educado como boi no pasto, sem questionar diante do opressor.


“Educar já foi instrumento de dominação e legitimação de violências – e isto está na base do muito do que somos. Já o conhecimento usado como ferramenta de reflexão, só pode ser transformador”. (José Ernani de Almeida)

Pausa pra explicar: opressor pode ser um governo com projeto de poder, um grupo empresarial ou de fanáticos religiosos, não necessariamente o rico, embora dinheiro, poder e sexo mandem nessa bagaça toda.

Gente, tá difícil. E se a gente reclamar, não pode fazer greve: é egoísmo nosso.

Pátria Educadora ou Brasil acima de tudo.


Autor: Douglas Pereto, professor.
Douglas Pereto, junto com Laércio Fernandes dos Santos, Clodoaldo Cirello Casagrande, Roberta Salinet e Janaína Britto de Castro, do Curso de Letras, e professor Eládio Vilmar Weschenfelder ajudaram a criar o Bando de Letras da UPF (Universidade de Passo Fundo).


Em defesa do amor

Defendamos o amor. Eu e você sabemos, o amor jamais é culpado.
Por amor se morre, mas jamais se mata.

Não sei de ninguém que tome suco de sal quando sedento. Tampouco conheço quem regue flores com água fervente. Contudo, muitos, por aí, acusam o amor de assassino, mandante de barbaridades. Não se trata daquela metáfora antiga para seduzirmos: teu amor me mata. Acusam o amor de pistoleiro e mandante do crime. Acusam o amor de assassino. Imputação absurda como a defesa de guerras justas.

A cada hora deste ano quinhentas mulheres sofreram algum tipo de violência. Muitas delas feridas de morte por maridos ou companheiros. A maioria após romperem um relacionamento. Ouvi da boca de alguns desses agressores ou assassinos a desculpa de que estavam motivados por uma emoção muito forte por causa do amor. Resumindo, a culpa era do amor, esse ser invisível. Segundo esses amorosos maridos ou parceiros, o amor apossara-se deles como um espírito obsessor, movera braços e punhos, pegara as armas e, em alguns casos, o amor é que havia estrangulado aquela mulher. Houve até um caso em que o amor jogou uma garota pela janela de um apartamento.

 Os agressores e assassinos pareciam falar com a mesma propriedade como Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos que ama”; como São Francisco: “Por amor deixei todos os bens e optei pela irmã pobreza.” Justificam-se como Tereza de Calcutá: “Por amor entreguei minha vida aos pobres e doentes.” Quem lhes deu autoridade para a profanação do amor?

Defendamos o amor. Eu e você sabemos, o amor jamais é culpado. Por amor se morre, mas jamais se mata.

Seja a defesa do amor a solidariedade, a caridade, a entrega e o perdão. Defendamos o amor pela prática do carinho, da ajuda, do sacrifício e da tolerância. Defendamos o amor pela alegria gratuita, pelo abraço dos amigos.

Defendamos o amor como o fazem as mães, como filho que prepara o futuro, como os pacificadores em qualquer canto, como Zilda Arns, como Dom Hélder Câmara. Falemos do amor como quem recolhe animais abandonados das ruas, como os bombeiros em Brumadinho, como os missionários em lugares remotos, como os médicos sem fronteiras, como os defensores dos direitos humanos, como os que morreram pela ecologia.

Principalmente, defendamos o amor em nossa família: trabalhando dignamente para ter uma casa bonita, grande e segura; sacrificando-nos para que os filhos tenham uma vida boa, façam faculdade, saibam três ou mais línguas.

Defendamos o amor construindo um muro real e simbólico ao redor da casa, para que a violência não entre. Mas tenhamos cuidado! Será que tantas preocupações com o mundo não nos farão esquecer o amor em sua pátria mais simples? De que adianta proteger-nos do mundo exterior quando há uma janela sem tranca no coração daqueles que nos rodeiam?

Há momentos em que o amor pode nos salvar. Sua defesa é imprescindível e deve ser ostensiva, para que o encontremos à mão quando preciso. Mas o amor verdadeiro se defende apenas pela prática, com exemplos efetivos a começarem no lar, cuidando as janelas do coração dos filhos, por exemplo. Jamais poderemos estar entre os sedentos tomando sal; ou entre os jardineiros com água escaldante em seu regador.

Estou aqui pensando se no lugar da excludente de culpabilidade “por violenta emoção”, que o ex-juizinho da República de Curitiba colocou no projeto milagroso, não seria melhor colocar um crime, com pena perpétua, para aqueles que falam que o amor move braços para agredir, punhos para esmurrar, que o amor pega armas para disparar, que o amor é um ser invisível e incontrolável no desejo de sangue.

Estão tomando o santo nome do amor em vão. Precisamos de providências urgentes. Especialmente para salvar meninas e mulheres.


“O amor extravagante sofre as intempéries, desgasta-se com a poluição, fica ao risco das pragas, e ao expores ao mormaço as raízes sem o esmero da sutileza causarás, embora indesejado, o seu ressecamento”. 

Os 40 anos da morte de Jango

Jango, na verdade, construiu uma intimidade com o povo, de estar ao seu lado, não querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irmão mais velho que ali estava.

Foi no dia 6 de dezembro de 1976, aos 57 anos, que faleceu João Goulart, o único presidente da República a morrer no exílio, impedido pela força e pela intolerância, de rever seu país. Foi seu esquife lacrado que veio para ser sepultado em São Borja, às pressas, tamanho era o temor e o medo que Jango, embora morto, incutia no regime militar.

Afinal, ele havia tentado fazer reformas básicas para que o Brasil se tornasse mais justo, era popular e bom de voto. Amir Labik, traça o perfil do ex-presidente: “Há uma definição de seu posicionamento ideológico que o classificou como um latifundiário com saudável preocupação social”.

Estes foram os seus crimes. Jango como Getúlio eram homens da tradição sul-rio-grandense mais profunda, da região missioneira tão sofrida, em que 300 mil índios foram assassinados ou vendidos no Nordeste como escravos, o que criou naquela população missioneira algumas características que se difundiram no sul-rio-grandense.

Características que tinham Jango e Getúlio: a capacidade de convívio, ainda que assimétrico, com as classes subordinadas, de tomar o chimarrão juntos, de viver conversando, de amanhecer e passar a manhã juntos, conversando. Jango tinha uma capacidade extraordinária de falar com o operário, com o lavrador.

Era um homem que gostava de ouvir. Hugo de Faria, no livro “João Goulart, uma biografia”, de Jorge Ferreira, afirma: “Foi um dos homens que eu vi ter mais paciência no mundo. Eu nunca vi um homem que tivesse tamanha capacidade e paciência para escutar e conversar dez horas sem ficar irritado”.

Jango, na verdade, construiu uma intimidade com o povo, de estar ao seu lado, não querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irmão mais velho que ali estava. Jango se fez sucessor de Vargas por méritos próprios.

Era um jovem estancieiro muito rico; engordava 20 mil cabeças de gado por ano. Suas terras se especializaram na “invernada”. Entre a compra do gado e o despacho por trem, tudo era muito rápido, na mesma velocidade dos lucros.

Podia continuar sua vida venturosa e bem-sucedida, mas o convívio com Getúlio o foi chamando para outras tarefas, uma tarefa que, segundo Darcy Ribeiro, “era o Brasil, era o trabalhismo, era os trabalhadores”. Jango agarrou a bandeira do trabalhismo e a levantou com dignidade, com honestidade a vida inteira.

Combinou com Getúlio dobrar o salário mínimo, que desde o Governo Dutra não tinha se alterado. Isso provocou raiva muito grande. Alguns coronéis se irritaram, como se ofendesse a eles o fato de um operário ganhar mais.

Jango nessa época ganhou uma grande bandeira de luta, mas ganhou, igualmente, uma odiosidade feroz, terrível, das velhas classes dominantes. Como Getúlio, Jango teve sua carreira política marcada por essas duas dimensões: o amor do povo e o ódio das classes dirigentes. Também coube a Jango estruturar o movimento operário, o movimento trabalhista brasileiro, uma vez que a liderança do movimento estava sendo disputado por comunistas, anarquistas e por Getúlio.

Hoje, quando o governo ameaça as conquistas históricas dos trabalhadores, Jango deve ser lembrado e servir de inspiração, como um dos maiores defensores dos direitos trabalhistas ao lado de Vargas.

Ao lembrar Jango, lembramos também do senso de democracia e de criatividade cultural. Foi no seu período que surge o movimento da bossa-nova, o movimento do cinema-novo, o movimento das canções de protesto, o movimento do teatro de opinião, que empolgavam toda a juventude.

 Em 1964 Jango achou que era possível enfrentar o latifúndio e a direita latifundiária. Suas Reformas de Base foram derrubadas pela aliança da direita com os norte-americanos obcecados com a Guerra Fria.

A mídia da época preparou o caminho para a sua queda desqualificando-o de toda a forma, de bêbado à comunista. O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo trabalharam arduamente para derrubá-lo do poder. Agora, em 2016, vimos que continuam os mesmos.

Jango foi um reformista com grande sensibilidade social. Um pacifista – em duas ocasiões evitou a guerra civil – e nas duas foi incompreendido. Foi, como disse Darcy Ribeiro, “derrubado por seus méritos e não por seus erros”.

Sua morte é cercada de mistério. Para o historiador Juremir Machado, no livro “ Jango, a vida e a morte no exílio” a hipótese de ele ter sido vítima da Operação Condor não procede. Jango morreu em função de um ataque cardíaco fulminante.

Fronteiras militarizadas

A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos
pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um
espelho vivo do grito pela justiça e pela paz.
Mas a teimosia do lucro e do poder
bate-se com a teimosia pela vida.

No momento em que escrevo estas linhas, duas fronteiras estão fechadas pelas forças militares: em Tijuana, o limite entre o México e os Estados Unidos; em Cúcuta, o limite entre a Colômbia e a Venezuela. Em maior ou menor grau de militarização, há outros confins entre países em idêntica situação. Essas duas, porém, chamam a atenção tanto pelas diferenças que apresentam quanto pelas semelhanças implícitas ou explícitas. Vozes silenciadas e silêncios gritantes se batem contra muros de indiferença e desinteresse.

Em ambos os casos – Tijuana e Cúcuta – o muro visível ou invisível separa multidões famintas de um sonho e de uma oportunidade. Nas duas situações, escancaram-se as portas às assimetrias estridentes e disparidades socioeconômicas que dividem e separam povos e nações.

Em ambas as fronteiras, surge nítida a ponta do iceberg que revela o acúmulo simultâneo da renda e da riqueza, de um lado, e da exclusão social, de outro. Os motivos que levaram ao fechamento e à presença do exército não são os mesmos, claro, mas suas consequências convergem para o sofrimento anônimo de milhões de seres humanos. Incongruências, contradições e conflitos de um planeta ao mesmo tempo tão rico e tão pobre.

No pano de fundo desse cenário de precariedade, três tipos de personagens tecem fios que se cruzam e recruzam: “os donos do poder” (Raymundo Faoro), os gigantescos conglomerados empresariais e os migrantes/refugiados.

Comecemos com os gigantescos conglomerados transnacionais. Sejam seus interesses ligados à extração e comercialização do petróleo e derivados, ao controle militar da região amazônica, à extração de minérios ocultos no subsolo, à possibilidade de criação de gado, à fatia rendosa das telecomunicações ou à produção e venda de armas – a verdade é que a lei férrea do Sr. Mercado Total, com sua “mão invisível” (Adam Smith), manda e desmanda, através de seus agentes secretos ou em plena luz do dia.

Depois, entre “os donos do poder” e tais companhias que atuam na rede capilar da economia globalizada, não são poucos os interesses que trilham as mesmas vias e seguem os mesmos horizontes. Num quadro onde o corporativismo histórico e estrutural reveste-se com as roupas de um nacionalismo populista de direita, os interesses se mesclam e se confundem.

Os limites entre as necessidades básicas da população e os privilégios e benesses privados tornam-se fluídos. Tudo se vaporiza e se volatiza. Uma legislação ambígua e frequentemente descumprida acaba legitimando falcatruas e “maracutaias”. Comanda a tirania bruta do ditador, junto com seus dois leões de chácara: o poder judiciário e as forças armadas.

Os migrantes/refugiados, enfim, batem com a cara no muro. Uma vez mais, a porta encontra-se cerrada, hermeticamente cerrada. A dura e longa travessia foi improvisamente interrompida na reta de chegada.

Sejam os venezuelanos que tentam buscar trabalho e pão nos países vizinhos, como a Colômbia e o Brasil, sejam os latino-americanos que correm atrás da esperança de um futuro mais promissor na América do Norte – vêm seus sonhos esfacelados contra o arame farpado e os soldados armados. A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um espelho vivo do grito pela justiça e pela paz. Mas a teimosia do lucro e do poder bate-se com a teimosia pela vida.

Em meio a esse campo minado de choques entre urgências e interesses, tenta atuar a chamada “ajuda humanitária” – a qual, se é verdade que tem aparência e gestos de uma ação realmente humanitária, também é verdade que, consciente ou inconscientemente, de um ponto de vista político e econômico, esconde uma série de ambiguidades. Perguntas: quem acumula maior parte das responsabilidades (ou irresponsabilidades)? Onde vai parar tudo isso, seja num caso como no outro?

Em termais mais gerais, que sociedade tais situações revelam e que sociedade necessitamos construir? Como encontrar linhas de ação comuns e metas viáveis e possíveis e como somar as forças de esquerda? Perguntas que não têm resposta imediata, mas impõem priorizar desafios e perspectivas.

Igreja Católica como inimiga

Nós, que nunca fomos bafejados pelos
valores do Iluminismo e da Revolução Francesa,
estamos vivendo um momento de
assustador retrocesso político.

O governo Bolsonaro que está mais para circo ou manicômio, acaba de eleger mais um inimigo: a igreja católica. E isto, em função do Sínodo da Amazônia, encontro marcado para outubro, no Vaticano.

Será um encontro em que estarão em pauta temas sobre como melhorar a ação católica na região e a defesa da floresta e dos povos dali, como indígenas, ribeirinhos e quilombolas, gente odiada por Bolsonaro, defensor dos ricos: fazendeiros, banqueiros, mineradoras, etc.

O Papa Francisco, para a turma de Bolsonaro, é um comunista de batina que sempre se interessou pela Amazônia.

Na encíclila Laudato Sí, de 2015, dizia que a Amazônia e a Bacia do Rio Congo são “pulmões” do mundo e que “a importância desses lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar”.

Sobre o selo de “comunista”, ele comentou: “A pobreza está no centro da pregação de Jesus: ‘Bem-aventurados os pobres’ é a primeira das Bem-aventuranças!” Mais: “sempre tivemos na história essa fraqueza de tentar deixar de lado essa pregação sobre a pobreza, acreditando que se trata de algo social, político. Não! É evangelho puro, é Evangelho puro”.

Para o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o sínodo é uma afronta à soberania do Brasil e ao governo Bolsonaro.

Não há registro de que o general de pijama tenha visto ameaça à soberania quando o Brasil abriu as portas da Amazônia aos Estados Unidos pela primeira vez na vida, em novembro de 2017, durante uma manobra militar conjunta do Brasil com tropas do Peru e Colômbia. A convite do Brasil, Tio Sam acompanhou tudo. Igualmente, o general nada disse, quando seu chefe bateu continência para o pavilhão americano. Ulala!!

Sabe-se que os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora. Obras, fazendeiros, mineradoras. Há uma gigantesca pressão por grandes interesses econômicos ávidos por petróleo, gás, madeira, ouro e monocultivos agroindustriais.

Além disso, há um governo que sempre demonstrou ver nos ambientalistas verdadeiros inimigos. Um exemplo é o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que no programa Roda Viva, negou a importância de Chico Mendes, o maior líder ambientalista da história brasileira.

O sanatório geral, comandado pelo capitão, agora resolveu tratar a igreja católica como inimiga. Mais. A Abin passou a monitorar padres e bispos, no velho estilo da ditadura que Bolsonaro e Heleno veneram.

Nós, que nunca fomos bafejados pelos valores do Iluminismo e da Revolução Francesa, estamos vivendo um momento de assustador retrocesso político. Do caldo do autoritarismo, brota a demência.

Autor: José Ernani de Almeida

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