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Celestino Meneghini: um eterno resistente

Entrevistar um colega de profissão
não é uma tarefa fácil, pois podemos cair no óbvio,
ou,  estender a conversa por horas.
Nesse caso, a entrevista durou horas e,
ainda, emendamos um café.

Conheci Celestino Meneghini, quando fomos colegas na Rádio Uirapuru, sempre admirei seu jeito único de noticiar. Porém, conhecer um pouco mais de sua vida jornalística é desvendar um tanto da história da cidade e de momentos importantes que marcaram a vida dos passo-fundenses.

É descortinar um jornalismo que perpassa momentos distintos da história como a Ditadura Militar, Abertura Política, a chegada da tecnologia e a disseminação das redes sociais. Filho de imigrantes italianos, Celestino Meneghini, nasceu em Santa Cecília do Sul, na época vilarejo de Tapejara. Aos seis anos, veio para Passo Fundo, cursou o primário na escola Menino Jesus e foi num seminário em Erechim que concluiu o Ensino Clássico e iniciou o Científico, que correspondia ao atual Ensino Médio, o qual veio concluir na escola EENAV, em seguida, iniciou a faculdade de Direito na Universidade de Passo Fundo. Seduzido pelas ondas do rádio, foi um teste para locutor que deu início a essa história.

Márcia Machado: Como você iniciou na profissão de jornalista?

Celestino Meneghini: Era um desejo grande ser locutor de rádio, em casa ouvia a Voz do Brasil, ainda nos rádios a válvula, meu imaginário estava muito ligado ao rádio e quando comecei a falar no rádio foi a maior realização, algo muito emocionante, para mim foi uma oportunidade que ocorreu de repente. 

Com a instalação da Rádio Planalto na cidade, em 1969, surgiu a oportunidade de fazer um teste para locutor, e me habilitei a concorrer a vaga. O teste era feito por técnicos de uma faculdade de Pelotas que vieram à cidade para fazer a avaliação dos postulantes, e eu me apresentei. Vários locutores renomados da época, estavam concorrendo como Duarsan Bitencourt D`Ávila,Telmar Cotelinski, José Guedes, José Ernani (era apresentador da Rádio Passo Fundo na época), entre outros. Havia fila para fazer o teste e o programador informou que a lista para locutor já estava quase completa, havia apenas uma vaga, ainda assim, me deu um tema e pediu para que eu simulasse uma transmissão externa, estava concorrendo com mais ou menos uns 300 postulantes ao cargo de locutor.

Era uma loucura. Fui selecionado e fiquei fazendo locução comercial, após passei a apresentador de programas musicais e, em seguida, comecei a fazer reportagens e algumas transmissões externas que me levaram a preferir a reportagem e as notícias. Como repórter na rádio Planalto, eu procurava movimentava a cidade.

Às vezes, fazia denúncias envolvendo nomes importantes da sociedade, mesmo gerando certo desconforto aos diretores da emissora, me tornei uma referência às fontes.  Porém, também fiz alguns adversários, descontentes com o meu trabalho. Um dos fatos ocorreu quando um policial aposentado abordou um rapaz e bateu nele de forma violenta, contudo, era a pessoa errada e resolveram abafar o caso, porém, eu denunciei. O policial foi até a direção da emissora afirmando que ia me processar. Eu imaginando que seria demitido, busquei provas que confirmavam a ação, produzindo um dossiê sobre o caso, o qual levei ao conhecimento da direção da rádio e o fato foi esquecido. Eu também trabalhei na Rádio Passo Fundo e Rádio Uirapuru.

Márcia Machado: Além de emissoras de rádio, você também escreveu para os principais jornais da cidade?

Celestino Meneghini: Em 1974, trabalhei no jornal Diário da Manhã, onde permaneci por uns três anos, o Dr. Dyógenes Martins Pinto era o diretor, mas lembro do seu Tulio Fontoura, fundador do jornal, uma figura admirada e muito respeitada no jornalismo de Passo Fundo.

 Nos anos 80, fui editor do jornal O Nacional, anos da Abertura Política, momento de transição, tanto política como tecnológica, com a chegada de emissora de TV e também das emissoras FMs na cidade.

Foram anos de muito trabalho. De 1990 a 2000 mantivemos o jornal O Cidadão, em sociedade com o meu irmão, era um jornal semanal. Após ingressei na Rádio Uirapuru. Já entre os anos 2003 a 2005, retornei ao jornal O Nacional, na redação trabalhei com jornalistas como Fátima Trombini e Argeu Santarém, que já não estão mais conosco, havia uma sintonia muito boa.

Neste período estabeleci com a OAB, o jornal da Ordem dos Advogados do Brasil, abrangendo 27 municípios abordando assuntos da Ordem, foi um jornalismo diferenciado, focado em uma categoria, foi uma grande experiência. Fui duas vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas em Passo Fundo (haviam apenas dois sindicatos, um em POA e outro no interior do estado, sediado em Passo Fundo), também fui dirigente da Federação Nacional  dos Jornalistas (Fenaj). Após me dediquei à advocacia, mas sempre mantive um pé na advocacia e outro no jornalismo, através da colunas que escrevo.

Márcia Machado: Como era fazer jornalismo no interior do estado em tempos de Ditadura?

Celestino Meneghini: A gente queria ver um sinal de liberdade. Todos nós, os quais exerciam um trabalho de resistência na imprensa, estávamos frequentando os bancos universitários, dois amigos meus, o Santarém (Argeu) e o Tasca (Ivaldino), foram presos durante o Regime Militar, época da ditadura mais forte 1964/1965.

A gente era visado, havia pressão dentro da faculdade, a gente questionava e tinha uma contingente de colegas reacionários (de Direita), fui processado na faculdade, fui expulso da faculdade (iniciou-se um processo de expulsão arbitrário), na época não tínhamos o direito de defesa, era processado e já deferido. Na época, era difícil você ter a lucidez e paciência  adequada, para não se exacerbar e não transformar a atitude, a tua inclinação política num diletantismo.

Confesso que briguei demais por determinadas bandeiras partidárias, pela liberdade.  Fui investigado várias vezes pelo Regime Militar na época e nunca encontraram nada que me desabonasse. Meu nome e de outros colegas jornalistas constaram, por anos, na lista do exército como subversivos. Foram anos difíceis.

“Meu nome e de outros colegas jornalistas constaram, por anos, na lista do exército como subversivos. Foram anos difíceis”.

Márcia Machado:  Além de jornalista, você também assumiu cargos políticos na cidade e no estado?

Celestino Meneghini: Depois da passagem pela Rádio Planalto nos anos 70, fui trabalhar na Rádio Passo Fundo, e então, enveredei para política, fui diretor municipal de Turismo, assumi a chefia de gabinete da primeira administração do prefeito Airton Dipp (PDT), após assumi um cargo na comunicação no Governo do Estado em Porto Alegre, fui diretor de comunicação de companhias como a CRT, CEEE, Sulgás, Companhia Riograndense de Mineração, fiquei no cargo por um ano, após retornei a Passo Fundo. Como estava formado em Direito e já estava exercendo a profissão, me estabeleci em Erechim onde advoguei para bancos.  Retornei  novamente a Passo Fundo, onde tive dificuldades em conseguir emprego nas redações por ser uma jornalista investigativo, de confronto, e me dediquei a advocacia.

O rádio passou a ser feito em horários alternativos. Em 2005, voltei a assumir cargo público junto a assessoria de comunicação da prefeitura  de Passo Fundo e, em 2009,  como coordenador  da Junta Administrativa de Recursos de Infrações de Trânsito, a Jari. Mesmo na política, sempre mantive contato com o jornalismo, com o advento da internet não ia mais à redação, escrevia minhas colunas em casa, esse ambiente da redação é que sinto falta, principalmente, das máquinas de datilografia, a gente olhava aquelas peças de metal ali, aquele barulho, parecia ora uma metralhadora, ora, um ruflar de asas, enfim, a gente sentia aquela emoção. Mesmo em meio aquela conversa toda conseguia me centrar no ritmo das teclas para produzir os textos.

Eu sempre tive empenhado na produção de texto, gosto muito de escrever. Hoje sou colunista jornal O Nacional, porém o ritmo é diferente.

“ […] esse ambiente da redação é que sinto falta, principalmente, das máquinas de datilografia, a gente olhava aquelas peças de metal ali, aquele barulho parecia, ora uma metralhadora, ora  um ruflar de asas, enfim, a gente sentia aquela emoção.”

 Márcia Machado:  A sua relação com a política chegou  em algum momento influenciar  o seu trabalho jornalístico?

Celestino Meneghini: Sempre tive uma relação com a política, eu tinha minha militância no partido PDT e depois no PSB, sou advogado do partido ainda hoje. Sempre consegui separar, o tanto quanto possível, me empenhava no aspecto jornalismo, para fazer as coberturas, nunca houve problema em fazer uma matéria que viesse a repercutir contra algum partido.

Sempre procurei como comentarista e cronista, numa abordagem política partidária, dar uma conotação de observador, até porque, eu não cobria as matérias referentes ao meu partido. Nas coberturas políticas sempre procurei respeitar as pessoas que pensavam politicamente igual, ou não a mim, até hoje mantenho isso. Minha coluna hoje é de um profissional mais maduro, observador, tenho minha intuição.

“Minha coluna hoje é de um profissional mais maduro, observador, tenho minha intuição”.

Márcia Machado: Enquanto jornalista, observador, como você avalia o atual momento político do país?

Celestino Meneghini: Hoje estamos vivendo um novo período, após uma turbulência toda no país, fomos roubados pelos mandantes do país, por um partido que o povo confiou, no qual inclusive eu votei. Não sou do PT, mas votei e pensei que o PT ia dar a solução e chegou a encaminhar a solução, quando ofereceu um espaço para o ser humano, uma base de sobrevivência para a nação brasileira, mais liberdade para as pessoas e as comunidades, mas de repente ocorreu a Lava Jato e o impeachment.

Também há razões para as pessoas se revoltaram com a propagação da corrupção que envolveram outros partidos, inclusive partidos tradicionais que estão envolvidos nas denúncias de corrupção. Sempre houve gente séria num e outro partido, como sempre houve falcatruas políticas em um e outro partido. Não restou ninguém inocente de modo geral.

Precisamos agora é momento de colocar os pés no chão, temos um presidente que se elegeu num fenômeno de comunicação diferenciado, que não compareceu nos debates públicos, mas que trabalhou rápido e lépido na utilização das redes sociais e continua fazendo. Já estava prenunciado, na eleição do presidente Trump nos Estados Unidos já havia ocorrido fenômeno semelhante.

Acredito que foi transportado o modelo em diferentes plataformas e aí surgiu o fenômeno cibernético que está aí, temos um presidente que me parece está empenhado em manter o foco no combate a corrupção, mas pegou uma país com sérios problemas e, até o momento, não conseguiu apresentar nenhuma novidade que respalde e ofereça uma esperança aos brasileiros, pois corremos o risco de termos nossa esperança tolhida.

Márcia Machado: Você falou sobre o fenômeno cibernético, para onde se encaminha o jornalismo em tempos midiáticos?

Celestino Meneghini: A sobrevivência dos jornais impressos está, logisticamente, comprometida. Há movimentos no mundo inteiro, onde grandes grupos jornalísticos tiveram que encerrar as atividades e aqui no Brasil também. Passo Fundo é um fenômeno no Rio Grande do Sul, ninguém teve por tanto tempo dois jornais diários e fortalecidos.

Mas a questão da agilidade da informação, através da sinergia das redes sociais vai ser infinitamente superior, em termos de acessibilidade, porém, vem o fator que sempre achei  importante na minha vida profissional,  é a função do jornalista,  o comentarista, os  coordenadores, o editor, eles só estarão prontos enquanto profissionais, quando passarem pela reportagem.

O repórter tem a convivência com o fato, não há maneira mais fidedigna, mesmo na subjetividade da interpretação da notícia, de você ver o fato, eu fiz muitas reportagens, quando havia dificuldade sobre informações, o segredo é ir no local do fato e conversar com as pessoas, já tive casos policiais que desvendei antes da polícia, com documentos e provas .É empenho, é trabalho. Ser repórter não é uma genialidade, é uma atitude de zelo com a notícia. Você tem que prezar a fonte.

O repórter Carlos Wagner (foi jornalista investigativo do Zero Hora) é um exemplo, ele convivia com as fontes, no caso dos Sem Terras ele passava dias nos acampamentos, convivendo com o movimento e o que ele revelava era o diferencial.  Frente a relação midiática das notícias, os desvios de caráter são individuais e coletivos, eles se disseminam  através da digitalização da maldade, da covardia, imune à responsabilização, as pessoas utilizam meio covarde de ofender os outros e vender ideias sem conteúdo, a verdade é dizimada e corre grandes riscos. Tem coisas boas e fiéis, o problema é a conotação que o ser humano dá. 

A notícia corre risco de ser vencida pela velocidade do ódio, pela discrepância e má interpretação dos fatos. Na política é modismo a criação de fatos ( fake news) e manuseio de marketing, mecanismos que  funcionaram na eleição de Bolsonaro.

“Ser repórter não é uma genialidade, é uma atitude de zelo com a notícia. A notícia corre risco de ser vencida pela velocidade do ódio, pela discrepância e má interpretação dos fatos.”

Márcia Machado: Como o jornalismo contribui para uma sociedade mais crítica e solidária?

Celestino Meneghini: O jornalista tem que se aliar ao contexto educacional, ele é um curador, um observador de ideias e pensamentos, ele tem que manter a fidelidade à verdade, ele tem que ser competente, nem sempre ele terá uma remuneração adequada para isso, situação histórica no jornalismo, aí entra a parte de sacerdócio do jornalista.  O jornalista é um eterno resistente. Ele tem que ter princípios, discordar e ser oposição a tudo, até a própria oposição, porque jornalismo é opor ideias.

“O jornalista é um eterno resistente.  Ele tem que ter princípios, discordar e ser oposição a tudo, até a própria oposição, porque jornalismo é opor ideias”.

Márcia Machado: Enquanto advogado como você percebe a promoção e aplicação da justiça em nosso país, em tempos de ataques aos direitos sociais?

Celestino Meneghini: Nós temos uma legislação, uma vertente constitucional, que é bastante humanizada e temos a lei comum que fica cingida aos segmentos de matéria jurídica que é a aplicação do direito e da justiça. A justiça estabelece parâmetros que atendem pouco a uma equidade, hoje a justiça está se tornando muito acadêmica e pouco se devota a equidade que emana do poder e da capacidade humana de julgar.

Historicamente o Direito está devendo muito para a justiça social, tem que participar mais ativamente.  A justiça que estamos vivenciando, também é uma expressão da falta de qualidade de base da nação brasileira, da sociedade, temos a herança da escravidão que até hoje não se apagou e vai ser difícil apagar. A missão do estado é fazer o possível e o previsível, mas o estado não quer ter previsibilidade ante as dificuldades do povo, frente as pessoas mais sofridas. A utopia deve ser o vértice da busca dos fatos, da solidariedade, do bem.

Fotos: Márcia Machado
Caricatura: Leandro Dóro
Legenda: A velha e boa máquina de escrever acompanha Meneghini de longa data, Um eterno resistente


Pequenas histórias

Tiroteio no Plantão

Eu vivenciei o uso de arma por jornalistas, em épocas passadas era normal, pois muitas vezes tínhamos que entrar a campo aberto para fazer a reportagem. Hoje não é recomendado. Eu estava de plantão na madrugada e fui informado da morte de um cidadão esfaqueado em frente a um restaurante no centro da cidade, momento em que ele deixava o estabelecimento com a namorada. Imediatamente, eu fui na delegacia de polícia para saber sobre o andamento do caso. Na delegacia encontrei o inspetor de polícia sozinho no plantão, ele me convidou para uma diligência, fomos de fusca, inclusive eu estava armado, o que era natural naquela eṕoca. O inspetor já sabia quem era o suspeito do crime e fomos até a casa, quando o policial chegou no local houve uma confusão e começou um tiroteio, eu com medo, também atirei, porém, o suspeito não foi alcançado. O local era próximo ao bairro que eu morava e os irmãos do suspeito me conheciam, então, dias depois do fato,  fui  comprar leite e vi um carro se aproximar com três pessoas dentro, ouvi uma voz que em tom de ameaça  falou “é  esse aí que deu os tiros na frente de casa”. Com medo, fui embora, vi que ia apanhar ali.

Manchete polêmica

 Eu era editor do O Nacional e fui fazer uma matéria que precisava ser complementada, fui até Vila Hípica buscar mais informações sobre um assassinato. O morto era um bandido conhecido e o assassinato ocorreu momento em que ele estava batendo numa grávida. As mulheres da vila se mostraram aliviadas com a morte do bandido, dizendo que havia sido uma limpa o assassinato. Eu então usei a fala de manchete “Morte de bandido foi uma limpa na Hípica”. No dia seguinte, estou na redação, fechando o jornal, por volta das 23h, entrou um homem, que se identificou ser da família do bandido assassinado, e se mostrou ofendido com a matéria divulgada, tentei argumentar, mas ele alterado, disse que veio para resolver a questão de “homem para a homem”. Ele abriu o casaco e me mostrou uma adaga, eu peguei o meu revólver e também mostrei de maneira discreta. Por fim, ouvi  a versão dele dos fatos, produzi a matéria e publiquei na primeira página, o que não era usual, mas fiz por medo.

O taxista era meu irmão

Noutro momento fiz a denúncia contra um famoso vigarista, isso nos anos de 1973/1974, ele me “marcou” e durante uma  conversa com uma taxista,  disse que ia acertar contas com o jornalista Celestino Meneghini, por tê-lo tratado como falsário. O taxista, era meu irmão, e mudou o trajeto da corrida, em certo momento, de posse de um facão, se identificou ao cliente e o intimidou exigindo que ficasse longe de mim. O falsário sumiu.

Locutor oficial das Diretas Já

Fui escolhido o locutor oficial do Movimento Diretas Já em Passo Fundo, momento da abertura política no país. No jornal eu era entusiasta pelas eleições diretas, então, fui convidado para presidir o comício pelas Diretas em Passo Fundo, que reuniu 5 mil pessoas no Clube Juvenil, foi um estrondo na cidade.  Eu era editor do jornal O Nacional e fiquei de produzir a matéria do comício, porém, os informantes do exército estavam em toda a parte e sequestraram as minhas fotografias e não pude mostrar o tamanho do ato. Eu escolhi três ou quatro fotógrafos e acabei sem nenhuma foto, pois o material deles também foi apreendido.  Já o Acácio Silva, editor do Diário da Manhã na época, conseguiu manter e publicar suas fotos, nos “furou”, eu tive que usar fotos de arquivo. Se quer deixar um jornalista magoado e só tirar o material. Estiveram no ato figuras como Pedro Simon, Olívio Dutra, Caruso da Rocha, Alceu Collares, entre outros.

 Infiltrado na comitiva  da presidência  da República

Em 1973/74, transformamos uma Variant, em unidade móvel da Rádio Planalto, em cima do veículo foram instalados os equipamentos, era uma novidade para a cidade e região na época, pois proporcionava falar de cidades da região, era algo fantástico falar ao vivo do local do fato. A chegada da unidade móvel, culminou com  a visita do presidente Médici a cidade.  Fui com a unidade móvel até o campo de aviação para acompanhar a chegado das autoridades.  A guarda de segurança era feita pela guarnição do exército da cidade, me acompanhou o diretor da emissora Padre Paulo Farina, mas ele foi em outro veículo. E eu fui adentrando ao local onde estava a guarnição do exército e, como conhecia alguns soldados, fiz um sinal de continência e segui com a unidade móvel, mas a medida em que eu ia passando, ia recebendo gestos de continência, eu não entendia  a atitude, e cheguei até o espaço reservado aos veículos da comitiva presidencial. Quando dei o primeiro boletim ao vivo, o Comandante do Exército mandou me retirar do local. Foi, então, que percebi que a viatura da emissora havia sido confundida pelos militares, por ser de cor Oliva, acharam que o veículo era do exército e fazia parte da comitiva do Presidente da República. Eu quase fui preso.

Revolta dos Motoqueiros

O momento mais apreensivo na minha vida foi a cobertura do episódio dos Motoqueiros (Revolta de Motoqueiros em 1979). Eu estava cobrindo o levante popular (única revolta contra a Ditadura Militar, no Brasil, liderada por motociclistas) com a unidade móvel. Enquanto um colega dirigia o veículo, eu ia transmitindo ao vivo.  O movimento saiu da Avenida Brasil rumo ao Quartel do Exército, momento em que eu ouvi os estampidos, e vi alguns manifestantes chorando, eu falei para meu colega é festim, não vai matar ninguém. E de repente começou um tiroteio, um tumulto envolvendo os manifestantes e a Brigada Militar, de um lado apedrejamentos de viaturas, brigas, de outro gritos de ordem, acenos dos prédios. No canteiro central eu ouvia os estampidos de balas e pessoas caindo. E quando o olho para o lado meu colega havia abandonado o local e eu fiquei sozinho no meio da confusão com o microfone, tomei a direção do veículo e continuei dirigindo e falando ao microfone.  Quando cheguei em frente ao Quartel, vi que a situação era crítica, mas em nenhum momento parei a transmissão. Foi então que o exército interferiu, acalmou a situação que resultou em duas mortes.

O valor do voluntariado

O Instituto Libertarte é mantido por doações
dos seus voluntários que viabilizam a manutenção
das oficinas de música, transporte para viagens,
compra de instrumentos e outros investimentos
como palestras e cursos ligados à arte, cultura e lazer.

A presença do Estado na vida das pessoas pode ser sentido de várias maneiras. No tratamento da água, na iluminação pública, no atendimento hospitalar ou até mesmo a falta destes serviços. O Estado é fundamental na prestação de uma série de serviços fundamentais para a população e ele possui a responsabilidade de garantir direitos básicos aos cidadãos, como segurança, cultura e educação.

Entre o orçamento do Estado, a execução de projetos e a definição das prioridades de um governo existem falhas que colocam grande parcela da sociedade na vulnerabilidade social, na miséria e por consequência, em muitos casos, a cometer atos infracionais e crimes. É indiscutível que o Estado deve ter essa responsabilidade e a tarefa de qualificar cada vez mais estes serviços que fazem a engrenagem social “funcionar”.

Há um verdadeiro percurso burocrático que gera a morosidade e a falência dos serviços públicos. A falta de vontade, a falta de dinheiro, a alta demanda, a corrupção, a falta de prioridade e tantos outros motivos prejudicam o sucesso e o bom desenvolvimento de ideias e projetos importantes pelo Brasil todo.

Dadas estas condicionantes da gestão pública, reconhece-se a limitação dos municípios, dos estados, da união e a importância das organizações da sociedade civil de interesse público, organizações não-governamentais, fundações e entidades que buscam dar a sua contribuição no desenvolvimento da sociedade.

A expressão “Terceiro Setor” começou a ser usada nos anos 70 nos EUA para identificar um setor da sociedade no qual atuam organizações sem fins lucrativos, voltadas para a produção ou a distribuição de bens e serviços públicos (SMITH, 1991).

Em Passo Fundo, a OSCIP Instituto Libertarte tem como missão apoiar e desenvolver ações para a defesa, elevação, manutenção da qualidade de vida e o bem-estar de crianças, adolescentes e jovens em fase de desenvolvimento, em especial com vistas à socioeducação e proteção daqueles que cometeram atos infracionais e/ou tiveram seus direitos violados e a quem foram aplicadas as medidas socioeducativas e de proteção previstas na legislação pertinente.

Atualmente o principal projeto do Instituto é a banda Libertarte, formada por três jovens egressos da Fundação de Atendimento Socioeducativo (FASE), por músicos profissionais e pelo Juíz da Vara da Família e Sucessões, diretor do Fórum da Comarca de Passo Fundo, Dalmir Franklin de Oliveira Jr, coordenador do projeto. A banda tem realizado apresentações em Passo Fundo e região e já possui um trabalho autoral de destaque com letras de reflexão social baseadas nas experiências vividas pelos jovens artistas. O Instituto prevê a implementação de novos projetos que devem ser iniciados ainda neste ano.

O Instituto Libertarte é mantido por doações dos seus voluntários que viabilizam a manutenção das oficinas de música, transporte para viagens, compra de instrumentos e outros investimentos como palestras e cursos ligados à arte, cultura e lazer.

A OSCIP trabalha durante e após a execução das medidas socioeducativas, com o objetivo de acompanhar os egressos, auxiliando-os no prosseguimento do aprendizado e retorno à sociedade, quando institucionalizados, ou fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.


Autor: Wagner Pacheco, Presidente do Instituto Libertarte

Eletrônicos e criancinhas

Ainda há espelhos nos quartos das criancinhas?
Elas ainda se espantam quando se veem nos espelhos?

É comum vermos criancinhas brincando com tablets ou smartphones. Há até alguns feitos especialmente para elas com jogos interativos e vídeos. Apesar de estarmos em plena revolução tecnológica, não é certo que criancinhas, com menos de dois anos de idade, se apeguem a esses aparelhos, pois deixam de valorizar os seus brinquedos e amiguinhos próximos.

Os pais não suportam mais os choros dos seus filhos e para vê-los quietos fazem qualquer coisa, logo como sabem que os aparelhos eletrônicos são atrativos mostram às criancinhas que ficam à mercê desses aparelhos, esquecendo uma vida real do outro lado da telinha.

O que ocorre com criancinhas que se divertem com aparelhos eletrônicos?

Quando crescerem mais um pouco não saberão lidar com a valorização das pequenas coisas, assim como brinquedos e jogos. Não terão vivenciado a experiência de quebrar um brinquedo ou de chorar por outro que tenha se perdido. Não saberão quem são seus heróis de verdade ou como se tornarão heróis diante das demais crianças. O pior, não saberão como brincar com as demais crianças.



As crianças não ficam mais presas a um amigo, animal ou brinquedo. Tudo é trocado por objetos tecnológicos de última geração.



A vida na tenra idade é incompreendida pelos adultos e na primeira oportunidade que têm de ver as criancinhas quietas fazem o que estão ao alcance para isso, porém mesmo que o smartphone ou tablet tenha um atrativo adequado para a idade da criança, ou seja, apenas um vídeo com musiquinha ou um joguinho bobo, não é recomendado que passe tanto tempo presa a esses aparelhos eletrônicos, pois deve desenvolver as suas emoções e socializar-se com os parentes e amiguinhos.

A criancinha que passa a maior parte do tempo diante da tela de um tablet tem tendências a ficar ansiosa e dependente desse aparelho quando maiorzinha.

O bom é que os pais esperem que as criancinhas cresçam mais um pouco para presentear-lhes com aparelhos eletrônicos. Na internet, são disponibilizadas muitas imagens de pequeninos brincando com aparelhos eletrônicos, o que torna o acesso às brincadeiras e ao convívio familiar cada vez mais distante.

É preciso que voltemos a valorizar a contação de histórias, as cantigas de ninar, os brinquedos feitos a mão e, principalmente, o abraço e a conversa sempre com as criancinhas. Deixá-las largadas com um tablet ou smartphone até a hora de dormir não é nada bom para o desenvolvimento das emoções.

Elas aprendem a ter raiva, a amar, a serem pacientes, a serem caridosas, experimentando a realidade como ela é, mesmo que seja difícil ter que ouvir a criancinha chorar por um desses aparelhos o melhor é distraí-las com brinquedos criativos e instrutivos.

É sabido que há softwares e aparelhos desenvolvidos para essa turminha, mas o quanto pudermos evitar que elas tenham na tenra idade o contato com eles que façamos.

Evitemos que as nossas criancinhas sejam tomadas pela revolução tecnológica, pois o que elas mais precisam na primeira infância é de carinho, pessoas reais, emoções e amor, muito amor.

Os aparelhos eletrônicos ainda não sabem amar, o que é bom. Mas pais e responsáveis podem fazer esse diferencial levando as criancinhas para um passeio no parque, para se lambuzarem com um sorvete, tomarem um banho de praia ou se sujarem no meio da chuva.

São nos dias de chuva que as crianças estão mais presas aos aparelhos eletrônicos, pois não têm como brincar no pátio de casa para não se molharem e evitarem resfriados, no entanto os pais não estão evitando o vício de ficar plugado o tempo inteiro nos aparelhos eletrônicos que podem causar problemas psicológicos e físicos mais tarde às criancinhas.

A melhor coisa é que as crianças tenham contato com mais brinquedos e brincadeiras que desenvolvam a mente e o corpo, pois é preciso um equilíbrio entre os dois. E que não seja permitido a nenhuma criancinha ficar sentada por horas diante de um aparelho eletrônico sem experimentar o correr, pular e brincar vivendo a sensação maravilhosa de espalhar os brinquedos pela casa toda até se cansar.

Antigamente, os pais evitavam que as criancinhas chorassem muito com ameaças de castigos. Hoje, eles melhoraram um pouco tirando o castigo e colocando nas mãos das criancinhas os aparelhos eletrônicos que pensam serem bastante educativos para os seus filhos, mas que prejudica o bom desenvolvimento dos seus pensamentos.

Quantas criancinhas nunca experimentaram o prazer de fazerem perguntas por que simplesmente os aparelhos eletrônicos já respondem tudo para elas ou nunca se perceberam diante do espelho com raiva, chorando, tristonhas e dançando?

Ainda há espelhos nos quartos das criancinhas? Elas ainda se espantam quando se veem nos espelhos?

O ato de espantar-se só é adquirido diante de vivências com o mundo real, tais como: por que está chovendo? Por que meu amiguinho morreu? Por que estou crescendo?

São perguntas que a criancinha só é instigada a perguntar se ela perceber-se no mundo real, por isso é preciso que os pais dediquem aos seus filhos momentos de lazer longe das telinhas dos aparelhos eletrônicos para que tornem-se crianças curiosas e criativas.



Essas crianças só têm como lazer a televisão que poucas vezes instrui e, muitas vezes, violenta e traumatiza a criança. É um sério problema deixar crianças sozinhas com a televisão, pois, de certa forma, ela é o lobo mau do mundo contemporâneo, querendo de alguma forma engolir as criancinhas indefesas. (Rosângela Trajano)

Amor ou civismo?

O amor à Pátria, o respeito aos símbolos nacionais
e o orgulho de sermos brasileiros perpassam
o ambiente escolar todos os dias.

Durante o mês de setembro, em especial, levanta-se discussões nos meios de comunicação de massa a teoria de que estamos desencantados com os rumos da nação. Consequentemente, brasileiros estariam sem civismo e sem amor à Pátria. Afirma-se, também, que as escolas deixaram de ensinar o patriotismo e o amor ao Brasil.  Permito-me discordar frontalmente desta tese.

Levianamente, os mais convictos destas teses, dizem que o mal da nação estaria nos políticos corruptos e em partidos políticos que estariam promovendo mais suas bandeiras do que a bandeira do Brasil. Que os brasileiros estariam deixando de lado a exaltação de amor à Pátria para digladiar-se com os demais pelos créditos e paixões do partido A, B ou C. Dizem, ainda, que partidos de esquerda estariam na origem da falta de amor à Pátria. Em síntese: o problema do Brasil seria a política (coisa do demônio) e, principalmente, os partidos de esquerda seriam os maiores culpados pela falta de civismo dos brasileiros.

Vejam. O amor sempre é relação, é feito de apostas e acordos, vividos permanentemente. O amor é doação, e tudo o que contradiz a doação fere e machuca. O civismo, por sua vez, pode ser uma forma de amor, mas não é a única forma de amar um país. (Vejam: sou gaúcho e gosto muito desta terra. Isso não quer dizer que eu deva seguir o tradicionalismo que, embora seja uma forma de amar o Rio Grande do Sul, não é a única forma de amá-lo. Sou gaúcho, mas não sou tradicionalista).

O civismo é autoritário e impositivo, já o amor nasce livre e desimpedido, espontâneo e duradouro. O civismo precisa ser medido, enaltecido e demonstrado, já o amor ao Brasil brota livre, instantâneo e sem medidas definidas para ser vivido pelos brasileiros.

Em oportunidades espontâneas e livres, os brasileiros apreciam muito a bandeira e o hino nacional. As cores da diversidade cultural, regional e étnica de tantos povos que aqui fazem sua morada são sobrepostas pelas cores da bandeira, maior símbolo de identidade nacional.

O sentimento de amor ao Brasil gera-se através da participação, da importância e do envolvimento que dispensamos, cotidianamente, como cidadãos brasileiros. Em setembro de 2016, defendi que “uma das maiores atitudes cívicas e cidadãs é demonstrar amor à Pátria interessando-se por ela, participando ativamente dos acontecimentos que a envolvem no atual momento histórico. Afirmar democracia é atitude relevante e decisiva para vislumbrar o futuro desta nação. É necessário afirmar e debater, de forma ampla, aberta e plural a “participação como um direito humano”, a fim de sensibilizar e comprometer a todos com a luta por sua efetivação no cotidiano de todos e de cada pessoa”.

A confusão generalizada entre civismo e amor ao Brasil produz uma dicotomia absurda e desnecessária. Talvez aí esteja explicação do mecanismo chave da compreensão desta confusão, na medida em que justamente os que mais lutam por um Brasil para todos os brasileiros são enquadrados pelos outros como se não o amassem.

A maioria dos brasileiros ama nosso país, mas manifesta seu amor de diferentes formas. Ocupar as ruas sempre é um ato de amor, que se manifesta através de lutas, de manifestações por liberdade, democracia e direitos, ou também por intencionadas manifestações cívicas de amor e apreço ao país em comemorações da Semana da Pátria.

O amor à Pátria, o respeito aos símbolos nacionais e o orgulho de sermos brasileiros perpassam o ambiente escolar todos os dias. Justamente, por isso, a escola também é espaço para as críticas ao modo de ser, pensar e agir de todos os brasileiros porque todos desejamos o melhor para o Brasil.

Lutar por direitos, por liberdade e por dignidade humana é, para mim, a maior demonstração de amor ao Brasil e a todos os brasileiros. Um país que tanto amamos não pode considerar que “lutar por direitos e cidadania é crime”.

Era da ignorância

Não é possível que todos saibam muito
sobre tudo e não podemos nos guiar
apenas pelo senso comum,
para isso existem os especialistas,
que dominam determinados assuntos.


Em uma matéria de 2017 na revista Foreign Affairs, o professor americano Tom Nichols fala sobre o fenômeno social da percepção da ignorância como uma virtude. Ele é autor do livro “A Morte da Competência”, sobre esse tema.

Referindo-se à sociedade americana, ele entende que atualmente há uma desconfiança com relação aos especialistas (experts), e uma desvalorização do conhecimento acadêmico e científico. Os leigos tenderiam a considerar a sua opinião e o senso-comum como base suficiente para julgar questões complexas e para questionar os especialistas.

Lendo essa matéria, com algum atraso, tive a impressão de que esse fenômeno também ocorre no Brasil. Parece haver um crescente desprezo pelos intelectuais, cientistas e especialistas, e um questionamento permanente dos fatos comprovados pela ciência.

Desde a relativização de dados e estudos sobre meio ambiente e saúde pública, até a contestação absurda de descobertas científicas, a postura da sociedade tende a enaltecer o senso comum e equiparar opinião pessoal a conhecimento acadêmico e científico.

O autor cita muitos fatores que contribuem para esse comportamento, entre eles os vieses cognitivos, o medo que faz com que as pessoas rejeitem aquilo que não conseguem compreender, e também o ambiente da internet e redes sociais, onde proliferam opiniões e dados falsos misturados a fatos comprovados, favorecendo a confusão.

Há um alerta importante no artigo sobre o risco desse comportamento para a democracia e para o futuro da sociedade. O conhecimento acumulado durante séculos foi o que permitiu que a humanidade evoluísse, e siga evoluindo.

Embora o questionamento seja importante, numa organização social complexa como a nossa, não é possível que todos saibam muito sobre tudo e não podemos nos guiar apenas pelo senso comum, para isso existem os especialistas, que dominam determinados assuntos. Precisamos confiar neles e na ciência, e aceitar a nossa ignorância em certas áreas. Aceitá-la sem enaltece-la.


“Um professor quer ser alguém que ajude a formar opiniões sólidas, não meramente a achologia. Isso exige de mim uma formação continuada que me encanta e me agrada, me coloca o tempo todo no risco de ser alguém em quem as pessoas prestam muita atenção. Isso exige afastar o risco da superficialidade sem deixar de ser simples”. (Mário Sérgio Cortella)

Valorizando a vida com Taekwondo

André Régis, desde muito novo, manifestou interesse nas artes marciais, nos desafios das lutas e no conhecimento da cultura oriental como um todo.  Ensinado e acompanhado por mestres na arte marcial do Taekwondo, percorreu e morou em cidades do Brasil, participou de competições fora do país e de treinamentos na Coréia do Sul.


André fez também a Faculdade de Educação Física, onde aprendeu a conciliar a aprendizagem que obteve como atleta, nas competições, com o conhecimento do corpo humano e suas potencialidades físicas.

Estas experiências únicas, de um jovem de nossa cidade Passo Fundo, que conheceu o mundo em busca de sabedoria e conhecimentos do mundo oriental, permitiram a ele construir um método de ensino que alia a arte marcial do Taekwondo ao conhecimento da educação física, tendo em vista colaborar para a formação do ser humano na sua integralidade.

Sua academia, apresentada por uma bela logomarca e um interessante portfólio, apresenta “a filosofia do Taekwondo baseada em cinco princípios fundamentais: cortesia, integridade, perseverança, autocontrole e o desenvolvimento de um espírito indomável. Através da mesma, procuramos atingir o nosso objetivo final: construir um mundo melhor e mais pacífico, tornando-nos campeões da justiça e da liberdade”.

Conheçamos André Régis por ele mesmo, em entrevista que concedeu ao site, organizada em 3 momentos: história e vida pessoal, vida de atleta e mestre; estruturação da Academia e sua compreensão do Taekwondo para uma formação humana integral.

NEI ALBERTO PIES: Conte-nos um pouco de sua história de vida pessoal envolvendo, desde novo, sua vontade de conhecer as lutas e as artes marciais, como também a filosofia oriental.

Desde pequeno eu gostava de filmes de artes marciais e então, através de um convite da minha irmã, comecei a treinar Taekwondo. Nunca mais parei.

Como eu morava em um lugar bastante violento e perigoso, o taekwondo foi uma oportunidade que me ajudou a encontrar uma forma de enfrentar o medo e canalizar essa energia em algo positivo. Assim aprendi valores que iam formar a minha conduta moral e mudar a minha vida dali em diante.

Ainda criança, também, gostava muito de saber sobre o poder da mente e sempre que possível, lia algo sobre o assunto ou fazia cursos relacionados a isso. Comecei fazer mentalizações positivas de autoafirmação e que as coisas dariam certo. Mais tarde vim a descobrir que a filosofia oriental está totalmente ligada a isso.

NEI ALBERTO PIES: Passastes por Rio Grande, Porto Alegre, Florianópolis e Blumenau/SC, morando em Academias de Artes Marciais e convivendo com consagrados mestres. Qual é a importância desta experiência na formação pessoal e como Mestre de Taekwondo?

O Taekwondo foi tão significativo para mim que adotei isso como objetivo maior da minha vida. Fui atrás do meu sonho de ser atleta.

Como tive muito destaque em competições esportivas, fui convidado a morar nestes outros lugares, sempre vivendo como atleta e desenvolvendo minhas habilidades como lutador.

Passei por várias dificuldades neste percurso. Desde dormir em academia, mal alocado, ter dificuldades para me alimentar… Eu era um jovem que tinha um sonho, porém, fui ludibriado por pessoas que estavam ali para me ajudar (muitos atletas passam por isso). Mas essas experiencias me serviram de base para uma evolução ainda maior, pessoal e profissional também.

Minha dedicação exclusiva e integral ao taekwondo me fez um excelente atleta marcial e essas experiências me fizeram um Mestre melhor, mais humano, pois aprendi inclusive como NÃO SER com as pessoas.

NEI ALBERTO PIES: Fizeste passagem pela Seleção Brasileira de Taekwondo. Que aprendizagens carregas desta experiência?

Após anos sem competir, cursando a faculdade de Educação Física, resolvi colocar em prática os conhecimentos científicos do treinamento esportivo e assim, fui representar a UPF no Campeonato Brasileiro Universitário, em Salvador/ BA. Lutei com o atleta Marcio Wenceslau. O Marcio era um atleta modelo, ia representar o Brasil nas olimpíadas.  Foi uma luta muito acirrada então, o técnico da seleção brasileira, naquela época, Carlos Negrão convidou-me a treinar com seus atletas, no centro de treinamento em São Paulo.

Passei um tempo treinando com atletas de excelente nível técnico, aprendi muito como lutador. Porém, optei por seguir o caminho do taekwondo como arte marcial, para a formação de pessoas melhores. Voltei para Passo Fundo e segui com minha academia. Desta experiência, carrego a felicidade pelo reconhecimento do técnico. Me senti lisonjeado, especial e muito orgulhoso pelo convite.

Como passei a maior parte da minha vida treinando, boa parte dos aprendizados que eu tenho vieram mesmo das competições. A competição é um momento extremamente rico para a formação do atleta e do ser humano.

Para entrar em uma quadra e enfrentar alguém que vai te dar chutes e socos, você precisa desenvolver muitas habilidades, dentre elas pode-se destacar:

  • a coragem (vencer o teu medo e conseguir reagir em uma situação adversa);
  • a humildade (aprendemos que fazer reverência não é um simples gesto, pois muitas vezes quando você começa a vencer nas competições você se torna arrogante e algumas vezes acaba perdendo para adversários inferiores);
  • o autocontrole (manter o seu controle e equilíbrio emocional, reagir somente dentro das regras e normas, respeitando os árbitros e o adversário);
  • a concentração (manter um estado de atenção plena. Observar atentamente o adversário, o juiz, o treinador ou técnico, a área de luta e não ser influenciado pela torcida) e
  • o espírito indomável (é o que um lutador tem que ter acima de tudo. Ele não pode desistir nos momentos difíceis. Mesmo quando está cansado ou não está indo bem na luta, deve seguir em frente mantendo seu espírito aguerrido e superar as dificuldades que se apresentam, sempre em direção ao objetivo).

Todos esses ensinamentos servem para a competição, mas também, para nossa vida cotidiana.

NEI ALBERTO PIES: Conheceste e te tornaste um seguidor da filosofia Seicho-No-Ie. Qual foi o conhecimento que agregaste desta filosofia para compreender o mundo e os fundamentos da cultura oriental?

Aqui no ocidente, geralmente, se ensina luta com uma visão estereotipada (visão ocidentalizada), que se resume aos movimentos físicos/externos (luta e defesa pessoal), esquecendo da parte essencial que é a filosofia.

Tive a oportunidade de visitar a Coréia do Sul algumas vezes e presenciei na prática que lá se ensina a arte marcial com uma visão global, levando em conta os aspectos físicos, educacionais, sociais, afetivos e espirituais. Por isso a conduta deles é extremamente cortês e respeitosa em todos os momentos.

Eu, particularmente acredito que o ensinamento da Seicho-No-Ie é a filosofia da arte marcial que geralmente é esquecida de ser ensinada no ocidente. Por isso agreguei esse ensinamento ao meu trabalho, tendo em vista que a Seicho-No-Ie, falando de uma forma simples é um ensinamento de amor que acredita que Deus vive dentro de todas as pessoas, e, por isso, elas possuem bondade dentro de si.

Um exemplo prático disso é quando um pai ou uma mãe leva seu filho até a academia dizendo que seu filho tem déficit de atenção, hiperatividade, ou quando um adolescente ou adulto vem através de indicação de psicólogo/psiquiatra com transtornos de humor, dificuldade para lidar com suas raivas e emoções, alto nível de estresse… consigo prestar atenção e observar pelo ponto de vista científico porém, ao mesmo tempo eu nego esses aspectos e acredito firmemente que estes possuem uma Imagem Verdadeira que é perfeita e maravilhosa.

A partir do conhecimento que fui adquirindo na Seicho-No-Ie, fui mudando a minha vida e a visão que eu tinha do mundo e por perceber que essa filosofia funcionou na minha vida prática, não tive como não agregar isso ao meu trabalho, algo que eu realmente amo e acredito.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a diferença entre briga, luta e arte marcial?

A maioria das pessoas desconhece a diferença e acredita que é tudo a mesma coisa. Mas não é bem assim. Constantemente sou convidado a ministrar aulas e palestras em escolas, faculdades e universidades para falar sobre isso. Então vamos lá!

Falando de um jeito simples, a Briga acontece entre uma ou mais pessoas, pode envolver objetos como pedras, paus, facas e inclusive arma de fogo. Geralmente tem como motivação a vingança. Pode machucar os envolvidos gravemente ou mesmo, levar a morte.

Lutas são disputas que acontecem sem uso de armas de fogo, em um espaço e local determinado, devem respeitar as regras da competição e a integridade física do adversário;  

Já, a Arte Marcial que também é um sistema de combate aprimorado onde um adversário deve sobrepujar o outro com técnicas de torção, imobilização, chutes e socos, semelhante ao da luta, tem características extremamente relevantes que a diferenciam: a filosofia, a religião e a conduta.

Por exemplo: Você pode ensinar Taekwondo, Karatê, Judô, etc, que são artes marciais sem ensinar a filosofia, porém, assim você estará ensinando uma luta, e não uma arte marcial. Algumas lutas como o Boxe, Muay Thai e o MMA, tem como finalidade o desenvolvimento do golpe, a velocidade e potência dos chutes e socos, sendo assim, consideradas somente um esporte de combate.

É importante que se dissemine aqui no ocidente a arte marcial que mantenha a sua ideia original, de expressão cultural e busca pela evolução do ser humano. Sabe-se que os conhecimentos milenares da cultura oriental relacionados a saúde, alimentação e ao estilo de vida são extremamente necessários para vivermos mais e, porque não, melhor!?

NEI ALBERTO PIES: O que significa ser Mestre?

Mestre, em coreano, é SABONIM que significa “um exemplo”. Um Mestre é uma pessoa que tem posição de muito respeito e que deve procurar, literalmente, fazer jus a palavra, em tudo que faz, para que através da sua própria vida, possa ensinar o caminho correto.

NEI ALBERTO PIES: De volta ao Passinho, como carinhosamente muitos chamam Passo Fundo, sobreviveste trabalhando em academias de musculação como professor. Quando, como e porque surgiu a vontade de fazer a tua academia?

Eu estava morando em Porto Alegre e treinando com um renomado mestre, aliás, um dos responsáveis por introduzir o taekwondo no Brasil, o Grão Mestre Te Bo Lee. Nessa época eu já conhecia a Seicho-No-Ie e participei de uma palestra que falava sobre a formação do destino. A partir disso decidi retornar à minha cidade natal e recomeçar a minha vida aqui.

Comecei ministrando aulas em algumas academias e fui percebendo que os alunos gostavam muito das minhas aulas. No decorrer do tempo recebi um convite para montar uma sociedade em uma academia de arte marcial. Mais tarde dividimos a sociedade e compramos uma academia de musculação também. Nesse processo todo percebi que tinha capacidade para conduzir meu próprio negócio, da forma que eu entendia ser mais adequado. E surgiu assim a Academia André Régis Taekwondo.

Como já existiam várias academias, com diversos focos e objetivos, algumas inclusive, nem tão bem vistas, quis dar destaque para meu diferencial e desejava que as pessoas soubessem que era eu quem estava ali, cuidando de tudo. Então optei por colocar meu próprio nome, iniciando assim um novo momento da minha vida.

NEI ALBERTO PIES: Pode nos explicar o símbolo (logomarca) e a concepção de trabalho de tua academia que já existe há 16 anos?

Através de rabiscos, criei uma primeira ideia do que eu queria para a logomarca. E até usei esta, impressa em algumas camisetas e materiais. Mais tarde, percebendo a necessidade de evoluir, busquei auxilio em uma agência de publicidade. Geralmente quando existe uma logomarca de artes marciais logo se vê um dragão, um tigre, uma caveira ou um punho… coisas que fazem alusão a violência. E não era isso que eu queria transmitir. Nessa época eu já cursava Educação Física e meu desejo era passar um conceito de movimento, leveza, educação e valorização da vida. Por isso pode-se ver na minha logomarca essa ideia. Daí também surgiu de forma muito natural o nosso slogan “Valorizando a vida”.

NEI ALBERTO PIES: Como fundiste os conhecimentos da arte marcial com os conhecimentos da educação física e do desenvolvimento do corpo humano?

A Faculdade de Educação Física foi fundamental para mim e para o meu sucesso pois eu já tinha sido atleta e era professor de taekwondo já a muitos anos. Trazia comigo o conhecimento empírico, transmitido pelos meus professores e mestres, da forma rígida e tradicional. Também acreditava que todo aluno era um atleta.

Através da faculdade percebi que precisava rever meus conceitos, adotar mudanças na forma de executar meu trabalho. Entendi, por exemplo, que crianças, adolescentes e adultos têm necessidades e objetivos diferentes, sua constituição física, características hormonais e emocionais são distintas e necessitam de estímulos específicos para que possam desenvolver o potencial que já possuem, que eu deveria respeitar a individualidade biológica e as características pessoais de cada um. Entendi também que poucas pessoas nascem com o perfil e a vontade de ser atleta e desta forma iria limitar muito o meu público. Sendo que se eu ensinasse o taekwondo como forma de exercício físico e educação, meu trabalho seria muito mais abrangente e eu poderia ajudar um número muito maior de pessoas a melhorarem suas vidas. A partir daí nascia o método André Régis Taekwondo Sistem. Um método que alia o conhecimento científico ao conhecimento tradicional da arte marcial.

Conheça os programas de treinamento:

  • Pequenos Ninjas: para crianças a partir de 4 anos, com foco na formação integral do ser humano.
  • Bem-estar: exercícios para adultos com foco na qualidade de vida e bem-estar
  • For Women: exercícios específicos para mulheres. Aulas que procuram respeitar as características físicas e emocionais da mulher.
  • V.I.P.: exercício para alunos com alto grau de exigência, que buscam um treinamento individual e personalizado.
  • Black Belt: treinamento específico para alunos que já possuem ou que tenham o objetivo específico de conquistar a Faixa Preta.

NEI ALBERTO PIES: Que outros conhecimentos buscaste para lograr êxito e sucesso tanto na organização como na gestão de sua academia?

Após alguns anos de trabalho com acertos e também erros, na condução da academia, percebi que precisava aprender mais sobre a gestão do negócio. Assim, fui buscar auxílio no SEBRAE, onde realizei vários cursos sobre a gestão e organização da empresa e obtive também, assessoria empresarial. Pudemos realizar um diagnóstico da empresa (os pontos fortes e fracos) e, a partir disso, realizamos um planejamento.

Mais tarde, quando a academia já estava mais estruturada, consegui buscar assessoria em uma empresa particular, chamada APORT Empresarial. Com eles pude identificar a Visão, Missão e os Valores da minha empresa. Algo que foi fundamental para a remodelação da Academia e a consolidação de um projeto de sucesso.

NEI ALBERTO PIES: Como o Taekwondo é uma arte e uma ferramenta para a prática de uma educação na dimensão integral do ser humano?

O taekwondo é muito mais do que um exercício físico para desenvolver habilidades motoras e características físicas. Ele é uma ferramenta de transformação humana pois nele agregamos o conhecimento milenar oriental e os conceitos atuais da educação.

Trabalhamos a corporeidade do aluno com a educação pelo movimento e não apenas do movimento, por exemplo, quando ensinamos um golpe não estamos pensando apenas em melhorar a amplitude, força, coordenação e a velocidade. Através do ensino desse golpe, trabalhamos a perseverança do aluno, a persistência, a paciência, a determinação, o autocontrole e a postura, dentre outras características do comportamento humano. Assim a simples prática de um golpe, tem uma dimensão muito maior.

Ensinamos a luta esportiva, que tem o contato físico e o confronto, porém, usamos isso para que o aluno tenha uma vivência e possa compreender questões fundamentais como empatia, autocontrole e respeito ao próximo. Pois se um golpe recebido, dói em mim, um golpe desferido, dói no outro também. Nesse sentido a luta que aparentemente é algo agressivo, torna-se um excelente instrumento de educação.

Além disso, usamos todas as situações acontecidas em aula para esclarecer a filosofia da arte marcial e reforçar a importância de uma conduta correta em todos os momentos da vida. O aluno é levado a repensar sua conduta e estabelecer uma ligação do que acontece dentro do tatame, com o que acontece na sua vida cotidiana.

Ouço muitos relatos de alunos, dizendo que em situações de conflito, lembram que precisavam usar o autocontrole. Em outros momentos dizem que nos momentos difíceis da sua vida, lembram do espirito indomável e assim conseguem aplicar a filosofia do taekwondo naquilo que é mais importante: na sua própria vida.

NEI ALBERTO PIES: Educação e Taekwondo são os alicerces da cultura coreana. Na sua visão, quais deveriam ser os alicerces da cultura do Brasil?

O Brasil é um país que se caracteriza pela diversidade de raças. Acredito que essa miscigenação poderá criar uma raça que é a mistura de todos os povos.

Hoje em dia, o que acontece é que talvez essa diversidade faz com que os descendentes de italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc, acabem cultuando o país dos seus descendentes e esqueçam de ter o sentimento nacionalista de amor pelo Brasil.

Por ser um país continental, o Brasil possui climas, costumes e culturas diferentes. Mas acima de tudo isso, uma das características mais fortes do povo brasileiro é a sua dimensão afetiva. O brasileiro é um povo receptivo, alegre, caloroso, que se importa com o ser humano. Isso é algo muito importante e que tem um grande valor.

Penso que deveríamos fazer um resgate das nossas origens e a partir disso construir uma nova cultura moral, onde a diversidade e a dimensão afetiva estejam ligadas a uma conduta correta de vida.

Nesse sentido, acredito que temos muito que aprender com a cultura milenar oriental. Quando pensamos em povos que tem dois ou três mil anos de história, que já passaram por muitas civilizações, períodos de guerra, escassez de alimento e problemas climáticos, e que ao longo desse tempo aprenderam aprimorar seus costumes e o seu modo de vida, podemos pensar que o Brasil ainda é um país muito jovem que deve aprender com exemplos que deram certo em outros lugares.

Estabelecendo um paralelo com a cultura coreana, além do que já foi dito, acredito que deveríamos ter como pilares para o nosso desenvolvimento, a educação com  incentivo financeiro e valorização dos professores como também, a massificação do esporte, que é um instrumento de controle da violência, sociabilização e difusão de valores e de uma postura de vida.

Para finalizar gostaria de destacar uma frase que sintetiza os valores coreanos: “Povo saudável faz uma nação forte!”

NEI ALBERTO PIES:  A quem e porque recomendas a prática do Taekwondo? Tem idade para praticar este sistema de luta com filosofia?

Todos podem praticar taekwondo, segundo a metodologia que eu desenvolvi. Desde crianças, a partir de 4 anos de idade, até pessoas da terceira idade. Basta fazer uma adequação a faixa etária, aos objetivos e a necessidade de cada grupo.

Para crianças é um excelente método de educação. Além de melhorar a saúde e desenvolver-se fisicamente, divertem-se e ao mesmo tempo aprendem a resolver conflitos, conviver harmoniosamente e respeitar regras e normas.

Para os adolescentes é uma possibilidade de realizar exercícios físicos vigorosos e enfrentar aquela adrenalina típica de desafios. Desenvolve a autoconfiança e garra necessárias para essa fase da vida, onde passam por exames pré-vestibulares e desafios da futura vida profissional.

Já, para adultos é indicado como exercício físico que melhora a capacidade aeróbica, anaeróbica e a flexibilidade. Além de ser um excelente meio de controlar o estresse e extravasar a tensão da vida moderna, através de chutes, socos e gritos que fazem o aluno sentir um aumento da vitalidade e sensação de bem-estar.

 Isso tudo muito bem entrelaçado aos valores e a filosofia oriental, trabalhados de forma adequada para o melhor entendimento de cada um. De uma forma geral, o taekwondo ajuda as pessoas a serem mais fortes física e emocionalmente.

NEI ALBERTO PIES: Como percebes e como encaras o reconhecimento de tua academia em nossa cidade?

Minha percepção é a melhor possível. A Academia André Régis Taekwondo se tornou ao longo do tempo uma referência em excelência do ensino da arte marcial.

Quando iniciei meu trabalho tinha ideia de fazer algo muito bem feito e continuar melhorando em todos os aspectos. Eu acreditava que se fizesse isso sempre e de forma constante, iriam reconhecer o meu valor.

Hoje me sinto muito feliz quando as pessoas vêm até a academia pois praticamente todas dizem ter ouvido falar muito bem do nosso trabalho. Também recebo muitos elogios e agradecimentos de alunos e dos pais destes. Percebo o quanto meu trabalho é significativo na vida das pessoas, e isso é extremamente gratificante.

Sinto-me lisonjeado pelos inúmeros convites que recebo para participação em eventos, aulas, palestras… Poder compartilhar com os amigos e até com colegas de profissão minhas experiencias pessoais e profissionais a fim de contribuir para o crescimento deles, me fazem sentir que estou cumprindo a minha missão.

Dedico a minha vida a aprender, treinar e ensinar taekwondo. E a Academia é a síntese de tudo isso. Então perceber que tenho um negócio muito bem-sucedido e que ao mesmo tempo cumpre a missão de melhorar a vida das pessoas, é algo que me deixa extremamente orgulhoso pois para mim isso não é só um negócio, é algo que eu realmente amo.

NEI ALBERTO PIES: Considerações para finalizar entrevista.

Para finalizar essa entrevista, gostaria de destacar algo muito importante que é o enfrentamento do medo.

Lutar é literalmente enfrentar alguém ou algo. Para enfrentar alguém, primeiro, você precisa enfrentar a si mesmo e vencer os seus próprios medos. Adquirir a coragem para encarrar e seguir em frente. Muitas vezes falo: corajoso não é aquele não tem medo, mas sim, aquele que, mesmo com medo, segue em frente. Isso é muito importante nos dias atuais. E o Taekwondo é uma excelente ferramenta para enfrentarmos nossos medos.



Conheça também André Régis em vídeo.

O valor afetivo da relação professor-aluno no aprendizado

Sem o afeto ninguém aprende.
Que amor vocês passam aos seus alunos?


Quando o aluno tem afinidades e afeto pelo seu professor o ensino-aprendizagem tornar-se agradável e é recebido com carinho. O professor que transmite sabedoria através do afeto consegue alfabetizar com mais rapidez e os seus índices de ensino-aprendizagem despertam curiosidades por partes de educadores e pesquisadores do mundo inteiro.

Qual o segredo para alfabetizar criancinhas com dificuldades de aprendizagem? Não há segredo, dizem muitos professores que conheço, há afeto. Pegar na mão da criança e ajudar-lhe a cobrir ou colorir uma letrinha ainda se faz necessário. Tarefas onde o professor e o aluno compartilham experiências emocionais são necessárias.

O afeto que o professor dedica a seus pequenos alunos faz com que eles sintam confiança no que está sendo ensinado, despertem para a curiosidade e a admiração.

O aluno que recebe afeto do professor também passa a conhecer mais as suas emoções e aprende a conviver com indivíduos de pensamentos diferentes sem se preocuparem se são ou não amados. O amor do professor basta-lhe. O aluno vê no professor amado um herói, ele sabe que pode contar-lhe seus mais íntimos segredos, confiar-lhe seu brinquedo mais querido e falar de si sem temer ficar de castigo ou coisa parecida.

A arte de ensinar vem de longe, e desde antigamente os nossos principais educadores nos mostraram que sem o amor pela profissão tudo fica mais difícil, tomemos como exemplo o amor que Pestalozzi tinha pelas suas crianças. Falo do cuidado com a criança que estamos perdendo nos dias atuais.

Muitas pessoas estão indo às salas de aulas sem amarem seus alunos porque quem ama não grita e nem perde a paciência facilmente. Claro é que as crianças numa sala de aula, na maioria das vezes, fazem um barulho tremendo, mas isso não significa que elas mereçam ouvir gritos ou serem puxadas pelos braços para voltarem aos seus lugares.



A aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria? (Ana Manoela Detoni)



É preciso que o professor acima de tudo se ame e tenha conhecimento de si mesmo para que possa amar aquelas crianças que necessitam dos seus cuidados para aprenderem a ler e a escrever.

Todos sabemos que a criança nos seus primeiros dias de aula sente-se sozinha, triste, saudades de casa e dos seus brinquedos, desamparada e chorona, algumas vezes. Tudo o que ela mais deseja é voltar para junto daqueles que lhe querem bem e lhe passam confiança e amor.

Se a criança que chega na escola encontra um professor sorridente, recebe um abraço e ouve palavras de zelo logo se acostumará com a escola, pois sabe que ali tem alguém em quem pode confiar. Quem não chorou no seu primeiro dia de aula?

Os meus primeiros dias de aulas foram horríveis, eu nem entrava na escola, voltava do portão da escola isso por que eu não fui recebida com afeto pela minha professora do jardim de infância. Hoje sinto o vazio que ficou em mim dessa professora que não me ensinou com amor, mas com uma didática de memorização onde ou eu aprendia ou ficava de castigo. Que amor ela me passou? Que amor vocês passam aos seus alunos? Vocês são lembrados pelos seus ex-alunos?

Outro dia, um ex-aluno ligou-me depois de vinte anos para falar de um problema que estava vivendo e não sabia como resolver, pediu-me ajuda por que somente em mim confiava. São coisas assim que nos dizem o quanto ensinar precisa de afeto. Sem o afeto ninguém aprende.

O ensino-aprendizagem com afeto forma cidadãos preparados para uma vida competitiva como a que estamos vivendo nesse momento de relações líquidas, onde amigos são descartáveis e jogos eletrônicos são os passatempos preferidos da infância.

O afeto faz com que a criança perca a ansiedade e aprenda a desenvolver as suas habilidades cognitivas até mesmo nas disciplinas com mais dificuldade.

Se na grade curricular dos cursos de pedagogia tivesse a disciplina de Afeto creio que o nosso ensino-aprendizagem seria de outro jeito e as nossas crianças viveriam muito mais felizes. Querem a todo custo que aprendamos enfiando goela abaixo conhecimentos que não sabemos para que servirão. Esse é o problema do ensino contemporâneo.

É de conhecimento de todos que as crianças têm dificuldades para aprenderem matemática, mas se for ensinada com afeto colocando aqui a paciência, dedicação, carinho, vontade de ensinar, respeito ao educando, essa disciplina passará a ser vista de outra forma, ou seja, as crianças aprenderão a gostar das suas aulas.

Boa parte dos professores de matemática são carrancudos e exibem um ar de superioridade diante dos seus alunos. Não falam de poesia e nem de amor em sala de aula, por quê?

Já pensaram em ensinar uma criança a aprender a tabuada através da música? Ou até mesmo através de uma contação de histórias. As disciplinas devem conversar umas com as outras e a criança precisa de professores que ensinem com afeto para aprenderem com eficiência.

Vocês já perguntaram aos seus alunos qual sonho eles tiveram na noite passada? Ou o quais são seus maiores medos?

Aproxime-se do seu aluno e procure ser um professor-amigo que planeja a sua aula com base na experiência de vida das suas crianças, ou seja, que a sua aula passe os conhecimentos curriculares para um bom ensino-aprendizagem baseada na formação emocional e física dessas crianças.



“Este depoimento é para lembrar a você, querido professor, que sem amor nada conseguimos em sala de aula. Educamos alunos preparados para concursos e o mercado, mas nunca preparados para a vida. O amor em sala de aula é bastante importante”.

Um novo jeito de organizar a vida econômica

Esse modelo de economia linear que desde há muito orienta os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque, de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta.


Desde que a natureza (matriz do sistema-vida) e, em especial, os principais serviços ecossistêmicos foram entregues às forças do mercado capitalista de consumo, passando assim a orientar o dogma maior da economia global, vale dizer, a busca pelo contínuo crescimento do PIB, dois “produtos” emergiram decorrentes desse processo de dominação/espoliação: o desequilíbrio climático (dado o exagerado nível de emissão de gases de efeito estufa, dentre esses, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), o perfluorcarbonetos (PFC’s ) e também o vapor de água) e o esgotamento ecológico (notadamente, a depleção dos recursos naturais e energéticos).


“A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependemos está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Nós estamos erodindo as fundações de nossas economias, meios de vida, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida mundialmente”, afirmou o químico britânico Robert Watson, chefe da IPBES”.
Veja mais aqui.


Dessa ação de domínio sobre o meio ambiente severamente imposta pela política de crescimento econômico sem fim, percebida num mundo ecologicamente limitado, contam-se ainda uma série de outros “subprodutos” que tem ocasionado seríssimas consequências às vidas humana e não humana, condição que potencializa o empobrecimento biológico da Terra. Não por acaso, abundam exemplos: (i) extinção de espécies (segundo o Living Planet Index, o número de animais no planeta diminuiu cerca de 52% desde 1970); (ii) contaminação química do meio ambiente, erosão eólica e hídrica (devido ao emprego maciço de nitrogênio); (iii) poluição do sistema de água (notadamente a ocorrência de eutrofização dos oceanos e a contaminação de nascentes); (iv) poluição do ar (devido ao acúmulo de gases, líquidos e partículas sólidas em suspensão); e, por último, mas longe de esgotar essa lista de sérios problemas, (v) crescente dificuldade de polinização.

Da incidência dos mais preocupantes desajustes ecológico-ambientais, implica dizer que a urgência maior – em termos de desafios a serem superados pela geração de agora, para garantir um futuro promissor à geração futura – passa pela necessidade de uma profunda transformação na lógica da economia global, algo que deve estar combinado a uma sistemática reversão do modus antrópico que marca a atuação da comunidade humana.

Nessa perspectiva, é preciso dizer algo mais: transformar a economia dos homens significa, sem fazer uso de palavras vazias, propor a radical mudança do ritmo frenético de produção e consumo globais e, a partir disso, reconstruir o metabolismo ser humano-natureza, buscando igualmente reconstruir a própria economia de produção.

Inocência analítica à parte, há um claro sentimento de que isso permitiria consolidar, observando de perto a íntima relação Homem-Natureza, uma ligação integrada e sustentável (vide quadrante à direita), superando definitivamente a situação hodierna (quadrante à esquerda), da Figura a seguir.

Relação Homem-Natureza

Dito isso, um esclarecimento se faz oportuno: se é pouco provável – senão uma miraculosa utopia, dirão alguns – promover a reconstrução de toda a estrutura da economia (digo, seu arcabouço axial), é perfeitamente plausível enveredar esforços para, ao menos, reorientar os pressupostos basilares da atividade econômica, partindo para uma etapa de produção econômica de baixo carbono, criando sequencialmente condições para desmaterializar a economia (serviços e processos produtivos), ou seja, reduzir a intensidade energética e de material usada na produção econômica.

Essas condições, é bom que se deixe isso às claras, propiciam, grosso modo e pari passu, que se converta em realidade algumas “utopias” há muito gestadas na sociedade moderna, dentre elas, conciliar ecologia e economia e harmonizar a relação natureza-homem (novamente olhando-se com acurada atenção para o emprego da condição localizada no quadrante à direita da Figura aqui exposta). O motivo? Preservar o meio ambiente/conservar a natureza ao mesmo tempo em que se diminui o ímpeto do crescimento econômico (vetor das emissões de gases estufa), sem, no entanto, renunciar a busca do desenvolvimento econômico, cuja dimensão sempre será o social, identificada no viés qualitativo da economia; diferente assim da dimensão econômica do crescimento, com claro viés quantitativo.

Parece certo afirmar que toda essa questão envolvida na desejável boa parceria entre o ser humano e o meio ambiente acirra os ânimos porque com isso não somente se discute a imprescindível proteção ambiental, mas explicitamente tudo aquilo que está relacionado às condições de vida reservadas aos homens e mulheres no futuro, bem como ao mundo animal.

A breve ideia norteadora aqui discutida, que na prática deve partir obrigatoriamente dos stakeholders, precisa delimitar as condições de vida econômica adaptadas ao tamanho e possibilidades da Terra. Sob essa inspiração, cabe asseverar o seguinte: no centro das propostas que se espera sejam prontamente debatidas visando encontrar um novo jeito de organizar a vida econômica, a economia (tanto a ciência quanto a atividade de produção) tem de ser vista como um sistema parcial inserido num sistema completo (o meio ambiente).

Para o bem maior do desejado equilíbrio ambiental, o sistema de economia linear (extração-produção-consumo-descarte) centrado na fixa ideia do crescimento, do jeito como tem sido praticado até o momento, e por ter “conseguido” transformar o planeta num imenso hipermercado, entulhando-o de mercadorias e bugigangas com o propósito descarado de nos obrigar a consumir freneticamente para assim alcançar o almejado “progresso”, não pode mais permanecer. Até mesmo porque isso está longe, muito longe, por sinal, de ser considerado, de fato, legítimo e verdadeiro “progresso”. Sem delongas, é notório que a Terra não suporta mais duas cotidianas e estapafúrdias situações: a pressão econômica, inclinada à crescente produção industrial; e a pressão humana, inclinada ao sufocante nível de consumo material.

Vale insistir: esse modelo de economia linear que desde há muito orienta os destinos da vida humana encontra-se completamente esgotado, justamente porque, de igual modo, vem esgotando as reservas biofísicas do planeta. É esse o ponto nevrálgico. O drama é esse.

Finalizando, cabe observar com certa atenção um argumento-chave. Para experienciarmos a sonhada transformação da economia global, é absolutamente necessário, antecipadamente, que se reconheça um ponto fulcral aqui já mencionado: a economia nada mais é do que um subsistema de um sistema maior chamado “meio ambiente”.

Partindo desse reconhecimento, subleva-se a condição de se respeitar as fronteiras ecológicas, o que implica em não ultrapassar os limites existentes da natureza. Isso ajuda a difundir a noção central de que é a natureza – e somente ela – a responsável por provisionar e sustentar toda a atividade de produção econômica. Logo, enfatize-se, é a natureza, e nada mais, que limita o processo de produção econômico-industrial.

Com relativa facilidade, diga-se a propósito, o que a ciência tem nos mostrado em termos de conhecimento e dados técnicos não deixa dúvidas de que os limites biofísicos do planeta põem em xeque esse destrutivo modelo de crescimento econômico com o qual temos convivido. Daí a urgência de sepultá-lo, implantando um novo jeito de organizar a vida econômica; afinal, sem exageros retóricos, estamos no limiar de um colapso geral.


Três líderes indígenas ameaçados de morte apresentam seus Territórios. O líder high tech, o grande xamã, o visionário. Os 3 encaram a mesma guerra: manter a floresta – e seus povos vivos!
Veja mais aqui.


Autor: Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários” (ed. CRV) prof.marcuseduardo@bol.com.br

Concepções de educação e de ser humano

Escolas e universidades existem para que estudantes aprendam conceitos, teorias; mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos.


Prezados colegas, bom dia! Sejam bem-vindos à UPF. É uma alegria recebê-los em nossa instituição.

Permitam-me, inicialmente, em nome da Universidade de Passo Fundo, agradecer a presença e a disposição de cada um de vocês em buscar conhecimento e investir na educação continuada. Aproveito para agradecer também aos organizadores dessa atividade, citando a Coordenadoria das Licenciaturas da UPF, aqui representada pelos treze cursos de graduação e pelos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu (Mestrado e Doutorado) vinculados às licenciaturas; aos apoiadores desse evento, citando a Secretaria Municipal de Educação e a Coordenadoria Regional de Educação.

Como mencionado no protocolo de abertura, o objetivo do XI Semape e do 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas, realizado neste dia 29 de agosto de 2019, é “discutir questões pertinentes às ações dos professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de educação integral, colocada na Base Nacional Comum Curricular – BNCC”. 


O que queremos, na verdade, é mostrar, não só através desses eventos, mas também da campanha Educar é a Nossa Ação, que a Universidade de Passo Fundo está, desde sua gênese, comprometida com a melhoria da qualidade da educação.

Desse modo, valorizamos os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e ativos na instituição; oferecemos formação inicial de qualidade; somos presentes e parceiros das escolas e das redes de ensino da comunidade e região; fomentamos formação docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder transformador da educação. 


Nesse sentido, o lema da campanha Educar é a nossa ação não é só a manifestação de uma concepção de formação, mas, também, a aposta em uma concepção de educação que acredita no potencial criativo, inovador, transformador da educação e de seus protagonistas.

O foco é a relação professor-estudante, a relação ensino aprendizagem, que deve, a qualquer custo, manter viva a curiosidade, a liberdade e a individualidade.


Permitam-me ilustrar o que digo com uma pequena história, relatada no livro Educação e Justiça Social, de Martha Nussbaum. Nessa obra, Nussbaum cita Tagore, poeta e romancista hindu (Prêmio Nobel da Literatura, em 1910) resumindo, assim, um conto chamado O Treino do Papagaio:

 
Um certo Rajá tinha um pássaro que adorava. Queria educá-lo por que pensava que a ignorância era uma coisa má. Os seus gurus convenceram-no de que o pássaro devia ir à escola. A primeira coisa que teve de ser feita foi a de oferecer ao pássaro uma instalação que estivesse à altura da sua aprendizagem e, assim, foi construída uma magnifica gaiola dourada. Depois ouve necessidade de adquirir bons manuais escolares e os gurus disseram: “Os manuais nunca serão em demasia para atingir o nosso objetivo”. Dias e noites a fio os escribas trabalharam na produção dos requeridos manuscritos. Em seguida, contrataram-se professores que, por terem sido principescamente pagos, puderam comprar belas casas. No dia em que o Rajá visitou a escola, os professores explicaram-lhe o método que utilizavam para educar o papagaio. “O método era de tal modo fantástico que, perante a sua excelência, o papagaio tinha uma aparência ridiculamente insignificante. O Rajá ficou satisfeito por não lhe ter encontrado defeitos. Quanto a qualquer hipótese de reclamação por parte do próprio papagaio, tal era simplesmente impossível: tinha a garganta tão preenchida pelas folhas dos manuais que era incapaz de assoviar ou de cochichar. (2014, p.84).

Como diz Martha Nussbaum, trata-se de uma maravilhosa história e, como tal, dispensa comentários. Entretanto, gostaria de chamar a atenção para a necessidade de, em termos de concepções de educação/formação, superarmos os limites da gaiola dourada, dos bons manuais e dos métodos que desconsideram os sujeitos da ação.

Afinal, as escolas e as universidades existem sim para que estudantes aprendam conceitos, teorias; mas, também, para que desenvolvam capacidades e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos.

 
Que a lógica e a dinâmica do professor produtor de currículo possam invadir nossas mentes e nossas práticas.

Sobre o evento

Seminário de Atualização Pedagógica ocorreu na UPF nesta quinta-feira (29), provocando os professores da rede pública a serem produtores do currículo

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento que regulamenta quais são as aprendizagens essenciais a serem trabalhadas nas escolas públicas e particulares de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio para garantir o direito à aprendizagem e o desenvolvimento pleno de todos os estudantes. Com o objetivo de promover a troca de experiências e conhecimentos entre a Universidade de Passo Fundo (UPF) e os professores da rede pública de educação, ocorre, nesta quinta-feira (29), o XI Seminário de Atualização Pedagógica (Semape) e o 9º Encontro de Professores e Estagiários das Licenciaturas. O tema do evento provoca academia e docentes a pensarem como produtores do currículo.

O Seminário pretende discutir questões pertinentes às ações dos professores na escola de educação básica, fundamentando-se na proposta de educação integral, colocada na BNCC.

Para o vice-reitor de Graduação, professor Dr. Edison Alencar Casagranda, o que ser quer é mostrar, não apenas por meio desses eventos, mas também da campanha Educar é a Nossa Ação, é que a UPF está, desde sua gênese, comprometida com a melhoria da qualidade da educação. Em sua fala, ele destacou que a Instituição valoriza os cursos de licenciatura, mantendo-os vivos e ativos, e oferece formação inicial de qualidade. “Somos presentes e parceiros das escolas e das redes de ensino da comunidade e região, fomentamos formação docente continuada e mantemos nosso olhar atento às demandas e às temáticas da área, apostamos em novas metodologias e, fundamentalmente, no poder transformador da educação”, pontuou.



Fotos: Caroline Simor
Autor: Edison Alencar Casagranda, vice-reitor de graduação UPF

Nem padre, nem religioso: sou professor

A escola pública deve promover o
conhecimento das diferentes religiões,
sem quaisquer formas de proselitismo
e preferência religiosa.


O professor de Ensino Religioso, que trabalha na perspectiva do diálogo e do conhecimento inter-religioso, sempre deve ter mente aberta, compromisso com o conhecimento das diferentes religiões e ousadia para enfrentar o desapego de sua convicção ou crença religiosa.

Todos deveriam reconhecer diferenças entre fé, religião e espiritualidade. Fé sempre é uma questão pessoal, uma forma e uma relação íntima de cada um com o Transcendente. Religião é a experiência coletiva da vivência da fé (não por acaso, nas religiões os seguidores se chamam de irmãos ou irmãs). Já espiritualidade, remete a uma dimensão sempre maior, que pode e deve ser pensada na perspectiva das aulas de ensino religioso. Espiritualidade é Cuidado: consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com o Transcendente.

Recorro a memórias afetivas de estudantes em dois níveis: ensino fundamental séries finais e Ensino Médio. As duas memórias revelam o reconhecimento de práticas em sala de aula.

“Um estudante do sexto ano fez uma constatação interessante. Logo após expor para a turma, de forma entusiasmada, o sentido do Ensino Religioso para a formação integral do ser humano e para a construção do sentido da vida, o aluno me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem pensar muito, respondi: “nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra”. 

“Um estudante do Ensino Médio, depois de umas quinze aulas, resolveu abordar-me. Perguntou se eu era ateu. Resolvi interrogá-lo: – Por que você acha que o professor é ateu? Ele me respondeu: “professor, o senhor faz uma aula de ensino religioso desapegado. Eu tinha uma professora conhecedora de muitas religiões, mas ela não conseguia livrar-se do moralismo. Sempre acabava querendo enquadrar a gente, afirmando como a gente deveria viver”.

O Ensino Religioso, no paradigma inter-religioso, cumpre importante papel na formação integral do ser humano, no reconhecimento das dimensões históricas, psicológicas, sociais, culturais e religiosas de cada ser humano e de todo mundo.

Ao longo destes últimos quinze anos trabalhando com a disciplina do Ensino Religioso, especialista em Metodologia de Ensino Religioso, conheci pessoas, vivi experiências de trocas de conhecimentos, visitei templos religiosos e dialoguei muito sobre o universo religioso. Assumo que sei pouco, quase nada, sobre as tradições religiosas.



O objetivo das visitas de conhecimento é complementar e ampliar os conhecimentos das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e compreensível em livros, vídeos ou na internet.

 Minha maior aprendizagem é que me percebo um melhor cristão. Sou católico, apostólico e romano. Sigo e vivo minha religião, mas o conhecimento das outras religiões em nada afetou minha fé e nem minhas crenças. Muito antes, pelo contrário, vivo minha religião de forma livre e leve, sem a carga dos preconceitos e discriminações.

Uma lembrança aos colegas que, como eu, desafiam-se a orientar os jovens sobre os conhecimentos do Ensino Religioso: não esqueçamos de reconhecer os conhecimentos religiosos que já integram a vida dos estudantes; de integrar os diferentes conceitos, habilidades e atitudes que as outras áreas do conhecimento despertam em nossos adolescentes e jovens. Não esqueçamos de integrar às nossas aulas os diferentes saberes que são gerados na comunidade, nas famílias, nos templos, nas ruas e no cotidiano de todos nós.

O Ensino Religioso, como os demais conhecimentos, não cabem num livro, num caderno ou numa lousa. Cabem mesmo em mentes abertas e corações capazes de se desapegar das paixões, dogmas e fundamentalismos, característicos de seguidores de algumas religiões.

A escola pública é laica, não significa que ela seja atéia! A escola pública pode e deve promover o conhecimento das diferentes religiões, sem quaisquer formas de proselitismo e preferência religiosa.



Numa experiência inédita em nossa cidade, alunos das séries finais de uma Escola Municipal de Passo Fundo, RS, participaram de uma viagem de estudos, deslocando-se por cerca de 330 Km, em meados do mês de junho de 2019, para o município de Três Coroas, para conhecer o Templo do Budismo Tibetano.

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