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Marionetes e marolas


Nos cômicos desvios e extravios cotidianos,
as âncoras de um projeto de expropriação camuflada.

Panem et circenses, a conhecida política do Pão e Circo da Roma Antiga, constituía-se em uma estratégia metodológica de garantir fidelidade à ordem social determinada pelo elite imperial e apoio da massa popular. Quando em momentos críticos, o império organizava espetáculos, por vezes sangrentos, ou distribuía “presentes”, garantindo a aceitação das decisões imperiais, sobretudo à população mais humildes (que era, também, sempre a maioria e, por conseguinte, também precisava ser mantida à rédea curta).

Estas ações, política e minunciosamente pensadas, utilizavam-se da manipulação de figuras (como os gladiadores, cavaleiros, domadores e afins) para induzir o povo a um estado de encantamento e estarrecimento. Provocavam, estas figuras, suspiros, aplausos e eufóricos gritos da plateia, sempre atenta ao que era posto, pela elite, no centro da arena. Milhares de olhos sobre a arena. Milhares de vozes esbravejando apoio ou contestação ao que se dava na arena. Toda atenção à arena: mínima ou nenhuma atenção aos bastidores.

Nesse mesmo sentido, se poderia falar de um poderoso e milenar recurso cênico: a marionete. Em sua origem etimológica, marionnette (do francês) alude a algo (normalmente um boneco) que é movimentado (conforme suas articulações permitem) por meio de cordéis que são, por sua vez, manipulados por alguém oculto. Como não aplaudir e encher o rosto de encanto ao ver um espetáculo de marionetes? Como não se prender na confusa tentativa de compreender como pode, um boneco, fazer tantos movimentos e com uma dinâmica que parece dar vida ao mesmo? Quem nunca se encantou com os habilidosos malabarismos de um/a titereiro/a? O fato é que, usando-se de mecanismos de controle, um/a titereiro/a habilidoso/a deixa perplexo/a qualquer espectador/a que, tentando entender como pode um boneco ter tanto dinamismo e capacidade de articulação, extasia-se, num espanto paralisante.


A arte das marionetes
As marionetes são bonecos ou fantoches que podem ser manipulados através de cordas posicionadas em locais estratégicos do corpo do boneco, de modo que este possa ser movimentado por uma pessoa.
Veja mais aqui.


Um fato histórico e um recurso cênico que, assim como tantos outros elementos da vida humana, ganham novas formas e finalidades. Algo que ambos têm em comum, é o fato de que, enquanto se focam as atenções do público (sobretudo daquela população mais humilde cultural e economicamente) numa cena manipulada, todo um outro conjunto de acontecimentos (que são os que realmente importam para quem está manipulando os cenários) passam despercebidos pela atônita (mas controlada) plateia. A cena mostrada ao público, revela apenas e somente aquilo que a estrutura dominante quer que seja mostrado. E além disso, determina, através de diversos recursos e instrumentos, o ponto de vista a partir do qual aquela cena deve ser vista, entendida, comentada, compartilhada, reproduzida.

Todos esses recursos circenses e teatrais (aqui referidos metaforicamente) são, também, poderosas estratégias políticas. A “infeliz” fala de um representante ministerial, a prisão de um “intocável”, o aperto de mãos para selar uma “parceria”, uma denúncia digna de “plantão global”, indicações “técnicas” (“afinal não se fazem mais indicações políticas”), plantações de laranjas, enfim… Todo um conjunto teatral muito bem arquitetado (e aqui não há espaço para principiantes ou amadores/as) que, além de alimentar a fantástica e viralizada indústria de memes, mobiliza a atenção do público para os fatos apresentados sem que esse perceba que, na verdade, não passa de um marionete às mãos do/a titereiro/a.

Nunca a humanidade teve tanto acesso às informações como podemos usufruir no contexto contemporâneo. Mas, este acesso e disponibilidade não significam, por si só, condição crítica para perceber a realidade. Como construir espaços de discussão, abertos, democráticos, críticos e construtivos, de coesão social para o enfrentamento desse cenário de despolitização e apatia mediada? O que estamos vendo? Como estamos vendo? O que estamos lendo? Como estamos lendo?

Em primeiro lugar, talvez, reconhecendo que esse processo acontecerá apenas coletivamente, como expressão popular organizada.

Enquanto o maremoto se aproxima, estamos adestrados a focar toda atenção à marola. Causa comoção nacional um 7×1 alemão, mas causa euforia e sentimento de desenvolvimento, ordem e progresso os retrocessos sociais, retiradas de direitos do/a trabalhador/a, a expropriação mineral e de outros bens, a subjugação do cultivo da terra aos interesses convencionais de multinacionais. Tudo bem o/a brasileiro consumir, em média, 7 litros de veneno por ano se isso atender aos desejos do Tio Sam (e de outros tantos tios, primos e a lista é longa).

Mas, ficamos extasiados/as e perplexos/as com o teatro nas arenas produzidas por certos setores da mídia. Salve, pátria amada! Viva a marola!

Os 55 anos do golpe militar


Não há fatos simples.
O bom entendimento histórico
não é confortável, apaziguador:
ele não equaciona o passado, nem nos dá
respostas definitivas, mas nos faz pensar.

Neste 31 de março (1º de abril), serão lembrados os 55 anos do golpe militar de 1964. Muitas vezes, quando estudamos este período – como eu tenho feito há tantos anos –, tendemos a ver o golpe de 1964 apenas como seu evento inaugural, mas ele foi mais do que isso.

Ele representou a expressão mais contemporânea do persistente autoritarismo brasileiro, que já se manifestou em tantas outras ocasiões.

Na verdade, em 1964, houve um golpe civil-militar, mas o que veio depois foi uma ditadura indiscutivelmente militar.

É espantoso como até hoje a tentativa de tirar da letargia a memória coletiva sobre aquele período, causa alvoroço entre as “viúvas” da ditadura militar. Agora, por exemplo, Bolsonaro tenta negar este passado, página infeliz da nossa história. É bem verdade que intelectualmente sua excelência é medíocre. Fica perdoado.

Os fenômenos históricos são complexos. Não há fatos simples. O bom entendimento histórico não é confortável, apaziguador: ele não equaciona o passado, nem nos dá respostas definitivas, mas nos faz pensar. Aí, convenhamos, é exigir demais de Bolsonaro e a maioria de seus seguidores.

Em 1964, Jango pretendia dar voto aos analfabetos, dar terra aos camponeses, dar ouvido aos subalternos da Marinha, impedir a remessa de lucros escorchantes para o exterior, dar vagas nas universidades aos jovens e outros “absurdos”. Foi acusado de comunista!

Na época, havia o IBAD e o IPES – espécies de MBL – incitando o golpe e convocando a classe média, sempre fácil de manipular. Fazia parte de um plano traçado nos EUA, para desestabilizar o governo de Jango. A ameaça aos interesses econômicos dos EUA precisava ser abortada.

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que o golpe estava em gestação desde 1961, quando Jango substituiu o maluco Jânio Quadros, que renunciou alegando “forças ocultas”. O golpe era questão de tempo.

O governo de Jango era nacionalista e popular. Isto, sem dúvida assustava. Ao sair do poder Jango contava com a aprovação de 76% dos entrevistados pelo IBOPE. O golpe, segundo os saudosistas, veio para colocar a casa em ordem: a ordem dos cemitérios clandestinos, das torturas, dos exílios, das cassações, das prisões ilegais, do Congresso fechado e da censura.

Haveria espaço ainda hoje no Brasil para novos golpes militares? É difícil responder a essa pergunta. Provavelmente, não, até mesmo em função das novas configurações do cenário internacional e, também, por causa do perfil das Forças Armadas brasileiras na atualidade, embora alguns tresloucados peçam a “intervenção militar”.

Há outro fator a considerar. Hoje, o governo é formado por uma maioria de militares. Eles já estão no poder. Há até quem indague: com tantos militares no governo, quem está cuidando dos quartéis?CAIXA DE TEXTO:


Esse estranho binômio, a força da influência familiar associada à pressão dos militares, por mais iluminados que ambos se revelem, corre o perigo de produzir filhos abortivos em série. Restar torcer para que tais pressentimentos não passem de pesadelo e esperar pelo melhor. (Alfredo Gonçalves)

Como enfrentar o luto na escola


Massacre que deixou dez mortos
em uma escola pública de Suzano, em São Paulo,
ressalta a importância do papel da escola em
ajudar os estudantes a lidar com a morte.

Morte: um tema sobre o qual ninguém gosta de falar, embora as circunstâncias dela sejam próprias da vida. Quando esse assunto envolve um massacre, então, como o que ocorreu em uma escola em São Paulo, neste mês de março, com tamanha violência, é ainda mais complicado lidar com a morte e com o luto. A escola, em especial os professores, têm um papel fundamental para tornar a dor dos seus alunos um pouco mais suportável. Espaços de escuta e de exposição do tema são fundamentais, já que o luto provoca um impacto emocional importante e os desajustes psicossociais costumam se manifestar também no ambiente escolar.

Cada fase da vida é caracterizada por um instrumental cognitivo, emocional e cultural para conceituar, entender e lidar com a morte.  De acordo com a coordenadora do projeto de extensão da Universidade de Passo Fundo “Clínica de estudos, prevenção, intervenção e acompanhamento à violência” (Cepavi), doutora em Psicologia, professora Ciomara Benincá, o entendimento da morte é difícil em qualquer fase da vida das pessoas, mas crianças muito pequenas, por ainda não dominarem conceitos básicos que envolvem a morte e o morrer, como a irreversibilidade, a universalidade e a inexorabilidade, tendem a perceber a morte como um estado transitório que pode ser revertido a qualquer momento. 

A partir dos cinco anos, a criança começa a compreender que a morte não pode ser revertida. “Em torno dessa idade, embora a criança não tenha plena clareza do que se trata, ela começa a entender que quem morreu não vai mais voltar e, mesmo sabendo que seres vivos morrem, ainda tem dificuldade para considerar a morte dos que ama”, comenta Ciomara.

Na adolescência, mesmo que muitos indivíduos nessa fase vivam como se fossem imortais e onipotentes (é o caso do comportamento de risco e da ideia adolescente de que nunca nada de ruim vai acontecer a eles), ocorre o último estágio de entendimento, que seria quando as pessoas começam a entender e considerar a própria morte e não só a morte do outro.

No caso do massacre da escola em Suzano, que deixou dez mortos, o principal complicador é a violência desmedida e o nível de vulnerabilidade em que a escola como um todo foi colocada. “Sangue, ódio, doença mental não combinam com o espaço escolar, pois nenhum dos atores envolvidos está preparado para defender-se de assassinos naquele que é um ambiente de crescimento e desenvolvimento. Alia-se a essa vulnerabilidade a dor de perder pessoas queridas precocemente. É uma situação sempre muito difícil de lidar, mas que deve ser encarada de frente no coletivo com muito acolhimento, compreensão e apoio, pois feridas não cicatrizadas tendem a se tornar uma doença muito mais grave e incurável”, ressalta a coordenadora do Cepavi.

É preciso falar sobre a morte

A morte e o luto não podem ser tratados como tabus. “Quando existem assuntos que são tabus, sobre os quais a escola se recusa a tratar, a criança passa a sentir-se inadequada diante dos próprios sentimentos e da necessidade de expressá-los. Daí começam a aparecer mudanças bruscas de comportamento como forma de manifestar que algo não está bem”, observa Ciomara.

Falar é sempre a melhor solução. Conforme Ciomara, somente é possível falar de morte quando também é possibilitado falar de vida: uma não existe sem a outra. “É preciso criar um espaço de escuta para falar dos mais diversos assuntos que povoem o mundo infantil, inclusive os mais difíceis, como perda, morte e luto”, enfatiza a professora. 

O tema deve ser discutido ao longo da vida e não apenas quando casos de morte acontecem. Segundo a professora, abandonar as pessoas sozinhas com a sua dor é equivalente a uma segunda morte, que é a morte social de alguém que se sente incompreendido e inadequado. “Esse é um processo que não necessariamente deveria ser iniciado com uma tragédia, mas a partir da discussão das pequenas perdas que ocorrem ao longo da vida, desde a perda do colo da mãe, da exclusividade na família com a chegada de um irmão e até dos próprios dentes que precisam morrer para nascerem outros mais fortes e definitivos. É com os pequenos simbolismos do dia a dia que se introduz um assunto tão delicado e fundamental como esse”, informa a coordenadora do Cepavi.

O tema deve iniciar-se no seio familiar desde muito cedo. Ciomara enfatiza que a família, inserida no contexto sócio-histórico, disponibilizará estratégias psicossociais características da época em que vive, mas também oriunda de conceitos e vivências que são típicas da história familiar com as suas dores, medos e lutos. 

O papel da escola

Nesse contexto, a escola pode agir como um agente de saúde mental na medida em que continua criando espaços de fala e de reflexão sobre a vida e a morte, muitas vezes auxiliando a própria família sobre os caminhos possíveis para exercitar essa prática.

O professor tem um papel fundamental nesse processo. Cada profissional terá uma forma pessoal de agir e expor o assunto com seus alunos. “A disponibilidade do professor para acolher a dor do aluno está diretamente relacionada com a forma como vivencia as suas próprias dores. Nesse sentido, não há como exigir que o professor aja naturalmente como se devesse ser o lado mais forte quando ele mesmo não se sente preparado nem fortalecido para isso”, revela Ciomara.

A melhor forma é acolher o aluno e respeitar a sua dor, se colocando à disposição no que for preciso. “Precisamos entender que morte e perdas são assuntos difíceis independentemente da idade ou da fase da vida em que ocorram. Elas estão relacionadas com as condições psíquicas de cada um, a sua própria história de luto e as estratégias que foi capaz de usar para enfrentá-la. Equivale dizer que muitos dos professores talvez precisem de tanto acolhimento quanto alguns dos alunos que lá estão”, reforça a professora.

Sobre o Cepavi

O projeto Clínica de estudos, prevenção, intervenção e acompanhamento à violência (Cepavi) existe desde 2002, atuando na prevenção e no acompanhamento nas situações de violência, como são as que envolvem morte, suicídio, abuso e vulnerabilidade. 

Atuam, especialmente, junto aos agentes multiplicadores, como professores e profissionais da saúde, embora também desenvolvam um trabalho sistemático com crianças em situação de vulnerabilidade nos centros de convivência e com mulheres vítimas de violência encaminhadas pela Delegacia da Mulher. “Nesse sentido, atendemos tanto a finalidade da prevenção quanto do acompanhamento da violência junto ao nosso público que abrange a cidade e a região. Frequentemente, somos chamados por secretarias de saúde ou educação em municípios da região para realizar workshops, oficinas e palestras envolvendo as mais diversas temáticas, a saber, bullying, violência virtual, automutilação, suicídio, entre outras”, comentou a coordenadora do Cepavi.


Foto: Natália Fávero
O luto provoca um impacto emocional importante e os desajustes psicossociais costumam se manifestar também no ambiente escolar

​O que as mulheres escrevem?


O que as mulheres desejam? O que as une? O que lhes dá alegria? Quais seus medos e suas angústias? Se você, não importa o gênero, já se fez essas perguntas, esta coletânea é para você. É no jogo de palavras da poesia, na observação arguta da crônica e na força intensa do conto que se desvelam os sentimentos que nos povoam: a alegria de se descobrir, o medo de não ser amada, a solidão, a raiva com as injustiças, com o não poder existir verdadeiramente e com o preconceito. Essas são as nossas palavras. Essas são as coisas que as mulheres escrevem.

O lançamento da coletânea de textos foi no dia 08 de março de 2019, junto ao Shopping Passo Fundo, em Passo Fundo, RS.

Contatos para compra do livro: o livro pode ser adquirido pelo site da Editora www.editoradesdemona.com.br, também nas livrarias de Passo Fundo e na Livraria Vanguarda de Pelotas.

Mães e pais pela democracia nas escolas?


Cresce, no seio das escolas particulares e algumas escolas públicas, um movimento de mães e pais que defendem o que nem deveria estar sendo colocado em xeque: a autonomia das escolas, a liberdade de cátedra dos professores e professoras, o conhecimento como forma de emancipação e libertação dos adolescentes e jovens, a pluralidade de pensamentos.

Em Porto Alegre, a partir de um movimento espontâneo de alunos de escolas particulares, inicialmente, mães e pais criaram uma Associação de Mães e Pais pela Democracia, no final de 2018.  Esta associação vem se tornando uma importante referência na defesa da democracia a partir das escolas, justamente deste lugar que deveríamos esperar a formação de cidadãos críticos, participativos e com disposição de construir a humanização, a partir do conhecimento.

Nesta entrevista, conheceremos um pouco mais desta história a partir de uma da Presidenta da Associação que hoje também já tem atuação fora da região metropolitana de Porto Alegre, a socióloga Aline Kerber.

Nei Alberto Pies: Aline Kerber, em que contexto surgiu a ideia de uma Associação de Mães e Pais pela Democracia?

Em razão da manifestação de alunos em algumas escolas de Porto Alegre, implicados com o discurso de ódio de grupos que apoiam o atual Presidente, sobretudo contra a população LGBT, organizamos um movimento para proteger os nossos filhos e para lutar por uma escola livre, plural e democrática.

Cada vez mais mães e pais começaram a se dar conta, muito rapidamente, diga-se de passagem, da importância de estarem integrados nesta luta pela segurança do direito à educação, à democracia e à liberdade desde a escola, pais de vários espectros político-ideológicos, democratas, e passaram a nos procurar com as demandas mais diversas.

Nosso movimento ganhou bastante força e legitimidade porque conseguimos construir uma comunicação assertiva junto aos tomadores de decisão e formadores de opinião, criamos canais de comunicação nas redes sociais, passamos a participar de Fóruns como o Fórum contra a Intolerância do MPF e, a partir disso, resolvemos constituir a Associação para termos formalidade para agir com mais eficácia, efetividade e eficiência para dar conta da demanda e do momento político atual que tem afetado as nossas escolas, a liberdade de cátedra das professoras e a liberdade de expressão e de aprender dos nossos filhos e filhas.

Queremos sair do debate puramente ideológico e das polarizações do momento e partir para proposições de políticas públicas que impactem positivamente o aprender e a prevenção da violência.

Nei Alberto Pies: Qual é a natureza e quais são os objetivos desta associação?

Somos uma Associação, suprapartidária e que busca a defesa de uma escola sem censura, sem livros retirados de escolas, como aconteceu no final do ano passado em uma escola particular de Porto Alegre, com bases nos princípios da Constituição Federal, ECA, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, convenções internacionais, como a CEDAW, e nas evidências científicas que aponta, por exemplo, importância da educação sobre gênero e sexualidade na escola, já que 70% dos abusadores sexuais de menores são pessoas da própria família e na escola as crianças conseguem reconhecer as violências sofridas e encontrar apoio e proteção.

Nei Alberto Pies: Na sua visão, porque é tão importante que mães e pais façam a defesa de uma escola onde exista pluralidade de ideias, liberdade de cátedra dos professores e autonomia pedagógica das escolas?

Nós temos um papel, segundo o ECA, um papel importante na educação dos nossos filhos, juntamente com a escola. Portanto, temos que lutar pelos direitos deles de terem um leque vasto de possibilidades de aprendizados, de conhecimento da história, dos direitos, das lutas sociais, e da escola como um lugar de formação da cidadania, para além da formação técnica, e já estamos lutando.

Não vamos recuar nenhum milímetro em relação ao cerceamento de liberdades. Não vamos aceitar que professores sejam perseguidos e gravados, porque acima de qualquer coisa há uma questão de propriedade intelectual e liberdade de cátedra que precisam ser garantidas para se ter uma escola com potência, sem doutrinação e sem pensamento único, com possiblidades de impactar positivamente a sociedade tão desigual e injusta que vivemos.

Nei Alberto Pies: Quais são os riscos das escolas (particulares e públicas) serem tomadas pela onda de intolerância e fascismo pregada por algumas autoridades e também por parte da sociedade que parece não tolerar a democracia e a diversidade nem na escola e nem na sociedade?

Isso já está acontecendo. Censuras de todos os tipos, diretas e indiretas. As escolas estão acuadas e com medo. Estão evitando o confronto e deixando de fazer atividades, como no 8M, inclusive para não expor as crianças. Livros foram retirados de escolas, livros foram censurados. Diariamente recebemos denúncias desse tipo.

Mães e pais que não aceitam que se fale em livros infantis em sofrimento no trabalho, diferenças salariais entre homens e mulheres com as mesmas habilidades e competências, já que não querem contar para os seus filhos que há também na sociedade exploração do trabalho, mais valia, desigualdades de gênero, racismo, machismo, sexismo,  lgbtfobia, etc.

Se a escola não reconhecer esses preconceitos e violências, por exemplo, como teremos uma sociedade saudável, consciente e pacífica? Os pais não ensinarão isso para os seus filhos…

Nei Alberto Pies: Quais são as estratégias que a Associação de Mães e Pais pela Democracia está tomando para divulgar seu trabalho e alertar outros pais e mães para a defesa desta causa?

Temos cafés democráticos quinzenais para mães, pais e professoras com diversos temas que afetam a dinâmicas das escolas, sexualidade, gênero, psiquiatria, o que é doutrinação, censura, democracia, liberdade, astronomia X teoria terraplanista, defasagem de aprendizagem, distorção série-idade, valorização de professores, entre outros. Além disso, fazemos rodas de conversas sobre segurança e prevenção da violência em escolas públicas, a convite das direções das escolas.

No dia 28/04, teremos o Festival da Democracia e da Liberdade com show do Nei Lisboa e outras atrações no Vila Flores em Porto Alegre. Pretendemos reunir pelo menos 500 pessoas afim de pensar a democracia e a liberdade e virar este jogo de censura nas escolas. Fazemos um trabalho forte de advocacy (defendendo a causa sem censura) na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, na Assembleia Legistiva e no Fórum de Combate a Intolerância do MPF que reúne o PJ, DPE, DPU, sindicatos e organizações da sociedade civil.

Fizemos pesquisas com professoras no 8M para entender o clima nas escolas atualmente em um contexto de cerceamento de liberdades e de escola do pensamento único (mesmo que só simbolicamente). Em abril lançaremos. Participamos de formação de candidatos ao conselho tutelar de Porto Alegre em fevereiro. Em breve, divulgaremos um importante canal de denúncias e constituiremos um Observatório da Educação Democrática para avançarmos na gestão da informação e do conhecimento e nos encaminhamentos das violações.

Nei Alberto Pies:  O que senhora gostaria de dizer aos pais e mães do RS e do Brasil, aos estudantes, aos professores e professoras, aos gestores e gestoras das escolas, às autoridades deste estado e de nosso país?

Nós estamos juntos e juntas. Vamos enfrentar essa onda de intolerância e ódio que tem afetado o dia-a-dia da escola com muita força e resistência.

Não podemos aceitar que as professoras estejam com medo de contar a nossa história e de fazer pensar. É imoral não poder pensar, não poder aprender, não poder refletir e não poder sonhar com uma sociedade melhor e mais justa para todos.

 Vamos defender a Constituição, que ainda está em vigor, já que o óbvio precisa ser dito, para garantir uma educação com amor e liberdade. Essa onda de “partido sem escola” vai passar e nós estaremos em um outro patamar de integração e engajamento social com os sofridos possíveis aprendizados. Não podemos mais ficar em cima do muro. Temos que nos unir e avançar com ou sem partidos e com ou sem as tensões da política.

Pelas mãos dos nossos filhos chegamos neste movimento e por eles estaremos resistindo e lutando pela diversidade e pela pluralidade de ideias e modos de ser e estar neste cenário tão adoecido e irracional, em que triunfa o símbolo da arma (violência) e o antiintelectualismo. Pedimos que a corrente de apoio de pessoas públicas e artistas ao movimento mães e pais pela democracia continue. Já recebemos vídeos de apoio com o do Luis Fernando Veríssimo, Evandro Mesquista, Gabriel Grancindo, entre outros. Faça seu vídeo e nos mande pela nossa fanpage no Facebook! Vamos juntos virar este jogo!

Clique aqui e confira matérias, vídeos, fotos e atividades.

Inclusão e cultura de paz na escola pública


Se a Educação já vem enfrentando dificuldades, imagina o que não está dentro de um parâmetro da normalidade. Para o desenvolvimento de um trabalho escolar que esteja permanentemente de portas abertas para a inclusão, é interessante pensarmos sobre o momento que estamos vivendo.

Há 30 anos professora, 10 anos em Sala de Recursos, com experiência em direção e supervisão em escolas públicas e particulares, professora por 12 anos em Ensino Superior, Universidade, Sinara Cecilia Librelotto Busatto traz, em sua bagagem e experiência, a firmeza e a ternura necessárias para exercer uma educação de qualidade social, que interessa a todos os envolvidos nela.

Com maestria, inteligência e sabedoriaexerce a função de professora de Sala de Recursos, onde atende 42 alunos incluídos no Ensino Médio do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, em Passo Fundo, RS. Mas também usa a sua experiência profissional e de vida para atuar no conjunto da escola, dando os suportes necessários para que nela se promovam a construção do conhecimento aliados à socialização (através da inclusão de todos e todas) e a perspectiva da escola como um lugar de vivências de tolerância e cultura de paz.

Acredita no poder da humanização, na possibilidade do conhecimento nos tornar pessoas melhores. Tem muito a nos ensinar, como veremos na entrevista que segue. Sinara Librelotto Busatto, com certeza, é Destaque na Educação.

Nei Alberto Pies: Professora Sinara, a partir de sua rica e vasta experiência na escola pública, qual são, na sua visão, os desafios da educação no Brasil?

Tenho certeza que a educação Brasileira já evoluiu muito, quando temos como referência os padres jesuítas catequizando índios e os filhos da monarquia frequentando escolas na Europa ou até mesmo fundando escolas para os filhos dos imperadores. Com o passar do tempo, melhorou bastante, mas não considero o ideal ainda. Penso que a EDUCAÇÃO é um direito de todos, mas como normalmente está atrelada à politica, isso não acontece na realidade. Considero que avançamos muito, mas pontuo alguns desafios principais que dificultam que a educação alcance seus fins.

1º) Falta de professor
Por causa dessa desvalorização do profissional nenhum jovem quer se tornar professor, os jovens preferem enfrentar outros cursos e outras profissões. São poucas as pessoas que se interessam pela profissão de professor e se arriscam fazendo um curso superior na área.

2º) Salário do professor
A educação brasileira também enfrenta o desafio com os professores, eles estão cada vez mais desvalorizados e sofrem muito com isso. O salário do professor brasileiro é baixo, a média dos docentes no país é cerca de 2.400 reais, isso não quer dizer que todos os professores recebem esse salário, pois o valor é diferente em cada estado. Mas com a média já é possível perceber a desvalorização do profissional.

3º) Jovens não sabem ler
Muitos alunos brasileiros têm uma grande dificuldade de ler, eles não conseguem estabelecer relações ao ler um texto e por isso encontram uma grande dificuldade de entender o que estão lendo. Quase 50% dos alunos brasileiros não são capazes de fazer uma boa leitura e esse é um grande desafio do ensino brasileiro, até porque faz parte da educação básica.

4º) Desinteresse
O desinteresse, a falta de objetivos e a falta de perspectiva de futuro de muitos alunos os impedem de ver na Educação uma possibilidade de mudança, de um futuro melhor do que vivem hoje.

5º) Infraestrutura
São poucas as escolas brasileiras que conseguem oferecer uma boa infraestrutura para o ensino, muitas vezes falta quadras de esporte, biblioteca, laboratórios, cantina e outras estruturas que os alunos precisam para ter uma boa educação.

6º) Desafio da educação básica: Idade certa
Muitos jovens e adolescentes demoram, por inúmeros motivos,para entrar na escola ou até mesmo desistem e por isso muitos estão nas escolas com a idade errada. Existem crianças mais velhas ainda fazendo a quinta série e até jovens de 15 anos nessa série. Esse é um grande problema enfrentado pela educação brasileira atualmente, muitos desses jovens acabam saindo da escola e desistindo ou optando pelo ensino EJA que não é o mais adequado e os jovens não são tão cobrados como na escola normal.

7º) Violência Escolar
É comum as notícias de brigas entre alunos, tráfico de drogas dentro da escola, agressões a professores e destruição do patrimônio das escolas. Infelizmente esse é um desafio que requer não só do governo, mas também dos pais dos alunos. A educação nesse caso não é ensinada apenas na escola, mas deve ser ensinada principalmente dentro de casa.

Nei Alberto Pies: Como é fazer inclusão, hoje, nos limites e nos potenciais de uma escola pública de Ensino Médio como o Cecy Leite Costa?

Se a Educação já vem enfrentando dificuldades, imagina o que não está dentro de um parâmetro da normalidade. Para o desenvolvimento de um trabalho escolar que esteja permanentemente de portas abertas para a inclusão, é interessante pensarmos sobre o momento que estamos vivendo

Segundo a filósofa Hannah Arendt: “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele”. É, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, preparando-as, em vez disso, com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum.

Hoje sabemos e entendemos que todos somos diferentes. A diferença é o que, de certa forma, nos humaniza. Percebê-la como valor é um processo que se estabelece em todas as esferas da vida e que legitimamos individual e socialmente.

Na articulação desses dois princípios pode-se concluir que todos têm direito às condições de vida digna e às oportunidades de realizar seus projetos de vida.

Qual o papel da escola tendo a diferença como valor?

A escola como instituição social tem como tarefa a transmissão e a veiculação de saberes e práticas para todos (qualidade social). Por meio das relações de diálogo e da criação de vínculos e tendo a diversidade como valor, trabalha no sentido de romper com a lógica da exclusão e da homogeneização. Ou seja, seu papel principal é preparar os alunospara a tarefa de renovar um mundo que está ainda repleto de situações de exclusão. Nessa perspectiva, são pressupostos que o processo de aprendizagem de cada criança é singular, que toda a criança aprende e que todas são importantes para o processo de construção de conhecimento no ambiente escolar. A educação inclusiva diz respeito a todas e todos!

Os avanços nos marcos legais são inegáveis e apontam para a necessidade de mudar a escola para além de modelos “engessados” que são geradores de exclusão. A Declaração de Salamanca (1994)  tem como diretriz que “as escolas regulares com orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias e que alunos com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular”. Na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) , que não fala apenas sobre educação e sim sobre todos os direitos humanos, é apresentado um novo conceito de pessoa com deficiência. Ela diz que “são consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas”.

A escola deve se abrir para atender estudantes com e sem deficiência e não somente àqueles que se adaptem a sua estrutura, dado que a deficiência é resultante da combinação entre barreiras existentes nessa mesma estrutura e impedimentos humanos.

Somos diferentes, temos os mesmos direitos e a escola é para todos. Sabemos e concordamos com esses princípios. Entretanto, quando estamos envolvidos nas tarefas cotidianas na escola, às vezes nos sentimos impelidos a repetir repertórios e ferramentas com os quais nos sentimos mais seguros, pois fomos forjados a partir deles. Nesse sentido, vale dizer que os estudantes público-alvo da modalidade de educação especial estão em desvantagem porque em nossa formação foram raros os momentos que pudemos conviver e estudar com pessoas diferentes.

Trabalhar com Educação Inclusiva numa Escola como o Instituto Cecy Leite Costa vem me fazendo repensar em vários aspectos. Pois nele existe um espaço e uma proposta de inclusão que abrange todos os aspectos e onde os educadores têm de reorganizar as escolas com o objetivo de garantir e qualificar socialmente o acesso de todas e todos às oportunidades educacionais e sociais. Os desafios aparecem nas relações entre pessoas diferentes convivendo no espaço comum. Fazer a escola para todos é aceitar o desafio de reinventar cotidianamente o mundo em que vivemos!

Nei Alberto Pies: Como vês a percepção dos pais e mães sobre a inclusão? O que eles mais esperam da escola?

Quando a família já viveu o luto de ter um filho com deficiência, o processo é mais fácil, mas quando essa tristeza não foi vivenciada temos que trabalhar para que esses alunos desenvolvam suas potencialidades sem a superproteção ou a exclusão pela própria família. Estes pais e mães vêm de uma vida sofrida, com marcas que dificilmente se apagarão, esperam que seus filhos sejam aceitos como eles são. Noto que na maioria das vezes eles valorizam muito a afetividade sendo que as limitações da aprendizagem ficam em segundo plano.

Nei Alberto Pies: Como vês a percepção dos alunos e alunas sobre a inclusão? O que eles mais esperam da escola?

Os alunos com deficiência já vem de uma caminhada bem dolorosa de rejeição e superação, o que mais esperam é aceitação e serem tratados como os outros.

Nei Alberto Pies: Como o Serviço de Orientação Educacional pode atuar integrado ao trabalho de inclusão na escola?

A Orientação Educacional tem um papel fundamental na inclusão dos alunos e não digo só dos alunos com deficiência, mas da inclusão social. Hoje os jovens estão buscando adrenalina, tudo o que deixe eles ligados e aceitos pelos grupos que querem fazer parte. Os primeiros a notarem isso são os professores no dia a dia, logo eles encaminham para a Orientação Educacional que tem todo um cuidado e olhar para que os problemas sejam encaminhados da melhor forma possível.

Nei Alberto Pies: O conhecimento pode ajudar na humanização?

Vejo o conhecimento como poder e poder tem os dois lados: assim como pode humanizar, pode também escravizar quem não o tem.

Nei Alberto Pies: Os jovens estudantes do Ensino Médio estão em busca de sentido de vida, preocupados em escolher sua profissão e em projetar o seu futuro. Como entendê-los e como ajudá-los a enfrentar esta etapa da vida de maneira mais segura e consistente?

A melhor forma de entendê-los e ajudá-los é a aproximação sem julgamentos, normalmente eles não tem um amparo emocional na família, e buscam no grupo, na escola ou nas amizades. Precisam de limites e de segurança, se a família não dá isso alguém ou alguma coisa ocupa este espaço.

Nei Alberto Pies: Episódios de violência também afetam a vida dos jovens e a rotina das escolas. Como abordar o tema da violência na escola e na sociedade?

Temos que trabalhar esses assuntos com transparência, de forma clara e objetiva. Às vezes, a falta de conhecimento das consequências gera enfrentamentos e atitudes imaturas.

Nei Alberto Pies: Uma frase que te define.

Fazer o bem sem olhar a quem.

Nei Alberto Pies: Uma mensagem aos professores, pais, mães e especialistas da educação.

A Educação é o bem maior que podemos deixar para as gerações futuras, sem elas nossos jovens serão fáceis de manobra. É nosso dever como educadores, sejamos pais ou professores oportunizar o desenvolvimento do senso crítico e a diferença do bem e do mal.

Nei Alberto Pies: Um sonho de Sinara Librelotto Busatto.

Sonho com um dia em que todos possamos viver em harmonia, considerando todas as nossas diferenças e escolhas.

Licença para matar


O projeto de Moro
não toca na grotesca vulgaridade
e na ignorância que geram o crime.
Não vai às origens profundas do crime.
Pune as consequências.

O projeto de lei de combate ao crime do ministro Sérgio Moro, refletindo o clima de violência institucionalizado por Bolsonaro, garante ao agente público o direito de matar se estiver numa situação de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

Está aberto o caminho para execuções sumárias. Aliás, sua excelência não explicou o significado concreto do “escusável medo ou emoção”. Fica claro que no projeto se reduz à pena ou se absolve a quem mata, nas circunstâncias acima citadas.

Aprendi na faculdade de Direito que a hipótese, em ciências, em especial na jurídica, é apenas uma ideia colocada. Ela não lida com o fato, a evidência. Ela nos indica algo para trabalhar em decorrência da evidência.

E onde estaria o lugar do crime? Nas favelas, é óbvio. Por que apenas nas favelas? Lá está uma população formada pelos excluídos de sempre. Para estes, não há uma política de segurança pública. Ao contrário, o que existe é a repressão permanente.

O curioso é que grandes apreensões de armas, por exemplo, se deram em aeroportos e condomínios de luxo. Agora mesmo, no condomínio do presidente, foram apreendidos dezenas de fuzis de propriedade do possível matador da vereadora Marielli. Conclusão: o ministro quer combater o crime no lugar errado.

Aliás, há uma pergunta que não quer calar. Como a Abin e a PF não descobriram que um pistoleiro perigoso era vizinho do primeiro mandatário do país? Ou a Abin é muito incompetente ou o atirador era comensal de Bolsonaro.

O projeto de Moro não toca na grotesca vulgaridade e na ignorância que geram o crime. Não vai às origens profundas do crime. Pune as consequências.

Não há dúvidas de que as leis precisam ser mais severas, mas o crime e a violência não desaparecem somente com penas e buscando apenas as consequências.

Para o cientista social, especialista em segurança pública e professor da Universidade Feevale, Charles Kieling, “o pacote anticrime de Moro é uma caça às bruxas sem precedentes na história brasileira e não resolverá o problema da criminalidade”.

O curioso é que o setor de inteligência foi desprezado por Moro em seu projeto, logo ele que segundo afirma a mídia, teve formação na CIA americana.

Temo que, se não bastasse a miséria, humilhação, agressões racistas, misóginas e homofóbicas, a população humilde agora ficará, igualmente, submetida ao “direito de matar”, outorgado ao agente público, de forma unilateral, sem dialogar com sociedade e mesmo com seus representantes políticos pelo Ministro da Justiça, que deixa claro todo o seu autoritarismo.

Ao governo que apregoa “Deus acima de todos”, é preciso lembrar, urgentemente, o que diz o 5º Mandamento do Senhor!


Em outra publicação neste site, já discorremos sobre a tese de que mais armas significam mais violência.

Educar por ideologia ou pela esperança?

Não existe, em se tratando em educação,
a ausência de neutralidade.

Por tempos ouço e me calo. Interiorizo. Mas agora falo. “Escola Sem Partido”, sim, porém esse discurso já vem carregado de pensamento ideológico. Não existe, em se tratando em educação, a ausência da neutralidade.

Precisamos retomar alguns conceitos educacionais. Educar parte do princípio da transformação. Que transformação é essa? É para que o indivíduo aceite sua condição social, sem que ao longo da escola não desenvolva sua autonomia de criticidade para perceber que a luta de classe existe e essa realidade não é a de se conformar.

 Não podemos negar que o professor tem a obrigação de trabalhar com o conteúdo que é determinado pelas bases nacionais, no entanto, um papel, que é inerente ao educador de qualquer área do conhecimento, é despertar a esperança da transformação social. Não há como educar na neutralidade.

Aliás, o próprio enunciado discursivo, “Escola Sem Partido”, já traz na sua essência a ideologia que determina que a educação deixe de ser ferramenta do despertar para o levante da desigualdade social. A grande massa das nossas escolas públicas, inclusive os professores, vem de uma exclusão social em favorecimento da elite brasileira e, dessa forma, nessa elite se pode incluir, inclusive, políticos que defendem essa ideologia.

No entendimento dessa ideologia, é que devemos apresentar dois lados da história, porém, muitas vezes, a história só tem um lado que podemos, de sã consciência defender. Esse lado é o das injustiças sociais. Para ser mais claro, vou dar um exemplo. No trabalho da Literatura Romântica, com o Segundo Ano do Ensino Médio, apresento a grande problemática do indígena, na voz dos textos de Gonçalves Dias e a escravidão, no clamor dos textos de Antônio de Castro Alves. É impossível achar que se tratando de massacre e exploração de seres humanos, eu proferir um discurso, enquanto professor, achando e tentando convencer os alunos que a posição, tanto dos colonizadores, como dos senhores de escravos, tem certo grau de positividade. É claro que o meu papel não é só apresentar o conteúdo, porém é meu dever fazer o aluno entender que algo está errado. Ou não está?

Ou ainda quando eu trabalho com o Texto do Fernando Sabino, A Piscina, que fala da mulher que invadiu a mansão no Rio de Janeiro, porque na favela não havia água para beber e pegou água da piscina com um balde e saiu.

O meu papel enquanto professor de língua e literatura é, além de trabalhar os tempos verbais, que dão significado ao texto, fazer o aluno entender que há contrastes sociais e que isso não é positivo em se tratando na essência da cidadania. Quer dizer se a mulher da mansão é brasileira e vive em determinadas condições, tanto como a mulher da favela tem os mesmos direitos cidadãos. Caso contrário, algumas injustiças estão sendo cometidas e indevidas.

É preciso dizer que se tratando de linguagem humana, ela sempre virá carregada de ideologia, pois o discurso proferido é uma escolha de um sujeito sócio-histórico e traz de ideologias fortemente carregadas.

Quem profere o discurso de “Escola Sem Partido”, automaticamente é ideológico. Pois não existe imparcialidade, neutralidade e objetividade no discurso, pois entendemos que para formar determinado enunciado houveram escolhas de palavras em detrimento de outras.

Entendemos que “Escola Sem Partido” já é um partido, carregado de ideologias, dentre elas a desmoralização da educação e dos que a fazem. Esse discurso tem um objetivo, não é por acaso que ele foi proferido. E eu diria mais, que esse discurso é produto de um sujeito, histórico, ideológico e espacial. Fica a dica.


O projeto versa sobre a ética profissional do professor em sala de aula, criando uma série de regras comportamentais contra o “abuso da liberdade de ensinar”. O projeto cria canais de denúncia, incentivando pais e alunos a denunciar professores, inibindo a atuação de educadores”. (Luciano Pimentel, professor rede estadual)

O professor é condenado porque tem de trabalhar com a esperança. Esperança da inclusão social. Esperança da busca dos direitos inerentes ao ser humano. Esperança!

Liberdade de pensamento?

As verdades são nossa zona de conforto
e nossa cela intelectual.
Construímos nossa própria
prisão intelectual.

Julgamo-nos livres para pensar, mas não somos livres para expressar nosso pensamento. O patrulhamento de uns para com os outros nos aprisiona, na medida em que, por vezes, decidimos só ouvir, por que, desanimados, desistimos de argumentar. Mas essa constatação revela também uma prisão.

A superinformação que nos assola não permite que tenhamos tempo de processar o que ficamos sabendo. O resultado é, por comodismo ou por incapacidade de discernimento, nos agarrarmos a verdades cristalizadas. As verdades são nossa zona de conforto e nossa cela intelectual. Deixamos de pensar, para permanecermos aprisionados ao que nos tranquiliza: as verdades.

O maniqueísmo cria expressões duras, estanques, sem reflexão. Visa tolher o contraditório, com a intenção de reafirmar verdades construídas ao longo da vida. São muitos os elementos que alimentam as verdades.

A família, a religião, o partido, o herói, a facção, a turma, a ideologia, fazem-nos reféns do consagrado e tudo o que não é espelho do que conhecemos é agressivo e ameaçador.

É difícil sair da prisão intelectual, por que, expressar ideias requer disposição para considerar o que as confronta, exige pensar novas possibilidades e procurar mais formas de informação e, principalmente, tempo para a reflexão. A inteligência alimenta-se da capacidade de duvidar do que vem pronto, do que é estanque.

Mas só dúvida é insuportável. Alguém sem opinião, sem posicionamento frente a fatos concretos, revela falta de discernimento. Isso não quer dizer que, frente ao novo, frente ao dinamismo da vida, não possa mudar de opinião. A mudança é o pressuposto dos que se reconhecem falíveis, incompletos, em processo de amadurecimento.

“Eu acho” é uma expressão de que não gostamos, mas é a mais apropriada para quem sabe que a verdade é mutável e não propriedade. O livre pensar é sinônimo de liberdade. O livre pensador não usa expressões óbvias. Ele rejeita rótulos.

O livre pensador sabe-se um animal político e não afasta a possibilidade de se fazer política em todas as dimensões da convivência humana. O livre pensador deseja que todas as pessoas usem das suas faculdades intelectuais e psicológicas, para pensar por si, para que o diálogo seja instigante, aberto, característico dos que procuram a dinâmica do que é novo, do que é semente pronta a explodir.

A arte é capaz de refletir o pensamento livre, na medida em que não teme a ousadia, a criação, o aproveitamento fecundo do que antecede e o que precede a verdade. Ela apropria-se do que existe, mostrando nuances inusitadas e invisíveis ao que é comum. A arte mexe com as entranhas do maniqueísmo, por que ousa mostrar a complexidade do mundo como o conhecemos e como o imaginamos. Cada ser é um mistério! As certezas manietam, tolhem, aprisionam.

Portanto, pensar é reconhecer no outro uma riqueza invisível e auscultar esse invisível. É garimpar o que cada um tem com o intuito de enriquecer-se. Pensar é não renunciar à liberdade por medo de mudar ou de comprometer-se.

A liberdade inquieta! Ser livre é sair de si e viver no imponderável. Sair da prisão do pensamento pronto é obrigatório nos tempos bicudos em que estamos vivendo, sob pena de virarmos a Geni de Chico Buarque. “Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é boa pra apanhar! Ela é boa pra cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni

No site, estão publicados mais 20 reflexões da autora Sueli Ghelen Frosi. Confira os demais artigos.

Como amar uma criança?

Estamos dedicando pouco
tempo às nossas crianças.
Estamos nos tornando inimigos
ocultos das nossas crianças.
A falta de amor dói na criança.

As crianças necessitam de amor. Somos os responsáveis pela formação espiritual desses pequeninos, logo não podemos deixar de amá-los com o cuidado que necessitam.

Amar é fácil? Nem sempre. Exige renúncias, compreensão, ternura, paciência, tolerância e, principalmente, sabedoria.

Compreender as nossas crianças tem sido cada vez mais difícil num mundo onde as relações interpessoais quase não existem mais, num mundo onde tudo é líquido, segundo dizia o sociólogo e professor Zygmunt Bauman.

No entanto, estamos dedicando pouco tempo às nossas crianças. Vivemos ocupados com os nossos afazeres domésticos e no trabalho, andamos de um lado para o outro preocupados com contas a pagar e não percebemos que estamos deixando de amar as nossas crianças. Sim, estamos sempre ocupados para responder um por quê delas, não temos mais tempo para fazê-las dormir contando-lhes uma história ou achamos desinteressante e perda de tempo uma conversa no sofá com uma delas.

Não nos preocupamos mais com as nossas crianças, essa é a verdade. Num mundo onde as emoções necessitam de atenção especial, as crianças choram e se aborrecem facilmente com os nossos “nãos” sem explicações.

Preferimos deixá-las entregues aos aparelhos celulares e tablets do que brincar com elas no pátio da casa; preferimos deixá-las trancadas no quarto do que correr com elas pelos canteiros das ruas; preferimos que tomem medicamentos para acabar com a ansiedade do que ensinar-lhes a serem pacientes.

Estamos nos tornando inimigos ocultos das nossas crianças. Aqueles que deveriam dar exemplos, serem os melhores pais e responsáveis para elas, não estão fazendo o dever de casa como deveriam. Estamos deixando de amar as nossas crianças.

Vejo muitos pais gritarem com os seus filhos, colocarem de castigo e arrancarem os celulares das suas mãos depois deles mesmos os terem viciado, como forma de punir o malfeito. A criança que não é amada cresce sem saber o que é o amor, tornar-se um ser humano insensível às coisas, suas emoções são abaladas, desacredita das pessoas e se sente frágil diante do outro.

A falta de amor dói na criança. Ela não se sente protegida, agasalhada e abraçada por aqueles que deveriam educá-la para amar incondicionalmente as pessoas, os animais e a natureza em geral. As crianças pedem tão pouco de nós, pensem nisso. Elas só querem ser amadas.

Por que estamos nos tornando mesquinhos para com as crianças? Por que escondemos o queijo das crianças? Talvez nos falte amor tanto quanto falta a elas, por isso não sabemos como amá-las. Porém, é preciso aprender as lições que a vida nos oferta e passarmos a ser adultos melhores, ou seja, amar mais as pessoas e as crianças que estão próximas de nós.

Outro dia, vi uma menininha olhar uma vitrine de uma loja onde tinha uma boneca de louça linda. A vendedora mandou a menina embora alegando que ela estava atrapalhando a visão das pessoas, a menininha abaixou a cabeça e se foi para nunca mais voltar a ver aquela boneca tão bonita e para nunca mais ver aquela mulher tão chata que a tratou sem amor. Todos os acontecem situações como esta no Brasil, onde tem shoppings ou lojas de brinquedos. E todos os dias vamos deixando de amar mais um pouco as nossas crianças.

Não permitamos que crianças morram igual “A menina dos fósforos” do conto de Andersen, no frio e sem amor.

Façamos alguma coisa pelas nossas crianças e procuremos dar-lhes amor enquanto ainda são pequeninas, pois quando adultas poderão se tornar as vilãs da sociedade, pois a falta de amor faz com que deixemos de pensar com sabedoria e voltemos a contemplar as coisas como se fôssemos homens das cavernas.

Amemos as crianças respeitando os seus pequenos mundos, os amigos imaginários, os seus desenhos e modos de falar. Amemos as crianças respeitando as suas subjetividades, afinal cada criança pensa diferente uma da outra, mas todas querem apenas correr e brincar.

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