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Tiradentes: mito ou herói?


A função da história é esta.
Desconstruir tradições, reconstruir trajetórias,
questionar fatos consumados e discursos prontos.
O que, afinal, representou Tiradentes?

O momento que vivemos no país, em que são acionadas disputas diárias em torno da história e da memória, é preciso entender que tanto as memórias quanto os esquecimentos merecem ser considerados não como verdades absolutas, mas em suas possibilidades de interpretação.

A Inconfidência Mineira, por exemplo, e seu mártir Tiradentes, ainda hoje causam polêmicas. A conspiração dos mineiros foi, basicamente, um movimento de oligarcas, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa.

Tiradentes foi um entusiástico e temerário propagandista da rebelião. Mas não há dúvida de que seu papel na trama foi, e sempre seria menor. Ainda assim, e por isso mesmo, era o bode expiatório ideal – e a Coroa o escolheu para servir de exemplo, papel que ele cumpriu com altivez espantosa.

A relevância de Tiradentes deriva de sua força simbólica que o transformou em herói nacional. As cenas de sua morte, esquartejamento de seu corpo, a exibição da cabeça, passaram a ser evocadas com muita emoção e horror nos bancos escolares.

Foi um longo processo de construção de um mito que tem sua própria história. Durante todo o período colonial ele foi visto como criminoso, por ter cometido crime der lesa-majestade.

Mesmo depois da independência Tiradentes incomodava, pois os conspiradores tinham pouca simpatia pela forma monárquica de governo. Mais. Os dois imperadores eram descendentes de Dona Maria, que o condenou à morte.

Quando da proclamação da República, esta não possuía nenhuma figura capaz de sintetizar e sustentar simbolicamente o novo regime. Fora um verdadeiro golpe militar, que precisava de legitimação. Era urgente uma figura heroica capaz de congregar diferenças, de unificar a nação e conferir legitimidade popular à República.

Eis que então é retirado do limbo da história, Tiradentes. O 21 de abril passou a ser feriado e Tiradentes foi cada vez mais retratado com traços semelhantes às imagens mais divulgadas de Cristo, tornado uma figura cívico-religiosa. O Brasil ganhou seu Cristo cívico!!

A figura do condenado ao enforcamento, com a corda no pescoço, tornou-se o grande símbolo da redenção do país. Até barba colocaram no morto.

O máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Estudos contemporâneos, apresentam um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória, como revela K. Maxwell, autor de A Devassa da Devassa, o melhor livro sobre o tema.

Como simples alferes – o equivalente a tenente, hoje – dificilmente lideraria a alta hierarquia militar, padres e desembargadores. O mesmo poderíamos dizer hoje sobre um certo capitão.

A verdade é que o enfoque excessivo sobre a figura de Tiradentes – herói, mito, bode expiatório? – acabou deixando de lado o real significado histórico da Inc.Mineira de 1789, um conflito entre grupos econômicos da colônia e do reino.

Os defensores da Escola Sem Partido devem estar indignados. Como ousa contestar um herói e um mito da nação? A função da história é esta. Desconstruir tradições, reconstruir trajetórias, questionar fatos consumados e discursos prontos.

Que filhos deixaremos para o mundo?


Os pais estão digitalmente distraídos, indulgentes,
permissivos e deixam as crianças e jovens governarem
o mundo e suas vidas, sem que se estabeleçam regras.

Nossos adolescentes estão em estado emocional muito triste, atualmente houve um aumento muito grande das doenças mentais na infância e agora na adolescência.

Um levantamento de dados estatísticos mostra que a cada 5 crianças 1 tem problemas de saúde mental, um aumento de 43% no TDAH (Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção) e um aumento de 37% de depressão em adolescentes e pior ainda um aumento de 200% em taxa de suicídio em crianças de 10 a 14 anos de idade.

Os adolescentes já estão com uma carga de problemas emocionais muito grandes, não sabem resolver seus problemas, não conseguem ser firmes em suas escolhas e não tem perspectiva de futuro, faltam-lhes objetivos, faltam-lhes pais emocionalmente disponíveis, limites claramente definidos, responsabilidades, alimentação equilibrada, sono adequado, exercícios ao ar livre, interação social e espaço para que possam demonstrar raiva e tédio.

É uma realidade que os pais estão digitalmente distraídos, indulgentes, permissivos e que deixam as crianças e jovens governarem o mundo e suas vidas, sem que se estabeleçam regras, todos podem obter tudo sem o direito de merecê-lo ou ser responsável por merecê-lo.


O que realmente importa para seu filho | Marcos Piangers

Um em cada três adolescentes brasileiros sofre de Transtorno Mentais Comum (TCM) caracterizado por tristeza frequente, dificuldade de se concentrar ou para dormir, falta de disposição para tarefas do dia a dia, entre outros sintomas.

Uma pesquisa no Brasil analisou 85 mil jovens de 12 a 17 anos de escolas públicas e privadas para levantar sintomas que podem provocar riscos cardiovasculares em adolescentes, e entre eles estão os TCM, por causa do desequilíbrio hormonal que podem provocar obesidade, hipertensão e tabagismo. Estes sintomas não podem caracterizar depressão porque são muito silenciosos, mas podem levar estes jovens a abandonar suas escolas por dificuldades de adaptação. Também podem ser a ferida emocional da depressão, da dificuldade de relacionamento e do abuso de drogas no início da vida adulta.

Katia Bloch

Segundo a Coordenadora desta pesquisa, a epidemiologista Katia Bloch da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embora seja difícil determinar as causas do elevado índice de transtornos – por se tratar de um estudo quantitativo- os resultados nos alertam:

“É uma via de mão dupla: tanto os transtornos mentais comuns podem ser fator de risco para doenças cardiovasculares, por conta de uma mudança nos hormônios, quanto essas doenças cardiovasculares podem acabar provocando algum transtorno mental. Quem tem obesidade, por exemplo, pode vir a sofrer de TMC ou até depressão como consequência — destaca ela.

“Não precisamos ficar horas com nossos filhos, se ficarmos minutos, e estes minutos juntos emocionalmente, então estaremos, sim, amando e demonstrando esse sentimento por eles, o tempo não precisa ser medido, precisa ser vivido.

Devemos ensinar responsabilidade e independência, todos devem ter tarefas, afazeres, assim os pequenos momentos de ensinamentos se transformam em momentos de carinho, atenção e dedicação. Não podemos protegê-los de todos os problemas e frustrações, errar os ensinará a resiliência e a aprender a superar os desafios da vida. As decepções os ensinarão a lidar com os problemas e liberar o tédio, isso despertará a criatividade.

Se evitarmos o uso da tecnologia nos momentos de silêncio durante as refeições, nas horas de tristeza estaremos ensinando como funcionar quando estiverem no “modo tédio”. Ajude-os a ter uma reserva de atividades para quando estiverem entediados. Esteja emocionalmente disponível para se conectar com eles, ensinar-lhes a auto-regulação e habilidades socioemocionais.

Torne-se um regulador, um treinador ou um coaching emocional de seus filhos, ensine-os a reconhecer e gerenciar suas próprias frustrações e raiva. Conecte-se emocionalmente com seus filhos, demonstre seus sentimentos, diga que os ama, seja emocionalmente a referência de equilíbrio e boas maneiras”.

O maior legado que você poderá deixar para o mundo, não é o dinheiro, os bens materiais que você deixará para seus filhos, mas que tipo de filhos você deixará para o mundo.


“O mundo que deixaremos para nossos filhos depende dos filhos que deixaremos para o nosso mundo!”

Cultura de direitos humanos na escola formal?


Cultura de direitos humanos se tornará
uma realidade quando mudarem substancialmente
as práticas da educação no Brasil.

A escola pública e democrática é hoje uma conquista institucionalizada mas, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola. A escolha democrática das direções escolares, por exemplo, ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, de propostas pedagógicas, de metas e da organização do quadro dos professores.

Há que se considerar ainda, por vezes, a forma autoritária como os gestores da educação (secretarias municipais e estaduais de educação) organizam suas redes de ensino, sem o protagonismo da comunidade escolar, sobretudo, dos professores e alunos. Há que se considerar também que os alunos e pais ainda não participam de forma ativa na orientação e condução das práticas pedagógicas no cotidiano da vida escolar.

A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, administra as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E o professor e os alunos, peças fundamentais, nem sempre são considerados em sua dimensão de pessoa humana e de sujeitos de direitos e dignidade.

As crianças e adolescentes de hoje, no atual momento histórico, são tratadas como sujeitos de direitos, a partir dos arcabouços jurídicos e legais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), a Declaração Universal dos Direitos da Criança, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de 1990, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, o Programa Nacional de Direitos Humanos de 21/03/2009, o Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos (2004), dentre outros.

Para além de todo arcabouço legal, há a necessidade e uma cobrança social para avançarmos na implantação de uma cultura de direitos humanos e cidadania, a partir das próprias escolas. Estudos e pesquisas apontam que as próprias escolas poderiam ser lugares de vivências de uma cultura de paz, de superação e enfrentamento da violência e de promoção da solidariedade. A escola é um espaço de reconhecimento e promoção de cidadania, que se dá através da construção do conhecimento e da convivência social.

Lúcia Afonso (2011, p.5), afirma que:

 “embora o direito à educação seja reconhecido e garantido por lei, a escola ainda reflete as profundas desigualdades econômicas, sociais e culturais do contexto brasileiro e, se há de haver um projeto social para o fortalecimento a expansão deste direito, ele só poderá se realizar através de uma forte articulação entre educação e cidadania. É por isso que argumentamos que a escola tem papel preponderante na construção de uma cultura de promoção e garantia dos direitos humanos”.

O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos vem trazer justamente os princípios e as linhas de ação que deveriam nortear a educação em direitos humanos não como disciplina ou área curricular específica, mas como um dos eixos norteadores da educação básica e de todo currículo escolar.

Destacamos dois princípios do Plano Nacional de Educação (2007, p.25) que sugerem que:

 “…a construção de uma cultura de direitos humanos é de especial importância em todos os espaços sociais. A escola tem um papel fundamental na construção desta cultura, contribuindo na formação de sujeitos de direito, mentalidades e identidades individuais e coletivas”. E ainda que: “a educação em direitos humanos, sobretudo no âmbito escolar, deve ser concebida de forma articulada ao combate ao racismo, sexismo, discriminação social, cultural, religiosa e outras formas de discriminação presentes na sociedade brasileira”.

Desconhecemos outra maneira de mudar culturalmente conceitos ou ideias senão pela educação. A educação em direitos humanos significa educar para a democracia, oportunizando que os cidadãos tenham noção de seus direitos e deveres e que lutem por eles. É papel da escola, e da educação, contribuir para a compreensão do mundo, para uma melhor inserção nele.

Mara Regina Zluhn (2013, p.32) pedagoga, especialista em Orientação Educacional e Mestre em Educação e Cultura, ao justificar a importância da vivência e da cidadania no cotidiano escolar, afirma que:

“… temos que considerar que estamos vivendo um momento de reestruturações e reavaliações culturais e sociais, de mutações importantes nas experiências coletivas (o Brasil é atualmente a 8ª economia mundial). Temos de adequar nossa prática pedagógica dando ênfase aos conteúdos historicamente construídos pela humanidade e retirando extratos, para fins didáticos, de uma educação que expresse as verdades humanas e seus dilemas fundamentais, com vistas para a implantação de uma escola democrática e cidadã, já que nas sociedades contemporâneas a escola é o principal lugar de estruturação de concepções de mundo e de consciência social, de consolidação de valores, da formação para a cidadania, de constituição de sujeitos sociais e de desenvolvimento das práticas pedagógicas”.

A cultura de direitos humanos promove condições em que ocorram a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir a liberdade de organização e luta aos grupos organizados em torno de seus direitos

Educação em direitos humanos não é somente um conteúdo a ser ensinado, mas pressupõe, antes de tudo, a vivência de valores e atitudes que cultivem a preservação da vida, das singularidades e das diferenças. Para mudarmos atitudes e conceitos precisamos ser motivados, sensibilizados e estimulados a compreender o ser humano em suas diferentes situações e realidades.

É preciso considerar que um dos maiores fatores que dificultam a promoção de uma cultura de direitos humanos nas nossas escolas é o desconhecimento da legislação mundial e brasileira sobre o tema, bem como a falta de entendimentos dos próprios conceitos de direitos humanos e de educação em direitos humanos.  Neste sentido, apontamos, neste artigo, marco conceitual sobre direitos humanos e educação em direitos humanos como condição indispensável para qualquer avanço na implantação dos mesmos nas escolas formais do Brasil.

Apontaremos, ainda, a necessidade de formação e debate permanente com os professores e professoras para que, assimilando os conceitos, possam promover processos pedagógicos capazes de traduzir, na prática cotidiana das escolas, aprendizagens e vivências de cidadania e direitos humanos. Apontaremos, ainda, mudanças de posturas dentro das escolas para que se promova a democracia, o respeito e a dignidade de todos os sujeitos que se envolvem na educação.

Cultura de direitos humanos

O conceito de direitos humanos faz-se historicamente, assumindo diferentes abordagens e perspectivas, gerando diferentes posturas e compreensões. Nasce, contudo, a partir da consciência e necessidade de preservar a vida e tudo o que nela está imbricado. Ao longo dos tempos, o conceito foi sendo construído culturalmente como se os sujeitos destes direitos fossem os outros, aqueles que estão numa situação de extrema indignidade, e nunca a gente (eu, você e nós). Há, então, a necessidade de compreender melhor o conceito de direitos humanos para que dele nos sintamos parte.

Sob o ponto de vista da compreensão histórica, os direitos humanos constituem-se a partir do reconhecimento, muito antes de constituírem faculdade de um ou de outrem. A defesa da vida, que também defesa da dignidade humana, engloba o que a humanidade, através de muita luta e conquista, reconheceu como direitos humanos. O que vem a ser dignidade humana? É difícil definir, mas entendemos quando ela falta a alguém (como aquilo que define a própria noção de humanidade, enquanto condições mínimas, básicas e elementares para sermos gente). O nosso cotidiano está repleto de infinitas realidades de indignidade, basta ativar a nossa sensibilidade e o nosso olhar.

A mesma cultura que nos fez acreditar que direitos humanos não são os nossos direitos de ser gente (de ser humano) também alimenta a falsa ideia de que, ao afirmamos os direitos das pessoas, estaríamos abrindo mão de seus deveres. Sempre nos foi dito, mesmo que não explicitamente, que temos mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem gozados, usufruídos. Muitas vezes entenderam-se direitos como privilégios de uma classe social, povo ou nação, em detrimento dos demais. Ocorre que, a cada direito que conquistamos, naturalmente, sem dizê-lo, está imbricado um dever. Direitos e deveres chegam juntos, não existem separados como muitos supõem.

Mas como criar identidade com direitos humanos? É preciso considerar a si mesmo e aos outros sujeitos de direitos, de liberdade, de dignidade: ao mesmo tempo diferentes e iguais uns em relação aos outros. O que todos temos em comum é que somos humanos e comungarmos das mesmas necessidades.

Educação em e para direitos humanos

A educação em e para os direitos humanos é mediação para a humanização das pessoas. Através dela podem ser construídas novas formas de relação interpessoal e com o ambiente cultural e natural que ponham a dignidade da pessoa, sua promoção e respeito, no centro da agenda.

Falar de educação em direitos humanos é tomar direitos humanos como tema e como abordagem de todo o processo educativo de tal sorte a fazer da educação a concretização de um dos direitos humanos e também mediação para a realização do conjunto dos direitos humanos. Falar de educação para os direitos humanos é compreender que a educação ocorre num contexto ainda marcado por processos de violação dos direitos, daí que, o papel central de educação está na formação de pessoas que reconheçam as outras como seres de dignidade e direitos.

A educação em e para os direitos humanos está desafiada a promover a diversidade, a denunciar todas as formas de violação, a viabilizar a solidariedade com (e entre) os mais fracos e as vítimas, a incidir na organização e na luta por justiça, a contribuir para realizar a paz e a boa convivência, enfim, a abrir espaço e tempo oportunos para que cada pessoa seja, com as outras, mais feliz.

Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos pode ser feita em todo tipo de espaço pedagógico: grupos populares, organizações, movimentos sociais, escolas, igrejas, academias. Enfim, ela tem lugar sempre que pessoas e grupos se propuserem a aprender com as outras.

Aprender não é somente acumular conteúdos, mesmo que seja fundamental conhecer e compreender criticamente diversos conteúdos. Aprender é sustentar posturas, subsidiar o desenvolvimento de atitudes e construir sujeitos pluridimensionais agentes da história.

Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos constitui-se em mediação para a realização de práticas pedagógicas capazes de mobilizar aprendizagens que, acima de tudo, podem se traduzir em engajamento efetivo de cada pessoa na luta pela realização de todos os direitos humanos de todas as pessoas.

Sujeitos de direitos na educação

A educação, concebida sob a ótica dos direitos humanos, pressupõe o entendimento de sujeitos pluridimensionais, que tem como exigência a sua humanização. Entendemos humanização como necessidade de tornar o ser humano melhor, através do conhecimento e das vivências que promovam a solidariedade, a cooperação, a ética e o respeito às diferenças.

A escola pode ser o lugar para promover a construção do conhecimento e a socialização como estratégias fundamentais para promover a construção de seres humanos mais humanizados. O conhecimento pode nos constituir sujeitos menos ignorantes, mais democráticos, menos estúpidos e mais sociáveis, exigências fundamentais do contexto contemporâneo onde reinam a violência, a corrupção e a competição desmedidas.

 Carbonari (2014, p.89) destaca que:

 “processos educativos desse tipo compreendem que a inteligência, o conhecimento e o saber não são dádiva ou acaso da sorte; e que além de competências, a educação há de promover a construção de atitudes e posturas de vida – tem exigência ética. Neste sentido, os processos educativos estão inseridos no amplo espectro da interação humana e se desdobram em aprendizagens e vivências diversas. A educação em direitos humanos que é construída na base de uma compreensão pluridimensional do sujeito de direitos promove os espaços de aprendizagem como exercício de reflexão e ação críticas. Ela exige acesso ao saber acumulado historicamente pela humanidade e sua reconstrução a partir das vivências, gerando a possibilidade de configurar escolhas, a implementação de processos e desenvolvimento de atitudes coerentes e comprometidas”.

Resumindo, a pedagogia da educação em direitos humanos pressupõe a construção da participação, a compreensão dos dissensos e dos conflitos, a abertura para o mundo como compromisso concreto com os contextos nos quais se dão os processos educativos.

Ainda Carbonari (2014, p.90) comenta que:

“A educação em direitos humanos, ou toma os sujeitos implicados no processo desde dentro e os põe dentro das dinâmicas que abre, ou resta inviabilizada por não atingir sua finalidade básica, que é exatamente a de abrir-se para os sujeitos pluridimensionais que estão em interação. Um exemplo talvez ajude a ilustrar: um estudo sobre violência contra a mulher não é apenas a identificação de uma situação estatística ou cientificamente descrita e catalogada; faz da mulher concreta, aquela que é vítima da violência, um sujeito presente no intervalo da relação educativa – não é apenas um sujeito abstrato ou objeto de estudo”.

Considerações finais

O desafio está posto para as escolas públicas formais deste nosso país. Em tempos que precisamos repensar a função e o papel social da escola, sugerimos o caminho da humanização, através de conhecimentos significativos e de relações interpessoais mais interessantes entre os sujeitos envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem. Neste contexto, a importância e a necessidade da formação permanente e continuada dos professores e professoras e a mudança de práticas de aprendizagem que incluam a participação ativa dos alunos e alunas.

Paulo Freire priorizou a relação entre os sujeitos o aspecto mais relevante para os processos de ensino-aprendizagem, concluindo que “ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Para muitos, ela não passa de verborragia. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática.

Um dos maiores desafios de tornar as escolas públicas lugares de vivência e convivência de uma cultura de direitos humanos está na própria superação de sua estrutura arbitrária e pouco democrática. Se os professores ainda não conhecem suficientemente a democracia e a liberdade, como irão ensinar estes valores aos seus alunos?

Acreditamos que nossas escolas deveriam ser espaços de humanização. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento. As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e perdem sua importância.

A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acreditamos que as finalidades da escola deveriam sempre convergir. Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida. Se me perguntarem o que é essa vida, eu lhes direi que é mais liberdade e mais felicidade. São vagos os termos, mas, nem por isso eles deixam de ter sentido para cada um de nós”. Concluiu dizendo: “a finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida”.

A cultura pela dignidade humana promove condições em que ocorra a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir e incentivar a organização e luta coletiva por direitos. Deve exigir um Estado protetor e promotor de direitos humanos, e não violador da vivência da cidadania e das liberdades. A educação em e para os direitos humanos é mediação para a humanização das pessoas. Através dela podem ser construídas novas formas de relação interpessoal e com o ambiente cultural e natural que ponham a dignidade da pessoa, sua promoção e respeito, no centro da agenda.

Direitos humanos precisam ser aprendidos e ensinados. Aprender é sustentar posturas, subsidiar o desenvolvimento de atitudes e construir sujeitos pluridimensionais agentes da história. Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos busca incentivar e motivar para o engajamento efetivo de cada pessoa e de todos na luta pela realização de todos os direitos humanos de todas as pessoas.

O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas vivências e relações. Qualidade de educação se mede pelo tipo de relações que acontecem entre todos os sujeitos da educação (alunos, professores, pais e comunidades que cercam a escola). Estas relações devem buscar a humanização de todos através do conhecimento. Tornar-nos seres humanos melhores é o nosso maior desafio!

Cultura de direitos humanos se tornará uma realidade quando mudarem substancialmente as práticas da educação no Brasil. Todos os envolvidos na educação (gestores, professores, equipes diretivas) devem mudar as suas posturas autoritárias, para promover a democracia, o respeito e a consideração de todos como seres aprendentes.

A formação, o estudo e o debate permanente sobre direitos humanos nas escolas públicas, envolvendo professores, pais e alunos, são os caminhos para a mudança das práticas e vivências pedagógicas que façam com que a própria escola seja um lugar de vivências de direitos humanos, de cidadania e de democracia. Para superarmos a ignorância e os preconceitos que envolvem a cultura de direitos humanos, os caminhos são o conhecimento,  a apropriação dos conceitos e a vivência de práticas pedagógicas democráticas e inclusivas. Assim, direitos humanos, idealizados em legislações (declarações, tratados, estatutos e programas) poderão tornar-se cultura de direitos humanos.


EVC – Práticas Educacionais em Direitos Humanos na Escola



Referências
ANDRADE, Jair. REDIN, Giuliana (orgs) Múltiplos olhares sobre os direitos humanos. Passo Fundo: Ed. IMED, 2008.
AFONSO, Lúcia apud, org. Keila Deslandes e Erika Lourenço; Por uma cultura de direitos humanos na escola: princípios, meios e fins. Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2011.
CARBONARI, Paulo César; Direitos Humanos: tudo a ver com nossa vida. Passo Fundo: Berthier, 2012.
CARBONARI, Paulo César; Direitos Humanos: sugestões pedagógicas. Brasília-DF: 2ª ed. Revista e ampl – IFIBE, 2014.
ZLUHN, Mara Regina; Educação em direitos humanos na escola básica. Indaial: Uniasselvi, 2013.
Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos / Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007.

Artigo apresentado como parte da Conclusão de Curso Orientação Escolar, Uniasselvi.

A volta da censura


Quem quer impedir os outros de refletir
por conta própria tem que começar muito cedo.
É o que está fazendo o governo Bolsonaro
nestes seus primeiros caóticos cem dias.

A uniformidade ideológica e a luta contra qualquer dissidência constitui a base para a centralização e o fortalecimento do poder totalitário. Para instaurar uma verdade oficial, é necessário o controle da sociedade em todos os níveis.

Assim, não há nada, nem no âmbito público nem no privado, que permaneça excluído e não implique o monopólio estatal. A propaganda utiliza-se de estereótipos e os fatos são desfigurados.

As primeiras vítimas, em tais circunstâncias, são os jornalistas e seus veículos, isto é, rádio, televisão e jornais. São vítimas do crime de lesa-inteligência, que tem as mais variadas formas de manifestação.

Agora mesmo, um colega jornalista, enviou-me um texto dando conta que as piores previsões para a comunicação pública do “novo” governo de direita instalado no país vão se concretizando.

Censura nas redações, ameaça aos trabalhadores e fechamento de veículos abrem este 2019 nos diversos veículos de caráter público em todo o país.

A EBC, por exemplo, foi transformada pelo governo em uma mera reprodutora de propaganda do governo Bolsonaro e dos militares. Durante mais de 10 anos a Empresa Brasil de Comunicação, TVBRASIL, Agência Brasil e as Rádios Nacional e MEC seguiram linha editorial própria, diferente dos veículos estatais.

Agora a programação destes veículos irá atender exclusivamente ao governo. Noticiários, entrevistas, flashes de hora em hora, só trarão temas ligados ao governo. De bônus, a TV será invadida por programas da Marinha e do Exército brasileiro. Ou seja, a TV Brasil será simplesmente a TV do governo Bolsonaro. Ulala!! Isto me fez lembrar os tempos da ditadura do Estado Novo de Vargas(1937/1945), que usou o rádio para exaltá-la e a ditadura militar (1964/1985) que valeu-se do rádio e da TV.

A nova onda de perseguições e censura passou a ser exercida sobre os jornalistas da TVBrasil, como as proibições de citar a ditadura e o golpe militar no Brasil e de usar a palavra “fuzilamento” no assassinato de um músico no Rio com 80 tiros por homens do exército.

O que está em jogo, diante de tais práticas, é a luta pela liberdade de expressão e o direito à comunicação da população, bandeira fundamental para garantir as liberdades democráticas do país.

O governo está tentando dizimar a comunicação pública brasileira. Um exemplo foi o que o governo Sartori fez aqui com a Fundação Piratini. Todos devem estar lembrados.

Sempre, em todos os tempos, os governos autoritários, viram no intelectual e no profissional de imprensa como cidadãos perigosos e, se comunistas, “desde há muito, tanto mais temíveis”.

Quem quer impedir os outros de refletir por conta própria tem que começar muito cedo. É o que está fazendo o governo Bolsonaro nestes seus primeiros caóticos cem dias.


Karnal: liberdade de expressão nos tira da selvageria

O importante é ser feliz?

Girl drawing smiley face on to a wall

Consumimos antidepressivos,
livros sobre meditação,
treinamentos e vivências, porque sentimos
quase uma obrigação de sermos felizes.

Todo mundo quer ser feliz. Há livros, cursos, vídeos, palestras e terapias de todos os tipos partindo dessa premissa. Há algum tempo li sobre duas universidades oferecendo disciplinas sobre felicidade no currículo de cursos superiores. Parece que o assunto é discutido desde o ponto de vista médico até o místico, passando pelo pedagógico.

Nada contra a felicidade, também me importo com ela. Só não tenho certeza se persegui-la assim dá resultado.


Quem pauta nossas ambições? – A cultura do consumo e da felicidade – Flavio Siqueira

Num vídeo recente, o filósofo Luiz Felipe Pondé fala sobre as interpretações da felicidade, que nem sempre esteve relacionada ao prazer. O conceito muda no tempo e no espaço, hoje a visão que se tem de felicidade está relacionada justamente à satisfação pessoal. Claro que é importante que nos sintamos bem, realizados nesse sentido pessoal, mas não sei se isso é de fato o mais importante da vida. Ser equilibrado e viver em paz, acho que é muito importante. Ter saúde, fundamental. Em termos de metas,acho que deveríamos almejar ser boas pessoas, ser úteis e fazer a diferença para um mundo melhor. A felicidade deveria ser consequência.


O fato é que atualmente a busca pela felicidade alimenta um enorme mercado, porque o mundo nos convence que ser feliz depende do consumo. E desde roupas até viagens, cursos, terapias ou experiências, tudo é consumo.

Consumimos antidepressivos, livros sobre meditação, treinamentos e vivências, porque sentimos quase uma obrigação de sermos felizes. Acho que como um comportamento social generalizado, isso acaba sendo um pouco egoísta. Cada um pensando sóna sua realização.

Essa obsessão por felicidade a qualquer custo, como a meta mais importante, um objetivo onipresente, também acaba sendo uma tortura.

Se não estamos constantemente felizes é como se tivéssemos fracassado na nossa trajetória de vida. Isso traz ansiedade e frustração.

Penso que a felicidade não tem como ser um estado permanente. Tristeza também é natural, talvez até fundamental. O melhor seria buscarmos objetivos diversos, não só pessoais, mas comunitários, globais, e, entre outras conquistas, talvez alcançássemos a felicidade.


Documentário: O que é felicidade para você?

Acima do teto de vidro


Publicado originalmente em Radis.
Entrevista com Nísia Trindade, por Elisa Batalha


Primeira presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade Lima é uma pessoa considerada “afável”. E isso, ela reconhece, chegou a ser apontado como um aspecto negativo de sua personalidade, que não contribuiria para exercer o posto que ocupa, por não corresponder ao estereótipo de um perfil de liderança agressiva, atributo considerado “masculino”. “Eu vejo que a minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo. Trata-se do imaginário sobre esses lugares de autoridade e de poder”, avaliou, quando abriu espaço na agenda para conversar com a Radis.

Estar no mais alto cargo de uma instituição tradicional de pesquisa com quase 120 anos de história é visto por ela como expressão “do reconhecimento de toda uma comunidade”. Para a socióloga e pesquisadora da história da ciência, é importante que o sistema de eleição da instituição em que atua há mais de 30 anos — com participação de todos os servidores e posterior confirmação da presidência da República — seja valorizado, por ser democrático e garantir maior diversidade. “O sentimento maior para mim é de gratidão pela confiança depositada, mas também o de responsabilidade”, conta ela, que assumiu o cargo em 2017.

Quanto à experiência na presidência, ela diz que o principal desafio tem sido atravessar a situação de crise no país. “Por outro lado, estou lidando com a imagem positiva que a instituição tem junto a sociedade, o seu capital simbólico, o seu reconhecimento pelas ações realizadas em prol do Sistema Único de Saúde ao longo dos últimos trinta anos”.

Nísia é uma exceção no país, por ser mulher e estar ocupando um cargo de liderança em uma instituição de pesquisa científica. As mulheres são maioria na população brasileira, e no ensino superior no país, há 27 anos, de acordo com o IBGE. Representam 49% das bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal agência de fomento à pesquisa no Brasil. Mas, a ascensão na carreira esbarra no chamado “teto de vidro” — a barreira invisível que impede mais mulheres de crescer na profissão e alcançar cargos mais altos.

As diferenças ficam bem claras quando observamos os números. Nas bolsas de iniciação científica, 59% são mulheres, já nas de produtividade, as mais prestigiadas, com financiamento maior, a parcela feminina cai para 35,5%. Dentro deste grupo, ainda há as bolsas 1A, as mais altas. Só 24,6% dos que recebem esse tipo de financiamento são mulheres, de acordo com os dados da própria agência. Existem ainda carreiras inteiras em que a predominância numérica masculina é muito maior, como nas áreas exatas e tecnológicas.

Nas universidades federais brasileiras, há apenas 28,3% de mulheres como reitoras. São 19 entre os 63 reitores, de acordo com o levantamento de 2017 feito pela pesquisadora Anelise Bueno Ambrosini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Academia Brasileira de Medicina, apesar de as mulheres serem maioria entre os formandos (em torno de 55%), há apenas cinco mulheres entre os 115 membros, o que representa 4,3%.

A desigualdade de gênero na ciência não é exclusiva do Brasil. Dados do relatório Women in Science publicado em 2018 pela Unesco mostram que 28,8% dos pesquisadores do mundo são mulheres. As mulheres publicam menos artigos, têm menos colaborações internacionais, menor mobilidade acadêmica, atuam mais em pesquisas interdisciplinares e apenas 14% são inventoras listadas em patentes.

No mercado de trabalho como um todo, conforme lembra Nísia, há uma tendência a uma conquista de igualdade salarial entre homens e mulheres, mas ainda entre executivos persiste uma desigualdade. “O ingresso de mulheres em determinadas profissões infelizmente é acompanhado de uma desvalorização, como na enfermagem. Muitas profissões foram feminilizadas, e historicamente isso aponta para tensões. Isso aconteceu historicamente também com a profissão de professor, que inicialmente era composta na maior parte por homens”, comenta.

Minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo.

Gênero e ciência

Nísia lembra que ela vem de uma área profissional, as ciências sociais, onde a presença das mulheres é grande. “Faço parte de Associação Brasileira de Saúde Coletiva, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, organizações que já tiveram muitas mulheres na presidência, e também nas coordenações de grupos de trabalhos”, enumera, lembrando que o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea teve como primeira diretora de pesquisa Celina Vargas, em 1973, mulher cuja atuação recebeu muito destaque no Arquivo Nacional, e que também esteve à frente da Fundação Getúlio Vargas, na década de 1990. 

Mesmo tendo mulheres de destaque em sua área como referência, Nísia não escapou de sofrer discriminação. “Minha escolha pelas ciências sociais na família foi vista como não muito adequada, porque eu era boa aluna, então deveria fazer o que se achava que seria uma carreira mais valorizada, com maior apelo e remuneração. Ouvi de familiares que eu ‘podia fazer essa escolha porque eu ia me casar´”, relembra.

Casamento e casais de pesquisadores, aliás, hoje são um tema para estudo na área da sociologia histórica, dentro da história da própria Fiocruz como instituição, e na história do país, conforme lembra Nísia. “Há uma questão muito interessante e até é preciso incentivar mais pesquisas sobre casais de cientistas, que não necessariamente eram relações de dominação”. Isso pode ajudar a desmistificar a figura da “mulher por trás do grande homem” no imaginário social. Segundo ela, essa é a imagem pública de alguns casais, “até porque se atribui mais visibilidade aos homens, e muitos deles ocupavam cargos públicos além de serem cientistas”.

Ela cita Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro. “Berta também foi uma grande antropóloga”, destaca. “Casos como esse merecem ser investigados. Muitas mulheres cientistas estavam ali, lado a lado com pesquisadores homens. Algumas conseguiram ser reconhecidas individualmente, como a parasitologista Maria Deane [esposa de Leônidas Deane]. Ela teve uma luz própria, era uma mulher muito forte inclusive e é sintomático que tenhamos um instituto chamado Leônidas e Maria Deane”, aponta Nísia, se referindo a unidade Fiocruz Amazônia, em Manaus.

Hoje, gênero e ciência conformam um campo de estudos que vai além de se compreender o que está por trás das inequidades nas estatísticas. “Na ciência, vemos na linguagem a expressão de signos do universo masculino como o combate, a conquista, a caça”, aponta Nísia, discordando da ideia de que haja “uma ciência feminina” ou “um modo feminino de se fazer ciência”. “É uma questão em aberto, não pode ser vista de uma maneira simplificada. Há uma interferência da experiência, no modo de fazer ciência, o lugar de fala demarca que não existe um pensamento desvinculado da experiência, da existência. Isso não significa que eu só posso falar da minha experiência imediata. É claro que a experiência marca a sua visão, a sua linguagem”, discorre, lembrando que “a ciência não é uma atividade neutra”.

Para Nísia, a ampliação do acesso e a democratização dos espaços na ciência e nas instituições científicas passam por questões culturais, “que dependem de uma pedagogia, de um trabalho muito intenso, daí a importância de comitês de equidade que ajudam a trazer uma maior conscientização”.

Equidade e diálogo

A iniciativa que ela faz questão de reforçar, na sua gestão como presidenta, é a maior centralidade conferida ao Comitê para Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, que já existia desde a gestão anterior. Para ela, é preciso olhar para o que hoje se chama agenda identitária, considerando as desigualdades sociais, mas também de gênero e raça, presentes no país. “Nos editais de pesquisa, há artigos que preveem contagem de tempo diferenciada para mulheres que tiveram filhos. Nem todas as mulheres querem ter filhos, e não se deve confundir a mulher com a mãe, mas para que possamos exercer todos esses papéis é muito importante que haja uma política pública adequada”, afirma, apontando ainda que a agenda feminista foi quem trouxe para o país a demanda das creches, do apoio no cuidado com os filhos e a defesa do tempo de amamentação recomendado para as trabalhadoras.

“Não causava estranhamento até há poucos anos haver apenas três mulheres no Conselho Deliberativo [maior instância de decisão] da Fiocruz; hoje já causa. Isso é um avanço. Na composição de mesas, de seminários, a gente também já passa a estar atento a isso”, comenta.  Ela reconhece também o que a sua figura representa para mulheres e meninas mais jovens. A mensagem que procura deixar é de respeito e dignidade. “A mulher não pode admitir não ser valorizada, ser desrespeitada, nós não podemos nos calar diante de qualquer discriminação que aconteça ao nosso lado. É preciso ter respeito à diversidade. Você não tem que padronizar, escolher se encaixar no estereótipo da intelectual, que seria de uma absoluta seriedade, contenção no comportamento. Não é preciso criar uma imensa distância social das pessoas para exercer um cargo”, reflete.

Nísia conclui que a equidade de gênero é uma das questões centrais para construção de uma sociedade mais justa. E isso, segundo ela, é possível alcançar mediante diálogo, articulando a racionalidade com a afetividade. “Precisamos pensar em um mundo que preze valores do diálogo, da construção democrática. Isso deve ser uma luta de homens e de mulheres”.

Ensinar com amor e aprender com emoção!

“[…] a literatura sempre correu
no meu corpo feito sangue
que alimenta a célula.
Como água para o rio.
Como a praia para o mar.

Professor Laércio Fernandes dos Santos é um professor esforçado, esmerando arte com ousadia, para humanizar-se, tornar-se melhor ser humano. Como ele mesmo conta, a literatura foi chegando e ficou para impregnar sua existência de sentidos e inovações: “a literatura sempre correu no meu corpo feito sangue que alimenta a célula. Como água para o rio. Como a praia para o mar. Jamais, depois dessas maravilhosas experiências, posso viver sem que a arte da palavra esteja nos meus movimentos educacionais”.

Atuando em uma nova escola em 2019, o Instituto Estadual Cecy Leite Costa, o professor Laércio, em pouco mais de um mês de aulas, já reuniu uma nova trupe de alunos artistas e apaixonados por poesia e literatura, como podemos demonstrar na reportagem da UPFTV de Passo Fundo, RS.

Em outra matéria já publicada no site, Laércio faz uma afirmação importante sobre o papel da literatura:

“A literatura, como arte, consiste em um grande trampolim para o ensino e para despertar no educando o interesse em aprimorar a linguagem e a leitura, por consequência, uma mudança de atitude e de competência linguística em todas as áreas do conhecimento e da formação humana do cidadão”.



Laércio Fernandes dos Santos é também um dos colaboradores mais assíduos do nosso site, com 16 artigos publicados. Conheça outras reflexões de sua autoria clicando aqui.

Houve uma ditadura ou não?

Houve ou não ditadura?
É possível mudar um
fato histórico com tantas evidências?


Quando assistimos ao surgimento de um movimento que visa negar um período negro de nossa história, a ditadura militar, se faz necessário resgatar acontecimentos que marcaram aqueles longos e tristes 21 anos, que acabaram com qualquer resquício de democracia.

Para tanto, vou me deter ao que aconteceu entre nós, deixando de lado os fatos nacionais, já sobejamente conhecidos.

Vou contar aqui alguns fatos ocorridos em Passo Fundo entre 1964 e 1985. Depois deixo o leitor a vontade, para dizer se houve ou não um regime de exceção. Vamos a eles.


Ainda em 2014, em participação na TVUPF, da Universidade de Passo Fundo, participação sobre Golpe de 1964 e reflexos deste em Passo Fundo, RS.


Em maio de 1964, foi presa e remetida à Porto Alegre toda a bancada do PTB na Câmara de Vereadores: Meirelles Duarte,Odilon S.de Lima, Ernesto Scortegagna, Wilson Garay, Gilberto Tubino e Bernardino Guimarães. Razão. Pertenciam ao partido de João Goulart.

O caso mais notório de perseguição política foi ao jornalista, advogado e funcionário da Câmara Municipal, João B. de Mello Freitas. Foi preso em maio de 1964, por suas ligações com o PCB e por denunciar em sua coluna no jornal ONacional, o arbítrio do governo militar.

Em 1965, o jornalista voltou a ser preso e remetido à Porto Alegre, onde permaneceu em local desconhecido pela família e amigos por mais de 30 dias. Ao retornar da prisão era um homem debilitado. Familiares e amigos nunca souberam como ele sobreviveu ao cárcere, nem sobre as torturas que lhe acarretaram sérios problemas físicos.

A imprensa local também foi alvo da ditadura. ONacional, que seguia uma linha mais crítica ao regime, foi alvo da ação da censura e repressão. O Diário da Manhã, alinhou-se aos militares, seguindo a linha reacionária que o caracteriza até hoje.

Em 1965, ON foi empastelado, a mando do Cap. Grey Belles, comandante da unidade local do exército. Motivo. O jornal havia noticiado a guerrilha iniciada pelo Cel. Jefferson C.A. Osório, na fronteira com o Uruguai. Foi o motivo para a segunda prisão de João Freitas, redator do jornal.

Em 1978, a rádio Municipal, foi fechada pelos militares. Foi uma represália contra o prefeito Wolmar Salton, do MDB, por este não ter demitido de seu secretariado três comunistas, segundo o governo. É bem verdade que a rádio do município tinha muitas irregularidades. Entretanto, ao longo dos governos da ARENA, isto nunca impediu seu funcionamento.

Curiosamente, pouco tempo depois, o canal da emissora passou para um grupo local que tinha relações familiares com o general-ditador de plantão, Ernesto Geisel. Surgia a rádio Uirapuru. Assim, fica fácil de entender a linha jornalística que a caracteriza até hoje.

No meio acadêmico, foram inúmeras as prisões. Em 1968, o vice-reitor da UPF, Pe. Alcides Guareschi, foi preso pelo fato de ter citado Che Guevara e Chico Buarque, no seu discurso como paraninfo da turma da Faculdade de Filosofia.

Os estudantes secundaristas, João Carlos Bonna Garcia e Sólon Viola foram expulsos da EENAV – por promoverem protestos –, exigência do todo poderoso Cap. Grey Belles, proibindo, igualmente, que qualquer outra escola os acolhesse.

Enfim, prisões, ameaças anônimas, denúncias, atuação dos desprezíveis S.2 e P.2, censura, violência, o autoritarismo e arbítrio dos comandos militares locais, fizeram parte dos “anos de chumbo” vividos pelos passofundenses.

Isto posto, deixo ao prezado leitor as perguntas: Houve ou não ditadura? É possível mudar um fato histórico com tantas evidências?


Em tempos de polarização política, a ditadura militar voltou a ser assunto comentado por alunos e sociedade em geral. Mas, o que foi esse período e por que houve tanta violência?

Amor, uma incontestável verdade …

Quando falamos “eu te amo” a alguém, esse alguém compreende que amamos na forma exata com que ela ou ele compreende ser o amor. E se você por acaso por um gesto inesperado estiver um pouco fora da concepção da pessoa, ela irá crer que você não a ama mais. Probleminha sério de comunicação não é? Quando você fala “eu te amo”, você está dizendo a alguém que expressa seu amor dentro do seu conceito de amor que pode e quase sempre nunca é igual ao do outro.

Portanto do ponto de análise mais raso para a profunda percepção do amor o amor que falamos é apenas um ponto de vista e incompreendido em sua essência. por mais que você queira demostrá-lo ainda assim ele pode não ser compreendido e algumas vezes mal interpretado e pior despercebido por quem você escolheu demonstrá-lo. Mas isso não é falta de ressonância amorosa da pessoa ( pode não ser ) mas novamente quero lembrar que o ato amoroso pode não estar na lista do que a pessoa julga ser um ato amoroso, às vezes sua atitude pode ser vista mais como uma obrigação em razão do mecanismo autômato no qual fomos “doutrinados”. Certa ocasião ouvi uma frase que dizia mais ou menos assim: nós educadores orientamos e construímos pessoas desde a infância com base nos valores que norteiam a sociedade. Sinceramente considero isso um tiro no pé.

Construir a personalidade de uma criança com valores que na verdade encobrem nossas neuroses normóticas???

Fala sério, quantas vezes ouvimos pessoas dizerem a filhos meninos que chorar não é coisa de homem?? Ou até mesmo para filhas meninas que jogar bola é coisa de menino??

Se o amor liberta, por que teimamos em aprisionar, enquadrar, formatar a expressão mais bela do amor que é a pureza incontestável de nossas crianças com os “nossos” medos? Veja bem até gosto da batida do funk brasileiro, mas deveria ser proibido em razão de suas letras.

As crianças cantam barbaridades sem saber o que elas significam, querendo ou não é “mnemosistem” a batida é hipnótica e isso mexe com a psiquê de qualquer um. Querer falar de amor a uma criança é querer ensinar o padre a rezar missa, pois, ninguém melhor do que eles para nos ensinar sobre o verdadeiro amor. As crianças escolhem suas afinidades pelo que sentem e não pelo que pensam. Apenas sentem, sem discriminação nenhuma a tudo e a todos. Amor é apenas sentir. Se uma criança é agressiva ou não demonstra amorosidade nenhuma é por que infelizmente já foi contaminada pelos neuroses do mundo adulto, e por favor não diga a ela “bem vinda ao mundo”, pois o mundo não era para ser assim, era para ser pleno em amor”. “O AMOR EXISTE”

Se não possuíssemos olhos, ficaria mais fácil aceitar uns aos outros pois teríamos que confiar no sentimento nutrido pelo amor e não em estereótipos. Portanto quando você enxergar um casal com uma disparidade vertiginosa de diferenças estéticas não julgue pois alí pode realmente estar o gérmen de um verdadeiro amor.

Paz e luz!!!!!!

Quem tem medo de lobo mau?

Achei que passaria a vida toda
com medo de lobo mau e
estaria a salvo na cidade.
Mas será?

Mesmo que você não se importe com as mortes em Suzano-SP, mesmo que não procure uma criança desaparecida na família, haverá um amigo, um vizinho, um colega, vítimas de algum tipo de violência.

Fecham-se as casas ao lusco-fusco, até à luz do sol o medo anda grudado em nossa pele como um beijo indesejado. Teme-se sair à noite, atender à porta, olhar pela janela. Teme-se pelos filhos na escola, pelos pais que foram à casa de amigos, pela avó que foi à missa.

Meu pai nos contava histórias assustadoras. Tínhamos pesadelos por culpa delas, mas nos encantavam.

Meu irmão tinha pavor de alma penada. Minha irmã temia bruxas; eu, o lobo mau. Boca com um exército de dentes afiados. Mas eu já sabia, no fim da estória, os bons venciam.

Essa era a pedagogia de papai para reunir a família em casa ao anoitecer, para que seus filhos não se embrenhassem nos matos com jararacas, para que não corrêssemos riscos de afogamento nos rios.

Todos ao redor da mesa, o ouvíamos de olhos arregalados. Nós com o medo estufando as pupilas, ele tranquilo com todos os filhos ao alcance dos olhos. Os medos da vida pareciam ser apenas os de bruxas, lobo mau, mula-sem­-cabeça, alma penada, lobisomem.

Eu pensava, quando pai, como defenderei meus filhos? Cresci, livrei-me dos medos. Esses medos.

As aglomerações humanas acabaram com os matos. A urbanização matou o lobo mau. As bruxas ficaram boas, viraram símbolos positivos e amuletos nas casas. Entre o concreto, quase todos os bichos foram extintos; há raros lenhadores; nossas vovós moram em apartamentos com porteiro vinte e quatro horas.

Conta-me um aluno, foi assaltado três vezes voltando das aulas. Comprou um spray paralisante, um aparelho de choque e um tubo de gás lacrimogêneo para proteger-se. Meus amigos têm revólveres em casa e nos automóveis. Lojas e edifícios são fortalezas com câmeras, alarmes, grades e cercas elétricas. Seria o lobo mau?

Os pais de hoje não contam mais lendas às crianças. Jovens e adultos não têm mais medo de bicho. Vovós comem de telentrega. TV, jornal, rádios e as ruas nos mostram histórias reais de violência.

Crianças são raptadas por humanos; jovens são feridos e roubados por outros jovens; vovôs e vovós são amordaçados, assaltados, quando não violentados e mortos. Achei que passaria a vida toda com medo de lobo mau e estaria a salvo na cidade. Nenhum lobo se sustenta nessas poucas árvores sobreviventes nas praças. Estava certo, em parte.

Quem tem medo de lobo mau? Ninguém. Teme-se apenas o homem. Ninguém conhece o lobo mau a não ser em raros disfarces de carnaval, ou em inocentes fantasias de alcova entre os amantes.

Na realidade, os lobos deixaram a imaginação e, criados pelo meio, assustam entre o concreto, não apenas as crianças, mas, principalmente, os adultos cuja vida é frágil como seu patrimônio.

Mas não é matando o lobo e abrindo sua barriga que a sociedade dará à história um final feliz. Tampouco será encarcerando-o como um bicho a mais entre os tantos roubados da selva. Melhor seria encher-lhe o estômago quando ainda filhote, dar-lhe um lar amoroso como aos nossos filhos, fazê-lo sentir-se humano. Experiências bem sucedidas demonstram que viver com afeto, arte, boas escolas, literatura, humaniza-se muito mais do que usando castigos ou presídios. 

Quem foi amado não devorará, quem foi acariciado não violentará, não será uma fera quem sentiu-se humano. Como meu pai, também quero ter meus filhos sob os olhos, mas gostaria de contar a eles uma história sem violência, nem do lobo, nem do lenhador.


“A literatura, em sua construção simbólica, projetou o desejo humano pela superação de seus limites. Temos heróis adultos como Santiago e Ismael, ou crianças e jovens como Peter Pan, Alice, Doroti, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria. Eles sobreviveram para contar suas histórias”.

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