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Ler: prazer pouco explorado

“Bendito o que semeia livros,
livros à mão cheia,
e faz o povo pensar.
O livro caindo na alma é
germe que faz a palma;
é a chuva que faz o mar”.
(Castro Alves)

Com uma dessas atividades, das quais ganha quem a cultiva, tive a oportunidade de me encontrar logo nos primeiros tempos de estudos do seminário. Tive a sorte, ou mais, tive a graça de encontrar professores que incentivavam a amizade com os livros.

Com esses me dei bem, fato que continua até hoje. Quanto à escolha de escrever este texto sobre leitura e livros, ela me veio, fortuitamente, ao ler dias atrás, nas páginas de um grande jornal paulista, a matéria intitulada: “O prazer de ler”.



Um livro foi capaz de mudar a trajetória de Robson Mendonça, ex-morador de rua e criador do projeto Bicicloteca. Ao ler A revolução dos bichos, de George Orwell, ele teve a ideia de começar sua pequena revolução. Hoje, leva uma biblioteca em forma de triciclo, a Bicicloteca, às ruas de São Paulo. Com isso, oferece obras a quem tem pouco acesso a elas.


Imediatamente me entusiasmei e pensei em iniciar campanha pró-leitura, a qual, garanto, trata-se de ato prazeroso em meio ao tempo disponível que possa nos visitar, por mais ocupados que sejamos.

Tenho como bendito quem a descobre e a escolhe como companheira pela vida. Também não foi por acaso que, ao descobrir na leitura de Castro Alves o grande poema “O navio negreiro”, quando estava na quarta série do ginásio, fiz questão de decorar o imenso poema. E o recitei na sessão da retórica que tínhamos no seminário. Eu me lembro que falei com toda a força o protesto do poeta contra a escravidão, numa das 54 estrofes de sua valiosa obra. Ele dizia: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira ou se é verdade tanto horror perante os céus”! Paixão pela leitura à parte, entendo que essa não é a escolha de muita gente.

Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados.

Certamente muitas pessoas não leem quase nada porque não são incentivadas ou não cresceram cercadas de livros. Se posso dar uma sugestão, sugiro que faça dos tantos presentes que tem de dar, a oferta de livros. Estará praticando o que propõe Castro Alves que diz: “Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar. O livro caindo na alma é germe que faz a palma; é a chuva que faz o mar”.



Conheça a Revista de Aparecida
Fonte: Originalmente publicado na Revista impressa “A revista de Aparecida” Ano 17, n. 200, Nov. 2018)
Autor: Padre César Moreira

Dia do trabalho: há o que comemorar?

“O desemprego do homem deve
ser tratado como tragédia
e não como estatística econômica”.
(João Paulo II)

A cada primeiro de maio as marcantes histórias de luta dos trabalhadores são lembradas. Senso de cidadania, união popular e reflexão sobre direitos adquiridos fazem parte desta data.

Marx descreveu o movimento dos padeiros irlandeses contra o trabalho noturno e dominical no século XIX, nos “comícios de maio”. O proletariado moderno começava a se organizar, mesmo antes da consagração da data.

Foi nos Estados Unidos que o contemporâneo significado de 1º de maio se consolidou, com as greves que estouraram em 1832, reivindicando a jornada de oito horas e que culminaram em tragédia. Em 1886 foi convocada uma greve geral para 1º de maio. A polícia reagiu com violência deixando um saldo de seis mortos e 50 feridos.

No dia seguinte em um ato contra a violência policial, uma bomba foi arremessada na direção de policiais. O episódio determinou uma perseguição a líderes do movimento operário. Um processo suspeito, com forte caráter político, (alguma novidade ??), condenou sete deles à morte por enforcamento.

A luta pela comprovação da inocência dos acusados transformou os “mártires de Chicago” em símbolo mundial da injustiça do Estado capitalista contra uma classe trabalhadora oprimida. Em 1889, a 2ª Internacional dos Trabalhadores, organização criada em Paris, decretou o 1º de maio como Dia Internacional do Trabalho. Assim, a data nasceu sob o signo da revolta e da luta.

É bem verdade que a imprensa, o Estado e até a Igreja, tentaram elaborar outras interpretações para a data, fugindo do discurso do proletariado. No Brasil, um discurso unificado sobre o 1º de maio veio na Era Vargas, modelado pelo Estado e não pela sociedade civil.

O governo, sob a égide do trabalhismo, se apropriou da data e a utilizou para fins políticos e, evidentemente, propagandísticos, ao lado das políticas concretas – jornada de oito horas, férias, carteira do trabalho, CLT e criação do Ministério do Trabalho.

O protagonismo deixou de ser do operariado e sim do Estado, da Nação e do seu dirigente máximo. Os anos 1930 foram de repressão ao movimento operário livre e de criação de sindicatos atrelados ao Estado.

No início da década de 1980, entretanto, o sindicalismo ganhou força com o surgimento da CUT e da CGT que foram fundamentais para o processo de redemocratização do país. Lideranças como Luis Inácio Lula da Silva, representaram a ascensão de um novo, independente e poderoso sindicalismo no Brasil.

Agora, neste 1º de maio, os trabalhadores brasileiros tem muito pouco a comemorar. O desemprego massivo é, possivelmente, a maior fonte da angústia que os aflige.

A massa assalariada está conhecendo na prática os estragos sobre seus direitos: celetistas estão sendo trocados por contratados temporários, sem férias e 13º, sem licença de gravidez, FGTS, aviso prévio, seguro-desemprego, etc. O subemprego se espalha rapidamente sem amparo sindical.


 O futuro do trabalho.


Há hoje no Brasil um projeto que visa desmontar a legislação trabalhista, asfixiar os sindicatos, extinguir a aposentadoria pública universal por repartição e acabar com a justiça do trabalho. Afinal, como disse Bolsonaro, “é difícil ser patrão no Brasil”. Então, vamos facilitar sua vida. Ulala!

No caso da aposentadoria, com a implantação de um regime por capitalização, empregadores e Estado livram-se de contribuir de maneira universal para o bem-estar da população na velhice. É o cenário ideal: cada um por si. A reforma só é boa para quem ganha com o dinheiro dos outros.

Assim, esperança é um bem escasso no Brasil de Bolsonaro. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do trabalhador brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais e históricas sendo literalmente desmanteladas.

Está na hora do trabalhador resgatar o papel que exerceu no século XIX. Isto é, de ser o sujeito da história, o transformador social. O primeiro de maio deve voltar a ser, mais do que história, mas um presente em constante transformação.


Dia do trabalhador 2019: não há nada a comemorar!

O juiz, o traficante e os calhordas

O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes
e vai continuar matando enquanto não admitirem
que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo,
é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.


O liberal que cheira cocaína e participa de simpósios sobre liberdades quer consumir sua droga, para ficar esperto, mas berra que traficante tem que ser preso e se possível morto.

O liberal cínico ataca, para consumo externo, quem fornece a droga que o mantém inteligente e competitivo com o patrão, com os amigos e com as mulheres.

Pois escrevo esse texto pensando no juiz Ramiro Oliveira Cardoso, que nunca vi. Sei da existência do juiz substituto da 4ª Vara Civil do Foro de Porto Alegre pelas notícias recentes que revelam a indignação de delegados e promotores, porque o juiz solta traficantes com quantidades de drogas que considera irrelevantes.

O juiz não manda prender esses miseráveis varejistas de esquina, invariavelmente jovens e negros, que se matam na disputa pelo mercado de coca e maconha da Grande Porto Alegre. Porque o juiz entende que não adianta prender.

Cardoso disse numa entrevista a Eduardo Matos, de ZH, que a repressão pega um traficante de rua hoje, com a maior facilidade, e quando ele é levado para uma delegacia, outro já o substituiu.

São jovens sem perspectivas, sem proteção do Estado, vulneráveis às tentações do tráfico. Essa gurizada lota as cadeias, onde o esquema de dominação das facções se aperfeiçoa e se reproduz.

O juiz diz: “O crime de tráfico não é um crime natural. Ele é um crime cultural e ele é temporal de determinado entendimento social. Ele não tem uma reprovação imediata, por exemplo, como um homicídio, como um estupro, como um roubo. Ele é um delito que pode ser que em alguns anos nem seja mais criminalizado”.

Agora digo eu: o traficante, principalmente esse da ponta, mesmo que trabalhe para alguém (e trabalha) é uma mão de obra barata de quem está à espera do que ele vende, o cheirador de coca. O traficante mandalete morre para manter seu espaço e seu cliente, sem custos para o cheirador. E o cheirador, principalmente o liberal, esse que defende livre mercado, o que faz o cheirador? O cheirador pede que matem o traficante.

Cheira e pedem que matem. Que esfolem, que acabem com o traficante e suas famílias. E que outros os substituam e também sejam mortos.

O cheirador de coca moralista (muitos são contra o Bolsa Família para as mães de aprendizes de traficantes) é o mais cínico dos consumidores de vícios, incluindo cigarro, álcool, propinas e outras drogas.

O bacana consumidor de droga, dessa classe média movida a estímulos químicos, é um babaca. É para esse bacana e babaca que o juiz fala.

Há pouco, aconteceu uma gritaria parecida, quando uma mãe e dois filhos foram presos por tráfico em Charqueadas. O mundo da tradição, da família e da moral bolsonarista se levantou contra a mulher que usava os filhos para traficar.

E massacraram a mãe. A que vende drogas. Não a mãe que muitas vezes sustenta o drogado bem de dinheiro e fala mal dos traficantes imorais.

A humanidade se encharca de alguma droga desde tempos bíblicos. E vai continuar cheirando, bebendo, fumando. É um mercado ilegal em nome de uma ‘ética’ fracassada, de punições que não funcionam, de vinganças.

O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes e vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo, é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.

Por isso entendo a posição do juiz que libera pequenos traficantes e desafia o sistema todo a enfrentar seus cinismos e suas demagogias diante do traficante invisível como expressão do que Jessé Souza define como a ralé brasileira.

Calhordas moralistas consumidores de drogas, admitam: o traficante negro, jovem, miserável, sempre trabalhou para vocês sem salário, de graça, sem FGTS, sem férias, sem 13º, e morre por vocês.



Leia outros artigos de minha autoria no site.

A polêmica reforma da previdência

O que se espera para um tema de tal impacto,
que vai mexer com a vida de milhões de brasileiros, é transparência.
Até para que sejamos convencidos da real necessidade da mesma.

Todos  aqueles  que conhecem a nova  realidade  estrutural  das relações de  trabalho  que  vem se consolidando  nos últimos anos  entre nós  e pelo  mundo afora,  em função da automação da economia compartilhada, sabem  da necessidade de uma mudança no sistema previdenciário.

Na   indústria, na tecnologia e no mercado de   trabalho, as transformações  são  palpáveis, exigindo  uma inevitável  mudança no contrato ou pacto social.  Isto   hoje   abrange   todos os países e sistemas econômicos-sociais.

Os economistas mostram que no Brasil isto se faz   ainda mais urgente, diante   de um quadro   de rápidas e intensas  transformações do emprego  formal para trabalho independente. 

Hoje   é  expressivo  e crescente o grupo  que prefere  ser autônomo e microempreendedor, ao invés de assalariado.

Com isto, o padrão da   Previdência   fica prejudicado  e a tendência  é piorar, não apenas  pelo crescente  trabalho independente  como também  em função da maciça  destruição do emprego  que virá  em consequência  da automação  fabril e dos  serviços, os maiores  contribuintes  da  Previdência Social.

Hoje, entre nós, segundo  o  IBGE, o contingente  de  trabalhadores  fora  do sistema pleno de proteção social  é superior à metade  do total. Com carteira do trabalho   assinada são   apenas 38,9% dos trabalhadores.

Há no  Brasil   uma grande massa  de  trabalhadores  que preferem  receber  mais como autônomos, sem benefícios  trabalhistas  e com impostos  mais baixos. Os que  optam  por carteira do trabalho  assinada,  com benefícios  trabalhistas  e pagando mais impostos, representam  uma minoria.

Diante deste quadro, a sustentabilidade  do sistema  previdenciário  tende  a ficar  crítica. É preciso lembrar, igualmente, o quão devastadora  foi a  mudança  introduzida no sistema  em  1988.

A participação relativa dos que recebem três pisos previdenciários  quase quadruplicou, enquanto a daqueles  com renda  superior  a dez pisos  caiu drasticamente, de  31,5%  dos contribuintes  para  2,4% do total, entre  1988 e  2017.

Diante deste  contexto, apresentado pelo economista Carlos  Drumond, no artigo  O perigo  de um tropeço (CartaCapital,17/4/2019), a conclusão é de que a  mudança  se  faz  necessária.   Entretanto, indago   aos meus fiéis  botões, sobre  a razão  de o governo esconder  dados que embasam a Reforma.

O que se espera para um tema de tal impacto, que vai mexer com a vida de milhões  de  brasileiros, é  transparência. Até para que sejamos convencidos  da real necessidade da mesma.

O governo nos pede  para  trabalhar mais  anos  e ganhar menos  como aposentados, mas  se nega  a revelar  os elementos  supostamente  comprobatórios  da necessidade do seu plano.  Por que esta estranha e ilegal postura?

Mais. O combate à  sonegação  não seria a alternativa  viável às políticas  de austeridade  econômica, dispensando  especialmente a reforma  da Previdência?

Tenho certeza que, se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os  grandes  bancos, os fundos de investimentos, as  grandes fortunas  e as  empresas  deixam de  recolher  ao  INSS, tornaria supérflua  uma reforma  da  Previdência  e haveria  fundos  para a  saúde, a  educação, a cultura  e a inovação tecnológica.



Leia também reflexão sobre volta da lei dos sexagenários.

Mudanças transformadoras

A humanidade que sairá dessa época avançará
integrada na melhor tradição dos esforços da
racionalidade humana ou será guiada por um imenso
vagalhão de anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.

Vivemos um grande paradoxo. As profundas mudanças tecnológicas que permitiram novos modelos de negócios e modificaram a forma como os indivíduos vivem, trabalham e se relacionam, oportunizam pela primeira vez na história acesso ilimitado a conhecimentos que poderão dar respostas aos grandes problemas que nos afligem.

Por outro lado, ao nos tornamos uma imensa plataforma exponencial de comunicação, liberando a capacidade de indivíduos de qualquer lugar do planeta de emitirem suas mensagens e ampliarem a sua intensidade e alcance, potencializamos a expansão da horda que é nutrida da negação das evidências científicas e da disseminação de preconceitos medievais.

Estamos, portanto, diante de um tempo de mudanças. A humanidade que sairá dessa época avançará integrada na melhor tradição dos esforços da racionalidade humana ou será guiada por um imenso vagalhão de anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.

Neste tempo, as instituições de ensino superior precisam reafirmar seu papel de herdeiras da modernidade e retomar o protagonismo, percebendo que precisam renovar seus códigos de conduta como condição de reestabelecerem seu relevante papel na dinâmica da construção do futuro.

O Pacto pela Inovação de Porto Alegre, liderado pela UFRGS, UNISINOS e PUCRS, é o exemplo concreto de uma mudança de perspectiva que já está ativando as potencialidades da cidade em torno de uma ampla aliança em favor de novas respostas para novas questões. E é nesta perspectiva que a IMED irá colaborar por meio do Centro de Inovação e Governança em Políticas Públicas / FutureGov, promovendo o diálogo de diferentes atores sociais e a cultura colaborativa em prol de soluções inovadoras, criativas e inteligentes para os problemas concretos da sociedade.

O nosso futuro está sendo gestado agora. Mirar para as melhores práticas do país e do exterior, a inteligência multidisciplinar de pesquisadores e policy makers, poderá nos ajudar a identificar o que funciona, o que dá resultados em maior escala e qualidade para as pessoas. Esse é também um compromisso indeclinável de um ensino superior arejado e sintonizado com padrões de excelência mundial e com pesquisas aplicadas dirigidas a cocriar caminhos para um mundo mais humano, sustentável e inovador.

“Alguém dirá: o bom momento econômico do país ajudou o negócio da educação privada a prosperar. Verdade. Mas igualmente é verdade que, em meio à crise que o Brasil atravessa nos últimos anos, seguimos com a convicção intacta. Continuamos investindo e procurando o crescimento sustentável, mesmo diante de indicadores econômicos não favoráveis”.

Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova 1932: um novo olhar

O sistema educacional é visto como algo
isolado como se não fizesse parte da
organização geral do país, juntamente
com as questões sociais e econômicas.

Apesar de vivermos no Século XXI, em que a evolução em vários aspectos como acesso à educação, à saúde e outros direitos sociais deveriam ser ampliados a impressão que dá é que estamos retrocendo. Afirmo isso porque participo de um grupo de estudos da Universidade de Passo Fundo, Língua e Discurso, Coordenados pelas professoras, Doutoras Marlete Sandra Diedrich e Patrícia Valério e analisamos o documento: O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932 e tivemos a impressão de que estamos vivenciando um discurso em 2019 que se assemelha a um discurso anterior a 1932, com relação à educação que querem implantar, infelizmente. Será que não está na hora de reelaborarmos o nosso manifesto? Até quando vamos permitir o retrocesso ser efetivado?

Esse documento é muito atual do ponto de vista do discurso político que vigorava, que levou um grupo de intelectuais renomados do país como: Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Afranio Peixoto e outros a realizarem esse manifesto. E hoje estamos observando alguns discursos políticos que merecem nosso olhar crítico e não sei se não é momento de organizarmos nosso repúdio público.

O que estamos esperando? O que mais precisa ser feito nesse país, para que, de fato, acordamos? Avante educadores!

Nesse sentido, quero trazer muitos discursos políticos que atacam a educação como direito primordial do cidadão e fazer um comparativo ao documento de 1932. O primeiro discurso que me atenho é do “Escola sem Partido” que na verdade deveria ser escrito “Escola com partido”, remetendo a ideia que todo discurso não é neutro, nem subjetivo. Com isso, o que se quer é destruir a imagem do professor, dando-lhe toda a culpa do fracasso da educação, porém esse discurso vem carregado de ideologia generalizando que a educação não tem importância alguma e, por isso, não cabe ao governo valorizá-lo, já que a educação não cumpre o papel de “fazer ciência, mas sim de fazer lavagem cerebral”. Assim, fica fácil culpar a própria escola pelo fracasso e ausentar a responsabilidade do estado, como já dizia o Manifesto de 1932, p.407:

A situação atual, criada pela sucessão periódica de reformas parciais e frequentemente arbitrárias, lançadas sem solidez econômica e sem uma visão global do problema, em todos os seus aspectos, nos deixa antes a impressão desoladora de construções isoladas, algumas já em ruína, outras abandonadas em seus alicerces, e as melhores, ainda não em termos de serem despojadas de seus andaimes…

Percebemos que o documento traz uma ideia atualizada, que perfeitamente podemos usar para as situações recentes que atacam à educação. Pois a cada dia lançam um discurso de ataque isoladamente para desestruturar o sistema educacional, ao invés de encontrar soluções para o problema. E, ainda, o sistema educacional é visto como algo isolado como se ele não fizesse parte da organização geral do país, juntamente com as questões sociais e econômicas. E, aí, preciso trazer mais uma parte do Manifesto de 1932, p.407,

Onde se tem de procurar a causa principal desse estado antes de inorganização do que de desorganização do aparelho escolar, é na falta, em quase todos os planos e iniciativas, da determinação dos fins de educação (aspecto filosófico e social) e da aplicação (aspecto técnico) dos métodos científicos aos problemas de educação. Ou, em poucas palavras, na falta de espírito filosófico e científico, na resolução dos problemas da administração escolar. Esse empirismo grosseiro, que tem presidido ao estudo dos problemas pedagógicos, postos e discutidos numa atmosfera de horizontes estreitos,…

Um discurso que tem chamado atenção, que vem do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que chega a ser cômico, o Ensino Domiciliar, permitindo que pais optem por ensinarem seus filhos em casa.

Pergunto: Quais pais têm condições psíquicas, em primeiro lugar, docente e tempo para isso? Isso é uma ideia imediatista de resolver um problema tão complexo que é o sistema educacional. Ah, o sistema está com problema, vamos editar uma medida que solucionará o problema, ao invés de investir na escola, se é visto que ela está deficitária. Isso seria como lavar o filho na bacia e jogar não só a água suja, mas o filho junto.

Se a escola está mal, se destrói ao invés de consertá-la. Cuidado com os eufemismos, ou para usar um termo benvenistiano “Eufemia” que anda junto com “Blasfemia”, porque é uma “Blasfemia” o que estão fazendo com a educação, pois para enganar o povo transformando a expressão “Educação Domiciliar” amena, eufêmica, usam uma expressão em inglês “homeschooling”. Isso porque a maioria da população não entende de fato a significação da palavra. Dessa forma, nos reportamos ao documento novamente:

Já se despertava a consciência de que, para dominar a obra educacional, em toda a sua extensão, é preciso possuir, em alto grau, o hábito de se prender, sobre bases sólidas e largas, a um conjunto de ideias abstratas e de princípios gerais, com que possamos armar um ângulo de observação, para vermos mais claro e mais longe e desvendarmos, através da complexidade tremenda dos problemas sociais, horizontes mais vastos. (Manifesto, p.409)

Ainda, falando sobre a educação domiciliar, quem não terá problema, será quem tem dinheiro, pois as famílias pagarão um professor que ensinará em casa, mas me pergunto: E a filho do empregado, que mal tem tempo de tomar um banho e deitar no final do dia cansado? E é para essa classe que precisamos pensar a educação de qualidade, senão estaríamos infringindo um princípio básico da Constituição federal que explicita que a educação é dever do Estado.

A verbalização da fala de um aluno da escola pública de Alvorada, RS, explicita a importância da escola na vida de uma criança, inclusive em termos de alimentação, a fala nas redes sociais de um menininho dizia o seguinte:

 “Oh, meu… Tu ‘rateou’ em ter faltado a aula, ‘parça’. Tu ‘rateou’ muito, muito, muito, muito, meu. Oh, logo hoje que tu faltou, filho, foi chuchu ao molho branco, iscas de frango, arroz e feijão, salada de tomate e banana na sobremesa”, diz Pierre no áudio. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2019/04/10/menino-viraliza-com-frase-tres-conchadas-de-galinha-ao-enviar-audio-sobre-merenda-escolar-em-alvorada.ghtml

 Isso fica claro que a escola só precisa melhorar em alguns aspectos e que ela vai muito além de ensinar o conteúdo, fica explícito no discurso do aluno que a “escola domiciliar” é uma ideia retrógada de educação, pois o verdadeiro papel está no convívio social, de suprir carências básicas como a alimentação. E, aí, revisitamos novamente ao Manifesto de 1932, p. 411:

A diversidade de conceitos da vida provém, em parte, das diferenças de classes e, em parte, da variedade de conteúdo na noção de “qualidade socialmente útil”, conforme o ângulo visual de cada uma das classes ou grupos sociais. A educação nova que, certamente pragmática, se propõe ao fim de servir não aos interesses de classes, mas aos interesses do indivíduo, e que se funda sobre o princípio da vinculação da escola com o meio social, tem o seu ideal condicionado pela vida social atual, mas profundamente humano, de solidariedade, de serviço social e cooperação.

A educação não deve ser restrita a uma classe, em detrimento de outra. Ela precisa ser abrangente na horizontalidade de concepção básica de um direito e que tem sim a responsabilidade do Estado Brasileiro. Por isso, devemos estar muito ligados nos discursos que vem com soluções pontuais e estanques para os problemas e ainda prometem resolvê-los.

Devemos tomar cuidado com eufemização dos termos, dos conceitos, porque eles vêm com propostas implícitas que na prática se demonstram a destruição de forma dominó. Sugiro que quem não leu o documento na íntegra, O Manifesto dos Pioneiros de Educação Nova de 1932, leia para entender questões atuais da educação no Brasil.


“A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acreditamos que as finalidades da escola deveriam sempre convergir. Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida”. (Nei Alberto Pies)

A luta por um projeto civilizatório

O centro do sistema também vive suas crises,
e tenta de todas as formas, transferir seus problemas
à parcela do mundo invisibilizado.

 A sociedade que é capaz dos feitos mais extraordinários em termos tecnológicos é a mesma que é arrastada por uma onda avassaladora ao passado, onde a barbárie se fez reinar. Ainda é verdade que a barbárie nunca deixou de existir, mas ao longo do tempo vem tomando outros formatos.

Conforme Voltaire, “A civilização não suprime a barbárie, aperfeiçoa-a.” Por isso, agora a necessidade de reflexão se impõe quanto ao que nos levou a permitir o implacável ciclo histórico de se restabelecer.

Estamos diante de ataques políticos virulentos que suprimem rapidamente conquistas civilizatórias importantes, historicamente conquistadas, que visam tirar da frente do “Todo Poderoso Capital” qualquer obstáculo que atrapalhe sua incessante, egoísta e desumana escalada lucrativa. Lucro este que se edifica rapidamente na destruição de direitos sociais e econômicos da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, o sentido da liberdade é retorcido à lógica neoliberal da concorrência, onde os reflexos mais significativos são sentidos na consciência dos trabalhadores, no intuito de fragilizar as relações humanas e de classe. Dessa forma, a inércia se faz instrumento pelo qual se estabelecem políticas antidemocráticas das quais o Estado é o principal promotor.

O mesmo Estado que outrora tinha o papel de dirimir as diferenças, na busca de uma mínima harmonia social e que agora tem sua existência resumida a servir aos anseios do que ditam os grandes grupos capitalistas.


“Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população”. (Sygmund Bauman)


O geógrafo Milton Santos já afirmara isso há pelo menos duas décadas atrás ao dizer que “As políticas que hoje são das grandes empresas, amanhã serão as políticas dos Estados.”

Diante da velocidade com que se desmantelam a democracia e a dignidade, e cresce a indiferença por pautas importantes para a qualidade de vida da população, é inevitável uma visita à ideia de Auguste Rodin. Para ele, a civilização é em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava.

A titulo de exemplo, no Brasil, alguns “traços” de democracia que levamos séculos para construir, foram sobre solo movediço, passos incautos em direção às diferenças abissais que fomentam a ignorância, a violência, as doenças e a fome. Esse é um exemplo imediato, que se encontra mais próximo de nós, estamos na periferia do sistema capitalista, somos o elo frágil desse imbricado sistema econômico e social globalizado, porém não somos o único, o centro do sistema também vive suas crises, e tenta de todas as formas, transferir seus problemas à parcela do mundo invisibilizado.

Estamos diante de graves problemas que não contam com antídotos de pronto efeito, oriundos de crises políticas, sociais e econômicas, que exigem uma frente única de resistência, classista e anticapitalista para reagir diante de tanto disparate a ser combatido, numa perspectiva societária e emancipatória dos trabalhadores.

Uma reflexão rápida, contudo importante, é fundamental na construção desta sociedade. É sabermos que existem causas que nos unem, que são anseios comuns. Todos querem vida plena e feliz, e esse já é motivo suficiente para a luta por um projeto plenamente civilizatório.


A história das coisas é um filme dinâmico e objetivo, que fala dentre outros assuntos, sobre o consumo exagerado de bens materiais, e o impacto agressivo que esse consumo desregrado acaba exercendo sobre o meio ambiente. O filme é apresentado por Annie Leonard, e mostra de uma maneira bastante clara todo o processo que vai desde a extração da matéria, confecção do produto, venda e ideologia publicitária, facilidade de compra e falsa ideia de necessidade, até o momento em que vai parar nos galpões de lixo ou incineradores.

Direitos Humanos e religiosidade popular: um debate necessário

O diálogo inter-religioso é necessário para a construção
de um ambiente de tolerância e respeito e uma
cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.

Aconteceu, neste último dia 16 de abril de 2019, o Primeiro Seminário Direitos Humanos e religiosidade popular, no Auditório da IFFS (Instituto Federal da Fronteira Sul), em Passo Fundo, RS.

O Seminário foi organizado pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF), juntamente com outras organizações apoiadoras. O Seminário foi organizado por estudantes do Curso de Especialização Agentes Defensores de Direitos Humanos.

O encontro que reuniu seis denominações religiosas teve a mediação dos debates com o professor da UPF Frederico Santos. A apresentação dos trabalhos foi de Ipácio Carolino. O evento contou com a presença das seguintes denominações religiosas: Centro Espírita Dias da Cruz, Igreja Católica/ITEPA, Comunidade judaica de Passo Fundo, Comunidade islâmica de Passo Fundo, Soto Zen Budismo Japonês, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e Religião de Matriz Africana.

Seguem alguns registros do encontro que foi definido como um grande EXITO pela participação expressiva de participantes e pela participação intensa e interessada das diferentes religiões que se dispuseram a realizar um diálogo inter-religioso que teve intuito tanto de reconhecer as diferenças como destacar os elementos comuns das diferentes organizações religiosas.

O diálogo inter-religioso é necessário para a construção de um ambiente de tolerância e respeito e uma cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.

A iniciativa, inédita em seu formato num ambiente acadêmico, deverá continuar inspirando a realização de outras iniciativas que promovam o respeito e a liberdade de crenças e de cultos no Brasil afora.

Reflexão do início dos trabalhos

A liberdade de crença é um dos direitos humanos mais importantes. Constitui aquilo que ficou conhecido na história como uma das liberdades fundamentais, uma expressão muito usada na declaração universal dos direitos humanos.

Nenhuma sociedade pode se constituir e se afirmar sem o respeito a essa liberdade, pois ela diz respeito a um dos elementos mais profundos da subjetividade humana, é do modo de ser humano ter crenças. E essas crenças podem ser filosóficas, ideológicas ou religiosas, podendo ganhar institucionalidade ou não.

Na raiz de toda religiosidade popular está este direito humano, que é uma condição fundamental para que a dignidade humana. Este direito está na dimensão subjetiva, simbólica, espiritual, que é tão importante quanto os direitos que dizem respeito às dimensões materiais, de reprodução da vida, das condições econômicas.

Falar de direitos humanos e religiosidade popular é colocar na agenda a importância da liberdade de crença e, em consequência, a responsabilidade com o respeito a todas as crenças, a todas as manifestações religiosas, a todas as religiosidades, e também a todas as religiões, sobretudo enquanto forem espaços de afirmação da dignidade humana.

Por outro lado, também é momento de fazer a denúncia daquelas práticas que são intolerantes, que não respeitam esta liberdade, que não conseguem conviver com a diversidade. Por isso, o Seminário Direitos Dumanos e religiosidade popular quer ser um espaço para que se reflita sobre esse direito fundamental à liberdade de crença e também para que se possa construir estratégias para fazer frente àquelas práticas que são agressivas e violam esse direito.

Reflexão de Gizele Zanotto, professora e Coordenadora do Laboratório de Estudos das Crenças (LEC-PPG/UPF) 

“É uma honra e um privilégio participar desse debate sobre Direitos Humanos e Religiosidade Popular. Mais do que parabenizar os organizadores, os agradeço pela ousadia do empreendimento – sempre necessário e talvez no contexto atual ainda mais urgente. Como cidadã, me sinto beneficiada pela oportunidade de aprender sobre formas de crer e de viver o religioso.

Religiões são culturas e a valorização cultural por si só é um direito, alçado à elemento constitucional com a defesa da cidadania cultural, do respeito à diversidade, consagrados em nossa Carta Magna de 1988.

Quando nos referimos a religiosidade popular, estamos designando opções, disposições e tendências religiosas de quaisquer religiões. Para além das ortodoxias defendidas pelas entidades, associações, movimentos e grupos religiosos, há um intenso processo de criação, composição e articulação que é próprio da ação humana em busca de elementos do sagrado que lhe façam sentido, que lhe respondam à anseios e demandas do cotidiano. Essas recomposições – criadoras e criativas – evidenciam a agência humana na formatação do seu crer, seja individual ou coletivo.

Religiões e religiosidades são fenômenos transversais, que se imbricam, complementam e retroalimentam cotidianamente. Tais recriações nos são direitos.

Tais direitos constitucionais, articulados aos direitos humanos, definem nossa possibilidade e dever de respeitar o outro em sua singularidade, diversidade e humanidade. São universais, inalienáveis, indivisíveis; são todos de igual importância. Como direitos – também vinculados a deveres que lhes são correlatos – deveriam ser seguidos. Todavia, cá estamos nós ainda debatendo situações em que o direito ao crer e ao praticar suas crenças sofre sanções, silenciamentos, desvalorização e mesmo restrição, censura e violações.

O que esperamos com esse debate, certamente enriquecedor a todos os presentes, é que consolidemos sempre mais nosso direito ao crer, articulado ao dever de cidadania e respeito à diferença”.

Fotos: Ingra Costa e Silva

Crescimento econômico e o problema do esgoto a céu aberto


A economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.

O pensamento econômico convencional insiste em medir níveis de pobreza tão somente a partir da insuficiência de renda. Por esse critério, o Banco Mundial constatou em 2012 que 12,7% da população mundial (903 milhões de pessoas), que recebia menos de US$ 1,90 ao dia (considerando a paridade do poder aquisitivo) eram considerados pobres, vivendo, portanto, abaixo dessa “linha”. 

A questão central é que o correto conceito de pobreza não pode se limitar a insuficiência de renda, mas necessariamente tem que abarcar outras tantas privações que mancham as abjetas condições de vida dos mais necessitados, dentre essas a falta de saneamento básico, vale dizer, a convivência direta e diária com esgoto a céu aberto.

Pior é que não há, aos olhos da economia tradicional, pelo menos a contento, uma correlação entre as privações de renda e de higiene. Diante disso, o convencionalismo econômico “prioriza” medidas de combate à insuficiência de renda, usando para tanto políticas de estímulo ao crescimento físico da economia, enquanto fecha os olhos para o gravíssimo problema da falta de saneamento básico.

Não por acaso, no mundo, mais de 38% das pessoas sofrem com a falta de higiene básica. Tomando apenas os 48 países considerados “menos desenvolvidos” descobre-se que 65,5% das pessoas ali residentes desconhecem as noções centrais de um ambiente favorável em termos de saneamento básico.

No ranking mundial do saneamento, o Brasil ocupa a vexatória 112° posição, com mais da metade de sua população (estima-se em 118 milhões de pessoas) sem acesso a tratamento de esgoto. Somente a região Norte tem 90% dos brasileiros vivendo sem serviços de saneamento básico.

Daí decorre outro inquietante problema: ao expor especialmente as crianças em contato direto com esgoto a céu aberto, consequentemente com vírus e bactérias, aumenta-se sobremaneira a incidência de doenças como febre tifoide, cólera, leptospirose e parasitose.

Não é de hoje que estudos médicos mostram claras evidências que, recorrente infecção parasitária na primeira infância (de 0 a 7 anos), por exemplo, reduz sensivelmente a capacidade de raciocínio, comprometendo para sempre a inteligência e o desenvolvimento corporal dos futuros adultos.

De igual modo, um recém-nascido, cuja mãe, durante toda a gestação, esteve exposta a um ambiente sem coleta e tratamento de esgoto, vai sentir muito mais a exposição a essas substâncias e, certamente, poderá ter má formação cardíaca, sofrer de deficiência hepática, além de apresentar problemas de ordem imunológica.

Ademais, a comum diarreia que acomete crianças expostas ao contato direto com esgoto a céu aberto “suga” do cérebro as calorias necessárias a seu desenvolvimento. Relacionado a isso, não se pode perder de vista que o cérebro é o órgão do corpo humano que mais consome energia. Num recém-nascido esse “consumo” é de 87%; com cinco anos cai para 44%, aos dez chega em 34%, e, num adulto, consome 20%.

Desnecessário afirmar que essa energia é vital para manter as células cerebrais saudáveis e alimentar impulsos nervosos. Ora, é evidente que isso afeta todo o sistema neurológico, ou seja, o sistema nervoso central e periférico de uma criança, comprometendo-a em suas funções futuras.

Nesses casos, o cérebro pode até desenvolver o tamanho correto, mas a capacidade de fazer sinapses, ou seja, de conectar ligações nervosas estará pois completamente prejudicada.

A ciência mostra que 90% das sinapses se formam até os 7 anos de vida, atingindo a maturação e a complexidade de uma rede neuronal aos 18 anos. Logo, essas faixas de idade –  0 a 7, e de 8 a 18 – determinam a capacidade e a personalidade do indivíduo.

Uma criança que nasce e vive, especialmente em seus primeiros anos vida em ambientes expostos a péssimas condições de saneamento, convivendo com todo tipo de contaminação ali decorrente, sofrerá considerável déficit de aprendizado intelectual pelo resto de sua vida.

Pois bem. Aonde se relaciona a questão do crescimento econômico com esses fatos?  Simples: enquanto o tradicional pensamento econômico não se desgarrar da noção fartamente difundida de que a pobreza não deve ser vista apenas pela insuficiência de renda, e, por isso, enveredar esforços no crescimento da economia para tão somente “tentar” aumentar a renda geral, perpetuaremos o gravíssimo problema da falta de saneamento básico, condição essa posta em plano secundário diante da “necessidade” de promover o famigerado aumento da renda.

Num tempo em que o desenvolvimento tecnológico avança celeremente no intuito de facilitar a construção de mundo mais pacífico e menos desigual, parece não haver paradoxo mais tosco e aberrante que presenciar incomensurável contingente populacional vivendo em desumanas condições de vida, expostas ao convívio diário com esgotos a céu aberto.

No entanto, a economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.

Posto isto, cabe indagar: até quando tal desproporção será aceitável?

Visita de conhecimentos: forma de conhecer as tradições religiosas

Numa experiência inédita na cidade de Passo Fundo, pelo quarto ano consecutivo, alunos e alunas do nono ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi (ZDC), organizados por seu professor de Ensino Religioso, realizam visitas de conhecimento à Catedral (referência dos cristãos católicos), Sinagoga (referência dos irmãos judeus), Mesquita (referência dos irmãos muçulmanos) e Centro Espírita Dias da Cruz (referência dos irmãos espíritas).

O objetivo da atividade é complementar e ampliar os conhecimentos das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e compreensível em livros, vídeos ou na internet.

O conhecimento das estruturas religiosas e a conversa breve de 30 minutos com diferentes líderes religiosos numa única tarde, ajuda a desmistificar os valores e as crenças das religiões, como também ajuda os adolescentes e jovens a desconstruir preconceitos e construir novos conceitos sobre as mesmas.

Conhecer, conversar, ver, tocar, sentar, observar e trocar informações e impressões faz com que esta atividade se torne tão única e tão rica em aprendizagens.

Publicaremos, a seguir, depoimentos dos religiosos que atendem estas visitas de conhecimento, alguns depoimentos de alunos participantes e também breve avaliação de professores da rede municipal que já acompanharam esta atividade.

Religiosos

Berel Natan Engelman, líder religioso da Sinagoga dos judeus em Passo Fundo

“A experiência vivida certamente é muito positiva para ambos os lados, mas ter convivido esses momentos seguidos de várias perguntas formuladas pelos alunos, só vem reforçar o que nós, como entidade religiosa, pensamos em relação à proximidade com outras pessoas de culto e fé diferente da nossa. Parabenizo pela iniciativa das visitações junto aos locais sagrados, tendo a certeza que esta juventude crescerá com mais informações, sabendo respeitar as culturas diversas existentes em nosso país. Parabéns e Shalom!

Padre Ari dos Reis, Catedral Arquidiocese de Passo Fundo

“Considero muito significativa a oportunidade dos alunos visitarem os espaços sagrados das diferentes tradições religiosas. Foi uma alegria poder partilhar alguma coisa da história da Igreja Catedral para o grupo. Ao mesmo tempo, permite revisitarmos a história da construção da Catedral, partilhando dos elementos fundamentais do rito católico romano. Acredito que esta partilha também aconteceu com outros grupos e isto ajuda aos adolescentes a serem mais respeitosos das diferentes denominações religiosas. Sempre a disposição”.

Paulo Eberhardt, Centro Espírita Dias da Cruz

“As visitas e palestras sobre Espiritismo contribuem para a correta compreensão do Espiritismo. Quando realizamos um evento doutrinário ao público em geral, consideramos muito mais a oportunidade de levarmos os ensinos do Evangelho de Jesus, em sua pureza, desataviado, fazendo com que cada um compreenda os objetivos Divinos de sua existência, procurando dar um sentido a vida e também preparando para o inevitável, a seu retorno à pátria Espiritual, bem como o de seus entes queridos. Os adolescentes e jovens tem muito a aprender com o Espiritismo”.

Raduan Jehani, comunidade muçulmana em Passo Fundo

“Ficamos muito felizes ao receber adolescentes e jovens em nossa Mesquita. Assim, podem conhecer o islamismo como ele é, não como ele é apresentado pela grande mídia e pela internet. Nossa mesquita está sempre aberta, temos uma pequena biblioteca que pode auxiliar, e podemos explicar e atender a grupos de estudantes quando alguém ou alguma escola solicitar”.

Estudantes

Pedro Henrique Padilha

“Achei muito interessante os templos, mas o que mais me chamou a atenção foi a sinagoga, pois pensava que era uma coisa e era outra totalmente diferente. Achei muito legal o passeio e o tempo que passamos conhecendo os templo, mudei totalmente minha ideia de algumas religiões”.

Gabrielly Almeida

“Descobrimos durante as visitas que uma religião pode ser diferente do que as pessoas que estão por fora delas falam. Às vezes, tudo o que precisamos é de mais sabedoria, porque assim é que criamos o respeito. Se houver respeito, há esperança de paz”.

Júlia Eduarda Meneghini

“As visitas e palestras são uma ótima forma de nos trazer conhecimentos sobre religiões diversas. Este passeio foi muito importante para estudarmos mais a fundo as religiões, para entendermos sua história e suas crenças, tirarmos nossas dúvidas e também para deixarmos o preconceito de lado e termos mais respeito com todas as religiões”.

Ana Laura Freddi

“Gostei da ideia, pois somos jovens e podemos conhecer as religiões sem saber a verdade e só a partir do que os outros falam. Então, depois dessa visita, podemos ter mais respeito. Quero agradecer aos envolvidos que nos oportunizaram esta novidade. Esse passeio foi uma experiência incrível”. Obrigado!

Professoras que acompanharam a visita

Graziela Bergonsi Tussi, professora de Geografia

“Trabalhamos praticamente concomitante os aspectos do fundamentalismo religioso, mas com focos diferentes. Vejo essa atividade muito positiva para compreensão das temáticas trabalhadas na disciplina de Geografia. O nono ano está trabalhando conflitos mundiais e alguns deles são justificados pelos fundamentalistas como sendo necessários, por serem em ‘nome de Deus’. Esses esclarecimentos que são feitos na disciplina de Ensino Religioso, levando os alunos até seus templos, os ajuda a desmistificar o esteriótipo de muçulmanos terroristas, por exemplo. Entender essa pluralidade religiosa e aprender a respeitá-la fará com que eles levem essa cultura para sua vida adulta, e esse é nosso papel, como educadores”.

Vanilde Bordignon, professora Educação Física

“Não só falar, mas também oferecer a oportunidade de vivenciar e sentir na prática é muito importante para os jovens, pois assim agregam mais conhecimentos. Trazer o respeito e a união como forma de aproximação entre as religiões é de extrema importância para que alcancemos a paz e pessoas melhores, mais humanizadas”.

Luce Segat, professora de matemática

“Vejo o trabalho que o colega Nei Alberto Pies realiza com os adolescentes do nono ano do EF de extrema importância. Neste momento da vida humana chamada adolescência, é essencial para a definição social, psicológica e religiosa que irá interferir na construção da atuação individual e coletiva dos nossos alunos adolescentes.
O que o professor Nei faz é dar aos alunos a oportunidade de entender da maneira correta, no meu ver, as diferenças entre conceitos de crenças religiosas. De uma maneira agradável, até mesmo festiva, os alunos conhecem pessoas que vivem e valorizam as suas crenças. Além de ouvir, podem tirar dúvidas, curiosidades, preenchem lacunas. Compreendem que religião significa “religar” o ser humano a alguma crença. Não interessa a crença, e, sim, o seu Deus. Maravilhoso trabalho que já pude acompanhar pessoalmente”.

Para concluir…

Esta atividade de visita de conhecimentos aos templos sagrados de diferentes religiões é um diferencial pedagógico na abordagem do conhecimento das diferentes religiões.

Na escola, tem gerado importante expectativas entre os alunos, entre os professores e em toda comunidade escolar. Depois de quatro anos, pais e mães já entendem, com maior facilidade, o objetivo da atividade.

Percebe-se um interesse cada vez maior dos alunos em conhecer lugares sagrados. Os alunos do nono ano deste ano de 2019, desta escola, estão organizando também uma visita ao Templo Budista de Três Coroas, no RS.

Os representantes das religiões visitadas tornam-se cada vez mais receptivos, o que qualifica as visitas desde a recepção até os conhecimentos que são repassados aos alunos num tempo curto de meia hora. Quando necessário, os representantes das religiões são ainda convidados para uma palestra na escola.

A intenção desta publicação é despertar em outros professores e professoras que trabalham o Ensino Religioso a aplicação desta metodologia de trabalho.

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