“Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar. O livro caindo na alma é germe que faz a palma; é a chuva que faz o mar”. (Castro Alves)
Com uma dessas
atividades, das quais ganha quem a cultiva, tive a oportunidade de me encontrar
logo nos primeiros tempos de estudos do seminário. Tive a sorte, ou mais, tive
a graça de encontrar professores que incentivavam a amizade com os livros.
Com esses me dei bem,
fato que continua até hoje. Quanto à escolha de escrever este texto sobre
leitura e livros, ela me veio, fortuitamente, ao ler dias atrás, nas páginas de
um grande jornal paulista, a matéria intitulada: “O prazer de ler”.
Um livro foi capaz de mudar a trajetória de Robson Mendonça, ex-morador de rua e criador do projeto Bicicloteca. Ao ler A revolução dos bichos, de George Orwell, ele teve a ideia de começar sua pequena revolução. Hoje, leva uma biblioteca em forma de triciclo, a Bicicloteca, às ruas de São Paulo. Com isso, oferece obras a quem tem pouco acesso a elas.
Imediatamente me entusiasmei e pensei em iniciar campanha pró-leitura, a qual, garanto, trata-se de ato prazeroso em meio ao tempo disponível que possa nos visitar, por mais ocupados que sejamos.
Tenho como bendito quem a
descobre e a escolhe como companheira pela vida. Também não foi por acaso que,
ao descobrir na leitura de Castro Alves o grande poema “O navio negreiro”,
quando estava na quarta série do ginásio, fiz questão de decorar o imenso
poema. E o recitei na sessão da retórica que tínhamos no seminário. Eu me
lembro que falei com toda a força o protesto do poeta contra a escravidão, numa
das 54 estrofes de sua valiosa obra. Ele dizia: “Senhor Deus dos desgraçados,
dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira ou se é verdade tanto horror perante os
céus”! Paixão pela leitura à parte, entendo que essa não é a escolha de muita
gente.
Afinal,
gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a
primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas
novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance
das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão
por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados.
Certamente muitas pessoas
não leem quase nada porque não são incentivadas ou não cresceram cercadas de
livros. Se posso dar uma sugestão, sugiro que faça dos tantos presentes que tem
de dar, a oferta de livros. Estará praticando o que propõe Castro Alves que
diz: “Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar. O
livro caindo na alma é germe que faz a palma; é a chuva que faz o mar”.
Conheça a Revista de Aparecida Fonte: Originalmente publicado na Revista impressa “A revista de Aparecida” Ano 17, n. 200, Nov. 2018) Autor: Padre César Moreira
“O desemprego do homem deve ser tratado como tragédia e não como estatística econômica”. (João Paulo II)
A cada primeiro de maio as marcantes histórias de
luta dos trabalhadores são lembradas. Senso de cidadania, união popular e
reflexão sobre direitos adquiridos fazem parte desta data.
Marx descreveu o movimento dos padeiros irlandeses
contra o trabalho noturno e dominical no século XIX, nos “comícios de maio”. O
proletariado moderno começava a se organizar, mesmo antes da consagração da
data.
Foi nos
Estados Unidos que o contemporâneo significado de 1º de maio se consolidou, com
as greves que estouraram em 1832, reivindicando a jornada de oito horas e que
culminaram em tragédia. Em 1886 foi convocada uma greve geral para 1º de maio.
A polícia reagiu com violência deixando um saldo de seis mortos e 50 feridos.
No dia seguinte em um ato contra a violência
policial, uma bomba foi arremessada na direção de policiais. O episódio
determinou uma perseguição a líderes do movimento operário. Um processo
suspeito, com forte caráter político, (alguma novidade ??), condenou sete deles
à morte por enforcamento.
A luta pela comprovação da inocência dos acusados
transformou os “mártires de Chicago” em símbolo mundial da injustiça do Estado
capitalista contra uma classe trabalhadora oprimida. Em 1889, a 2ª
Internacional dos Trabalhadores, organização criada em Paris, decretou o 1º de
maio como Dia Internacional do Trabalho. Assim, a data nasceu sob o signo da
revolta e da luta.
É bem
verdade que a imprensa, o Estado e até a Igreja, tentaram elaborar outras
interpretações para a data, fugindo do discurso do proletariado. No Brasil, um
discurso unificado sobre o 1º de maio veio na Era Vargas, modelado pelo Estado
e não pela sociedade civil.
O governo, sob a égide do trabalhismo, se apropriou
da data e a utilizou para fins políticos e, evidentemente, propagandísticos, ao
lado das políticas concretas – jornada de oito horas, férias, carteira do
trabalho, CLT e criação do Ministério do Trabalho.
O protagonismo deixou de ser do operariado e sim do
Estado, da Nação e do seu dirigente máximo. Os anos 1930 foram de repressão ao
movimento operário livre e de criação de sindicatos atrelados ao Estado.
No início da década de 1980, entretanto, o
sindicalismo ganhou força com o surgimento da CUT e da CGT que foram
fundamentais para o processo de redemocratização do país. Lideranças como Luis
Inácio Lula da Silva, representaram a ascensão de um novo, independente e
poderoso sindicalismo no Brasil.
Agora,
neste 1º de maio, os trabalhadores brasileiros tem muito pouco a comemorar. O
desemprego massivo é, possivelmente, a maior fonte da angústia que os aflige.
A massa assalariada está conhecendo na prática os
estragos sobre seus direitos: celetistas estão sendo trocados por contratados
temporários, sem férias e 13º, sem licença de gravidez, FGTS, aviso prévio,
seguro-desemprego, etc. O subemprego se espalha rapidamente sem amparo
sindical.
O futuro do trabalho.
Há hoje no Brasil um projeto que visa desmontar a legislação trabalhista, asfixiar os sindicatos, extinguir a aposentadoria pública universal por repartição e acabar com a justiça do trabalho. Afinal, como disse Bolsonaro, “é difícil ser patrão no Brasil”. Então, vamos facilitar sua vida. Ulala!
No caso
da aposentadoria, com a implantação de um regime por capitalização,
empregadores e Estado livram-se de contribuir de maneira universal para o
bem-estar da população na velhice. É o cenário ideal: cada um por si. A reforma
só é boa para quem ganha com o dinheiro dos outros.
Assim, esperança é um bem escasso no Brasil de
Bolsonaro. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um
ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do trabalhador brasileiro. As
medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais
e históricas sendo literalmente desmanteladas.
Está na hora do trabalhador
resgatar o papel que exerceu no século XIX. Isto é, de ser o sujeito da
história, o transformador social. O primeiro de maio deve voltar a ser, mais do
que história, mas um presente em constante transformação.
O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes e vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo, é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.
O liberal que cheira cocaína e participa de simpósios sobre
liberdades quer consumir sua droga, para ficar esperto, mas berra que
traficante tem que ser preso e se possível morto.
O liberal cínico ataca, para
consumo externo, quem fornece a droga que o mantém inteligente e competitivo
com o patrão, com os amigos e com as mulheres.
Pois escrevo esse texto
pensando no juiz Ramiro Oliveira Cardoso, que nunca vi. Sei da existência do
juiz substituto da 4ª Vara Civil do Foro de Porto Alegre pelas notícias
recentes que revelam a indignação de delegados e promotores, porque o juiz
solta traficantes com quantidades de drogas que considera irrelevantes.
O juiz não manda prender
esses miseráveis varejistas de esquina, invariavelmente jovens e negros, que se
matam na disputa pelo mercado de coca e maconha da Grande Porto Alegre. Porque
o juiz entende que não adianta prender.
Cardoso disse numa entrevista
a Eduardo Matos, de ZH, que a repressão pega um traficante de rua hoje, com a
maior facilidade, e quando ele é levado para uma delegacia, outro já o
substituiu.
São
jovens sem perspectivas, sem proteção do Estado, vulneráveis às tentações do
tráfico. Essa gurizada lota as cadeias, onde o esquema de dominação das facções
se aperfeiçoa e se reproduz.
O juiz diz: “O crime de
tráfico não é um crime natural. Ele é um crime cultural e ele é temporal de
determinado entendimento social. Ele não tem uma reprovação imediata, por
exemplo, como um homicídio, como um estupro, como um roubo. Ele é um delito que
pode ser que em alguns anos nem seja mais criminalizado”.
Agora digo eu: o traficante,
principalmente esse da ponta, mesmo que trabalhe para alguém (e trabalha) é uma
mão de obra barata de quem está à espera do que ele vende, o cheirador de coca.
O traficante mandalete morre para manter seu espaço e seu cliente, sem custos
para o cheirador. E o cheirador, principalmente o liberal, esse que defende
livre mercado, o que faz o cheirador? O cheirador pede que matem o traficante.
Cheira e pedem que matem. Que
esfolem, que acabem com o traficante e suas famílias. E que outros os
substituam e também sejam mortos.
O cheirador de coca moralista
(muitos são contra o Bolsa Família para as mães de aprendizes de traficantes) é
o mais cínico dos consumidores de vícios, incluindo cigarro, álcool, propinas e
outras drogas.
O bacana consumidor de droga,
dessa classe média movida a estímulos químicos, é um babaca. É para esse bacana
e babaca que o juiz fala.
Há pouco, aconteceu uma
gritaria parecida, quando uma mãe e dois filhos foram presos por tráfico em
Charqueadas. O mundo da tradição, da família e da moral bolsonarista se
levantou contra a mulher que usava os filhos para traficar.
E massacraram a mãe. A que
vende drogas. Não a mãe que muitas vezes sustenta o drogado bem de dinheiro e
fala mal dos traficantes imorais.
A
humanidade se encharca de alguma droga desde tempos bíblicos. E vai continuar
cheirando, bebendo, fumando. É um mercado ilegal em nome de uma ‘ética’
fracassada, de punições que não funcionam, de vinganças.
O tráfico mata, corrompe,
abrevia a vida de adolescentes e vai continuar matando enquanto não admitirem
que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo, é ineficiente, é
fracassado e só pega negros e pobres.
Por
isso entendo a posição do juiz que libera pequenos traficantes e desafia o
sistema todo a enfrentar seus cinismos e suas demagogias diante do traficante
invisível como expressão do que Jessé Souza define como a ralé brasileira.
Calhordas
moralistas consumidores de drogas, admitam: o traficante negro, jovem,
miserável, sempre trabalhou para vocês sem salário, de graça, sem FGTS, sem
férias, sem 13º, e morre por vocês.
O que se espera para um tema de tal impacto, que vai mexer com a vida de milhões de brasileiros, é transparência. Até para que sejamos convencidos da real necessidade da mesma.
Todos aqueles
que conhecem a nova
realidade estrutural das relações de trabalho
que vem se consolidando nos últimos anos entre nós
e pelo mundo afora, em função da automação da economia
compartilhada, sabem da necessidade de
uma mudança no sistema previdenciário.
Na indústria,
na tecnologia e no mercado de trabalho, as transformações são
palpáveis, exigindo uma
inevitável mudança no contrato ou pacto
social. Isto hoje abrange todos os países e sistemas
econômicos-sociais.
Os economistas mostram que no
Brasil isto se faz ainda mais urgente,
diante de um quadro de rápidas e intensas transformações do emprego formal para trabalho independente.
Hoje é expressivo
e crescente o grupo que
prefere ser autônomo e
microempreendedor, ao invés de assalariado.
Com isto, o padrão da Previdência fica
prejudicado e a tendência é piorar, não apenas pelo crescente trabalho independente como também
em função da maciça destruição do
emprego que virá em consequência da automação
fabril e dos serviços, os
maiores contribuintes da
Previdência Social.
Hoje,
entre nós, segundo o IBGE, o contingente de
trabalhadores fora do sistema pleno de proteção social é superior à metade do total. Com carteira do trabalho assinada são
apenas 38,9% dos trabalhadores.
Há no Brasil uma grande massa de
trabalhadores que preferem receber
mais como autônomos, sem benefícios
trabalhistas e com impostos mais baixos. Os que optam
por carteira do trabalho
assinada, com benefícios trabalhistas
e pagando mais impostos, representam
uma minoria.
Diante
deste quadro, a sustentabilidade do
sistema previdenciário tende
a ficar crítica. É preciso
lembrar, igualmente, o quão devastadora
foi a mudança introduzida no sistema em
1988.
A participação relativa dos
que recebem três pisos previdenciários
quase quadruplicou, enquanto a daqueles
com renda superior a dez pisos
caiu drasticamente, de 31,5% dos contribuintes para
2,4% do total, entre 1988 e 2017.
Diante deste contexto, apresentado pelo economista
Carlos Drumond, no artigo O perigo
de um tropeço (CartaCapital,17/4/2019), a conclusão é de que a mudança
se faz necessária.
Entretanto, indago aos meus
fiéis botões, sobre a razão
de o governo esconder dados que
embasam a Reforma.
O que se espera para um tema
de tal impacto, que vai mexer com a vida de milhões de
brasileiros, é transparência. Até
para que sejamos convencidos da real
necessidade da mesma.
O
governo nos pede para trabalhar mais anos e
ganhar menos como aposentados, mas se nega
a revelar os elementos supostamente
comprobatórios da necessidade do
seu plano. Por que esta estranha e
ilegal postura?
Mais. O combate à sonegação
não seria a alternativa viável às
políticas de austeridade econômica, dispensando especialmente a reforma da Previdência?
Tenho certeza que, se fossem
resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes
bancos, os fundos de investimentos, as
grandes fortunas e as empresas
deixam de recolher ao
INSS, tornaria supérflua uma
reforma da Previdência
e haveria fundos para a
saúde, a educação, a cultura e a inovação tecnológica.
Leia também reflexão sobre volta da lei dos sexagenários.
A humanidade que sairá dessa época avançará integrada na melhor tradição dos esforços da racionalidade humana ou será guiada por um imenso vagalhão de anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.
Vivemos um grande paradoxo. As profundas mudanças
tecnológicas que permitiram novos modelos de negócios e modificaram a forma
como os indivíduos vivem, trabalham e se relacionam, oportunizam pela primeira
vez na história acesso ilimitado a conhecimentos que poderão dar respostas aos
grandes problemas que nos afligem.
Por outro lado, ao nos tornamos uma imensa
plataforma exponencial de comunicação, liberando a capacidade de indivíduos de
qualquer lugar do planeta de emitirem suas mensagens e ampliarem a sua
intensidade e alcance, potencializamos a expansão da horda que é nutrida da
negação das evidências científicas e da disseminação de preconceitos medievais.
Estamos, portanto, diante de um tempo de mudanças.
A humanidade que sairá dessa época avançará integrada na melhor tradição dos
esforços da racionalidade humana ou será guiada por um imenso vagalhão de
anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.
Neste tempo, as
instituições de ensino superior precisam reafirmar seu papel de herdeiras da
modernidade e retomar o protagonismo, percebendo que precisam renovar seus
códigos de conduta como condição de reestabelecerem seu relevante papel na
dinâmica da construção do futuro.
O Pacto pela Inovação de Porto Alegre, liderado
pela UFRGS, UNISINOS e PUCRS, é o exemplo concreto de uma mudança de
perspectiva que já está ativando as potencialidades da cidade em torno de uma
ampla aliança em favor de novas respostas para novas questões. E é nesta
perspectiva que a IMED irá colaborar por meio do Centro de Inovação e
Governança em Políticas Públicas / FutureGov, promovendo o diálogo de
diferentes atores sociais e a cultura colaborativa em prol de soluções
inovadoras, criativas e inteligentes para os problemas concretos da sociedade.
O nosso futuro está sendo gestado agora. Mirar para
as melhores práticas do país e do exterior, a inteligência multidisciplinar de
pesquisadores e policy makers, poderá nos ajudar a identificar o que funciona,
o que dá resultados em maior escala e qualidade para as pessoas. Esse é também
um compromisso indeclinável de um ensino superior arejado e sintonizado com
padrões de excelência mundial e com pesquisas aplicadas dirigidas a cocriar
caminhos para um mundo mais humano, sustentável e inovador.
“Alguém dirá: o bom momento econômico do país ajudou o negócio da educação privada a prosperar. Verdade. Mas igualmente é verdade que, em meio à crise que o Brasil atravessa nos últimos anos, seguimos com a convicção intacta. Continuamos investindo e procurando o crescimento sustentável, mesmo diante de indicadores econômicos não favoráveis”.
O sistema educacional é visto como algo isolado como se não fizesse parte da organização geral do país, juntamente com as questões sociais e econômicas.
Apesar de vivermos no
Século XXI, em que a evolução em vários aspectos como acesso à educação, à
saúde e outros direitos sociais deveriam ser ampliados a impressão que dá é que
estamos retrocendo. Afirmo isso porque participo de um grupo de estudos da
Universidade de Passo Fundo, Língua e Discurso, Coordenados pelas professoras,
Doutoras Marlete Sandra Diedrich e Patrícia Valério e analisamos o documento: O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova,
de 1932 e tivemos a impressão de que estamos vivenciando um discurso em
2019 que se assemelha a um discurso anterior a 1932, com relação à educação que
querem implantar, infelizmente. Será que não está na hora de reelaborarmos o
nosso manifesto? Até quando vamos permitir o retrocesso ser efetivado?
Esse documento é muito
atual do ponto de vista do discurso político que vigorava, que levou um grupo
de intelectuais renomados do país como: Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Afranio
Peixoto e outros a realizarem esse manifesto. E hoje estamos observando alguns
discursos políticos que merecem nosso olhar crítico e não sei se não é momento
de organizarmos nosso repúdio público.
O
que estamos esperando? O que mais precisa ser feito nesse país, para que, de
fato, acordamos? Avante educadores!
Nesse sentido, quero
trazer muitos discursos políticos que atacam a educação como direito primordial
do cidadão e fazer um comparativo ao documento de 1932. O primeiro discurso que
me atenho é do “Escola sem Partido” que na verdade deveria ser escrito “Escola
com partido”, remetendo a ideia que todo discurso não é neutro, nem subjetivo.
Com isso, o que se quer é destruir a imagem do professor, dando-lhe toda a
culpa do fracasso da educação, porém esse discurso vem carregado de ideologia
generalizando que a educação não tem importância alguma e, por isso, não cabe
ao governo valorizá-lo, já que a educação não cumpre o papel de “fazer ciência,
mas sim de fazer lavagem cerebral”. Assim, fica fácil culpar a própria escola
pelo fracasso e ausentar a responsabilidade do estado, como já dizia o
Manifesto de 1932, p.407:
A
situação atual, criada pela sucessão periódica de reformas parciais e
frequentemente arbitrárias, lançadas sem solidez econômica e sem uma visão
global do problema, em todos os seus aspectos, nos deixa antes a impressão
desoladora de construções isoladas, algumas já em ruína, outras abandonadas em
seus alicerces, e as melhores, ainda não em termos de serem despojadas de seus
andaimes…
Percebemos que o
documento traz uma ideia atualizada, que perfeitamente podemos usar para as
situações recentes que atacam à educação. Pois a cada dia lançam um discurso de
ataque isoladamente para desestruturar o sistema educacional, ao invés de
encontrar soluções para o problema. E, ainda, o sistema educacional é visto
como algo isolado como se ele não fizesse parte da organização geral do país,
juntamente com as questões sociais e econômicas. E, aí, preciso trazer mais uma
parte do Manifesto de 1932, p.407,
Onde
se tem de procurar a causa principal desse estado antes de inorganização do que
de desorganização do aparelho escolar, é na falta, em quase todos os planos e
iniciativas, da determinação dos fins de educação (aspecto filosófico e social)
e da aplicação (aspecto técnico) dos métodos científicos aos problemas de
educação. Ou, em poucas palavras, na falta de espírito filosófico e científico,
na resolução dos problemas da administração escolar. Esse empirismo grosseiro,
que tem presidido ao estudo dos problemas pedagógicos, postos e discutidos numa
atmosfera de horizontes estreitos,…
Um discurso que tem
chamado atenção, que vem do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que chega a ser cômico, o
Ensino Domiciliar, permitindo que pais optem por ensinarem seus filhos em casa.
Pergunto: Quais pais têm condições psíquicas, em primeiro lugar, docente
e tempo para isso? Isso é uma ideia imediatista de resolver um problema tão
complexo que é o sistema educacional. Ah, o sistema está com problema, vamos
editar uma medida que solucionará o problema, ao invés de investir na escola,
se é visto que ela está deficitária. Isso seria como lavar o filho na bacia e
jogar não só a água suja, mas o filho junto.
Se a escola está mal, se destrói ao invés de consertá-la. Cuidado com os
eufemismos, ou para usar um termo benvenistiano “Eufemia” que anda junto com
“Blasfemia”, porque é uma “Blasfemia” o que estão fazendo com a educação, pois
para enganar o povo transformando a expressão “Educação Domiciliar” amena,
eufêmica, usam uma expressão em inglês “homeschooling”. Isso porque a maioria
da população não entende de fato a significação da palavra. Dessa forma, nos
reportamos ao documento novamente:
Já
se despertava a consciência de que, para dominar a obra educacional, em toda a
sua extensão, é preciso possuir, em alto grau, o hábito de se prender, sobre
bases sólidas e largas, a um conjunto de ideias abstratas e de princípios
gerais, com que possamos armar um ângulo de observação, para vermos mais claro
e mais longe e desvendarmos, através da complexidade tremenda dos problemas
sociais, horizontes mais vastos. (Manifesto, p.409)
Ainda, falando sobre a
educação domiciliar, quem não terá problema, será quem tem dinheiro, pois as
famílias pagarão um professor que ensinará em casa, mas me pergunto: E a filho
do empregado, que mal tem tempo de tomar um banho e deitar no final do dia
cansado? E é para essa classe que precisamos pensar a educação de qualidade,
senão estaríamos infringindo um princípio básico da Constituição federal que
explicita que a educação é dever do Estado.
A verbalização da fala de
um aluno da escola pública de Alvorada, RS, explicita a importância da escola
na vida de uma criança, inclusive em termos de alimentação, a fala nas redes
sociais de um menininho dizia o seguinte:
Isso fica claro que a
escola só precisa melhorar em alguns aspectos e que ela vai muito além de
ensinar o conteúdo, fica explícito no discurso do aluno que a “escola
domiciliar” é uma ideia retrógada de educação, pois o verdadeiro papel está no
convívio social, de suprir carências básicas como a alimentação. E, aí,
revisitamos novamente ao Manifesto de 1932, p. 411:
A
diversidade de conceitos da vida provém, em parte, das diferenças de classes e,
em parte, da variedade de conteúdo na noção de “qualidade socialmente
útil”, conforme o ângulo visual de cada uma das classes ou grupos sociais.
A educação nova que, certamente pragmática, se propõe ao fim de servir não aos
interesses de classes, mas aos interesses do indivíduo, e que se funda sobre o princípio
da vinculação da escola com o meio social, tem o seu ideal condicionado pela
vida social atual, mas profundamente humano, de solidariedade, de serviço
social e cooperação.
A educação não deve ser
restrita a uma classe, em detrimento de outra. Ela precisa ser abrangente na
horizontalidade de concepção básica de um direito e que tem sim a
responsabilidade do Estado Brasileiro. Por isso, devemos estar muito ligados
nos discursos que vem com soluções pontuais e estanques para os problemas e
ainda prometem resolvê-los.
Devemos tomar cuidado com
eufemização dos termos, dos conceitos, porque eles vêm com propostas implícitas
que na prática se demonstram a destruição de forma dominó. Sugiro que quem não
leu o documento na íntegra, O Manifesto dos Pioneiros de Educação Nova de 1932,
leia para entender questões atuais da educação no Brasil.
“A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acreditamos que as finalidades da escola deveriam sempre convergir. Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida”. (Nei Alberto Pies)
O centro do sistema também vive suas crises, e tenta de todas as formas, transferir seus problemas à parcela do mundo invisibilizado.
A sociedade que é capaz dos feitos mais
extraordinários em termos tecnológicos é a mesma que é arrastada por uma onda avassaladora
ao passado, onde a barbárie se fez reinar. Ainda é verdade que a barbárie nunca
deixou de existir, mas ao longo do tempo vem tomando outros formatos.
Conforme
Voltaire, “A civilização não suprime a barbárie, aperfeiçoa-a.” Por
isso, agora a necessidade de reflexão se impõe quanto ao que nos levou a
permitir o implacável ciclo histórico de se restabelecer.
Estamos diante de ataques políticos virulentos
que suprimem rapidamente conquistas civilizatórias importantes, historicamente
conquistadas, que visam tirar da frente do “Todo Poderoso Capital” qualquer
obstáculo que atrapalhe sua incessante, egoísta e desumana escalada lucrativa.
Lucro este que se edifica rapidamente na destruição de direitos sociais e
econômicos da classe trabalhadora.
Ao mesmo
tempo, o sentido da liberdade é retorcido à lógica neoliberal da concorrência,
onde os reflexos mais significativos são sentidos na consciência dos
trabalhadores, no intuito de fragilizar as relações humanas e de classe. Dessa
forma, a inércia se faz instrumento pelo qual se estabelecem políticas
antidemocráticas das quais o Estado é o principal promotor.
O mesmo Estado
que outrora tinha o papel de dirimir as diferenças, na busca de uma mínima
harmonia social e que agora tem sua existência resumida a servir aos anseios do
que ditam os grandes grupos capitalistas.
“Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população”. (Sygmund Bauman)
O geógrafo Milton Santos já afirmara isso há pelo menos duas décadas atrás ao dizer que “As políticas que hoje são das grandes empresas, amanhã serão as políticas dos Estados.”
Diante da
velocidade com que se desmantelam a democracia e a dignidade, e cresce a
indiferença por pautas importantes para a qualidade de vida da população, é
inevitável uma visita à ideia de Auguste Rodin. Para ele, a civilização é em
suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava.
A titulo de
exemplo, no Brasil, alguns “traços” de democracia que levamos séculos para
construir, foram sobre solo movediço, passos incautos em direção às diferenças
abissais que fomentam a ignorância, a violência, as doenças e a fome. Esse é um
exemplo imediato, que se encontra mais próximo de nós, estamos na periferia do
sistema capitalista, somos o elo frágil desse imbricado sistema econômico e
social globalizado, porém não somos o único, o centro do sistema também vive
suas crises, e tenta de todas as formas, transferir seus problemas à parcela do
mundo invisibilizado.
Estamos diante de graves problemas que não
contam com antídotos de pronto efeito, oriundos de crises políticas, sociais e
econômicas, que exigem uma frente única de resistência, classista e
anticapitalista para reagir diante de tanto disparate a ser combatido, numa
perspectiva societária e emancipatória dos trabalhadores.
Uma reflexão rápida, contudo importante, é fundamental na construção desta sociedade. É sabermos que existem causas que nos unem, que são anseios comuns. Todos querem vida plena e feliz, e esse já é motivo suficiente para a luta por um projeto plenamente civilizatório.
A história das coisas é um filme dinâmico e objetivo, que fala dentre outros assuntos, sobre o consumo exagerado de bens materiais, e o impacto agressivo que esse consumo desregrado acaba exercendo sobre o meio ambiente. O filme é apresentado por Annie Leonard, e mostra de uma maneira bastante clara todo o processo que vai desde a extração da matéria, confecção do produto, venda e ideologia publicitária, facilidade de compra e falsa ideia de necessidade, até o momento em que vai parar nos galpões de lixo ou incineradores.
O diálogo inter-religioso é necessário para a construção de um ambiente de tolerância e respeito e uma cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.
Aconteceu, neste
último dia 16 de abril de 2019, o Primeiro Seminário Direitos Humanos e
religiosidade popular, no Auditório da IFFS (Instituto Federal da Fronteira
Sul), em Passo Fundo, RS.
O Seminário foi
organizado pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF), juntamente
com outras organizações apoiadoras. O Seminário foi organizado por estudantes
do Curso de Especialização Agentes Defensores de Direitos Humanos.
O encontro que
reuniu seis denominações religiosas teve a mediação dos debates com o professor
da UPF Frederico Santos. A apresentação dos trabalhos foi de Ipácio Carolino. O
evento contou com a presença das seguintes denominações religiosas: Centro
Espírita Dias da Cruz, Igreja Católica/ITEPA, Comunidade judaica de Passo
Fundo, Comunidade islâmica de Passo Fundo, Soto Zen Budismo Japonês, Igreja
Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e Religião de Matriz Africana.
Seguem alguns
registros do encontro que foi definido como um grande EXITO pela participação
expressiva de participantes e pela participação intensa e interessada das
diferentes religiões que se dispuseram a realizar um diálogo inter-religioso
que teve intuito tanto de reconhecer as diferenças como destacar os elementos
comuns das diferentes organizações religiosas.
O diálogo
inter-religioso é necessário para a construção de um ambiente de tolerância e
respeito e uma cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.
A iniciativa, inédita
em seu formato num ambiente acadêmico, deverá continuar inspirando a realização
de outras iniciativas que promovam o respeito e a liberdade de crenças e de
cultos no Brasil afora.
Reflexão do início dos trabalhos
A liberdade de crença é um dos direitos humanos mais
importantes. Constitui aquilo que ficou conhecido na história como uma das
liberdades fundamentais, uma expressão muito usada na declaração universal dos
direitos humanos.
Nenhuma sociedade pode se constituir e se afirmar sem o
respeito a essa liberdade, pois ela diz respeito a um dos elementos mais
profundos da subjetividade humana, é do modo de ser humano ter crenças. E essas
crenças podem ser filosóficas, ideológicas ou religiosas, podendo ganhar institucionalidade
ou não.
Na raiz de toda
religiosidade popular está este direito humano, que é uma condição fundamental
para que a dignidade humana. Este direito está na dimensão subjetiva,
simbólica, espiritual, que é tão importante quanto os direitos que dizem
respeito às dimensões materiais, de reprodução da vida, das condições
econômicas.
Falar de direitos humanos e religiosidade popular é colocar
na agenda a importância da liberdade de crença e, em consequência, a
responsabilidade com o respeito a todas as crenças, a todas as manifestações
religiosas, a todas as religiosidades, e também a todas as religiões, sobretudo
enquanto forem espaços de afirmação da dignidade humana.
Por outro lado, também é momento de fazer a denúncia
daquelas práticas que são intolerantes, que não respeitam esta liberdade, que
não conseguem conviver com a diversidade. Por isso, o Seminário Direitos
Dumanos e religiosidade popular quer ser um espaço para que se reflita sobre
esse direito fundamental à liberdade de crença e também para que se possa
construir estratégias para fazer frente àquelas práticas que são agressivas e
violam esse direito.
Reflexão de Gizele
Zanotto, professora e Coordenadora do Laboratório de Estudos das Crenças
(LEC-PPG/UPF)
“É uma honra e um
privilégio participar desse debate sobre Direitos Humanos e Religiosidade
Popular. Mais do que parabenizar os organizadores, os agradeço pela ousadia do
empreendimento – sempre necessário e talvez no contexto atual ainda mais
urgente. Como cidadã, me sinto beneficiada pela oportunidade de aprender sobre
formas de crer e de viver o religioso.
Religiões são culturas e a valorização
cultural por si só é um direito, alçado à elemento constitucional com a defesa
da cidadania cultural, do respeito à diversidade, consagrados em nossa Carta
Magna de 1988.
Quando nos
referimos a religiosidade popular, estamos designando opções, disposições e
tendências religiosas de quaisquer religiões. Para além das ortodoxias
defendidas pelas entidades, associações, movimentos e grupos religiosos, há um
intenso processo de criação, composição e articulação que é próprio da ação
humana em busca de elementos do sagrado que lhe façam sentido, que lhe
respondam à anseios e demandas do cotidiano. Essas recomposições – criadoras e
criativas – evidenciam a agência humana na formatação do seu crer, seja
individual ou coletivo.
Religiões e religiosidades são fenômenos
transversais, que se imbricam, complementam e retroalimentam cotidianamente.
Tais recriações nos são direitos.
Tais direitos
constitucionais, articulados aos direitos humanos, definem nossa possibilidade
e dever de respeitar o outro em sua singularidade, diversidade e humanidade.
São universais, inalienáveis, indivisíveis; são todos de igual importância. Como
direitos – também vinculados a deveres que lhes são correlatos – deveriam ser
seguidos. Todavia, cá estamos nós ainda debatendo situações em que o direito ao
crer e ao praticar suas crenças sofre sanções, silenciamentos, desvalorização e
mesmo restrição, censura e violações.
O que esperamos com
esse debate, certamente enriquecedor a todos os presentes, é que consolidemos
sempre mais nosso direito ao crer, articulado ao dever de cidadania e respeito
à diferença”.
A economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.
O pensamento econômico convencional insiste em medir níveis de pobreza tão somente a partir da insuficiência de renda. Por esse critério, o Banco Mundial constatou em 2012 que 12,7% da população mundial (903 milhões de pessoas), que recebia menos de US$ 1,90 ao dia (considerando a paridade do poder aquisitivo) eram considerados pobres, vivendo, portanto, abaixo dessa “linha”.
A questão central é
que o correto conceito de pobreza não pode se limitar a insuficiência de renda,
mas necessariamente tem que abarcar outras tantas privações que mancham as
abjetas condições de vida dos mais necessitados, dentre essas a falta de
saneamento básico, vale dizer, a convivência direta e diária com esgoto a céu
aberto.
Pior é que não há, aos olhos da economia
tradicional, pelo menos a contento, uma correlação entre as privações de renda
e de higiene. Diante disso, o convencionalismo econômico “prioriza”
medidas de combate à insuficiência de renda, usando para tanto políticas de
estímulo ao crescimento físico da economia, enquanto fecha os olhos para o
gravíssimo problema da falta de saneamento básico.
Não por acaso, no
mundo, mais de 38% das pessoas sofrem com a falta de higiene básica. Tomando
apenas os 48 países considerados “menos desenvolvidos” descobre-se
que 65,5% das pessoas ali residentes desconhecem as noções centrais de um
ambiente favorável em termos de saneamento básico.
No ranking mundial
do saneamento, o Brasil ocupa a vexatória 112° posição, com mais da metade de
sua população (estima-se em 118 milhões de pessoas) sem acesso a tratamento de
esgoto. Somente a região Norte tem 90% dos brasileiros vivendo sem serviços de
saneamento básico.
Daí decorre outro
inquietante problema: ao expor especialmente as crianças em contato direto com
esgoto a céu aberto, consequentemente com vírus e bactérias, aumenta-se
sobremaneira a incidência de doenças como febre tifoide, cólera, leptospirose e
parasitose.
Não é de hoje que
estudos médicos mostram claras evidências que, recorrente infecção parasitária
na primeira infância (de 0 a 7 anos), por exemplo, reduz sensivelmente a
capacidade de raciocínio, comprometendo para sempre a inteligência e o
desenvolvimento corporal dos futuros adultos.
De igual modo, um
recém-nascido, cuja mãe, durante toda a gestação, esteve exposta a um ambiente
sem coleta e tratamento de esgoto, vai sentir muito mais a exposição a essas
substâncias e, certamente, poderá ter má formação cardíaca, sofrer de
deficiência hepática, além de apresentar problemas de ordem imunológica.
Ademais, a comum
diarreia que acomete crianças expostas ao contato direto com esgoto a céu
aberto “suga” do cérebro as calorias necessárias a seu
desenvolvimento. Relacionado a isso, não se pode perder de vista que o cérebro
é o órgão do corpo humano que mais consome energia. Num recém-nascido esse
“consumo” é de 87%; com cinco anos cai para 44%, aos dez chega em
34%, e, num adulto, consome 20%.
Desnecessário
afirmar que essa energia é vital para manter as células cerebrais saudáveis e
alimentar impulsos nervosos. Ora, é evidente que isso afeta todo o sistema
neurológico, ou seja, o sistema nervoso central e periférico de uma criança,
comprometendo-a em suas funções futuras.
Nesses casos, o
cérebro pode até desenvolver o tamanho correto, mas a capacidade de fazer
sinapses, ou seja, de conectar ligações nervosas estará pois completamente
prejudicada.
A ciência mostra
que 90% das sinapses se formam até os 7 anos de vida, atingindo a maturação e a
complexidade de uma rede neuronal aos 18 anos. Logo, essas faixas de idade –
0 a 7, e de 8 a 18 – determinam a capacidade e a personalidade do
indivíduo.
Uma criança que nasce e vive, especialmente
em seus primeiros anos vida em ambientes expostos a péssimas condições de
saneamento, convivendo com todo tipo de contaminação ali decorrente, sofrerá
considerável déficit de aprendizado intelectual pelo resto de sua vida.
Pois bem. Aonde se
relaciona a questão do crescimento econômico com esses fatos? Simples:
enquanto o tradicional pensamento econômico não se desgarrar da noção
fartamente difundida de que a pobreza não deve ser vista apenas pela
insuficiência de renda, e, por isso, enveredar esforços no crescimento da
economia para tão somente “tentar” aumentar a renda geral,
perpetuaremos o gravíssimo problema da falta de saneamento básico, condição
essa posta em plano secundário diante da “necessidade” de promover o
famigerado aumento da renda.
Num tempo em que o
desenvolvimento tecnológico avança celeremente no intuito de facilitar a
construção de mundo mais pacífico e menos desigual, parece não haver paradoxo
mais tosco e aberrante que presenciar incomensurável contingente populacional
vivendo em desumanas condições de vida, expostas ao convívio diário com esgotos
a céu aberto.
No entanto, a
economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o
serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é
então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão
maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.
Posto isto, cabe indagar: até quando tal desproporção será aceitável?
Numa experiência inédita na cidade de Passo Fundo, pelo
quarto ano consecutivo, alunos e alunas do nono ano da Escola Municipal de
Ensino Fundamental Zeferino de Costi (ZDC), organizados por seu professor de
Ensino Religioso, realizam visitas de conhecimento à Catedral (referência dos
cristãos católicos), Sinagoga (referência dos irmãos judeus), Mesquita
(referência dos irmãos muçulmanos) e Centro Espírita Dias da Cruz (referência
dos irmãos espíritas).
O objetivo da atividade é complementar e ampliar os conhecimentos
das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e
as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O
conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e
compreensível em livros, vídeos ou na internet.
O conhecimento das estruturas religiosas e a conversa breve
de 30 minutos com diferentes líderes religiosos numa única tarde, ajuda a
desmistificar os valores e as crenças das religiões, como também ajuda os
adolescentes e jovens a desconstruir preconceitos e construir novos conceitos
sobre as mesmas.
Conhecer, conversar, ver, tocar, sentar, observar e trocar
informações e impressões faz com que esta atividade se torne tão única e tão
rica em aprendizagens.
Publicaremos, a seguir, depoimentos dos religiosos que
atendem estas visitas de conhecimento, alguns depoimentos de alunos
participantes e também breve avaliação de professores da rede municipal que já
acompanharam esta atividade.
Religiosos
Berel Natan Engelman, líder religioso da Sinagoga dos judeus em Passo Fundo
“A experiência vivida certamente é muito positiva para ambos os lados, mas ter convivido esses momentos seguidos de várias perguntas formuladas pelos alunos, só vem reforçar o que nós, como entidade religiosa, pensamos em relação à proximidade com outras pessoas de culto e fé diferente da nossa. Parabenizo pela iniciativa das visitações junto aos locais sagrados, tendo a certeza que esta juventude crescerá com mais informações, sabendo respeitar as culturas diversas existentes em nosso país. Parabéns e Shalom!
Padre Ari dos Reis, Catedral Arquidiocese de Passo Fundo
“Considero muito significativa a oportunidade dos alunos visitarem os espaços sagrados das diferentes tradições religiosas. Foi uma alegria poder partilhar alguma coisa da história da Igreja Catedral para o grupo. Ao mesmo tempo, permite revisitarmos a história da construção da Catedral, partilhando dos elementos fundamentais do rito católico romano. Acredito que esta partilha também aconteceu com outros grupos e isto ajuda aos adolescentes a serem mais respeitosos das diferentes denominações religiosas. Sempre a disposição”.
Paulo Eberhardt, Centro Espírita Dias da Cruz
“As visitas e palestras sobre Espiritismo contribuem para a correta compreensão do Espiritismo. Quando realizamos um evento doutrinário ao público em geral, consideramos muito mais a oportunidade de levarmos os ensinos do Evangelho de Jesus, em sua pureza, desataviado, fazendo com que cada um compreenda os objetivos Divinos de sua existência, procurando dar um sentido a vida e também preparando para o inevitável, a seu retorno à pátria Espiritual, bem como o de seus entes queridos. Os adolescentes e jovens tem muito a aprender com o Espiritismo”.
Raduan Jehani, comunidade muçulmana em Passo Fundo
“Ficamos muito felizes ao receber adolescentes e jovens em nossa Mesquita. Assim, podem conhecer o islamismo como ele é, não como ele é apresentado pela grande mídia e pela internet. Nossa mesquita está sempre aberta, temos uma pequena biblioteca que pode auxiliar, e podemos explicar e atender a grupos de estudantes quando alguém ou alguma escola solicitar”.
Estudantes
Pedro Henrique Padilha
“Achei muito interessante os templos, mas o que mais me chamou a atenção foi a sinagoga, pois pensava que era uma coisa e era outra totalmente diferente. Achei muito legal o passeio e o tempo que passamos conhecendo os templo, mudei totalmente minha ideia de algumas religiões”.
Gabrielly Almeida
“Descobrimos durante as visitas que uma religião pode ser diferente do que as pessoas que estão por fora delas falam. Às vezes, tudo o que precisamos é de mais sabedoria, porque assim é que criamos o respeito. Se houver respeito, há esperança de paz”.
Júlia Eduarda Meneghini
“As visitas e palestras são uma ótima forma de nos trazer conhecimentos sobre religiões diversas. Este passeio foi muito importante para estudarmos mais a fundo as religiões, para entendermos sua história e suas crenças, tirarmos nossas dúvidas e também para deixarmos o preconceito de lado e termos mais respeito com todas as religiões”.
Ana Laura Freddi
“Gostei da ideia, pois somos jovens e podemos conhecer as religiões sem saber a verdade e só a partir do que os outros falam. Então, depois dessa visita, podemos ter mais respeito. Quero agradecer aos envolvidos que nos oportunizaram esta novidade. Esse passeio foi uma experiência incrível”. Obrigado!
Professoras que acompanharam a visita
Graziela Bergonsi Tussi, professora de Geografia
“Trabalhamos praticamente concomitante os aspectos do fundamentalismo religioso, mas com focos diferentes. Vejo essa atividade muito positiva para compreensão das temáticas trabalhadas na disciplina de Geografia. O nono ano está trabalhando conflitos mundiais e alguns deles são justificados pelos fundamentalistas como sendo necessários, por serem em ‘nome de Deus’. Esses esclarecimentos que são feitos na disciplina de Ensino Religioso, levando os alunos até seus templos, os ajuda a desmistificar o esteriótipo de muçulmanos terroristas, por exemplo. Entender essa pluralidade religiosa e aprender a respeitá-la fará com que eles levem essa cultura para sua vida adulta, e esse é nosso papel, como educadores”.
Vanilde Bordignon, professora Educação Física
“Não só falar, mas também oferecer a oportunidade de vivenciar e sentir na prática é muito importante para os jovens, pois assim agregam mais conhecimentos. Trazer o respeito e a união como forma de aproximação entre as religiões é de extrema importância para que alcancemos a paz e pessoas melhores, mais humanizadas”.
Luce Segat, professora de matemática
“Vejo o trabalho que o colega Nei Alberto Pies realiza com os adolescentes do nono ano do EF de extrema importância. Neste momento da vida humana chamada adolescência, é essencial para a definição social, psicológica e religiosa que irá interferir na construção da atuação individual e coletiva dos nossos alunos adolescentes. O que o professor Nei faz é dar aos alunos a oportunidade de entender da maneira correta, no meu ver, as diferenças entre conceitos de crenças religiosas. De uma maneira agradável, até mesmo festiva, os alunos conhecem pessoas que vivem e valorizam as suas crenças. Além de ouvir, podem tirar dúvidas, curiosidades, preenchem lacunas. Compreendem que religião significa “religar” o ser humano a alguma crença. Não interessa a crença, e, sim, o seu Deus. Maravilhoso trabalho que já pude acompanhar pessoalmente”.
Para concluir…
Esta atividade de visita de
conhecimentos aos templos sagrados de diferentes religiões é um diferencial
pedagógico na abordagem do conhecimento das diferentes religiões.
Na escola, tem gerado
importante expectativas entre os alunos, entre os professores e em toda
comunidade escolar. Depois de quatro anos, pais e mães já entendem, com maior
facilidade, o objetivo da atividade.
Percebe-se um interesse cada
vez maior dos alunos em conhecer lugares sagrados. Os alunos do nono ano deste
ano de 2019, desta escola, estão organizando também uma visita ao Templo
Budista de Três Coroas, no RS.
Os representantes das
religiões visitadas tornam-se cada vez mais receptivos, o que qualifica as
visitas desde a recepção até os conhecimentos que são repassados aos alunos num
tempo curto de meia hora. Quando necessário, os representantes das religiões
são ainda convidados para uma palestra na escola.
A intenção desta publicação é
despertar em outros professores e professoras que trabalham o Ensino Religioso
a aplicação desta metodologia de trabalho.