Nós, os adultos, temos que pedir desculpas por apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor, o presente é feio e o futuro é catastrófico.
Confesso
que não gostaria de ser adolescente, mesmo sabendo que estaria em meu pleno
vigor, com muitos anos pela frente para realizar sonhos. Ter 71 anos me parece
ser mais fácil do que ter 15, 16, 17 ou 18 anos.
Ouço muitos comentários por parte de pais e professores, assisto às notícias, leio jornais e chego à conclusão de que nossos jovens estão sendo extremamente prejudicados, pois lhes negamos seu passado, seu presente e seu futuro.
Fazemos isso quando lhes falamos que nossa infância foi muito melhor, pois andamos de carrinho de lomba, brincamos livremente pela rua, exploramos mato, rios e mares. Não nos furtamos em emitir nossas opiniões acerca da infância deles, reprovando o videogame, os sites de relacionamento, as conversas no Messenger, as postagens no instagran e em outras redes sociais.
As redes sociais mais utilizadas por jovens em 2019.
Quando
o assunto é música, então, a coisa fica pior. Nossas músicas tinham mais graça,
dançava-se junto, o ritmo e a letra eram coisa que presta. Abominamos o fato de
terem trocado o dançar junto pelo ficar junto; por terem trocado caderno
questionário com uma pergunta por página – horror das mães – pelo Orkut, depois
pelo faceboock, instagran e outras redes sociais. Tudo o que fazíamos era muito
melhor do que eles fazem, veja só!
Quanto ao presente, não aceitamos que eles consigam aprender em meio ao barulho, que façam muitas coisas ao mesmo tempo e com uma rapidez incrível. Queremos que eles aprendam de bom grado, sentadinhos por horas, em silêncio, bebendo da sabedoria dos professores.
Eles teimam em aprender do seu jeito, teimam
em questionar os comandos e não conseguem obedecer sem que tenhamos que dar mil
explicações antes.
Com relação ao futuro, mostramos um mundo que desmontamos, no qual promovemos guerras mundiais, territoriais, religiosas. Cometemos genocídios, mostramos pedófilos, terroristas, queimadas, num festival de tolices feitas por poderosos adultos. Nós somos adultos genocidas, suicidas e cheios de razão, questionamos meninos e meninas que, vendo todo esse descalabro, tratam de viver intensamente o momento presente, por ser impossível vislumbrar um futuro viável.
Não seria mais sábio se olhássemos para nossos adolescentes e tirássemos lições do que estamos lhes causando?
Sabe-se
que o comportamento irreverente da juventude é uma característica e uma marca
da própria condição adolescente e infantil; sabe-se que há um modo novo de
aprender que ainda não entendemos, mas existe para quem tem olhos de ver.
Sabe-se que nossa autoridade está sendo questionada, também por causa das
bobagens que fazemos, envolvendo-nos em escândalos de corrupção, em falcatruas
amplamente noticiadas pela mídia, pela falta de ética nas nossas atitudes.
Por que ser ético?
Agora, como diriam nossos filhos: Fala sério!
É possível ter uma adolescência saudável, se tudo o que se faz está errado? É
possível projetar uma vida longa se tudo o que é mostrado está desmoronando? É
possível confiar em adultos que exigem que se viva hoje como se viveu ontem?
Conhecimento sobre as novas gírias usadas pelos jovens neste momento histórico.Veja mais aqui.
Nós, os adultos, temos que pedir desculpas por
apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor, o presente é feio e o futuro
é catastrófico. Melhor seria se mostrássemos a caminhada da maioria que é
honesta, trabalhadora, empenhada em melhorar a vida das crianças, dos jovens,
dos velhos.
Melhor
seria se compreendêssemos que vivemos uma nova era, na qual a família tem um
novo papel, que é o de cuidar melhor, que é também o de promover a autonomia
dos filhos, sem desqualificá-los, ajudando-os a ver o mundo em permanente
evolução, sem saudade de tempos em que éramos comandados de todas as formas,
tanto em casa quanto nas ditaduras que sofremos.
A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.
Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma
das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros”
deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência.
Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.
Mas todos nós
sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as
mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas
à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.
Nem direita, nem esquerda. Como?
A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.
Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de
reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.
A questão é que
Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo
brasileiro. Ela se afirma como um modelo.
O modelo Tabata vai
estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos
com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.
As Câmaras de Vereadores estarão lotadas de
Tabatas. Muitas assembléias estaduais já têm gente com essa pegada, todos
financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.
O que vem aí com
força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não
existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e
outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária
diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.
Por isso, na
votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal.
Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.
A Folha traz uma
matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É
gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos de direita e inclusive
nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza
nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.
Matéria da Folha de São Paulo ilustra esta concepção de renovação na política.Veja mais aqui.
Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.
É gente com muito
apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que
aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há
como enfrentá-los.
E a esquerda? A
esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.
Pela soberba participamos do diabólico! Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.
A soberba é o pecado contra a
humildade. A humildade é uma virtude. A soberba é um vício.
A virtude da humildade é o
reconhecimento da própria verdade, nem mais nem menos. A humildade não é
desprezo de si. O desprezo de si é uma maldade e uma injustiça contra a
autoestima.
A humildade é uma virtude de
justa medida entre a soberba arrogante e o desprezo de si. A soberba, por sua
vez, é achar-se maior do que se é. Se o desprezo de si é uma falsa humildade,
um tornar-se menos do que se é, o pecado da soberba é o exagero e a inflação de
si, é um excesso do eu, um pecado por inflação do ego.
A soberba é um outro nome para a
vaidade e o orgulho. O soberbo se acha melhor do que é e melhor de todos os
outros. O soberbo “se acha”! Por “se achar” deixa de considerar os outros como
iguais, alimentando uma falsa superioridade, enganosa e danosa, pois, em se
tendo “numa conta excessiva”, pensa ser mais do que é e, por conta disso, deixa
de procurar ser melhor, achando que já é “o melhor”. O efeito espiritual e
moral dessa atitude viciosa é devastador. Aliás, tudo o que afronta a reta
razão e a verdade, é devastador. E o soberbo afronta a razão e a verdade ao
pretender ser o que não é.
A soberba é o pecado do excesso
do eu. A soberba é a mãe de todos os pecados pois alimenta uma vaidade em
demasia e um senso exagerado da própria importância. É a mãe de todos os
pecados porque o seu portador se acha, infla o peito e está sempre pronto a
dizer, em alto e bom som: “sabe com quem você está falando?” É o pecado da arrogância
e o arrogante não se sente confortável a não ser como um “pequeno deus”. É o
pecado de Adão e Eva. O pecado de Adão é cair na tentação de querer ser igual a
Deus e não aceitar a condição humana.
Ser humano significa aceitar-se como “aquele que veio do húmus”. A
humildade nada mais é do que saber-se de origem do húmus. Húmus, humano,
humilde são da mesma família ontológica e etimológica. O soberbo pensa que pode
se bastar, quando na verdade o bastar-se é a coisa mais estranha ao humano,
vulneráveis, dependentes e frágeis que somos.
O mais prejudicado no pecado da
soberba é o próprio soberbo pelo efeito devastador na sua alma, mas não só. O
efeito da soberba recai também sobre os outros, inferiorizando-os,
diminuindo-os e desprezando-os.
A bem da verdade, na soberba, o
ciclo do pecado se fecha porquanto o seu portador, ao transgredir a lei eterna
de Deus, acaba causando danos a si e aos outros. Pecar contra Deus, contra si e
contra os outros. Eis aí a tríade da essência do pecado.
Mas tem mais. No caso do humano
em geral, caímos na tentação da soberba sempre que nos achamos superiores aos
outros seres e por isso o efeito devastador, hoje mais do que evidente, desse
pecado, sobre a natureza e os animais.
Quanto mal praticado pela atitude soberba de nos acharmos a “cereja do
bolo da criação”, diminuindo todos os outros seres, submetendo-os ao nosso
domínio! Quanto mal!
Os vícios ou pecados capitais
trabalham juntos, subordinados a um principal, a soberba. Caberia aqui pensar
na ideia de que todos os males estão submetidos ao príncipe do mal, o diabo, e
o diabo é diabo não só por ser velho, mas, sobretudo, por ser soberbo. Ele, o
tinhoso, simplesmente não aceitou não ser deus e se rebelou, contra Deus, por
soberba.
O diabo não se tornou diabo pelo pecado da luxúria, da gula, da avareza
ou da preguiça. Não. O diabo, um anjo decaído, decaiu pela soberba de querer
ser deus. Pela soberba participamos do diabólico! Essa é uma lição metafísica
que dá o que pensar.
Pensar, ao lado de amar, são as
duas formas humanas mais elevadas para não decairmos banalmente no pecado e no
mal. Pensar e amar! Amar e pensar!
Gilmar Zampieri mantém um blogonde publica suas reflexões, na ideia de que não se percam e possam estar reunidas. É autor de outras 20 reflexões interessantes no site. Acesse clicando aqui.
Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras, sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas, mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que obrigatório nos templos destas religiões.
Gosto de observar a relação que o
ser humano tem com o sagrado. São crenças diversas, milhares de fés diferentes,
que unem pessoas em torno de sentimentos de amor.
Enquanto algumas pregam a
caridade e o amor ao próximo, outras defendem a relação direta com a figura que
acreditam ser a representação do divino, seguir algumas regras pré-determinadas
e isso basta.
Apesar de não ser grande devota
ou frequentadora de qualquer religião, minha admiração pela resistência dos
povos africanos me fez pesquisar a temática. Discorri sobre a
representatividade da mulher no espaço do terreiro de umbanda e neste processo
de observação e aprendizado pude presenciar a dedicação destas pessoas não
somente à sua ritualística, como também para o bem-estar da humanidade como um
todo, refletida no atendimento prestado a qualquer pessoa que se faça presente
na celebração e no envolvimento destes religiosos em campanhas de
solidariedade.
Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras,
sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas,
mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que
obrigatório nos templos destas religiões. Mesmo com estruturas por vezes grandiosas,
a essência ainda é a da benzedeira que tem um galho de erva e o coração cheio
de amor.
Amor esse que parece incomodar os
corações cheios de ódio e preconceito. Em cinco anos, as denúncias de
discriminação por motivo religioso cresceram 4960%.
Conforme dados publicados no Relatório
de Intolerância e Violência Religiosa, da Secretaria Especial de Direitos
Humanos entre os anos de 2011 e 2015, 27% das denúncias feitas nas ouvidorias
eram de pessoas da religião de matrizes africana, diante de somente 16% de
evangélicos, 8% de católicos e a 7% de espíritas. Todavia, quando se trata da religião dos
agressores, os dados apontam que 17% eram evangélicos, diante de 3% católicos.
Como praticantes da intolerância
os religiosos de matriz africana ficam juntos aos Testemunhas de Jeová e
Espíritas, com índice de 1%. Em 73% dos casos não foram registradas informações
sobre a religião do agressor.
Racismo religioso: saiba o que é.
Conforme dados do Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que recebe denúncias de discriminação e violação de direitos, foram registradas 213 notificações de intolerância religiosa a matrizes africanas, de janeiro a novembro de 2018. Os dados são 47% maiores que os registrados no ano anterior.
São agressões verbais, agressões
físicas, pichações em casas de culto e até “guerra sonora” (quando os vizinhos
utilizam o som em alto volume para que os religiosos não consigam dar andamento
na cerimônia).
Há ainda a perseguição e morte de
líderes religiosos de matriz africana, em diversos pontos do país. Em diversas
periferias, traficantes ligados às religiões neopentecostais destroem
terreiros, imagens e histórias “em nome do senhor”.
Uma violência presente e por
vezes invisibilidade pelo tabu que os desconhecedores destas religiões replicam
em suas piadinhas carregadas de preconceito.
Ainda que o artigo quinto da
Constituição Federal de 88 diga que o brasileiro tem direito ao “livre
exercício de cultos religiosos e tendo garantida a proteção aos seus locais de
culto e às suas liturgias” poucas são as ações, em especial por parte dos
estados, para diminuir os índices (que devem ser muito maiores, já que muitas
pessoas não denunciam por saber que dificilmente se busque uma solução para a
questão).
Mesmo com penas previstas no
Código Penal para crimes de intolerância religiosa que incluem multa ou detenção,
de um mês a um ano podendo aumentar em um terço caso se registre algum ato de
violência, os povos que cultuam as religiões de matriz africana seguem batendo
seu tambor com orgulho, buscando respeito, mas com medo que o seu terreiro seja
o próximo a ser perseguido.
Saravá!
Ipácio Carolino e Tânia Mara Duda são parceiros na divulgação do conhecimento das religiões de matriz africana e Umbanda fazendo-se presentes em escolas da rede municipal de Passo Fundo, quando são convidados. O conhecimento das práticas e dos fundamentos permite aos jovens estudantes dos nonos anos do Ensino Fundamental atitudes de maior respeito e consideração às religiões de matriz africana.
O argumento de que fins justificam os meios não pode prosperar numa sociedade desenvolvida. Quando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.
Uma verdadeira legislação beligerante foi introduzida no sistema de justiça criminal brasileiro pela Operação Lava-Jato, promovida por uma força
tarefa de treze
Procuradores da República e
processada pelo então Juiz Federal Sérgio Moro.
Juristas nacionais e
estrangeiros denunciaram, desde o início da operação, a existência de uma vertiginosa policialização
da justiça penal, mediante aplicação sistemática
de uma lei de combate aos “novos
inimigos internos”.
Assim, a Lava-Jato,
cancelou garantias jurídicas e
políticas constitucionais, destruiu a economia nacional, quebrou centenas de
empresas, lançou milhões de trabalhadores
no desemprego, no desespero e na fome, não só no Brasil, mas em vários
países da América Latina.
Depois de sucessivas derrotas
eleitorais, nossas elites conservadoras lançaram mão de uma estratégia,
fundada numa legislação de guerra
garantida pelo crime de obstrução da justiça, para
reconquistar a Presidência da República.
O cenário
de lutas políticas deslocou-se
das praças públicas para o
espaço judicial monocrático da Vara Federal Criminal do juiz Sérgio
Moro.Com ele, verificou-se a potencialização da partidarização ostensiva da
Operação Lava-Jato.
Sob verdadeira
compulsão psíquica de uma obsessão punitiva marcada pelo abuso do poder de
processar e prender ( para confessar e delatar ), a Lava-Jato desencadeou uma radical perseguição penal
contra Lula, a maior liderança
política da história da República.
Nesse processo
inquisitorial a hipótese prevaleceu sobre os fatos no processo penal. Os dados da
realidade foram subordinados às crenças
pessoais de acusadores e julgadores,
movidos por um verdadeiro messianismo, onde não faltaram arroubos de fé.
O MPF não teve pruridos em alardear que não tinha prova dos fatos imputados, mas tinha convicção dos mesmos.Uau!! Sérgio Moro e os Procuradores foram vistos
como “justiceiros sagrados” e ganharam
o status
de heróis.
Agora, com a gradual revelação dos diálogos dos “justiceiros”,
pelo jornalista Glenn Greenwald, fica
patente como Sérgio Moro exorbitou em suas funções
de juiz, comandando as ações na
Lava-Jato.
O Ministério Público cumpria à
risca as ordens de Moro. Ele era
a figura chave nas investigações, deixando de lado a imparcialidade
que se exige de um magistrado.
A pedra angular do
estado de direito foi desrespeitada. Moro, declaradamente, ajudou um dos lados do
processo a fortalecer-se. Ele e os Procuradores deram um mau exemplo, rompendo as
fronteiras da legalidade. Ninguém,
ninguém está acima do que reza o
regime constitucional.
O argumento de que os fins
justificam os meios não pode
prosperar numa sociedade desenvolvida. Quando
o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz. Positivamente, não é assim que se
combate a corrupção.
O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade, aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório cultural e estético.
Adaptados
nesta nova realidade, na qual tudo é feito e resolvido através de recursos
online e as relações são baseadas em aplicativos, não paramos para pensar nem
apreciar o suficiente sobre arte.
Pode-se
dizer que na arte existem inúmeros pontos não resolvidos, uma vez que não há
uma definição clara sobre sua composição, o que torna o fazer arte uma tarefa angustiante.
Mas toda atividade humana tem seu momento de angústia e, como dizem, “o antagônico
da angústia é o sucesso e a vitória”.
Tenho angústias como todos nós seres
humanos e elas ocorrem muitas vezes diante de possíveis indagações a respeito
dos meus critérios no instante de fazer aquilo que se chama criação artística.
Fernando
Pessoa considera que a criação artística implica na concepção de novas relações
significativas, graças à distanciação que faz do real. O poeta parte da
realidade, mas distancia-se, graças à interação entre a razão e a
sensibilidade, para elaborar mentalmente a obra de arte.
Na criação da
arte, é fundamental haver liberdade e sensibilidade. Como artista plástica, não
uso raciocínio lógico na criação, me perco nas linhas, nas curvas que se
encontram e alteram significados, que compõem imagens, figuras incomuns e que são
constituídas pelas cores e pela ausência delas. Eu crio com liberdade e emoção,
pinto aquilo que me emociona, que me é significativo e sobre tudo que me apraz.
Geralmente abordo questões do feminino porque, como já dizia Frida Kalho, “é
o assunto que conheço melhor”.
Em trabalhos
passados abordei a dor emocional, a força e resiliência das inúmeras mulheres
que apesar de despedaçadas encontram coragem para se reestruturarem e colocam toda
sua energia na tarefa de criar seus filhos, com delicadeza e sorriso no rosto.
Há quatro anos
me debrucei sobre os movimentos do corpo, algo tão simples que fazemos todos os
dias sem pensar, sem refletir, sem dar a devida importância para essa engrenagem
genial que é o nosso corpo.
Devo confessar
que só parei para contemplar esse fenômeno do corpo em movimento quando meu pai
sofreu um AVC e teve todo o seu lado esquerdo do corpo paralisado. Sem um corpo
completo coisas simples como comer, ir ao banheiro e beber agua passam a ser
movimentos extremamente difíceis.
No último ano,
voltei as minhas origens e me encontrei fascinada pelo Sagrado Feminino, em
minhas leituras percebi que na mitologia de muitos povos a mulher tem papel
fundamental através de uma Deusa-Mãe, representada
como a deusa geradora da vida, da natureza, das águas, da
fertilidade e cultura.
Na maioria
das civilizações pagãs as deusas são as criadoras do Universo, conhecidas como qadesh (sagrado),
elas são apresentadas como responsáveis por gerarem vidas, culturas, a linguagem e
a escrita. Na mitologia grega a Deusa-Mãe ou Mãe-Terra é personificada
como Deusa Gaia, a primordial geradora de todos os deuses, um
dos primeiros elementos que surgiu no despontar da criação, junto com o ar, o mar
e o céu.
Como professora
não desvinculo o meu fazer artístico do meu dever de ensinar, por isso me
encontro novamente angustiada. Para ensinar Arte é preciso ensinar a ler textos sem palavras, explorar fotografias, pinturas, ilustrações e charges, é preciso saber a
gramática própria que rege a linguagem visual e contextualizar as condições de
produção de cada obra estudada.
Assim como os grafites nas ruas, os comerciais da TV, as pinturas em
livros e as obras de arte são formados por sinais, por elementos que formam a
linguagem visual que precisam ser decodificados, lidos, para serem
compreendidos. Expressões artísticas com características próprias precisam ser
dialogadas com as turmas para que sejam realmente lidas e não “adivinhadas”.
Hipóteses sobre o significado:
A composição
é abstrata ou figurativa?
O espaço é bidimensional, tridimensional ou
plano?
Existem linhas na imagem?
De que tipo:
retas ou curvas, finas ou grossas?
A opção por um tipo de cor (quente, fria,
clara, escura) está ligada ao horário do dia ou estação do ano?
E quanto às texturas: alguma camada passa a
sensação de maciez, dureza, lisura ou aspereza?
O trabalho é complementado com a análise de
outros elementos formais da linguagem visual – formas, luminosidade, técnicas,
gênero (retrato, paisagem, natureza-morta) e estilo a que a obra pertence.
Somados aos textos
verbais, essas linguagens ajudam os alunos a interagir com o mundo e a se
expressar melhor. “Colocar os
alunos para produzir com os conhecimentos adequados das obras artísticas,
surgem atividades de contextualização”.
As atividades
artísticas são na verdade o contato mais direto do aluno com a arte, pois são
inúmeras possibilidades de experimentações das linguagens artísticas como o
desenho, a pintura, a escultura, o teatro e a musica, e compete à
arte-educadores uma reflexão mais intensa em relação à aprendizagem de arte nas
escolas, embasada nos procedimentos artísticos.
O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois
amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade,
aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório
cultural e estético.
O que é mais
significativo do processo de aprendizagem é o momento em que o aluno, com
autonomia, começa a admirar o trabalho artístico, interpretando e
identificando suas características. O
aluno também passa a consumir arte de forma natural, seja através de filmes,
vídeos, música, internet ou até mesmo ao observar a arte ao seu redor no
cotidiano.
Autora: Clea Batezzini, professora e artista plástica.
Por onde devemos começar mudança na educação? Pelos empresários da alta tecnologia? Pelos doutores em seus sofisticados laboratórios?
Sentimento Oceânico é apresentado por Freud como
impressão de vínculo e comunhão com o mundo, sendo para ele, uma ilusão ou
utopia. Tenho participado de diversas conferências e debates sobre como
melhorar a Educação Básica brasileira.
Nos eventos mais qualificados e com embasamento
científico e político, os temas são redundantes: versam sobre a importância de
formular políticas públicas educacionais de estado, não de governo, por meio de
um Sistema Nacional de Educação.
Frequentemente, são citados excelentes exemplos de alto impacto em
aprendizado dentro do próprio Brasil, por regimes de colaboração entre redes
municipais e estaduais de educação. Também é comum ser apontado que, no século
21, precisamos potencializar as habilidades cognitivas e socioemocionais dos
estudantes.
Porém, o tema mais debatido nessa área é a urgência
de uma nova lógica na formação de professores. É unânime, entre os mais
renomados especialistas, que a formação inicial dos nossos professores está
obsoleta, utiliza métodos, tecnologia e, principalmente, um modelo mental
ultrapassado, embasado no século 19, quando o mundo era baseado na escassez.
Partindo do princípio que nenhum de nós está preparado para os desafios
da indústria 4.0, para a enchente de informação e o uso massivo de tecnologias
exponenciais, que já estão mudando radicalmente a nossa vida, por onde devemos
começar esta mudança? Pelos empresários da alta tecnologia? Pelos doutores em
seus sofisticados laboratórios?
Hoje, tenho a mais clara certeza: devemos iniciar pelos nossos
professores da Educação Básica. Não empurrar o problema para eles, e, sim,
investir nossos melhores talentos da ciência e todo recurso disponível, para
oferecer a eles a melhor formação, as melhores condições e o mais alto status
social: de forjadores de nação.
Sentimento” é uma palavra aberta – nela cabe toda a massa difusa de nossa subjetividade. “Oceânico” é um adjetivo emprestado do substantivo “oceano”. O oceano é a imensidão líquida que envolve 71% do nosso planeta. Vasto e grandioso, abriga em seu ventre os segredos de uma biodiversidade escondida de nós, que, enquanto seres terrestres, vivemos à margem do principal componente da superfície da Terra. (Gabriela Richiniti)
Num cenário intensa desconfiança em relação aos professores, chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro a educação domiciliar significa colocar mais lenha na fogueira desse conflito, produzindo também uma cortina de fumaça para a segurança do direito à educação.
A discussão sobre educação domiciliar (“homeshoolling”) é bastante ampla, porém a defesa dessa ideia no Brasil tem ocorrido de forma limitada.
Avalia-se a escola pelos seus
déficits, tanto públicas quanto privadas, em relação ao conteúdo, às formas de
inclusão e aos resultados e são propostas soluções simplistas e restritas para
um pequeno grupo. Mas essa política deveria ser prioritária se pensamos que há
pelo menos 1 milhão de jovens fora da escola
no país por conta da pobreza e da violência?
“A grande motivação dos defensores do modelo, seria a violência e o bullying sofrido pelos estudantes, além de incompatibilidade moral e religiosa das famílias com o sistema escolar. Mas será mesmo? Ou seria um processo de salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?” (Amilton Martins, professor)
A escola com todas as suas dificuldades ainda é o espaço garantidor de outros direitos. A cada 1% a mais de crianças na escola, reduz em 2% os homicídios (IPEA, 2016). Além disso, através dela se pode construir uma sociabilidade na diversidade, com a pluralidade de ideias e aprendizados.
Por melhores que sejam as mães e
pais eles não poderiam ter a prerrogativa exclusiva de educação dos filhos e a
Constituição Federal assim o diz, até porque as mulheres, em geral as
cuidadoras dos filhos, não são recompensadas por este trabalho, fragilizando-as
socialmente e em relação aos homens.
Em um cenário de intensa desconfiança em relação
aos professores, chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro a
educação domiciliar significa colocar mais lenha na fogueira desse conflito,
produzindo também uma cortina de fumaça para a segurança do direito à educação.
E os pais que
querem homeshoolling sem interferência do Estado não estariam pleiteando uma
espécie de doutrinação, advogando por um projeto educacional de pensamento
único, desconsiderando outras realidades, inclusive que 70% das crianças e
adolescentes abusadas sexualmente são vítimas em casa?
Uma escola mais inclusiva e humanizadora precisa
ser construída, com espaço para a subjetividade e rompimento dos preconceitos,
fomentando seres livres, focados no bem comum, empáticos e capazes de resolver
problemas concretos, sem tanto foco no individualismo e na competição, a
começar pela experiência de aprender no coletivo, e nada como estar em uma sala
de aula para barrar doutrinações e violências.
“Na minha experiência, se a escola se construir num espaço onde os estudantes são convidados a se encantar com os conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais que alunos. Formaremos seres humanos.” (Ivan Dourado, professor UPF)
Nascido numa favela carioca do Rio de Janeiro, colega no ensino fundamental do jogador da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se um “camarada legal, disponível, aberto e convicto de suas opiniões e entendimentos de mundo e sociedade.
Alberto
Eleutério Alves, mais conhecido como “Carioca”, faz parte de um grupo de
pessoas com atuação social e política diferenciada em nossa cidade, Passo
Fundo, RS. No meio político local, seja através de sua atuação na Câmara de
Vereadores da cidade, na Prefeitura Municipal, nos movimentos de juventude e
nos partidos políticos, é uma figura querida e estimada por muitos.
Nascido
numa favela carioca do Rio de Janeiro, colega no ensino fundamental do jogador
da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se um “camarada legal,
disponível, aberto e convicto de suas opiniões e entendimentos de mundo e
sociedade”. Um cara acessível, fácil de conviver e bom de boa prosa sobre
cultura, política e organização da sociedade.
Com grande
prazer, entrevistamos este cidadão do país, carioca de nascimento e, hoje,
gaúcho por adoção.
NEI ALBERTO PIES: Nasceste numa favela carioca, convivendo até teus 43 anos no Rio de Janeiro. Apresente-nos um pouco da tua história a partir do Rio de Janeiro.
Nasci e até os oito anos morei na Favela da
Catacumba, localizada numa das áreas mais nobres do Rio de Janeiro, a Lagoa
Rodrigo de Freitas. A Elite carioca vivia incomodada com aquelas casas
uniformes e com os seus moradores. A ditadura Militar então decidiu atender os
anseios da burguesia da cidade e começou e instituiu um processo de remoção das
favelas existentes na zona sul do Rio de Janeiro.
Nos anos 1970, a
produção de conjuntos habitacionais esteve associada à política de remoção de
favelas. Nesse período, grande quantidade de moradores de favelas foi
transferida para assentamentos distantes do núcleo, que na maioria das vezes
não contava com comércio e nem com sistema de transportes coletivos que desse
boas condições de deslocamento para essas pessoas.
Boa parte das áreas
de onde foram removidas as favelas foi ocupada por grandes empreendimentos
imobiliários que se destinavam à construção de conjuntos de edifícios de
apartamentos de alto luxo.
Minha família foi
jogada num desses conjuntos habitacionais que chamo de favela de cimento
armado, nos confins da cidade. Conjunto do Quitungo, Vila da Penha, Zona Norte
da cidade. Diante da falta de estrutura e de trabalho não é difícil entender
porque os conjuntos habitacionais construídos naquela época viraram locais
dominados pelo tráfico e pelas milícias.
Minha infância foi
como a de milhares de jovens que moram nas periferias ou nas favelas Brasil a
fora, sem luxo, com muitas dificuldades, mas talvez a diferença tenha sido a
família. Naquela época era eu e uma irmã, Sandra, que mora em Cataguases Minas
Gerais. Depois nasceram meu irmão, Roni e minha irmã Bárbara.
Viver numa comunidade não é fácil você tem que aprender a
conviver com a violência dos chamados bandidos e com a violência daqueles que
deveriam nos proteger, a polícia. Mesmo com todos os problemas eu não tenho do
que reclamar da minha infância. Tudo que vi, e vivi serviram para moldar o meu
caráter e a minha personalidade.
NEI ALBERTO PIES: Muito se discute e se fala da violência nos morros e favelas cariocas. Qual é a tua percepção desta realidade desde a tua existência até hoje?
A violência no Rio de janeiro não vem de hoje.
Ouso muita gente dizer que na época da ditadura não tinha essa marginalidade eu
afirmo com conhecimento de causa que quem diz isso não conhece a história da
cidade.
Em 1970, depois que fui morar no Conjunto do
Quitungo com oito anos de idade foi que conheci a morte de perto. Lembro até
hoje de um ajudante do caminhão de gás que foi assaltado na entrada do conjunto
e morto por que reagiu. Imagina uma criança de oito anos vendo aquela cena de
violência ali na sua frente.
O comércio de droga rolava solto onde eu morava.
Como diz uma música de Gabriel o Pensador. Era mais fácil conseguir um baseado
ou um pino de cocaína do que um pão. O cheiro da morte vivia impregnado naquele
lugar. Não havia um dia sequer que alguém não era morto. Ou pela disputa das
bocas de fumo, ou por ter sido descoberto como X-9, ou pela polícia quando se
recusavam a pagar a propina para não ser incomodado.
Sim, porque
a paz podia até reinar nos bairros ricos da cidade, onde a polícia militar
protegia o cidadão mais abastado. Mas nas periferias e favelas a violência
nunca foi diferente.
NEI ALBERTO PIES: Afirmas, de forma convincente, que a sociedade brasileira, mais cedo ou mais tarde, precisa enfrentar o tema de desmilitarização. De onde vem este convencimento e quais são os alicerces desta convicção?
Essa é uma discussão que não temos como fugir. A
primeira coisa a se fazer nesse processo é esclarecer que Desmilitarizar a
Polícia; não é desarmá-la e, sim, trazê-la para os marcos democráticos.
Permitindo assim que os policiais tenham direitos civis, os protegendo dos
abusos da rígida hierarquia militar que frequentemente se transmuta em assédio
moral e violência, é humanizar a formação e a atuação dos agentes.
Primeiro porque a militarização da polícia é uma
herança da ditadura. O Tenente Coronel reformado da PM de São Paulo, Adilson
Paes de Souza afirma que o curso de formação das policias brasileiras não
atende as necessidades do que se espera de uma verdadeira em educação em
direitos humanos.
Ele também afirma que em entrevista com policiais
que cometeram atos criminosos, todos eles relataram que na formação nenhuma
linha sequer sobre a realidade que eles iriam enfrentar. Sobre violência policial, corrupção, letalidade.
“Ao contrário a formação é centrada na
virilidade: “o policial deve ser o macho, o herói, aquele que não sente dor”.
Prevalecendo o mito que tem que negar a dor em si mesmo e, ao negar em si
mesmo, acaba descarregando a dor em alguém”.
Ele vai ter um comportamento agressivo porque
aprendeu que ter autoridade é ser violento. Tratando o oponente como um inimigo
no campo de batalha. Fazendo com que sejamos a polícia que mais mata e que mais
morre no mundo. Por isso precisamos readequar a polícia para a democracia
terminando com o pensamento de guerra que hoje impera. Enquanto isso não for
feito continuaremos a viver numa democracia formal e não numa democracia
verdadeira.
NEI ALBERTO PIES: Na tua adolescência, fostes colega de escola na quinta-série, do jogador da seleção brasileira e hoje senador da República Romário Faria. Conte-nos sobre Romário, as peladas de futebol, os poucos amigos que ainda estão vivos daquele tempo da infância.
Romário é três anos mais novo que eu. Nós
morávamos uma quadra um do outro. O pai dele tinha um time de futebol chamado
estrelinha. Naquela época era comum os times terem dois Quadros, ou seja, dois
times.
Ele Romário como era muito novo ficava no banco
do segundo time, mas quando entrava parecia que a bola o procurava.
Dificilmente saia do jogo sem fazer um gol. Estudávamos juntos.
Como afirmo nas respostas acima, morávamos num
lugar onde a invisibilidade social era muito gritante, muitos escolhiam o mundo
do tráfico como uma forma de ter poder e se vingaram da sociedade que se fingia
de cega para não os ver, outros como nós, escolhemos o futebol com a válvula de
escape.
Quem é o jovem pobre que não sonha ser jogador de
futebol? E nós não éramos diferente.
O clube mais perto de onde morávamos era o
Olaria. A.C e foi lá que demos os primeiros os primeiros passos num clube de
primeira divisão do futebol carioca.
Mas como a vida é dinâmica ele Romário, Gonçalves
e Ailton se profissionalizaram e com toda justiça chegaram onde chegaram.
Outros como eu ficaram pelo caminho. Mas eu nunca tive nenhuma frustração por
conta de não ter conseguido o objetivo inicial de ser um jogador de futebol.
Acredito que tudo que acontece na nossa vida tem uma razão;
nada acontece por acaso; se não for por uma causa, é para um ensinamento…
tudo o que chega, chega sempre por algum motivo…
NEI ALBERTO PIES: Durante sua juventude, conhecestes Padre Zezinho, por intermédio de sua mãe, até hoje seguidora do catolicismo. O que levas de ensinamentos para tua vida a partir da convivência com este importante padre da Igreja Católica?
Minha relação com o Padre Zezinho não foi longa
pois ele não demorou muito tempo no Rio de Janeiro. Eu nunca o chamei de
Zezinho, sempre o chamei de José. Ele nunca reclamou de eu o chamar assim.
Tenho um carinho muito grande por ele. Pois foi
um dos poucos padres que convivi que sempre procurou dialogar comigo. Eu hoje
compreendo que era um adolescente complicado, pois sempre fui muito
contestador, nunca aceitei que me impunha alguma coisa sem me convencer. E ele
estava sempre aberto para tentar dirimir minhas dúvidas.
Hoje não tenho religião, não consigo acreditar em
um ser superior mas agradeço muito a ele por ter me aconselhado a jamais ser
desrespeitoso com a crença alheia. Um de suas músicas que mais me identifico é
CANTIGA PARA UM ATEU.
Um grande amigo meu
Que a sua fé perdeu,
No dia de Natal me procurou.
Contou-me a sua vida
Tão cheia de incertezas
Com tanta honestidade
Que me fez chorar.
E a lágrima teimosa caindo no meu rosto
Lavou meu preconceito de cristão.
Eu sei que da verdade eu não sou dono,
Eu sei que não sei tudo sobre Deus.
Às vezes, quem duvida e faz perguntas,
É muito mais honesto do que eu.
NEI ALBERTO PIES: Estás há mais de dez anos em solo gaúcho, convivendo agora com a nossa cultura gaúcha. Quais são os principais conflitos e diferenças entre a cultura gaúcha e a cultura carioca?
Olha, quando eu morava no Rio de Janeiro eu ouvia
as pessoas dizerem que o Rio grande do Sul era a Europa brasileira e eu ficava
pensando sobre isso. Depois que vim morar aqui descobri que o Rio grande do Sul
realmente é muito belo, mas que não é diferente de nenhum outro estado
brasileiro. Pois tem as mesmas mazelas sociais de ambos.
As diferenças culturais são grandes pois o gaúcho
tem muito apego as tradições, a sua terra, aos seus costumes, coisas que nós no
Rio não nos importamos. O carioca curte muito barzinho, samba, pagode, praia.
Aqui vocês até para ir na padaria se arrumam todo, lá vamos ao shopping de
chinelo e bermuda.
Mas o mais importante é que essas diferenças não
impedem que o carioca e o gaúcho se entendam. Na verdade, somente duas coisas
me incomodam aqui no Sul, o frio e o conservadorismo exacerbado.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a tua relação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no Rio de Janeiro, em Passo Fundo e no restante do país?
Eu, no Rio, já tinha uma relação de admiração
pelo PCdoB, mas não era filiado. Foi nas eleições de 1986 convidado pelo André amigo
de trabalho e baterista de uma banda de Punk Rock que estávamos montando, me
inseri na campanha a deputado e conseguimos eleger como a deputada estadual
mais votada Jandira Feghali com 91.977 votos e Deputado Federal Edmilson
Valentin 43. 730 votos. Nesse ano fiquei muito mais próximo do partido.
Foi só em 1989 que oficializei minha filiação ao
PCdoB, que foi o primeiro e será o único partido que militarei. Já viajei para
várias cidades do pais e como todo bom comunista onde a gente chega se
apresenta ao partido e se coloca à disposição.
Vim para
Passo Fundo em 2004, e assim o fiz, me apresentei e logo estava na luta. Me
lembro que tínhamos um fusca para fazer campanha. O camarada Juliano Roso
concorria reeleição, o mais engraçado é que ninguém tinha habilitação no
partido aqui em Passo Fundo então eu passei três meses mais com o juliano do
que a família. Mas no fim deu tudo certo.
Quando aqui cheguei o partido era pequeno, mas os camaradas se multiplicavam na hora da campanha. Eu tenho muito orgulho de fazer parte das fileiras do PCdoB, partido mais antigo do Brasil, presente nas principais batalhas e jornadas da nação e da classe trabalhadora, cumprindo uma agenda que ajudou a construir o Brasil e a formar uma consciência patriótica, nacional e popular.
NEI ALBERTO PIES: Desde quando nutres sentimentos, curiosidades e apegos com a cidade de Passo Fundo, RS (infância, juventude e momento atual).
Bem o meu primeiro contato com a cidade de Passo
Fundo se deu através da música. Sim, pois meu pai levantava cedo para trabalhar
e naquela época o rádio era o principal instrumento de comunicação de massa,
então ele ligava na Rádio Globo RJ e todos os dias ouvia um programa chamado a
Impecável Maré Mansa, era um programa de misturava noticia e música. Tocava de
tudo. Desde Luiz Gonzaga a Teixeirinha que o locutor chamava de O Cancioneiro
Gaúcho.
A música que mais tocava era Coração de Luto, mas
um dia tocou Gaúcho de Passo Fundo e eu deitado, com sono, ouvia aquela canção
e ficava imaginando onde ficava Passo Fundo.
Passados alguns anos me casei com uma
Passofundense, me separei e já em Passo Fundo conheci a minha atual companheira
com quem vivo a 14 anos, ela é da fronteira, mais precisamente de São Borja.
Desde que aqui cheguei sempre fui muito tratado por todos, a cidade é muito boa
de se morar, as pessoas são muito receptivas.
NEI ALBERTO PIES: Qual é, na tua visão, a importância dos partidos políticos, dos sindicatos, das organizações sociais, dos grupos de juventudes para a manutenção dos direitos sociais e da própria democracia?
Na nossa experiência histórica, as noções de
partidos políticos e de democracia (Governo do povo para o povo) estão intimamente
ligadas, pois a divulgação, pelos partidos, de diversas doutrinas filosóficas e
politicas existentes no mundo tem fomentado o debate e a busca por soluções
para as diversas mazelas que afligem a nossa sociedade, favorecendo a formação
de opinião sobre as principais questões que envolvem o país e o amadurecimento
do eleitor para o exercício da democracia.
Nunca é demais recordar que, ao
longo da história, os trabalhadores travaram uma árdua luta para legitimar o
sindicato como escudo, diante da desigualdade na relação com o empregador.
Quando o trabalhador se une ao sindicato, ele se fortalece, pois dá à instituição
poder efetivo para defendê-lo do facão da demissão e da submissão à empresa;
para negociar por ele; para ajudá-lo a resolver os problemas do trabalho etc. é
preciso conscientizar os trabalhadores da importância do fortalecimento da
instituição sindical.
“Neste contexto de mundo individualizado e de redução de direitos e garantias trabalhistas, nos desafiamos a avaliar o papel contemporâneo dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras, uma vez que são, essencialmente, organizações de defesa de interesses coletivos”. (Nei Alberto Pies)
Como já dizia o filósofo Karl Marx “Mudanças na sociedade ocorrem a partir da ebulição dos movimentos sociais: contra o capital e o Estado”.
Os Movimentos Sociais são de extrema
importância, porque cobram mudanças, reivindicam transformações, mostram quando
a povo não está satisfeito com as medidas adotadas por governantes, dirigentes
e gestores, além de cobrar medidas, quando necessário, porém os Movimentos
Sociais perderam força com o passar do tempo. Os movimentos sociais nos anos
60/80, diferem dos ideais dos movimentos na atualidade.
O individualismo, egoísmo, concorrência desleal, inveja, ambição,
alienação imposta pelo avanço tecnológico e no mundo globalizado vem impedindo
que pessoas se unam para cooperar, ajudar e reivindicar o bem comum.
Em se tratando da juventude brasileira está tem se mostrado resistente aos
processos antidemocráticos instaurados no país. Desde a ditadura militar, até o
golpe parlamentar contra a presidente Dilma, o entusiasmo dos estudantes ocupa
as ruas em defesa da democracia e pela educação pública, gratuita e de
qualidade.
Entender o processo de representação da juventude ao longo de nossa
história recente torna-se fundamental para compreender a conformação de novas
políticas que colocam o jovem como sujeito capaz de refletir e agir sobre a
própria história.
NEI ALBERTO PIES: Como a cultura e o povo carioca construíram um político tão emblemático como Jair Messias Bolsonaro, hoje, nosso presidente da República?
Bolsonaro é o extremo e a cara da elite carioca,
que tem medo da democracia, porque esta tem o poder de mudar a face do país.
Porque democracia inclui os pobres, gente que a
elite do Rio sempre tentou deixar de fora do jogo democrático, basta lembrarmos
do Governo Garotinho que fazendo o jogo das elites começou a fazer os chamados
piscinão nos bairros periféricos da cidade do Rio de Janeiro, iludindo os
pobres destas comunidades de que estava lhes proporcionando lazer mais próximo
de casa quando na verdade a única intenção era afastar o que os moradores da
zona sul do Rio costuma chamar de suburbanos das praias de Copacabana, Ipanema,
Leblon e Barra da Tijuca.
Como lembra o sociólogo Jessé de Souza: “salvo
raríssimas exceções, nossa democracia é uma farsa”.
Bolsonaro sempre foi eleito pelo eleitor que
vomita conceito de meritocracia sem se dar conta de que na estrutura de poder
no Brasil, sempre tiveram mais oportunidades que as classes populares e sua ascensão
política também se deu no vácuo do poder que a elite gerou no movimento pelo
Impeachment de Dilma.
NEI ALBERTO PIES: Uma frase, um incentivo, um desafio a todos os que ainda acreditam num país mais justo, mais democrático e com mais inclusão social.
Nesses tempos difíceis não podemos deixar que a
realidade corroa a alma. Precisamos de atitude, ação. Tomarmos a frente. Ter
consciência do momento perigoso que vivemos e não fugir a luta. Pois não há
vitória sem luta.
Desde a campanha presidencial, uma cultura de culto ao ódio foi desenvolvida e, agora, se cristaliza.
Passados seis meses do (des)governo Bolsonaro me pergunto
sobre o inexplicável Brasil que parece gostar de amedrontar e sabotar a si mesmo.
O que temos visto é um presidente atrabiliário e
peripatético: O que diz pela manhã está sempre sujeito a mudanças
repentinas à tarde.
Na demência bolsonariana não faltou até mesmo a sugestão de
armar a população para fins políticos, para acuar imaginários inimigos
externos e o Congresso, no melhor estilo
chavista, que tanto o ex-capitão critica. Seria ele um chavista de direita?
Desde a campanha, uma cultura de culto ao ódio foi desenvolvida e, agora, se cristaliza. Ele, e seus
seguidores, tratam de repor o que nós temos de pior e que não foi superado ao longo do
tempo.
O bolsonarismo surge
das entranhas da nossa história
de opressão, de humilhação. Um passado que nós estávamos buscando
superar.
“Nossa sociedade conviveu com a escravidão e preservou, mesmo
na contemporaneidade, uma espécie de
ritual nacional de oposição às
distâncias sociais, de gênero,
de religião, de raça, quando na
prática e no cotidiano as reitera”, assevera a historiadora e
antropóloga Lilian Schwarcz, no livro
Sobre o Autoritarismo Brasileiro.
O bolsonarismo representa esta execrável reiteração. Nestes
seis meses, deixou claro que quer destruir a educação, as ciências, a cultura,
o meio ambiente, as reservas indígenas, os direitos trabalhistas e das
minorias, as leis de trânsito, a aposentadoria dos humildes.
De janeiro a junho Bolsonaro e seus ministros mostraram-se
personagens de uma mediocridade tão ostensiva que disfarçá-la tornou-se
impossível. Isto ecoou até no exterior. Os patéticos personagens
bolsonaristas parecem odiar a inteligência ou com
ela não possuir a mínima afinidade.
O ministro da Educação, por exemplo, conseguiu confundir o
escritor Franz Kafka com um prato típico árabe. Se não bastasse, ao acusar Lula
e Dilma de possuírem asseclas, os chamou de “acepipes”. Uau!!
O “ilustrado ministro”, não por acaso, quer acabar com as
universidades públicas. Para quem é tão medíocre, a inteligência alheia deve
ser estarrecedora.
Já a ministra da Agricultura, ao longo deste semestre,
autorizou a liberação de mais de 230
pesticidas, a grande maioria condenada
na Europa, por prejudiciais à saúde. Na Amazônia,
em maio, a devastação bateu recorde. É o
paraíso do veneno e da moto-serra!
Sérgio Moro, o “herói” do bolsonarismo, está em processo
de desmoralização em decorrência da comprovação do que já era
sabido até pelo reino mineral, isto é, seus capciosos julgamentos com viés ideológico
inegável.
A forma como a economia
está sendo conduzida deixa claro que
continuará em estado letárgico. Os
resultados pífios dos últimos meses,
mostram a incompetência da equipe do
Chicago Boy Guedes, que só pensa em ferrar
os aposentados. A crise na economia é, acima de tudo, uma crise de
inteligência estratégica.
Enfim, o (des)governo
Bolsonaro tem se caracterizado por aprofundar a crise e a
separação dos brasileiros em lugar de harmonizá-los.
A construção de uma sociedade civilizada não faz parte da agenda
do “mito” e de seus asseclas
(acepipes?), como diria o ministro da
Educação.
Sou obrigado a me valer, novamente, de José Saramago: “ Não sou pessimista; a
realidade é que é péssima”.
“Sabemos que um dos grandes problemas da instabilidade social é o desemprego e a grave concentração de renda. A dominância financeira é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento país. Não há economia que resista aos vampiros que estão tomando conta do banco de sangue brasileiro. Só não vê quem não quer”. (Setembrino Dal Bosco)