Início Site Página 188

A difícil adolescência

Nós, os adultos, temos que pedir desculpas
por apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor,
o presente é feio e o futuro é catastrófico.

Confesso que não gostaria de ser adolescente, mesmo sabendo que estaria em meu pleno vigor, com muitos anos pela frente para realizar sonhos. Ter 71 anos me parece ser mais fácil do que ter 15, 16, 17 ou 18 anos.

Ouço muitos comentários por parte de pais e professores, assisto às notícias, leio jornais e chego à conclusão de que nossos jovens estão sendo extremamente prejudicados, pois lhes negamos seu passado, seu presente e seu futuro.

Fazemos isso quando lhes falamos que nossa infância foi muito melhor, pois andamos de carrinho de lomba, brincamos livremente pela rua, exploramos mato, rios e mares. Não nos furtamos em emitir nossas opiniões acerca da infância deles, reprovando o videogame, os sites de relacionamento, as conversas no Messenger, as postagens no instagran e em outras redes sociais.



As redes sociais mais utilizadas por jovens em 2019.
https://www.apptuts.com.br/tutorial/redes-sociais/top-redes-sociais-usadas-mundo/

Quando o assunto é música, então, a coisa fica pior. Nossas músicas tinham mais graça, dançava-se junto, o ritmo e a letra eram coisa que presta. Abominamos o fato de terem trocado o dançar junto pelo ficar junto; por terem trocado caderno questionário com uma pergunta por página – horror das mães – pelo Orkut, depois pelo faceboock, instagran e outras redes sociais. Tudo o que fazíamos era muito melhor do que eles fazem, veja só!

Quanto ao presente, não aceitamos que eles consigam aprender em meio ao barulho, que façam muitas coisas ao mesmo tempo e com uma rapidez incrível. Queremos que eles aprendam de bom grado, sentadinhos por horas, em silêncio, bebendo da sabedoria dos professores.

Eles teimam em aprender do seu jeito, teimam em questionar os comandos e não conseguem obedecer sem que tenhamos que dar mil explicações antes.

Com relação ao futuro, mostramos um mundo que desmontamos, no qual promovemos guerras mundiais, territoriais, religiosas. Cometemos genocídios, mostramos pedófilos, terroristas, queimadas, num festival de tolices feitas por poderosos adultos. Nós somos adultos genocidas, suicidas e cheios de razão, questionamos meninos e meninas que, vendo todo esse descalabro, tratam de viver intensamente o momento presente, por ser impossível vislumbrar um futuro viável.

Não seria mais sábio se olhássemos para nossos adolescentes e tirássemos lições do que estamos  lhes causando?

Sabe-se que o comportamento irreverente da juventude é uma característica e uma marca da própria condição adolescente e infantil; sabe-se que há um modo novo de aprender que ainda não entendemos, mas existe para quem tem olhos de ver. Sabe-se que nossa autoridade está sendo questionada, também por causa das bobagens que fazemos, envolvendo-nos em escândalos de corrupção, em falcatruas amplamente noticiadas pela mídia, pela falta de ética nas nossas atitudes.



Por que ser ético?


Agora, como diriam nossos filhos: Fala sério! É possível ter uma adolescência saudável, se tudo o que se faz está errado? É possível projetar uma vida longa se tudo o que é mostrado está desmoronando? É possível confiar em adultos que exigem que se viva hoje como se viveu ontem?



Conhecimento sobre as novas gírias usadas pelos jovens neste momento histórico. Veja mais aqui.


Nós, os adultos, temos que pedir desculpas por apresentarmos um mundo onde o passado foi melhor, o presente é feio e o futuro é catastrófico. Melhor seria se mostrássemos a caminhada da maioria que é honesta, trabalhadora, empenhada em melhorar a vida das crianças, dos jovens, dos velhos.

Melhor seria se compreendêssemos que vivemos uma nova era, na qual a família tem um novo papel, que é o de cuidar melhor, que é também o de promover a autonomia dos filhos, sem desqualificá-los, ajudando-os a ver o mundo em permanente evolução, sem saudade de tempos em que éramos comandados de todas as formas, tanto em casa quanto nas ditaduras que sofremos.

O modelo Tabata

A questão é que Tabata Amaral não é apenas
uma deputada do novo centro, ou do
novo liberalismo brasileiro.
Ela se afirma como um modelo.

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.



Nem direita, nem esquerda. Como?


A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As Câmaras de Vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembléias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

A Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos de direita e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.



Matéria da Folha de São Paulo ilustra esta concepção de renovação na política. Veja mais aqui.



Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.


A soberba: pecado contra humildade

Pela soberba participamos do diabólico!
Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.

A soberba é o pecado contra a humildade. A humildade é uma virtude. A soberba é um vício.

A virtude da humildade é o reconhecimento da própria verdade, nem mais nem menos. A humildade não é desprezo de si. O desprezo de si é uma maldade e uma injustiça contra a autoestima.

A humildade é uma virtude de justa medida entre a soberba arrogante e o desprezo de si. A soberba, por sua vez, é achar-se maior do que se é. Se o desprezo de si é uma falsa humildade, um tornar-se menos do que se é, o pecado da soberba é o exagero e a inflação de si, é um excesso do eu, um pecado por inflação do ego.

A soberba é um outro nome para a vaidade e o orgulho. O soberbo se acha melhor do que é e melhor de todos os outros. O soberbo “se acha”! Por “se achar” deixa de considerar os outros como iguais, alimentando uma falsa superioridade, enganosa e danosa, pois, em se tendo “numa conta excessiva”, pensa ser mais do que é e, por conta disso, deixa de procurar ser melhor, achando que já é “o melhor”. O efeito espiritual e moral dessa atitude viciosa é devastador. Aliás, tudo o que afronta a reta razão e a verdade, é devastador. E o soberbo afronta a razão e a verdade ao pretender ser o que não é. 

A soberba é o pecado do excesso do eu. A soberba é a mãe de todos os pecados pois alimenta uma vaidade em demasia e um senso exagerado da própria importância.  É a mãe de todos os pecados porque o seu portador se acha, infla o peito e está sempre pronto a dizer, em alto e bom som: “sabe com quem você está falando?” É o pecado da arrogância e o arrogante não se sente confortável a não ser como um “pequeno deus”. É o pecado de Adão e Eva. O pecado de Adão é cair na tentação de querer ser igual a Deus e não aceitar a condição humana.

Ser humano significa aceitar-se como “aquele que veio do húmus”. A humildade nada mais é do que saber-se de origem do húmus. Húmus, humano, humilde são da mesma família ontológica e etimológica. O soberbo pensa que pode se bastar, quando na verdade o bastar-se é a coisa mais estranha ao humano, vulneráveis, dependentes e frágeis que somos. 

O mais prejudicado no pecado da soberba é o próprio soberbo pelo efeito devastador na sua alma, mas não só. O efeito da soberba recai também sobre os outros, inferiorizando-os, diminuindo-os e desprezando-os.

A bem da verdade, na soberba, o ciclo do pecado se fecha porquanto o seu portador, ao transgredir a lei eterna de Deus, acaba causando danos a si e aos outros. Pecar contra Deus, contra si e contra os outros. Eis aí a tríade da essência do pecado.

Mas tem mais. No caso do humano em geral, caímos na tentação da soberba sempre que nos achamos superiores aos outros seres e por isso o efeito devastador, hoje mais do que evidente, desse pecado, sobre a natureza e os animais.

Quanto mal praticado pela atitude soberba de nos acharmos a “cereja do bolo da criação”, diminuindo todos os outros seres, submetendo-os ao nosso domínio! Quanto mal!

Os vícios ou pecados capitais trabalham juntos, subordinados a um principal, a soberba. Caberia aqui pensar na ideia de que todos os males estão submetidos ao príncipe do mal, o diabo, e o diabo é diabo não só por ser velho, mas, sobretudo, por ser soberbo. Ele, o tinhoso, simplesmente não aceitou não ser deus e se rebelou, contra Deus, por soberba.

O diabo não se tornou diabo pelo pecado da luxúria, da gula, da avareza ou da preguiça. Não. O diabo, um anjo decaído, decaiu pela soberba de querer ser deus. Pela soberba participamos do diabólico! Essa é uma lição metafísica que dá o que pensar.

Pensar, ao lado de amar, são as duas formas humanas mais elevadas para não decairmos banalmente no pecado e no mal. Pensar e amar! Amar e pensar!



Gilmar Zampieri mantém um blog onde publica suas reflexões, na ideia de que não se percam e possam estar reunidas. É autor de outras 20 reflexões interessantes no site. Acesse clicando aqui.

Batendo o tambor pra pedir respeito

Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras, sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas, mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que obrigatório nos templos destas religiões.

Gosto de observar a relação que o ser humano tem com o sagrado. São crenças diversas, milhares de fés diferentes, que unem pessoas em torno de sentimentos de amor.

Enquanto algumas pregam a caridade e o amor ao próximo, outras defendem a relação direta com a figura que acreditam ser a representação do divino, seguir algumas regras pré-determinadas e isso basta.

Apesar de não ser grande devota ou frequentadora de qualquer religião, minha admiração pela resistência dos povos africanos me fez pesquisar a temática. Discorri sobre a representatividade da mulher no espaço do terreiro de umbanda e neste processo de observação e aprendizado pude presenciar a dedicação destas pessoas não somente à sua ritualística, como também para o bem-estar da humanidade como um todo, refletida no atendimento prestado a qualquer pessoa que se faça presente na celebração e no envolvimento destes religiosos em campanhas de solidariedade.

Terreiros fazem parte das periferias de todas as cidades brasileiras, sejam de umbanda, de candomblé ou de nação. Com ritualísticas diferenciadas, mas unidas pelas raízes africanas, a simplicidade ainda é item quase que obrigatório nos templos destas religiões. Mesmo com estruturas por vezes grandiosas, a essência ainda é a da benzedeira que tem um galho de erva e o coração cheio de amor.

Amor esse que parece incomodar os corações cheios de ódio e preconceito. Em cinco anos, as denúncias de discriminação por motivo religioso cresceram 4960%.  

Conforme dados publicados no Relatório de Intolerância e Violência Religiosa, da Secretaria Especial de Direitos Humanos entre os anos de 2011 e 2015, 27% das denúncias feitas nas ouvidorias eram de pessoas da religião de matrizes africana, diante de somente 16% de evangélicos, 8% de católicos e a 7% de espíritas.  Todavia, quando se trata da religião dos agressores, os dados apontam que 17% eram evangélicos, diante de 3% católicos.

Como praticantes da intolerância os religiosos de matriz africana ficam juntos aos Testemunhas de Jeová e Espíritas, com índice de 1%. Em 73% dos casos não foram registradas informações sobre a religião do agressor.



Racismo religioso: saiba o que é.



Conforme dados do Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que recebe denúncias de discriminação e violação de direitos, foram registradas 213 notificações de intolerância religiosa a matrizes africanas, de janeiro a novembro de 2018. Os dados são 47% maiores que os registrados no ano anterior.

São agressões verbais, agressões físicas, pichações em casas de culto e até “guerra sonora” (quando os vizinhos utilizam o som em alto volume para que os religiosos não consigam dar andamento na cerimônia).

Há ainda a perseguição e morte de líderes religiosos de matriz africana, em diversos pontos do país. Em diversas periferias, traficantes ligados às religiões neopentecostais destroem terreiros, imagens e histórias “em nome do senhor”.

Uma violência presente e por vezes invisibilidade pelo tabu que os desconhecedores destas religiões replicam em suas piadinhas carregadas de preconceito.

Ainda que o artigo quinto da Constituição Federal de 88 diga que o brasileiro tem direito ao “livre exercício de cultos religiosos e tendo garantida a proteção aos seus locais de culto e às suas liturgias” poucas são as ações, em especial por parte dos estados, para diminuir os índices (que devem ser muito maiores, já que muitas pessoas não denunciam por saber que dificilmente se busque uma solução para a questão).

Mesmo com penas previstas no Código Penal para crimes de intolerância religiosa que incluem multa ou detenção, de um mês a um ano podendo aumentar em um terço caso se registre algum ato de violência, os povos que cultuam as religiões de matriz africana seguem batendo seu tambor com orgulho, buscando respeito, mas com medo que o seu terreiro seja o próximo a ser perseguido.

Saravá!



Ipácio Carolino e Tânia Mara Duda são parceiros na divulgação do conhecimento das religiões de matriz africana e Umbanda fazendo-se presentes em escolas da rede municipal de Passo Fundo, quando são convidados. O conhecimento das práticas e dos fundamentos permite aos jovens estudantes dos nonos anos do Ensino Fundamental atitudes de maior respeito e consideração às religiões de matriz africana.

Desmandos de Moro e da Lava-jato

O argumento de que fins  justificam os meios
não pode prosperar  numa sociedade desenvolvida.
Quando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.

Uma verdadeira legislação beligerante foi  introduzida no sistema  de justiça criminal brasileiro pela  Operação Lava-Jato, promovida por  uma força  tarefa  de  treze  Procuradores  da República e processada pelo então Juiz Federal Sérgio Moro.

Juristas nacionais e estrangeiros denunciaram, desde o início da operação, a  existência de uma vertiginosa policialização da  justiça  penal, mediante aplicação  sistemática  de uma lei de combate  aos “novos inimigos internos”.

Assim, a  Lava-Jato, cancelou  garantias jurídicas e políticas  constitucionais, destruiu  a economia nacional, quebrou centenas de empresas, lançou milhões  de  trabalhadores  no desemprego, no desespero e na fome, não só no Brasil, mas em vários países da  América Latina.

Depois de  sucessivas  derrotas  eleitorais, nossas  elites  conservadoras lançaram mão de uma estratégia, fundada numa legislação de guerra  garantida  pelo  crime de obstrução da justiça, para reconquistar a  Presidência da República.

O   cenário  de lutas  políticas  deslocou-se  das praças  públicas  para  o espaço judicial  monocrático  da Vara Federal Criminal do juiz Sérgio Moro.Com ele, verificou-se a potencialização da partidarização ostensiva  da  Operação Lava-Jato.

Sob verdadeira  compulsão psíquica de uma obsessão  punitiva marcada pelo abuso do poder de processar e prender ( para confessar e delatar ), a Lava-Jato  desencadeou uma radical perseguição penal contra  Lula, a maior liderança política  da história  da República.

Nesse processo inquisitorial a hipótese prevaleceu sobre os fatos no processo penal. Os dados da realidade foram subordinados às  crenças pessoais  de acusadores e julgadores, movidos por um verdadeiro messianismo, onde não faltaram arroubos de  fé.

O MPF não teve pruridos em alardear  que não tinha prova dos fatos imputados, mas  tinha convicção dos mesmos.Uau!!   Sérgio Moro e os Procuradores foram vistos como “justiceiros  sagrados” e ganharam o  status  de  heróis.

Agora, com a gradual revelação dos diálogos dos “justiceiros”, pelo jornalista Glenn Greenwald, fica  patente  como Sérgio Moro  exorbitou em suas  funções  de juiz, comandando as  ações  na  Lava-Jato.

 O  Ministério Público cumpria  à  risca  as ordens de Moro. Ele era a figura  chave  nas investigações, deixando de lado a imparcialidade que  se exige de um magistrado.

A pedra angular do estado de direito  foi  desrespeitada.  Moro, declaradamente, ajudou um dos lados do processo a  fortalecer-se. Ele e  os Procuradores  deram um mau exemplo, rompendo  as  fronteiras  da legalidade. Ninguém, ninguém está acima do que reza  o regime  constitucional.      

O argumento de que os fins  justificam os meios  não pode prosperar  numa sociedade desenvolvida. Quando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.  Positivamente, não é assim que   se  combate  a  corrupção.

A arte e seu poder transformador

O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade, aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório cultural e estético.


Adaptados nesta nova realidade, na qual tudo é feito e resolvido através de recursos online e as relações são baseadas em aplicativos, não paramos para pensar nem apreciar o suficiente sobre arte.

Pode-se dizer que na arte existem inúmeros pontos não resolvidos, uma vez que não há uma definição clara sobre sua composição, o que torna o fazer arte uma tarefa angustiante. Mas toda atividade humana tem seu momento de angústia e, como dizem, “o antagônico da angústia é o sucesso e a vitória”.

Tenho angústias como todos nós seres humanos e elas ocorrem muitas vezes diante de possíveis indagações a respeito dos meus critérios no instante de fazer aquilo que se chama criação artística. 

Fernando Pessoa considera que a criação artística implica na concepção de novas relações significativas, graças à distanciação que faz do real. O poeta parte da realidade, mas distancia-se, graças à interação entre a razão e a sensibilidade, para elaborar mentalmente a obra de arte.

Na criação da arte, é fundamental haver liberdade e sensibilidade. Como artista plástica, não uso raciocínio lógico na criação, me perco nas linhas, nas curvas que se encontram e alteram significados, que compõem imagens, figuras incomuns e que são constituídas pelas cores e pela ausência delas. Eu crio com liberdade e emoção, pinto aquilo que me emociona, que me é significativo e sobre tudo que me apraz. Geralmente abordo questões do feminino porque, como já dizia Frida Kalho, “é o assunto que conheço melhor”.

Em trabalhos passados abordei a dor emocional, a força e resiliência das inúmeras mulheres que apesar de despedaçadas encontram coragem para se reestruturarem e colocam toda sua energia na tarefa de criar seus filhos, com delicadeza e sorriso no rosto. 

Há quatro anos me debrucei sobre os movimentos do corpo, algo tão simples que fazemos todos os dias sem pensar, sem refletir, sem dar a devida importância para essa engrenagem genial que é o nosso corpo.

Devo confessar que só parei para contemplar esse fenômeno do corpo em movimento quando meu pai sofreu um AVC e teve todo o seu lado esquerdo do corpo paralisado. Sem um corpo completo coisas simples como comer, ir ao banheiro e beber agua passam a ser movimentos extremamente difíceis.

No último ano, voltei as minhas origens e me encontrei fascinada pelo Sagrado Feminino, em minhas leituras percebi que na mitologia de muitos povos a mulher tem papel fundamental através de uma Deusa-Mãe, representada como a deusa geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade e cultura.

Na maioria das civilizações pagãs as deusas são as criadoras do Universo, conhecidas como qadesh (sagrado), elas são apresentadas como responsáveis por gerarem vidas, culturas, a linguagem e a escrita. Na mitologia grega a Deusa-Mãe ou Mãe-Terra é personificada como Deusa Gaia, a primordial geradora de todos os deuses, um dos primeiros elementos que surgiu no despontar da criação, junto com o ar, o mar e o céu.

Como professora não desvinculo o meu fazer artístico do meu dever de ensinar, por isso me encontro novamente angustiada. Para ensinar Arte é preciso ensinar a ler textos sem palavras, explorar fotografias, pinturas, ilustrações e charges, é preciso saber a gramática própria que rege a linguagem visual e contextualizar as condições de produção de cada obra estudada.

Assim como os grafites nas ruas, os comerciais da TV, as pinturas em livros e as obras de arte são formados por sinais, por elementos que formam a linguagem visual que precisam ser decodificados, lidos, para serem compreendidos. Expressões artísticas com características próprias precisam ser dialogadas com as turmas para que sejam realmente lidas e não “adivinhadas”.

 Hipóteses sobre o significado:

  • A composição é abstrata ou figurativa?
  •  O espaço é bidimensional, tridimensional ou plano?
  •  Existem linhas na imagem?
  • De que tipo: retas ou curvas, finas ou grossas?
  •  A opção por um tipo de cor (quente, fria, clara, escura) está ligada ao horário do dia ou estação do ano?
  •  E quanto às texturas: alguma camada passa a sensação de maciez, dureza, lisura ou aspereza?
  •  O trabalho é complementado com a análise de outros elementos formais da linguagem visual – formas, luminosidade, técnicas, gênero (retrato, paisagem, natureza-morta) e estilo a que a obra pertence. 

Somados aos textos verbais, essas linguagens ajudam os alunos a interagir com o mundo e a se expressar melhor.   “Colocar os alunos para produzir com os conhecimentos adequados das obras artísticas, surgem atividades de contextualização”.

As atividades artísticas são na verdade o contato mais direto do aluno com a arte, pois são inúmeras possibilidades de experimentações das linguagens artísticas como o desenho, a pintura, a escultura, o teatro e a musica, e compete à arte-educadores uma reflexão mais intensa em relação à aprendizagem de arte nas escolas, embasada nos procedimentos artísticos.

O ensino da arte na escola tem um poder transformador, pois amplia a capacidade de solucionar problemas, há um melhoramento da criatividade, aumenta a autoestima, faz o aluno provocar seus limites e cresce seu repertório cultural e estético.

O que é mais significativo do processo de aprendizagem é o momento em que o aluno, com autonomia, começa a admirar o trabalho artístico, interpretando e identificando suas características.  O aluno também passa a consumir arte de forma natural, seja através de filmes, vídeos, música, internet ou até mesmo ao observar a arte ao seu redor no cotidiano.


Autora: Clea Batezzini, professora e artista plástica.

Sentimento oceânico na educação brasileira?

Por onde devemos começar mudança na educação?
Pelos empresários da alta tecnologia?
Pelos doutores em seus sofisticados laboratórios?

Sentimento Oceânico é apresentado por Freud como impressão de vínculo e comunhão com o mundo, sendo para ele, uma ilusão ou utopia. Tenho participado de diversas conferências e debates sobre como melhorar a Educação Básica brasileira.

Nos eventos mais qualificados e com embasamento científico e político, os temas são redundantes: versam sobre a importância de formular políticas públicas educacionais de estado, não de governo, por meio de um Sistema Nacional de Educação.

Frequentemente, são citados excelentes exemplos de alto impacto em aprendizado dentro do próprio Brasil, por regimes de colaboração entre redes municipais e estaduais de educação. Também é comum ser apontado que, no século 21, precisamos potencializar as habilidades cognitivas e socioemocionais dos estudantes.

Porém, o tema mais debatido nessa área é a urgência de uma nova lógica na formação de professores. É unânime, entre os mais renomados especialistas, que a formação inicial dos nossos professores está obsoleta, utiliza métodos, tecnologia e, principalmente, um modelo mental ultrapassado, embasado no século 19, quando o mundo era baseado na escassez.

Partindo do princípio que nenhum de nós está preparado para os desafios da indústria 4.0, para a enchente de informação e o uso massivo de tecnologias exponenciais, que já estão mudando radicalmente a nossa vida, por onde devemos começar esta mudança? Pelos empresários da alta tecnologia? Pelos doutores em seus sofisticados laboratórios?

Hoje, tenho a mais clara certeza: devemos iniciar pelos nossos professores da Educação Básica. Não empurrar o problema para eles, e, sim, investir nossos melhores talentos da ciência e todo recurso disponível, para oferecer a eles a melhor formação, as melhores condições e o mais alto status social: de forjadores de nação.



Sentimento” é uma palavra aberta – nela cabe toda a massa difusa de nossa subjetividade. “Oceânico” é um adjetivo emprestado do substantivo “oceano”. O oceano é a imensidão líquida que envolve 71% do nosso planeta. Vasto e grandioso, abriga em seu ventre os segredos de uma biodiversidade escondida de nós, que, enquanto seres terrestres, vivemos à margem do principal componente da superfície da Terra. (Gabriela Richiniti)

Educar ou doutrinar sem escola?

Num cenário intensa desconfiança em relação aos professores,
chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro
a educação domiciliar significa colocar mais lenha na
fogueira desse conflito, produzindo também uma
cortina de fumaça para a segurança
do direito à educação.


A discussão sobre educação domiciliar (“homeshoolling”) é bastante ampla, porém a defesa dessa ideia no Brasil tem ocorrido de forma limitada.

Avalia-se a escola pelos seus déficits, tanto públicas quanto privadas, em relação ao conteúdo, às formas de inclusão e aos resultados e são propostas soluções simplistas e restritas para um pequeno grupo. Mas essa política deveria ser prioritária se pensamos que há pelo menos 1 milhão de jovens fora da escola no país por conta da pobreza e da violência?



“A grande motivação dos defensores do modelo, seria a violência e o bullying sofrido pelos estudantes, além de incompatibilidade moral e religiosa das famílias com o sistema escolar. Mas será mesmo? Ou seria um processo de salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?” (Amilton Martins, professor)



A escola com todas as suas dificuldades ainda é o espaço garantidor de outros direitos. A cada 1% a mais de crianças na escola, reduz em 2% os homicídios (IPEA, 2016). Além disso, através dela se pode construir uma sociabilidade na diversidade, com a pluralidade de ideias e aprendizados.

Por melhores que sejam as mães e pais eles não poderiam ter a prerrogativa exclusiva de educação dos filhos e a Constituição Federal assim o diz, até porque as mulheres, em geral as cuidadoras dos filhos, não são recompensadas por este trabalho, fragilizando-as socialmente e em relação aos homens.


Em um cenário de intensa desconfiança em relação aos professores, chamados, não raro, de doutrinadores, considerar primeiro a educação domiciliar significa colocar mais lenha na fogueira desse conflito, produzindo também uma cortina de fumaça para a segurança do direito à educação.

E os pais que querem homeshoolling sem interferência do Estado não estariam pleiteando uma espécie de doutrinação, advogando por um projeto educacional de pensamento único, desconsiderando outras realidades, inclusive que 70% das crianças e adolescentes abusadas sexualmente são vítimas em casa?

 
Uma escola mais inclusiva e humanizadora precisa ser construída, com espaço para a subjetividade e rompimento dos preconceitos, fomentando seres livres, focados no bem comum, empáticos e capazes de resolver problemas concretos, sem tanto foco no individualismo e na competição, a começar pela experiência de aprender no coletivo, e nada como estar em uma sala de aula para barrar doutrinações e violências.



“Na minha experiência, se a escola se construir num espaço onde os estudantes são convidados a se encantar com os conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais que alunos. Formaremos seres humanos.” (Ivan Dourado, professor UPF)

Vivências de um Carioca no Sul

Nascido numa favela carioca do Rio de Janeiro,
colega no ensino fundamental do jogador
da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se
um “camarada legal, disponível, aberto e convicto
de suas opiniões e entendimentos de mundo e sociedade.


Alberto Eleutério Alves, mais conhecido como “Carioca”, faz parte de um grupo de pessoas com atuação social e política diferenciada em nossa cidade, Passo Fundo, RS. No meio político local, seja através de sua atuação na Câmara de Vereadores da cidade, na Prefeitura Municipal, nos movimentos de juventude e nos partidos políticos, é uma figura querida e estimada por muitos.

Nascido numa favela carioca do Rio de Janeiro, colega no ensino fundamental do jogador da seleção brasileira “Romário”, Carioca revela-se um “camarada legal, disponível, aberto e convicto de suas opiniões e entendimentos de mundo e sociedade”. Um cara acessível, fácil de conviver e bom de boa prosa sobre cultura, política e organização da sociedade.

Com grande prazer, entrevistamos este cidadão do país, carioca de nascimento e, hoje, gaúcho por adoção.

NEI ALBERTO PIES: Nasceste numa favela carioca, convivendo até teus 43 anos no Rio de Janeiro. Apresente-nos um pouco da tua história a partir do Rio de Janeiro.

Nasci e até os oito anos morei na Favela da Catacumba, localizada numa das áreas mais nobres do Rio de Janeiro, a Lagoa Rodrigo de Freitas. A Elite carioca vivia incomodada com aquelas casas uniformes e com os seus moradores. A ditadura Militar então decidiu atender os anseios da burguesia da cidade e começou e instituiu um processo de remoção das favelas existentes na zona sul do Rio de Janeiro.

Nos anos 1970, a produção de conjuntos habitacionais esteve associada à política de remoção de favelas. Nesse período, grande quantidade de moradores de favelas foi transferida para assentamentos distantes do núcleo, que na maioria das vezes não contava com comércio e nem com sistema de transportes coletivos que desse boas condições de deslocamento para essas pessoas.

Boa parte das áreas de onde foram removidas as favelas foi ocupada por grandes empreendimentos imobiliários que se destinavam à construção de conjuntos de edifícios de apartamentos de alto luxo.

Minha família foi jogada num desses conjuntos habitacionais que chamo de favela de cimento armado, nos confins da cidade. Conjunto do Quitungo, Vila da Penha, Zona Norte da cidade. Diante da falta de estrutura e de trabalho não é difícil entender porque os conjuntos habitacionais construídos naquela época viraram locais dominados pelo tráfico e pelas milícias.

Minha infância foi como a de milhares de jovens que moram nas periferias ou nas favelas Brasil a fora, sem luxo, com muitas dificuldades, mas talvez a diferença tenha sido a família. Naquela época era eu e uma irmã, Sandra, que mora em Cataguases Minas Gerais. Depois nasceram meu irmão, Roni e minha irmã Bárbara.

Viver numa comunidade não é fácil você tem que aprender a conviver com a violência dos chamados bandidos e com a violência daqueles que deveriam nos proteger, a polícia. Mesmo com todos os problemas eu não tenho do que reclamar da minha infância. Tudo que vi, e vivi serviram para moldar o meu caráter e a minha personalidade.


NEI ALBERTO PIES: Muito se discute e se fala da violência nos morros e favelas cariocas. Qual é a tua percepção desta realidade desde a tua existência até hoje?

A violência no Rio de janeiro não vem de hoje. Ouso muita gente dizer que na época da ditadura não tinha essa marginalidade eu afirmo com conhecimento de causa que quem diz isso não conhece a história da cidade.

Em 1970, depois que fui morar no Conjunto do Quitungo com oito anos de idade foi que conheci a morte de perto. Lembro até hoje de um ajudante do caminhão de gás que foi assaltado na entrada do conjunto e morto por que reagiu. Imagina uma criança de oito anos vendo aquela cena de violência ali na sua frente.

O comércio de droga rolava solto onde eu morava. Como diz uma música de Gabriel o Pensador. Era mais fácil conseguir um baseado ou um pino de cocaína do que um pão. O cheiro da morte vivia impregnado naquele lugar. Não havia um dia sequer que alguém não era morto. Ou pela disputa das bocas de fumo, ou por ter sido descoberto como X-9, ou pela polícia quando se recusavam a pagar a propina para não ser incomodado.

Sim, porque a paz podia até reinar nos bairros ricos da cidade, onde a polícia militar protegia o cidadão mais abastado. Mas nas periferias e favelas a violência nunca foi diferente.


NEI ALBERTO PIES: Afirmas, de forma convincente, que a sociedade brasileira, mais cedo ou mais tarde, precisa enfrentar o tema de desmilitarização. De onde vem este convencimento e quais são os alicerces desta convicção?

Essa é uma discussão que não temos como fugir. A primeira coisa a se fazer nesse processo é esclarecer que Desmilitarizar a Polícia; não é desarmá-la e, sim, trazê-la para os marcos democráticos. Permitindo assim que os policiais tenham direitos civis, os protegendo dos abusos da rígida hierarquia militar que frequentemente se transmuta em assédio moral e violência, é humanizar a formação e a atuação dos agentes.

Primeiro porque a militarização da polícia é uma herança da ditadura. O Tenente Coronel reformado da PM de São Paulo, Adilson Paes de Souza afirma que o curso de formação das policias brasileiras não atende as necessidades do que se espera de uma verdadeira em educação em direitos humanos.

Ele também afirma que em entrevista com policiais que cometeram atos criminosos, todos eles relataram que na formação nenhuma linha sequer sobre a realidade que eles iriam enfrentar. Sobre violência policial, corrupção, letalidade.

“Ao contrário a formação é centrada na virilidade: “o policial deve ser o macho, o herói, aquele que não sente dor”. Prevalecendo o mito que tem que negar a dor em si mesmo e, ao negar em si mesmo, acaba descarregando a dor em alguém”. 

Ele vai ter um comportamento agressivo porque aprendeu que ter autoridade é ser violento. Tratando o oponente como um inimigo no campo de batalha. Fazendo com que sejamos a polícia que mais mata e que mais morre no mundo. Por isso precisamos readequar a polícia para a democracia terminando com o pensamento de guerra que hoje impera. Enquanto isso não for feito continuaremos a viver numa democracia formal e não numa democracia verdadeira.

NEI ALBERTO PIES: Na tua adolescência, fostes colega de escola na quinta-série, do jogador da seleção brasileira e hoje senador da República Romário Faria. Conte-nos sobre Romário, as peladas de futebol, os poucos amigos que ainda estão vivos daquele tempo da infância.

Romário é três anos mais novo que eu. Nós morávamos uma quadra um do outro. O pai dele tinha um time de futebol chamado estrelinha. Naquela época era comum os times terem dois Quadros, ou seja, dois times.

Ele Romário como era muito novo ficava no banco do segundo time, mas quando entrava parecia que a bola o procurava. Dificilmente saia do jogo sem fazer um gol. Estudávamos juntos.

Como afirmo nas respostas acima, morávamos num lugar onde a invisibilidade social era muito gritante, muitos escolhiam o mundo do tráfico como uma forma de ter poder e se vingaram da sociedade que se fingia de cega para não os ver, outros como nós, escolhemos o futebol com a válvula de escape.

Quem é o jovem pobre que não sonha ser jogador de futebol? E nós não éramos diferente.

O clube mais perto de onde morávamos era o Olaria. A.C e foi lá que demos os primeiros os primeiros passos num clube de primeira divisão do futebol carioca.

Mas como a vida é dinâmica ele Romário, Gonçalves e Ailton se profissionalizaram e com toda justiça chegaram onde chegaram. Outros como eu ficaram pelo caminho. Mas eu nunca tive nenhuma frustração por conta de não ter conseguido o objetivo inicial de ser um jogador de futebol.

Acredito que tudo que acontece na nossa vida tem uma razão; nada acontece por acaso; se não for por uma causa, é para um ensinamento… tudo o que chega, chega sempre por algum motivo…

NEI ALBERTO PIES: Durante sua juventude, conhecestes Padre Zezinho, por intermédio de sua mãe, até hoje seguidora do catolicismo. O que levas de ensinamentos para tua vida a partir da convivência com este importante padre da Igreja Católica?

Minha relação com o Padre Zezinho não foi longa pois ele não demorou muito tempo no Rio de Janeiro. Eu nunca o chamei de Zezinho, sempre o chamei de José. Ele nunca reclamou de eu o chamar assim.

Tenho um carinho muito grande por ele. Pois foi um dos poucos padres que convivi que sempre procurou dialogar comigo. Eu hoje compreendo que era um adolescente complicado, pois sempre fui muito contestador, nunca aceitei que me impunha alguma coisa sem me convencer. E ele estava sempre aberto para tentar dirimir minhas dúvidas.

Hoje não tenho religião, não consigo acreditar em um ser superior mas agradeço muito a ele por ter me aconselhado a jamais ser desrespeitoso com a crença alheia. Um de suas músicas que mais me identifico é CANTIGA PARA UM ATEU.

Um grande amigo meu
Que a sua fé perdeu,
No dia de Natal me procurou.
Contou-me a sua vida 
Tão cheia de incertezas
Com tanta honestidade
Que me fez chorar.
E a lágrima teimosa caindo no meu rosto
Lavou meu preconceito de cristão.

Eu sei que da verdade eu não sou dono,
Eu sei que não sei tudo sobre Deus.
Às vezes, quem duvida e faz perguntas,
É muito mais honesto do que eu.



NEI ALBERTO PIES: Estás há mais de dez anos em solo gaúcho, convivendo agora com a nossa cultura gaúcha. Quais são os principais conflitos e diferenças entre a cultura gaúcha e a cultura carioca?

Olha, quando eu morava no Rio de Janeiro eu ouvia as pessoas dizerem que o Rio grande do Sul era a Europa brasileira e eu ficava pensando sobre isso. Depois que vim morar aqui descobri que o Rio grande do Sul realmente é muito belo, mas que não é diferente de nenhum outro estado brasileiro. Pois tem as mesmas mazelas sociais de ambos.

As diferenças culturais são grandes pois o gaúcho tem muito apego as tradições, a sua terra, aos seus costumes, coisas que nós no Rio não nos importamos. O carioca curte muito barzinho, samba, pagode, praia. Aqui vocês até para ir na padaria se arrumam todo, lá vamos ao shopping de chinelo e bermuda.

Mas o mais importante é que essas diferenças não impedem que o carioca e o gaúcho se entendam. Na verdade, somente duas coisas me incomodam aqui no Sul, o frio e o conservadorismo exacerbado.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a tua relação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no Rio de Janeiro, em Passo Fundo e no restante do país?

Eu, no Rio, já tinha uma relação de admiração pelo PCdoB, mas não era filiado. Foi nas eleições de 1986 convidado pelo André amigo de trabalho e baterista de uma banda de Punk Rock que estávamos montando, me inseri na campanha a deputado e conseguimos eleger como a deputada estadual mais votada Jandira Feghali com 91.977 votos e Deputado Federal Edmilson Valentin 43. 730 votos. Nesse ano fiquei muito mais próximo do partido.

Foi só em 1989 que oficializei minha filiação ao PCdoB, que foi o primeiro e será o único partido que militarei. Já viajei para várias cidades do pais e como todo bom comunista onde a gente chega se apresenta ao partido e se coloca à disposição.

Vim para Passo Fundo em 2004, e assim o fiz, me apresentei e logo estava na luta. Me lembro que tínhamos um fusca para fazer campanha. O camarada Juliano Roso concorria reeleição, o mais engraçado é que ninguém tinha habilitação no partido aqui em Passo Fundo então eu passei três meses mais com o juliano do que a família. Mas no fim deu tudo certo.

Quando aqui cheguei o partido era pequeno, mas os camaradas se multiplicavam na hora da campanha. Eu tenho muito orgulho de fazer parte das fileiras do PCdoB, partido mais antigo do Brasil, presente nas principais batalhas e jornadas da nação e da classe trabalhadora, cumprindo uma agenda que ajudou a construir o Brasil e a formar uma consciência patriótica, nacional e popular. 

NEI ALBERTO PIES: Desde quando nutres sentimentos, curiosidades e apegos com a cidade de Passo Fundo, RS (infância, juventude e momento atual).

Bem o meu primeiro contato com a cidade de Passo Fundo se deu através da música. Sim, pois meu pai levantava cedo para trabalhar e naquela época o rádio era o principal instrumento de comunicação de massa, então ele ligava na Rádio Globo RJ e todos os dias ouvia um programa chamado a Impecável Maré Mansa, era um programa de misturava noticia e música. Tocava de tudo. Desde Luiz Gonzaga a Teixeirinha que o locutor chamava de O Cancioneiro Gaúcho.

A música que mais tocava era Coração de Luto, mas um dia tocou Gaúcho de Passo Fundo e eu deitado, com sono, ouvia aquela canção e ficava imaginando onde ficava Passo Fundo.

Passados alguns anos me casei com uma Passofundense, me separei e já em Passo Fundo conheci a minha atual companheira com quem vivo a 14 anos, ela é da fronteira, mais precisamente de São Borja. Desde que aqui cheguei sempre fui muito tratado por todos, a cidade é muito boa de se morar, as pessoas são muito receptivas.

NEI ALBERTO PIES: Qual é, na tua visão, a importância dos partidos políticos, dos sindicatos, das organizações sociais, dos grupos de juventudes para a manutenção dos direitos sociais e da própria democracia?

Na nossa experiência histórica, as noções de partidos políticos e de democracia (Governo do povo para o povo) estão intimamente ligadas, pois a divulgação, pelos partidos, de diversas doutrinas filosóficas e politicas existentes no mundo tem fomentado o debate e a busca por soluções para as diversas mazelas que afligem a nossa sociedade, favorecendo a formação de opinião sobre as principais questões que envolvem o país e o amadurecimento do eleitor para o exercício da democracia.

Nunca é demais recordar que, ao longo da história, os trabalhadores travaram uma árdua luta para legitimar o sindicato como escudo, diante da desigualdade na relação com o empregador. Quando o trabalhador se une ao sindicato, ele se fortalece, pois dá à instituição poder efetivo para defendê-lo do facão da demissão e da submissão à empresa; para negociar por ele; para ajudá-lo a resolver os problemas do trabalho etc. é preciso conscientizar os trabalhadores da importância do fortalecimento da instituição sindical.




“Neste contexto de mundo individualizado e de redução de direitos e garantias trabalhistas, nos desafiamos a avaliar o papel contemporâneo dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras, uma vez que são, essencialmente, organizações de defesa de interesses coletivos”. (Nei Alberto Pies)




Como já dizia o filósofo Karl Marx “Mudanças na sociedade ocorrem a partir da ebulição dos movimentos sociais: contra o capital e o Estado”.

Os Movimentos Sociais são de extrema importância, porque cobram mudanças, reivindicam transformações, mostram quando a povo não está satisfeito com as medidas adotadas por governantes, dirigentes e gestores, além de cobrar medidas, quando necessário, porém os Movimentos Sociais perderam força com o passar do tempo. Os movimentos sociais nos anos 60/80, diferem dos ideais dos movimentos na atualidade.

O individualismo, egoísmo, concorrência desleal, inveja, ambição, alienação imposta pelo avanço tecnológico e no mundo globalizado vem impedindo que pessoas se unam para cooperar, ajudar e reivindicar o bem comum.

Em se tratando da juventude brasileira está tem se mostrado resistente aos processos antidemocráticos instaurados no país. Desde a ditadura militar, até o golpe parlamentar contra a presidente Dilma, o entusiasmo dos estudantes ocupa as ruas em defesa da democracia e pela educação pública, gratuita e de qualidade.

Entender o processo de representação da juventude ao longo de nossa história recente torna-se fundamental para compreender a conformação de novas políticas que colocam o jovem como sujeito capaz de refletir e agir sobre a própria história.

NEI ALBERTO PIES: Como a cultura e o povo carioca construíram um político tão emblemático como Jair Messias Bolsonaro, hoje, nosso presidente da República?

Bolsonaro é o extremo e a cara da elite carioca, que tem medo da democracia, porque esta tem o poder de mudar a face do país.

Porque democracia inclui os pobres, gente que a elite do Rio sempre tentou deixar de fora do jogo democrático, basta lembrarmos do Governo Garotinho que fazendo o jogo das elites começou a fazer os chamados piscinão nos bairros periféricos da cidade do Rio de Janeiro, iludindo os pobres destas comunidades de que estava lhes proporcionando lazer mais próximo de casa quando na verdade a única intenção era afastar o que os moradores da zona sul do Rio costuma chamar de suburbanos das praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca.

Como lembra o sociólogo Jessé de Souza: “salvo raríssimas exceções, nossa democracia é uma farsa”.

Bolsonaro sempre foi eleito pelo eleitor que vomita conceito de meritocracia sem se dar conta de que na estrutura de poder no Brasil, sempre tiveram mais oportunidades que as classes populares e sua ascensão política também se deu no vácuo do poder que a elite gerou no movimento pelo Impeachment de Dilma.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase, um incentivo, um desafio a todos os que ainda acreditam num país mais justo, mais democrático e com mais inclusão social.

Nesses tempos difíceis não podemos deixar que a realidade corroa a alma. Precisamos de atitude, ação. Tomarmos a frente. Ter consciência do momento perigoso que vivemos e não fugir a luta. Pois não há vitória sem luta.

Seis meses de (des)governo

Desde a campanha presidencial,
uma cultura de culto ao ódio foi desenvolvida
e, agora, se cristaliza.

Passados seis meses do (des)governo Bolsonaro me pergunto sobre o inexplicável Brasil que parece gostar de  amedrontar e sabotar a si mesmo.

O que temos visto é um presidente atrabiliário e peripatético: O que diz pela manhã está sempre sujeito a mudanças repentinas  à tarde.

Na demência bolsonariana não faltou até mesmo a sugestão de armar a população para fins políticos, para acuar imaginários inimigos externos  e o Congresso, no melhor estilo chavista, que tanto o ex-capitão critica. Seria ele um chavista de direita?

Desde a campanha, uma cultura de culto ao ódio  foi desenvolvida e, agora, se cristaliza.  Ele, e seus  seguidores, tratam de repor o que nós temos  de pior e que não foi superado ao longo do tempo.

O bolsonarismo surge  das entranhas  da nossa história de opressão, de  humilhação.  Um passado que nós estávamos buscando superar.

“Nossa sociedade conviveu com a escravidão e preservou, mesmo na contemporaneidade,  uma espécie de ritual  nacional de oposição  às  distâncias  sociais, de gênero, de  religião, de raça, quando na prática  e no cotidiano  as reitera”, assevera a historiadora e antropóloga  Lilian Schwarcz, no livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro.

O bolsonarismo representa esta execrável reiteração. Nestes seis meses, deixou claro que quer destruir a educação, as ciências, a cultura, o meio ambiente, as reservas indígenas, os direitos trabalhistas e das minorias, as leis de trânsito, a aposentadoria dos humildes.

De janeiro a junho Bolsonaro e seus ministros mostraram-se personagens de uma mediocridade tão ostensiva que disfarçá-la  tornou-se  impossível. Isto ecoou até no exterior. Os patéticos personagens bolsonaristas  parecem odiar  a inteligência  ou  com ela  não possuir a mínima afinidade.

O ministro da Educação, por exemplo, conseguiu confundir o escritor Franz Kafka com um prato típico árabe. Se não bastasse, ao acusar Lula e Dilma de possuírem asseclas, os chamou de “acepipes”. Uau!!

O “ilustrado ministro”, não por acaso, quer acabar com as universidades públicas. Para quem é tão medíocre, a inteligência alheia deve ser  estarrecedora.

Já a ministra da Agricultura, ao longo deste semestre, autorizou a  liberação de mais  de  230 pesticidas, a grande maioria  condenada na Europa, por prejudiciais à saúde.  Na Amazônia, em maio, a devastação bateu recorde.  É o paraíso do veneno e da moto-serra!

Sérgio Moro, o “herói” do bolsonarismo, está em processo de  desmoralização em decorrência  da comprovação  do que já era  sabido até pelo reino mineral, isto é, seus  capciosos julgamentos com viés ideológico inegável.

A forma como a economia está sendo conduzida deixa claro  que continuará em estado  letárgico. Os resultados pífios dos  últimos meses, mostram  a incompetência da equipe do Chicago Boy Guedes, que só pensa em ferrar  os aposentados. A crise na economia é, acima de tudo, uma crise de inteligência estratégica.

Enfim, o  (des)governo Bolsonaro  tem se  caracterizado por aprofundar a crise e a separação dos  brasileiros  em lugar de harmonizá-los.

A construção de uma sociedade civilizada não faz parte  da agenda  do “mito” e de seus  asseclas (acepipes?), como diria  o ministro da Educação.

Sou obrigado a me valer, novamente, de  José Saramago: “ Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”.





“Sabemos que um dos grandes problemas da instabilidade social é o desemprego e a grave concentração de renda. A dominância financeira é um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento país. Não há economia que resista aos vampiros que estão tomando conta do banco de sangue brasileiro. Só não vê quem não quer”. (Setembrino Dal Bosco)

Veja também