Nós, setentões, tivemos o privilégio e o desgosto de participar de toda essa história. Temo pelo futuro onde se supõe que somente militares são honestos e capazes de acabar com as falcatruas no Brasil.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, há 50 anos, o período das passeatas e dos festivais de música popular, conheceu um amargo desfecho quando a ditadura militar escancarou-se com a decretação do AI 5. Abriu-se um novo ciclo de cassações de mandatos, perda de direitos políticos e expurgo no funcionalismo, abrangendo muitos professores universitários.

Escancarada, desavergonhada a ditadura afirmou-se. A tortura foi o seu instrumento extremo de coerção e o extermínio, o último recurso da repressão política que o Ato Institucional nº 5 libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada foi substituída por um regime ao um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões. Foram os Anos de Chumbo.

Estabeleceu-se, na prática, a censura aos meios de comunicação e, um dos muitos aspectos trágicos do AI.5, consistiu no fato de que reforçou a tese dos grupos de luta armada.

Aqui em Passo Fundo, em 14 de dezembro, um dia após a promulgação do AI.5, um discurso proferido pelo paraninfo da turma da Faculdade de Filosofia da Universidade de Passo Fundo, padre Alcides Guareschi, vice-reitor da instituição, causou grande repercussão.

 Ao saudar os formandos, referiu-se a Ernesto Che Guevara e citou trechos da letra da canção de Chico Buarque, Pedro Pedreiro: “Pedro Pedreiro não sabe, mas, talvez, no fundo espera alguma coisa mais linda que o mundo, maior que o mar… Mas, pra que sonhar se dá o desespero de esperar demais ?”.

 A mensagem central do discurso era a importância de dedicar-se a um ideal. O discurso ganhou repercussão após sua publicação e foi interpretado como pregação subversiva. O comandante da unidade local do Exército, capitão Grey Belles exigiu a cassação do vice-reitor da UPF, coisa que não aconteceu.

O episódio é revelador do grau de repressão e de censura que o país passou a viver com a vigência do AI.5 no final de 68, mesmo em comunidades pequenas como Passo Fundo.

Foi um ano que começou tranquilo: o Brasil preparava-se para viver seu “milagre econômico” e Costa e Silva governava com a Constituição, sem atos institucionais. Os Estados Unidos pensavam em como se livrar do Vietnã, o Império Soviético parecia ter tudo sob controle do lado de lá “da cortina de ferro”, as economias ocidentais estavam no auge.

De repente, veio maio na França. Os protestos universitários franceses contra a rigidez da estrutura de ensino de seu país foram reprimidos violentamente pela polícia de De Gaulle. Grande parte da população apoiou os estudantes.

Os operários entraram em greve e a reorganização da sociedade era discutida em vários centros. Os conflitos tomaram as ruas e a repressão foi intensa. As idéias, entretanto, influenciaram o movimento estudantil mundial.

E vieram os hippies e o “Paz e amor”. E mais bombas de napalm no Vietnã, LSD, Tropicalismo, Comando de Caça aos Comunistas, Panteras Negras, Festivais da Canção, Luta Armada, psicodelismo, “ É Proibido Proibir”, Jimmi Hendrix, Geraldo Vandré, Bob Dylan, Janis Joplin, Beatles, Rolling Stones, Primavera de Praga, Roda Viva, Caetano, Gil, Chico Buarque, Glauber Rocha, Cinema Novo, Os Mutantes….

O ano não admitiu neutralidade frente aos movimentos de contestação que se seguiram. A revolta dos estudantes, em praticamente todos os países do mundo, resultou num profundo questionamento dos autoritarismos de direita e de esquerda, da política tradicional, dos costumes, e introduziu novos valores na ordem do dia: o pacifismo, o feminismo, a ecologia, a contracultura, a música de protesto, as drogas, o som pop, o direito das minorias, a liberação sexual.

Entretanto, o ano terminou mais sombrio do que começou: Bob Kennedy e Martin Luther King foram assassinados nos Estados Unidos; a intervenção soviética na Tchecoslováquia acabou com o sonho de “um socialismo com rosto humano”;De Gaulle retomou o controle na França.

No Brasil, tomando como pretexto o tolo discurso do deputado Márcio Moreira Alves, que propôs que as famílias sabotassem os eventos militares da Semana da Pátria, não comparecente aos desfiles de 7 de setembro, e que as moças casadouras se recussavem a dançar com os jovens cadetes e oficiais das Forças Armadas nos bailes da semana ( Operação Lisístrata,da Grécia antiga), o presidente Costa e Silva, assinou o mais radical dos Atos Institucionais da ditadura.

O AI-5 só seria revogado em outubro de 1978, após uma resistência da imprensa alternativa, das redes de exilados, dos autores, cantores, compositores e cineastas “malditos” que não deixaram em paz os corações e mentes dos brasileiros. Nós, setentões, tivemos o privilégio e o desgosto de participar de toda essa história.

Hoje, passados 50 anos daqueles duros tempos, temo por nossas instituições democráticas depois da vitória de Bolsonaro que vem montando um governo onde se destacam generais – nenhuma objeção é legal –, porém, uma decisão estranha na história da República, partindo da suposição de que somente os militares são honestos e podem acabar com as falcatruas no País, e, um verdadeiro “taleban” de pastores evangélicos, como uma agenda obscurantista e das mais reacionárias já vistas em nossa história, que nos remete a um retorno à Idade Média.

Um pouco de história sobreos Anos de Chumbo no Brasil.

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