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Família de Nazaré ensina a cuidar da vida

Chama atenção um presépio com vestes diferenciadas dos personagens do Natal numa igreja de Passo Fundo, RS. Personagens desta festa cristã usam jalecos da saúde e máscaras de proteção ao Covid.

Pela sua encarnação, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada ser humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado.

No momento em que estávamos planejando a montagem do presépio na Paróquia Santo Antônio, em Passo Fundo, me veio à mente aquela frase do Evangelho de São João, capitulo 1, 14 que diz: E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós.

Se no Natal celebramos, não propriamente o aniversário de Jesus, mas a sua encarnação que repercute até hoje, então, Natal é sacramento, acolhimento do mistério, que acontece dentro do contexto no qual estamos inseridos.

O próprio Papa Francisco lembra que Jesus é um de nós, que Deus, em Jesus, é um de nós. Deus não nos desprezou, não olhou para nós de longe, não se vestiu com um corpo aparente, mas assumiu plenamente a nossa natureza e condição humana. Toda a humanidade está n’Ele. Ele assumiu tudo o que somos, tal como somos, por isso tivemos a ideia de fazer um presépio com traços da realidade atual, no caso, a pandemia, onde as pessoas ainda usam máscaras como parte do protocolo de saúde.

A família de Nazaré nos ensina que é preciso cuidar da vida, que não podemos, em nome de fanatismos e ideologias, menosprezar a ciência e a inteligência humana dada por Deus, como forma de participar da obra da criação.

As imagens do presépio na igreja matriz, querem chamar atenção para esta importância do cuidado e, homenagear todos os profissionais da saúde que muito se dedicaram, cuidando e consolando tantas pessoas, muitas vezes colocando em risco a própria vida.

A pandemia nos obrigou a estar mais distantes, mas Jesus, no presépio, mostra-nos o caminho da ternura para estarmos próximos e para sermos humanos e responsáveis uns pelos outros.

Que o Natal seja abençoado e Feliz para todos!

Assista vídeo postado na página da Rádio Planalto: https://www.facebook.com/watch/?v=213323977614000

Padre Ladir Casagrande

Educação na era digital

A tecnologia em geral, as ferramentas digitais e a inteligência artificial não foram construídas para melhorar a vida humana?

Nossa vida está impactada negativamente pela falta de tempo, pelo estresse e pela ansiedade. Nossa vida apresenta mais tarefas para realizar e menos tempo livre para viver.

Em nossa vida, surgem mais pessoas sem casa para morar e comida para se alimentar. A nossa vida social demonstra aumento do medo da insegurança pessoal, da desinformação e desorientação. Mas a tecnologia em geral, as ferramentas digitais e a inteligência artificial não foram construídas para melhorar a vida humana?

Para um bom entendimento da palavra educação, precisamos relacionar com pedagogia, que tem um sentido na origem vinculado ao orientar ou conduzir a criança. O filósofo gregro Sócrates foi responsável por demonstrar a necessidade de substituir o sentido de  transmitir pelo sentido de refletir e construir.

No final do século XX um pensador mundialmente referenciado é Paulo Freire defendeu a reflexão, a construção e o protagonismo de quem aprende,  em um dos seus livros mais famosos,  Pedagogia do Oprimido.

Cabe lembrar que Sócrates foi preso e condenado à morte por suas ideias, que Paulo Freire foi preso e teve que fugir do Brasil porque contribuiu para entender as dificuldades da democracia no século XXI em que as pessoas não tinham cultura nem acesso a uma pedagogia de autoconstrução livre e democrática.

Somos resultados de memórias transgeracionais e de cuidados. Os limites da evolução humana estão condicionados aos referenciais epistemológicos, que são os sentidos conscientes e inconscientes que orientam nossa ação e nossa existência.

Você considera importante cultivar o hábito de pensar? Quais são os referenciais que te orientam? Para onde está indo e para para onde quer e pode ir?

Estamos inseridos em uma realidade em que o impacto das ferramentas digitais e da inteligência artificial devem ser analisadas.

A tecnologia, em geral, é uma maravilha da inteligência humana, foi construída para nos servir e não para nos escravizar. Refletir a este respeito é um hábito para quem deseja participar ativamente na construção da realidade das próximas gerações.

Você está sendo convidado para saber mais sobre estes assuntos que impactam a tua vida, na companhia de reconhecidas lideranças sociais e acadêmicas. Contamos com o seu engajamento:

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Desenhos de árvores das crianças podem indicar suas personalidades

Que tenhamos um olhar mais sensível as coisas que as crianças desenham e possamos junto com elas descobrir seus conceitos. Não sejamos tão adultos com as crianças.

Na sua bela música o cantor Toquinho nos diz em seus versos “Numa folha qualquer / Eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / É fácil fazer um castelo”.

Assista: https://youtu.be/_atUmJbmrn4?t=2

A arte de desenhar e mostrar-se através dele, mostrar o seu eu mais íntimo, o seu jeito de pensar e entender o mundo. Desenhar um sol, uma lua, uma casa ou uma árvore. Apresentar às crianças desde a tenra idade a arte de sair por aí riscando paredes, papéis, chão e tudo o que encontrar pela frente com rabiscos de gente, bicho e árvore.

Desde os primórdios das civilizações que o homem se comunica através do seu desenho. Sem o alfabeto, o homem das cavernas desenhava o seu cotidiano nas suas paredes. Alguns desenhos são conservados e estudados pelos arqueólogos até hoje. Desenhos que representam o pensamento e registram a vida desses homens muitas vezes caçando comida para as suas famílias.

O filósofo Platão não gostava de imagens. Dizia que elas enganavam o homem no seu mito da caverna. Para ele, as imagens pertenciam a um submundo, ao mundo da ignorância, porque interpretá-las poderia levar ao erro e a falsa opinião. Os homens que vivem acorrentados na sua famosa caverna só viam imagens diante de si o tempo todo e eram elas que lhes passavam uma ideia da existência de outras coisas, as sombras.

No entanto, as imagens foram se adaptando a vida rural e urbana dos homens e surgiram os primeiros pintores, os retratistas, os desenhistas. Aqueles que não conseguem se expressar sem ser através delas. A fotografia tornou a imagem algo mais espetacular e mágico, sem esquecer do desenho realista que é de uma excelência e técnica singular.

Eu, particularmente, sou uma apaixonada pela arte do desenho. Creio que toda criança devia começar a pegar no giz de cera desde os seus primeiros dias de vida. Fazer dele o seu brinquedo. Ter contato com ele. Tornar-se seu amigo íntimo e riscar o que puder.

Tem gente que diz não saber desenhar. Eu não acho ser isso possível. Todos nós temos um pouco dessa arte dentro da gente. Há pessoas que levam a arte muito a sério, e julgam o trabalho alheio como feio, sem técnica, sem emoção e sem maturidade. Existe muita gente chata no mundo que só sabe criticar fazendo com que o precoce artista volte para o seu casulo e nunca mais dele queira sair. Isso é triste. Eu já sofri com críticas desse jeito. Mas, não dei importância para elas. A gente tem que se posicionar, um dia, sobre a melhor forma de representarmos o nosso eu interior e as coisas ao nosso redor.

Claro que há grandes desenhistas ao redor do mundo que usam técnicas maravilhosas e conseguem desenhar de uma forma esplêndida. Porém, devemos respeitar também aqueles que estão começando, dando os seus primeiros passos, despertando para o talento.

É tão difícil alguém criar coragem para mostrar a sua arte ao mundo, muitos artistas nunca serão reconhecidos devido a timidez e o fato de não se acharem tão bons o quanto são. Eu tinha essa dúvida ao meu respeito e ainda trago em mim um pouco de críticas a mim mesma sobre melhorar cada vez mais.

As crianças gostam de desenhar as coisas ao seu redor. Os desenhos mais comuns são de gatos, cachorros, casas, nuvens e o sol. Muitas vezes elas interpretam uma história ouvida através do desenho. Neste momento divagam nos seus pensamentos e criam desenhos os mais diversos.

Há várias maneiras de desenhar que as crianças encontram. Algumas preferem usar apenas um pequeno espaço da folha, às vezes um canto dela, outras escolhem o meio da folha e ainda têm aquelas que desenham ou na parte superior ou na parte inferior. Tem desenho pequeno e desenho grande. Tem criança que só gosta de desenhar e não de pintar. Tem aquelas que levam horas pintando.

Quando se fala em conhecer o objeto ou a pessoa que será desenhada pela criança me vem à mente a necessidade que ela tem de conhecer as árvores para realizarem o Teste da Árvore que será mencionado mais abaixo, ou seja, qual a importância do objeto que se está sendo desenhando para ela e para o mundo, o que esse objeto oferece de bom para ela, o motivo pelo qual ele precisa ser preservado para manter o mundo cada vez melhor, por isso é importante que os pais levem seus filhos para terem contato logo cedo com as árvores. Assim, despertará neles o afeto por elas e a curiosidade de saber o que as fazem tão importantes e singulares às pessoas ao seu redor.

O desenho além de ser uma forma de distração e uma arte também serve como teste psicológico para descobrir a personalidade da criança. Sim, descobri outro dia o Teste da Árvore que consegue identificar a forma como a criança enxerga o mundo e as coisas ao seu redor através do seu desenho de uma árvore. Achei bem interessante este teste e o trago hoje para vocês conhecerem e fazerem com os seus alunos. Claro que o resultado real precisará ser feito através de um profissional de psicologia.

Sabemos que o desenho é um dos meios de expressão através dos quais as crianças expressam seus sentimentos, medos, preocupações e ilusões. A forma como elas desenham pode variar conforme o passar dos anos, assim como a forma que pensam e veem o mundo, então tudo é relativo e nada deve causar espanto ou preocupação, de imediato. O Teste da Árvore serve como uma forma de conhecermos mais detalhadamente as nossas crianças, e passarmos a atendê-las dentro das suas necessidades.

O Teste da Árvore é uma técnica muito fácil de ser aplicada, e pode ser feito com criancinhas ainda na tenra idade, mesmo que ainda não saibam desenhar direito. Ele vai nos indicar o eu da criança e as suas visões do mundo. Talvez com esse teste possamos descobrir melhor o motivo de alguns comportamentos das nossas crianças, de algumas atitudes e palavras que elas dizem ou até mesmo deixam de dizer. Acredito ser um teste importante para pedagogos, pais, responsáveis e aos psicólogos que são os profissionais especializados em aplicar o teste.

Ele pode ser aplicado a partir dos cinco anos de idade, quando a maioria das crianças já domina as habilidades básicas de desenho, para poder delinear melhor os elementos que compõem a árvore. O mais importante é que os adultos não lhe deem nenhuma ideia de como a árvore deve ser, a criança deve se sentir completamente livre para desenhá-la como quiser.

Quanto ao desenho do solo representa o ponto de contato com a realidade; portanto, quando não está presente, pode significar que a criança se sente insegura ou instável. Também pode significar não esteja suficientemente enraizada ou que precisa encontrar seu próprio espaço.

Ao contrário, a presença do terreno indica segurança e autoconfiança, principalmente quando traçadas com linhas retas, que indicam clareza de ideias e estabilidade emocional. Um piso ondulado pode ser um sinal de sensibilidade e tendência a evitar brigas. No entanto, é importante saber que antes dos nove anos de idade, muitas crianças não desenham o chão, e isso não significa que haja um problema.

O desenho das raízes que fornecem à árvore os nutrientes de que ela precisa para crescer, além de apoiá-la. Na teoria psicanalítica, as raízes representam o “ele”, isto é, a parte mais instintiva e oculta da mente. Quando omitido no desenho, pode significar que a criança tem medo do mundo ou se sente vulnerável.

Quando desenhadas em proporção, indicam que há um bom desenvolvimento emocional e que a criança se sente amada e aceita. De fato, uma árvore com muitas raízes é geralmente um sinal de um apego positivo. No entanto, crianças com menos de 9 anos de idade às vezes não desenham as raízes.

O desenho do tronco que é um dos elementos mais significativos da árvore, por isso está diretamente associado à identidade pessoal e a como lidar com o mundo. Se o tronco é muito fino e fraco ou possui linhas irregulares, provavelmente é um indicador de uma personalidade sugestiva e de medo de enfrentar um mundo considerado perigoso. Quando o tronco tem buracos, pode indicar um vazio emocional profundo.

Pelo contrário, um tronco grosso desenhado com linhas firmes indica uma personalidade forte e valores bem definidos, além de ser um sinal de autocontrole e disciplina. No entanto, se o tronco é muito grosso, pode ser um indicador de agressividade, características narcísicas, teimosia e tendência ao autoritarismo.

O desenho da copa e dos galhos que é a parte superior e mais visível da árvore, portanto elas representam os relacionamentos da criança com o resto das pessoas, bem como seus sonhos e aspirações. Antes de analisá-lo, é essencial saber que as crianças mais novas provavelmente não desenharão os galhos, pois não alcançam esse nível de detalhe, o que não significa que haja um problema.

Se os galhos e a copa dão um aspecto raro à árvore, isso pode refletir traços de personalidade, como excentricidade ou desejo de atrair atenção. Se os galhos forem muito pontudos ou com linhas muito retas, é provável que oculte uma tendência a ser agressivo e / ou impulsivo. Quando a copa é muito pequena, pode indicar timidez, introversão e retraimento. Se a criança acrescenta frutos à árvore, geralmente indica uma personalidade sociável e generosa.

A análise do Teste da Árvore deve ser levada a sério se feita por um psicólogo, pois ele saberá como cuidar da sua criança. Como disse acima, não se assuste se obter resultados que não são desejados, pois as crianças tendem a mudar o seu eu interior a partir dos anos e nem sempre pode ser um sinal indicativo de problemas se o desenho da criança apresentar um desses aspectos ditos acima.

Tudo é uma questão de comportamento e de subjetividade. Muitas vezes, a criança pode nem ter problema nenhum emocional e desenhar de uma forma completamente diferente daquela que esperávamos. É preciso saber que a arte se modifica em cada criança e que ao passar dos anos com a experiência adquirida tendemos a melhorar ou não os nossos desenhos.

Este ensaio de hoje teve a colaboração da minha psicóloga que me emprestou um livro falando sobre o Teste da Árvore e me falou um pouco sobre ele. Sou grata a minha psicóloga querida. A análise de desenhos por parte de psicólogos é uma rotina nos seus consultórios porque facilita a identificação do problema emocional da criança e uma forma maravilhosa de descobrir a personalidade daquele serzinho que está começando a conhecer o mundo e as pessoas ao seu redor.

No meu projeto voluntário com crianças que realizo há mais de vinte anos existe uma seção para o desenho. Observo a forma como elas se comportam quando estão desenhando e algumas ficam tão envolvidas com o desenho que se deitam no chão e passam um bom tempo a desenharem seus objetos e pessoas.

As crianças costumam desenhar de forma real os seus cotidianos e de forma imaginária aquilo que escutam. Se a história é bem contada e cheia de detalhes elas passam tudo isso para o papel. As mais pequeninas preferem fazer riscos e depois explicarem o que eles significam. Sempre é algo ou alguém conhecido delas. Guardo na minha casa vários desenhos de crianças desde o ano 2000 quando começou o projeto e sem esquecer de dizer que sou ilustradora e todos os dias faço um desenho, arte que trago desde a minha infância.

Para finalizar este texto trago um fragmento do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint Exupéry que nos diz “Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me “Por que um chapéu daria medo?” Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas.”

Que tenhamos um olhar mais sensível as coisas que as crianças desenham e possamos junto com elas descobrir seus conceitos. Não sejamos tão adultos com as crianças.

Este texto foi traduzido livremente e adaptado do site https://www.etapainfantil.com/test-arbol-descubre-personalidad-hijo-dibujo.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Vida ou liberdade: sério!?

A sociedade brasileira não suporta tantas violações de direitos humanos, por ação e omissão do governo federal no enfrentamento da pandemia.

“Às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade” é uma das afirmações do Ministro da Saúde em Entrevista Coletiva [1] na qual apresentou a posição do governo diante da recomendação das autoridades de vigilância sanitária para adoção de passaporte vacinal para ingresso de estrangeiros no país. O fez na antevéspera do Dia Mundial dos Direitos Humanos. Justificou-se invocando a necessidade de proteção dos direitos individuais, das liberdades individuais.

Posições deste tipo vêm se repetindo. A liberdade individual é invocada como absoluta, ao modo do egoísmo individualista, como se virtude fosse, como se direito fosse.

Há que se diferenciar entre liberdade individual como direito e condição para o exercício dos direitos, e sua absolutização e, inclusive, da relativização de direitos tão fundamentais quanto ela, sacrificados em nome dela.

Os direitos, todos os direitos, são interdependentes e indivisíveis, diz a Declaração e Programa de Ação da II Conferência Mundial dos Direitos Humanos (Viena, 1993) [2]. E, se assim, impossível colocar a uns direitos em patamar distinto dos outros. A rigor, esta é mais uma das estratégias deste governo que, para sustentar seu negacionismo, adere à visão ultraconservadora que destrói os direitos humanos ao tempo em que os invoca, pois, falar assim, é usar os direitos humanos para relativizar direitos humanos, destruindo sua unidade.

O Brasil não está em guerra e nem o Ministro da Saúde está falando às tropas que se preparam para algum combate. Este tipo de chamada lembra aquela das falanges franquistas na Guerra Civil espanhola. Ouvidos mais apurados devem ter escutado sussurros na sala onde se dava a Coletiva com o ressoar do: “Abajo la inteligencia, Viva la muerte!”, como nos idos de 12 de outubro de 1936, nos salões da Universidade de Salamanca, diante do reitor Unamuno, e na boca do oficial franquista José Milan Astray. Teria sido uma nefasta coincidência.

Em que circunstância (“às vezes”) seria desejável “perder a vida”? Nem na guerra – ou não se discursa que todo o maior esforço de guerra é sempre perder o menor número possível de vidas? A fala do Ministro não caberia nem para animar a uma guerra.

Outro absurdo dito na Coletiva foi que defender a vacinação equivaleria a defender uma prática desigual e discriminatória: “não se pode discriminar as pessoas entre vacinadas e não vacinadas para a partir daí impor restrições”. Desigual e discriminatória seria se houvesse distinção por alguma razão de gênero, raça/etnia, geração. Não é o caso! Aliás, pelo contrário, as Nações Unidas, em Resolução sobre o tema, “insta encarecidamente a todos os Estados a que se abstenham de adotar medidas econômicas, financeiras ou comerciais que possam afetar negativamente o acesso equitativo, aceitável, justo, oportuno e universal às vacinas contra a Covid-19, em particular nos países em desenvolvimento” (tradução livre) [3].

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) também emitiu uma Resolução sobre vacinas contra a Covid-19. Talvez seja oportuno sugerir sua leitura e seu seguimento pelas autoridades brasileiras, já que estão submetidas ao direito internacional dos direitos humanos por força da adesão aos Tratados Internacionais dos Direitos Humanos.

Na Resolução n. 1/2021 [4], a CIDH/OEA diz que “é imperativo que se promova a distribuição justa e equitativa das vacinas e, em particular, torná-las acessíveis a um preço razoável para os países de renda média e baixa. A equidade deve ser o componente-chave não só entre países, mas também dentro dos países para poder pôr fim à fase aguda da pandemia”. Diz que o objetivo da referida Resolução “é contribuir para que os Estados assumam o alcance de suas obrigações internacionais no contexto das decisões sobre vacinação, a fim de garantir os direitos humanos, especialmente o direito à saúde e à vida”. Também afirma que “de acordo com o princípio de igualdade e não discriminação, o acesso universal e equitativo às vacinas disponíveis constitui uma obrigação de imediato cumprimento por parte dos Estados, motivo pelo qual as vacinas, tecnologias e tratamentos desenvolvidos para enfrentar a Covid-19 devem ser considerados como bens de saúde pública, de livre acesso para todas as pessoas”.

Na mesma Resolução há seis recomendações a respeito do “acesso a vacinas, bens e serviços de saúde em atenção ao princípio de igualdade e não discriminação”;  quatro a respeito da “distribuição e priorização de doses de vacinas”; cinco a respeito da “difusão ativa de informação adequada e suficiente sobre as vacinas e combate à desinformação”; quatro a respeito do “direito ao consentimento prévio, livre e informado”; quatro a respeito do “direito de acesso à informação, transparência e combate à corrupção”; oito  tratando de “empresas e direitos humanos com relação às vacinas contra a Covid-19”;  e quatro sobre “cooperação internacional”.

O Ministro também disse que exigir um passaporte criaria: “mais discórdia do que consenso”. Incrível a postura seletiva: para certos temas haveria que ter consenso, para outros melhor que se espalhe a discórdia. Aliás, o que tem feito o senhor Presidente senão que espalhar discórdia, notícias falsas, sugerir medicamentos ineficazes, afrontar as autoridades sanitárias, contra todos os consensos, como o de que é preciso usar máscara, e que o vacinar-se é uma das mais profícuas medidas de proteção de si e, mais do que de si, também dos/as outros/as, para reduzir a força de transmissão do vírus.

Um governo que o tempo todo se faz espalhando discórdia, agora quer consenso?

Nem cabe consenso para o caso, visto que não é um tema de escrutínio da soberania popular, pois não está à disposição para consulta pública, para o voto, decidir se certas medidas sanitárias devem ser tomadas ou não.

Como já alertou o grande filósofo J. Habermas, há questões que não podem estar à mercê de maiorias de ocasião. E, ainda que fossem submetidas à vontade popular, posições contrárias à vacinação, por exemplo, certamente perderiam por maiorias acachapantes, vide o alto percentual de brasileiras e brasileiros que compareceram aos locais de vacinação e voluntariamente a ela se submeteram.

Mais uma vez o Ministro confunde e desqualifica o debate democrático e os direitos humanos.

A sociedade brasileira não suporta tantas violações de direitos humanos, por ação e omissão do governo federal no enfrentamento da pandemia. As muitas denúncias [5] já feitas aguardam procedimentos de seguimento e responsabilização. É isso que se espera neste momento: por justiça às vítimas.

No dia mundial dos direitos humanos nos colocamos de pé para exigir direitos e para denunciar a todos e todas que usam dos direitos humanos para interesses contrários aos direitos humanos, para atacar e destruir os direitos humanos. A dignidade não está disponível. Viva a vida! Viva os direitos humanos, já!

Autor: Paulo César Carbonari [*]

Notas

[*] Doutor em filosofia (Unisinos), membro voluntário do NEP/CEAM/UnB, membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil).

[1] Realizada em 08/12/2021. Ver https://g1.globo.com/saude/noticia/2021/12/07/melhor-perder-a-vida-do-que-a-liberdade-diz-queiroga-veja-analise-de-frases-e-medidas-sobre-viajantes.ghtml

[2] Ver www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/viena.htm

[3] Resolução A/HRC/46/L.25/Rev.1 do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH/ONU).

[4] Ver em www.oas.org/pt/cidh/decisiones/pdf/Resolucion-1-21-pt.pdf

[5] Ver documentos em https://dhsaude.org.

Edição: Alex Rosset

Da vida e de suas antíteses

Vida e morte é a antítese mais verdadeira que existe.

Há relutância em escrever sobre um tema que é muito caro para todos: a morte. Mas é um tema necessário. Falar e escrever sobre a morte é assunto que circula em todas as redes sociais, sejam elas online ou presencial.

A pandemia potencializou essa temática.

Com a chegada do Natal e do final de ano, a morte de entes queridos deixa de ser uma ideia, a morte se materializa.

Sim, se materializa. Na ausência de alguns na mesa posta para ceia. Na carga de sentimentos como saudade, recordação, arrependimento, compaixão, apego, paz, amor, alegria, tristeza, compreensão, tolerância, intolerância, solidariedade, medo, angústia, ansiedade, piedade, ressentimentos, perdão, raiva, ódio, compaixão, gratidão…

Essa lista de sentimentos é infinita porque se trata das vivências terrenas.

Caro leitor(a), o acréscimo de sentimentos fica por conta do que se leva no coração e na alma. Depende de sua postura no mundo. De sua religiosidade ou de seu ateísmo. Do crescimento espiritual e intelectual. De seu posicionamento político. De sua classe social.  De sua dimensão humanista ou não… A lista é cheia de antíteses. Porque vida e morte é a antítese mais verdadeira que existe.

Vejo amigos e amigas vivendo essa antítese de várias formas. Eu também. Há quem perceba a morte como processo da própria existência dos seres nesse plano. Para esses, a morte é um até logo.  E, há aqueles que compreendem a morte como perda. Ambos, diante do inevitável fato, sentem ao seu modo. A dor do adeus ou do até logo não se mede.

Sabedores disso é que a corrente do “meus sentimentos”, “sinto muito”, “paz e luz”, “abraço fraterno” e “gratidão” se intensificou. A morte, provocada pelo vírus mundial e letal, despertou muito isso. Há um sentimento de injustiça que circula nesse evento, devido principalmente pelas desigualdades econômicas dos povos. A humanidade tende a se materializar, pois descobrimos o quanto de desumanidade carregamos. É uma tendência. Que bom!A melhor atitude notada nos últimos tempos, em relação à antítese vida x morte é o exercício da gratidão. E não é aquela palavra ao vento, dita de qual quer forma, é sentimento verdadeiro a quem fez a passagem. O melhor conforto é pensar no ente querido com o coração grato em ter a oportunidade de conviver. Acertar e errar. Aprender ou não. Amar ou não.                                                                               

Portanto, celebremos a vida! Qualquer vida. De todos os seres vivos de nossa convivência.

Para finalizar esta reflexão de forma carinhosa, diante de um tema não tão “leve” como a morte, resgato um fato ocorrido com uma prima.

Por ocasião da morte de parente de uma amiga, ela foi ao velório. Como o falecido não fazia parte de seu convívio, sequer o conhecia, tampouco seus familiares, exceto sua amiga, sua mente não estava focada no passamento, ao chegar na sala mortuária se dirigiu a pessoa que estava próximo ao caixão, estendeu a mão para o cumprimento e soltou um sonoro: PARABÉNS!!

Constrangimento total.

Hilário o fato. Mas trago a reflexão: – Por que não dizer parabéns?

Afinal, a vida merece um PARABÉNS!!

Somos vocacionados para a vida. Não deixemos que a morte nos recolha de uma vida sem sentido. Não deixemos que outras forças nos retirem o sentido de uma existência verdadeiramente humana, solidária, comprometida com todas as formas de vida. A curva biológica da nossa existência é muito curta para ser pequena. (Dirceu Benincá) Leia mais: https://www.neipies.com/o-ser-a-morte-e-a-vida/

Autora: Marta de Fátima Borba.

*Marta escreve regularmente em seu blog. Confira mais publicações de sua autoria: https://www.ditosenaoditos.com.br/

Políticas Públicas, Educação e Pandemia

O livro é composto por onze artigos que retratam o cotidiano de docentes durante o ensino remoto, suas angústias, ressignificações e desafios ainda enfrentados com o distanciamento físico.

O futuro da humanidade e do Brasil precisa ser construído com diálogo, envolvimento, comprometimento, reflexão, inteligência humana e afetividade. Para darmos este passo, precisamos de convicção e de segurança nos valores que devem orientar as relações dos seres humanos entre si e com a natureza.

A evolução humana depende da nossa capacidade de intencionamos e colocarmos em prática uma organização econômica em que as necessidades materiais básicas estejam disponíveis para todas as pessoas. A materialização desta realidade depende de políticas públicas, nas quais está integrada à educação.

No conteúdo do audiovisual, temos a apresentação do livro:  Políticas Públicas, Educação e Pandemia: os desafios impostos aos Estados e Municípios. Assista: https://www.youtube.com/watch?v=tMq_6WQTqdo

O livro foi idealizado pelas/os docentes da linha de pesquisa sobre Tecnologias, Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas, que pertence ao Grupo de Pesquisa em Linguagens, Tecnologias e Políticas Públicas (GPLTPP), lotado na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), em Erechim/RS.

O livro é composto por onze artigos que retratam o cotidiano de docentes durante o ensino remoto, suas angústias, ressignificações e desafios ainda enfrentados com o distanciamento físico. Também é possível compreender as conquistas de docentes durante esse processo, as mudanças nas relações interpessoais e as ferramentas adotadas para facilitar o processo educativo.

Tivemos a oportunidade de liderar a construção do artigo de abertura do livro com o título: “Docência em tempos de pandemia: o abismo entre a realidade institucional e a realidade humana que podemos construir”. Realizamos uma revisão assistemática da literatura com o objetivo de apresentar uma descrição geral dos desafios impostos para a prática docente no atual contexto de mudanças profundas.

“Os onze artigos que compõem esta obra retratam o cotidiano de docentes durante o ensino remoto, suas angústias, ressignificações e desafios ainda enfrentados com o distanciamento físico. (Natercia de Andrade Lopes Neta)

Acesse também link da Editora Schreiben para conhecer outros títulos: https://www.editoraschreiben.com/

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Que fazer das emoções na escola?

Quanto às emoções vividas na escola, em vez de programas de desenvolvimento das competências socioemocionais, talvez fosse melhor para o bem-estar e o desenvolvimento emocional de professores e estudantes que se assegurasse tempo e espaço na escola para dialogar sobre as próprias emoções em um ambiente seguro, oferecendo-se a possibilidade de reconhecê-las e aceitá-las como parte da condição humana, mas também perceber os seus efeitos e aprender a lidar com eles.

Nos últimos dois anos, eu fui chamada três vezes a me pronunciar sobre as competências socioemocionais, um indício de que esse tema encontra-se em evidência. Neste texto, retomo algumas reflexões realizadas nessas oportunidades.

Da primeira vez, tratava-se de avaliar a dissertação de mestrado Efeitos de um programa para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais em professores, defendida no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Recebi esse convite com uma certa má vontade, embora tenha aceitado participar. Por que a má vontade inicial, que eu inclusive confessei no dia do exame, logo no início da minha arguição?

Embora esteja relacionado às disciplinas de psicologia pelas quais eu sou responsável na Faculdade de Educação, esse tema não é a minha especialidade e eu não estava especialmente interessada em me aprofundar nele, considerava que a emergência das competências socioemocionais no discurso educacional correspondia a mais uma tentativa de normalização dos comportamentos. E a perspectiva assumida pelo trabalho sugeria uma adesão ao discurso das competências socioemocionais, enquanto eu estaria mais inclinada a realizar a sua crítica.

Uma vez que aceitei participar – e consciente da minha resistência inicial –, evidentemente procurei maneiras de encontrar valor no trabalho realizado. Um convite para uma banca é uma responsabilidade, aquele convite expressava a confiança da pesquisadora e da sua orientadora em meu trabalho, eu não podia simplesmente derramar sobre elas a minha má vontade. E, como o trabalho estava muito bem feito, não foi difícil valorizar a pesquisa realizada. Na verdade, eu acabei revendo a minha posição inicial, se não em relação ao tema, ao menos em relação ao trabalho realizado por Alcione Moreira Marques, autora da dissertação. Eu afirmei com sinceridade que ela se propôs a investigar uma questão importante e lembrei que naquela semana – foi em 2019 – o jornal O Estado de S. Paulo publicara uma notícia sobre a inclusão da síndrome de Burnout na CID – Classificação Internacional de Doenças pela Organização Mundial da Saúde.

A notícia dizia: “Segundo o Ministério da Saúde, a síndrome é comum em profissionais que atuam diariamente sob pressão e com responsabilidades constantes, como médicos, enfermeiros, professores, policiais, jornalistas, dentre outros”, sugerindo que a profissão docente é estressante.

Embora atribuísse importância ao desenvolvimento das habilidades socioemocionais entre os professores, a pesquisadora admitia que contribuir para a formação dessas habilidades era apenas uma parte da solução dos problemas que se enfrenta no dia a dia das escolas públicas. Reconhecia que os professores não são estressados porque são incompetentes para lidar com as próprias emoções, embora possam ter dificuldades em relação a isso. Observava que eles e elas frequentemente têm muitas boas razões para se sentirem estressados, frustrados, ansiosos, com medo, deprimidos. Razões que em grande medida os ultrapassam, porque dizem respeito à gestão do sistema de ensino, às condições de trabalho e às dificuldades enfrentadas pelos alunos em seu cotidiano, quase sempre relacionadas às profundas desigualdades que caracterizam o País, entre outras.

Em sua dissertação, o relato das condições materiais da escola e das situações observadas em seu dia a dia correspondia muito ao que eu me habituei a ler nos relatórios de estágio dos meus alunos da licenciatura, na parte que caracterizava o cotidiano da escola pública.

Como parte de sua pesquisa, a autora propôs um trabalho de intervenção na escola relativamente simples: uma sequência de dez encontros com professores para realizar um conjunto de atividades voltadas para o diálogo sobre as próprias emoções e seus efeitos no trabalho. Ao fazê-lo, ela criou na escola um ambiente propício a que o sofrimento e os problemas identificados pudessem ser objeto de reflexão conjunta daquele grupo. O que ela se dispôs a fazer é relativamente simples, mas não é fácil e não é pouco, embora também não possa ser considerado como medida suficiente para a superação das dificuldades. Essa simples intervenção produziu efeitos positivos, segundo os participantes.

Em minha arguição, observei que a conclusão do trabalho aproximava-se daquela a que chegaram, já há algumas décadas, os pesquisadores alinhados à psicologia escolar de vertente crítica, a qual se propõe a afastar o psicólogo em atuação nas escolas da condição de especialista que examina o aluno para diagnosticar deficiências ou distúrbios e, em vez disso, busca criar na escola um espaço como esse que ela havia criado, no qual os profissionais da escola podem pensar juntos sobre os próprios problemas para se apoiar mutuamente e criar alternativas para lidar com as dificuldades vividas no dia a dia do trabalho com as crianças.

Ao mesmo tempo, a pesquisa realizada por Alcione Marques é inovadora ao incidir sobre a expressão das emoções dos professores em seu ambiente de trabalho, sem pretender avaliá-los sobre sua capacidade maior ou menor de gerir as próprias emoções ou treiná-los de modo a torná-los mais capazes de exercer o autocontrole. Em vez disso, ela tornou possível reconhecer as emoções dos docentes e os seus efeitos no trabalho e também observar como as condições do ambiente de trabalho afetavam a sua disposição emocional.

A segunda oportunidade em que eu fui convidada a me pronunciar sobre esse tema foi em uma entrevista para este jornal em junho deste ano, realizada pelo jornalista André Derviche. Revisitando as anotações que fiz para me preparar para essa atividade, observo que a minha principal preocupação foi a de problematizar as ideias de que as escolas não desenvolvem competências socioemocionais dos alunos, os professores não têm preparo para isso e é preciso criar uma legislação, um currículo e um programa e treinamento na escola para que essa necessidade passe a ser atendida.

Na terceira vez, eu deveria preparar a minha participação em um debate sobre o tema na III Semana da Licenciatura do Instituto de Psicologia e então fiz uma breve revisão da literatura disponível sobre o tema, com vistas a compreender melhor a controvérsia que está posta no campo da educação e da psicologia acerca desse tema. Para isso, selecionei um conjunto de cinco artigos acadêmicos publicados desde 2015, um capítulo de livro e mais a dissertação já mencionada, os quais se situam dos dois lados da discussão sobre o valor de programas dedicados a desenvolver as competências socioemocionais. No que se segue, procurarei caracterizar brevemente os objetivos e conclusões desses textos para, em seguida, apresentar as minhas próprias considerações relativas à questão sobre o que fazer com as emoções na escola.

Um aspecto comum aos textos que eu pude ler, dos mais simpáticos aos programas de avaliação e desenvolvimento das competências socioemocionais na escola aos mais críticos, é a constatação de que a preocupação com essa questão na escola está em evidência em diversos países: Estados Unidos, Inglaterra, Finlândia, Coreia, Israel, Singapura, Austrália etc. Diversos programas governamentais foram formulados a partir da pressuposição de que o investimento em saúde mental é um dos mais lucrativos que o governo pode fazer, uma vez que melhora o desempenho das pessoas e reduz os custos com problemas causados pelas doenças mentais. Essa pressuposição é endossada pela Organização Mundial da Saúde, segundo a qual a saúde mental constitui atualmente “uma das maiores preocupações de saúde pública no mundo”.

Afirma-se ainda que o interesse pelo desenvolvimento das competências socioemocionais originou-se no campo econômico, tendo sido posteriormente apropriado pelo campo educacional, onde tem gerado polêmicas. Com o propósito de se avaliar as competências socioemocionais em ambientes como empresas e escolas, estabeleceu-se um conjunto de cinco fatores de personalidade designados como Big 5, que são os seguintes: extroversão, estabilidade emocional, amabilidade, conscienciosidade e abertura a experiências. Para avaliar as habilidades socioemocionais criou-se uma escala conhecida como SENNA, que corresponde à sigla para Social and Emotional or Non-Cognitive Nationwide Assessment. No Brasil, o Instituto Ayrton Senna encampou a defesa da avaliação das competências socioemocionais por meio dessa escala e criou seu próprio programa de desenvolvimento dessas competências e habilidades.

O artigo intitulado “Relações entre inteligência e competências socioemocionais em crianças e adolescentes”, de autoria de Tatiana Nakano, Isabella Moraes e Allan Oliveira, relata uma pesquisa realizada no Ceará com estudantes do terceiro e quinto anos do ensino fundamental, a qual pretendeu verificar se havia correlações positivas entre as competências socioemocionais e a inteligência. Seus resultados indicaram que sim. Ao demonstrar essa relação, de certa forma a pesquisa fortaleceu o argumento de um artigo crítico à avaliação das competências socioemocionais na escola como política pública, o qual questiona justamente a dissociação entre habilidades cognitivas e não cognitivas ou emocionais, como se fossem aspectos separados da personalidade.

Outro artigo comparou dois programas destinados ao desenvolvimento das competências socioemocionais em escolas, um dos Estados Unidos e outro da Inglaterra, considerando seus formatos e as pesquisas publicadas que procuraram avaliar os seus resultados. No texto, os pesquisadores descrevem o programa americano como mais padronizado e diretivo, enquanto o programa inglês é mais flexível e adaptável às diferenças entre as escolas, prevendo a possibilidade de aproveitar iniciativas já existentes nas escolas com vistas à promoção da saúde mental. Indicam ainda que há posições divergentes quanto às vantagens e às desvantagens de cada um dos formatos.

Se, por um lado, o programa norte-americano, que traz atividades prontas a serem reproduzidas pelos professores, é considerado muito rígido, por outro lado, o programa inglês, ao não oferecer orientações mais claras, é criticado por deixar os professores perdidos e confusos sobre o que e como fazer. Ambos se dirigem à educação básica e têm em vista a formação dos professores para melhorar o bem-estar dos estudantes.

Ao realizar a revisão de diversas pesquisas sobre a eficácia e a efetividade de ambos os programas, os autores concluem que seus resultados são contraditórios, sendo que algumas pesquisas apontaram melhoras, enquanto outras não identificaram qualquer resultado positivo, existindo inclusive um estudo que identificou uma piora no autoconceito dos meninos após a participação no programa.

Considerando agora os textos que se dedicam abertamente à crítica dos programas relacionados às competências socioemocionais na escola, é importante a discussão realizada no artigo “O problema da avaliação das habilidades socioemocionais como política pública: explicitando controvérsias e argumentos“, de Ana Luiza Smolka, Adriana Laplane, Lavínia Magiolino e Débora Dainez. O trabalho questiona a pertinência de se adotar a escala SENNA para a avaliação das competências socioemocionais como política pública, tal como ocorreu no Rio de Janeiro, a partir de uma parceria com o Instituto Ayrton Senna e o apoio da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE.

Ao analisar o relatório do projeto realizado, contesta a afirmação contida no texto de que as Big 5 sejam objeto de consenso no campo da psicologia e que sua relevância seja cientificamente comprovada. Recorre para isso a uma revisão da literatura sobre o tema da formação da personalidade a partir de teorias consagradas produzidas no século 22 para evidenciar a diversidade de perspectivas teóricas e modos de conceber e classificar os tipos de personalidade, o que se contrapõe à ideia de que haja um consenso ou uma firme sustentação teórica para os Big 5. Baseando-se também em revisão de literatura de diversas áreas – psicologia, antropologia, sociologia, biologia, e neurologia – questiona a suposição de que as competências socioemocionais sejam dissociáveis das competências cognitivas e discute também os riscos de se avaliar os estudantes tomando como norma atributos socialmente valorizados, tendo em vista a adaptação social e o sucesso econômico, em vista de sua consequência de estigmatizar as personalidades não conformes.

Outro texto escrito a partir de uma perspectiva crítica tem como título “Currículos socioemocionais, habilidades do século 21 e o investimento econômico na educação: as novas políticas curriculares em exame“, de Rodrigo Carvalho e Roberto Rafael Dias da Silva. A preocupação fundamental dos autores é evidenciar que os currículos socioemocionais correspondem a uma estratégia de governo que tem em vista objetivos econômicos: melhorar o desempenho e o ajustamento dos alunos à escola e favorecer a sua inserção no mercado de trabalho e a sua produtividade, assim como evitar problemas como a delinquência e a criminalidade e os gastos com a assistência social.

Os pesquisadores trazem exemplos de questões de avaliação da escala SENNA que os alunos devem responder, os quais evidenciam a orientação para a conformidade que a avaliação apresenta.

Roberto Rafael Dias da Silva escreveu também o capítulo “Inovações permanentes e desigualdades crescentes: elementos para a composição de uma teorização curricular crítica“, o qual retrata com riqueza de detalhes os discursos que sustentam o imperativo da inovação no campo educacional, em particular no currículo, os quais se configuram a partir de termos como entretenimento, protagonismo do estudante e formação de competências socioemocionais, relacionando tais elementos à emergência do que vem sendo designado como capitalismo artista e capitalismo emocional.

Considero que, apesar de ser bem-vinda a preocupação com a saúde mental dos alunos e dos professores, não surpreende que os resultados desses programas dedicados ao desenvolvimento de competências socioemocionais sejam duvidosos, quando não decepcionantes.

É que em vez de se voltarem para uma interrogação sobre como melhorar as condições do ambiente escolar – os espaços, as rotinas, as exigências a que professores e alunos encontram-se submetidos, as interações entre as pessoas –, tudo isso com o objetivo de melhorar o bem estar-comum e apoiar as pessoas em sofrimento, essas intervenções consistem em propostas de treinamentos, os quais, quanto mais padronizados, mais artificiais, especialmente quando são implementados não pelos próprios professores, mas por técnicos que se preparam para uma intervenção padrão e, depois de aplicar uma sequência pré-programada de atividades, vão embora.

As questões que emergem da leitura dessa amostra da produção acadêmica contemporânea sobre o tema são: as competências socioemocionais são treináveis dessa maneira? Se não for esse o caso, o que fazer das emoções na escola? O que já tem sido feito e como pode ser aprimorado? Começando pela última questão, gostaria de encerrar a minha fala fazendo algumas ponderações, que retomam aspectos dos trabalhos já mencionados.O fato de uma escola desconhecer as Big 5 ou a escala SENNA de avaliação das competências socioemocionais não significa que nada é feito nas escolas para desenvolvê-las ou que os professores não se interessem pelo bem-estar emocional de seus alunos ou que não saibam como ensiná-los a lidar com as dificuldades que apresentam para lidar com as próprias emoções, relacionar-se com os colegas e se organizarem para cumprir as suas tarefas e dedicar-se aos estudos. Sem dúvida há professores mais hábeis e menos hábeis para realizar esse trabalho, mas dizer que a escola se ocupa apenas dos conteúdos e das habilidades cognitivas dos estudantes não se sustenta de maneira alguma.

Como bem evidenciam as pesquisas em história da educação, a escola tem sido há mais de um século uma instituição encarregada tanto da transmissão de um legado cultural quanto da civilização das crianças, o que envolve o autocontrole das emoções, assim como a sensibilidade para perceber as emoções dos outros, aprender a respeitar e a ser respeitado.

Mesmo que se considere que seria preciso dar mais atenção ao bem-estar emocional nas escolas, penso que seria preciso começar por reconhecer que, atualmente, muitas vezes as escolas já se dedicam a esse objetivo em diversas atividades, dentre as quais se poderia mencionar as rodas de conversa, as intervenções feitas pelos professores quando surgem conflitos entre as crianças, do ensino sobre o respeito aos colegas e funcionários da escola e as orientações cotidianas dos professores sobre como os alunos devem organizar seu tempo de estudo, cuidar dos seus materiais, estudar diariamente para não ficarem sobrecarregados e aflitos na época das avaliações etc.

Seria preciso considerar ainda que a valorização das competências socioemocionais como parte das habilidades necessárias ao século 21, acompanhada da proposta de programas para o desenvolvimento das competências socioemocionais na escola, ao ser apresentada como um diferencial na educação dos estudantes, talvez especialmente nas escolas particulares, pode produzir como resultado uma outra modalidade de competição na escola, com todas as consequências já conhecidas: aumento da pressão sobre os alunos para que desenvolvam o mais rapidamente possível e ao máximo essas competências, estigmatização daqueles que não se mostram desde cedo hábeis em demonstrar essas competências e criação de formas de recuperação e tratamento, medicamentoso inclusive, para os considerados “deficientes” nesses atributos.

Programas com esse objetivo ainda produziriam o aumento da pressão sobre os professores, os quais também passariam a ser avaliados em função da sua capacidade de cultivar em si próprios as competências socioemocionais, bem como de promover tais competências em seus alunos. Acrescente-se a isso o risco muito provável dessa preocupação distrair a sua atenção do ensino dos conteúdos culturais que permitiriam desenvolver simultaneamente as habilidades cognitivas e emocionais.

A questão sobre se o ensino dos conteúdos culturais e dos procedimentos intelectuais que permitem a sua apropriação deveria ser secundarizado em relação a um trabalho que prioriza o desenvolvimento das Big 5 precisaria ao menos ser muito bem ponderada, em vez de simplesmente assumida como uma exigência evidente em vista das habilidades necessárias para o século 21.


Esses programas podem parecer bons investimentos: são econômicos e replicáveis em larga escala, permitem obter dados quantitativos e comparáveis, como o quociente intelectual (Q.I.) Mas, se o próprio instrumento é controverso, mal concebido, então tende a ser um desperdício de dinheiro, tempo e energia.

Na melhor das hipóteses, a implementação desses programas serviria apenas para se confirmar o que já se sabe. Na pior das hipóteses, acabariam servindo para desqualificar os professores, sempre que parecessem não atender às expectativas estabelecidas, além de confundi-los e sobrecarregá-los com novas exigências e ainda submetê-los a cursos padronizados de qualidade muito discutível. Muito provavelmente seriam empregados como mais um instrumento para desqualificar também os alunos que se afastam da norma e encaminhá-los para programas de recuperação ou tratamento médico. Isso tudo sem que se prestasse a necessária atenção às condições de vida e de trabalho que poderiam explicar as razões dos sofrimentos manifestados na escola.

A própria eleição das Big 5 mereceria um exame mais detido, tendo-se em vista que representam uma escolha feita a partir de critérios que parecem expressar os valores da cultura empresarial norte-americana. Esses fatores estabelecem de modo um tanto arbitrário a valorização de certos traços de personalidade, enquanto desvalorizam outros que também poderiam ser considerados enriquecedores em um grupo de pessoas e para a sociedade. Se extroversão é uma competência socioemocional, então a introversão deve ser considerada como uma incompetência e as pessoas que apresentam esse traço de personalidade deveriam ser corrigidas ou tratadas? Será que a abertura a novas experiências é necessariamente superior à disposição a se concentrar e se aprofundar em um campo específico de experiências, mesmo que saibamos que as artes e outras atividades humanas dependem de uma dedicação obstinada a um campo bem delimitado de experiências? É necessariamente melhor estar disposto a experimentar de tudo, fazer de tudo um pouco do que ir fundo em um tipo específico de atividade, de experiência? Por que deveríamos desqualificar uma pessoa introvertida, que prefere trabalhar sozinha e em silêncio se ela evidencia um alto grau de concentração em um tipo de atividade que a apaixona? Ela não teria uma contribuição valiosa a oferecer à sociedade simplesmente sendo quem é, profundamente dedicada às atividades de que gosta? Por que deveríamos pretender tratá-la, corrigi-la?

Na perspectiva das Big 5, um monge, por exemplo, possivelmente seria considerado como incompetente emocional, um desadaptado. Provavelmente a maioria dos artistas e intelectuais também, de modo que os programas que se fundamentam nas Big 5 parecem ter como objetivo desenvolver as competências socioemocionais necessárias ao bom funcionário. O propósito da escola, contudo, não é formar funcionários bem adaptados às exigências do emprego, mas educar pessoas.

Mesmo que as pessoas precisem, em alguma medida, adaptar-se às exigências sociais, até mesmo em muitos casos às exigências de um emprego, como professores desejamos que nossos alunos também sejam capazes de desafiar as normas sociais tendo em vista transformar o mundo e o mercado de trabalho, de questionar o que lhes parece injusto e prejudicial. Que se tornem capazes de recusar se submeterem a exigências sem cabimento, que se recusem a serem desrespeitados, explorados.

Quanto às emoções vividas na escola, em vez de programas de desenvolvimento das competências socioemocionais, talvez fosse melhor para o bem-estar e o desenvolvimento emocional de professores e estudantes que se assegurasse tempo e espaço na escola para dialogar sobre as próprias emoções em um ambiente seguro, inclusive sobre as emoções perturbadoras, oferecendo-se a possibilidade de reconhecê-las e aceitá-las como parte da condição humana, mas também perceber os seus efeitos e aprender a lidar com eles.

Eu gostaria de terminar lembrando o exemplo do professor paquistanês que é pai de Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz e ativista pelo direito à educação. Ele não precisou ser treinado em nenhum programa de desenvolvimento de competências socioemocionais para fortalecer a capacidade de sua filha de lidar com as próprias emoções. Provavelmente ele desconhecia as Big 5 e o vocabulário que constitui a escala SENNA. Em vez desse conhecimento técnico, bastou-lhe a convicção do valor da escola para a formação de Malala.

No desenvolvimento das habilidades socioemocionais, destaca-se que o educando não domine apenas o conhecimento cognitivo, tradicional, mas que saiba a importância do controle das emoções, da empatia, das relações sociais e da tomada responsável das decisões. Recursos pedagógicos: diálogo, conversa, trabalho colaborativo, elaboração de projetos em conjunto a partir de uma problematização. Assuntos como igualdade, diferenças, ajudam a que se reconheça e respeite o outro e verbalize sentimentos e intenções de si e dos outros. Exercitar a arte da convivência: ouvir e aceitar o outro como ele é. (Gládis Pedersen) Leia mais: https://www.neipies.com/o-ensino-religioso-e-habilidades-socioemocionais/

Autora: Ana Laura Godinho Lima, professora da Faculdade de Educação da USP

Fonte: Jornal da USP, originalmente publicado em https://jornal.usp.br/artigos/que-fazer-das-emocoes-na-escola/

Foto de capa: Profa. Simoni Bueno de Mello

Edição: Alex Rosset

Jovens e seus desejos de mudar o mundo!

Jovens estudantes de uma escola da rede municipal de Passo Fundo, do nono ano do Ensino Fundamental, foram perguntados sobre o tema Jovens e seus desejos de mudar o mundo. Seu desafio era problematizar, de forma argumentativa, sobre a temática.

Surpreendentemente, pensaram e escreveram ideias interessantes sobre o tema. Os jovens sabem o que querem e afirmam o que desejam para o mundo no qual estão inseridos neste momento de suas vidas. Quando os jovens escrevem, sempre pensam melhor.

Confira aí. Boa leitura!

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Mudar o mundo é algo que fazemos diariamente

“A rebeldia e algo muito comum nos jovens, pois eles têm vontades e desejos que nem sempre conseguem realizar. Um destes desejos é mudar o mundo.

Não importa como, o jovem quer mudar o mundo de alguma forma, seja para fins próprios ou coletivos, esse desejo sempre existiu nele, de poder fazer alguma coisa. No entanto, nem sempre este desejo persiste, às vezes ele acaba no esquecimento e a pessoa apenas segue sua vida.

Mudar o mundo é algo que fazemos diariamente, mas o jovem quer mudar o mundo do seu jeito, quer que o mundo seja como ele quer e, às vezes, acaba esquecendo de outras pessoas e das consequências as vezes destrutivas que seu desejo pode causar.

Quando o jovem pensa com outros jovens, teremos vários tipos de vontades e desejos; muitas vezes desejos iguais ou desejos que acabam sendo adotados de outros. Podem acontecer desejos contrários, pois nem todos irão agradar com suas vontades. A discussão é outra coisa comum na vida deles.

Na minha opinião, para mudarmos o mundo para melhor, os jovens deveriam unir-se e juntar os desejos que contribuam para todos e largar vontades egoístas, pois só assim teremos um mundo melhor. Que as próximas gerações sobrevivam e continuem com pensamentos num todo, para a evolução e melhoria da humanidade”. (Estudante William de Lima)Deixem o jovem sonhar, pois, posteriormente, esse “jovem tolo” poderá ser o adulto que mudará o mundo

Crianças brincam e adultos brigam. Jovens brigam para mudar o mundo e são levados na brincadeira.

“Não tente abraçar o mundo com as pernas” ou um simples “uhum” diante de uma humilde tentativa de mudar o mundo ou simplesmente tornar a realidade interessante.

“Você tem fome de que”? Isso é tudo que o mundo não pode tirar de você. Parece fútil, mas pode ter significado profundo para quem quer mudar o mundo. Tire tudo de um jovem, mas não tire seu desejo de mudar a cada dia.

Seu modesto gesto de protesto pode transparecer em redações, poesias e músicas; afinal, quem nunca quis mudar o mundo? O jovem, talvez, só tenha mais energia para demonstrar este seu desejo de mudança.

Afinal, o que é mudar o mundo? A verdade é que mudar o mundo é mais uma daquelas 1001 vontades que temos, mas que acabam nunca se concretizando. Deixem o jovem sonhar, pois, posteriormente, esse “jovem tolo” poderá ser o adulto que mudará, ao menos, sua própria realidade e, mais tarde, o mundo”. (Estudante Susane Reghelin Mendes)

O mundo obriga a sociedade a trabalhar em conjunto, superando assim diferenças sociais, visando um futuro melhor para todos.

Os jovens da atualidade têm muita noção dos males que ocorrem no mundo inteiro por conta dos modernos meios de comunicação que determinam a vida na nossa sociedade. Por isso, esses jovens tem interesse de mudar o mundo, para que possam ter um futuro melhor, ou até ajudar outras pessoas.

Por isso devemos levar algumas perguntas em questão: será que podemos mudar o mundo? Ou: os jovens tem o poder de mudar o mundo?

A resposta a estas perguntas vai de cada um, mas na minha visão se o ser humano e, principalmente, os jovens devem parar de se preocupar com atitudes superficiais ou que apenas trazem benefícios a eles próprios. O mundo obriga a sociedade a trabalhar em conjunto, superando assim diferenças sociais, visando um futuro melhor para todos.

Nada disso será possível se continuarmos a ter tantos preconceitos. Os jovens que desejam mudar o mundo devem passar suas ideias para seus familiares, para seus amigos e, por fim, para toda comunidade. É preciso que as guerras, os preconceitos e a pobreza cheguem ao fim. Se isto realmente acontecer algum dia, podemos ter certeza que todo este movimento terá reconhecimento, pois fama não é necessária, mas o reconhecimento é algo explêndido.

Malala e Greta são jovens que podem nos inspirar. (Estudante João Polese)O problema é que quem quer mudar o mundo quase sempre quer fazer isso mudando os outros.

O mundo precisa de mudanças de todos os tipos, mas a grande questão é como efetuar estas mudanças? O jovem se faz essas e outras perguntas sobre como mudar o mundo e ele tenta ir atrás de soluções todos os dias.

A juventude é a fase em que o indivíduo passa a se descobrir como tal. Essa fase exige encarar seus defeitos e reconhecer suas qualidades para que, só assim, você consiga conviver com estes. Exige que você aprenda a fazer escolhas e, mais importante, assuma a responsabilidade pelas consequências.

O problema é que quem quer mudar o mundo quase sempre quer fazer isso mudando os outros.

A rebeldia dos jovens é o desejo de mudar o mundo.

Para mudar o mundo, não precisa de muita coisa: pratique a solidariedade, o respeito, seja conscientes sobre nossa responsabilidade no mundo, não julgue, compartilhe conhecimentos e, sobretudo, procure entender e apoiar os jovens. (Estudante Ana Clara de Quadros Colla)

Queremos mudanças sociais verdadeiras, mudanças que mudem o mundo de verdade.

Sabemos que todas as gerações estão atrás de mudanças e feitos que deixem marcas para sempre. Como parte desta geração e usuária de diversas plataformas de comunicação e entretenimento, vejo que, ao contrário das gerações passadas, a internet é um meio importante para adquirir conhecimentos e de fazer barulho para que escutem os jovens.

Temos acesso a todo tipo de informação em qualquer hora e em qualquer lugar, para nos informarmos sobre problemas sociais, políticos e ambientais. Se eu não tivesse um celular na mão, com certeza não seria quem sou hoje e não saberia muito do que sei.

Nossos pais são de uma geração que era limitada de informações e, com certeza, também eles queriam mudar o mundo. Muitos de nós, jovens, no entanto, não temos a mente aberta para entender, aceitar e abordar questões como intolerância religiosa, homofobia, racismo, machismo, depressão. Muitas vezes também praticamos atos incorretos, mesmo sem querer.

Queremos mudanças sociais verdadeiras, mudanças que mudem o mundo de verdade. (Estudante Laura Inchoeste Sganderla Mendes)

Devemos manter um equilíbrio entre os conhecimentos virtuais e os conhecimentos da vida real.

O jovem, normalmente, tem o desejo de mudar o mundo. Ele acredita que e o único que pode mudar a sociedade. Isso acontece desde o começo dos tempos, mas está mais acentuado em nossa geração que nasceu com a tecnologia nas suas mãos.

A tecnologia, por sua vez, pode nos livrar da ignorância e da intolerância, pode até ajudar na descoberta de coisas novas e curiosidades. Dependendo do tamanho da influência da tecnologia, o jovem pode se tornar uma pessoa tóxica e enjoativa. Devemos manter um equilíbrio entre os conhecimentos virtuais e os conhecimentos da vida real. (Estudante Vinicius Manfroi)

Esta prática pedagógica foi realizada em aulas de Filosofia na EMEF Zeferino Demétrio Costi (ZDC) com estudantes do nono ano do Ensino Fundamental. A partir de textos reflexivos sobre a rebeldia como atitude saudável dos jovens e de seus desejos de mudar o mundo, os estudantes fizeram uma construção textual. Estes textos são fragmentos de alguns textos produzidos pelos estudantes, selecionados para esta matéria.

Fotos: Arquivo pessoal/Arquivo Escola ZDC

Edição: Alex Rosset

O consumismo e a corrupção das crianças

De que forma estamos educando nossas crianças para o espírito do Natal? As festividades de final de ano não poderiam ser algo diferente do que simplesmente correr às compras, comprometer boa parte do orçamento em gastos desnecessários?

Estamos próximos de comemoramos as festas de Natal e Ano Novo. Como já estamos “acostumados”, novamente o tempo frenético das compras, corrida às lojas, presentes, promoções, parcelamentos, propaganda intensa, brinquedos, eletrodomésticos, Papai Noel, espumantes, fogos e todo tipo de chamamento para o ápice do consumismo.

Os noticiários televisivos fazem referência aos índices de vendas, horários alternativos para as compras, felicidade de receber presentes e todos os outros acréscimos que se repetem a cada ano. Diante deste clima festivo, dificilmente nos damos conta que estamos sendo “condicionados” e “absorvidos” pela cultura do consumismo que tomou conta de nosso modo de viver, da maneira como nos relacionamos e da forma como gastamos o que ganhamos com nosso suado trabalho.

No livro Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos, traduzido para o português em 2007, o teórico político americano Benjamin Barber fala do ethos infantilista que tomou conta da sociedade contemporânea. Para Barber, o ethos infantilista tem tanto poder de moldar a ideologia do comportamento de nossa sociedade radicalmente consumista quanto o poder que a ética protestante teve para moldar a cultura empreendedora nos primórdios da sociedade capitalista moderna.

A tese de Barber é de que o hiperconsumismo que está tomando conta de nosso modo de viver constitui uma real e perigosa ameaça à democracia, à responsabilidade e à cidadania. Trata-se de uma ameaça à sociedade democrática porque além do ethos da infantilização não produzir cidadãos adultos responsáveis, está promovendo a perversão e a corrupção da infância. De que forma isso acontece? Por que o consumismo corrompe as crianças?

Na análise de Barber, vivemos hoje a fantasia de Peter Pan invertida. Todos conhecemos o desenho animado em que o herói Peter Pan não quer crescer e por isso foge para a Terra do Nunca. Crescer para Peter Pan significaria enfrentar o fardo da vida adulta responsável: emprego, família, trabalho, responsabilidades. “Eu não quero crescer, eu não quero ser homem”, exclama Peter com convicção. E conclui: “quero ser para sempre um menino e me divertir”.

Para Barber, os especialistas em modernos merchandising também não querem que Peter cresça: não para preservar sua inocência, não para preservá-lo do mundo do comércio, mas sim, para torná-lo cliente leal, para explorar sua suposta “autonomia” de comprar tudo o que estiver ao alcance das mãos ou que o dinheiro dos adultos possa pagar, e assim promover uma diversão sem fim que produz crianças cada vez mais estressadas e dependentes de medicação para conviver socialmente. “Voe para a Terra do Nunca (Shopping) Peter”, exclamam os mantenedores profissionais do ethos infantilista; “estamos esperando por você com tudo aquilo que o dinheiro possa comprar”; “deixe seus pais para trás, mas assegure-se de trazer com você sua carteira de dinheiro para comprarem tudo o que desejarem”.

A análise assustadora de Barber poderia provocar nosso pensamento para questionar algumas atitudes que simplesmente nos acostumamos a vivenciar sem refletir: de que forma estamos celebrando as festividades de final de ano? De que forma estamos educando nossas crianças para o espírito do Natal? As festividades de final de ano não poderiam ser algo diferente do que simplesmente correr às compras, comprometer boa parte do orçamento em gastos desnecessários?

Em termos educacionais, em vez de simplesmente abraçar a narrativa de que “a escola deve preparar para o mercado de trabalho cada vez mais competitivo” ou de que “cada um pode ser empreendedor de si mesmo”, não deveríamos ajudar nossas crianças e jovens a ter a capacidade crítica de dar-se conta que talvez devemos rever nosso modo de vida?

Talvez seja urgente dar-se conta, criar uma conscientização coletiva que a “vida cidadã” não se resume em ter dinheiro para gastar em tudo o que nos é oferecido pela sociedade consumista com a promessa de felicidade. O trabalho não deve servir apenas para ganhar dinheiro para consumir ou ter uma ocupação.

É possível pensar um modo de vida diferente do que estamos acostumados a viver, começando pela forma como escolhemos nossas prioridades, sobre o que realmente importa para ter uma vida melhor, mais saudável, mais pensante.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

O luxo e a fome

O Brasil voltou ao Mapa da Fome. E não há políticas públicas para seu enfrentamento.

No dia 26 de novembro de 2021, sexta-feira, aconteceu uma Plenária nacional de Combate à Fome sob a coordenação do SEFFRAS, Serviço Franciscano de Solidariedade: construção de uma Frente Nacional contra a Fome. Houve mais de 100 participantes de diferentes Movimentos sociais, organizações, Ação da Cidadania, OXFAM Brasil, Movimento Fé e Política, MST, Coalizão Negra pelos Direitos, Banquetaço, Periferia Viva, CAMP, para enfrentar a urgência da fome no Brasil. 

Na tarde de 26 de novembro de 2021, mesma sexta-feira, fui, como sempre, na Banca de jornais do Largo Glênio Peres, Porto Alegre: comprar o jornal Valor Econômico, com seu Caderno EU & Fim de Semana. Manchete principal do VALOR: “Superendividado terá limite de renda para pagar dívidas”. O endividamento exacerbado atinge cerca de 30 milhões de brasileiros, segundo estimativa do Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC).”

Na mesma edição, 26.11.2021, há o Caderno ‘Imóveis de Valor´. Manchete principal do Caderno: “Condomínios no interior têm gama de serviços sofisticados”. Lojas, offices, salão de beleza, teatro e até escola passam a fazer parte de empreendimentos de alto luxo em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.” No Complexo Terravista Brasil, no topo das falésias de Trancoso, Bahia, “atualmente, estão em construção casas em terrenos de quase cinco mil metros quadrados, com até oito suítes, a R$ 14 milhões. O complexo abriga um teatro, restaurante, piscinas, hangar, lojas e um campo de golfe de 70 hectares. O empreendimento está em plena expansão e tem como principal diferencial uma pista de pouso homologada para jatos executivos e turboélices.”

Fui recuperar outro Caderno ´Imóveis de Valor´, de 19.11.2021. Manchete principal: “Brasileiros retomam o interesse por imóveis no exterior”. Na matéria, segundo o CEO Marcello Romero, “cerca de 8% do total de imóveis vendidos em Miami é para brasileiros. Nos últimos 12 meses, saímos de uma média de 15 negócios por ano para 25”.

Segundo a corretora Cristina Hungria, “meu telefone não para de tocar. São mais de 20 contatos por semana de brasileiros que estão vindo à cidade de Nova York e querem ver apartamentos. Em geral, a busca por imóveis de dois quartos, próximos ao Central Park e com ticket médio de U$ 2 milhões”.

Enquanto isso acontece com os ricos brasileiros, que enriqueceram muito em plena pandemia, as manchetes do UOL em 29.11.2021 eram: “Moradores de SP desmaiam de fome em filas de postos de saúde”. “Os brasileiros que sobrevivem com comida de porco e água suja: ‘um balde para 6 pessoas’.” E o Blog da Cidadania estampa, em 29.11.2021: “Paulistanos dependem de doações, xepa e lixo para comer.”

Esta é a elite brasileira, conservadora, escravocrata, e que sempre só pensou no seu bolso e umbigo ao longo da história. Não há solidariedade, nenhum olhar para o seu povo, para os pobres, ou para seu país e Nação, para a soberania e a democracia.

Esta elite não deixa fazer qualquer Reforma tributária, com taxação de grandes fortunas, e outras reformas estruturais. Para que quem compra casa ou mansão de milhões de reais ou dólares em Trancoso e Miami pague impostos, como qualquer trabalhadora e trabalhador paga diariamente.

Diz Thomas Piketty (Carta Maior, 01.12.2021): “Estamos em uma situação semelhante à que levou à Revolução Francesa. Os privilégios concedidos às grandes fortunas levarão a uma crise política.” Piketty recorda a insurreição do final do século XVIII, quando a nobreza resistia a pagar impostos.

Para ver a fome, basta ir para às ruas. Não há sinaleira em Porto Alegre em que não tenha alguém pedindo uns trocados, além de todas e todos que sobrevivem morando nas ruas, praças e avenidas.

A fome é também um assunto de fé. Padre Valter Girelli, reitor do Seminário de Fátima de Erechim/RS, no último dia 16 de março, refletindo sobre a passagem bíblica da partilha dos pães e dos peixes (Jo 6, 1-15), afirmou que Jesus sempre se preocupou muito com a fome do povo. Diante dela, não deu espetáculo da multiplicação mágica da comida, mas realizou o grande ensinamento da distribuição dos alimentos disponíveis. (Dirceu Benincá) Leia mais: https://www.neipies.com/fome-caminho-de-desumanizacao/

A fome voltou. O Brasil votou ao Mapa da Fome. E não há políticas públicas para seu enfrentamento. Só a sociedade se mobiliza com os Comitês Populares contra a Fome, as Cozinhas Solidárias e Comunitárias, os sopões, as cestas básicas, o Natal Sem Fome. A sociedade realiza uma Conferência Popular nacional de SSAN, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, já que o CONSEA, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, foi extinto, junto com suas políticas e programas. Os CONSEAs estaduais, onde ainda existem, como no Rio Grande do Sul, estão na luta para manter políticas de segurança alimentar e nutricional e de agroecologia e produção orgânica. 

Por isso, é fundamental a construção de uma Frente nacional de Combate à Fome, com unidade e solidariedade, bem como é urgente uma Reforma tributária pra valer.

Sem ilusões, portanto. Nenhuma mudança profunda virá das elites. Virá, sim, como sempre, do povo consciente e organizado e de sua capacidade de luta. A resistência ativa e o esperançar freireano são a possibilidade de futuro, com direitos e democracia, na construção de uma sociedade do Bem Viver.

Enquanto açougues vendem gordura e ossos de boi para consumo de famílias empobrecidas pela crise econômica do país, e pessoas são flagradas invadindo caçambas de lixo atrás de resto de comida, a Bolsa de Valores instalou a estátua do Touro de Ouro no Centro de São Paulo inspirada na Harging Bull, o touro de bronze no coração financeiro do mundo, Wall Street em Nova York. Um verdadeiro acinte à dignidade de milhões de brasileiros entregues à miséria. (Hermes Fernandes) Leia mais: https://www.neipies.com/a-fome-o-bezerro-de-ouro-e-a-idolatria-do-capital/

FONTE: https://sul21.com.br/opiniao/2021/12/26-11-2021-o-luxo-e-a-fome-por-selvino-heck/

Autor: Selvino Heck, Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990). Conselheiro do CONSEA RS pelo CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional)

Edição: Alex Rosset

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