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Marielle Franco e Paulo Vaz, presentes!

Quanto mais pessoas se mostram importadas com vidas LGBT+ e negras dentro da sua bolha, mais se fortalece essa ideia utópica e absurda de que ninguém deveria ser assassinado por ser quem é (e lutar pra ser).

Dia 14 de março, segunda-feira, fez quatro anos que a Marielle Franco foi assassinada. Diante da comoção nas redes pedindo justiça por Marielle e respostas que não temos até hoje: quem mandou matar Marielle e por que? – eu iria chegar em casa no fim do dia, fazer uma foto com a camiseta que tem a placa “Rua Marielle Franco”, e postar. Não porque eu seja um grande influenciador digital, longe disso, mas porque quanto mais pessoas se mostram importadas com vidas LGBT+ e negras dentro da sua bolha, mais se fortalece essa ideia utópica e absurda de que ninguém deveria ser assassinado por ser quem é (e lutar pra ser).

Iria postar, mas não postei porque cheguei em casa aumentando a conta dos mortos. Mais um dos nossos se foi. Paulo Vaz, um homem trans, gay, policial civil e ativista de direitos humanos que, ao que tudo indica, escolheu o suicídio a ficar sendo morto aos poucos em meio a pessoas tão cruéis. Nunca conheci o Popo pessoalmente, mas seguia nas redes sociais e admirava demais. Inspirador pra mim, homem cis gay, imagina o que ele representa pra pessoas trans.

O Paulo postou o endereço de onde ele poderia ser encontrado morto, depois de uma avalanche de comentários transfóbicos feitos sobre a relação dele e do seu marido, Pedro HMC, nas redes sociais, por pessoas que fazem parte da própria comunidade LGBTQIA+. Ao que tudo indica, foi gatilho, depois de trinta e poucos anos de agressões, falta de acolhimento, constrangimentos e vergonhas. E assim, a gente que fica, segue contando mortos.

Eu perdi a conta. Tenho 31 anos e já vi tantas pessoas incríveis perderem a vida (assassinadas ou que cometeram suicídio) – conhecidos, amigos de amigos e até amigos queridos. Nessas horas só me resta aquele sentimento de que a humanidade falhou no propósito coletivo.

Se por um lado nós tivemos sucesso evolutivo a partir do momento em que aprendemos a cooperar, por outro conseguimos nos mostrar, milhares de anos depois, nada acolhedores.

Incapazes de discernir o limite entre humor e crueldade, entre a necessidade e a não necessidade de comentar algo sobre o outro. Yuval Noah Harari diz que o sucesso evolutivo é numérico, apenas, ele não mensura sofrimento, se mensurasse, talvez percebêssemos que a nossa espécie não teve tanto sucesso assim.

Divagações filosóficas à parte, o fato é que não há como não entristecer em 14 de março. Não há como não sentir desânimo. Só resta nos fortalecermos no legado de Marielles e Paulos, tenho certeza que eles são eternos.

“É engraçado dizer que não se aguenta mais, porque dia após dia, a gente segue aguentando. Acho que “resistência” é isso: o sentimento de não aguentar mais tanta barbárie, mas continuar aguentando, se opondo, marcando posição, denunciando. Nunca estamos parados, estamos sempre resistindo e isso é um movimento forte o bastante para não deixar que o fascismo prevaleça”. Leia mais: https://www.neipies.com/resistir-a-que/

Autor: Oscar de Souza

Edição: Alex Rosset

Você é um só

Fruto de um sistema capitalista, a única resposta que a tecnologia pode trazer é mais tecnologia. Ela é só uma ferramenta, não há consciência nela. Tudo que ela faz é fruto de ideias de gente como você.

E não é aquele do Facebook. Do Google+. Do Instagram. Dos games. Do WhatsApp. Nem de todas essas redes, e outras tantas, combinadas. Morando sozinho ou se isolando por trás das telas brilhantes de smartphones, tablets, PCs e notebooks, falando pelo Twitter o que não teria coragem de dizer ao vivo, multiplicado por diversos perfis e avatares, você ainda é um só.

Você, que acumula objetos de uso questionável e contribui para a formação do lixo eletrônico ao mesmo tempo que reclama da poluição e da exploração do planeta.

Você, que faz passeata contra a corrupção enquanto compra notas frias. Que critica o tráfico ao mesmo tempo em que o financia, que reclama do preço do ônibus, mas não deixa o carro nem para ir até a padaria. E que, uma vez nele, não respeita faixa, deficiente, idoso ou limite de velocidade e fala ao celular enquanto guia.

Você que, via redes sociais, se orgulha de ter atingido uma fusão entre intimidade e distância, quando o máximo que fundiu foi a ilusão de ambas. Sua comunidade se transformou em um mecanismo terceirizado de autoimagem, ao mesmo tempo vaidoso e inseguro, preguiçoso e ansioso, otimista e pragmático.

Um só

Imerso na rede, você criou um reflexo psicológico em que precisa saber de tudo no mesmo momento, posicionando-se o quanto antes, já que cada atualização diz mais respeito à opinião dos outros do que ao que você realmente pensa.

Fascinado pela ideia de se transformar em veículo de informação, você parece ter se esquecido (ou deixado de se importar) que só haverá meios se houver mensagens. E que ao reproduzir sem pensar o que ouve dos outros, não gera mais do que microfonia.

Não adianta se esconder nem tentar desafiar seus ritmos biológicos na vã tentativa de acompanhar o mundo simbólico em que vive, evitando qualquer contato com a realidade. O máximo que conseguirá é confundir seus mapas com o território que representam.

Você acha que é diferente e, no entanto, é igualzinho aos que critica. Não espanta que espere cada vez mais da tecnologia e cada vez menos das pessoas.

É inegável, você está só. Sua solidão não foi criada pelo mundo digital, mas por suas ações esquizofrênicas. Não adianta mais colocar a sociedade na terceira pessoa, tentando se isentar de qualquer responsabilidade. O mundo “real” tem muito de virtual. E vice-versa. É uma relação simbiótica.

Mas conexão não é o mesmo do que vínculo. O budismo (o de verdade, não essa onda chamada de “sabedoria 2.0”, em que a meditação é uma espécie de videogame contemplativo) ensina que todos estão interconectados. Que os desafios reais não estão no futuro, mas bem à nossa frente. E que o apego aos bens e às ideias pode ser muito prejudicial.

Ao dar à tecnologia um espírito vago, impessoal, o que move a sociedade é uma desculpa esfarrapada.

Fruto de um sistema capitalista, a única resposta que a tecnologia pode trazer é mais tecnologia. Ela é só uma ferramenta, não há consciência nela. Tudo que ela faz é fruto de ideias de gente como você.

Por mais que você ache, como Mário de Andrade, que é trezentos, que é trezentos e cinquenta, não se iluda. Como ele, você é um só. E ainda terá que topar consigo e prestar contas com seu legado.

Apesar de você, diz a música, amanhã há de ser outro dia.

***

FONTE: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/enoticias/_ed753_voce_e_um_so/

Autor: Luli Radfahrer,  professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP e colunista da Folha de S.Paulo; mantém o blog www.luli.com.br

PROPOSTA DE ATIVIDADE PEDAGÓGICA

Essa atividade pode ser realizada com estudantes dos anos finais do ensino fundamental no componente Filosofia.  Também pode ser realizada com estudantes do Ensino Médio nos componentes Cultura e Tecnologia Digital ou Filosofia e Sociologia).

QUESTÕES:

  1. Qual é a problemática abordada no texto que você leu?
  • Liste cinco benefícios e cinco malefícios do uso das tecnologias.
  • Leia a tirinha abaixo e responda: o mundo virtual influencia no mundo real? Construa sua resposta considerando o uso que fazes das redes sociais.
  • Você sabe o que é algoritmo? Pesquise o significado deste conceito e as implicâncias deste para a formação da nossa identidade.  (Esse programa tratou sobre o tema refletindo a influência do algoritmo e as implicâncias disto para a democracia. https://www.youtube.com/watch?v=gawIX8ri_lg  sugere-se acompanhar e em seguida responder a pergunta.
  • Leia a tirinha abaixo e inspire-se para produzir sua crítica à sociedade, à tecnologia e influências das mesmas na formação das identidades.

*** Esta proposta de atividade foi elaborada pelo professor Marciano Pereira, também Convidado deste site, a quem agradecemos pela generosa colaboração.

Conheça mais: https://www.neipies.com/author/marciano_pereira/

Edição: Alex Rosset

Realidade assombrosa

Qualquer um que se interesse minimamente pelo desempenho da vida moderna sabe bem, e não é difícil assim concluir, que já não é mais possível aceitar a existência de um modelo econômico (cujo crescimento é sempre o ponto de destaque) que coloque em perigo o equilíbrio ecológico.

Para começo de conversa, é preciso considerar que vivemos sob uma crise sistêmica provocada por nós mesmos que não tem precedente na história. Particularmente, como não é difícil presumir, dado os efeitos nocivos de nossas atividades que alimentam o nosso sistema de economia global e a nossa ordem política atual, temos configurada uma crise multiforme constantemente retroalimentada que coloca o destino da humanidade, isto é, o nosso destino, numa situação limite. É esse o ponto grave diante de nós.

Gostemos ou não, os saberes da ciência apontam que todos os sistemas de vida do planeta estão ameaçados – alguns seriamente ameaçados.

Ocorre que, ao acatarmos padrões insustentáveis estabelecidos (os processos produtivos globais e o consumo global, ainda hoje vistos como referenciais da modernidade), é frequentemente espantoso perceber, pelo lado ambiental, que seguimos atrapalhando os sistemas naturais na tarefa de autorregeneração. Isso, por óbvio, tem um claro desdobramento: à medida que se amplia o impacto dos seres humanos (antropocentrismo dominador, usemos de saída essa expressão bastante precisa) sobre o meio ambiente e se aceleram as mudanças climáticas, aumentam – e muito – o peso das ameaças (sociais), dos riscos (ecológicos) e dos custos (econômicos). 

Na direção da esfera ecológico-ambiental, dois dos mais adversos pontos já bem perceptíveis – a degradação do meio ambiente e o pesadelo climático – elevam de vez nosso nível de preocupação. Assim, sendo taxativo, convém estar atento para os mais diversos avisos que temos recebido. Sobre isso…

OS GLACIÓLOGOS ALERTAM: o gelo está derretendo a uma velocidade três vezes maior do que eles temiam apenas dez anos atrás;

OS CIENTISTAS DO IPCC PREVÊEM: os danos causados por enchentes vão aumentar de cem a mil vezes até o final deste século. (E não custa lembrar aqui que dois terços das maiores cidades do mundo estão a centímetros do nível do mar);

OS CLIMATOLOGISTAS AVISAM: um aumento de 3°C na média global de temperatura afetará drasticamente todas as formas de vida;

OS OCEANÓGRAFOS DENUNCIAM: até 2030, o aquecimento e a acidificação dos oceanos ameaçarão 90% de todos os corais que sustentam pelo menos um quarto de toda a vida marinha;

OS CIENTISTAS DA TERRA CONJECTURAM: apenas entre 1992 e 2015, os humanos alteraram 22% da massa terrestre do planeta;

OS BIÓLOGOS ADMITEM: de 40 mil espécies estudadas, 12% de todas as aves, 13% das plantas e 25% dos mamíferos correm risco de extinção;

OS DEMÓGRAFOS ANUNCIAM: a cada dia, em todo o mundo, uma a cada seis pessoas padece de fome e malnutrição – o número mundial de subnutridos já alcança 800 milhões, sendo que 100 milhões desses passam fome devido aos choques climáticos;

OS ESPECIALISTAS EM GESTÃO PÚBLICA ARGUMENTAM: em 2025, metade da população mundial passará pela falta de água potável por pelo menos um dia da semana;

OS TÉCNICOS DA ONU PROJETAM: até 2050, o mundo conhecerá 200 milhões de refugiados do clima;

OS ECONOMISTAS ECOLÓGICOS SENTENCIAM: os limites físicos do planeta colocam em xeque à ideia de crescimento sem fim;

OS CIENTISTAS SOCIAIS CONCLAMAM: devemos reorientar nosso modelo de civilização, e mais do que isso, devemos alterar o sentido civilizatório;

OS AMBIENTALISTAS NÃO CANSAM DE DIZER: nenhum progresso será viável se não buscarmos manter o equilíbrio entre a nossa espécie e o resto da natureza.

Embora esteja claro que tudo isso provoca múltiplos desdobramentos em graus variados, pelo lado da questão social, e importa mencionar isso, há de se dizer com muito pesar que as evidências continuam mostrando que desigualdades e diferenças socioeconômicas, ao afetar o cotidiano das populações vulneráveis (vítimas das circunstâncias), minam de vez expectativas de uma vida com mínima segurança, o ponto vital. E nesse caso, somos confrontados de imediato com uma realidade assombrosa.

A fratura social (totalmente fora de controle e moralmente indefensável) é de tamanha ordem que atingimos absurdos e extremos: o 1% mais rico do mundo equivale aos 99% seguintes.

Pela realidade brasileira, ainda sobre esse assombroso assunto, apenas 0,5% dos brasileiros concentram quase 45% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Convencionalmente considerada como uma sociedade bastante desigual, não mais do que seis brasileiros – isso mesmo, apenas 6 indivíduos – concentram, juntos, a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres do país, ou 47% da população. 

E mais: esses dados em particular, quando vistos em conjunto, continuam a nos deprimir. Para entrar no detalhe, em 2019, por exemplo, resumindo numa única situação, apenas 2.153 indivíduos mundo afora detinham mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – o equivalente a cerca de 60% da população mundial. O pior é que, em tais circunstâncias, apesar de ser escandaloso, assombroso e estarrecedor, isso não é nenhuma novidade, tanto que o sempre iluminado Boaventura de Souza Santos esbraveja com razão: “um sistema com desigualdades gritantes sobrevive há séculos”.

E como tudo está interligado, a questão que se coloca diante de mais essa indecência é relativamente simples de entender.

Vejamos: gestadas por um dominante modelo de crescimento ecologicamente predatório, esses custos, ameaças e riscos socioambientais – capazes de destruir as bases ecológicas de produção e de subtrair a possibilidade de uma vida com qualidade – trazem em si marcas de anormalidade que carregam nomes próprios: pobreza, miséria, aprofundamento de vulnerabilidades, secas, inundações, ondas insuportáveis de calor, recuo de geleiras, elevação do nível do mar, proximidade de esgotamento dos ecossistemas, excesso de rejeitos (cultura de descarte, e, dá no mesmo, economia do desperdício), poluições atmosféricas, exército de refugiados ambientais, sistemática degradação ecológica e acentuada diminuição da biodiversidade, para o caso de citar por esse momento apenas algumas das situações mais desconexas e alarmantes possíveis.

Ainda assim, diante de mais essa dura realidade, o detalhe apavorante contido em toda essa ideia, e que precisa ser bem explicitado, é que já fomos longe demais com nossas loucuras, inclusive as consumistas. Sabendo disso, num quadro de críticas justificáveis, há um ponto importante de toda essa discussão que não podemos perder de vista: onde quer que nos encontremos, precisamos ter sempre em mente que, por conta do violento capitalismo global, a grave predação planetária, conjugada ao pesadelo climático que paira sobre toda a população global, não pode continuar a ser “administrada” do modo como estamos acostumados a fazer.

À primeira vista, apesar dos pesares, se quisermos superar os principais sinais da crise do mundo globalizado (incluindo aí, é claro, a questão climática) temos o dever de passar à ação imediata, a começar por empreender mudanças radicais, incluindo o rompimento com as ideias tradicionais. Isso pode parecer simples, mas não é. Toda ação de ruptura, em muitos casos, se traduz num rompimento com uma dimensão normativa. Nesse caso, a referência aqui diz respeito à posição padrão da racionalidade econômica ainda muito presente no imaginário coletivo, vide o exemplo vivo da ideia do crescimento sem fim (tolice imaginar que isso seja possível) colocado como selo de salvo conduto.

E mais um detalhe: não se trata aqui de apenas criticar o crescimento sem uma base de fundamento, mas sim procurar enfatizar a necessidade que temos de romper tradições. Afinal, qualquer um que se interesse minimamente pelo desempenho da vida moderna sabe bem, e não é difícil assim concluir, que já não é mais possível aceitar a existência de um modelo econômico (cujo crescimento é sempre o ponto de destaque) que coloque em perigo o equilíbrio ecológico.

Em outras palavras, não será tirando a qualidade dos ecossistemas, do qual dependemos, que o sistema vida irá progredir. É justamente o contrário.

Logo, em termos claros, o que mais precisamos é de uma sociedade e uma economia que não abandone sua face humanista e sua reverência à Natureza (matriz de tudo e parceira da vida). O que mais precisamos, insistindo no assunto que sabemos ser urgente, é de uma economia equilibrada que esteja à serviço da comunidade humana, e que opere dentro dos limites planetários.

Para se chegar a isso, os desafios que nos espreitam são conhecidos. Para além de tudo, os especialistas não cansam de dizer que precisamos: (1) redesenhar uma nova estratégia planetária; (2) equilibrar os diversos interesses (“só os interesses são o motor da história”, dirá Daron Acemoglu); (3) administrar disputas entre os que decidem o destino do mundo; (4) mudar nossa cosmovisão; (5) desconstruir o paradigma do economicismo; (6) conter a expansão desenfreada das finanças mundiais (onde de fato reside o poder econômico); e, (7) abandonar, como uma espécie de prêmio final, a mania do crescimento (a growthmania, termo utilizado pelo economista inglês E. J. Mishan [1917-2014]).

Em síntese, precisamos repensar a economia global de uma forma inclusiva e sustentável, socialmente justa e ambientalmente segura, e isso requer, notadamente, impor o que tem sido discutido desde as negociações do Protocolo de Kyoto (1997): a definição de um preço global (taxação) para o carbono (ironia ou não, aqui é a lógica econômica a favor de benefícios climáticos), facilitando a reconversão da estrutura produtiva, imperativo à correção climática.

Com efeito, à medida que avança essa atual economia movida a combustíveis fósseis (que a economia ecológica acertadamente chama de economia entrópica) e que tanto nos aproximam de pontos de ruptura (tipping points), a agenda do futuro sustentável acaba imprimindo mais prioridades de realizações, entre as quais: (i) melhorar o padrão de vida da sociedade moderna, aumentando o bem-estar, a participação social e a inclusão; (ii) olhar na direção da descarbonização absoluta da economia, partindo para superar de vez a economia “fóssil-nuclear”; (iii) levantar esforços para ampliar o investimento em energia limpa com vistas a alcançar a meta do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) de emissão zero (eliminar as emissões indiretas) até 2050, consolidando assim o movimento global por justiça climática, reconhecido jeito que a humanidade tem de fazer as pazes com o planeta.

De novo: tudo isso porque está muito claro que o modelo econômico convencional dos dias de hoje não funciona em favor da maioria. Daí a ênfase para a busca de uma nova economia e de um novo projeto político global à serviço do bem-estar humano e planetário. É nesse sentido, único e abrangente, que devemos nos esforçar para inaugurar novos e promissores modos de vida solidários. Nosso entendimento mais imediato aqui, além do mais, é que necessitamos de uma economia plural construída pela e para a sociedade. Uma economia que seja capaz de “colocar o progresso a serviço dos mais pobres” (M. S. Swaminathan).

No ponto que move as decisões econômicas e políticas, nada pode estar acima da certeza de que necessitamos de uma economia de todos, e para todos. Uma economia para propósitos humanos que vá além da economia monetária. Uma economia de cooperação com olhos postos na “escala humana do desenvolvimento” (Manfred Max-Neef).

Mas qual desenvolvimento? De um desenvolvimento, por fim, que tenha o necessário “semblante humano”, como ensina o filósofo alemão Elmar Altvater.

No melhor dos casos, para alcançar a desejada transformação, é nosso dever exigir a organização de um novo plano político voltado ao alcance de práticas sustentáveis, necessariamente alinhavando atividades econômicas sustentáveis.

Dito isso, a discussão está na mesa: se Mary Robinson (2021), ex-presidenta da Irlanda, estiver certa quando anuncia sem meias palavras que “nosso prazo está chegando ao fim”, todos os que se preocupam com a justiça ambiental (environmental justice) e a justiça climática (climate justice), ou seja, todos os que se preocupam em defender a sustentabilidade da vida e projetam um mundo melhor, tem o dever de entender como mais um sinal de alerta (quiçá, um lembrete de urgência), as contundentes palavras do Dalai Lama (2001), um dos maiores líderes religiosos da atualidade: “É senso comum que não conseguiremos sobreviver se continuarmos trabalhando contra a natureza”.

Em outra reflexão, já escrevemos: “o que mais queremos é ter a possibilidade de construir oportunidades e meios de reorientar os rumos do planeta para igualmente levantar uma nova economia devidamente combinada à conscientização ecológica, isto é, a base para se chegar numa civilização verdadeiramente humana”. Leia mais: https://www.neipies.com/civilizacao-insustentavel-a-difusao-do-mal-estar/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DALAI LAMA, QUAKI F. & BENSON, A. “Imagine all the people: a conversation with the Dalai Lama on Money, politics and life as it could be”. Boston: Wisdom Publisher, 2001

 ROBINSON, Mary. “Justiça climática”, São Paulo: Civilização Brasileira, 2021.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira

Edição: Alex Rosset

Subsídios Campanha da Fraternidade 2022 para professores e professoras

“A realidade da educação nos interpela e exige profunda conversão de todos. Verdadeira mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e para a cidadania.” (Texto Base CF 2022, nº 5)

A Campanha da Fraternidade de 2022 da Igreja Católica, através da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) traz uma oportuna e necessária reflexão sobre os desafios da educação no Brasil, considerando o contexto histórico da pandemia e também a necessidade de uma educação inclusiva e com qualidade social.

Em 2022, pela terceira vez, a educação volta a ocupar as reflexões da Campanha da Fraternidade, agora, impulsionada pelo Pacto Educativo Global, proposto por Papa Francisco.

Assista: https://youtu.be/RmiqKXTB83Q?t=12

Os objetivos da Campanha são:

Objetivo geral: promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário.

Objetivos específicos:

1. Analisar o contexto da educação na cultura atual, e seus desafios potencializados pela pandemia.

2. Verificar o impacto das políticas públicas na educação.

3. Identificar valores e referências da Palavra de Deus e da Tradição cristã em vista de uma educação humanizadora na perspectiva do Reino de Deus.

4. Pensar o papel da família, da comunidade de fé e da sociedade no processo educativo, com a colaboração dos educadores e das instituições de ensino.

5. Incentivar propostas educativas que, enraizadas no Evangelho, promovam a dignidade humana, a experiência do transcendente, a cultura do encontro e o cuidado com a casa comum.

6. Estimular a organização do serviço pastoral junto a escolas, universidades, centros comunitários e outros espaços educativos, em especial das instituições católicas de ensino.

7. Promover uma educação comprometida com novas formas de economia, de política e de progresso verdadeiramente a serviço da vida humana, em especial, dos mais pobres.

Destacamos duas ideias do Texto-Base que julgamos relevantes para nossa reflexão:

“A Campanha da Fraternidade nos recorda que educar não é um ato isolado. É encontro no qual todos são educadores e educandos. É tarefa da própria pessoa, da família, da escola, da Igreja e de toda a sociedade. Afinal, como nos ensina o conhecido provérbio de origem africana, ‘é preciso uma aldeia para se educar uma criança’.” (Apresentação – Texto Base CF 2022)

“Uma educação humanizada não pode limitar-se a fornecer um serviço de formação, mas também cuidar dos seus resultados no horizonte das capacidades pessoais, morais e sociais dos participantes no processo educativo. Não pede simplesmente ao professor para ensinar e ao aluno para aprender, mas exorta cada um a viver, estudar e agir de acordo com as premissas do humanismo solidário.” (Texto Base, nº 227)

SUBSÍDIOS PARA APROFUNDAMENTO DE PROFESSORES E PROFESSORAS

Vídeo aulas sobre a CF 2022 – Fraternidade e Educação

A CNBB produziu 05 vídeos-aulas para Campanha da Fraternidade 2022. Seguem os links para acesso e aprofundamento.

Campanha da Fraternidade 2022– Vídeo aula 01

Campanha da Fraternidade 2022 – Vídeo aula 02

Campanha da Fraternidade 2022 – Vídeo aula 03

Campanha da Fraternidade 2022 – Vídeo aula 04

Campanha da Fraternidade 2022 – Vídeo aula 05

Slides de aulas para estudantes do ensino fundamental e médio

O professor Valdecir João Bianchi, de Passo Fundo, RS, estudioso do Ensino Religioso, produziu uma série de slides com propostas de atividade que podem ser trabalhadas em aulas durante todo ano de 2022, destacando a importância da educação na vida de cada estudante e na vida de todos os brasileiros e brasileiras.

Agradecemos pela contribuição generosa e pela partilha deste material.

Segue link dos Slides:

https://drive.google.com/file/d/1ut1SpIewvdZHVfsWmjNOY7qJflLpJU-S/view?usp=sharing

Edição: Alex Rosset

O que podemos fazer com as folhas secas caídas das árvores

As folhas secas de uma árvore são poemas lindos que podemos rimá-los em nossos jardins e vasos de plantas. Antes de as jogá-las no lixo veja se nelas consegue ver a poesia da sua alma.

Sempre gostei de ler o filósofo e escritor Voltaire que participou do movimento do Iluminismo na França e deixou grandes ideias para a posteridade e é com ele que começo este meu texto dizendo nas suas belas palavras “um ancião é uma grande árvore que, já não tendo nem frutos nem folhas, ainda está presa à terra.” Sim, as árvores também envelhecem. Elas têm vida própria e precisam trocar de vestes vez ou outra, por isso as suas folhas secas caem no chão das nossas calçadas, canteiros ou ruas.

Muitas pessoas acham feio aquele monte de folha seca “sujando” a sua calçada. Não sabe da belezura que tem em casa. Acha sujeira na natureza. Não tem olhos para ver apenas para enxergar. Não olha as coisas com amor e sim com aquela espetacular arte de julgar tudo. As folhas secas formam tapetes no chão e são levadas pelo vento para adubarem jardins e servem para fazermos muitas coisas.

A queda das folhas é um processo natural e acontece para que árvores e plantas se protejam e se mantenham nutridas durante o inverno. Em lugares de mata preservada, o solo onde são reunidas quantidades significativas de folhas secas é escuro. Isso é sinal de que a terra está devidamente adubada e fertilizada por conta das folhas que caíram. Outro aspecto importante desse fenômeno é a retenção da umidade no solo, que, aos poucos, se alimenta dos nutrientes que chegam até ele.

Tem gente que com muita raiva pega a vassoura e todas as manhãs varre a frente de casa, tirando aquele lixo da sua porta. As folhas secas são chamadas de lixo por aqueles que não sabem apreciar a natureza. Existe até gente que briga e já se desentendeu com o vizinho porque as folhas da sua árvore caem no seu quintal sujando tudo. É uma briga feia. Conheço vizinhos que já foram parar na justiça por causa disso. A coisa é séria.

Como se sentem as árvores diante de tudo isso? Como se sentiria você se alguém brigasse por que deixou o seu coração cair em outro corpo?

Seu coração que para você tem tanto valor e para o outro significa sujeira e lixo. Assim sentem-se as árvores. As suas folhas caídas não são lixo elas são as vestes trocadas num outono necessário para ficarem mais bonitas com novas folhas verdes. As folhas secas não deveriam incomodar ninguém. Sei que é chato ficar varrendo o tempo inteiro a calçada por causa de tantas folhas caídas da sua árvore, mas isso não significa que seja preciso derrubá-la.

Muitas pessoas têm o costume de podar a copa das árvores e deixarem apenas no tronco porque estão cansadas de limparem a frente de casa com tantas folhas secas espalhadas pelo chão. Estão cansadas de reclamações dos vizinhos. Não sabem elas que essas folhas podem impedir que as suas ruas se alaguem retendo água da chuva, podem servir para adubar outras plantas, fazer um chá medicinal ou decorar uma página de livro.

As folhas secas podem servir para várias coisas. Uma delas é a beleza de decorar salas e quartos através das artes visuais. Alguns artistas usam as folhas secas para fazerem quadros com a ajuda de alguns produtos químicos que vão conservar aquelas folhas secas por muitos anos. Tem pessoas que guardam uma folhinha seca como lembrança de um momento lindo ou de um lugar especial.

Eu, certa vez, ganhei de presente uma folhinha seca de uma mangueira que fica num terreiro de Candomblé na cidade do Rio de Janeiro. Foi um dos maiores presentes que já recebi até hoje. A mãe de santo trouxe para mim quando veio visitar a minha cidade. Guardei a folha dentro do meu livro de poemas de Florbela Espanca dividindo os poemas “Eu” e “Ser Poeta”. Os marcadores de páginas dos meus livros físicos são todos feitos de folhas secas. Eu, particularmente, acho-os lindos. Uso um verniz indicado por um professor de artes visuais que me ensinou a como conservar por muito tempo a minha folha seca. Apenas isso.

Outro dia, vi uma amiga usando um lindo colar com um pingente de três folhas secas também envernizadas. Achei a coisa mais bela do mundo e desejei muito aquele colar para mim. Pedi para ela, mas claro que não recebi. Ela disse que foi presente do seu primo e até falou do bom gosto do rapaz. Realmente ele sabe bem como agradar uma mulher.

As folhas secas podem servir para adubarem outras plantas e assim servirem de nutrientes.

Lá no parque onde caminho é uma belezura de se ver as folhas secas caídas pelo chão e as pessoas pisando nelas sem nem reclamarem de nada, as poças de águas que costumam ficar paradas em cima delas à espera de que o sol venha secá-las e deixá-las ainda mais bonitas. Ah! Como eu amo as folhas secas do meu velho cajueiro!

Conheço empresas de cosméticos que usam as folhas secas das árvores para fazerem produtos de beleza e até mesmo muitas delas servem como essências para perfumes cheirosos e maravilhosos. Também tem aqueles sachês cheirosos que servem para perfumarem as nossas roupas guardadas em maleiros ou até mesmo guarda-roupas. Sim, as folhas secas servem para muitas coisas mesmo e você pode experimentar isso usando a sua criatividade.

A minha mamãe na sua juventude para sobreviver contou-me quando tive a ideia de escrever este texto e descobri a sua importância de que na juventude ela fazia perfumes com folhas secas que colocava dentro dos vidrinhos junto com outras essências e ficavam cheirosos por demais. Vendeu muitos perfumes feitos assim e com isso conseguiu comprar o leite para o meu irmão mais velho.

Na minha cidade tem calendário para os garis limparem as folhas secas caídas pelo chão. O prefeito acha que as árvores sujam as nossas ruas e por isso é preciso que de vez em quando elas sejam podadas e as suas folhas secas retiradas dos canteiros. Eu nem acho que fosse necessário isso porque não vejo mal algum num tapete feito de folhas secas cobrindo a mãe terra, protegendo-a do frio e do sol.

Acho que a natureza sabe cuidar de si sem interferência do homem. Se as folhas caem das árvores é porque, certamente, elas são necessárias ao chão. Os homens têm mania de mexer com o movimento da natureza. Ele não se contenta em mexer apenas com as tradições e costumes dos povos que vive a colonizar e roubar deles as suas culturas.

Para aquelas pessoas que realmente precisam se desfazer das folhas secas das suas árvores recomendo que as coloquem dentro de uma caixa de papelão para que o carro do lixo possa levar. Às vezes não temos tempo de decorar as nossas casas e nem sairmos à procura de quem quer folhas secas porque nem vamos encontrar quem queira assim com facilidade. E são tantas as folhas na verdade, não é mesmo? O tempo não nos permite pensar ou esperar por nada… o tempo nos consome  e consome a nossa paciência.

As folhas secas adubam o solo e isso é maravilhoso para quem gosta de plantas. Há um tipo de processo chamado de compostagem que é produzido com folhas secas e ocorre a partir de um processo diferenciado da compostagem tradicional. A principal diferença está no fato de como a matéria orgânica se decompõe. No caso do método tradicional, o calor gerado torna o ambiente propício para que as bactérias transformem o material orgânico em matéria orgânica.

A compostagem com folhas secas se dá pelo processo denominado frio, em que os fungos as transformam em matéria orgânica. O tempo de transição é outro ponto que marca diferença entre ambas. Enquanto a compostagem tradicional ocorre, em média, 3 meses, o composto de folhas pode atingir a maturidade em até 3 anos.

O principal benefício da compostagem com folhas secas é que ela promove condições que fornecem nutrientes ao solo e às plantas. Isso implica na melhoria da estrutura da terra. Por esse motivo, é considerada um condicionador de solo.

Ademais, ajuda a suavizar solos pesados, como os argilosos; possibilita a retenção de água, favorecendo assim a irrigação, estimula a atividade biológica, criando um ambiente de micro-organismos que ajudam a prevenir as pragas.

A maioria das folhas secas das árvores Castanholas quando pegas nas mãos se desmancham feito vidro. Você pode optar por usá-las como adubo no seu jardim, no seu vaso de planta que tem em casa, no apartamento ou no seu quintal. Se forem muitas e você não tiver o que fazer, infelizmente, será necessário conseguir uma caixa de papelão e jogá-las no lixo. Mas, antes de fazer isso procure ver se não existe perto de você alguém que esteja precisando delas para adubar o jardim ou coisa parecida.

Os nossos indígenas sabem muito bem como utilizar as folhas secas caídas das árvores.

Podemos descobrir com eles o que fazermos com elas além de adubarem as nossas hortas e jardins. Uma pesquisa na internet ou uma conversa com um deles seria maravilhoso.

Se for necessário descartar as folhas secas, lembre-se do cuidado com o meio ambiente e nunca as coloque em sacos plástico para o carro do lixo levá-las. Os sacos plásticos levam anos para se decomporem e podem prejudicar o meio ambiente. Evite qualquer tipo de plástico para embalar o seu lixo. Coloque as folhas secas dentro de uma caixa de papelão ou numa sacola ecológica que possa ser reaproveitada e feita por você mesmo.

No outono, as folhas secas costumam a caírem bastante das suas árvores e isso é um presente para o nosso solo. Um espetáculo divino que a natureza nos presenteia e ajuda o meio ambiente economizando energia, sabiamente, para a aridez do inverno que se aproxima. Tudo na natureza é perfeito. Não mexa com as nossas árvores e plantas. Os deuses sabem o que fazem.

Um dos maiores desastres da atualidade é vermos as pessoas, mesmo as que se dizem cultas e instruídas, desvinculadas da natureza.

Não gostam de pisar no chão para não sujarem os seus pés, não apreciam a teia que uma aranha teceu, não curtem o cheiro das flores em um jardim e acham que folhas secas dão muito trabalho e só servem para sujar as suas portas de casa. O ser humano perdeu a sua identidade com a natureza e vive preso aos objetos eletrônicos que não sujam e não dão trabalho, mas que ao contrário das folhas secas são altamente prejudiciais ao meio ambiente. Troque o seu celular por um momento de contato com o meio ambiente. Pise no chão e sinta a terra acariciar os seus pés.

É tão triste ver o solo sendo varrido e contemplar depois ele nu, completamente nu. Como se as suas vestes tivessem sido arrancadas abruptamente. Como se elas não lhe servissem mais. Sentindo frio e desprotegido. Quem gosta de ficar nu diante de estranhos? Deixe a natureza agir, não interfira no seu movimento. Ela sabe o que é melhor para si.

Para finalizar deixo vocês com o pensamento de John Keats que nos diz “se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”

As folhas secas de uma árvore são poemas lindos que podemos rimá-los em nossos jardins e vasos de plantas. Antes de as jogá-las no lixo veja se nelas consegue ver a poesia da sua alma.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

O autocontrole como desafio educacional

Se quisermos ter uma sociedade mais decente, então, inevitavelmente, temos que ajudar nossas crianças a compreenderem e exercitarem o autocontrole. E a melhor forma de ensinar o autocontrole é dando o próprio exemplo.

“Pensar antes de agir” tem sido um dos sábios preceitos dos grandes mestres da vida. Agir sem pensar pode levar as pessoas a tomarem decisões erradas, arrepender-se das escolhas e sofrer com possíveis consequências desastrosas.

Estudos mostram que as piores tragédias cometidas pelo ser humano são resultados de ações tomadas de forma impulsiva e destituídas de uma reflexão prévia. Não faltam exemplos de experiências coletivas ou pessoais para atestar isso.

Numa matéria intitulada “Ciência do autocontrole” divulgada recentemente na Revista Mente & Cérebro, estudiosos indicam que “sem dominar nossos impulsos não poderíamos conviver de forma civilizada”. Segundo neurocientistas, a capacidade de autocontrole social pode ser compreendida por meio de marcas neurobiológicas.

Mas o que é autocontrole? De que forma ele pode ser exercitado? Que relação existe entre a Educação e o autocontrole?

“Pessoas com bom autocontrole são, em geral, mais bem-sucedidas no trabalho e mantêm relacionamentos mais estáveis”, como comprovam os estudos do Psicólogo Roy Baumeister e seus colegas de pesquisa da Universidade Estadual da Flórida em Tellahassee, nos Estados Unidos.

A equipe de pesquisa investigou longamente duas questões importantes: os processos cerebrais responsáveis por nossa capacidade de autocontrole social e as características neurobiológicas que possam esclarecer as diferenças individuais relacionadas a essa capacidade. Os resultados da pesquisa mostraram que o autocontrole é imprescindível para uma vida mais saudável e um convívio social mais promissor.

Um estudo semelhante em termos educacionais foi feito ainda na década de 1970 pelo Psicólogo Walter Mischel e sua equipe na Universidade de Stanford, também nos Estados Unidos. Trata-se do famoso Teste do Marshmallow. Nesta experiência feita com crianças de 4 a 6 anos, os pesquisadores deixavam as crianças sozinhas numa sala em frente a um doce (marshmellow) com uma instrução muito clara: podiam comer o doce imediatamente ou esperar cinco minutos e aí poderiam comer dois doces. Após a instrução o adulto se afastava da sala por 15 minutos. Tratava-se, portanto, de um teste de adiar a gratificação.

O estudo longitudinal de Mischel mostrou que as crianças que tinham a capacidade de autocontrole tiveram um melhor desempenho escolar, conquistaram melhores empregos, tiveram uma vida mais saudável e feliz comparada as crianças que não tiveram o autocontrole.

O estudo mostrou também que o grupo de crianças que conseguiram adiar a gratificação, tiveram indicadores menores de envolvimento com drogas, com atos criminais e com propensão a obesidade em comparação com o grupo de crianças que não tiveram autocontrole.

O autocontrole certamente deveria ser um dos focos importantes da educação, pois está relacionado a forma como reagimos diante de certas situações, enfrentamos os problemas e tomamos decisões. Cotidianamente, assistimos inúmeros acontecimentos em que crianças e adultos tem dificuldade de lidar com a impulsividade do momento. Grande parte da violência que tomou conta das nossas vidas tem por base a dificuldade de exercer o autocontrole, de pensar antes de agir.

Sócrates, um dos mais importantes filósofos da Grécia Antiga, já dizia há mais de 25 séculos: “Uma vida não examinada não merece ser vivida”.

Certamente, um preceito atual de autocontrole que não pode ser negligenciado e omitido nos processos formativos.

Se quisermos ter uma sociedade mais decente, então, inevitavelmente, temos que ajudar nossas crianças a compreenderem e exercitarem o autocontrole. E a melhor forma de ensinar o autocontrole é dando o próprio exemplo.

Me proponho do decorrer na coluna quinzenal deste ano escrever e refletir sobre isso. Convido a todos os leitores a acompanharem algumas reflexões sobre essa forma espontânea de pensar a filosofia. Num mundo marcado pelo descontrole e pela irracionalidade, talvez um pouco de filosofia seja apropriado para pensarmos sobre a forma de vida que estamos vivendo e talvez concordar com Sócrates que “uma vida não examinada, não merece ser vivida”. Leia mais: https://www.neipies.com/filosofia-para-que/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

Lugar de Diversidade

Vitória Bernardes defende que o caminho para uma sociedade mais humana e saudável é o reconhecimento da diversidade humana, e não a separação pela diferença. “Diante da diversidade e das possibilidades do corpo humano, por que vamos dizer que existe uma única forma de se enxergar ou de andar”?

Vitória Bernardes se tornou uma mulher com deficiência quando uma bala atingiu o seu corpo, em 31 de dezembro de 2001. A menina de 16 anos tinha saído da casa da avó, em Novo Hamburgo, município vizinho à capital gaúcha, e parou em um orelhão para ligar para uma amiga. Ela não percebeu o assalto que acontecia em um estabelecimento próximo ao telefone público.

Para Vitória, poderia ter sido um dia de comemoração do final de mais um ano, como tantos outros que ocorreram antes, mas esse mudaria sua vida — a bala perdida, o chão, o corpo sem sensação, o susto, três meses de internação em uma UTI, em Porto Alegre, e mais um período de reabilitação na Rede Sarah, em Brasília. A lesão deixou marcas profundas, além do que é visível. Por conta dela, Vitória ficou tetraplégica e viu seu futuro ser transformado.

Na volta à “outra vida”, como fala sobre o que teve que enfrentar, Vitória diz que a escola foi muito importante em seu processo de reintegração social. “Eu não queria ir. Hoje eu consigo entender o quanto foi importante. Fui acolhida pela escola e por meus colegas. Eu me emociono quando falo. Fiquei seis meses no hospital, voltei e concluí [o Ensino Médio] com a mesma turma”, observa, numa conversa por uma plataforma de vídeo.

Enquanto ela estava internada, a escola fez com que seu espaço ficasse mais acessível e ela pode continuar os estudos.

Na festa de formatura, os colegas pegaram sua cadeira e a conduziram por uma escada, pois não havia mais locais disponíveis para locação. “Pode não ter sido o mais adequado, mas foi simbólico. Eu desci com os meus colegas que diziam ‘é óbvio’. Isso que a gente precisa resgatar. Não é óbvio que as pessoas precisam ocupar os mesmos espaços e que devemos preservar sua dignidade? Senão a deficiência fica como algo estático, que não existe”, observa.

Vitória conta que teve que “reaprender a viver em uma nova condição”. Não foi fácil, diz. Ela relata o estranhamento que sentiu ao voltar aos lugares que costumava frequentar como uma pessoa andante. “Houve uma mudança no comportamento. Um dia te tratam de uma forma e no outro, não. Aprendi que a deficiência é isso”, afirma. Depois da escola, ela entrou para a faculdade de Psicologia, veio a formatura, a busca pelo trabalho.

Hoje, Vitória mexe as mãos, é autônoma, casou e tem uma filha, Lara, de oito anos. Com um sorriso, comenta: “A vida é feita de fases”. E a vida de Vitória seguiu com vivências que a tornaram uma ativista pela inclusão. “Os nossos corpos pertencem, ou deveriam pertencer, a todos os lugares. O que faz com que todo lugar em que eu esteja eu acabe reivindicando algo. É bem violento”, relata.

Gaúcha, moradora de Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, Vitória ativista de direitos humanos e conselheira nacional de saúde, representando a Associação Amigos Múltiplos pela Esclerose (AME). Seu ponto de partida na militância começou em 2005 com a causa que marca sua trajetória, o controle de armas.

Natural de São Leopoldo, município próximo a Porto Alegre, ela nasceu na cidade que sedia a maior empresa de armas leves da América do Sul e que tem o monopólio da fabricação de armas no Brasil. Foi uma arma que, segundo Vitória, a situou em um lugar social em que predomina o estereótipo de ser uma pessoa incapaz e improdutiva — e que, segundo ela, pode ser ocupado por qualquer um em qualquer momento da vida.

Para ela, há uma “hierarquia de corpos” enraizada na sociedade que define pela comparação um corpo visto como “defeituoso” e “inválido” com um modelo de pessoa considerada “perfeita” e “normal”. “Por que uma pessoa com dois metros de altura não é vista de forma negativa e uma com baixa estatura é patologizada e seu tamanho fica fora do padrão? Precisamos ficar atentos a essa estrutura de dominação entre corpos, que é dinâmica. Às vezes é por raça, gênero, classe, e outras por funcionalidade”, alerta, falando sobre o preconceito que enquadra pessoas, não só com deficiência.

Por achar que subvertia o chamado “mantra da falta de capacitação” das pessoas com deficiência, Vitória acreditou que teria um emprego garantido logo depois de formada, em Psicologia. A realidade mostrou o contrário. “Ainda não me entendia nesse lugar de atividade política. Eu, de classe média, achei que estaria fora do enquadramento dado às pessoas com deficiência, mas não foi isso que vivi. Tentei várias posições e consegui emprego em um local que trabalhava com pessoas com deficiência. Precisava trabalhar, era o que tinha. Não foi uma escolha”, observa. Apesar disso, reforça que “fui muito feliz por lá”.

Discriminação estrutural

Para Vitória, a discriminação é estrutural e não resulta apenas de uma ação individual. “Criamos guetos [espaços segregados] com escolas especiais para mulheres, para pessoas negras, para meninos que são lidos no lugar de feminilidade ou de meninas que fogem ao padrão aceito.

As estruturas são perversas para todos. A escola não está sendo um lugar saudável para ninguém”, salienta. Segundo ela, o discurso dessa educação segregadora é baseado na proteção das pessoas com deficiência para que não sofram violência na escola.

“A ideia é colocar esses estudantes em uma redoma. E a decisão vai ficar a critério da família. Mas que família é essa se entre 40% a 68% das mulheres com deficiência serão estupradas antes dos 18 anos dentro de casa?”, argumenta.

Por isso, ela defende que o caminho para uma sociedade mais humana e saudável é o reconhecimento da diversidade humana, e não a separação pela diferença.

“Diante da diversidade e das possibilidades do corpo humano, por que vamos dizer que existe uma única forma de se enxergar ou de andar? Por que vamos ignorar todas as potencialidades e possibilidades de se relacionar com o mundo? Precisamos falar sobre isso”, reflete.

A ativista lembra que qualquer um pode se tornar uma pessoa com deficiência. “A pessoa pode adoecer ou condições inseguras e acidentes de trabalho podem levar à vivência da deficiência. Precisamos trazer humanidade porque a luta das pessoas com deficiência é pela nossa humanização”, defende. (L.M)

Há, nas escolas, educadores/as adultos/as que se dispõem a acolher, sem razões robustas, a vida precária de jovens pobres? E se não há fortes razões para isso, o que pode vincular eticamente os/as educadores/as à alteridade das pessoas marcadas por vidas precárias? São questões que introduzem a reflexão sobre os impasses e as possibilidades pertinentes à escolarização dos/das jovens pobres, exigida pela lei republicana e democrática. Leia mais: https://www.neipies.com/vidas-vulneraveis-em-escola-publica-quando-o-aprender-clama-por-acoes-que-ultrapassam-a-execucao-formal-das-atribuicoes-profissionais/

Autora: Liseane Morosini

FONTE: https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/reportagem/lugar-de-diversidade

Edição: Alex Rosset

A multidão dos desterrados e errantes

O ambiente do passado reflete a impossibilidade de florescer e produzir frutos; a incerteza do futuro, revela a dificuldade de replantar as raízes em terra estrangeira.

A guerra anunciada, e finalmente declarada, entre Rússia e Ucrânia desencadeia um rio humano de pessoas em fuga. Nos últimos decênios vimos os casos do Iraque, da Venezuela, da Síria, de Mianmar, do Afeganistão, do Sudão do Sul e, agora, da Ucrânia. Refugiados que se contam aos milhões: ao redor de 6 fogem da Síria, mais de 5 da Venezuela, 3,5 no Sudão do Sul, 1,5 em Mianmar!… Afeganistão e Ucrânia, juntos, já ultrapassam e milhões. Somando os refugiados de todo mundo, a ACNUR já os estima em mais de 80 milhões.

Tensão, violência, conflito e guerra estão por trás desses deslocamentos de massa.

Desde o início deste século (e milênio), temos assistido a um aumento não somente dos focos de refugiados, bem como do número destes últimos.

Não podemos esquecer que refugiado é aquele que não pode voltar atrás e, muitas vezes, encontra pela frente barreiras intransponíveis. Águas represadas, encurraladas, em campos marcados em geral por extrema precariedade de vida e de acolhida. Bastaria uma simples olhada aos campos da Líbia, da Turquia, do México, da Grécia, do Bangladesh, entre outros.

Olhando para trás, o refugiado vê a hostilidade, a perseguição, o julgamento, o cárcere ou até mesmo a morte. Trata-se, quase sempre, de pessoas banidas do próprio país ou região, por motivos políticos, religiosos ou ideológicos, quando não tudo isso ao mesmo tempo. O certo é que o retorno é proibido sob pena de severa punição.

Olhando para frente, o refugiado depara-se com um horizonte sombrio e esfumaçado, incerto e inseguro. Uma árvore arrancada da terra, com as raízes expostas ao sol. Podem murchar, secar, definhar e morrer. Os valores, expressões e referências, só com muita dificuldade, reflorescem em solo estranho.

O recomeço é costuma ser árduo e íngreme, com frequentes possibilidades de fracasso. A qualificação e experiência, longa e laboriosamente acumuladas na origem, por vezes perdem o valor nos países de destino. Nem sempre são considerados válidos o estudo, o “saber” e o currículo trazido na bagagem, da mesma forma que nem sempre é possível traduzir tudo isso no novo idioma.

Começar do zero – eis o grande desafio! E para grande parte dos migrantes, a idade já não o permite. Além disso, o trabalho e a moradia constituem dois imperativos que não podem esperar, devido às condições da família.

Aqui, porém, talvez seja necessário ampliar o conceito de refugiado. Parte considerável dos chamados “migrantes socioeconômicos” passam pelas mesmas turbulências e adversidades. De fato, igualmente para eles, atrás ficou a pobreza, a miséria, a falta de oportunidades e, embora a gota-gotas, também a morte. Fogem de um solo seco e estéril, de uma inundação ou catástrofe repentina, de crises climáticas cada vez mais imprevistas e violentas, de furacões, terremotos ou outros tremores de ordem físico-geográfica. Na frente, tropeçam com a falta de qualificação, os serviços mais pesados e perigosos, mais sujos e mal remunerados. Novamente neste caso, sem qualquer tipo de proteção, o recomeço encontra-se fadado ao fracasso. Repete-se o desafio de antes: recomeçar do zero!

Uns e outros – refugiados e migrantes – se vêm encurralados. O ambiente do passado reflete a impossibilidade de florescer e produzir frutos; a incerteza do futuro, revela a dificuldade de replantar as raízes em terra estrangeira. Ambos se encontram sujeitos às vicissitudes da estrada, às vezes de um vaivém ininterrupto, tal como folhas secas que o vento arrasta para onde quer. Terminam por cair num tipo de existência dependente, seja em relação aos fluxos e refluxos da globalização, seja em relação às migalhas do capital.

Desnecessário acrescentar que a pandemia da Covid-19 e, em determinados países, o modo pandemônico de gerir suas implicações e consequências, desnudou e ao mesmo tempo agravou, a situação dos grupos mais vulneráveis.

Os países e regiões onde a vida já se encontrava mais frágil e ameaçada, sofreram maiores perdas tanto devido à letalidade do coronavírus quanto devido à letalidade do confronto bélico. Ambos deixam feridas e sequelas que remédio algum será capaz de cicatrizar.

Autor: Pe. Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

A educação em 2022: redução de recursos e apagão de dados

2022 é o ano em que precisamos pensar mais e melhor para exercermos o direito e o dever de escolhermos governantes e gestores mais comprometidos com a educação, a ciência, a cultura e a tecnologia em prol de uma nação soberana.

Ao iniciarmos o terceiro ano letivo sob diversos impactos da pandemia na educação, a expectativa de todos era, no mínimo, melhores condições de trabalho e estudo, mais investimentos na educação e transparência dos gestores, sejam públicos ou privados, de todos os entes federados.

Porém, a realidade que se apresenta neste começo de ano é, novamente, de desarticulação, improvisação, redução de recursos orçamentários e apagão de dados do Censo Escolar.

Agrega-se a tudo isso, apesar do discurso da necessidade de retorno das aulas presenciais, um atraso proposital de vacinação de crianças e adolescentes pelo governo federal, ausência de campanhas educativas e, consequentemente, baixo índice de vacinação. Tudo isso evidencia ausência de planejamento de política pública de Estado e inoperância do regime de colaboração entre os entes federados. Inclusive no estado do RS.

Projetos e obras abandonadas

Durante o período de aulas remotas e escolas fechadas (2020 e 2021), os governos deveriam ter realizados as obras necessárias e tomado todas as providências para o retorno à presencialidade.

Porém, nenhum programa ou mutirão foi desenvolvido. O resultado é, conforme o censo escolar, além da falta de ambientes coletivos, condições sanitárias e conexão à internet; pátios e quadras esportivas não são acessíveis para a maioria dos estudantes de escolas públicas do estado.

Ao todo, de um total de 1.996 instituições estaduais (82,8%) e 2. 272 municipais (47,2%) não dispõem desses espaços. Ou seja, 53% dos estudantes sequer têm uma quadra ou pátio coberto à nas instituições onde estudam.

Escolas sem energia elétrica, sem água, com janelas quebradas, mobiliário semidestruído, prédios interditados e ausência de condições físicas de acolhimento e estudo, mesmo após dois anos sem aula presencial, são inúmeras.

O agravante não para por aqui. Em todo o país, 54.681 escolas (39,65), não têm acesso à internet banda larga, dessas 25,66% não têm acesso a qualquer tipo de conexão. Outras milhares de escolas não têm bibliotecas e as que possuem não tem profissionais para orientar a prática de leituras e pesquisas.

Conforme dados extraídos do Sistema Integrado de Monitoramento Execução e Controle (Simec), no Brasil, há 8.904 projetos escolares abandonados, sendo que os 604 do RS representam 6,8% do total, metade delas de iniciativas municipais.

Entre os empreendimentos, estão intervenções complexas, como construção de escolas de educação básica e de educação infantil, e de melhorias, como cobertura de quadras e ampliações de espaços das instituições.

Esse montante agrupa construções canceladas, paralisadas e inacabadas. Obras fundamentais para o desenvolvimento da educação e da aprendizagem dos estudantes, ainda mais especialmente em tempos de pandemia.

Vetos ao Orçamento da União de 2022

orçamento do MEC sofreu cortes expressivos nos últimos três anos e a execução orçamentária foi a mais baixa desde 2011. O orçamento sancionado em fevereiro para 2022 pelo governo federal apresentou novos e substanciais vetos que impactam Unidades Orçamentárias do Ministério da Educação.

A Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca) se manifestou em nota, apontando que os cortes no MEC atingiram R$ 739.893.076,00, abrangendo vetos a emendas, principalmente as apresentadas pela Comissão de Educação do Senado e pela Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados, valores discricionários e valores da proposta orçamentária que não fazem parte das emendas dos congressistas.

Esses cortes em 2022 além de aprofundarem a forte redução nos recursos do MEC que se destinam ao pagamento de despesas associadas a outras despesas correntes, investimentos, inversões financeiras etc., excluindo-se aqueles para o pagamento de pessoal e encargos sociais (que são obrigatórias).

As chamadas ‘outras despesas correntes’ são as realizadas com o pagamento de água, luz, internet, material de consumo, reforma de instalações, limpeza, vigilância, terceirização etc. Os investimentos são os recursos aplicados em construções, aquisição de equipamentos e mobiliários etc.; inversões financeiras são despesas realizadas, por exemplo, com a aquisição de imóveis que já estão concluídos.

Censo Escolar: manipulação de dados

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), encarregado de coletar, organizar e divulgar os dados do Censo Escolar da educação básica e do ensino superior, divulgou recentemente que o “formato de apresentação do conteúdo dos arquivos que reúnem um conjunto de informações detalhadas relacionadas à pesquisa estatística e ao exame foram reestruturados”, a pretexto de “suprimir a possibilidade de identificação de pessoas, em atendimento às normas previstas na Lei n.º 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – LGPD)”.

A notícia surpreendeu a todos e mais de 30 entidades educacionais e científicas emitiram Posicionamento Público, no dia 22 de fevereiro de 2022, afirmando que é “preciso proteger a privacidade, sem abdicar da transparência. Utilizar a LGPD como justificativa genérica para o descarte dos microdados do Censo Escolar carece de fundamento legal. A própria LGPD deixa claro em seu artigo 7º, incisos II e III, que a administração pública pode realizar o tratamento de dados pessoais necessários ao cumprimento de obrigação legal e/ou execução de políticas públicas, sem que para isso seja necessário o prévio consentimento do titular destes dados”.

Para além do acesso ao detalhamento dos dados anteriores, rompendo e impossibilitando de análises históricas em série, as informações referentes ao ano de 2021 estão organizadas como uma estatística ampliada, desagregada no nível de escola, perdendo caráter de microdados, impedindo seu maior detalhamento e cotejamento.

No que tange à matrícula, apontam as entidades que subscrevem o posicionamento público, análises por idade, comparação entre idade e etapa não são possíveis, inviabilizando, por exemplo, o cálculo da taxa de matrícula líquida.

Apagamento de direitos

Nota-se também ausência de informações sobre transporte escolar. Em relação à análise de grupos específicos, não se tem informação sobre as categorias de deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, e altas habilidades/superdotação. Há um total de matrículas da educação especial incluídas, não podendo aferir em quais etapas/modalidades esses estudantes se encontram. Há um total de matrículas exclusivas, sem distinção entre classe exclusiva ou escola exclusiva.

Esse apagamento de dados, comum ultimamente no Brasil, impacta diretamente e imediatamente em três perspectivas: rompe uma série histórica de dados educacionais praticados pelo Inep; prejudica a estruturação e planejamento de políticas públicas educacionais consistentes para o enfrentamento das necessidades e, prejudica, a realização de pesquisas e estudos nas ciências da educação.

A medida tomada pelo MEC/Inep significa, também, o “apagamento dos direitos à educação e a tantos outros direitos de nossas crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos do país” apontam as entidades.

Desde 2010, o Brasil não tem dados censitários atualizados. Em plena pandemia, o Ministério da Saúde não protege suas informações estratégicas. Plataformas privadas vendem e vazam nossos dados com frequência.

Agora o MEC/Inep censura microdados educacionais. A quem e a que interesses tudo isso serve? Sem informações atualizadas sobre as reais condições de vida e de educação dos 212 milhões de brasileiros estamos numa caverna da ignorância. Prense!

Portanto, 2022 é o ano em que precisamos pensar mais e melhor para exercermos o direito e o dever de escolhermos governantes e gestores mais comprometidos com a educação, a ciência, a cultura e a tecnologia em prol de uma nação soberana.

Esta publicação foi publicada, originalmente, no site Extra Classe: A educação em 2022: redução de recursos e apagão de dados – Extra Classe

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alex Rosset

Vamos defender o SUS?

Documentário “Se não fosse o SUS” coordenado pelo CEAP de Passo Fundo destaca o papel fundamental do SUS no marco da Pandemia da Covid-19 e apresenta os prejuízos que o Sistema vem sofrendo em virtude do negacionismo e da falta de ação e coordenação do governo federal no combate ao coronavírus.

Sem dúvidas, a pandemia da Covid-19 trouxe um novo olhar ao Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que o sistema foi o único que garantiu todas as formas de cuidado, tratamento e acompanhamento às milhões de brasileiros e brasileiras acometidos pela doença. Caso não houvesse um sistema pronto para atender a população, o número de mortes – que somam mais de 653 mil – seria muito maior. Por meio do SUS foi possível vacinar a população prevenindo e controlando a doença.

O SUS é hoje a maior política pública do Brasil e é responsável pela assistência à saúde de pelo menos 150 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente dele. Mesmo assim há interesses difusos em desmontar o Sistema, retirando o direito à saúde, um direito fundamental da pessoa humana.

Para trazer a abrangência e a necessidade de defesa do modelo de saúde pública universal do Sistema Único de Saúde, o CEAP – Centro de Educação e Assessoramento Popular de Passo Fundo coordenou o documentário intitulado “Se não fosse o SUS”, que foi lançado pelo CNS, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS).

O audiovisual traz depoimentos de usuários, integrantes dos conselhos de saúde e trabalhadoras/es, relatos de autoridades, especialistas e ativistas, que traçam um registro histórico da importante atuação do Conselho Nacional de Saúde e da Rede de Conselhos de Saúde do país para resistir aos desmontes do SUS e avançar na sua implementação e continuidade. Cada um traz seu ponto de vista e seu relato sobre o que vive em seu território, a partir da força de um sistema que atende todos sem distinção e das fragilidades deste ocasionadas por má gestão, falta de recursos públicos e de políticas públicas.

O material destaca o papel fundamental do SUS no marco da Pandemia da Covid-19, apresenta os prejuízos que o Sistema vem sofrendo em virtude do negacionismo e da falta de ação e coordenação do governo federal no combate ao coronavírus, que resultaram na maior crise sanitária brasileira dos últimos tempos.

É uma oportunidade de dar voz as comunidades em seus territórios, quem vivencia o SUS em seu cotidiano, quem recebe as políticas públicas, atendimento e garantia da qualidade de vida.

O filme traz a essência e a potência do SUS, responsável por cuidar e salvar centenas de milhares de vidas desde sua criação em 1988. A ideia central é mostrar que nesta pandemia foi o SUS que salvou vidas e deu sustentação no atendimento às pessoas no seu dia a dia. Ele também traz a sensibilidade dos profissionais de saúde, o trabalho e cuidado do controle social para garantir que vidas fossem salvas durante o caos sanitário, político e social instalado do país.

São 24 minutos de duração que criam conexão, pois são relatos sinceros, verídicos, de quem está na ponta, seja usuário ou profissional da saúde. Os depoimentos resgatam a resistência e luta dos militantes da saúde e a força do povo.

A partir do material é possível trazer uma nova visibilidade ao SUS, levando a sociedade a entender que sem ele não haveria outra alternativa.

A pergunta que deixamos é: Se não fosse o SUS, o que seria do nosso povo brasileiro?

Assista o documentário aqui neste link: https://bit.ly/documentariosenaofosseosus

“Se não fosse o SUS”: roteiro e direção: Guilherme Castro.

Autora: Rosângela Borges

Edição: Alex Rosset

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