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Ódio: catarse ou cultura?

Será que o volume brutal de ódio de cunho político, nitidamente instaurado no Brasil, tenderá a funcionar como uma catarse ou como uma cultura? Ou como catarse cultural?

Ódio é um desses conceitos vulgares que dispensam maiores definições. Ao ouví-lo todos sabem com certa precisão do que se trata. Parece mesmo algo intuitivo ou instintivo, que muitos não controlam. Antes, o incentivam. Etimologicamente, catarse (do grego kátharsi) significa purificar, purgar, limpar. Cultura, a rigor, diz respeito àquilo que se cultiva. E, no final das contas, tem-se o que se cria, replica e promove, para o bem ou para o mal.

De par com essas ideias, é possível refletir um pouco sobre práticas em curso. Práticas que, a olhos vistos, crescem dia após dia e se configuram em cultura do ódio, da violência, da barbárie, da incivilidade, da força bruta, da decadência ética, da desumanização.

As palavras parecem não mais dar conta da realidade diabolicamente reinventada todos os dias por todos os lados desse imenso país, em que paradoxalmente muitos chamam de “pátria amada”, ao mesmo tempo em que fomentam a intolerância e o ódio. Realidade que nos encobre, nos amedronta e causa repugnância.

Porém, para quem se propõe refletir com bom senso, a bestialidade não é horizonte. É, ao contrário, ruína a ser superada. A humanização, ou gentificação (ato de tornar-se gente) como dizia Paulo Freire, exige diálogo, respeito à realidade e à dignidade do outro. Requer o exercício quase nunca fácil, mas sempre imprescindível, de colocar-se no lugar do outro/a, de “sentir com”, de ser solidário, de promover o bem viver entre todos.

A cultura que vem se sobressaindo é a do ódio, quando se precisa tanto de paz, resultante da justiça social.

A violência não é uma emergência e nem uma ocorrência recente. Ela está presente em toda a história da humanidade. Agora, contudo, está sendo promovida de forma absurda, tendo as mais diferentes motivações e nuances. Diante dela pode-se ter distintas reações, desde o incitamento, passando pela naturalização, banalização e indiferença até a indignação, a criação de mecanismos para contê-la e o fortalecimento de meios para promover a pacificação ativa.

Ademais, é possível também criar hipóteses, reflexões e teses. Será que o volume brutal de ódio de cunho político, nitidamente instaurado no Brasil, tenderá a funcionar como uma catarse ou como uma cultura? Ou como catarse cultural? Se como catarse, uma vez expelido o capital represado de ódio bestial, a tendência seria retomar certa normalidade civilizatória. Se fluir como cultura, quanto mais ódio e violência expressos, tanto mais se tenderá a ter o mesmo produto.

Estamos caminhando em qual direção nessa Terra Brasilis, nos seus 200 anos de uma dita independência?

A experiência histórica e societária mostra que a intolerância tende a gerar mais intolerância; ódio e violência, igualmente. De outra parte, como dizia José Datrino (o Profeta Gentileza): “Gentileza gera gentileza”. Porém, sob o império das armas, das macabras palavras e das ações violentas que nos governam, essa (a gentileza) tem sido ofuscada, menosprezada e tratada como “coitadismo”.  A educação, a sensatez, a sensibilidade e a dignidade humana, do mesmo modo.


Nesse contexto, haverá ainda utopias a serem perseguidas? Sim, certamente. Muitas, todas! Entre elas, as que parecem tão naturais e que noutros tempos estavam muito mais ao alcance do povo, sobretudo dos mais pobres. Necessário agora fortalecer a luta pelo que perdemos e/ou nunca conquistamos: a justiça social, o respeito, a cultura da paz, a soberania, a democracia; o investimento em saúde, educação, trabalho decente; alimentação suficiente e de qualidade para todos; demais direitos e serviços públicos.

O amanhã haverá de ser aquilo que plantarmos hoje e que cultivarmos sempre. Oxalá sejam reflorestados os desertos do chão e da alma.

Queiramos todos/as que o estágio de estupidez que assola o mundo e, em particular o Brasil, dê lugar a um padrão mais elevado de sensatez! Queiramos igualmente que o bem viver de todos/as se instale como grande utopia (inédito viável – nas palavras do educador Paulo Freire) e que avancemos de fato em termos civilizatórios e humanitários!

Para filósofo Byung-Chul Han é possível adquirir o poder por meio da violência, mas é um poder frágil. “É um erro pensar que o poder remete à violência. A violência tem uma intencionalidade completamente distinta do poder”. Tanto a macrofísica da violência quanto o poder “do soberano” são fenômenos da negatividade. (Altair Fávero) Leia mais: https://www.neipies.com/reflexoes-sobre-a-topologia-da-violencia/

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alexsandro Rosset

Proteger quem cuida

Falo da resistência, da indignação, da “justa ira” dos/as traídos/as e dos/as enganados/as. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas. (Paulo FREIRE, Pedagogia da Autonomia (1997, p. 113).

Proteger quem cuida, quem faz a defesa, quem cultiva as causas, quem leva adiante as lutas populares, as lutas por justiça, por direitos humanos, pelos bens comuns é ação necessária, sempre. Mas, afinal, por que é preciso proteger?  

É preciso proteger porque aqueles/as que se engajam em processos de luta estão em risco em razão do significado estrutural de sua atuação, mas também em consequência das configurações contextuais.

O antropoceno, casado com o capitalismo predatório, coloca a vida sob risco (com perigos e ameaças) e junto com ela todos/as que a promovem e protegem.

Todos/as os/as que se apresentam contrários/as à acumulação concentradora, que a tudo transforma em “mercadoria”, são tratados/as como inimigos/as a serem eliminados/as. Esta matriz de fundo vai se traduzindo em configurações contextuais e agentes que a realizam nos territórios.  

A destruição da floresta, o garimpo ilegal, a pesca predatória, a agricultura devastadora, os grandes empreendimentos, a superexploração do trabalho, as milícias, o crime organizado, as forças de segurança liberadas para matar, o desmonte dos órgãos públicos encarregados da proteção dos territórios e de suas populações, o ataque aos povos indígenas e aos povos e comunidades tradicionais, enfim, estas e outras são suas manifestações, vão variando, mas carregam características comuns e alvos a serem vitimados.  

A desproteção não é uma casualidade para a prática ultraneoliberal. É uma ação programada, um método de ação, visto que não cabe em sua dinâmica nem a existência de outros processos planetários que não sejam baseados na depredação, no patriarcado, no racismo e na exploração. Nela também não tem lugar para a diversidade dos/as sujeitos/as e que estes/as são sujeitos/as de direitos – são “atrapalhos” a seus projetos de morte, os/as descartam e destroem, povos, populações e ecossistemas.  

Aqueles/as que “não fizerem por merecer” não têm porque serem cuidados/as, pelo contrário, suas precariedades serão potenciadas, não protegidas. Proteger equivaleria a um dispêndio que não cabe à sociedade e nem mesmo no rol das atribuições do Estado, que, ao modo de uma empresa, somente haverá de se preocupar com produzir “resultados lucrativos”. Há, portanto, uma desproteção estrutural em todos os sentidos que vai sendo efetivada de modo programado e sistemático.  

A sua efetivação precisa romper com princípios básicos dos direitos humanos como a universalidade (não tem proteção para todos/as), a indivisibilidade (não dá para garantir tudo o que precisa) e a interdependência (vamos ver o que dá para atender) dos direitos humanos. Além destes, também é necessário relativizar direitos, admitir e efetivar retrocessos e, acima de tudo, aceitar a legitimidade de práticas discriminatórias e de dominação. Na prática, a desproteção caminha junto com o descomprometimento com os direitos humanos e com o rebaixamento dos níveis aceitáveis de sua realização.  

Defensores/as de direitos humanos, lutadores populares, militantes sociais, são agentes de promoção da proteção integral, universal, de todos/as os/as seres humanos, de todos os seres vivos.

Não aceitam, de modo algum, romper com os princípios dos direitos humanos, exigem que aqueles direitos que ainda são promessa, sejam efetivamente realizados no cotidiano da vida, em todos os lugares, para todos/as. Agem para afirmar novos direitos a partir das lutas dos/as “sem-direitos” e para renovar criativamente todos os direitos já afirmados e instituídos. Lutam contra a acumulação concentradora dos bens comuns e reconstroem valores, reeducam práticas.  

Estas posições os/as colocam na mira dos agentes do capital e os fazem potenciais alvos da fúria destrutiva de seus agentes. É por isso que precisam ser cuidados/as e protegidos/as. Porque estão em risco, pelos perigos e/ou pelas ameaças. Mas, os riscos que encontram não são todos iguais e nem se apresentam sempre da mesma maneira, ainda que possam haver certas regularidades e similaridades.  

Por isso, é fundamental inserir nas análises da realidade, prática cultivada pela educação popular, além de outros elementos fundamentais para orientar a ação das organizações populares, também análises que possam evidenciar os riscos para a atuação dos/as defensores/as de direitos humanos, os potenciais de proteção popular, as necessidades de proteção institucional, as forças e fraquezas das organizações, além dos cenários nos quais se configuram situações de perigo e de ameaça, e como elas se desenham na correlação de forças estrutural, mas também contextualizada no tempo e no espaço.  

A construção de estratégias, o planejamento da ação protetiva e a implementação da proteção contam com requisitos fundamentais para que sua efetivação alcance a finalidade a que se destina: preservar e cuidar da vida e garantir que siga em luta. Neste sentido, a proteção é medida que sempre precisa ser acompanhada da promoção e da reparação para que possa se constituir em atuação integral.  

A orientação de fundo é sempre evitar violações (ação de promoção), mas se houver risco de que aconteça (necessidade de proteção) ou já tiver acontecido (necessidade de reparação), faz-se necessário uma intervenção sistemática.

Se é verdade que o risco é parte da dinâmica da vida e, atualmente, cada vez mais, a sua potencialização e sua transformação em efetiva violência ou violação haverão de ser evitadas pela implementação de medidas protetivas adequadas, suficientes e eficazes, capazes de reverter as causas geradoras de sua necessidade, ainda que possam também vir para sua mitigação ou redução. A proteção de defensores/as de direitos humanos é parte da atuação integral em direitos humanos.  

A proteção também pode e precisa ser uma política pública, expressão do reconhecimento da sociedade e, portanto, ação de Estado, para garantir que a atuação de defensores/as de direitos humanos seja realizada em ambiente e em condições que lhe sejam favoráveis. Ela também é atuação de relevância pública e um serviço ao bem comum, por isso suscetível de investimento público em programas e ações protetivas especificas, especializadas e profissionalizadas.  

A prática da proteção é, acima de tudo, uma herança da ação das próprias organizações de direitos humanos, dos próprios movimentos e organizações populares, que desde sempre a fazem como parte de sua atuação. E a fazem como proteção popular de defensores/as de direitos humanos, dos/as militantes e lutadores/as. Os movimentos, organizações e articulações desenvolvem modos próprios para o cuidado dos seus/suas. Ali é que está a fonte da proteção e é bebendo dela que se criarão as melhores estratégias, os melhores processos, as melhores metodologias e procedimentos para efetivar a proteção que combine práticas de autoproteção com práticas de proteção recíproca e de proteção solidária. Práticas populares não excluem, mas podem se complementar com práticas institucionais.  

A prática da proteção de defensores/as de direitos humanos é motivada pela indignação com todas as formas de violência e de violação, mas também pela solidariedade com todos/as que levam adiante as causas populares. Na raiz dela, está a justa ira. É ela uma prática de resistência, própria dos/as que são injustiçados/as, dos/as que são perseguidos/as, traídos/as e enganados/as. A justa ira sustenta um direito, que também se converte em dever: de rebelar-se contra os autores da injustiça, da perseguição, do risco.  

A justa ira é motivadora da responsabilização, não estritamente retributivista, mas também a reparação e a restauração.

Construir processos nos quais aqueles que são agentes do risco à vida dos/as defensores/as de direitos humanos e, também, aqueles que dele se beneficiam, ganhando dinheiro direta ou indiretamente com ele, sejam responsabilizados é um dos maiores desafios para que a proteção enfrente as causas de sua necessidade e possa chegar à vida de defensores/as de direitos humanos.  

Assim que, proteger a quem protege, defender a quem defende, cuidar de quem cuida é caminho fundamental para que a vida seja promovida com o máximo de força, que seus caminhos sejam empotenciados, que a abundância seja alcançada pela partilha. Sejamos agentes de proteção popular, sejamos agentes de realização do cuidado da vida, de todas as vidas, construindo relações justas e que respeitem e promovam a dignidade e os direitos.

*Esta publicação foi originalmente publicada no Brasil de Fato: Coluna | Proteger quem cuida | Brasil de Fato

Autores:

Paulo César Carbonari, Doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), coordenador do Projeto Sementes de Proteção.

Joisiane Sachez Gamba, Advogada, membro da coordenação colegiada da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH/MNDH), coordenadora do Projeto Defendendo Vidas e Garantindo Direitos Expropriados.

Edição: Alexsandro Rosset

15 anos Projeto TransformAção: cuidando da Vida, cuidando da natureza, cuidando das pessoas!

O Legislativo Municipal realizou, na noite desta terça-feira (12 de julho), uma Sessão Solene em homenagem aos 15 anos do Projeto TransformAção, atuando na área social e ambiental, promovendo práticas de solidariedade e de inclusão, estimulando a recuperação e a conscientização pela conservação do meio ambiente. A proposição foi de autoria da vereadora Eva Valéria Lorenzato (PT), aprovada por unanimidade pelos demais parlamentares.

“O ano de 2007 foi um período marcante, fruto de um desafio de realidade, ao pensarmos na cidade de Passo Fundo, em nosso meio ambiente e, acima de tudo, nas pessoas que faziam a coleta de materiais recicláveis. Uma situação dramática.

Em Passo Fundo, pelas ruas da cidade, carrinhos iam e vinham coletando materiais das lixeiras e das portas das lojas. Aproximadamente 1.500 catadores e catadoras de materiais recicláveis disputavam espaço pelas ruas da cidade. Eram homens, jovens e mulheres, muitas delas gestantes ou acompanhadas por suas crianças ainda pequenas, que em cima dos carrinhos se misturavam aos feixes de papelão, plásticos, metais e vidros que serviam para a família ganhar alguns trocados, repassando às firmas de atravessadores.

A realidade inquietava e impulsionava pessoas e entidades com pensares de vontade, ações, de diversas formas e com diversos atores.

Foi então que a Campanha da Fraternidade, projeto desenvolvido anualmente na Igreja Católica do Brasil pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no ano de 2007, levantava a polêmica discussão da Amazonia – Fraternidade e Amazônia, com o lema “Vida e missão neste chão”.

Como refletir e pensar ações direcionadas a esta temática na Arquidiocese de Passo Fundo “Vida e missão em cada chão”. Aqui no nosso chão em Passo Fundo, esta temática tem sua maior importância, pois é ainda mais necessário tendo em vista que os impactos ambientais foram e ainda são muito fortes.

Neste contexto, a Cáritas e a Arquidiocese aprovaram um Gesto Concreto da Campanha da Fraternidade, o Projeto TransformAção – Cuidar da vida, cuidar da natureza, cuidar das pessoas.

Na mesma época e situação, buscando dar resposta à difícil situação dos catadores de materiais recicláveis provocados pelo tema da CF Instituições religiosas projetavam e organizavam ações: Congregação de Nossa Senhora (Notre Dame) Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora, Congregação dos Missionários da Sagrada Família, Paroquia Santa Teresinha, e Congregação Missionária Redentorista – Instituto Menino Deus.

O projeto nasceu a partir do compromisso e do desafio cada vez mais urgente de preservar e recuperar o meio ambiente em que vivemos, buscando articular a necessidade do cuidado da vida, educar para convivência sadia dos ser humano com a natureza, construir alternativas à exploração do meio ambiente e diminuir o impacto ambiental em nosso meio, ajudando na construção da dignidade humana das famílias, com geração de trabalho e renda através da reciclagem de materiais.

A partir daí abriu-se espaço de diálogo entre as Instituições Religiosas com a Cáritas onde as mesmas uniram esforços, numa ação conjunta, fundando assim o Projeto TransformAção: Transformar –  formar e agir. Três verbos do infinitivo que formam a palavra transformação, que possibilitam infinitas propostas e ações.

Desde a fundação o Projeto é mantido com a participação solidária das entidades que o compõem, com uma mensalidade para a manutenção. Além dessas mensalidades as Congregações Religiosas participam com liberação de recursos humanos, colaboração financeira, liberação de carro, telefone, etc. A Cáritas cede o espaço para a Sede do projeto com toda infraesturura necessária para o bom funcionamento do projeto. Muitas outras entidades, empresas e pessoas físicas também colaboraram voluntariamente para que o trabalho pudesse acontecer.

Registramos a Associação das Entidades do Projeto TransformAção, uma entidade com personalidade jurídica própria, formada pelas cinco entidades já citadas.

O Projeto TransformAção concretiza o apelo do Papa Francisco, quando em 2015 escreve a encíclica Laudato Si, que trata  do cuidado com o meio ambiente e com todas as pessoas, bem como de questões mais amplas da relação entre Deus, os seres humanos e a Terra.  O Papa critica o consumismo e desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. No campo da ecologia, a Igreja tem um papel singular, que é promover “um cuidado religioso do meio ambiente, um „profetismo ecológico‟ na formação das consciências e da sensibilidade, uma cultura ecológica ligada à fé e a mística” nós estamos nesta luta.

 Parcerias e Programas

A constituição do TransformAção é resultado de parceria,  de cinco  entidades  que sonharam  e buscam juntas soluções para a Casa Comum. Contamos com pessoas físicas, empresas, Instituições públicas e privadas que colaboram conosco  na realização dos objetivos. Graças ao bom Deus tivemos e temos muitos parceiros engajados e comprometidos conosco nesta construção.

 Os 15 anos desta trajetória também se devem a muitos dos nossos parceiros, alguns eventuais e momentâneos, outros por solidariedade e sensibilidade às dificuldades do contexto, outros ainda que são parceiros permanentes e nos apoiam financeiramente. Por justiça, não vamos listar porque nossa nominata é extensa, mas gostaríamos que soubessem que precisamos de vocês, assim como muitas pessoas precisam de nós. Obrigado por estarem conosco nesta caminhada e por depositarem confiança em nosso trabalho que é sério, permanente e comprometido.

O Projeto TransformAção se estrutura em seis programas, sendo quatro com trabalhos e atuação com diferentes públicos (Programa 1 – Educação Sócioambiental, Programa 2 – Cooperativismo, Programa 3 – Crianças e Adolescentes, Programa 4 – Políticas Públicas) e dois que são de caráter e organização institucional, que mostram o que fazemos e criam as condições para nossas ações (Programa 5 – Comunicação e Marketing e Programa 6 – Institucional).

Sumariamente, destacamos o seguinte em nossos programas:

Educação Socioambiental:  Promovemos ações formativas de sensibilização e conscientização junto à escolas, empresas, condomínios, igrejas, comunidade em geral para a questão ambiental e social, envolvendo a temática de destinação de resíduos, buscando destacar a importância da reciclagem assim como a sua contribuição para a preservação de recursos naturais e geração de trabalho e renda às cooperativas, construindo cidadania. Também desenvolve a produção de materiais formativos, a exemplo de cartilhas, folder, spots, vídeos e documentários, além de seminários e lives sobre temáticas que problematizem a necessária relação entre o Social, o Econômico e o Ambiental, em consonância com os pactos e agenda de desenvolvimento global.

Ao longo destes 15 anos, muitos projetos foram aprovados e neste ano de 2022 seguimos com Projeto Coleta Seletiva Solidária, com recursos advindos do Fundo Municipal do Meio Ambiente. Para fazer jus a essa trajetória que se põe como desafio permanente e continuado, recuperamos o lema que versa em nossos materiais impressos, repetindo-o: Que Comece Comigo!

Cooperativismo: Estimulamos o desenvolvimento integrado das cooperativas de catadores/as, ofertando condições favoráveis para qualidade de vida no trabalho, com enfoque voltado a potencializar o espírito cooperativo, a produção, a renda e a emancipação dos catadores que trabalham nas cooperativas.

Ao todo, são três cooperativas assessoradas pelo Projeto TransformAção: Cooperativa de Trabalho dos Recicladores do Parque Bela Vista (RECIBELA), a Cooperativa de Trabalho dos Recicladores do Bairro Santa Marta (COOTRAEMPO) e Cooperativa de Trabalho dos Amigos do Meio Ambiente (COAMA). Entre todas as cooperativas, temos, hoje, uma variação que vai de 95 a 100 cooperados e que, por extensão, considerando que o grupo familiar é de entorno de 4 a 5 pessoas, então, são 450 a 500 pessoas atingidas diretamente por essa iniciativa.

As cooperativas mostram sua importância e relevância para Passo Fundo porque elas colaboram com a produção da metade do percentual de reciclagem do município.

Passo Fundo acumula por dia cerca de 150 a 160 toneladas de resíduos, 4.500 toneladas por mês. Deste montante recicla apenas 6%.

As cooperativas reciclagem em média 150 toneladas por mês que resulta em cerca de 3% do percentual reciclado mensalmente no município. Deste montante reciclado, as cooperativas alcançam um resultado financeiro em média de R$ 1.500,00 por mês, com giro financeiro direto em vendas um total de 150 mil reais, sem contar outras rubricas em manutenção, investimentos, entre outros, com giro anual próximo de 2 milhões no município (0,25% do orçamento anual do município).

Com isso, demonstramos ao município de Passo Fundo que as cooperativas de catadores, são viáveis economicamente, são possíveis em seu modo organizativo, são necessárias para garantia da inclusão social e econômica e, sobretudo, colaboram diretamente na preservação e cuidado ambiental em sentido estrito e amplo.

O trabalho de assessoria do Projeto TransformAção junto às cooperativas foi decisivo para sua constituição e continua sendo necessário para sua estruturação, qualificação e ampliação, tanto no volume de resíduos, bem como na busca de parcerias, convênios, contratos e acesso a recursos públicos.

Vida longa às cooperativas, cuidando é que se transforma!

Criança e Adolescente – com o objetivo de oferecer serviços de convivência e fortalecimento de vínculos às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social através de atividades formativas nas dimensões físico, artístico e culturais, em vista da promoção da cidadania mantemos o Projeto  “Transformando a vida com arte”  com crianças e adolescentes de 6 a 15 anos desenvolvido na Vila Popular – onde o Projeto nasceu, junto à Cooperativa Amigos do Meio Ambiente

Cuidar da vida, cuidar da natureza e cuidar das pessoas é exigente e quando se trata de crianças e adolescentes a responsabilidade se redobra, especialmente aquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade e risco social.

 Apesar de todas as dificuldades vividas, e foram muitas e de diversas ordens, temos muito a lembrar e, sobretudo, nos alegrarmos pelas grandes e valiosas conquistas. Hoje temos pessoas que passaram por nosso projeto e são adultos, trabalhadores/as, pessoas que constroem seus lares, suas vidas com esperança!

O que pode valer mais que ajudar e colaborar na direção para a vida de uma criança e adolescente, incentivando e desafiando na presença diária em processo de formação que orienta, ensina e desperta talentos?

 Quantas alegrias em tantas apresentações e momentos e confraternização na sala do programa, empresas, instituições de ensino, abertura de eventos diversos, enfim, na comunidade em geral. Num contexto de desemprego e violência crescente, urge nos renovarmos cotidianamente para seguirmos firmes e fazendo diferença, fazendo TRANSFORMAÇÃO na vida de pessoas.

Políticas públicas: Participamos de modo efetivo em instâncias de proposição de políticas públicas para a garantia de direitos, em especial às crianças e adolescentes, mulheres, famílias e catadores. Ao longo destes 15 anos de atuação, marcamos presença ativa nos Conselhos Paritários (Conselho Municipal de Assistência Social – CMAS, Conselho Municipal do Meio Ambiente – CMMA, Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e Adolescentes – COMDICA). Em todas essas frentes, não só ajudamos na composição da mesa diretora dos conselhos, bem como, trabalhamos na construção de documentos estruturantes da política pública do município de Passo Fundo.

Seguimos marcando presença nos espaços de participação e decididos que estar do outro lado da mesa do gestor público, é nosso dever exercer o direito de exigir o cumprimento das legislações em vigor, trabalhando em conjunto e proativamente para enfrentar e ultrapassar dificuldades que se apresentam cotidianamente. Seguimos dispostos a contribuir nesta construção que nos desafia e nos instiga permanentemente.

 Oxalá, tenhamos forças para continuarmos perseverantes em nossa missão!

Por fim, nosso especial agradecimento à vereadora Eva Valéria Lorenzato, agricultora, advogada, promotora legal popular, uma mulher engajada e que também é parceira em nossas ações. Com essa homenagem ao Projeto TransformAção, em nome de todas as entidades associadas, nosso muito obrigado e conte conosco para construir e defender bandeiras em prol da garantia e efetivação das políticas públicas. Estamos juntos!

E a todos/as que aqui estiveram e se deslocaram de suas casas, mais uma vez, nosso agradecimento pela presença e apoio e a todos/as a certeza que seguiremos decididos a marcar o tempo e o município de Passo Fundo com nossas ações”.

Autora: Irmã Silvania Ioner, em nome do Projeto Transformação.

Sobre a Sessão Solene:

Proponente da homenagem, a vereadora Eva Valéria Lorenzato ocupou a tribuna, oportunidade em que relembrou a origem e trajetória do Projeto TransformAção, desde sua formação, em 2007, passando pela criação da Associação, em 2010, realizando um trabalho de cuidado com a vida humana e com o meio ambiente.

“Em seus 15 anos, o Projeto TransformAção alcançou reconhecimento por sua ação transformadora na comunidade, contando hoje com uma ampla rede de parceiros, que envolve pessoas físicas e jurídicas, instituições de ensino, condomínios, empresas, entidades sociais e poder público, que buscam educar para uma convivência sadia do ser humano com a natureza, ajudando na construção de alternativas de preservação do meio ambiente, diminuindo o impacto ambiental em nosso meio e ajudando na geração de renda e inclusão social de diversas famílias por meio de trabalho digno e sustentável”, salientou Valéria, lembrando que, “dezenas de pessoas desenvolvem suas atividades nas cooperativas de trabalho assessoradas pela entidade, gerando renda e inclusão social e econômica aos catadores e catadoras de Passo Fundo, sendo que, em média, 130 mil quilos/mês de resíduos são triados pelas cooperativas de catadores de Passo Fundo”.

Eva Valéria informou que o projeto faz parte de sua vida, “foi muito marcante a vivência no espaço do Projeto, especialmente, quando descobri que praticamente todas as cooperativas são coordenadas por mulheres, por mulheres negras, por mulheres que sofrem e na maioria são chefes de famílias e tiram sua renda da reciclagem. É um espaço importante de dignidade, de vida, onde as pessoas vivem de forma coletiva, e naquele momento me comprometi que os recicladores teriam vez e voz na Câmara de Vereadores e aqui estou e fazendo esta homenagem”, ponderou a parlamentar.  Eva Valéria encerrou parabenizou todos os envolvidos pela manutenção do projeto e desejou vida longa ao TransformAção.

Leia mais: Câmara de Vereadores de Passo Fundo – RS | NOTÍCIA (camarapf.rs.gov.br)

Fotos: Comunicação Digital/CMPF

Edição: Alexsandro Rosset

As nossas dificuldades para lidar com as emoções das crianças

Elas crescem tendo que aprender tudo sozinhas sobre as suas emoções e sentimentos. Pouco nos preocupamos com o que as crianças sentem em relação a nós e as coisas ao seu redor.

Casimiro de Abreu, poeta brasileiro, escreveu um lindo poema para crianças intitulado “Meus oito anos” e nos seus bonitos versos ele nos diz “Como são belos os dias / Do despontar da existência! / – Respira a alma inocência / Como perfumes a flor;” que a inocência da criança possa ser respeitada e amada no seu jeito de ser sem querermos mostrar para elas como gostaríamos que fossem dizendo-lhes “veja como o seu amiguinho é comportado. Seja igual a ele.” As crianças têm as suas individualidades, também.

Falar de criança é sempre como um voltar à infância e brincar de amarelinha ou ciranda com os meus amiguinhos. É nunca deixar de ser criança para as coisas mais sérias que a vida nos desafia e nem sempre estamos preparados para lidar com elas. São tensões e sentimentos que nos tomam a alma e ficamos sem saber o que fazer.

Se para nós adultos essa correria da vida contemporânea nos provoca sentimentos e emoções que não temos a menor ideia de como conviver com eles imagine para as nossas crianças. Quando chegamos na idade adulta todos acham que devemos estar preparados para enfrentar os nossos medos e tristezas, as decepções e ingratidões que muitos nos provocam, mas não é assim.

Nunca estaremos preparados para perdas, principalmente se essas são de parentes próximos ou amigos que tanto amávamos. Choramos feito crianças. Ficamos tristes e questionando a vida. É um voltar a tenra idade de forma metafórica com emoções que vão tomando conta da gente sem nos deixar respirar um pouco de alívio de tantas explosões de sentimentos que nunca sentimos antes.

Ficamos assustados com emoções fortes que nos pegam quando acontece algo de surpresa. Isso porque não nos foi ensinado a nos conhecermos bem e sim conhecermos a parte artificial do mundo ao nosso redor. O famoso ensinamento de Sócrates “conhece-te a ti mesmo” não está sendo ensinado às crianças em casa e nem nas escolas.

Elas crescem tendo que aprender tudo sozinhas sobre as suas emoções e sentimentos. Pouco nos preocupamos com o que as crianças sentem em relação a nós e as coisas ao seu redor. Sabemos que logo a raiva e o medo passarão, que é coisa boba, coisa de criança que não precisa se preocupar muito. E isso vai se passando até chegar na fase adulta.

Não temos ideia de como lidar com a raiva de uma criança.

Sim, porque criança também tem o direito de ter raiva, de bater o pé e dizer que não quer isto ou aquilo, de ficar de cara fechada e de se negar a falar com alguém. Criança tem todo o direito de dizer não quando sentir vontade. A verdade é que não estamos preparados para enfrentar essas raivas. Como nos achamos “donos” da criança queremos que aja sempre conforme desejamos.

A raiva da criança é sempre vista como algo desafiador ao adulto, uma peraltice, uma birra ou muito mimo como se a criança não precisasse ser paparicada por nós com as suas bonitezas que desabrocham todos os dias ao alcance dos nossos olhos e nem nos damos conta dessas coisas lindas. Toda criança tem o direito de ter raiva e ficar abusada o tempo que quiser. Como tem o direito também de não aceitar o que nós, adultos tiranos, queremos lhes impor.

Imagine você com raiva no meio de uma reunião de trabalho. Muitas vezes acaba explodindo diante do seu chefe que não lhe compreende, que não aceita as suas ideias e sugestões. Assim são as crianças no meio de uma reunião familiar. Elas não querem apenas abraços, beijos e carinhos. Elas querem ser ouvidas, elas querem poder dizer não na hora que acharem vontade e ficar com raiva de você ou daquele parente chato que costuma beliscar as suas bochechas com perguntas bobas.

As crianças de hoje têm uma aprendizagem mais rápida devido o contato com outros meios de informação e mais pessoas do que as de antigamente.

Da mesma forma é a criança que sente medo. Todos nós temos medo de alguma coisa. Não adianta obrigar a criança a dormir no escuro e não querer que ela chore por isso. Para muitas delas a escuridão é assustadora. Se permita deixar o abajur aceso até a criança adormecer ou uma meia-luz ligada.

Não obrigue a sua criança a enfrentar um medo que ela nem sabe como conceituar. O medo é uma coisa terrível para os seres humanos.

Não ache que só porque o seu filho é um menino que ele vai se tornar um “homenzinho” logo e precisa enfrentar o medo sozinho. Essa história de que homem não sente medo não existe mais. E as coisas não são assim como as pessoas costumam dizer hoje em dia “se der medo vai com medo mesmo”.

Ninguém consegue sair do lugar quando sente medo. É preciso ajuda alheia. É preciso que os pais saibam cuidar das suas crianças enquanto elas não começam a materializar esse medo em forma de xixi na cama no meio da noite ou dores de cabeça, febre e outros sintomas físicos que logo se apresentam.

O contrário acontece com uma das emoções que mais apreciamos nas nossas crianças que é a alegria. Sim, na alegria todos compreendemos e achamos bonito os sorrisos e gritinhos que as crianças dão pela casa correndo de um lado para o outro. Ficamos contentes ao ver que elas estão crescendo felizes e cheias de energia. Com isso, não nos preocupamos em saber delas o que estão sentindo em relação a forma como as tratamos e como estão sendo tratadas pelas pessoas próximas.

A criança não guarda rancores igual aos adultos. Ela tem a ingenuidade e a imaturidade em relação as experiências dolorosas que vive. Não é que ela esqueça as coisas difíceis e as incompreensões que sofre. Está tudo guardado dentro do seu pequeno espírito e pode aflorar a qualquer momento. Essas coisas saem do instante presente para se apresentarem em qualquer outra fase da vida em forma de sintomas físicos e emocionais.

Se a criança fica encantada com algo que você não gosta não a proíba de sentir essa emoção. Deixe-a viver completamente. Apenas interfira se for algo ruim ou que lhe cause mal. Senão deixe que ela decida se vai continuar encantada ou não pela pessoa ou pela coisa ao seu redor. Na infância surgem muitos encantamentos.

Uma criança que sorrir e demonstra alegria também pode sentir-se desprotegida, muitas vezes incompreendida pelos seus pais e professores. Está ali brincando sorridente não significa que ela não precisa de menos cuidado que as outras. A alegria é momentânea. Ela também tem as suas dores e dúvidas. Quando tomamos dela algo que gosta ou negamos-lhe alguma coisa logo vai desencadear uma outra emoção que é a raiva e por isso nem sempre a alegria é sinal de felicidade plena na criança.

Para muitos pais deixar as crianças brincarem e estudarem sem muitas cobranças e que elas possam fazer o que bem gostarem está tudo bem. Não terão preocupações se permitirem que as crianças façam tudo o que bem quiserem. Afinal, é só coisa de criança. Seus filhos crescerão fortes e saudáveis, sem traumas e medos na vida adulta. Estão enganados os pais que pensam assim.

Toda criança precisa de limites e de ser ouvida. Por mais que tenha a liberdade de fazer tudo o que quiser vai chegar um momento em sua vida que ela vai necessitar aprender a lidar com as perdas, a saudade, a distância, as mudanças e, principalmente, a separação dos pais. Se as suas emoções não foram bem trabalhadas não saberá como enfrentar isso tudo. Poderá tornar-se uma criança ansiosa ou desenvolver a depressão.

Uma das emoções mais difíceis de lidar para nós adultos é o desprezo. Quando somos desprezados por quem mais amávamos sofremos bastante porque não fomos preparados para essa dor terrível. Na criança essa emoção se multiplica cem vezes mais. Ela não consegue entender por que foi largada na rua ou por que os pais não lhes dão atenção.

Ensine seu filho a lidar com as emoções • Casule Saúde e Bem-estar. Assista: https://youtu.be/iDaAU2i2yyw?t=52

Sentir-se desprezada por aqueles que deveriam cuidar e nos amar. Ser largada aos cuidados de pessoas estranhas o dia inteiro. Nunca ter o carinho dos pais porque estão sempre ocupados. Só os ver nos fins de semana e muito raramente. Não ter alguém de confiança para contar os seus segredos e sentimentos. Sentir-se sozinha no mundo como muitas crianças se sentem. Eu mesma já ouvi uma criança me dizer que se sentia sozinha e que era doloroso se sentir assim.

Uma outra emoção que precisamos trabalhar com as crianças é a surpresa. Não estamos preparados para perdas repentinas ou para mudanças. Quando nos surpreendemos com alguma coisa tendemos a ficar desconfiados. A surpresa quando é boa causa alegria, mas quando ela assusta a criança tirando-a da sua zona de conforto é necessário que se fale sobre ela.

No mundo contemporâneo somos surpreendidos todos os dias com notícias dolorosas, mudanças de endereços dos nossos pais que foram transferidos para trabalharem em outras cidades, mudanças de escolas, distanciamento dos avós e dos amiguinhos. Também podem ocorrer surpresas com o adoecimento ou a perda de um animal doméstico. Os pais devem saber o que fazer com os seus filhos nestes momentos inesperados.

As crianças nos oferecem surpresas todos os dias. Com o crescimento elas vão descobrindo coisas maravilhosas. E mais agora com o uso de aparelhos eletrônicos elas estão crescendo e desenvolvendo o pensamento mais rapidamente. As surpresas surgem de si mesmas e do mundo exterior. Estamos rodeadas por surpresas boas e ruins. O importante é que saibamos educar a criança para o momento do inesperado.

Algumas emoções são difíceis de serem compreendidas pelas crianças e nem todo adulto sabe como lidar com elas. O bom seria que estivéssemos sempre atentos no desenvolvimento das nossas crianças. Que lhes déssemos um pouco de atenção todos os dias mesmo por poucos minutos. As exigências desse nosso novo mundo são grandes demais. Não podemos perder, não podemos chorar em público, não podemos demonstrar fraquezas ou medo. São cobranças que vêm de todos os lados.

A criança está o tempo todo competindo consigo nos mais diferentes sentimentos. Tem que fazer a lição de casa escolar, ir para aula de idiomas, depois praticar o esporte e por último estudar para uma olímpiada que participará em breve. São muitas cobranças que fazemos cedo demais às nossas crianças.

Habilidades socioemocionais em crianças! Assista: https://youtu.be/xLUTQ_4AHd8?t=59

Quando se sentem exageradamente cobradas as crianças não sabem o que fazer porque nos seus pequenos mundos gostariam de apenas brincar e estudar. Mas, os pais querem que elas sejam as melhores em tudo. Desde cedo as nossas crianças já vão para escola pensando no que serão mais tarde. Damos para elas profissões difíceis e que exigem competitividades junto aos amigos.

O amiguinho que deveria ser amado passa a ser visto como um adversário que precisa ser vencido. A criança não entende por que o seu amiguinho é melhor do que ela nas notas escolares da escola e começa a sentir tristeza. Também pode desencadear aversão pelo amiguinho que é outra emoção nada legal que podemos sentir ao logo da nossa infância.

Uma das emoções mais bonitas encontradas na criança e que é extremamente sincera é o afeto. Se soubéssemos aproveitar esta emoção para aprendermos com ela a como amar as pessoas ao nosso redor do jeito que ela nos ama talvez sofrêssemos menos.

O afeto das crianças é verdadeiro, sincero, ela se doa por inteiro.

 Ela aprende a amar os seus pais desde os primeiros dias de vida, depois vai aprendendo a amar quem lhe dá carinho e atenção. Com o tempo ela passa a amar as pessoas com as quais mais convive. Um afeto despido de qualquer interesse ou coisa parecida. Ela ama simplesmente por amar. Ela ama porque se sente querida e respeitada naquele lar e por todos.

Vejamos o exemplo do menino que ama uma árvore no livro “A árvore generosa” do escritor Shel Silverstein. Um clássico da literatura infantil. O menino ama tanto a árvore que pede tudo para ela porque confia que ela vai lhe dar tudo o que pedir e a árvore em troca por amar tanto o menino faz de tudo para atender os seus pedidos até que vai se desfolhando aos poucos quando o menino sem compreender direito começa a fazer pedidos difíceis e que ela não sabe como atender. Assim são as crianças quando nos amam, elas nos pedem coisas intrigantes e muitas vezes que não podemos lhes oferecer.

Devemos conversar sempre com elas sobre os seus pedidos para que não percam o amor pela gente ou fiquem desconfiadas de que não estamos lhes dando o que pedem porque não queremos. O amor deve ser sincero um para com o outro.

Já pensou se a árvore se rebela contra o menino e lhe diz um monte de coisas desagradáveis ou se ela deixa de amá-lo? O que o menino sentiria? A árvore prefere morrer a machucar o menino. É assim quando amamos, ou seja, nunca machucamos quem amamos verdadeiramente.

A criança que se sente acolhida e amada dificilmente terá problemas emocionais. No seu pequeno mundo tudo se apresenta de maneira correta e o seu imaginário será povoado por personagens felizes e sempre cheios de vontade de ajudar uns aos outros. Assim como ela é tratada quando precisa de ajuda. O afeto é uma das emoções mais bonitas de sentirmos.

Para amar incondicionalmente a criança precisa sentir outra emoção bastante significativa ao seu amadurecimento que é a confiança. Esta emoção que está tão difícil de encontrarmos nas pessoas grandes hoje em dia. Mas, a criança confia nos pais e em quem lhe dá carinho, por isso temos que ter cuidados com certos estranhos que se aproximam delas oferecendo-lhes presentes e um mundo perfeito.

A criança que sente confiança nos seus pais e responsáveis poderá falar sobre os seus sentimentos e até mesmo contar as suas coisas mais íntimas para um adulto. Ela sabe que não será julgada e nem castigada se abrir o seu coração porque quem está ali do seu lado merece a sua confiança. Lembrando que o afeto só se torna verdadeiro quando a criança confia em você. Afeto e confiança são duas emoções que andam juntas. Não adianta dá amor e não confiar na criança ou não passar confiança para ela.

Precisamos nos acostumar com a ideia de que uma criança não é uma máquina programada para se comportar do jeito que desejamos. Muitas são completamente diferentes do que gostaríamos que fossem. Elas se rebelam, quebram as coisas, fazem birras, chutam o pau da barraca, gritam, xingam e até mesmo mordem quando perdem o controle das suas emoções. Isso ocorre principalmente nas crianças que não se sentem completamente amadas pelos seus pais.

Você pode dizer que ama o seu filho verdadeiramente, mas será que o compreende? Será que na hora da sua raiva você não grita ou faz medo para o seu filho? Será que na hora da raiva você não o castiga ou bate nele? Na hora da raiva devemos controlar as nossas emoções para saber o que fazer com aquela rebeldia que a criança apresenta.

Cito para vocês um exemplo próximo de mim. Convivo diariamente com uma menininha de três anos de idade que a sua mãe diz amá-la de todo coração, mas sempre que essa menininha faz algo de errado que roube a paciência da mãe acaba recebendo gritos e puxões de orelhas. A menininha é muito carinhosa e pede desculpas para a mãe pelos seus erros. Aos três anos ela já aprendeu o que é pedir desculpas, mesmo que não saiba direito esse conceito ou talvez esteja imitando o que viu alguém fazer.

Será que essa mãe está sabendo lidar com as emoções da sua filha?

Quando a criança chora e quer ir brincar na rua recebe gritos e xingamentos. Não! Ela não pode brincar com os outros amiguinhos quando deseja. Somente vai brincar quando a sua mãe acha que é o momento. É assim sempre.

Nós adultos não respeitamos os desejos das crianças. Não as compreendemos, por isso muitas sofrem de problemas emocionais e estão lotando os consultórios psicológicos. No lugar de estarem em filas de psicólogos eram para estar brincando em praças e parques públicos correndo, pulando, se jogando no chão e sendo feliz sem medo daquele momento tão logo acabar.

O maior medo das nossas crianças é que as deixemos sozinhas um dia. Elas confiam tanto na gente que sabem não faremos isso, mas ao menor sinal de distância entram em desespero. A confiança na maioria das crianças nos seus pais é tão grande que quando eles as deixam em um determinado lugar elas gritam “eu quero a minha mãe” ou “eu quero o meu pai”. Elas vão sempre lembrar de quem ama e de quem lhes dar amor.

Existem outras emoções que podem ser discutidas pelos pais e professores das crianças. As que citei aqui são as mais importantes. Antes de julgar a sua criança ou se colocar como um tirano diante dela dê-lhe a oportunidade de poder mostrar o motivo pelo qual está agindo daquele jeito, chorar é a nossa primeira emoção de espanto diante do mundo e por isso o bebezinho é colocado nos braços da mãe para se acalmar. Continue acalmando a sua criança do mesmo jeito que fez na hora do seu parto.

Deixo vocês com o poema de Rosana Rios intitulado “Guarda-chuvas” que diz os seguintes versos “Tenho quatro guarda-chuvas / todos os quatro com defeito; / Um emperra quando abre, / outro não fecha direito. / Um deles vira ao contrário / seu eu abro sem ter cuidado. / Outro, então, solta as varetas / e fica todo amassado.”

Que possamos abrir o guarda-chuvas da infância com o cuidado necessário para que as emoções das nossas crianças sejam compreendidas e aceitas como expressões de quem deseja crescer sem ser amassado.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Sem cursos de licenciatura, sem professores: a docência ameaçada

Defender a profissão docente é dar a cada criança, jovem e adulto as possibilidades de expandir suas potencialidades, no âmbito pessoal e profissional.

Há muito as universidades comunitárias gaúchas alertam para o “apagão de professores”. Das primeiras preocupações, passando pelas diferentes ações em defesa das licenciaturas já deflagradas por nossas instituições, chegamos ao tempo em que a carreira docente mostra visíveis sinais de alerta. Com poucos licenciandos e com cursos na iminência do encerramento de suas atividades, vemos ameaçado o processo formativo pleno e digno que as atuais e futuras gerações necessitam.

A profunda crise na educação fica evidente nos dados nacionais, que revelam que a falta de professores já é realidade para atender à demanda de educação básica no Brasil. Estudos indicam que docentes com 50 anos ou mais representam a maioria em exercício, enquanto que aqueles com até 24 correspondem a uma pequena parte, em declínio. Em sintonia, o último Censo da Educação Superior (2020) mostra que as licenciaturas receberam o menor ingresso de acadêmicos.

A reviravolta neste cenário, de modo a preservar a qualidade no processo de formação inicial e continuada dos professores, é um grande desafio, que implica a todos: poder público, universidades, sociedade civil, toda a rede de educação. Recuperar o interesse de nossos jovens pelas licenciaturas, seu apreço pelo ensino, pela pesquisa, pelo conhecimento, é imprescindível e inadiável.

Valorizar a profissão docente significa dar viabilidade a um projeto de grandeza maior, que envolve, diretamente, o processo formativo das pessoas e o desenvolvimento da nação.

Reconhecer a essência docente e o seu papel no desenho de um futuro digno, como indispensável ao fomento social, cultural e à construção de sociedades mais justas e solidárias, é fundamental para o pleno desenvolvimento das capacidades humanas. 

A humanidade se faz na convivência, na reflexão, na contraposição de ideias, no diálogo. A relação pedagógica, especialmente aquela entre professores e alunos, é a alavanca para a superação dos conflitos, para o acolhimento das diferenças, para o pensamento ético e crítico, para o bem-estar social, para a construção das soluções necessárias aos dilemas da vida contemporânea.

Defender a profissão docente é dar a cada criança, jovem e adulto as possibilidades de expandir suas potencialidades, no âmbito pessoal e profissional.

Quando o professor tem claro para si a função social de sua atividade, os motivos de sua opção e permanência no magistério, pode revelá-los aos alunos, ajudando-os a ressignificarem sua presença e trajetória na escola. (Celso Vasconcellos) Leia mais: https://www.neipies.com/sentido-da-docencia/

Autora: Bernadete Dalmolin

Reitora da UPF

Edição: Alexsandro Rosset

Brasil descumpre 86% das metas do Plano Nacional de Educação

Sendo a educação um direito de todos e responsabilidade do Estado, da sociedade e da família, cabe-nos exigir o cumprimento desse direito, responsabilizando legalmente aqueles que descumpriram esse direito, e como cidadãos, devemos exercer nossa cidadania nos manifestando e elegendo representantes políticos que estejam comprometidos com a educação, a ciência e a cultura.

O Brasil tem 50 milhões de jovens. Em um país com esse perfil, priorizar investimentos na formação é condição imprescindível para viabilizar o futuro das atuais e novas gerações em condições dignas de vida.

Porém, na contramão dessas demandas inadiáveis, no atual governo federal a execução orçamentária do Ministério da Educação (MEC) atingiu os menores valores da última década, R$ 147,56 bilhões em 2015 e R$ 119,96 em 2021, valores liquidados, corrigidos pelo IPCA para janeiro de 2022.

A Proposta de Lei Complementar (PLP) 18/2022, que estabelece teto para cobrança de ICMS dos combustíveis, gás natural, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo reduziu, na prática, a alíquota do ICMS para 17%. Estudos apontam para uma redução de receitas de R$ 83,5 bilhões, o que implicaria uma perda mínima de R$ 21 bilhões para as despesas com Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE), que correspondem aos 25%.

Essa perda de recursos atingirá, principalmente, a educação básica, lembrando que o ICMS responde por 60% da receita do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

Por outra perspectiva, faltando menos de três anos para o final da vigência do Plano Nacional de Educação (PNE), a quase totalidade das suas diretrizes e metas (86%) são descumpridas e 45% são alvos de retrocessos e é enorme a falta de dados e de informações atualizadas.

É o que demonstra o 8º balanço anual da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, divulgado no dia 20 de junho. Nesse caso, é um evidente descumprimento da Lei nº 13.005/2014 que aprovou o PNE, inclusive, por unanimidade, no Congresso Nacional.

Quanto ao Plano Estadual de Educação (PEE-RS), em cumprimento ao PNE, instituído pela Lei estadual 14.705/2015, não temos relatórios de monitoramento nem informações públicas desde 2016.

No artigo 5º  da Lei do PEE-RS está expresso que o “cumprimento de suas metas serão objeto de monitoramento contínuo e de avaliações periódicas”, realizados pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc), União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, seção do Rio Grande do Sul (Undime/RS), Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (CECDCT), Conselho Estadual de Educação (CEEd/RS), União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação, seção do Rio Grande do Sul (Uncme/RS) e o Fórum Estadual de Educação (FEE/RS), que sequer teve funcionamento regular nos últimos quatro anos.

Enquanto o PNE descumpre e, inclusive, retrocede em algumas metas e, o PEE-RS segue sem monitoramento e avaliação, o MEC e as secretarias estaduais da Educação ocupam-se com programas específicos de governo sobre “passivos e impactos da pandemia, déficit na aprendizagem, reformas curriculares decorrentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)”, em detrimento dos planos e políticas de Estado, amplamente discutidos pela sociedade e aprovados pelos parlamentos.

PNE: Retrocessos alarmantes

Entre agendas paralelas e exemplos desse atravessamento de prioridades estão a implementação da BNCC da educação básica (restrita à reforma curricular) e a reforma do novo ensino médio. Em detrimento das metas e estratégias estabelecidas nos planos, a BNCC tornou-se o epicentro das políticas educacionais a partir do governo Temer, em 2016.

A própria qualidade social da educação e o direito à aprendizagem dos estudantes foram descuidados, conforme já consta na meta 7 do PNE e PEE:  Fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da aprendizagem de modo a atingir as médias nacionais para o Ideb.

Esta meta já era um mecanismo político-pedagógico preventivo ao que se sucedeu, seja com a pandemia ou mesmo com uma BNCC implementada virtualmente durante o período de distanciamento social entre 2020-2022.

No 8º balanço do PNE, as metas que tiveram retrocesso são justamente as vinculadas à expansão e universalização do ensino fundamental e do ensino médio (metas 2, 3, 6, 10 e 11); as metas de expansão do ensino superior (12 e 14); a meta de gestão democrática (meta 19) e, a meta 20 do financiamento da educação.

Entre as metas que apresentam retrocessos, é alarmante que a Universalização do ensino fundamental de 9 anos para toda a população de 6 a 14 anos (meta 2) evidencia que o número de crianças nessa faixa etária que não frequentam nem concluíram a etapa quase dobrou de 2020 para 2021, saltando de 540 mil para 1,072 milhão.

Como, também, houve queda no percentual de jovens concluindo o ensino fundamental na idade adequada.

Enquanto isso, a meta 3, que prevê universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar a taxa líquida de matrículas no Ensino Médio para 85% apresentou queda na taxa líquida de frequência ao ensino médio em 2020 e 2021, interrompendo uma sequência de altas que ainda não era suficiente para o cumprimento do dispositivo no prazo.

Enquanto a Lei 13.415/2017, que instituiu a reforma do ensino médio, se propõem a fomentar uma política de expansão da escola em tempo integral, a meta 6 do PNE, que prevê oferecer Educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, apresenta queda nos níveis entre 2014-2021.

Além de uma contradição e falácia, a reforma do novo ensino médio descumpre tanto a lei do PNE como seus propósitos, como já ocorre no estado do RS, que apresenta a terceira pior proporção de alunos em tempo integral matriculados na rede pública: somente 4,8%.

No ensino superior não é diferente. A meta 12 prevê elevar a taxa bruta de matrícula na Educação Superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurada a qualidade da oferta e expansão para, pelo menos, 40% das novas matrículas, no segmento público.

O primeiro objetivo da meta já exigia um aumento do ritmo de avanço observado até 2020, o cenário ficou ainda pior com a diminuição de 1,5% em relação ao ano anterior.

A situação é similar para o segundo objetivo, que caiu de 26,9% para 25,8% entre 2020 e 2021, além da alta concentração de matrículas na rede privada.

A meta 20 é fundamental e estratégica para o cumprimento do Plano Nacional de Educação na sua totalidade.

Esta meta prevê: ampliar o investimento público em Educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do País no 5º ano de vigência desta Lei e, no mínimo, o equivalente a 10% do PIB ao final do decênio.

Para 2019, o PNE previa uma destinação de 7% do PIB para a educação, o que dificilmente terá sido atingido, já que os gastos estiveram em torno de 5% de 2015 a 2017, tendo uma queda ao invés de subir.

A austeridade fiscal que se aprofundou nesse período não saiu de cena desde a aprovação da PEC-95 do Teto de Gastos.

Cabe relembrar que o Brasil já investia em torno de 5.5% ou 6% do PIB (dependendo dos cálculos) quando o PNE foi aprovado por unanimidade pelo Congresso nacional em 2014.

Além de descumprir o que o PNE determina, o MEC encerrou o exercício de 2020 com a menor dotação desde 2011, R$ 143,3 bilhões.

A educação básica encerrou 2020 com R$ 42,8 bilhões de dotação, 10,2% menor em comparação ao ano anterior, marcado pela crise sanitária e calamidade pública.

As atuais avaliações de diagnóstico e desempenho de aprendizagem dos estudantes estão diretamente relacionadas às condições de estudo e ao investimento que o país realiza ou deixa de realizar.

Cabe destacar que o gasto por estudante da rede pública brasileira de educação básica representa cerca de um terço do valor das mensalidades de escolas privadas e a metade do gasto médio dos países da OCDE (US$ PPC 1.000/mês); a relação de estudantes/professores nos anos iniciais do ensino fundamental da rede pública é o dobro da média da OCDE (26 x 13) e o salário inicial dos docentes corresponde a 42% da média da OCDE (US$ PPC 13.983 x US$ PPC 33.016/ano).

Tais cifras e comparações indicam a distância entre o praticado no Brasil e o encontrado no conjunto dos países que têm servido de parâmetro para análises econômicas e educacionais realizadas pelo mainstream.

Considerando esses desafios que impactam diretamente na qualidade do ensino, acrescidos das demandas por ampliação do acesso na educação básica e superior – em especial das crianças e jovens das famílias mais pobres, da população do campo, dos negros e indígenas –, foi aprovado o Plano Nacional de Educação (Lei n. 13.005/2014).

O PNE estabeleceu a meta de ampliação dos gastos públicos em educação pública para 7% do PIB até 2019 e 10% do PIB até 2024.

Apesar disso, o último dado disponibilizado pelo INEP, para 2018, aponta um percentual inferior a 5% do PIB.

Uma avaliação séria evidenciará que a crise da educação básica e superior no Brasil e nas redes estaduais tem a pandemia como causa principal, mas o descumprimento das metas dos planos de educação nacional, estaduais e municipais.

Crise e revogação de políticas

A pandemia apenas acentuou e evidenciou uma crise existente na educação que se agravou por decisões políticas e econômicas que se materializaram na revogação das políticas públicas e dos programas de apoio as instituições de ensino e aos estudantes brasileiros.

Sendo a educação um direito de todos e responsabilidade do Estado, da sociedade e da família, cabe-nos exigir o cumprimento desse direito, responsabilizando legalmente aqueles que descumpriram esse direito, e como cidadãos, devemos exercer nossa cidadania nos manifestando e elegendo representantes políticos que estejam comprometidos com a educação, a ciência e a cultura.

Precisamos todos, enquanto educadores/as, estudantes e sociedade civil, exigir o cumprimento integral da Lei 13.005/2014, do Plano Nacional de Educação, e a construção, com ampla participação social, de um novo Plano Nacional 2024-2034, assim como os estaduais e municipais subsequentes.

Esta publicação foi originalmente publicada no site Extra-Classe: Brasil descumpre 86% das metas do Plano Nacional de Educação – Extra Classe

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alexsandro Rosset

O desejo dos nossos filhos

Aprendi com a minha filha que ser pai é navegar pelo desejo dos filhos, ainda que eles vacilem, sem ter o objetivo de satisfazê-los como norte. Muitas vezes eles só desejam que nos interessemos pelos interesses deles.

Minha pequena, três anos, pediu durante seis meses um brinquedo de presente. Neguei, sem pestanejar, por ser caro e não ter tanto a ver com o que desejo para criação dela.

Nenhum argumento refreava o ímpeto consumista da Lua e eu não tinha um dia de paz. Passava por lojas de brinquedos e um quase barraco era armado. Quando sabia que as colegas e a prima tinham o tal presente era aquele escândalo.

O desejo obstinado era daqueles inabaláveis até que me dei por vencido: prometi dar o presente no dia das crianças. Deixei meu sintoma de não gostar de gastar com coisas desnecessárias e embarquei no sonho da minha filha.

Desde então, tive de fazer contagem regressiva para controlar a ansiedade dela. Ela fazia tudo na expectativa de ganhá-lo. Até doar a sua amada chupeta para fada do dente. A expectativa do presente ajudou a emprestar os brinquedos, a guardar os brinquedos e organizá-la nas birras.

Reservei a tarde de ontem e embarquei num shopping lotado para resolver a pendência. Sentindo que era um superpai por conseguir cumprir a minha palavra. Comprei o danado com dor no coração, dividindo em três vezes no cartão, mas já que era pela felicidade dela, mergulhei no desejo da criança e me afastei dos meus traumas infantis. Tive de esconder o pacote ao chegar em casa já que Lua pedia sem parar o presente e acordou de madrugada falando no objeto mágico.

Hoje, pela manhã, acordei cedinho e coloquei o presente embaixo da cama. Ansioso, conferia a cada cinco minutos se a pequenina havia acordado, mas ela permanecia “assistindo sonhos”, como bem diz. E eu queria realizar o dela como forma de me sentir um pai melhor, aguardando em algum lugar a alegria como retribuição.

Ela acordou e eu, efusivo, parti para a caça ao presente. Fiz toda aquela novela para dar a emoção que o momento pedia. Quando achamos, abri a embalagem e lá estava o presente que atendia a todas as especificações da pequena ditadora. Ela olhou para a caixa, não esboçou nenhum sorriso e começou a brincar com os embrulhos. Brincou por menos de dois minutos com o desejado brinquedo. Por fim, não deu um pingo de valor para o objeto pelo qual implorou durante meses.

Admito que fiquei chateado e demorei um tempo para aceitar que sentia aquilo. Senti-me ridículo, mas senti uma certa raiva. Uma frustração grande por não ter agradado.

Passamos a vida ouvindo que devemos dar a falta aos nossos filhos, que devemos frustrá-los. No entanto, pouco ouvimos que os filhos também servem para isso: frustrar os pais. Que eles devem escapar do nosso desejo para ter uma vida própria.

Aprendi com a minha filha que ser pai é navegar pelo desejo dos filhos, ainda que eles vacilem, sem ter o objetivo de satisfazê-los como norte. Muitas vezes eles só desejam que nos interessemos pelos interesses deles.

Que possamos sonhar juntos sem, necessariamente, precisar da realização.

Nossos filhos querem a viagem e o destino, muitas vezes, pouco importa. Mas, durante a viagem, eles desejam atenção, afeto e curiosidade, enquanto aprendemos juntos sobre os nossos desejos, traumas e sobre como devemos frustrar uns aos outros, como forma de sobrevivência e autonomia. A partir das frustrações mútuas nascem as possibilidades do novo, o limite e o respeito, nascendo também a possibilidade para os nossos filhos de uma vida própria e livre.

Autor: Fernando Tenório

Edição: Alexsandro Rosset

Arroz e feijão na escola: sim e não!

Você deve oferecer muitos acompanhamentos, e junto deles o famoso e nutritivo arroz com feijão. Ofereça até o ponto que não haja excessos e, sim, o equilíbrio!

Em tempos de insegurança alimentar, quando estamos diante do aumento desenfreado dos alimentos e temos nosso país novamente no mapa da fome, pensar num prato de feijão e arroz preparado no capricho pode dar água na boca. Isso se a pessoa que vai preparar a refeição estiver conseguindo custear o gás de cozinha, embora aqui no sul, devido às especificidades climáticas, muitos tenham a opção de cozinhar no fogão de lenha. Ultrapassadas as dificuldades do tipo de fogão, e tendo condições de cozinhar, é momento de dizer um sim para o arroz e feijão!

Porém, e ainda bem que o porém apareceu! Lembro de um relato feito por uma admirável colega de trabalho, que na função de gestora de uma escola, estava no refeitório quando observou que uma estudante não aceitou a merenda. Então, de forma afetuosa, uma grande virtude desta colega, perguntou o motivo pelo qual a menina não tinha provado a comida.

A resposta da criança, no primeiro momento, pode nos levar a um precipitado julgamento, mas calma! Ela disse que não queria comer porque era feijão e arroz. Ao escutar a resposta, minha colega perguntou se ela não gostava de feijão e arroz. Agora, a resposta nos faz compreender muita coisa! A estudante disse que na casa dela só tinha essa comida.

Pensem!

Como deve ser comer somente feijão e arroz, sendo que lhe eram ofertados no almoço, no jantar e no lanche escolar! Como deve se sentir uma pessoa que não tem a oportunidade de provar outros aromas e sabores, sabendo da infinidade de alimentos dispostos nas prateleiras de mercados, fruteiras, padarias? É justificável a sua recusa! É quase uma manifestação contra a desigualdade social. Assim como é triste a realidade atual, a qual milhares de pessoas não estão conseguindo variar a alimentação, ou pior, milhares nem conseguem comer o arroz com feijão e, se um prato surgisse diante de cada um, diriam sim!

Mas, não é a insegurança alimentar o cerne da minha reflexão, embora o arroz e feijão estejam nela. É que as expressões arroz e feijão são muito utilizadas no contexto educacional, e não é no refeitório, mas sim nas reuniões pedagógicas! E aí está o perigo! Arroz e feijão, NÃO! Vou tentar explicar.

É de conhecimento geral que o cenário pandêmico corroborou em sérios agravantes na educação. Com isso, também se acentua o movimento pedagógico que tenta incansavelmente recuperar a defasagem escolar. Até aqui, estamos de acordo!

O problema está no equívoco de se pensar que para a recuperação, devemos ter como cardápio principal o feijão com arroz, semelhante àquele que oferecem para a garota do relato nas diferentes refeições do dia, e ela acaba por rejeitar!

Ela não rejeita por querer, é por não aguentar! Quem aguenta essa pobreza de possibilidades, se os olhos estão diante de uma infinidade? Ressaltando: eu adoro feijão com arroz! E não estou dizendo, em hipótese alguma, que estes dois devem ser descartados do fazer pedagógico! Cuidado com a reduzida interpretação!

O que eu quero pontuar então?

Que muitas, mas muitas crianças só terão certas oportunidades na escola, que é um lugar das primeiras vezes do aprendiz. Que as primeiras vezes dos estudantes dependem da ação do professor. Este, por sua vez, não pode jamais, pensar que ensinar o básico, o “arroz com feijão” é suficiente! Neste caso, arroz com feijão, NÃO! Eles podem estar junto de outros elementos, nunca sozinhos. É muita pobreza ter somente eles!

Aqueles que desejam de fato alcançar propósitos vindouros, precisam imediatamente mexer no cardápio, começando pelo próprio! Pois chegar neste contexto histórico-social pensando que o mínimo é satisfatório, é sinal de excesso de feijão com arroz e carência de outros gostos e cheiros. Então, mesmo que isso custe mais caro, enriqueça o menu! Outra ressalva: Eu não estou dizendo para inserir mais do que já tem, pois temos que levar em conta que a sociedade é, por um lado de excessos e, por outro de carências!

 Temos que cuidar/pesar tanto dos excessos quanto das carências. Usemos a balança!

Explicando de outro modo: Pense o que os estudantes têm em excesso. Agora pense no que lhes falta? Aqui você pensou feijão e arroz, garanto! Você deve oferecer muitos acompanhamentos, e junto deles o famoso e nutritivo arroz com feijão. Ofereça até o ponto que não haja excessos, e sim o equilíbrio! O risco está em você pender para um, ou para outro lado. A consequência será a recusa por parte do aprendiz; o sofrimento e o fracasso de ambos: educador e educando.

Em outras palavras: em meio restritivo (só com feijão e arroz), o aprendiz não  se sente mobilizado, porque não é ativo de verdade; também não desenvolve autonomia e pensamento, uma vez que esses atributos dependem do que ele não tem: possibilidade de escolhas, de tomadas de decisões e elaboração de estratégias e pensamento a partir de oportunidades experienciais formativas. Aliás, será que estamos preparados para lidar com crianças ativas? Pensemos… Parece-me que é uma questão bastante instigante, merecedora de estudo, em momento oportuno.

O fato é que o educador precisa compreensão total sobre o seu menu. Ele deve ter um cardápio composto por variedades que vão além do feijão com arroz. Porque assim envolverá, mobilizará, motivará, sem apressar ou sufocar.

 Já sabemos que os reflexos da pandemia não serão superados a curto prazo, mas sim a médio e longo. Assim, muita pressa pode atrapalhar! Eu gosto de escutar, de uma outra colega que admiro muito a seguinte colocação: Vamos com calma! Aqui não vamos fazer por fazer, vamos fazer bem feito. Quando assim o educador proceder, oferecendo cardápio amplo, rico de sabores e aromas, o aprendiz perceberá que está em companhia de alguém especial e se fartará com o banquete.

O aprendiz, ao receber como marca este tipo de educação, luta até certo ponto, para dar conta do que lhe é imposto, mas corre o risco da ruína. Como diz Dewey, metaforicamente, o aluno luta, mas acaba vencido diante do que a educação reivindica, pois morrem seus desejos, interesses e curiosidades. Leia mais: https://www.neipies.com/com-a-palavra-as-criancas/

Autora: Ana Lúcia Vieira

Edição: Alexsandro Rosset

Você pergunta a opinião da sua criança?

A criança que não é ouvida termina se calando para o mundo. Deixar de opinar não é importante apenas para alegrar a criança, mas também para o desenvolvimento do seu pensamento cognitivo, a sua aprendizagem, o seu crescimento emocional.

O meu querido poeta Mario Quintana tem um poema belo intitulado “As falsas recordações” que nos diz “Se a gente pudesse escolher a infância que teria vivido, com enternecimento eu não recordaria agora aquele velho tio de perna de pau, que nunca existiu na família, e aquele arroio que nunca passou aos fundos do quintal, e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão, sob o zumbido inquietante dos besouros”.

Muitas crianças guardam dentro de si coisas falsas, ou seja, coisas que elas fingem se comportarem dos seus jeitos, do jeito que elas desejam para que os seus pequenos mundos se tornem melhores e com menos sofrimentos. Essas falsas coisas acabam se tornando companheiras das crianças e a gente nunca vai descobrir como elas são ou onde elas estão dentro da criança se não as ouvirmos, se não dermos atenção necessária às suas opiniões, aquilo que tentam nos dizer em tão poucas palavras.

Ser criança não é nada fácil. Cada vez mais vemos crianças sendo adultizadas cedo demais. Não sei se são as exigências do mundo contemporâneo ou se são os pais querendo se ver livres logo do mundo da infância que é considerado bobo demais por muitos. Tenho receio dessa adultização precoce.

Acho que a criança deve viver plenamente essa fase sendo criança de verdade e não se maquiando, pintando as unhas e até mesmo os cabelos ou usando sapatos de saltos altos. Penso que as culturas enlaçadas umas às outras propiciam esse amadurecimento precoce das crianças fazendo-as com que se tornem adultas antes mesmo de completarem nove ou doze anos de idade.

O que me intriga é que a criança pode pintar os cabelos e pode até mesmo arranjar um namoradinho, mas não pode opinar nos assuntos que lhe dizem respeito. São proibidas de tomarem decisões por si próprias e não podem fazer escolhas do que gostam ou não. Devem obedecer aos adultos sem questionamentos e muito menos fazerem birras porque não foram ouvidas.

Ser criança não é coisa fácil no mundo de hoje. São diversas as exigências da sociedade e das mídias, principalmente, o mercado econômico que aproveita essa adultização para oferecer cada vez mais produtos que ofertam promessas de belezas para os cabelos e para a proteção da pele ou até mesmo para ajuda do emagrecimento.

Ser criança em um mundo onde as pessoas não se ouvem mais está se tornando cada vez mais difícil.

No entanto, sempre foi assim com as crianças. Houve um tempo em que elas eram criadas longe dos adultos, largadas aos seus mestres que lhes ensinavam tudo o que precisavam saber sobre boas condutas e valores morais.

Na antiga Grécia, as crianças não podiam opinar. E se opinassem eram castigadas ou mesmo não eram ouvidas. Assim, em Platão na sua obra “A República” vemos que as crianças não têm vez, devem ser educadas para a arte das guerras e só entrarão em contato com a filosofia e demais artes na idade adulta.

Não costumamos perguntar às nossas crianças as suas opiniões sobre as coisas que fazemos, sobre uma decisão que precisamos tomar ou sobre um passeio que juntos faremos. Decidimos tudo como se fôssemos governos tiranos. As crianças, nossas súditas que só devem nos obedecer sem questões.

A opinião de uma criança deve ser respeitada em todos os sentidos, principalmente se importa a ela a decisão que será tomada por nós, adultos. Trocamos as crianças de escola, as afastamos dos seus amiguinhos, mudamos de endereço, compramos roupas para elas das cores que mais gostamos e dos modelos que mais achamos bonitos e nem procuramos saber as suas opiniões a respeito disso ou daquilo.

Silenciamos as nossas crianças, sem querermos. Não as permitimos que opinem, que falem, que gritem. Que digam o que desejam e mostrem através das suas palavras e gestos o que pensam sobre as suas vidas, os adultos, as coisas ao seu redor. Não deixamos que opinem sobre o que assistem na televisão ou veem nas redes sociais.

Para facilitar as nossas vidas na pressa do dia a dia simplesmente damos algo para a criança se distrair e esquecemos de colaborar com as suas opiniões. Deveríamos ouvir mais as crianças. Nos seus argumentos elas conseguem passar para nós como estão se sentindo diante das suas vivências e experiências, com elas descobrimos coisas maravilhosas que antes não conseguíamos enxergar que eram de outro jeito.

Por que não perguntamos a opinião das nossas crianças?

Temos medo de ouvi-las? Sim, muitas vezes as crianças são sinceras demais. Elas não usam máscaras ou dizem mentiras para não machucarem alguém. Quantas vezes a sua criança já lhe deixou em uma situação vexatória dizendo que a roupa do amigo era feia ou que o seu amigo estava ficando careca? Elas falam tudo o que pensam.

E nessa falar tudo o que pensam conseguem expressar as suas emoções e sentimentos. Através da opinião das crianças sabemos se estamos lhes dando a atenção necessária e os cuidados que precisam. Quando uma criança se sente ouvida ela sabe que pode confiar naquele adulto e passa a lhe contar tudo o que sente.

Se as crianças são levadas para fazerem as compras no supermercado elas devem poder opinar sobre alguns itens que a mamãe ou o papai não quer comprar, como também devem ter o direito de opinar sobre a roupinha que será comprada para ela. A criança tem o direito de dizer não e ser ouvida porque se recusa a aceitar tal coisa.

A opinião de uma criança é como uma caixinha de segredos que se abre quando a gente menos espera e toca uma canção que busca acolhimento e aprovação pelo seu comportamento. Aos pais cabe ouvir esta canção com os ouvidos bem atentos para que a criança continue opinando sem o risco de ser castigada ou receber críticas ao seu bom pensar que está se organizando no decorrer do seu crescimento.

Como aprimorar a escuta dos filhos? https://youtu.be/EmTpu7X4tJU?t=35

Pode ser difícil para os pais permitirem que as crianças deem as suas opiniões nas diversas tarefas do dia a dia, mas é importante que elas cresçam sabendo das suas responsabilidades enquanto membros de uma sociedade com direitos e deveres. Elas precisam conhecer os seus limites, saberem os motivos de muitas coisas não poderem fazer, questionarem sobre o que as intrigam.

O ato de opinar ou argumentar com precisão desde a infância também ajuda a criança na sala de aula quando é convidada a responder sobre uma ou outra pergunta. Se em casa as suas opiniões são ouvidas, ela não temerá responder as questões da escola e nem a falar em público.

Muitas crianças se sentem tímidas e envergonhadas porque nunca foram ouvidas pelos seus pais, porque sempre que quiseram opinar foram silenciadas com “você é pequeno demais para saber disso” ou “quando você crescer eu explico”. Não! As crianças querem discutir, debater, conhecer agora, neste momento. Elas não têm tempo para esperar o crescer. Mais tarde terão outros questionamentos e novos posicionamentos.

Todo mundo tem o direito de opinar sobre alguma coisa que lhe incomoda. Não somos máquinas para aceitarmos tudo sem podermos dizer o que achamos. Assim são as crianças. Elas querem poder escolher o que vão comer, o que vão vestir, a escola onde vão estudar, a hora de fazer a lição de casa. Elas sempre vão ter argumentos para os seus quereres.

A criança que não é ouvida termina se calando para o mundo. Deixar de opinar não é importante apenas para alegrar a criança, mas também para o desenvolvimento do seu pensamento cognitivo, a sua aprendizagem, o seu crescimento emocional. Claro que muitos assuntos são apenas de adultos, mas se você permitiu que a criança ouvisse a sua conversa terá que aceitar a opinião dela.

Ignorar a opinião da criança pode ser traumático e influenciar bastante no seu amadurecimento emocional. Afinal, através das nossas opiniões passamos a ser conhecidos e aceitos nas rodas de conversas e nas redes sociais. É preciso que a criança saiba opinar em casa para depois ter coragem de opinar quando estiver com pessoas estranhas e não aceitar tudo o que querem lhe dizer como verdade.

A sua realidade pode ser diferente da que a criança pensa.

As opiniões podem divergir e, por isso, é bom que os pais sentem e conversem com as suas crianças sobre assuntos que elas trazem nas suas perguntas e as deixem opinar do jeito que pensarem abrindo caminhos para que cheguem a um bom pensar.

Toda opinião é válida mesmo a que você acha a mais bobinha. Aquela que para você não chega a lugar nenhum, é preciso ser validada. A criança não sabe o que é uma coisa boba ou tola. No seu pequeno mundo tudo o que lhe intriga merece ser discutido com quem entende para obter respostas satisfatórias.

Na nossa literatura está cheia de personagens que se comportam como alguns adultos, ou seja, não ouvem as opiniões das crianças porque são consideradas ingênuas. No lindo conto da escritora Ruth Rocha intitulado “O que os olhos não veem” o rei fica doente e não consegue ouvir a opinião de pessoas pequeninas e que falam baixinho, daí as pessoas usarem pernas de pau para ficarem grandes e poderem ser ouvidas pelo rei. Isso é o que acontece com as nossas crianças no mundo inteiro, parece que todos os adultos estão doentes iguais ao rei de Ruth Rocha.

Para conversar com uma criança, de igual para igual, você deve sentar-se ao seu lado ou se abaixar até o tamanho dela demonstrando sinal de respeito e educação. Assim, a criança se sentirá amada. Poderá com confiança e segurança dizer o que pensa a respeito de determinada coisa, falar à vontade com você, se expressar sem medo de ficar de castigo ou coisa parecida.

Ouvir com atenção e demonstrar interesse na opinião de uma criança faz todo o sentido para nós, adultos, que sabemos o respeito e cuidado que ela merece.

Não custa nada deixarmos os nossos afazeres de lado só um pouquinho para ouvirmos o que a criança pensa daquele vizinho que veio morar do lado há pouco tempo ou da roupa que vai vestir à noite para ir ao baile com os amiguinhos. Nessas conversas sempre descobrimos coisas que estavam lá nas profundezas do pequeno espírito da criança guardadas há algum tempo com receio de serem colocadas para foram e serem mal interpretadas.

Conhecemos os nossos amigos através das suas opiniões e, nos últimos tempos, com a chegada das redes sociais descobrimos que algumas pessoas que se diziam nossas amigas pensam completamente diferente de nós. Ficamos espantados com as suas opiniões publicadas para que todos possam ver. Não estão nem aí para o que os outros vão pensar. Querem é mais opinar. Falar. Como se opinar hoje em dia fosse a válvula de escape para tudo.

Neste segmento, estão as crianças preparadas para opinar sobre tudo o que lhes dizem respeito. Elas nunca param de pensar. Mesmo quando estão brincando sozinhas ficam ali buscando alguma forma de conversar com você sobre algo que não estão gostando ou até mesmo que gostariam que mudasse.

É necessário ouvir as opiniões das crianças para que elas cresçam com desenvoltura e sabendo que podem confiar em nós e em si mesmas não silenciando diante dos assuntos importantes que muitas vezes somos convidados a debater. O debate é uma ótima oportunidade para os professores ouvirem o que as crianças pensam sobre determinados temas.

Quando as opiniões das crianças forem respeitadas de verdade, tenho certeza de que muitas delas crescerão desinibidas e preparadas para enfrentar um mundo que exige cada vez mais criatividade e saberes que resolvam problemas rapidamente.

O raciocínio lógico precisa construir argumentos válidos, por isso o estudo da lógica é tão importante na sala de aula.

Se você passar a pedir mais a opinião da sua criança começará a perceber o quanto ela se sentirá confiante e feliz ao seu lado. Ela compensará essa atenção entregando-lhe os seus segredos, os seus medos e angústias diante do mundo e das coisas ao seu redor. A criança que é ouvida tende a ouvir também facilitando o seu ensino-aprendizagem.

Deixo vocês com os versos do poeta Peter Handke que nos diz “Quando a criança era criança, / andava balançando os braços, / queria que o riacho fosse um rio, / que o rio fosse uma torrente / e que essa poça fosse o mar.” E se a criança desejava tudo isso certamente ela tinha a sua opinião sobre o seu desejo e quem sabe um dia possamos descobrir através do diálogo o que exatamente as crianças pensam sobre nós e o mundo ao seu redor.

Não sei para você, mas para mim é importante saber o que uma criança pensa sobre mim até mesmo para que eu possa melhorar a cada dia ou continuar sendo este adulto que se importa com ela e que ama bastante, pois sem amor não podemos ficar perto de uma criança, pois o amor é que a faz crescer com sabedoria.

Sabedoria essa, tão necessária à filosofia dos gregos que aprendemos nas escolas e nas academias universitárias. Esta filosofia que eu tanto luto para chegar às escolas da educação infantil e fundamental porque se faz precisa e urgente uma vez que só se aprende a ler e a escrever bem quem tem argumentos e sabe opinar com respeito e segurança.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Cidade educadora e pedagogias dialógicas e humanizadoras

A cidade de Soledade, RS, faz sua adesão ao Movimento Cidades Educadoras em 2018. Desde então, e desde antes, vinha e vem consolidando uma abordagem, uma pedagogia que vai tornando a cidade um melhor lugar para se viver, a partir do reconhecimento dos diferentes sujeitos que a constituem e a partir de ações que promovem a inclusão, a cidadania, a cultura e o protagonismo dos cidadãos e cidadãs.

Soledade vem fazendo a experiência da Cidade Educadora com protagonismo da Secretaria Municipal de Educação, mas também buscando o envolvimento de outros setores e secretarias da Administração, pelo princípio da intersetorialidade.Nesta entrevista, Adria Brum de Azambuja, secretária de Educação, relata e exemplifica os desafios da adesão a este movimento e as estratégias diárias e cotidianas que permitem as vivências de cidadania e participação numa cidade educadora.

SITE NEIPIES: Em que contexto educacional a cidade de Soledade fez a sua adesão ao Movimento Cidades Educadoras?

Ádria Brum de Azambuja: Esse trabalho teve seu caminho iniciado com uma gestão municipal mais participativa e ações com o Programa Municipal de Formação Permanente dos Trabalhadores da Educação – PROFORMA, propondo reflexões sobre os anseios das escolas, bairros e da própria cidade. Salas temáticas reuniram professores e a comunidade escolar para pensar e promover ações práticas. Portanto, o ingresso da cidade na AICE, correu pela mobilização do SME em torno da práxis como núcleo fundante do oficio dos educadores, possibilitando a ressignificação da formação continuada dos professores alicerçada no diálogo problematizador, para pinçar do cotidiano da escola os elementos fundamentais implicados na construção de um currículo significativo  que  envolve  os  sujeitos  enquanto  agentes  de  transformação da  realidade a sua volta. Esse processo estabeleceu novas formas de poder entre as escolas municipais e a comunidade local e global. A partir disso, os projetos educacionais construídos coletivamente passaram a discutir as possibilidades educadoras da cidade, seguindo os princípios da Carta das Cidades Educadoras. 

Para saber mais: https://www.edcities.org/pt/carta-das-cidades-educadoras/

Soledade foi a 16ª cidade brasileira e a 5ª no estado do Rio Grande do Sul a ingressar na Associação Internacional de Cidades Educadoras – AICE.

Por intermédio do Programa UniverCidade Educadora e Inteligente: Circulando Cidadania, desenvolvido  pela Universidade de Passo  Fundo – UPF,  com o objetivo de aproximar a universidade  das  experiências  das  cidades  educadoras e assessorar a difusão de práticas educativas  inspiradas nos princípios da Carta  de  Barcelona, foi possível  discutir  as  ações  de  gestão,  potencializar e redefinir intervenções que congregam para a promoção do direito humano à cidade a todos os cidadãos e cidadãs.

SITE NEIPIES: O que, na sua visão, é essencial para que uma Cidade expresse e vivencie as intencionalidades e os princípios da Carta das Cidades Educadoras?

Ádria Brum de AzambujaUma Cidade Educadora não se limita a vivenciar os recursos pedagógicos somente nas escolas, mas se estende como agente educativo por todo seu território e a todos os seus cidadãos, é uma cidade que se relaciona com todo seu potencial estético, ambiental, de comunicação e criação, mediante o diálogo intersetorial com e para a cidade.

SITE NEIPIES: Como a secretaria Municipal de Educação participa e se mobiliza na concretização de ações educativas da Cidade Educadora?

Ádria Brum de Azambuja: O processo de gestão democrática participativo vivido no Sistema Municipal vem extrapolando os limites das escolas e da própria Secretaria de Educação, desafiando os sujeitos a entrelaçarem-se com a cidade e a participarem, responsavelmente, da gestão em outros setores da administração pública municipal. A participação intersetorial tem contribuído para a realização de projetos que favorecem o exercício da cidadania.

O projeto educacional vertente das ações de cidade educadora, traz na sua gênese a decisão política de materializar a gestão democrática assentada na participação dos diferentes atores sociais na elaboração e concretização de objetivos, metas e estratégias que desafiam os envolvidos a pensar a cidade na cidade, para a cidade e coma cidade.

Pensar a cidade na perspectiva educadora supera a ideia de mais um projeto coletivo ou uma temática participativa, mas configura-se numa intencionalidade política que demanda ações planejadas e articuladas a partir do processo educativo. Não é algo dado, não está pronto, não é tarefa fácil nem uma tarefa individual.

Conselho da Cidade Educadora de Soledade

SITE NEIPIES: Quais os critérios para definir se determinada ação ou projeto realizado pela Secretaria de Educação esteja associado e vinculado ao Projeto de Cidade Educadora?

Ádria Brum de Azambuja: A questão principal está relacionada a como esses projetos irão promover o desenvolvimento humano e social conferindo centralidade à educação como elemento norteador das ações e políticas de todas as áreas.

SITE NEIPIES: Como a administração municipal vem fazendo a discussão e implementação do Projeto Cidade Educadora envolvendo diferentes setores da administração e grupos sociais com representação na cidade?

Ádria Brum de Azambuja: Ainda em 2013 quando os ideais de uma gestão mais democrática foram assumidos pela administração municipal, teve início em Soledade uma nova configuração de cidade.

Uma das decisões da gestão, no ano de 2016, foi a aprovação da Lei Nº 3.812 de 03 de agosto, que dispões sobre a Gestão Democrática do Ensino Público Municipal, que expandiu o caminho à participação da comunidade escolar as decisões da escola.

Na busca por uma educação pública e de qualidade a gestão priorizou pela formação continuada dos trabalhadores da educação municipal, é necessário salientar que, esta ação foi o que tornou possível a ascensão de Soledade ao rol de cidades educadoras.

Neste sentido, os profissionais de educação tiveram a oportunidade de ampliar suas reflexões, dialogando a partir das contradições dialéticas do cotidiano escolar, sendo possível ampliar o olhar para outros segmentos da comunidade, iniciando assim  um  movimento  que  teve  como  princípio  os  ideais de justiça social e em trabalhar a cidade enquanto um espaço educador, valorizando o aprendizado vivencial e priorizando a formação de valores. 

Nesse movimento, foram realizadas inúmeras práticas educativas e culturais difundidas e efetivadas em diferentes espaços, contribuindo para que, os ideais de cidade educadora fossem se corporificando e disseminando. 

Desde o início  do processo  contou-se  sempre  com  o  apoio da  Universidade  de  Passo Fundo – UPF, com a assessoria do Centro Regional de Educação – CRE, que estendeu a sua interlocução que já acontecia com a Secretaria Municipal de Educação e com os profissionais de educação, para os gestores municipais através da participação em eventos promovidos pelo Programa de extensão “UniverCidade  Educadora”,  que  abordaram  a  temática de Cidades Educadoras e Inteligentes e com reuniões na prefeitura municipal com o  objetivo de propiciar  o  desenvolvimento do município de Soledade.

A partir de janeiro de 2020, Soledade conta com a assessoria da professora Doutora Eliara Zavieruka Levinski. Essa assessoria envolve todos os gestores municipais, que reúnem-se mensalmente para reflexão e planejamento de práticas intersetoriais.

A partir do estudo processual envolvendo os gestores municipais, estamos constituindo uma gestão intersetorial com o objetivo de compreender e gestar Soledade em visão integrada das potencialidades, problemas e de suas soluções.

Ancorados no programa denominado “Viver bem, Viver em Soledade” efetivamos ações associadas a quatro projetos: Das decisões às ações, Viva a Cidade, Desenvolvimento integrado do campo, Soledade com o protagonismo dos jovens e das crianças. A organização das linhas de trabalho tendo como premissa a melhoria da qualidade de vida, com base no Plano de Governo, nos Princípios da carta de Cidade Educadora e na escuta dos sujeitos, possibilita uma postura interrogativa a respeito do projeto de cidade que queremos construir. Ao que vamos dizer sim e ao que vamos dizer não para garantir, coletivamente, o bem viver?

A gestão de uma cidade educadora deve, especialmente, corresponder aos verdadeiros interesses de seus cidadãos  para  que  isso  ocorra, é imprescindível que os  processos  de gestão sejam  articulados  de  maneira  participativa, o  que só  faz  sentido  quando  esta  participação  ultrapassa os limites do monitoramento,  da avaliação, da  concordância ou da discordância, com meros “sim ou não” e é concretizada na justificativa consciente destes sujeitos.

SITE NEIPIES: Que metodologias participativas e que ações são utilizadas pela administração com vistas ao diálogo, ao reconhecimento dos sujeitos e ao protagonismo cidadão dos sujeitos e dos atores sociais?

Ádria Brum de AzambujaEm Soledade, inúmeras práticas são efetivadas no cotidiano das relações entre os gestores municipais e seus cidadãos, comprometidos em estender e legitimar por meio da mediação e do diálogo a participação e todos no processo de formação das decisões políticas.  Para isso, somam-se aos Conselhos, às ouvidorias, às consultas  públicas, às  pesquisas de  opinião, mecanismos tradicionalmente  já  utilizados  no  fortalecimento da gestão participativa, outros, como; o Projeto Prefeitura  no  Bairro/Prefeitura no  Interior, Café com a Prefeita, Rodas de Conversas. São projetos com ênfase na escuta ativa das demandas emergentes das necessidades das comunidades, sem intermediários, estabelecendo um diálogo  franco entre os gestores municipais e seus cidadãos.

Prefeita de Soledade em atividades participativas com a população.

Para os sujeitos do processo participativo, romper com o silenciamento e anunciar a sua palavra, significa emancipar-se.

A gestão municipal ao criar condições de efetiva participação, estabelece um clima favorável a fala e a escuta, construindo  uma relação de  cumplicidade e pertencimento  fundamental para o protagonismo dos sujeitos alicerçado na responsabilidade   em   dinamizar o que foi decidido.

A palavra diálogo significa falar de lugares diferentes, endereço de contradições, respeito e humildade. Não é um bate – papo, nem ocorre no espontaneísmo.

Outras práticas participativas foram gestadas e experienciadas nas escolas municipais de Soledade como a aprovação da Lei Nº 3.812, pensada e intencionada sob a interlocução e mediação da UPF, através da reflexão e na formação ativa dos profissionais do Sistema Municipal de Ensino. Estas práticas ultrapassaram os limites da formalidade, fomentando processos não só pedagógicos e culturais ancorados na construção do conhecimento e expandidos nas relações sociais mais amplas, mas com foco nos saberes comunitários, no território do vir a ser com e na cidade. Esta prática pode ser vivenciada fortemente na Feira do Livro de Soledade que acontece anualmente, no largo da matriz, instaurada  na  apropriação  das  diversas linguagens. É campo efervescente de conhecimento e de troca entre os diferentes sujeitos, arraigados não só dos saberes científicos, mas também de saberes construído na práxis cotidiana dos indivíduos.

SITE NEIPIES: Qual é a importância das perguntas: O que temos? O que queremos? O que precisamos? Para a definição e encaminhamento das demandas da comunidade?

Ádria Brum de Azambuja: Quando refletimos sobre essas questões, somos indiretamente conduzidos a reconhecer nossas potencialidades, para a partir daí admitirmos que nem sempre o que queremos é o que realmente precisamos. Reafirma o pertencimento e o reconhecimento dos sujeitos do território e descortina suas relações com o local onde vivem.

SITE NEIPIES: Na sua percepção, como os habitantes da cidade já reconhecem e vivem sob a regência das pedagogias dialógicas e humanizadoras?

Ádria Brum de Azambuja: Quando a gestão municipal cria condições de efetiva participação, e estabelece um clima favorável de fala e de escuta, constrói uma  relação  de  cumplicidade  e pertencimento. Nesse sentido, os cidadãos são envolvidos de tal forma nesse processo participativo que rompem com o silenciamento ao anunciar a sua palavra, enquanto protagonistas das decisões com e para a cidade. Reconhecemos nesse movimento formativo do próprio processo que o mesmo ainda é embrionário e que preferimos ações consistentes, densa e com tendências de longevidade.

Pelo diálogo e participação os sujeitos desenham um projeto coletivo de cidade que vem se reconhecendo educadora, porque ao educar se, educa!

SITE NEIPIES: Uma mensagem final aos que acreditam nos ideais das Cidades Educadoras.

Ádria Brum de Azambuja: As experiências locais mostram o quanto é possível experienciar os processos democráticos e participativos mesmo diante de cenários nacionais e internacionais que negam e confundem o sentido dos processos democráticos. Estamos aprendendo o quanto é possível viver princípios éticos e morais alicerçados no diálogo e na participação dos sujeitos. Os desafios são grandes e as possibilidades também.

Dirigentes do CMP Sindicato de Passo Fundo visitaram a Secretária Ádria Brum de Azambuja durante o mês de junho 2022. Além de conhecer a experiência da Cidade Educadora Soledade, convidaram a Secretária para relatar a experiência desta cidade no VII Congresso Municipal dos Professores e Professoras, que ocorrerá no dia 23/08/2022.

Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal

Edição: Alexsandro Rosset

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