Por que é importante revisitar as galinhas e os galinheiros da nossa infância?

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Saudade é como fome. Só passa quando se come a presença. (Clarice Lispector)

Enfim, marcamos os dias de nossas férias de inverno!  Mas cadê o inverno?  Quem roubou nossos dias de frio e vento espetado, nas golas puídas de casacos esquecidos…

Bem, choveu muito.  Demais!  Será que um matou o outro?

Assim mesmo, embarcamos para o Sul de todas as minhas infâncias.  Como nossa filha nasceu em cidade, vive na cidade e não imagina o que seja uma cerca, um boi, uma galinha, resolvemos dividir com ela um pedaço de nostalgia, dos anos em que convivíamos mais com os pequenos amigos do campo do que com pessoas de fato.

Primeiro, o desafio da liberdade…Sem celular.

Impossível!

Bem, como explicar que os ovos que ela tanta ama tem uma origem e local bem definidos pra existir?  Duvido que soubesse.  Bois e porcos, cachorros latindo, quero-queros pela cercania, pardais, canários, pica-paus, galinhas com a sua família pelos pátios…

Com um celular em mãos, que nem é de última geração, em um ou dois cliques, ela terá acesso para se certificar de tudo.  Mas, como viver a experiência?

Saber e provar são verbos complementares. Mas distintos.

Como explicar a ela que os ferros de passar levavam brasas para aquecer. Ela simplesmente não conhece nenhum deles.

Como falar que muitos banhos foram tomados somente em rios, porque os banheiros estavam afastados das casas.  E ali dentro não havia: nem torneira, nem água… Muitas vezes um prego na parece com pedaços de jornal… Era o papel.

E o que dizer de estradas empoeiradas, noites sem energia elétrica, galos despertando às 5, TVs em preto e branco -quando havia- e que toda informação vinha de um rádio; sabe-se lá de onde partia a sua voz.

E a vida era maravilhosa, com mil vantagens sobre a outra (vida); aquela em que nossos avós levavam e que agora, em nossa infância, com a chegada da anestesia e do Biotônico Fontoura, quem se importava?

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O que esta menina viu não vai esquecer… foi a minha infância diluída em duas semanas: paisagens, bichos, casa e sobrados de madeira e pedra e onde mais ouvia:

_ O que é isso, meu Deus?

Então fui assaltado por uma memória assustadora.

Foi nos idos dos 12 anos.

Minha Mãe, zelosa e pontual, colocou pedaços de lenha encorpados na boca de um fogão azul. Pelas 7 da manhã. E foi justamente o frio com um vento glacial, como o que tínhamos na época, que me jogou de volta à cozinha da minha infância.

Vila Evangelista é um distrito histórico localizado no interior do município de Casca, no norte do Rio Grande do Sul, cerca de 70 km de Passo Fundo. A vila preserva casarões centenários de madeira, forte herança da cultura italiana, opções de gastronomia colonial e turismo rural.

Todos se arrumavam para o trabalho.  A idade me poupava ainda por alguns meses. Frio e chuva não impediriam uma família italiana completa para se trabalhar por esta idade.

_ Corrige o caráter – eu ouvia. 

Mas ainda aos 12, incompletos, ficava ‘por casa’ nas manhãs de geada e fumaça pelos vidros. Não se sabia o que poderia ser um fogão a gás. Lembrei que, rigorosamente, tudo era cozido, esquentado e requentado sobre uma chapa de ferro, quase vermelha de tanto suportar o fogo.  Nada que nos lembre de nossas fervuras pela vida.

Pelas 8, ela já pensava no que servir no almoço.

Meu Pai chegaria 12 em ponto.  Sentava-se à mesa e o seu prato era servido na hora.  Sem perguntas, sem olhares, sem comentários sobre como foi que tudo aconteceu pela manhã.

_ Filho, vá até o galinheiro e traga uma galinha para o almoço.

_ O quê?  _ Eu Mãe? Justo eu? Tenho amigos dentro do galinheiro.  Você vai me indispor e será um time de inimigos pelo pátio.

_ Vá, porque o seu Pai não se atrasa nunca. Quer enfrentá-lo? Justo no almoço?

Enfrentar o meu Pai significava perder. Apanhar, melhor.

Desci três degraus que me jogavam no primeiro pátio e olhei para o galinheiro aos fundos da casa. Foram 25 passos. O galo ‘Canto Seco’ rondava pela porta.

_ E se eu apanhar de todos? _ E se correrem atrás de mim!

Conhecia uma galinha linda, que entre as suas milhares de penas, havia uma esverdeada, puxando para um musgo que não sabia explicar. Até um nome eu lhe dei: Anastácia.

Sabia do destino de todos os galos e galinhas da minha época. E de todas as épocas. Até me perguntava sobre a razão dos vizinhos orgulharem-se do seu galinheiro se o determinismo de sobrevivência das famílias, em seguida, aniquilaria com todos.

A minha irmã, muito leitora e sempre atenta com o desgaste de todas as explicações da idade, contou-me de um país distante, onde uma família de reis e princesas foram presos e mortos como galinhas.

Não esqueci a história, e, sabendo do futuro miúdo da minha amiga, levando uma cor que mais lembrava uma pedra com musgos nas costas, dei-lhe o nome de Anastácia. Foi ela a quem procurei primeiro.  Os amigos são os primeiros sacrificados.

_ Traga pelos pés, gritava a minha Mãe, junto à porta da cozinha, investida, momentaneamente, como a crueldade de um carrasco. A fome não faz distinção.

Caminhei de costas pela parede da casa, como que esperando uma tocaia inesperada.  Assim que dobrei sua quina, estavam todos eles junto à porta.

_ Vai começar um tumulto, falei.

Chamei-a pelo nome e ela confiou na minha voz. Nem força foi preciso. Ainda fazendo carinho em seu pescoço, saí do galinheiro às lágrimas. O Galo me observava pela saída, com ódio nos olhos. Sabe-se lá se não era a sua preferida, nestas noites frias da Serra Gaúcha.

Assim que a entreguei para minha Mãe, saí correndo.

Quando penso que ela nos recebeu sorrindo, com um cabo de vassoura na mão, fui tomado por um espanto, que todos esses anos não foram suficientes para esquecer. E o que se seguiu não daria para descer a detalhes. Penso que foi a razão para não gostar de filmes de terror.

Enquanto o almoço macabro era preparado, desci ao galinheiro tentando arrumar as coisas. Mas ninguém me deu bola. Tentei falar a eles que não aconteceu o que estavam pensando.

Tentei soltá-los todos no pátio, até porque o sol resolveu botar a cara pra fora; meio tímido ainda. Mas ninguém saiu.

Lembro de ter caminhado em direção a qualquer lugar, andando a esmo, sentindo que fora o delator, julgador e ainda o executor da morte de uma amiga. A segunda Anastácia que morria de maneira infame.

Ao meio-dia, vendo meu Pai sentar-se à mesa, os pratos já estavam todos dispostos e alinhados:  arroz, os nacos suculentos de queijo, fatias de polenta que pareciam cortadas à régua. E, um prato enorme com pedaços de galinha. Aí foi demais!

Comi o suficiente para não apanhar.  Menos o prato indigesto da traição, naquela repulsa e fúnebre manhã. Comi polenta para não ser julgado à mesa, e que todo bom italiano não pode se abster.  Mas me levantei num pulo e corri para fora.

Somente anos depois consegui me perdoar, entendendo que a sobrevivência se impunha a quaisquer sentimentos.

Com a vida já adiantada, um dia falei à minha Mãe sobre a aquela manhã soturna. E ela nem precisava de justificativas, nessa altura de sua caminhada. Mesmo assim, falou:

_ Tínhamos de comer, caso contrário, você teria de descer até o frigorífico e nos comprar qualquer coisa com o que o dinheiro pudesse comprar. E nem vou falar a você o que acontece lá dentro. Pois é!

O que não vemos nos machuca menos. Quase nada.

Ela se dizia arrependida, pois fora muito fiel a sua criação; de jamais faltar com o alimento à mesa.

Mais tarde entendi, porque gosto tanto do filme ‘A Revolta das Galinhas’. Até compreendo, imagino, melhor, de como são feitos os saborosos sandubas de frango. Sob protestos, ainda posso comer alguns.

Mas em um galinheiro não piso mais.

Quanta falta de compaixão com todos os galináceos de nossa infância, que por incapacidade ou por empatia universal, não nos resistiram para que chegássemos até aqui.

No retorno desse festival melancólico de lembranças, pensava sozinho em como vou lutar para que a filha reconsidere seus hábitos alimentares. Fica difícil, claro, quando somos humanidade; prepotentes que somos.

Que coma, então! Mas que não fique sabendo da história. Não foram férias, afinal!  Foram dias e dias revisitando meus arquivos dos 10, 11 anos e, o que era para ser um esquecimento para um descanso, revirou-se pra baixo uma gaveta oculta. Que bom que foi desta forma! Fui em busca de saudade, encontrei presença.

Estas linhas são dedicadas à Anastácia e a busca pelo seu perdão.

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Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “A terra aceita tudo e a arrogância humana se desfaz rapidamente em poeira e esquecimento”: www.neipies.com/a-terra-aceita-tudo-e-a-arrogancia-humana-se-desfaz-rapidamente-em-poeira-e-esquecimento/

Edição: A. R.

3 COMENTÁRIOS

  1. Quantas memórias afetivas!
    Nossa infância era muito boa, o que hoje é só em casa, com telas , infelizmente.

  2. Uma importante crônica do grande escritor Nelceu Zanatta. Parabéns por mais uma bela reflexão sobre os tempos em que “muitos eram felizes e não sabiam”. Tempos de simplicidade, vida difícil e muitos sonhos para sonhar.

  3. As marcas de uma vida … e há quem ache que não existe memória para tanta coisa vivida na infância.

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