O homem sem furo na mão
Em algum momento — ele não se lembra ao certo quando —, o furo começou a fechar. Levou anos, mas fechou. Diminuiu de tamanho. Ficou um furinho, quase imperceptível. Depois, só a borda. Até que desapareceu…
Sempre teve um furo. Na mão. Todos achavam estranho. Desde pequeno, na escola, os colegas apontavam o dedo e diziam:
— Olha, ele tem um furo na mão! — e riam.
A aula bagunçava. A professora chamava a atenção. Mas a verdade é que até ela gostava daquele furo — do furo na mão.
Os pais sempre acharam esquisito. Quando ele nasceu, perguntaram ao médico:
— Vai dar algum problema?
— Não, está tudo bem. Fizemos exames, tudo tranquilo. Só vai ser engraçado…
Ele cresceu quase normal, sempre com o furo na mão.
— É bonitinho — diziam as senhoras.
O moleque foi crescendo e, por onde ia, ficava conhecido por ter um furo na mão. Às vezes se sentia incomodado. De quando em quando, se achava idiota. Na adolescência, teve crise de identidade. Mas aprendeu, depois de um tempo, a gostar novamente daquele furo.
Porém, algo aconteceu…
Em algum momento — ele não se lembra ao certo quando —, o furo começou a fechar. Levou anos, mas fechou. Diminuiu de tamanho. Ficou um furinho, quase imperceptível. Depois, só a borda. Até que desapareceu…
Hoje, já adulto, ninguém o reconhece pelo furo na mão. Apenas ocasionalmente, em reuniões sociais, algum amigo comenta:
— Seu pai tinha um furo na mão — e todos riem.
Ele não.
Ele disfarça.
Vai até o quarto. Olha a mão.
Tem nada ali…
(esta crônica foi inspirada no texto “Aquilo”, do autor Ricardo Azevedo: https://ricardoazevedonews.substack.com/p/aquilo
Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Professor não é palhaço e escola não é circo”: www.neipies.com/professor-nao-e-palhaco-e-escola-nao-e-circo/
Edição: A. R.










