Tenho me deparado, como professor e cidadão, cada vez mais, com a seguinte pergunta: vale a pena estudar? É uma questão complexa, sem dúvida, embora não parecesse ser há alguns anos.
Se, na década de 1990, alguém perguntasse o motivo de estudar, seria taxado de ignorante. Tal cenário mudou… E isso é sintomático de nosso tempo, de um capitalismo a se autodevorar cada vez mais em sua produtividade sem norte nem sentido.
A função do capital é explorar tudo, inclusive o próprio capital. Até a década de 1990, o estudo entrava nessa conta de exploração. Estudava-se, principalmente, para ter uma vida melhor. Ora, qual o significado disso? Ganhar mais dinheiro, é claro. Até poucos anos atrás, o capitalismo contaminou o estudo, a busca pelo conhecimento e a formação do saber com suas garras de ambição.
Dentro da lógica do próprio capitalismo e da maneira como nosso mundo está estruturado, isso não era, de forma alguma, errado. Afinal, em um sistema explorador, o indivíduo, penso, deve ter, no mínimo, o direito de explorar a si mesmo e suas forças para prosperar — ganhar uma graninha a mais.
E o estudo, enfatizo, era o mantra repetido à exaustão pelas gerações anteriores, pelos meus pais e, provavelmente, pelos seus. Estudar era uma forma de o pobre, apesar de continuar a ser explorado, conseguir pelo menos uma vida mais tranquila, mais segura. Ascender, em suma, à classe média.
Porém, tudo aquilo explorado pelo capitalismo acaba também devorado. Todos conhecemos a alegoria da laranja chupada até sobrar apenas o bagaço, uma ideia excelente para representar a nós, os trabalhadores, no sistema de produção capitalista. Mas ser laranja, diria eu, não era problema, desde que o ganho fosse suficiente para criar um suco melhorzinho, ou, no mínimo, a garantia de sermos explorados com mais tranquilidade. Para isso servia o estudo.

Mas eis a consequência de tanto propagar a autoexploração do sujeito mediante o estudo em prol do capital: o próprio capitalismo acabou esgotando essa opção. As últimas duas gerações, mais ou menos, realizaram o sonho de seus pais: estudaram! E adivinha? Em sua maioria, não enriqueceram…
Pois o enriquecimento, em grande parte, nada mais era além de uma promessa propagandística do meio capitalista para fazer a roda continuar girando. As exceções — sempre há exceções! — foram usadas para enganar a maioria.
Hoje, essas gerações recém-formadas ou testemunhas do estudo de seus pais, espectadoras de sujeitos autoexplorados em função dos diplomas com a finalidade de enriquecer e fracassando nisso, têm — quem diria? — um pé atrás com o estudo.
Mas o capitalismo vai se renovando. Agora, a autoexploração está nas redes sociais, na tentativa de ganhar dinheiro pela internet e, principalmente, em ser empreendedor, empresário, autônomo. Algumas gerações adiante e, quem sabe, vamos todos implorar para voltar a ser CLT — ou algo parecido…
Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site a crônica “Um prédio de cem andares”: www.neipies.com/o-predio-de-cem-andares/
Edição: A. R.










