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Os discípulos de Shockley

Os pais podem transmitir mais do que seus genes aos filhos. Incluem-se valores morais. Banir a ideia de que algumas raças são, definitivamente, melhores e mais inteligentes do que outras, seria um bom começo.

Difícil imaginar (ou nem tanto, pois deixou discípulos aplicados) como alguém que foi agraciado com um Prêmio Nobel pôde expressar ou defender ideias tão estapafúrdias ou indefensáveis como as professadas por William Bradford Shockley (1910-1989). Pois esse renomado cientista e empreendedor, que recebeu o Nobel de Física em 1956 pela coinvenção do transistor, e cujas empresas que ajudou a fundar para a exploração dos semicondutores formaram o núcleo básico do que se tonou o Vale do Silício, também se prestou, nos anos 1960 e 1970, a liderar uma cruzada para prevenir a redução da inteligência nacional americana, que ele via como ameaça iminente pela miscigenação racial nos EUA.

Shockley defendia teses eugênicas por natureza.

Naqueles tempos, a taxa de natalidade dos negros americanos era mais alta do que a dos brancos e, segundo ele, a persistência dessa tendência levaria à diminuição do QI médio dos EUA. Então, acreditando piamente nisso, ele imaginou que a solução seria oferecer um prêmio de cinco mil dólares às mulheres negras que concordassem em ser esterilizadas.

E para ajudar nesse tipo de absurdo, essas ideias foram encontrar eco num artigo publicado em 1969 na prestigiada revista Harvard Educational Review, por Arthur Jensen (1923-2012), professor da área de Educação em Berkeley. O que Jensen afirmava era que a inteligência padrão dos negros nos EUA, pelo teste de QI, era muito menor do que a dos brancos. E completava, por ser a hereditariedade do QI muita alta, essa diferença entre brancos e negros seria genética. Acrescentando, absurdo dos absurdos, pelo pressuposto do comportamento genético não ser mudado pelo meio, que a esperança de alteração nessa lamentável diferença seria praticamente nula.

Desnecessário dizer que Arthur Jensen e William Shockley foram (e são) ouvidos por muita gente nos EUA e mundo afora. Mas algumas vozes contrárias também se levantaram.

Luigi Luca Cavalli-Sforza (1922-2018), especialista em genética de populações e vinculado ao Departamento de Genética da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, foi uma das mais destacadas.

Luca Cavalli-Sforza, sem muito esforço mas com dificuldade para convencer os mais sectários, demonstrou que a falta de compreensão genética de Jansen e Shockley e seus asseclas era gritante. E que essa fragilidade seria a responsável pelos erros graves cometidos por eles. Além disso, no início dos anos 1970, Richard Herrnstein (1930-1994), professor de psicologia em Harvard, publicou um estudo demonstrando que as diferenças de QI entre classes sociais eram de duas a três vezes maiores do que entre brancos e negros.

A discussão, aparentemente, amainou nos meios acadêmicos até retornar, em 1994, com a publicação do livro The bell curve (A curva normal), da lavra de Richard Herrnstein & Charles Murray, ressuscitando as velhas e surradas ideias racistas. Muitas das teses desse livro foram e ainda são adotadas e defendidas pelos conservadores extremistas nos EUA.

O livro é bem escrito, busca a persuasão do leitor e exagera no uso de correlações (associações que não são relações de causa e efeito) para demonstrar que o QI dos pais importa mais do que a condição socioeconômica. Mas Herrnstein & Murray não insistiram que a diferença de QI entre brancos e negros seria genética. Ainda que, sutilmente, tenham defendido a mesma tese, ao alegarem que, pelo fato do QI ser tão hereditário, é “provável” que a diferença seja genética.

Luca Cavalli-Sforza defendia que a hereditariedade do QI estaria mais próxima dos 30% e não dos 60%, como referido por Herrnstein & Murray. Há que se considerar, segundo ele, no tocante à inteligência pessoal, que, além da hereditariedade genética, há uma parcela relacionada com a hereditariedade cultural (transmissão ao longo de gerações) e outra ligada a fatores individuais.

Os pais podem transmitir mais do que seus genes aos filhos. Incluem-se valores morais. Banir a ideia de que algumas raças são, definitivamente, melhores e mais inteligentes do que outras, seria um bom começo.

(Do livro Ah! Essa estranha instituição chamada ciência, 2021.)

Autor: Gilberto Cunha autor da crônica

“O debate ciência versus religião”:https://www.neipies.com/o-debate-ciencia-versus-religiao/

Edição: A.R.

Os homens são como os vinhos

Os Homens são como os vinhos: “a idade azeda os maus e apura os bons”. Será que Cícero tem razão?

Eu acredito que todo ser humano pode passar por grandes transformações. Nesse sentido, eu discordaria de Cícero. Ao mesmo tempo, Cícero também tem razão.

Acredito na humanidade e por isso acredito na possibilidade de transformações, mas é preciso estar sempre vigilante, buscar sempre saber as reais motivações das pessoas por trás de suas ações para saber se é vinho bom ou vinho mau.

Do ponto de vista geral, nas relações da sociedade, o tempo mostra que aqueles que praticam o bem e se envolvem em projetos de desenvolvimento social, ambiental, cultural… cada vez mais vão se aprofundando em boas ações. É simples de observar, aqueles que ajudam nas comunidades permanecem ajudando até que uma intempérie ou a saúde lhe impossibilitar. De outro lado, têm aqueles que nunca ajudam em nada na sociedade e cada vez mais vão se tornando céticos em seu próprio egocentrismo.

Nas relações mais íntimas cuidado, muitas pessoas boas são enganadas em sua inocência por pessoas carregadas de malícias e sem nenhum compromisso.

Quando você mais precisar e menos espera, as pessoas que você acredita que gostavam de ti, podem te deixar de mãos abanando com uma mão na frente e outra atrás… na hora que eles precisarem vão te sorrir e lhe ludibriar, mas, quando você precisar, provavelmente terão desculpas…

Preste atenção nas suas relações, inclusive naquelas pessoas que parecem ser boas… na dúvida, pense sempre em primeiro lugar em você mesmo e depois em quem já provou no tempo que não te abandonaria por nada.

Autor: Rudimar Barea, autor da crônica “Sobre amizade e sobre a soberba”.https://www.neipies.com/sobre-a-amizade-e-sobre-soberba/

Edição: A.R.

Quando morre uma Mãe

De nada adianta falar que jamais a esqueceremos uma vez que levou junto a si parte de nós, pois que a pertencia, desde sempre, desde o primeiro grito, e então um pedaço de nós arrancou.

Quando uma Mãe vai embora, não se engane, nunca fale que será melhor descansar, que assim… que partiu sem sofrer…

Quando morre uma Mãe, morre-se junto, não por completo, em seu todo. Morre-se sim, em parte, em partes, perde-se pelo menos o cordão, que foi seu, pela metade, e nosso, pela ponte da vida que nos tornou iguais.

Quando morre uma Mãe, a parte que tínhamos em seu ventre vai embora.  Não seremos jamais como éramos.  Não temos agora a quem pedir para voltar, porque de sua parte nascemos e quando pedíamos para voltar ao seu ventre, não nos ouvia, mas, ria.

Fechou-se finalmente nossa porta de entrada neste mundo e para o qual não temos mais saída.  Palavras não consolam, porque uma pequena morte ocorreu em nós, nesta fugidia vida que um dia pertenceu a ela.

Quando morre uma Mãe, somos finalmente jogados ao exílio, agora somos expatriados porque nossa mensageira, que nos trouxe um dia, partiu para sempre. Exilados, começaremos na manhã seguinte a pensar quanto tempo nos falta para reencontrarmos, agora que ficamos sem sua proteção, sem a sua mão, sem seu útero por perto, nosso casulo que um dia pensamos retornar. 

Nada mais importa, somos enfim jogados no mundo descalços para o frio, famintos de seios que nunca mais nos alimentarão.  Abandonados na esteira do acaso, aguardando as sombras que caminham lado a lado em uma enfermaria qualquer, em nossa direção.

Quando morre uma Mãe, morre a razão de nossa chegada, por que nada mais vai nos aquecer, nada vai nos proteger, e o mundo que nos é apresentado, sem a sua presença, é um palco de gritos e choros incontidos. 

Já que partiu, levou consigo o que lhe pertencia de fato, o elo que nos ligava no despertar para a luz.  Apagou-se, foi-se embora quem nos deu a estrada, foi-se, igualmente, sem vida, quem nos defendeu da morte. Sempre soubemos que ela iria, um dia.  Mas não queríamos pensar em ficarmos.

Quando morre uma Mãe, ficamos cúmplices de um mundo errante, nossos laços proibidos não os dividiremos com ninguém, agora em que ficou escuro novamente.  Porque não aqueceu como o era, antes de nascermos.  Agora está frio, está muito claro lá fora, será preciso comer sozinho, beber desilusões. Teremos de caminhar com nossas próprias pernas, agora e sempre, porque a imagem de carona no seu ventre protegido acabou e teremos de viver como estranhos neste mundo de lágrimas e banhos gelados.

De nada adianta falar que jamais a esqueceremos uma vez que levou junto a si parte de nós, pois que a pertencia, desde sempre, desde o primeiro grito, e então um pedaço de nós arrancou. Nem será preciso pedir a uma Mãe que fique, porque nosso desejo será o de partir.  Agora teremos louças e panos pretos a secar.

Enfim, viveremos com o que resta de nós, até voltarmos à casa, sermos chamados por ela para que nos assentemos à mesa, impecável, onde o jantar será servido. Jantar para os que não esperam mais nada, então, em cadeiras vazias, em tapetes e gatos a encharcar-se de solidão.

Não deverá faltar muito Mãe!

Autor: Nelceu Alberto Zanatta, autor da crônica “Na solidão das livrarias” https://www.neipies.com/na-solidao-das-livrarias/

Edição: A.R.

Sete ajudas e sete desajudas das religiões

Reafirmo o quanto é mais enriquecedor viver em sociedades plurais, nas quais surgem as mais diversas formas de pensar, e como são empobrecedoras as sociedades singulares, nas quais temos de nos enquadrar a um único e intolerante modelo.

Inúmeras vezes, na função de médico psiquiatra e de professor de medicina, fui perguntado se as religiões ajudavam ou desajudavam na saúde e na qualidade de vida das pessoas. Por isso, e já faz tempo, coloquei no papel sete fatores positivos e sete negativos.

Faço parte daqueles que acreditam que as religiões tolerantes ajudam, e que as religiões intolerantes desajudam.

Religiões tolerantes ajudam ao oferecer às pessoas:

1. Rede de apoio social.

2. Alívio da sensação de solidão pelo pertencimento a um grupo.

3. Reforço, para aqueles que assim desejam, da sensação de estar protegido por um ser superior.

4. Comportamentos saudáveis em relação ao uso de álcool e outras drogas.

5. Um sentido para o sofrimento e para a morte.

6. Rituais para superar lutos por perdas vitais de familiares e amigos.

7. Ideias de solidariedade, amor ao próximo e tolerância.

Religiões intolerantes desajudam ao incentivar:

1. Ideias sectárias de superioridade do próprio grupo e de inferioridade dos demais.

2. Preconceitos e discriminações que dividem a sociedade de forma maniqueísta entre bons/certos e maus/errados.

3. A rejeição a pessoas homoafetivas, mesmo se desejosos de participar da vida religiosa.

4. O acobertamento de práticas criminosas produzidas por seus membros, como o caso da pedofilia e da exploração financeira.

5. Práticas rituais emocionalmente muito fortes que podem desencadear surtos psicóticos.

6. Condutas morais inatingíveis, que geram comportamentos hipócritas.

7. O combate à laicidade, que assegura a separação entre o Estado e a Igreja, garantindo a proteção de se crer em outras religiões, no agnosticismo e no ateísmo.

Finalizo reafirmando o quanto é mais enriquecedor viver em sociedades plurais, nas quais surgem as mais diversas formas de pensar, e como são empobrecedoras as sociedades singulares, nas quais temos de nos enquadrar a um único e intolerante modelo.

Autor: Jorge Alberto Salton

Edição: A.R.

A tragédia ambiental nossa de cada dia

 (27 de julho de 2023, quinta-feira)

Recado do secretário-geral das Nações Unidas, depois de o serviço meteorológico europeu ter registrado, nas três primeiras semanas de julho, as temperaturas mais quentes da história

do Velho Mundo: “As mudanças climáticas estão aqui. É aterrorizante. E é apenas o começo”. O planeta entrou na era da “fervura global”.

Nesse momento de mudança climática, num mundo cada vez mais quente e cheio de riscos, dada a carga pesada que impomos ao planeta, consta no Relatório da Plataforma Intergovernamental Sobre a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos, IPBES, que “os ecossistemas, as espécies, a população selvagem, as variedades locais e as raças de plantas e animais domésticos estão se reduzindo, deteriorando ou desaparecendo. A essencial e interconectada rede de vida na Terra se retrai e está cada vez mais desgastada”.1

Ponto delicado, “os ecossistemas do mundo enfrentam ameaças sem precedentes”, sentenciou Antonio Gutierrez, secretário-Geral da ONU, em mensagem datada de maio de 2019. Decerto, as consequências são de longo alcance, prejudicando, entre outros, e de forma severa, a segurança alimentar. Não por acaso, a mudança climática das últimas décadas já causou uma queda de 4% a 5% na produção mundial de trigo e milho em relação a 1980.2

Seja como for, na base de significativo declínio da natureza, uma série de impasses (da crescente emissão de dióxido de carbono à mais avassaladora produção de plásticos; da invasão de habitats selvagens à constante poluição do ar, da água, do solo; da mortalidade ininterrupta de árvores ao aumento do nível do mar) atravessa nossa realidade cotidiana, e traz a certeza de que a nossa espécie, de um jeito ou de outro, e pouco importa o jeito, se especializou em gerar saldo ecológico negativo.

Sob esse sentimento, exploração do globo – fruto dos danos do industrialismo -, consolidando o modo capitalista de produção, talvez seja, à primeira vista, o nome mais adequado para isso. Pelo sim, pelo não, somente a degradação da terra, cabe reparar, afeta 40% da população mundial.

No entanto, a coisa toda é bem mais séria. De acordo com o Relatório de Riscos Globais 20233, tudo leva a crer que todos (vale aqui o grifo) os riscos planetários mais importantes são ambientais, e muitas das mudanças climáticas, nessa mesma sequência, são irreversíveis. Ainda assim, a crítica é pertinente: por conta de nossos excessos, chegamos até aqui afetando a biodiversidade (nosso suporte vital), a preservação dos biomas, os habitats e o ciclo de nutrientes.

Não obstante a isso, cada vez mais, pelo modo de vida ocidental, fazemos o planeta arder. Conceito amplo, “não estamos indo ao encontro do aquecimento global e da mudança de regime climático. Já estamos dentro”,4 assinala Leonardo Boff.  De forma semelhante, Alberto Acosta, economista equatoriano, chama-nos a atenção ao dizer que “não é mudança climática, é colapso climático”.5

Em palavras realistas, enquanto os tecnocratas debatem se o crescimento verde (fisicamente impossível) nos legará um mundo ecologicamente sustentável, e se com mais tecnologia é possível acelerar a produção e levantar uma economia sem limites, os homens e suas ações, longe de qualquer sinal de pausa e voltados a justificar a concepção moderna de mundo desenvolvido, seguem dando provas contundentes de como afrontar os ciclos ecológicos do planeta – o ciclo da água, do carbono, do oxigênio, do nitrogênio.

De resto, no ponto ecologicamente insustentável de agora, próximos dos limites planetários, aumentam os perigos que a natureza enfrenta devido as mudanças do clima, seja pelo nosso comportamento antropocêntrico dominador, pelas crescentes práticas de produção ou mesmo, e isso está longe de ser assunto comum, por conta das 36,6 bilhões de toneladas de CO² (GtCO²) que mandamos para a atmosfera.

Dolorosa consciência, não há mais como esconder: somos agora mesmo ameaçados pelas consequências globais do agir humano sem compromisso com a causa ambiental.

Mais concretamente, pensando o modelo de modernidade conhecido, isto é, o atual “capitalismo de desastre” (expressão empregada pelo filósofo francês Mark Alizart), pesa-nos reconhecer que, enquanto respiramos a cultura de crescimento econômico (baseado no extrativismo de recursos e na expansão dos mercados, vale dizer, na maneira como temos medido a civilização), nenhuma área conhecida está a salvo das consequências de nossas ações produtoras de complexos problemas de degradação do planeta.

Ora, degradação do planeta, insistindo com o assunto, é a expressão mais forte de nossa negligência com a Natureza, eixo da vida, matriz de tudo. A partir dessa perspectiva, falamos aqui de ações que, sobretudo, geram distúrbios no meio ambiente. Ou impactos ecológicos (sempre numa escala global) decorrente da política de abundância material (cuja destruição dos recursos naturais, cada um sabe, faz parte dessa lógica) em tempos de modernidade industrial.

E no caso ainda de refinar-se a análise, tudo indica que não há mais como contestar a guerra do homem contra a natureza, expressa sobretudo na destruição ininterrupta dos ecossistemas do globo, empurrada, é claro, pela dinâmica capitalista.

Nesse mesmo tom, não é a primeira vez que os teóricos da ecologia afirmam com clareza suficiente que, na era dos humanos (na nossa condição!), há anos queimando carvão e petróleo e fazendo a economia girar com mais velocidade, seguimos marcando conflituoso relacionamento com o planeta vivo, a ponto de afetar os suportes à vida (solos, chuvas, aquíferos, rios, lagos, oceanos, polinizadores, perda do gelo marinho, diversidade biológica). Assim sendo, fica bem claro que o que estamos fazendo com – e contra – o planeta, nos condena.

De toda forma, sustentado pela ideologia neoliberal, não é de hoje que nosso poder de perturbar à biosfera se mescla à nossa irresponsabilidade ambiental. Que o digam os mais variados elementos de descompasso ambiental e climático.

Nessa direção, longe de esgotar o assunto, temperaturas em partes do Ártico estão até 20ºC mais altas que a média, como mostra o Arctic Resilience Report, relatório conduzido peloInstituto de Pesquisas Ambientais de Estocolmo. Já os oceanos, que desempenham papel crucial na regulação do clima, continuam com muito mais ácidos (redução de seu pH), alterando o equilíbrio nos mares e ameaçando os ecossistemas de recifes e a biodiversidade marinha. No sentido tradicional, para fechar aqui esse conteúdo, somos lembrados pelo conhecimento científico que 18 dos 31 ´sinais vitais´ do planeta, incluindo as emissões de gás com efeito estufa, a espessura das geleiras e o desmatamento, já alcançaram níveis recordes preocupantes.

Na origem dos fatos, importa muito notar com redobrada atenção, o Antropocentrismo dominador compromete de imediato duas realidades: o sistema- vida e o sistema-mundo.

De forma resumida, nessa tragédia ambiental nossa de cada dia, o que está em jogo, de fato, é o futuro da nossa própria existência e do nosso planeta. É esse o ponto mais delicado diante de nós.

A crise ambiental global é, antes de tudo, uma crise de valores que afeta sobremaneira a forma de pensar, agir e sentir da humanidade. Qualquer um com um mínimo de inteligência precisa perceber isso. Leia mais: https://www.neipies.com/terra-adoecida-humanidade-a-deriva/

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira

Edição: A.R.

Notas:

1. https://www.ipbes.net/global-assessment

2. LOBELL, D. B. et al. Climate trends and global crop production since 1980 [Tendências climáticas e produção agrícola global desde 1980]. Science, n. 333, p. 616-620, 2011.

3. https://www.zurich.com.br/pt-br/blog/articles/2023/01/global-risks-report-2023

4. https://www.brasildefato.com.br/2023/02/23/o-novo-normal-ameacador

5.https://www.ihu.unisinos.br/categorias/613515-nao-e-mudanca-climatica-e-colapso-climatico-entrevista-com-alberto-acosta

1824 – 2024 – duzentos anos da imigração alemã no Brasil

É preciso dizer que a imigração alemã trouxe muito progresso, com a sua arte, cultura e saberes técnicos, para os locais em que os alemães se fixaram. Eles são os fundadores de várias cidades importantes, nos estados do sul do Brasil.

Dias desses participei de uma discussão, em um site chamado “Blumenau Mil Grau”, sobre uma enquete feita no “Reddit”, cujo tema era: o que os alemães pensam sobre os descendentes sul-americanos? Para quem já teve a oportunidade de conhecer e vivenciar a Alemanha e a sua cultura na atualidade, nada de novo. Mas para quem vive no Brasil, se achando alemão, pelo fato de ter um sobrenome germânico, a discussão poderá propiciar uma interessante reflexão.

Inicialmente, para quebrar aquele paradigma dos “imigrantes agricultores”, que emigravam aos milhões da Europa fugindo das guerras ou da fome, para cultivar terras no Brasil. Comprovei em pesquisas feitas por mim, e por outros autores, que muitos alemães não eram agricultores. Alguns eram ferreiros, sapateiros, marceneiros, construtores, padeiros, alfaiates, tipógrafos, ou de outras diversas profissões da época.

Família Franken: histórias em dois continentes: As curiosidades do autor, transformaram-se em pesquisa e depois em um livro. Com o intuito de pesquisar sobre o sobrenome alemão Franken, a imigração alemã no Brasil e a vinda de sua família da Alemanha para o Brasil, levou o autor a pesquisar no Brasil e na Alemanha em diversas fontes. Leia mais: https://www.neipies.com/passo-fundense-divulga-dois-importantes-livros/

Meu bisavô Heinrich Franken, por exemplo, veio para o Brasil, a pedido do II Império, como mestre fundidor, (Stahlgusmeister). E tivemos até imigrantes alemães que se tornaram soldados mercenários e ajudaram a defender as divisas do Brasil, dos frequentes ataques espanhóis. Não sei por que se desenvolveu a ideia de que os imigrantes alemães, eram todos agricultores. E, também, por que os brasileiros acreditam que aquelas bandinhas da Baviera (Blasmusik) e seus trajes típicos, representam as músicas e vestimentas alemãs? Ledo engano!

A imigração alemã foi um projeto em larga escala e de longo prazo, patrocinado pelo governo brasileiro para povoação das terras. Em 1824, chegaram os primeiros 39 colonos alemães. Em 1850, com a proibição do tráfico de escravos, os programas para atrair imigrantes floresceram. Além do que, a vinda de imigrantes europeus brancos corroborava com a ideia racista da elite dominante, de que era preciso “clarear” a população brasileira, formada em parte por índios e negros. Nessa mistura de vontades, interesses, disposições e necessidades, de dois povos distintos e distantes, muitas coisas aconteceram e uniram brasileiros e alemães.

É preciso dizer que a imigração alemã trouxe muito progresso, com a sua arte, cultura e saberes técnicos, para os locais em que os alemães se fixaram. Eles são os fundadores de várias cidades importantes, nos estados do sul do Brasil.

Vários de seus descendentes transformaram-se em políticos, cientistas, industriais, comerciantes e intelectuais de renome. Eles também fundaram por aqui inúmeras associações, educandários, clubes sociais, esportivos e recreativos, empresas e jornais. É inegável a influência positiva da imigração alemã na formação do povo brasileiro.

Porém, acho instigante voltar aos dias atuais, para nos olharmos como descendentes de alemães e perguntar: o que sabemos dos alemães e da Alemanha atual? Então voltarei a enquete que participei, sobre as respostas dos alemães no “Reddit”. A pergunta era se os alemães sabiam da existência de uma cultura alemã no Brasil.

Muitos alemães que já visitaram o Brasil se manifestaram dizendo que sim. Blumenau foi a cidade mais citada por eles, mencionando-a positivamente pela “Oktoberfest” e pela sua arquitetura. Entretanto, todos os alemães participantes que tiveram contato com a cultura alemã no Brasil, afirmam que existem muitos estereótipos, variando entre “isso é muito engraçado” e “isso é bem racista”.

Eles acreditam que alguns descendentes mantiveram aspectos negativos da cultura alemã como, por exemplo, achar que apenas pessoas loiras são alemãs. Faz tempo que comentários desse tipo são altamente reprováveis por lá. Ficam indignados ao ver brasileiros com ascendência alemã, sentindo-se superiores aos das outras etnias. E acreditam que essas pessoas estão culturalmente distantes do que a Alemanha realmente representa atualmente. Devido à desconexão com a Alemanha atual, não enxergam os brasileiros de origem alemã, como parte do povo germânico.

Em conclusão, os alemães acreditam que esses brasileiros possuem uma concepção da Alemanha e do seu povo, baseada em línguas e estereótipos antigos. Pois eles têm orgulho de sua cultura atual, com aspectos muito diferentes daqueles do passado e gostariam de compartilhá-la com os brasileiros.

Em cem, duzentos anos, dá muito tempo para construir e desconstruir ideias, costumes, tradições e até mesmo a língua, que se transforma, junto aos avanços tecnológicos. Para além do “Jus Sanguinis”, ficou um legado importante da vinda dos imigrantes alemães: a amizade, a cooperação e a fraternidade, que de longa data os dois países e seus povos cultivam. E assim, comemoraremos os 200 anos da imigração alemã. Pois, a riqueza do nosso povo é ter recebido a influência de tantas culturas, para nos tornarmos um povo singular e multifacetado, que ainda hoje forja a sua própria identidade.

Meu bisavô: Heinrich Franken, nascido em 1841, em Düsseldorf/Alemanha.

 Minha neta: Isadora Loss Franken, nascida em 2013, em Passo Fundo.

Autor: Rubens Mário dos Santos Franken

Edição: A.R.

A terra não é plana e está em movimento

Essa mentalidade obscurantista é perversa e doentia, pois quanto mais as pessoas desacreditarem na ciência e na organização racional da vida em sociedade, mais estarão propensas a se tornarem subservientes ao poder autoritário e às formas cruéis de dominação que geram medo e desespero na coletividade.

Em tempos de Fake News, de certos bípedes que se autoproclamam “cidadãos de bem”, que defendem o indefensável, que elegem como mito um personagem patético genocida, que destilam ódio pelas redes sociais e que atacam perversamente quem pensa diferente, torna-se sensato pensar defender a ciência e sua importância para evitar a barbárie e salvaguardar a civilidade. Digo isso porque estes mesmos bípedes que durante a pandemia foram contra a vacina e as evidências científicas, se colocaram contra os avanços da ciência e chegaram a proclamar o absurdo do terraplanismo.

Na minha avaliação tais manifestações, além de serem absurdas e criminosas, são espelhamento de uma mentalidade obscurantista que enganou e continua enganando os ingênuos, confunde os indecisos e instaura o caos da irracionalidade que só beneficia os poderosos, os donos do poder, os truculentos, os oportunistas e detentores do capital.

Essa mentalidade obscurantista é perversa e doentia, pois quanto mais as pessoas desacreditarem na ciência e na organização racional da vida em sociedade, mais estarão propensas a se tornarem subservientes ao poder autoritário e às formas cruéis de dominação que geram medo e desespero na coletividade.

Historicamente, um dos grandes pensadores que lutou contra essa mentalidade obscurantista foi o italiano Galileu Galilei (1564-1642). Seu nome certamente é lembrado quando se fala em Ciência Moderna: tornou-se o criador da física moderna, quando anunciou as leis fundamentais do movimento; foi considerado um dos maiores astrônomos de todos os tempos, pelas observações que fez com o telescópio que ele mesmo criou; e tornou-se um dos mais importantes inventores do método científico moderno pela forma como passou a abordar os fenômenos da natureza. Por tudo o que representou em termos de ciência e de filosofia, de forma justa, Galileu Galilei é considerado um dos pais da Ciência Moderna.

Galileu Galilei nasceu na cidade de Pisa/Itália, num período de profundas e importantes transformações. Depois de fazer seus estudos iniciais, frequentou durante um tempo um monastério como noviço. Depois de sair do monastério, dedicou-se por um tempo aos estudos de medicina, mas logo foi atraído pela matemática, a partir dos estudos de Euclides e Arquimedes, dedicando-se principalmente ao estudo de problemas de balística, hidráulica e mecânica. Seu zelo pela investigação e suas descobertas no campo das matemáticas possibilitaram que em 1592 fosse nomeado catedrático de Matemática na Universidade de Pádua, onde continuou seus estudos em física, desenvolvendo suas concepções sobre geometrização desta área de investigação.

O zelo pelo método científico fez com Galileu estabelecesse alguns princípios que continuam válidos até hoje.

O primeiro princípio do método é a observação dos fenômenos, tais como eles ocorrem, sem que o cientista se deixe perturbar por preconceitos extra-científicos, de natureza religiosa ou filosófica.

O segundo princípio consiste na experimentação, ou seja, nenhuma afirmação sobre fenômenos naturais pode ser aceita sem que haja uma verificação de sua legitimidade através da produção do fenômeno em determinadas circunstâncias.

O terceiro princípio estabelece que o correto conhecimento da natureza exige que se descubra sua regularidade matemática e com isso é possível prever certos fenômenos que ocorrem na natureza. Com tais princípios, Galileu possibilitou uma nova visão da natureza e dos fenômenos naturais, pois para ele “o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos” e sem o conhecimento de tais caracteres, “os homens não poderão compreendê-lo”.

Galileu foi um defensor da teoria de Copérnico de que a terra está em movimento e gira ao redor do sol. Tal teoria havia levado Nicolau Copérnico a fogueira. Galileu também foi denunciado, julgado e condenado por defender tal teoria. Para não ser queimado na fogueira, em junho de 1633, aos 70 anos, foi obrigado a ajoelhar-se diante do Tribunal da Inquisição, em Roma, e a abjurar a teoria copernicana.

Em 1992, passados 360 anos do julgamento de Galileu, com profunda humildade o Papa João Paulo II revogou oficialmente sua condenação, dizendo que era necessário “remover as barreiras, ainda incitadas em muitas mentes pelo episódio Galileu, que possam obstruir uma relação frutífera entre ciência e fé”.

O gesto do Papa sobre o caso Galileu certamente deveria servir de inspiração para que possamos pensar e olhar para os acontecimentos do presente com menos preconceitos, ódio, rancor e cegueira moral. É a capacidade de pensar que nos possibilita uma convivência mais amigável e produtiva com o conhecimento científico e que este nos ajude a sermos seres humanos melhores, livres de notícias falsas (Fake News) que circulam irresponsavelmente pelas redes sociais e que ameaçam o surgimento de um novo obscurantismo em pleno século XXI.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: A.R.

Educador: uma vocação em extinção?

Se nós professores e professoras não tomarmos nas mãos nossa profissão, não nos ocuparmos dela, não lutarmos por ela estaremos fadados à eucaliptos. Bonitos, enfileirados e prontos para o corte.

Hoje poderia ser um dia como qualquer outro, mas não é. Hoje foi um daqueles dias que mexe com a gente. As notícias de ataque da autoridade à carreira profissional e os sinais de desvalorização aos professores trazem tristeza, frustração e indignação.

Ao mesmo tempo, recebo no corredor um desenho de um aluno-educando. Aluno-educando pois está em virtuoso processo de “o sem luz” para o processo do “educere” trazer a luz. Ele me fez refletir o quanto faz um professor, a responsabilidade que nos cabe e a vastidão do que operamos.

Pisar e frequentar o chão da sala de aula de uma escola pública de educação básica é para poucos. Um reino a parte. Neste micro espaço de metros quadrados vive gente, vivem sonhos, vive o futuro.

Minha mente fervilhava entre uma aula e outra, uma explicação e outra, uma avaliação para encaminhar, uma turma e outra… e eu pensava no ser professor.

Rubens Alves tem um texto curto mas muito significativo. Fala do professor-eucalipto e do educador-jequitibá. Eucalipto e Jequitibá não é tudo árvore? Tem diferença?

Assista ao vídeo: https://youtu.be/_lDogg4j5qU?t=6

Professor-eucalipto aquele das cifras, enfileirados em posição de sentido, padronizados. Preparados para o corte. São entidades descartáveis, sai um já cresce depressa o outro. Substitui. Se analisa o custo. Educador envolve vocação, envolve dedicação amorosa (não estou falando que amor paga conta) envolve grande esperança.

O educador-jequitibá tem personalidade, tem alma, que sente o que ninguém sentiu. É artesanal, é unico, tem paixões, visões, tem liberdade. O que aconteceu com ele? Existirá o nicho ecológico que torna possível sua existência? Será que alguém lhe concede a palavra?

Estão lentamente derrubando a floresta, derrubando árvores e, em seu lugar, querem eucaliptos.

Pois no final da manhã me vem o Pedro com essa chave do céu e me trouxe um alento. Ele me entrega um desenho e me faz perceber que é preciso vir de dentro.

Se nós professores não tomarmos nas mãos nossa profissão, não nos ocuparmos dela, não lutarmos por ela estaremos fadados à eucaliptos. Bonitos, enfileirados e prontos para o corte.

O VIII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo ocorrerá no dia 30 de agosto, no Centro de Eventos do Campus I da Universidade de Passo Fundo (UPF). O tema desta edição será “Magistério: uma carreira em extinção?”.

No turno da manhã, o horário será das 8h às 11h30min e terá como palestrantes a Vereadora Professora Regina Costa dos Santos e o psicanalista Dr. Francisco dos Santos Filho. ⏰ No turno da tarde, o horário será das 13h15min às 17h30min e terá como palestrantes um representante do Sindicato dos Professores Municipais de Santa Maria e o professor Dr. Altair Alberto Fávero. Ambos os turnos contarão com a mediação do professor Nei Alberto Pies.

Pré-Congresso 2023!

“Magistério: uma carreira em extinção?”. O tema do VIII Congresso dos Professores Municipais foi debatido na noite desta quarta-feira (16) durante o Pré-Congresso, ocorrido na sede do CMP Sindicato, que contou com a participação do advogado da entidade, Dr. Henrique Cullmann.

No encontro, os professores puderam discutir questões de valorização dos educadores, como a Lei do Piso Nacional do Magistério, além de refletir sobre as causas da desvalorização, ocasionada pelos constantes ataques sofridos pela educação.

Um dos principais assuntos debatidos foi a atual reforma administrativa proposta pela administração municipal ao legislativo, que impacta negativamente os docentes no seu plano de carreira, como no caso das progressões dos futuros professores. O Sindicato prontamente posiciona-se contrário ao projeto e informa que tomará ações de defesa dos direitos dos nossos educadores.

Autora: Márcia Carbonari, professora da educação básica, formada em história.

Edição: A.R.

Um pátio para o resto de nossas vidas

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Que ao pátio de nossos primeiros anos possamos retornar, não importando agora por quais hinos cantar. Pensando no IE (Instituto Educacional de Passo Fundo), salvando todos, salvei a mim mesmo.

Como foi difícil deixar o IE.* Não havia mais nada para fazer ali. No entanto, queria morar em suas salas, levar minhas coisas para viver em seus corredores, poder escolher uma sala como dormitório. Um corredor para cada dia, uma classe para cada noite. Mas não era mais possível, as aulas terminaram, os degraus do Curso Ginasial se encerravam e o que me restava… talvez fugir. Embora fugindo, arrastei os atores, todos comigo.

Meus passos em direção à praça em logo frente foram trôpegos, sem vontade, desde que recebi meu boletim de aprovação. Fui aprovado com ressalvas e vários conselhos. A matemática teimava em me enganar. A química, em me trair. Saí contrariado porque o motivo de minha vida em seus 19 anos estava por se extinguir na escola, pelo menos naquela hora. Um banco de praça me serviu de companhia, enquanto eu olhava para trás e via as últimas janelas do IE sendo fechadas. O prédio se trancando e eu prisioneiro em uma praça.

Em seu pátio estávamos todos em fila, a fila diária, por ordem de altura e que nos ensinou, pelo resto de nossas vidas, o tamanho do nosso próximo mais próximo e que na vida haveria espera para quase tudo.

E então… entrávamos para as salas de aulas pelos fundos. Do enorme átrio em que se edificavam a ordem das coisas em nosso mundo, subíamos para as salas, andar por andar, passando pelos rígidos olhares dos professores, pelas escadas de degraus curtos, entre risos miúdos e pequenas censuras.

Salve Instituto, sempre impoluto… já havíamos cantado. Parte do Evangelho já havíamos lido, então, estávamos prontos para nosso recomeço diário.

Assim era o universo para nossas mentes, em uma Passo Fundo de muitas casas, e de 6 prédios apenas, de calçadas enormes, de uma Escola imponente que se opunha nossas alturas, nós adolescentes em profusão, espantados com a obra colossal do IE, das construções em sua volta e da arte expressa em suas colunas.

Este mundo era grandioso demais para que deixássemos de frequentar, somente porque os anos do ginásio sumiam de nossa frente. O último dia, no prédio, foi assim mesmo. Um misto de desespero pela página que se virava, um pouco de alívio pela pressão por liberdade, um sossego mental em não ter de entoar orações e hinos, agora não mais todos os dias. E sem saber, claro, que depois sentiríamos sua falta por anos e anos…

E o banco da praça da avenida me acolheu, quando olhei pela última vez a escadaria, uma entrada proibida, onde raramente se tinha acesso. Talvez por se tratar de degraus de professores, direção, autoridades, que poderiam até se confundir com alguns pais reclamando por seus filhos reprovados, saindo dali lendo seus boletins recheados de insuficiências, mesmo com promessas para um próximo ano melhor, a repetir, que seja.

Sim, a entrada era proibida, apenas alguns degraus, era a entrada triunfal. Mas quem sentia falta? Os fundos da escola foram exatamente o rascunho de uma vida de independência que estava se avizinhando, sem os mesmos colegas, pena, os pilares de nossa infância, sem os professores amarrados aos seus credos, sem a ordem litúrgica, diária, cruel e tão indispensável para aqueles dias.

Ficaram para trás os tambores da banda organizada, impecável. Que sempre nos remetia a uma cidade americana, sim, nós, que até nos uniformes nos espelhávamos um pouco no país dos fundadores. As fotos dos alunos dispersos pela sua secretaria e um pátio onde o centro do mundo ecoava, a família de fato, nos olhares e intenções, nos amigos e nos pequenos desafetos, nosso começo de caminhada, nossos primeiros valores.

O IE foi tudo para uma geração, mais. Foi a formação de todos os valores que trouxemos pela vida, para o bem ou para menos que isso. As filas aquarteladas nos lembravam que a vida fora de seu pátio nos exigiria paciência, respeito. A educação, com seu rigor e sua ética como que se nos falava em tempos menos nobres pela frente. O horror de um boletim manchado muito nos dizia sobre os méritos a enfrentar, sobre a vontade contínua em aprender, ou então, as nuvens da reprovação. Não teríamos sempre, afinal, notas ou céus azuis pela frente.

De nossas amizades, aprendemos que os fundamentos de nossa existência estavam nos primeiros anos neste Ginásio. Foi ali que o concreto em nossas construções foi derramado e sobre ele é que desenhamos a forma de nossas carreiras, conquistas e demais ilusões, agora na distância dos que partiram ou na rotina dos que ficaram. A riqueza ou a escassez de cada um, pode ter sido lançada nestes dias e, mesmo aos mais céticos, nestes anos ingênuos e de descobertas impressionantes, ali mesmo foi onde encontramos o sentido para toda a vida.

Quanto mais seguimos adiante, parece que mais nos aproximamos do pátio de nossa adolescência. Nossas vidas têm poucas escolhas quando se trata de memórias cristalizadas, que jamais nos deixarão. Mesmo contra nossa vontade, será para o pátio de nossa escola que apoiaremos nossos melhores dias, sem percebermos, em dias e anos, nessa edificação que não paramos de construir e a que chamamos de tempo.

No banco solitário da praça em frente, perguntava às pedras que serviam de álibis, como viver agora, sem a sisudez do Prof. Arno, o rigor do ‘Casquinha’, sem a sinceridade do Norton, sem a ajuda cartesiana do professor Renato, sem as travessuras do Fausto…sem tantos, tantos e tantos a citar.

Preciso voltar nem que seja para dizer bom dia, a quem estiver por perto. Para assistir ao menos a uma nova aula, enfadonha e essencial, para expiar pelas janelas do IE e descobrir como andavam as pessoas pela praça, estas mesmas que pertenciam ao outro lado do mundo. Sem os sinos, que não sei de onde anunciavam o meio-dia. E preciso de mais. Das manhãs de geada, das salas frias do ‘redondão’, das aulas intermináveis no laboratório, do curioso e inquieto Jacob.

Ver os amigos em uma partida de vôlei, a paciência da Prof. Ana Maria, o Prof. Osvaldo Reis, a querida Bere, o rigor do início de carreira do Gilles, a inteligência da Prof. Lourdes. E o bumbo da banda sendo tocado e trocado pelo Kiko Paiva? Preciso rever as milhares de partículas de lembranças deixadas para trás. O Foguinho, o Cláudio Nelson, meu Deus, quantos!

E o que lembrar da Walkíria, inesquecível, como esquecer, impossível! Um anjo que se disfarçou de aluna para não impressionar com sua beleza, arrebatando em vida os que a cercavam. Ela mesma que esquecia suas asas em casa para não nos machucar.

E o que falar das tardes frias nas escadas do IE, vitimados por um vento implacável que soprava pelo Boqueirão, do salão aos fundos do pátio em que se ensaiava o teatro e as gincanas das turmas, suas cadeiras em madeira, como se ali fosse um cinema local.

E o que dizer sobre os desfiles de 7 de setembro, as fileiras impecáveis de uniformes pela Av. Brasil… os nervos expostos nos dias que antecediam as provas, os primeiros amigos…os primeiros namoros… as primeiras perdas.

E o que mais lembrar do prédio no antigo internato. Ali mesmo, o Daniel e eu, os dois últimos internados, desta vez por opção.

Recentemente, quando a Vila Elisabeth veio abaixo, a casa dos Reitores, algumas fissuras sob o nosso chão, onde pisávamos sobre os primeiros sonhos, ficaram expostas. O barulho infernal das máquinas destruindo o que foi o nosso palco, operavam como que arrancassem um pedaço de nossas memórias. Quantos reitores que ali moraram e partiram não juraram vingança!

Mas, enfim, fiz um acordo de saída, na praça mesmo. Não volto não. Ninguém estará lá. Falava-se que novos tempos viriam, um novo segundo grau… então acabou.

Se não é mais possível caminhar em seu entorno, resolvi levar todos comigo, para sempre, pelos anos, até o fim. Os que me enfeitiçaram pela educação e ainda os alquimistas de 18 anos que, comigo, achavam que poderiam salvar o mundo. Pensando no IE, salvando todos, salvei a mim mesmo.

Que ao pátio de nossos primeiros anos possamos retornar, não importando agora por quais hinos cantar. Na memória de seu espaço, aprendemos ali, na razão daqueles dias, a vida em seu despertar, sendo todos nós filhos das manhãs longas e frias de Passo Fundo, que aos poucos diminuíam aos nossos olhos, agora crescidos e tão melancólicos.

* Instituto Educacional de Passo Fundo, Escola Metodista centenária, que formou centenas e centenas de alunos na cidade e região.

Fotos: fachada e corredor interno: Diogo Zanatta.

Autor: Nelceu Alberto Zanatta

Edição: A.R.

O trabalho com a escrita no sistema prisional: (uma experiência de voo)

Vamos sendo conduzidos pelo vento das descobertas e das confirmações, como gaiolas abertas, que nos permitem cair no vazio das incertezas, que só a leitura e a escritura proporcionam, e voar para longe, num voo desconcertante e belo, de imensa liberdade, mesmo na rigidez das cores de chumbo e do cheiro acre da prisão.

Considerando que o papel da educação no sistema prisional seja o de exclusivamente ajudar a pessoa privada de liberdade a desenvolver habilidades e capacidades para estar em melhores condições de conquistar as oportunidades socialmente criadas ao ser inserida novamente na sociedade, iniciamos, há algum tempo, numa unidade prisional de Canoas, no RS, uma prática que denominamos oficinas de criação textual. Tais práticas ensejam, através um recorte de habilidade e ousadia – a Escrita, a construção de instrumentos para que as condições anteriormente citadas sejam otimizadas.

Sob outra perspectiva, no entanto, para além desse objetivo (constitutivo inclusive de leis e portarias), nosso olhar repousa sobre a pessoa e não sobre um número ou uma categoria, como muitas vezes o/a privadao/a de liberdade é referido/a.

Se, de um lado, o homem ou a mulher privados e privadas de liberdade tendem a ser sumariamente obscurecidos e obscurecidas por instâncias sociais as quais geralmente só tem olhos para os fatos imediatamente compatibilizados com seus interesses e para experiências adjacentes, de outro, podemos dizer que, de nossa experiência dialógica com os privados de liberdade, em que “promover, defender, amar e servir a vida” (Pastoral Carcerária da Igreja Católica – Missão) se concretiza como objetivo primeiro,  surge a inquietação proveniente de nosso comprometimento com tais pessoas. Tal comprometimento não se limita à “visita”, uma vez que nosso compromisso também se alinha com as questões que envolvem as causas e as consequências das realidades prisionais.

Dessa forma, buscaram-se estratégias para desenvolver as Oficinas que levassem os participantes a construírem-se ou (re)construírem-se por meio, primeiramente, do desejo de se tornarem visíveis para a sociedade. Buscamos com que propostas emancipadoras para práticas de leitura e escritura se constituíssem em criadoras de horizontes, que intencionassem o mundo, o interrogassem e levassem a construir percepções e concepções de novas realidades possíveis para eles próprios.

Neste sentido, nosso eixo calcou-se nos princípios da Educação Popular, os quais se materializam, dentre outras trilhas, como resistência ao imediatamente visível, pela busca do que está “por trás”, lá onde se podem politizar as relações sociais (Brandão, 1984), moldando respeito pelo individual e pelo coletivo, podendo, inclusive, a partir daí, protagonizarem-se, os privados de liberdade, numa transformação de si e (por que não?) do circundante. 

Assim, se considerarmos que o confinamento propende à anulação e à invisibilidade da pessoa, uma proposta de desenvolvimento para práticas de leitura e escritura só nos pode levar a pensamentos como:

  1. é necessária a busca de resgate da identidade da pessoa confinada;
  2. a identidade da pessoa remete à sedimentação de sua dignidade que cremos muitas vezes perdida no confinamento;
  3. a dignidade humana é direito de todas as pessoas, garantida constitucionalmente;
  4. segundo especialistas, a escrita, com suas narrativas, (não necessariamente a escrita “certa”, pois não se trata de aulas!) auxilia no processo emancipatório do ser humano em que ele constroi redes de esperança para si, em primeiro lugar para, depois, ajudar a construir para outros;
  5. a necessidade de promover a inclusão da pessoa não-alfabetizado e dos idosos e idosas.

Assim, podemos dizer que, longe de ser uma proposta articulada e acabada, estamos sempre, a cada encontro, permitindo que visões de mundo e intuições sejam nossas “ferramentas de oficina”. E vamos sendo conduzidos pelo vento das descobertas e das confirmações, como gaiolas abertas, que nos permitem cair no vazio das incertezas, que só a leitura e a escritura proporcionam, e voar para longe, num voo desconcertante e belo, de imensa liberdade, mesmo na rigidez das cores de chumbo e do cheiro acre da prisão.

Sugestão de leitura: Obra Cartas de liberdades, autora Marli Silveira. Conheça mais aqui: https://www.neipies.com/cartas-de-liberdades-obra-que-reflete-existencia-e-encarceramento/

Autora: Ir. Marta Maria Godoy

Edição: A.R.

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