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A cabeça de Gumercindo Saraiva

A História do Rio Grande do Sul foi mal ensinada nas escolas, dizem meus amigos. Não posso falar, pois fiz meu ensino fundamental e médio em terras barriga verdes. E lá não foi diferente. Não lembro se me falaram de Anita Garibaldi.

Pergunta 1 – Quando você estudou História Rio-grandense na escola alguém falou de Gumercindo Saraiva?

Pergunta 2 – É Guerra ou Revolução Farroupilha? É Guerra Civil de 1893-95 ou Revolução Federalista?

Pergunta 3 – Em que “Guerra” ou “Revolução” ele perdeu a cabeça?

Há dois anos, escrevi “As Cinco Tumbas de Gumercindo Saraiva”, para comentar o livro a história esquecida pelos gaúchos sobre o maragato Gumercindo Saraiva – https://claudemirpereira.com.br/2021/05/literatura-as-cinco-tumbas-de-gumersindo-saraiva-o-livro-e-a-historia-esquecida-dos-gauchos/

Tratava-se do livro de Ricardo Ritzell.

Pouco depois li o livro do Tabajara Ruas: “Netto perde sua alma”, mas não tinha lido até agora “A cabeça de Gumercindo Saraiva” do mesmo Tabajara Ruas e Elmar Bones.

A História do Rio Grande do Sul foi mal ensinada nas escolas, dizem meus amigos. Não posso falar, pois fiz meu ensino fundamental e médio em terras barriga verdes. E lá não foi diferente. Não lembro se me falaram de Anita Garibaldi.

Até bem recentemente, nas escolas era quase sempre uma grande decoreba de datas, nomes; mas nada muito substantivo. Temos muitos livros que falam de nossa história (do Rio Grande do Sul, pois depois de 50 anos por aqui, sou parte dela e deste Estado). Sei de muitos mitos e lendas que se sobrepujam aos fatos reais.

Em 1983, Tau Golin escreveu “Bento Gonçalves O Herói Ladrão”, e ele e o livro sofreram uma verdadeira caça. Em 1997, sai este “A cabeça de Gumercindo Saraiva”, com patrocínio da Copesul. Em pouco tempo, alguma coisa havia mudado.

O livro é preciso nas suas buscas e pesquisas em documentos, como ficou rico em entrevistas com parentes seus e de pessoas que sabiam algo mais concreto.

O livro tem outro mérito ao colocar as posições das facções em disputa na Guerra Civil de 1893-95, mostrando quem eram os chimangos e quem eram os maragatos.

Os autores não tomam posição, mas como leitor, pelos dados apresentados, fico cada vez mais convencido do autoritarismo dos pica paus, seguidores do castilhismo, cuja vertente política e ideológica impregna nossas vidas locais até os dias de hoje.

Ficou evidente mais uma vez nesta leitura que apesar do caudilhismo dos Saraiva, dos Tavares e de seus amigos, eles tinham como pressupostos a luta pelas liberdades herdadas de Gaspar Silveira Martins, não aceitavam a ditadura castilhista e floriana.

Alguns até poderiam questionar a República, o que não era difícil, pois não era esta República a de Benjamin Constant e de outros republicanistas. Eles acabaram tendo a simpatia de dissidentes do castilhismo, algo que se reforça nas batalhas de 1923. Não era um bando de latifundiários nem de mercenários. Mercenários havia nos dois lados. Não podemos esquecer que tiveram ao lado de Gumersindo e dos maragatos Custódio de Melo e Saldanha da Gama.

Quanto às degolas temos dados elucidativos, como aqueles citados nos estudos de Carlos Reverbel, citados pelos autores. Se do lado de Gumersindo havia um Adão Latorre, Zeca Tavares e outros homens violentos, do lado de Pinheiro Machado havia o sanguinário do Firmino de Paula e Varzulino Dutra.

Eram tempos sombrios, de matanças e crueldades, mas o mundo vivenciou a Banalidade do Mal anos depois com o nazismo. As guerras de ódio, de matanças por questões étnicas e religiosas continuam. Logo, a sobrevalorização e a forma sentimental de analisar nossa História não nos tem ajudado em nada. Como nada nos ajudou até hoje se posicionar século e tanto depois por uma facção ou outra. Recentemente, na Nicarágua, vemos Daniel Ortega virar um ditador quando estivemos anos atrás pelo mundo com ele e os sandinistas na luta para derrubar o somozismo.

Que pelo menos possamos ler autores como os citados, que possamos continuar lendo e estudando. Que a população saiba que maragatos usavam lenço vermelho e os chimangos, o branco. Nem esta coisa elementar se sabe hoje em dia.

A historiografia rio-grandense tem que ser revisitada, algo que vejo neste livro e alta qualidade.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito. (– no dia dos 50 anos do golpe no Chile.) Autor da crônica: Os gaúchos: https://www.neipies.com/os-gauchos/

Edição: A.R.

Em tempos de ebulição: leituras instáveis

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Ser, fazer e pensar. Estes verbos exprimem o nosso modo humano de existir no mundo.

Ao mesmo tempo em que fazemos a história, constituímos nossa identidade e podemos exercitar a capacidade de refletir sobre nós mesmos e a realidade que nos circunda. Em boa medida, somos aquilo que fazemos. Porém, somos também aquilo que desejamos ser e fazer, e que, por motivos diversos, não o conseguimos.

Se o nosso ser e fazer são limitados ou impedidos, nossos pensamentos, crenças e sonhos podem nos alçar ao infinito. Nossas ações, modos de pensar e identidades individuais sempre têm incidências concretas sobre a história coletiva que construímos ou modificamos. De forma negativa ou positiva, todos deixamos marcas impressas na sociedade e no sistema cósmico do qual fazemos parte.

Observar como se processam os comportamentos das pessoas nos vários âmbitos, dimensões e contextos da vida é um exercício fundamental. Da capacidade de análise da realidade resulta também a possibilidade de interferir de forma mais apropriada na história, a fim de que ela adquira feições mais sustentáveis, justas, benfazejas e humanizadas.

Esta obra, constituída de uma espécie de mosaico do pensar, transita pelos terrenos movediços da realidade humana no anseio de que ela se firme em bases sempre mais sólidas nas quais a vida floresça e prevaleça.

Reúne 85 artigos, a maioria dos quais publicados nos últimos anos em meios virtuais e impressos. “Em tempos de ebulição – leituras instáveis” apresenta perspectivas do autor sobre aspectos da realidade social, ambiental, política, econômica, religiosa e cultural.

As análises se articulam e conectam à ideia de que os cenários que nos envolvem e que também são por nós construídos ou modificados estão em profunda efervescência. Desse modo, as leituras do que se passa na tela trêmula e efêmera da história acabam por ser elas mesmas instáveis e provisórias. Uma vez que tudo está em constante mudança, requer sempre novas e criteriosas leituras.

*Este livro de crônicas contempla algumas das reflexões já publicadas neste site. Conheça a coluna, onde já foram publicadas 18 colunas: https://www.neipies.com/author/dirceu_beninca/

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor.

Contatos: dirceuben@gmail.com     –   

 (54) 99241-6226

Autor: Dirceu Benincá, Graduado em Filosofia e Teologia; especialista em Comunicação Social; mestre e doutor em Ciências Sociais; pós-doutor em Educação. Professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Campus Paulo Freire. Autor de diversos livros, capítulos de livros e artigos científicos.

Edição: A.R.

O conhecimento para vencer o mundo das sombras

Quando dizemos que estamos vivendo um novo obscurantismo religioso, facilitado pelos meios de comunicação e pela indústria das fake news, as ideias de Descartes se apresentam como um facho de luz para indicar caminhos que nos ajudem a enfrentar as terríveis trevas que acreditávamos ter superado.

Podemos dizer que a filosofia de René Descartes (1596-1650) inaugura de forma mais acabada o pensamento moderno propriamente dito. Tal pensamento foi longamente preparado pelo humanismo renascentista representado por Erasmo de Rotterdam e Thomas More, pelas concepções científicas de Giordano Bruno e Galileu Galilei e pela visão prática de conhecimento dos empiristas ingleses. Mas Descartes é certamente o mais lembrado quando se fala do sentido da modernidade e da forma como esse brilhante pensador rompe com uma forma de compreender o mundo e inaugura uma nova forma de fazer filosofia.

O tempo de Descartes é um tempo de profunda crise da sociedade e da cultura europeias; um tempo de transição que rompe com a tradição feudal e inaugura uma nova tradição não mais baseado na autoridade da divindade, mas na autoridade da razão. A decadência do sistema feudal e o surgimento do mercantilismo trazem uma nova ordem econômica baseada no comércio, na livre iniciativa e no individualismo. Na arte, os efeitos do renascimento possibilitam não só retomar os valores da Antiguidade clássica, mas também propor uma cultura leiga, secular e mesmo de inspiração pagã.

Descartes nasceu na França, de família pertencente à pequena nobreza, estudou no colégio jesuíta de la Flèche e onde se tornou um exímio conhecedor da matemática e das principais ciências valorizadas na época.

Homem de seu tempo, viajou por diversos países da Europa, engajou-se no exército onde foi soldado combatente, foi aliado tanto dos católicos quanto dos protestantes, foi homem da corte e habitante da província, pensador solitário e correspondente da intelectualidade europeia, autor de um manual de esgrima e de uma das mais profundas obras de metafísica da modernidade.

O projeto filosófico de Descartes constitui uma defesa do modelo de ciência inaugurado por Copérnico, Kepler e Galileu contra a concepção escolástica de inspiração aristotélica que vigorava nas escolas de formação da qual ele mesmo frequentou. Em sua obra O discurso do método, faz uma defesa desse modelo mostrando que a nova ciência se encontra no caminho certo, ao passo que a ciência antiga havia adotado concepções falsas e errôneas.

Para Descartes, o bom senso, isto é, a racionalidade, é natural em todos os homens, mas nem todos são capaz de fazer uso adequado da razão e assim aplicam de forma incorreta o conhecimento, causando inúmeros problemas e falta de discernimento sobre as escolhas melhores. Por isso, a finalidade do método é para o pensador francês a forma de colocar a razão no bom caminho, evitando o erro.

O método se constitui num conjunto de regras e princípios que possibilitam garantir o sucesso do conhecimento e a elaboração de uma teoria científica que nos ajude a vencer o mundo das sombras.

“Penso, logo existo”, do latim “Cogito, ergo sum” é uma das mais importantes e célebres expressões filosóficas ditas por Descartes, pois representa para ele o fundamento seguro para a construção do “edifício do conhecimento”.

Em tempo de notícias falsas, da manipulação realizada pelos grandes meios de comunicação, do fanatismo religioso e político, da forma como as pessoas são facilmente enganadas por falsas ideologias, a indicação do “pensar” cartesiano se torna um antídoto poderoso para neutralizar o falso pensamento que se anunciam em todos os lugares.

Quando dizemos que estamos vivendo um novo obscurantismo religioso, facilitado pelos meios de comunicação e pela indústria das fake news, as ideias de Descartes se apresentam como um facho de luz para indicar caminhos que nos ajudem a enfrentar as terríveis trevas que acreditávamos ter superado.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com

Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF, autor da crônica “O pensamento faz a grandeza do ser humano”: https://www.neipies.com/o-pensamento-faz-a-grandeza-do-ser-humano/

Edição: A.R.

Precarização e ressentimento: uma discussão acerca dos ataques aos docentes da educação pública durante a pandemia

A educação sozinha não consegue superar tudo e, por isso, o entrelaçamento entre as políticas sociais precisa ser sustentado, com a necessária defesa de serviços públicos com qualidade para o trabalhador e de garantia dos processos de luta deles.

Nossa sociedade, imersa na tecnologia e na informação, se constitui na/pela racionalidade neoliberal. As modificações vertiginosas e incisivas na vida humana fazem com que o trabalhador seja regido pela lógica da produção e do consumo, o que repercute no afastamento dele em relação aos princípios necessários ao bem viver. O capitalismo hegemônico tem esfacelado os princípios morais e éticos, estabelecendo como premissa nuclear das relações a competição em torno da lógica de mercado.

O exemplo de fragilidade dos princípios que regem a convivência humana que trouxemos é recente, do contexto pandêmico recém superado, e trata do sentimento de ressentimento que brota no ser quando está em sofrimento.

Conforme com o conceito de Kehl (2020), ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo próprio sofrimento, uma vez que o outro tem o poder de decidir algo sobre a vida do sujeito e, por essa razão, pode culpá-lo se houver algum insucesso. O sentimento retratado por Kehl (2020) parece ter eclodido durante a pandemia, com trabalhadores (potencialmente ressentidos) atacando outros trabalhadores, por meio de discursos depreciativos, principalmente nas redes sociais – espaço de expressão privilegiado no período da pandemia.

A Covid-19, deflagrada no final de 2019 e com continuidade nos anos seguintes, expôs a fragilidade da organização do trabalho no capitalismo, denotando a suscetibilidade dos sujeitos neste período particular e evidenciando a vulnerabilidade do próprio modo de produção. Por mais que seja organizado de forma a sustentar uma racionalidade em que os interesses privados estão acima de perspectivas humanas e sociais inclusivas e em que empresários são tidos como mártires por proverem empregos, contraditoriamente foram os homens e as mulheres – trabalhadores e trabalhadoras – nas relações de classe, que provaram sustentar a ordem social vigente.

A consciência acerca desse processo, contudo, não se mostrou assimilada por parte substantiva dos trabalhadores, principalmente daqueles em funções mais precárias que, ao invés de lutarem pela manutenção dos direitos básicos deles enquanto preservavam as próprias vidas, foram mobilizados a descumprir regras de distanciamento social a fim de manterem os empregos deles e as (insuficientes) condições de sobrevivência.

Empresários e agentes governamentais, inclusive, protagonizaram campanhas menosprezando os efeitos da pandemia e exigindo protocolos menos rígidos. Nos ambientes virtuais, movimentos em prol do retorno às atividades presenciais, principalmente por parte do funcionalismo público, ganharam notoriedade.

Os professores, de forma específica, passaram a ser referenciados como privilegiados e receberam adjetivos pejorativos enquanto categoria. Apesar de continuarem a desempenhar as funções de professores, mas de modo remoto, sofreram investidas diversas (inclusive com o impetramento de ações jurídicas) para garantir o retorno presencial das aulas e, assim, do exercício docente no ambiente específico da escola.

Foram muitos os ataques sofridos pelos professores, principalmente de escolas públicas – ressaltando que os professores de escolas privadas, necessitam manter o silenciamento para garantir o emprego.

As ofensivas dirigidas por parte de outros trabalhadores, revela um processo de precarização do trabalho que, neste período particular do capitalismo, potencializa a constituição subjetiva do ressentimento. A probabilidade torna-se latente no trabalhador precarizado hodiernamente, fazendo com que, em sua condição de indiferença, não consiga perceber a própria opressão e, assim, ressinta-se.

A incursão capitalista e neoliberal não é recente e a pandemia tornou-a ainda mais recrudescida, com o trabalhador tornando-se cada vez menos humano e transformando-se em objeto. Na condição de objeto ou coisa, o trabalhador se torna um ser de negócios, ao mesmo tempo em que “negocia o seu ser”, em um empreendedorismo de si, como problematizado por Dardot e Laval (2016). Transformado em coisa de transação comercial, o ser humano convive com o impedimento das experiências cotidianas, das vivências que sustentam a subjetividade e a dignidade dele (ADORNO; HORKHEIMER, 2012).

Nesse cenário, o ser humano, inserido nas diferentes profissões, acaba enredado pelas situações precarizadas de trabalho, com o receio de perder o emprego e de deixar de subsidiar as próprias necessidades básicas, o que o torna refém da sociabilidade em curso. Impotente frente à condição objetificada/coisificada pela qual é submetido, o trabalhador angustia-se, inquieta-se e aquieta-se, cultivando o ressentimento contra si e contra os outros (especialmente em embate aos que insistem em se debater na tentativa de superar as intempéries).

O imperativo era para que os professores retornassem ao trabalho presencial (mesmo sem haver vacinação e diante de graves riscos de contaminação pelo vírus da Covid19). O que estimulava tais movimentos era o fato de que outras categorias haviam retornado anteriormente aos espaços laborais deles, como se os direitos de parte do coletivo de trabalhadores não devessem ser ampliados, mas sustados.

Ocorreram ataques entre iguais (todos trabalhadores), exigindo-se que um fragmento deles abandonasse seus direitos ao invés de haver a união entre as classes para conquistar ou preservar direitos para todos. Esse processo de precarização do trabalho gera sofrimento e favorece e intensifica a constituição do ressentimento!

O trabalho, transformado em atividade individual, hierárquica e competitiva, não deixa espaço para o potencial criativo, muito menos para a realização pessoal.

Sem tempo livre, não consegue reverter a situação que vive, restando somente o lamento e, consequentemente, o “ressentimento”. Este sentimento tende a se intensificar quando discurso se volta contra si e contra os outros – em favor do próprio apedrejamento e do apedrejamento de seus pares –, o ser humano omite e se ressente com o que inevitavelmente deseja e sente: ele quer uma vida com qualidade e garantia de direitos. Esforça-se para afastar de si a ideia de que está sendo subjugado e oprimido, mas acaba expressando o ressentimento em algum momento. Pode-se dizer que acaba por viver uma vida ressentida, em que aproveita as oportunidades não para mudar a própria condição, mas para infundir o que ressente contra o semelhante KEHL (2020).

É imprescindível questionar o papel da educação no reconhecimento e na constituição de ferramentas de luta contra a subordinação do sujeito a um formato de trabalho que o entende como mercadoria, como um instrumento a ser descartado e substituído por outro à revelia do empregador. A docilização do trabalhador para que ele, passivamente, produza e consuma, aceitando ser subjugado não pode figurar, mesmo que subliminarmente, no cotidiano pedagógico.

Com a Reforma do Ensino Médio, implementada a partir da Lei nº 13.415/2017 e atualmente com revogação exigida por entidades estudantis, docentes e sindicais, há um esvaziamento das disciplinas tradicionalmente referenciadas – e responsáveis pelo conhecimento historicamente produzido – nessa etapa da educação básica, uma vez que as disciplinas são substituídas por componentes e percursos formativos voltados para temáticas como o empreendedorismo e a construção de projetos de vida. Mesmo reconhecendo que a escola brasileira precisa de muitas mudanças, esse processo denota o desfavorecimento de um processo reflexivo e crítico.

Entendemos que sem tais características não teremos uma educação emancipadora, tampouco a formação de consciência, tão necessária aos trabalhadores oprimidos e ressentidos que precisam se dar conta da condição de subordinação em que se encontram. Sem isso, não há desestabilização desse sistema que corrompe o ser humano, insere a competitividade e a individualização como orientadoras dos modos de vida e que, em momentos extremos como o de uma pandemia, consegue desestruturar ainda mais as relações e favorecer as rivalidades entre os iguais, como no caso em questão.

Apesar dessa aposta ser a qualificação da formação sabemos, também, que a educação sozinha não consegue superar tudo e, por isso, o entrelaçamento entre as políticas sociais precisa ser sustentado, com a necessária defesa de serviços públicos com qualidade para o trabalhador e de garantia dos processos de luta deles. Sabemos, ainda, que os docentes podem se tornar ressentidos ao viverem as consequências de processos de precarização que atingem a categoria profissional e o trabalho deles.

Assim, um movimento formativo pautado em princípios humanos e sociais, sensível às vivências cotidianas da realidade de subjugação, de fragilidade e de insegurança da “classe-que-vive-do-trabalho” (ANTUNES, 2000) precisa acolher também essa parcela de trabalhadores. Com isso e a partir disso, a dinâmica social precisa ser reconstruída, com a valorização dos trabalhadores e dos direitos deles e com a recuperação do espaço de fala e de luta de cada um, constituindo-se (mesmo que árdua e lentamente) em novos modos de vida.

Autoras:

Ana Lúcia Vieira

Doutoranda em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF).  Professora da rede municipal de ensino de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil. Integrante do Grupo de Estudos Formação Humana (UPF), do Núcleo de Pesquisas em Filosofia e Educação (NUPEFE-UPF) e do Grupo de Pesquisa em Educação, Filosofia e Sociedade (Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS).

Renata Cecilia Estormovski

Doutoranda em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Rio Grande do Sul, Brasil. Professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, Brasil. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículo, Ensino Médio e Juventudes (GEPCEM Unisinos/CNPq).

ENDEREÇO DO TEXTO COMPLETO:

https://seer.ufu.br/index.php/reveducpop/issue/view/2365

Edição: A.R.

A menina, a janela e o cego

Nada fez mais sentido à tarde, assim que a menina bateu à janela.

Meu olhar fugidio disfarça, e passo a expiar minha máxima culpa,

como que escolhendo só a mim, disputo por dentro, ou eu, ou ela.

Torço pelo sinal, que se abra logo a cancela, em minha face oculta.

Acelero o carro, o tempo, a dor, a indiferença, o descaso, a rejeição.

Os seus dedos ainda os vejo nos vidros, a palma da mão em poeira.

Ela pedia apenas centavos, um desejo, um olhar qualquer, atenção.

Nem imagina ela que o mundo se esgota, ela no centro, eu, à beira.

E por uns trocados apenas, agora me vejo exposto em mim mesmo…

Trocaria com ela, se a visse, no ato, quaisquer dores, pelo seu perdão.

Absolva-me a alma, pequena menina, pela sua remissão vivo a esmo!

E a busco em todas as esquinas, meus olhos ressecados, os seus, não!

Por uns olhares, quaisquer vinténs, acordo inútil e quase desprezível.

Uma vez negados, vejam, mostraram-me cruel, atroz, vazio e fugindo.

Tento voltar a ela, explicar minhas desculpas, imagino, eu, insensível!

Separei um presente até, penso-me íntegro, embora ainda mentindo.

Ilustração: Alex Guenther

Autor: Nelceu Alberto Zanatta

Edição: A. R.

Formação em EaD e contratos temporários evidenciam precarização da docência 

Novas exigências educacionais pedem às universidades e cursos de formação para o magistério um professor capaz de ajustar sua didática às novas realidades da sociedade, do conhecimento, do aluno, dos diversos universos culturais, dos meios de comunicação”. (Ildeu Coelho, Professor)

Como formar um professor com as capacidades requeridas acima através de uma educação à distância (EaD) de baixa qualidade, para uma carreira profissional de remuneração inferior às similares e relações de trabalho por meio de contratos temporários emergenciais? Essa tem sido a realidade cada vez mais intensa e frequente no Brasil e no Rio Grande do Sul, onde ampliam-se as ofertas de formação inicial e continuada na modalidade EaD e aumento progressivo de contratos emergenciais temporários em detrimentos de concursos públicos.

Enquanto a União, estados e municípios descumprem várias políticas nacionais de educação, planos de educação (PNE, PEE e PME), diretrizes nacionais e leis – como a lei do piso do magistério –, gestores se sucedem anunciando medidas pontuais e ações eleitoreiras de irrisório impacto na educação pública, na formação inicial docente e na carreira dos professores.

O caso do RS, que é similar ao de São Paulo, e outros entes da federação, é uma evidência dessa realidade. Em agosto, a Assembleia Legislativa (ALRS) aprovou por unanimidade (52 votos a zero) projeto de lei enviado pelo governador para a contratação de professores, especialistas de educação e servidores de escola em caráter emergencial e temporário nas seguintes áreas:

– até 5 mil professores temporários para atuar na regência de classe ou na educação especial e no atendimento educacional especializado (AEE);
– até 1.195 especialistas de educação temporários para a supervisão escolar;
– até 596 especialistas de educação temporários para atuarem como orientadores educacionais;
– até 1.150 agentes educacionais temporários para atuarem na interação com educandos;
– até 1.075 agentes educacionais temporários para a administração escolar.

Os contratos terão validade de até cinco anos, podendo ser rescindidos a qualquer momento, seja pelo estado ou mesmo pelo servidor. Porém, esses 9.016 contratos temporários se somam aos 36.020 vigentes, pois o projeto aprovado, também, traz a previsão de estender, por mais cinco anos, contratações em andamento cuja prorrogação foi autorizada pela Lei Estadual 15.579/2020: 25 mil contratos de professores; 600 contratos de orientador educacional; 450 contratos de supervisor escolar; 9.820 contratos de servidores de escola; 150 contratos de técnicos agrícolas, totalizando 36.020 contratos temporários.

Ou seja, estamos evidenciando mais de 45 mil contratos temporários na rede estadual, algo em torno de 50% dos professores e servidores. O temporário e emergencial tornou-se a forma hegemônica de contratação na maioria dos estados brasileiros.

Tudo isso num contexto e cenário de penúltimo ano de vigência do PNE 2014-2024, com a maioria das metas atrasadas e descumpridas.

A carreira docente no Brasil perde prestígio e interesse (somente 2,7% dos estudantes cogitam a docência como profissão).

Por outro lado, a má qualidade da formação está evidenciada em vários diagnósticos e estudos, porém, não se trata de um mero descuido, mas de entendimentos e ações tomadas pelos governos a partir de 2016.

Vejamos o descaso com as quatro Metas do PNE neste período, conforme relatório 2023 de monitoramento da Campanha Nacional pelo Direito à Educação:

Meta 15 prevê a garantia “em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, no prazo de 1 ano de vigência deste PNE, política nacional de formação dos profissionais da educação assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam”.

Em 2017, o Ministério da Educação (MEC) lançou a Política Nacional de Formação de Professores, estabelecendo para o currículo dessa formação uma Base Nacional de Formação Docente (BNCC).

A política foi mais uma iniciativa definida de forma impositiva pela então gestão do MEC, sem diálogo com as Instituições de Ensino Superior (IES), com os profissionais da educação básica ou com as entidades que os representam.

Isso consiste em grave retrocesso para a efetivação de um Sistema Nacional de Educação e de um PNE que levasse em consideração a articulação entre formação inicial, formação continuada e condições de trabalho, de salário e de carreira dos profissionais da educação.

Um Relatório do Tribunal de Contas da União (2022) sobre essa necessária Política Nacional de Formação de Profissionais da Educação Básica e Formação Inicial de Professores conclui que a ausência de atividade de planejamento com caráter nacional tem reflexo direto na oferta dos programas de formação, que não priorizam as necessidades nacionais e acabam por concentrar a ação pública em algumas regiões da Federação, desconsiderando que a oferta de cursos e benefícios deve ter relação com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), bem como as efetivas carências de professores observadas em cada estado.

A oferta não pode ter por referência apenas as informações declaratórias dos próprios docentes interessados em adequar sua formação, resultando a expedição de recomendação concomitante à Capes e ao Ministério da Educação, para articular a oferta de vagas em sintonia com as carências identificadas.

O relatório reforça a necessidade de oferta de vagas em ensino superior, preferencialmente na modalidade presencial, bem como a necessidade de se priorizar o ensino presencial no momento formativo inicial que é corroborada pela experiência internacional.

Já a Meta 16 promete formar, “em nível de pós-graduação, 50% dos professores da Educação Básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todas e todos as(os) profissionais da Educação Básica formação continuada em sua área de atuação”.

No período entre 2014 e 2021, a porcentagem observada vinha aumentando a um ritmo muito próximo do necessário para atingir o objetivo disposto no PNE, mas para isso se realizar é necessária a manutenção desse avanço nos anos seguintes.

Em 2020, que é o ano mais recente calculado, 1,3 milhão dos 2.230.891 docentes em atividade na educação básica não haviam recebido qualquer tipo de formação continuada.

A Meta 17, por sua vez, define: “Valorizar as (os) profissionais do magistério das redes públicas da Educação Básica, a fim de equiparar o rendimento médio das(os) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano da vigência deste PNE”.

Em 2022 o rendimento dos docentes com formação superior era, em média, apenas 82,2% do observado para os demais profissionais com esse nível de escolaridade.

A ausência de um salário digno é um dos principais, senão o principal, indicador da desvalorização da carreira docente.

A reversão desse quadro é fundamental para que a carreira tenha maior atratividade. Salários inferiores a outras profissões e relações de trabalhos temporárias e emergências não atraem os melhores quadros em nenhuma profissão.

Por fim, a Meta 18 indica: “Assegurar, no prazo de 2 anos, a existência de planos de carreira para os(as) profissionais da Educação Básica e Superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de carreira das(os) profissionais da Educação Básica pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal”.

A partir de informações prestadas ao IBGE por unidades federativas (estados e o Distrito Federal) e municípios em 2018 e 2021, nota-se uma imensa dificuldade de avanço rumo a condições minimamente adequadas de trabalho aos profissionais da educação, já que pouquíssimo se avançou na proporção de redes cumprindo cada um dos requisitos mensurados da meta 18.

É requisito básico e urgente a coleta, ao menos bianual, das informações necessárias ao monitoramento desta e de todas as metas do Plano, seja por meio de reorganização das pesquisas já existentes, seja pelo desenvolvimento de novos instrumentos.

No começo do deste ano de 2023, um Grupo de Trabalho foi instituído pelo MEC para propor políticas de melhoria na formação inicial de docentes.

Em agosto, o GT apresentou relatório parcial, envolvendo um conjunto de temáticas que apontam para: revisão e mesmo revogação das Resoluções CNE/CP nº 02/2019 e nº 01/2020; aperfeiçoamento da regulação dos cursos de licenciatura ofertados na modalidade a distância (EaD); formulação de plano nacional de  valorização dos profissionais do magistério que articule formação, carreira, remuneração e condições de trabalho; reafirmação da Capes na formação inicial e continuada de professores; institucionalizar e ampliar iniciativas voltadas para o fortalecimento da formação teórico-prática dos licenciados, entre outras.

Além do GT, o MEC ampliou 31 mil bolsas para a formação de iniciação à docência e residência pedagógica em 2023 e outras 100 mil para 2024, por meio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Docência (PIBID).

Desta forma, o MEC aumentou em 54% as bolsas, saindo já em 2023 de 57 mil para 90 mil bolsas. São medidas iniciais muito tímidas e insuficientes para a complexa condição docente brasileira. Políticas e programas mais estruturais são urgentes e necessários.

Hoje, diante de um cenário, a Frente Nacional pela Revogação das Resoluções CNE/CP 02/2019 e 01/2020 – que estabelecem diretrizes para a formação dos professores –, aponta alguns aspectos que justificam a imediata revogação dessas resoluções por razões como:

a) a imposição da ultrapassada Pedagogia das Competências e Habilidades que preconiza uma concepção pragmática e reducionista de formação e de docência, centrada em processos de (de)formação com ênfase na padronização, centralização e controle;

b) a redução do magistério a simples função de tarefeiros e instrutores, induzindo à alienação da categoria e ao expurgo da função social da escola e da formação, como a BNCC e a Reforma do Ensino médio propugnam;

c) a secundarização do processo de construção do conhecimento pedagógico e científico e sua socialização, a articulação teoria-prática e a sólida formação teórica e interdisciplinar, ferindo o necessário equilíbrio curricular e,

d) a desconsideração da autonomia das IES e de seus Colegiados de Curso na definição da concepção, sequência e ordenação dos conteúdos curriculares necessários à formação.

Segundo o professor pesquisador Artur Eugenio Jacobus, da Unisinos, a Educação a Distância no Brasil apresenta um crescimento e impacto não identificado em nenhum outro país no mundo.

Vejamos: ingressantes em cursos presenciais em 2011 (Brasil): 81,7%. Em 2021: 37,2%; ingressantes em cursos EaD (Brasil): 18,3% em 2021. Em 2022: 62,8%; Índice de evasão do EaD: 65%; Desempenho no Enade (ciclo 2017 a 2019): 42% cursos EaD com conceito 1 e 2 (reprovados); Formação em Pedagogia: Dados de 2021: 789.254 alunos cursando Pedagogia, desses, 75,8% cursam Pedagogia na modalidade EaD; só 24,2% frequentam cursos presenciais.

Esta formação inicial e continuada dos professores não forma teórica-praticamente o professor para o complexo processo educativo contemporâneo.

A vulnerabilidade e rotatividade dos professores em contrato temporário impossibilitam vínculos e relações de aprendizagens efetivas e sólidas com os estudantes. A educação é um processo humano que precisa ser duradouro, sólido, amigável e de confiança.

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: A.R.

A bobagem em falar sobre empatia com adolescentes presos

Acalmei o espírito e tornei a sentar.  Aí encontrei o elo que faltava nesta corrente espúria.  O elo da liberdade.  Estes jovens sabem que cometeram infrações, sabem que são rejeitados pelo seu comportamento, mesmo assim, não desistiram de sair livres, um dia, mesmo que demore o tempo em que suas vítimas ainda os culpem.

A professora caminhava logo à frente, como que preparando o caminho de nossa descida pelas escadas do prédio correcional, rumo às celas de adolescentes presos.  Aos poucos fui entendendo a sua preocupação: teríamos de chegar às salas de aula em segurança. Mas quem nos faria mal se estavam todos trancados?

Quando fui convidado para falar sobre minha pequena história de empatia e amizade em suas salas, sequer imaginava os cuidados e a quantidade de portas de ferro que separavam o ambiente prisional da rua.

À medida em que descíamos o seu interior, as portas se fechavam atrás de mim.  Não tinha respiração para olhar atrás e pensar em como seria minha fuga.  Portas que pareciam portões. Uma após outra, fechando-se, parecendo um caminho sem volta.  Como se eu mesmo estivesse ali, chegando para ficar, como novo prisioneiro em minha listinha de transgressões.

Os meninos estavam em suas celas, sentados à cama, e respondiam com entusiasmo aos cumprimentos dirigidos a eles. Uma simpatia incomum para quem pensava que seria esfolado vivo, por adolescentes que, em alguns anos apenas, não passavam de crianças.  O ambiente lúgubre e cercado de educadores, com portas forjadas a ferros e cadeados, não os intimidava em nada.

Aguardamos sua chegada junto à sala de nossas pequenas palestras e foram eles chegando aos poucos. Alguns tímidos, outros com sorrisos espertos e os demais, com feições de entristecer o mais otimista dos professores. Todos estenderam as mãos e, inesperadamente, mais uma porta se fechou, agora a da sala, justamente onde estávamos a sós. Não havia mais saída, portanto, e ninguém a nos salvar a partir de agora.

Distribuí o livro de minha história sobre a mesa e uma curiosidade tomou conta do grupo.  Ali sentados, ficava difícil começar a falar sobre uma planta rejeitada em meio a pátios, cujas árvores crescem em um chão de verdes escolhidos.

As palavras teimavam em não sair, porque diante destes olhares desconfiados e inquietos, uma história de rejeição não faria diferença alguma, em uma relação interminável de rejeições a que estes jovens estão expostos. Um deles, aliás, fixando uma parede branca parecia estar a milhares de quilômetros do local. Outro, mais falante, disse que gostava de ler e sonhava em ser engenheiro. E à minha frente, contudo, o menino mais educado, mais apreensivo e mais atento com a história que eu estava prestes a contar, como nunca vira antes.

Não havia alternativas.  Dizia a eles sobre como rejeições podem se transformar em aceitações, em como tolerância e respeito podem ser novos caminhos para acolhimento e amizade.

Não tinha como escapar, falando, ou calando, nada poderia mudar nesta sala, trancada que estava. Todos prisioneiros nesta tarde! Eles, por suas delinquências, pelo descaso com a sociedade que sequer os acolheu, eu, por outro lado, aprisionado pelo medo e indignação frente ao meu desafio.

Como falar em empatia, para quem não tem 5 metros a caminhar sem ser observado?  O que dizer sobre tolerância, com um menino de 15 anos, brutalmente trancado em uma cela pelos delitos que aprendeu com delinquentes maiores, ainda soltos pelas ruas, certamente.

Falar ou chorar ao seu lado?

O menor da mesa, interessado que estava, fixava seu olhar agredido em uma página do livro. Justamente nesta em que foi escrita uma parábola de uma planta que cresce, teima em crescer, escondida ao lado de uma torre, porque fora rejeitada em um pátio de muitas sombras, de possibilidades, mas que a ela não sobrara um palmo na terra, em um buraco qualquer, para dar seu primeiro passo. Mesmo assim, ela não desistira.

Pensei em sair correndo, bater no primeiro portão, gritar para que se me abrissem os outros quatro, ainda fechados, quando ouvi de um matreiro e falante na mesa, um dos “piores,”, e que dizia… _estamos aqui crescendo para a liberdade, professor!

Acalmei o espírito e tornei a sentar.  Aí encontrei o elo que faltava nesta corrente espúria.  O elo da liberdade.  Estes jovens sabem que cometeram infrações, sabem que são rejeitados pelo seu comportamento, mesmo assim, não desistiram de sair livres, um dia, mesmo que demore o tempo em que suas vítimas ainda os culpem.

Então tudo fez sentido.  Eles não vivem nesta pequena masmorra, apenas esperam.  Um dia após outro.  A sua liberdade em andar livres não lhes sai da mente.  Aproveitei a deixa: 

-Suportem estes dias para ficar ao lado dos seus iguais, troquem tolerância mútua, afastem-se de quaisquer julgamentos, aceitem seus colegas hoje, tais como o são, pois poderão ser seus amigos lá fora. A empatia, ainda não sendo uma palavra gasta, pode auxiliar a todos, ao colocarem-se no lugar do outro, afastando as condenações pelos erros de cada um. Cada qual aprenda a conviver e a perdoar-se mutuamente pelos seus atos. Uma amizade pode nascer neste doloroso caminho, e um novo olhar pode ser lançado sobre seu amigo, quem sabe, sobre seu inimigo, igualmente. Sem empatia, ali na frente, a liberdade poderá ser mais uma falsa corrente.

Alguns me olharam com olhos marejados, a Professora com seu rosto ainda mais sereno.  Pareceu ali que todos queriam prestar conta à sociedade.  Mesmo sabendo que as transgressões destes meninos de 14, 15 anos, são concebidas pela pedagogia de bandidos amadurecidos, que os admitem e os lançam a toda sorte de delinquência, na certeza de que em sua menoridade, seus crimes e penas serão amenizados.

Apertei com força as mãos destes garotos, lembrando das falsas oportunidades em que eu fora tentado na mesma idade, em suas aventuras ou fantasias. Alguém ao meu lado soube impedir, orientar.  A maioria deles, porém, não tem ninguém. E saber que o tráfico ainda os aguarda ao lado de fora dos portões desta clausura…

Rapidamente esqueci o medo, o preconceito, os julgamentos e pude sentir as suas vidas sendo devastadas por comportamentos que, em sua maioria, dizem estar arrependidos. Lembrei neste momento de emoção, das palavras de um quase amigo que me falou quando soube de minha missão: “esqueça esta bobagem de falar sobre empatia com estes adolescentes presos”.

A propósito, um pequeno que estava ao meu lado, assim que eu soube, fora cooptado pelo tráfico após sua Mãe capitular pelo consumo de drogas.  Deixado junto à calçada com dois irmãos menores, um com dois anos, não demorou para estrear em um mundo de crimes, de tamanhos variados.  Mas dizia que estava ansioso para sair, pois seus irmãos o aguardavam. Agarrou meu livro na hora, prometendo a sua rápida leitura.

Jamais, em momento algum poderia continuar em vida sem passar por estes portões.  Ao final, o liberto fui eu. Aprisionado em preceitos e conclusões, julgando e condenando estes jovens privados em sua liberdade, e por entender que aprenderam a se espelhar rapidamente em crimes adultos, fui salvo.

E deixando pelas escadas a última porta trancafiada, senti-me absolvido de toda a ignorância que aprisionava meu entendimento sobre suas vidas. De igual maneira, pedi absolvição pelo meu amigo, em sua incapacidade de entender que convivência não diz respeito a idade somente, nem a prisões ou liberdades. Pois onde duas pessoas convivem, pelo menos, devia saber sua mente obtusa, que sempre há de se escolher compaixão e empatia. É o que sustenta a humanidade.

Convido a pensar, aos que ainda têm seus conceitos cativos no preconceito e no medo, a trocar o seu silêncio e a ouvir o que adolescentes reclusos têm a dizer. A libertação pode ser mútua.

Autor: Nelceu A. Zanatta, autor da crônica: Quando morre uma mãe, : https://www.neipies.com/quando-morre-uma-mae/

Edição: A.R.

Magistério: uma carreira em extinção?

Os Congressos dos Professores Municipais de Passo Fundo sempre são um momento ápice de uma discussão ou problematização que a categoria dos professores e professoras faz em cada momento histórico.

Na última quarta-feira do mês de agosto (30), o VIII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo tentou responder a pergunta tema do encontro deste ano: “Magistério: uma carreira em extinção?”

Os palestrantes, Vereadora Professora Regina, o psicanalista Francisco dos Santos Filho e os professores Altair Fávero e Rafael Torres, debateram o tema com os docentes da rede municipal sob aspectos políticos, pedagógicos, laborais e de saúde da carreira do magistério.

Durante o dia, nos turnos manhã e tarde, vários pontos relevantes foram levantados e destacados, com o intuito de responder o questionamento, como o fato de a crise na educação no país ser um projeto, a necessidade de mobilização da categoria para tentar barrar os ataques ao plano de carreira, a urgência da valorização da profissão docente, a preocupação com o processo de sofrimento psíquico presenciado no magistério atualmente, entre outros.

Mediação das mesas de debates

Mediar os debates do VIII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo realizado no dia 30/08/2023 foi uma das tarefas que fiz com alegria, satisfação e responsabilidade. Confesso que, ao olhar e observar este evento do lugar mais nobre (mesa de debates) pude perceber que este foi capaz de nutrir as esperanças de tanta gente que, além de bonita, ousa erguer as cabeças no meio do rebanho para afirmar a dignidade da profissão docente e lutar pelos direitos de nossa profissão.

Alguns apontamentos e considerações:

Os Congressos dos Professores Municipais de Passo Fundo sempre são um momento ápice de uma discussão ou problematização que a categoria dos professores e professoras faz em cada momento histórico.

Os temas e temáticas que são abordados nos congressos tem a finalidade de motivar, mobilizar, discutir e apontar rumos da organização política e sindical para o enfrentamento das questões mais urgentes do magistério.

Este Congresso suscitou perguntas: por que somos tão pouco valorizados? Por que nos impõem tanta burocracia, tanto trabalho que sufoca nossa essência pedagógica? Será que estamos mesmo em extinção, tendo em vista estudos sobre um apagão na docência?

A opção do CMP Sindicato para a problematização destas questões foi escolher professores e professoras parceiros das lutas pela afirmação da dignidade docente e da valorização profissional. O Sindicato aposta na reflexão e ação de professores para professores, pois estão mais próximos da realidade e podem melhor problematizá-la.  

A nossa resistência significa a nossa existência. Todo tipo de ataques à escola pública e aos direitos dos professores e professoras são injustificáveis. Apesar de terem perdido força movimentos que atacavam a profissão docente como o Homescholling e Escola sem Partido, os professores e professoras continuam sendo atacados e mal tratados com sobrecarga de trabalho, excesso de planejamentos, retirada de direitos e o não pagamento de seu piso salarial.

O VIII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo fez um duplo movimento na sua organização e discussão, colocando a importância da luta política e organizativa e a importância dos conhecimentos acadêmicos sobre o tema. Neste sentido, os painéis da manhã e da tarde tiveram falas de sindicalistas e de especialistas/estudiosos da academia.

Os desafios são imensos para a categoria dos professores e professoras.

Para além de suportarem condições cada vez mais complexas e adversas em suas salas de aula, estão sendo convocados para lutarem pelo reconhecimento de sua função na sociedade e para barrarem as ameaças constantes que retiram direitos e ameaçam o seu plano de carreira. Estão sendo convocados a resistir e lutar contra a mercantilização da educação, onde são vistos como meros repassadores de conteúdos prontos (exemplo mais recente em São Paulo).

O VIII Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo afirma a necessidade de lutas cada vez mais organizadas e combativas, para que professores e professoras sejam mais ouvidos/as e mais valorizados/as, com vistas à qualidade social da educação pública. Este congresso cumpre também com uma grande tarefa de um Sindicato de professores e professoras: a formação crítica e política sobre os temas e sobre os interesses que envolvem a educação.

A pergunta do Sétimo Congresso dos Professores de Passo Fundo, 2022, foi: “Cidades educadoras: o que temos a ver com isso?”. Confira: https://www.neipies.com/cidades-educadoras-o-que-temos-a-ver-com-isso/

Crédito fotos: João Lucas da Silva

Autor: Nei Alberto Pies, diretor de Formação do CMP Sindicato e mediador dos debates do VIII Congresso dos professores municipais de Passo Fundo

Edição: A.R.

 

Escutar a juventude deve ser uma metodologia de escola

Estas sinopses de estudantes, que seguem publicadas, intencionam convidar mais professores e professoras e estudantes, principalmente de escolas públicas do Brasil, para que vejam, discutam e trabalhem, em sala de aula, o documentário “Nunca me sonharam” e possam também refletir sobre sonhos, possibilidades e superação de dificuldades a que estão sujeitos todos os adolescentes e jovens.

Escrevo esta matéria com o objetivo de reforçar o alerta já anunciado por muitos estudiosos e especialistas, ao longo dos últimos anos: a necessidade de promovermos uma educação no Ensino Médio que valorize os estudantes, fazendo-os protagonistas dos seus conhecimentos e de suas histórias. Escrevo também para relatar uma prática pedagógica com estudantes do Ensino Médio onde estes foram provocados a produzir conhecimentos a partir do Documentário “Nunca me sonharam”.

Em novembro de 2020, passei a compor a equipe de Redatores do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio (ver aqui: https://educacao.rs.gov.br/upload/arquivos/202111/24135335-referencial-curricular-gaucho-em.pdf), com 20 horas semanais de minha carga horária dedicadas, exclusivamente, à escrita do documento, até o final do ano de 2022. Foi uma experiência incrível, com muito conhecimento e aprofundamento de conceitos sobre educação e os desafios de implantar um novo desenho do Ensino Médio, agora contemplando a Formação Geral Básica e os Itinerários Formativos.

Foi justamente neste início de trabalho como redator do Referencial Curricular Gaúcho que me foi apresentado o Documentário “Nunca me sonharam’, do diretor Cacau Rhoden (veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=aE2gOo9rW1w).

Encantei-me com as diversas perspectivas, possibilidades e olhares sobre as juventudes e sobre os desafios de uma educação mais interessante para eles, os jovens do Ensino Médio. Ao voltar para sala de aula, em meados de 2023, com turmas de segundo ano do Ensino Médio, em aulas do componente curricular Projeto de Vida, fiz deste documentário um material de apoio e suporte às reflexões sobre as escolhas dos jovens frente às suas diferentes realidades.  

Combinei com estes estudantes do segundo ano do Ensino Médio do Instituto estadual Cecy Leite Costa que construiríamos um “produto final” depois das análises e discussões do Documentário: a construção de sinopses.

Estas sinopses, que seguem publicadas, intencionam convidar mais professores e professoras e estudantes, principalmente de escolas públicas do Brasil, para que vejam, discutam e trabalhem, em sala de aula, o documentário “Nunca me sonharam” e possam também refletir sobre sonhos, possibilidades e superação de dificuldades a que estão sujeitos todos os adolescentes e jovens.

Acredito, como disse uma professora que participou do Documentário, que “escutar a juventude também deve ser uma metodologia de escola”.

Confira o que escreveram os jovens estudantes sobre o Documentário “Nunca me sonharam”. Estas sinopses foram selecionadas entre os estudantes de 04 turmas do segundo ano do Ensino Médio do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, do turno da Manhã.

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O documentário “Nunca me sonharam” explora o cenário da educação pública do brasil. Lançado em 2017, aborda a realidade das escolas públicas no país e dá voz a estudantes, professores e responsáveis, mostrando a falta de recursos e a importância da educação para o futuro dos jovens. Oferece uma visão crítica e reflexiva sobre o sistema educacional do país, além de destacar histórias inspiradoras de jovens que superam todo tipo de adversidades para construir um futuro melhor. (estudante Iasmin Soldá)

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“Nunca me sonharam” é um documentário que apresenta as dificuldades vividas por estudantes de escolas públicas brasileiras. O documentário é protagonizado por diversos membros das comunidades escolares como estudantes, coordenadores, diretores e diretoras, vistos em rotinas diárias que se passam numa escola e as implicações que estas tem em suas vidas pessoais. As dificuldades passadas: sociais, econômicas e mentais impedem, muitas vezes, estes jovens de realizarem seus sonhos. Mas a determinação destes transforma sonhos em realidade. As ideias e os sonhos dos jovens são retratados em todo o documentário, mostrando que, mesmo sem o apoio esperado e sonhado, seus sentimentos e vontades permanecem fortes. (estudante Artur B. Costa)

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O documentário retrata como é a realidade dos jovens estudantes do ensino médio de escolas públicas do Brasil, mostrando dificuldades sociais e econômicas que estes passam, evidenciando pontos de vista diferentes. Mostra também como a escola pode ter um papel importante e uma influência na vida dos jovens, acolhendo-os e incentivando-os, para que assim possam se permitir sonhar. (estudante Nicolas Ribeiro Lima)

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“Nunca me sonharam” é um documentário impactante. Com uma abordagem sensível e honesta, mostra as dificuldades enfrentadas pelos estudantes em busca de uma educação de qualidade. Além de depoimentos de estudantes, professores e especialistas, somos levados a refletir sobre os desafios enfrentados nas escolas públicas. Aparecem questões sociais como desigualdade e falta de oportunidades para jovens de comunidades carentes. “Nunca me sonharam” é uma obra indispensável para compreendermos a realidade educacional brasileira e refletirmos sobre possíveis soluções para transformar esta realidade”. (estudante Elisa R. Rezende)

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Dirigido por Cacau Rhoden, o documentário mostra, além das histórias contadas por estudantes de escolas públicas do país, uma denúncia de descaso com a juventude. Estas histórias são capazes de gerar identificação com a gente e com as injustiças socais pelas quais passa a juventude. O documentário é um misto de alegria e de espanto, denúncia e falta de cuidados com a juventude. Com tudo isso, ele se torna um material necessário para conscientizar a população do cuidado com as próximas gerações, tanto do mundo quanto do amado Brasil”. (estudante Amanda Costa)

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“Nunca me sonharam” retrata os sonhos dos jovens estudantes do nosso país. Histórias de jovens em realidades diferentes, pensamentos diferentes e sonhos muito parecidos. Apesar das dificuldades, os jovens não deixam de sonhar e pensar num futuro melhor. O documentário passa um pouco de esperança para os jovens, mas se olharmos a realidade de nosso país, a maioria desses jovens não conseguirá realizar seus sonhos. Isso é algo realmente deprimente e triste, mas não deixa de ser a realidade da maioria dos jovens. (estudante Maria Eduarda Weber)

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Amor por um futuro, é isso que o documentário traz, o desejo e a necessidade de se sonhar.

Documentário “Nunca me sonharam” traz à tona a vivência da juventude brasileira que tem muita dificuldade em sonhar ou ser sonhada. A experiência trazida no documentário demonstra o interesse os mestres pelos seus discípulos (dos professores pelos estudantes), incentivando que os mesmos sonhem e ultrapassem os limites da realidade onde vivem. Amor por um futuro, é isso que o documentário traz, o desejo e a necessidade de se sonhar. E você? Já se sonhou hoje? (estudante Francisco E. Teixeira Filho)

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“Nunca me sonharam” conta a realidade das escolas e dos jovens estudantes de hoje em dia, apresentando as lutas e as dificuldades que todos passam. O documentário também conta como o estudo pode e deve auxiliar os adolescentes e jovens na sua trajetória de vida, com esperança no futuro e nos seus sonhos, trazendo reflexão e emoção aos telespectadores, fazendo com que estes queiram assistir cada vez mais. (estudante Amanda Borges Mateus)

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“Nunca me sonharam” é um poderoso documentário brasileiro que explora o sistema educacional do Brasil através de histórias de estudantes, professores e comunidades. Revela os desafios e esperanças daqueles que lutam por uma educação de qualidade e mostra a importância de sonhar grande para alcançar um futuro melhor. Este inspirador documentário convida a refletir sobre a importância de uma educação inclusiva e de qualidade para todos os estudantes e nos motiva a sermos agentes de mudança no sistema educacional brasileiro. (estudante Jesús Ernesto Ramirez Gomez)

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O documentário retrata a realidade dos estudantes do ensino público, proporcionando reflexões sobre o pouco investimento e incentivo que os jovens recebem para dar conta dos desafios da educação e da busca por um futuro melhor. É possível compreender e identificar-se com as condições adversas e precárias relatadas no documentário, pois estas são, muitas vezes, o que causa desmotivação dos jovens para sua qualificação pessoal e profissional. (estudante Larissa Barrill)

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Sonho de um país mais justo e igualitário começa nas salas de aula.

É um documentário que aborda de forma emocionante e reveladora a realidade do sistema educacional brasileiro. Ele mergulha nas vidas dos estudantes, professores e especialistas, mostrando o impacto da educação em suas trajetórias. O documentário mostra a falta de recursos nas escolas, como também o poder que a educação tem para transformar vidas e romper ciclos de desigualdade. “Nunca me sonharam” é um poderoso documentário que alerta a todos da importância de investir na educação como forma de construir um futuro melhor para nosso país. Através de histórias reais e emocionantes, somos lembrados de que o sonho de um país mais justo e igualitário começa nas salas de aula. (estudante Leonardo Argenta Fortes)

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O documentário “Nunca me sonharam” apresenta adolescentes e jovens com pouca perspectiva e esperança de um futuro próximo, com poucos sonhos e planos. Retrata também a realidade da educação brasileira, pondo assim, em destaque, o porquê dos estudantes deixarem a escola. Contudo, mesmo com todos os problemas e desafios, cada estudante quer apenas encontrar um lugar para descobrir suas vocações e seus sonhos. Os jovens querem sonhar e ser sonhados. (estudante Laura Grando)

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O documentário dá vozes aos estudantes, professores e gestores, enquanto explora os desafios enfrentados pelo sistema educacional no Ensino Médio. Busca, também, mostrar a importância da educação como meio de transformação social e discute algumas questões como a falta de estrutura nas escolas, a desmotivação dos estudantes e a necessidade de valorizar o papel dos educadores e professores na formação dos jovens. (estudante Samuel Amorin)

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Este documentário brasileiro, lançado em 2017, destaca os desafios enfrentados por jovens e professores em escolas precárias e aborda temas como desigualdade, falta de recursos e importância da educação para o desenvolvimento do país. O documentário oferece um olhar crítico sobre a realidade e busca promover discussões para possíveis melhorias e soluções para a educação no Brasil. (Wesley Nunes M.)

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No documentário podemos observar as condições precárias que muitos adolescentes vivem, muitos com dificuldades de ir para a escola por causa da distância e de outras realidades de carência. Ao mesmo tempo, vemos os professores e professoras abordarem o que pensam destes jovens e da realidade vivida por eles. Apesar de levarem uma vida cheia de dificuldades, os adolescentes e jovens não desistem de sonhar. Muito antes, pelo contrário, sonham para alimentar uma visão boa de futuro. (estudante Marjory Badalotto)

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“Nunca me sonharam” traz um olhar profundo sobre a realidade das escolas públicas do Brasil, através do relato de histórias dos estudantes, funcionários e professores. O documentário explora os obstáculos de estudantes que buscam uma educação de qualidade, tendo que lidar com a falta de recursos, violência e dificuldades socioeconômicas. Ao mesmo tempo destaca o papel fundamental dos educadores e professores na vida destes estudantes para que não deixem de sonhar.

Estas sinopses, acima publicadas, intencionam convidar mais professores e professoras e estudantes, principalmente de escolas públicas do Brasil, para que vejam, discutam e trabalhem, em sala de aula, o documentário “Nunca me sonharam” e possam também refletir sobre sonhos, possibilidades e superação de dificuldades a que estão sujeitos todos os adolescentes e jovens.

Assista também:  Educação é um Direito | websérie Nunca Me Sonharam | Instituto Unibanco | LEG: https://youtu.be/FG23FkuTlz4?list=PLggyRMb5eNeK7Oq2NA-lRr2FWrdTeBl1-&t=140

 Créditos:

  1. Fotos dos estudantes do Instituto Estadual Cecy Leite Costa: Douglas Pereto/ https://www.instagram.com/cecynarede/
  2. Fotografias publicadas entre as sinopses: Divulgação/ Documentário Nunca me Sonharam: https://youtu.be/wNkB7RVXLJw?t=14

Edição: A. R.

Temos sede de amor, porque só o amor nos sacia verdadeiramente

“Continuemos a crescer juntos na fraternidade, como sementes de paz num mundo tristemente funestado por demasiadas guerras e conflitos”, saudação de Papa Francisco a irmãos e irmãs de outras confissões cristãs e religiões, durante homilia na Mongólia, em 03/09/2023.

“Trazemos dentro de nós uma sede inextinguível de felicidade; andamos à procura de significado e orientação para a nossa vida, de motivação para as atividades que realizamos cada dia. Queridos irmãos e irmãs, a fé cristã é resposta a esta sede”, disse Francisco em sua homilia.

O Papa Francisco celebrou a missa na “Steppe Arena”, neste domingo (03/09), em Ulan Bator, no âmbito de sua viagem apostólica internacional à Mongólia. Participaram da missa mais de duas mil pessoas, dentre as quais peregrinos das Filipinas, Vietnã e Camarões.

Francisco iniciou sua homilia, citando o Salmo 63 que diz: «Ó Deus, (…) a minha alma tem sede de Ti, todo o meu ser anela por Ti, como terra árida, exausta, sem água». A seguir, recordou que Jesus “nos mostra o caminho para ficarmos saciados: é o caminho do amor, que Ele percorreu até o fim, até à cruz”.  Depois, o Papa se deteve em dois aspectos: a sede que nos habita e o amor que sacia a nossa sede.

Peregrinos à procura da felicidade

Papa Francisco é recebido por crianças na Prefeitura Apostólica, em Ulaanbaatar / Foto: REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

“Primeiramente, somos chamados a reconhecer a sede que nos habita“, disse o Papa, recordando que “o salmista grita para Deus a sua secura, porque a sua vida se assemelha a um deserto. As suas palavras têm uma ressonância particular numa terra como a Mongólia: um território imenso, rico de história e cultura, mas caraterizado também pela aridez da estepe e do deserto”. “Muitos de vocês estão habituados ao encanto e à fadiga de caminhar. Com efeito, todos somos «nômades de Deus», peregrinos à procura da felicidade, viandantes sedentos de amor”, disse o Pontífice, acrescentando:

Assim o deserto evocado pelo salmista refere-se à nossa vida: somos aquela terra árida que tem sede de água límpida, água que mata a sede em profundidade; é o nosso coração que deseja descobrir o segredo da verdadeira alegria, aquela que nos pode acompanhar e sustentar mesmo no meio da aridez existencial.

“É verdade! Trazemos dentro de nós uma sede inextinguível de felicidade; andamos à procura de significado e orientação para a nossa vida, de motivação para as atividades que realizamos cada dia; e sobretudo temos sede de amor, porque só o amor nos sacia verdadeiramente, faz sentir bem, abre à confiança fazendo-nos saborear a beleza da vida. Queridos irmãos e irmãs, a fé cristã é resposta a esta sede.”

A seguir, Francisco passou ao segundo aspecto: o amor que sacia a nossa sede. Segundo o Pontífice, “este é o conteúdo da fé cristã: Deus, que é amor, no seu Filho Jesus, fez-se próximo de ti, deseja partilhar a tua vida, as tuas fadigas, os teus sonhos, a tua sede de felicidade. É verdade que, às vezes, nos sentimos como terra deserta, árida e sem água, mas é igualmente verdade que Deus cuida de nós e nos oferece a água límpida e refrescante, a água viva do Espírito que, brotando em nós, nos renova, libertando-nos do perigo da secura. Esta água nos é dada por Jesus”.

Só o amor sacia verdadeiramente a nossa sede

Recordando as palavras de Santo Agostinho, «Deus teve misericórdia de nós e abriu-nos um caminho no deserto: nosso Senhor Jesus Cristo. E proporcionou-nos uma consolação no deserto: os pregadores da sua Palavra», o Papa disse:

Estas palavras, queridos amigos, recordam a vossa história: nos desertos da vida e nas limitações por serdes uma comunidade pequena, o Senhor não vos deixa faltar a água da sua Palavra, especialmente através dos pregadores e missionários que, ungidos pelo Espírito Santo, a semeiam em toda a sua beleza. E a Palavra sempre nos remete para o essencial da fé: deixar-se amar por Deus para fazer da nossa vida uma oferta de amor. Porque só o amor sacia verdadeiramente a nossa sede.

“Se pensamos que o sucesso, o poder, as coisas materiais são suficientes para saciar a sede de nossas vidas, esta é uma mentalidade mundana, que não leva a nada de bom, pelo contrário nos deixa mais áridos do que antes”, sublinhou Francisco.

O melhor caminho de todos é este: abraçar a cruz de Cristo

Irmãos, irmãs, o melhor caminho de todos é este: abraçar a cruz de Cristo. No coração do cristianismo, temos esta notícia impressionante e extraordinária: quando perdes a tua vida, quando a ofereces generosamente, quando a pões em risco comprometendo-a no amor, quando fazes dela um dom gratuito para os outros, então a vida volta para ti em abundância, derrama dentro de ti uma alegria que não passa, uma paz do coração, uma força interior que te sustenta.

“Esta é a verdade que Jesus nos convida a descobrir, que Jesus quer desvendar a todos vós, nesta terra da Mongólia: para ser feliz, não serve ser grande, rico ou poderoso. Só o amor nos sacia o coração, só o amor cura as nossas feridas, só o amor nos dá a verdadeira alegria. Este é o caminho que Jesus nos ensinou e abriu para nós. Com a graça de Cristo e do Espírito Santo, poderemos trilhar o caminho do amor”, concluiu.

Obrigado, por serdes bons cristãos e honestos cidadãos

No final da missa celebrada em Ulan Bator, o Papa Francisco saudou os presentes, dizendo que partiu “para esta peregrinação animado de grande esperança, no desejo de os encontrar e conhecer”.

Obrigado, por serdes bons cristãos e honestos cidadãos! Ide em frente, com mansidão e sem medo, sentindo a proximidade e o encorajamento de toda a Igreja, e sobretudo o olhar terno do Senhor que não se esquece de ninguém e olha com amor para cada um dos seus filhos.

A seguir, o Papa saudou os bispos, os sacerdotes, os consagrados e consagradas, e todas as pessoas de várias regiões do imenso continente asiático que foram à Mongólia. Expressou particular reconhecimento a quantos ajudam a Igreja local, apoiando-a espiritual e materialmente. Agradeceu ao presidente e às autoridades pelo acolhimento e cordialidade, bem como por todos os preparativos realizados.

Continuemos a crescer juntos na fraternidade

A seguir, saudou de coração os irmãos e irmãs de outras confissões cristãs e religiões:

Continuemos a crescer juntos na fraternidade, como sementes de paz num mundo tristemente funestado por demasiadas guerras e conflitos.

Francisco agradeceu também a todos aqueles que trabalharam para tornar frutuosa e possível esta viagem, e a quantos a prepararam com a oração.

A palavra «obrigado», na língua mongol, deriva do verbo «regozijar-se». “O meu obrigado corresponde a esta bela intuição da língua local, pois é cheio de alegria”, disse Francisco, acrescentando: “É um obrigado grande a vós, povo mongol, pelo dom da amizade que recebi nestes dias, pela vossa capacidade genuína de apreciar até os aspectos mais simples da vida, de preservar sabiamente as relações e as tradições, de cultivar com cuidado e solicitude a vida do dia-a-dia.”

Eucaristia, centro vital do Universo

“A missa é ação de graças, “Eucaristia”. Celebrá-la nesta terra fez-me lembrar a oração do padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, elevada a Deus exatamente há 100 anos, no Deserto de Ordos, não muito distante daqui. Diz assim: «Prostro-me, meu Deus, diante da vossa presença no Universo volvido ardente e, sob os traços de tudo o que eu encontrar, e de tudo o que me acontecer, e de tudo o que realizar no dia de hoje, desejo-vos e espero-vos»”, disse o Papa.

O Padre Teilhard estava ocupado com pesquisas geológicas. Desejava ardentemente celebrar a Santa Missa, mas não trazia consigo nem pão nem vinho. Eis, então, que compôs a sua “Missa sobre o Mundo”, expressando assim a sua oferenda: “Recebei, Senhor, esta Hóstia total que a Criação, movida pelo vosso apelo, vos apresenta na nova aurora”.

Segundo o Papa, “uma oração semelhante já havia surgido em sua mente, enquanto se encontrava na frente de batalha, durante a Primeira Guerra Mundial, servindo como carregador de macas”.

“Este sacerdote, muitas vezes incompreendido, tinha percebido que «a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo» e é «o centro vital do Universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim», inclusive num tempo como o nosso, de tensões e de guerras”, sublinhou Francisco, citando alguns trechos de sua Encíclica Laudato si’.

“Irmãos e irmãs da Mongólia, obrigado pelo vosso testemunho! Que Deus vos abençoe. Estais no meu coração e, no meu coração, permanecereis. Por favor, lembrai-vos de mim nas vossas orações e nos vossos pensamentos”, concluiu.

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Créditos: Jornalista Mariangela Jaguraba – Vatican News

FOTO DE CAPA: Papa Francisco cumprimenta um membro da delegação budista da Mongólia, que visitava o Vaticano em maio de 2022 /Foto: Vatican Media via Reuters.

FONTE:https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2023-09/papa-francisco-missa-viagem-apostolica-mongolia-amor-sede-vida.html

Edição: A.R.

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