As experiências da participação política no Brasil de grupos mais progressistas contaram com o apoio efetivo de segmentos religiosos. Isso contraria a tese de que correntes de esquerda são ateias ou são contrárias à religião.
Muito falacioso quando correntes teóricas ou politicamente conservadoras ou radicais pensam que todas as correntes de esquerda são ateias ou são contrárias a religião. Muito pelo contrário, as experiências da participação política no Brasil de grupos mais progressistas contaram com o apoio efetivo de segmentos religiosos. Isto é, seja de direita, centro ou esquerda as conexões com grupos religiosos no tocante a questões políticas na realidade brasileira é inevitável, eu diria, até desejável por todos os grupos.
No período nefasto da Ditadura Militar (1964-1985), a teologia da libertação que estava presente fortemente na Igreja Católica, e alguns grupos protestantes, resistiram bravamente contra a tortura, censura e as mortes. As lideranças religiosas em seus templos motivavam seus fiéis a defenderam a democracia e não aceitarem qualquer forma de autoritarismo.
Nos anos de 1970 e 1980, surgiram do seio da Igreja Católica e de algumas Igrejas Protestantes, padres, bispos, pastores e leigos dispostos a lutar para um Brasil melhor. No contexto do catolicismo brasileiro, as comunidades eclesiais de base (CEBs), destacam-se como modelo popular de organização política, que desenvolveu trabalhos importantes na luta pela reforma agrária, questão da imigração, saúde, educação, segurança pública, mulheres, indígenas e juventude. Surgem as pastorais sociais, grupos de discussão sobre fé e política, fortalecimento da Campanha da Fraternidade, jovens progressistas e diversos trabalhos sociais nas periferias do Brasil.
A criação do Partido dos Trabalhadores (PT) foi possível graças a articulação e protagonismos das CEBs (não somente, é claro). A Igreja Católica do Brasil contribui para a criação do maior partido de esquerda da América Latina nos dias atuais. Lideranças católicas ajudaram na construção do conteúdo programático, implantação dos diretórios, novos filiados, organização institucional, formação política, articulação política e no envolvimento das eleições.
Nascia no início dos anos 1980, o primeiro partido de base popular progressista do Brasil. Muita esperança depositada neste momento da história política do Brasil, liderado pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Isto mostra as conexões históricas que as esquerdas brasileiras têm com questão religiosa.
O PT rapidamente expandiu pelo Brasil. Nos anos de 1990, o PT, já era o maior partido de oposição a nível nacional no regime democrático. Com discurso atual, sempre conectado com a suas bases e linguagem jovial conseguia contundentemente criticar as políticas neoliberais que vinham sendo implantadas no Brasil pelo governo do sociólogo Fernando Henrique Cardosos (FHC). Nos anos 1990, consegue chegar ao poder em algumas cidades importantes do Brasil e eleger número significativos de deputados federais, deputados estaduais e senadores.
A partir da década de 1990, percebemos o enfraquecimento do trabalho popular das CEBs. Contudo, as lideranças surgidas deste contexto religioso-político, firmaram-se como alternativas políticas para cargos executivos e legislativos, a exemplo da Marina Silva, Alessandro Molon, Patrus Ananias, Chico Alencar, dentre outros. Dito de outra forma: dificilmente, sem as correntes progressistas religiosas, o PT teria esta grande dimensão.
Essa queda dos setores vinculados a teologia da libertação no contexto católico está umbilicalmente ligada a restauração conservadora conduzida pelo Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI. Ambas lideranças católicas incentivaram a criação de organismos católicos de espectro político conservador, liberal e de direita, a exemplo da Renovação Carismática Católica, Comunhão e Libertação, Focolares e dentre outros movimentos. Apoiaram publicamente movimentos sociais contrários ao comunismo, trabalharam para a queda da União Soviética, e silenciaram, expulsaram e censuraram expoentes da teologia da libertação no interior dos quadros da Igreja Católica. Ainda promoveram reforma na formação dos seminaristas, (re)divisão das dioceses no Brasil e nomeação de bispos mais conservadores.
Depois de 4 derrotas seguidas para eleição presidencial, Lula, modifica um pouco o seu estilo. Em 2002, aproxima de outras correntes religiosas (Igreja Universal do Reino De Deus, Assembleia de Deus, e outras Igrejas) e do espectro político centro-direita e consegue eleger-se presidente. Não tenha dúvidas que a gestão petista a frente do governo brasileiro foi um marco de mudanças na nossa sociedade. Nunca tivemos tantas políticas públicas voltados para as pessoas marginalizadas e um bom período econômico.
Entretanto, em nome da governabilidade e para a perpetuação no poder, bandeiras históricas construídas na Igreja Progressistas pouco avançaram. Podíamos ter ampliado a questão da reforma agrária, ampliado os direitos indígenas, democratizado os meios de comunicação, taxado as grandes fortunas, reforma política, os investimentos feitos em projetos sociais deveriam pensar mais a qualidade e não a quantidade, uma política mais efetiva no combate as questões ambientais, e atendimento mais efetivo as pautas identitárias: combate ao preconceito as minorias. Isto é, em vez disso, promovemos amplo crescimento econômico, vários projetos sociais, mais não uma reforma estrutural que o Brasil precisava, e que era o sonho desde a criação do partido.
O PT virou amigo dos bancários, pastores fundamentalistas, empresários que pensam apenas em seus lucros, e deslocou da sua base. Com o golpe aplicado em 2016, torna-se necessário o partido encontrar-se com sua história e sua base. Não é algo simples.
O PT, como as esquerdas, necessitam ouvir mais o povo pobre e incluir em suas demandas e reivindicações. Lógico que não temos mais aquele progressismo na Igreja Católica. Temos muitas lideranças religiosas e de movimentos sociais que estão dispostos a reconstruir um partido que deu muita contribuição para o Brasil. Faz-se necessário e urgente este movimento.
O primeiro grande inimigo que precisa ser derrotado é o bolsonarismo. Caráter fascista, autoritário e pseudo-liberal tem demostrado fortalecimento nos últimos anos. Os setores progressistas católicos e evangélicos são essenciais neste movimento. Papa Francisco tem ajudado nesta linha de pensamento. Publica livros, faz pronunciamentos e ações práticas afirmando que a política deve ser voltada para o pobre.
Esta é a centralidade do evangelho. Promover a dignidade humana dos desfavorecidos.
Volto a dizer, voltar as bases deve ser obrigação para continuar o processo de reconstrução.
Docente com maior tempo em atividade na Instituição, a relação de trabalho do professor com a Universidade de Passo Fundo (UPF) iniciou em 1978, no curso de Filosofia.
Com uma história de 45 anos de dedicação ao ensino e à pesquisa, o professor Dr. Eldon Henrique Mühl recebeu, nesta terça-feira, 6 de fevereiro, a portaria de jubilamento. O documento, conferido aos docentes que completam 70 anos, foi entregue pelo pró-reitor acadêmico, Edison Alencar Casagranda e pelo diretor do Instituto de Humanidades, Ciências, Educação e Criatividade (IHCEC), Luiz Marcelo Darroz.
A relação de trabalho do docente com a Universidade de Passo Fundo (UPF) iniciou em 1978, no curso de Filosofia. Com isso, o professor se tornou o profissional com maior tempo em atividade na Instituição. Durante mais de quatro décadas de trabalho, atuou de forma direta com pesquisa e com a formação de professores.
“A Universidade me oportunizou, não só concluir minha graduação, como também iniciar meu trabalho e realizar o meu mestrado e doutorado. A instituição se faz pela solidariedade, pelo apoio entre os professores e gestores e eu sempre tive esse reconhecimento e esse apoio”, afirmou.
O professor foi um dos fundadores dos cursos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu). “Começamos a perceber a necessidade de qualificar mais os professores e então começamos a pensar a pós-graduação. Em 1997 foi criado o programa mestrado. Antes disso, também começamos a solidificar a pesquisa, com a criação de grupos de pesquisa e fazer articulações no sentido de buscar apoio para desenvolver a pesquisa, especialmente das ciências humanas e educação”, comentou Eldon.
O pró-reitor da UPF, Edison Casagranda, enalteceu o trabalho desenvolvido pelo professor por mais de 40 anos na Universidade.
“O professor Eldon tem uma formação na área da Filosofia, mas contribuiu para o fortalecimento da formação na área de humanidades como um todo. Foi diretor da Faculdade de Educação por mais de uma vez, coordenador do PPGEdu, sendo um dos dos fundadores do programa, então, ele tem uma história como poucos de vínculo afetivo profissional com a UPF. Sem dúvida, a presença dele aqui dentro da Instituição fez diferenças significativas do ponto de vista de gestão, do ponto de vista de docência, de pesquisa, ele é um professor completo, eu diria”, destacou o pró-reitor.
Assessoria de Imprensa: Universidade de Passo Fundo
Uma das funções básicas do Planejamento é produção de sentido: afinal de contas, o que estamos fazendo aqui na escola, na sala de aula, qual a finalidade maior de nosso trabalho, que ser humano desejamos formar, como vemos a realidade, o que vamos fazer para alcançar nossos objetivos? A atribuição de sentido é uma das necessidades humanas mais radicais.
I-Convite à Leitura
Prezada Professora, Prezado Professor,
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer[1] o fato de estar aí, agora, fazendo a leitura deste texto[2]. Esta sua atividade de estudo abre caminho para que o texto cumpra sua função social de ajudar a concretizar uma Educação Democrática e Humanizadora, em que há Aprendizagem Efetiva, Desenvolvimento Humano Pleno (na perspectiva do Bem Comum) e Alegria Crítica/docta/Gaudium Spes de cada um e de todos os educandos, pautada na Liberdade, na Justiça Social, na Autonomia Crítica, na Amorosidade, na Responsabilidade (por Si, pelo Outro e pelo Mundo) e na Paz.
Ele foi escrito para você mesmo (e não para a academia, para “abastecer o meu Currículo Lattes”, ou por pressão de alguma editora)!
Trata-se de uma reflexão que se quer pautada na criticidade, totalidade, historicidade e amorosidade, cuja leitura pode começar por qualquer um dos itens já que, embora interligados, têm independência, não exigem nem são “prerrequisito”. Sua leitura não é tarefa fácil, uma vez que supõe, em alguma medida, perceber o sentido do Planejamento, o Querer Planejar (e não o “deixar-se levar”), que supõe o Querer Ser um Bom Professor (e não um simples “dador de aula”, ”tomador de conta de aluno” ou “leitor de powerpoint preparado por não sei quem”)[3], o que supõe, ao fim e ao cabo, o Querer Viver (intensamente, estar “vivo até a morte”-Ricoeur, para além dos quadros de desânimo crônico, depressão ou pensamentos suicidas), a histórica e ontológica vocação de Ser Mais (Freire)!
Apesar de tudo, e por tudo, a Escola é um dos poucos espaços que nos restam para fazer um trabalho humanizador “em larga escala”, afinal, temos na Educação Básica praticamente todas as crianças (e uma grande parcela da adolescência e juventude), por muitos anos, numa fase absolutamente fundamental na constituição da personalidade, e com a possibilidade de se fazer um trabalho coletivo pautado num Projeto Educativo construído participativamente. Apesar dos limites e contradições, certamente, não é pouca coisa!!!
Sem querer generalizar, dada a enorme diversidade[4] (cerca de 2 milhões e meio de docentes, 180 mil escolas só na Educação Básica, atuação em diferentes níveis e modalidades de ensino, localização etc.) tenhamos presente que a situação de muitos Professores[5] não está fácil.[6]
São inúmeros os problemas que muitos docentes enfrentam em seu dia a dia: salário defasados ou aviltados, ausência ou falta de cumprimento de planos de carreira, falta de concurso, precarização do vínculo de trabalho, contratos temporários, número elevado de alunos em sala, frágil formação inicial, ausência ou má utilização do espaço de trabalho coletivo constante (HTPC/ATPC), gestão pouco democrática, instalações e equipamentos inadequados, quadro funcional incompleto, falta ou imposição de material didático, baixa interação da escola com a comunidade, inclusão “de fachada”, Projeto Político-Pedagógico “de gaveta”, desinteresse dos alunos, desconfiança dos pais e da sociedade em relação à Ciência e ao Professor (Escola Sem Partido, Escolas Cívico-Militares, Homeschooling/Ensino Doméstico, gravação de aulas e de conversas, processos contra escolas e docentes), o currículo disciplinar instrucionista e a avaliação classificatória e excludente e, no polo oposto, a prática pedagógica espontaneísta, especialmente quando aplicada aos filhos da classe trabalhadora, com a perversa negação dos saberes necessários para sua formação omnilateral/integral (escola do conhecimento para os ricos x escola de acolhimento social para os pobres-Libâneo), alta rotatividade de professores, funcionários terceirizados, excesso de burocracia, a neurose da avaliação externa em função das políticas neoliberais vinculadas à competição entre escolas, à meritocracia e à responsabilização exclusiva das escolas e educadores pelos resultados, vigilância, punição de escolas e de docentes, descontinuidade das políticas públicas para a educação, processo de destituição do professor da condição de sujeito da prática pedagógica etc.
Na Ética, Espinosa afirma que “Tristeza é o que sentimos ao perceber que nossa capacidade de agir encontra-se diminuída ou entravada”. Muitas vezes, os professores estão tristes justamente por experimentarem uma enorme impotência.
Diante disto, como nos posicionar, pessoal e coletivamente? Se não pedimos demissão[7] e não queremos ficar por inércia, coisificados ou alienados esperando um “salvador da pátria”, o que fazer? Parece-nos importante alertar, de imediato, a não cairmos na armadilha dicotômica, maniqueísta que, de um lado, desresponsabiliza totalmente o professor, colocando tudo na conta do sistema social e educacional ou, de outro, isenta o sistema e coloca tudo nas costas do professor. Não! Entendemos que o professor não é nem vítima nem vilão, mas sujeito de transformação! (Vasconcellos, 2017g)
Alguém poderia dizer: “Professor, desculpe, mas com tantos problemas e desafios que temos no cotidiano da escola, o senhor vem falar de Planejamento? Perdão, mas o Planejamento não diminui o número de alunos em sala, nem paga os boletos!”. De fato, como acabamos de ver, o cotidiano escolar está perpassado por enormes e intrincados desafios, não temos a menor dúvida! Mas justamente por isto é que afirmamos que o Planejamento importa, que pode fazer muita diferença! É verdade também que o Planejamento, de imediato, não diminui o número de aulas que o professor tem de dar para sobreviver, nem a excessiva burocracia e cobrança dos órgãos gestores. Todavia, o autêntico Planejamento (não o preenchimento formal de planilhas) dá sentido à Atividade Docente e, assim, dá energia para lutar por melhores condições de trabalho!
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. (Marx, 1980: 202)
Por detrás de toda prática (ou de toda decisão pela inação) sempre há uma justificativa, uma ideia, uma representação mental, uma concepção, um entendimento, uma explicação, um suporte reflexivo, um plano, uma teoria (latu senso), uma mediação simbólica. Sonhar, planejar, projetar é preciso!
Sabemos que o que nos mata não é só a (sobre)carga de trabalho, mas também –e, algumas situações, sobretudo– a falta de sentido do trabalho! É comonos diz o Prof. Oswaldo Giacóia Junior, o insuportável não é a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido! Se o Professor não encontrar sentido em sua atividade, não há condições objetivas favoráveis que possam realizá-lo! Entendemos que, do ponto de vista subjetivo, um dos maiores desafios dos Docentes em relação ao Planejamento não se encontra no campo dos Saberes Conceituais, nem dos Saberes Procedimentais (embora haja questões importantes a serem resolvidas nestes campos), mas no campo dos Saberes Atitudinais: ver Sentido no Planejamento, Querer Planejar!
No esquema acima, representamos, didaticamente, os limites internos e externos por círculos. No concreto da escola, não é assim que acontece, uma vez que para cada campo de atuação teremos diferentes níveis de limites. O esquema a seguir traz uma representação mais condizente com a prática.
No esquema acima, representamos, didaticamente, os limites internos e externos por círculos. No concreto da escola, não é assim que acontece, uma vez que para cada campo de atuação teremos diferentes níveis de limites. O esquema a seguir traz uma representação mais condizente com a prática.
A zona de ação atual do sujeito/grupo, normalmente, é definida muito mais pelos limites internos do que pelos externos. A zona de repressão representa aqueles aspectos em que claramente o sujeito/grupo já avançou, mas é barrado pelo limite externo. (Vasconcellos, 2017f: 222)
A Zona de Autonomia Relativa revela que temos o que fazer já, coisas que não só estão ao nosso alcance como também que, caso não as desenvolvamos, muito provavelmente ninguém poderá fazê-las em nosso lugar (por exemplo, no momento da dificuldade do aluno em sala), tendo, portanto, uma repercussão ética (atuar sobre um campo que é de nossa responsabilidade). Ao mesmo tempo, revela-nos que temos espaços para lutar contra a lógica maior que dificulta nossa prática.
Analisando as instituições que fazem diferença, os docentes que fazem diferença, percebemos que não são aqueles que ficam esperando o mundo mudar para daí tentar fazer algo melhor, mas sim aqueles que, ao mesmo tempo em que estão comprometidos com a mudança do mundo, das grandes estruturas, engajam-se na mudança daquilo que é possível na escola (e que até então parecia impossível, nem tanto por uma análise criteriosa, mas muito mais pelo peso da tradição, do costume, da normose, do “sempre foi assim”, da crença no “uma pessoa não vai mudar a realidade”, “você é muito jovem, vai ver que não adianta” etc.). Se, por exemplo, posso participar da construção do Projeto Político-Pedagógico de minha instituição, se posso levar em conta o conhecimento prévio do meu aluno, se posso respeitar sua cultura, sua história de vida, se posso construir o contrato didático em sala de aula etc., não vou fazê-lo porque a sociedade, os meios de comunicação, os governantes, os políticos, os pais, ainda não fizeram suas respectivas partes? Seria esta uma postura adulta, digna, ética?
Relatamos acima um enorme conjunto de problemas que os docentes enfrentam no chão da escola (e da sociedade), E, apertem os cintos!, não vemos perspectiva de uma mudança geral substancial a curto prazo! É preciso um posicionamento: assumir a docência em sua concretude, o que implica assumir que esta é a realidade! Ou, mais precisamente, que esta vem sendo a realidade. Afirmar que “esta é” a realidade remete a uma espécie de “essência metafísica”[8], algo que não pode ser mudado. Dizer “vem sendo” remete à ideia de plasticidade, de mudança, de processo. Assim, afirmar que “esta é/vem sendo a realidade” não deve ser entendido como um convite ao conformismo, ao imobilismo, ao fatalismo. Pelo contrário, é uma provocação: este é o ponto de partida para a transformação! Objetivamente, não é possível qualquer transformação se não partimos da realidade concreta; a ação transformadora se dá sobre um objeto concreto e não sobre uma abstração.
O “núcleo duro” do Planejamento, do ponto de vista metodológico, é constituído por um tripé básico: Realidade, Finalidade e Plano de Ação. Portanto, querer desconsiderar a realidade que vivemos é uma contradição que desconfigura o Planejamento enquanto instrumento teórico-metodológico de transformação! Devemos, pois, compreender a realidade para negá-la dialeticamente, para transformá-la: “…no conhecimento e explicação do que existe abriga(-se) paralelamente o conhecimento de sua negação…” (Marx, 1980: 17).
Pois bem, diante desta realidade, se não pedimos demissão, temos todo o trabalho docente a ser realizado! Alguns professores chegam a se referir ao cotidiano escolar, da sala de aula, como “inferno”. Ocorre que o “inferno” pode ficar maior ou menor de acordo com a postura, com a atitude que, pessoal e coletivamente, assumimos!
Em grandes linhas, para transformar a realidade, é preciso transformar as Estruturas e as Pessoas, as Pessoas e as Estruturas, num movimento dialético de aproximações sucessivas! Colocarmo-nos como super-heróis não vai resultar mudança porque, na real, não temos superpoderes… Colocarmo-nos como vítimas não vai resultar mudança porque ninguém virá nos salvar… É preciso assumirmos nossa condição de Seres Humanos Contraditórios, ocupar nossa Zona de Autonomia Relativa e, solidariamente, colocarmo-nos na luta contra as Estruturas Desumanas (ou com aquilo de desumano que as estruturas contém), e contra Nossa Desumanidade (aquilo que dentro de mim nega a humanidade do outro e a minha). (Não tão) Simples assim!
Algumas possibilidades de ação para ajudar a resgatar nossa potência, nossa alegria em meio a todos os limites e contradições que vivemos:
Perspectiva mais Geral
Sindicato: participar e, se necessário, fazer oposição ou mesmo criar novas alternativas
Apoio do Setor Jurídico da Mantenedora, do Sindicato, de Empresa Júnior de Faculdade de Direito
Ministério Público
Associação Científica (ex.: Anped)
Participação no Conselho Municipal de Educação
Partidos políticos; não “esquecer” em quem votou!
Igrejas, terreiros, centros
Voto Consciente.
Perspectiva mais Institucional
Parceria com Funcionários, Colegas Docentes, Direção Escolar, Coordenação Pedagógica, Orientação Educacional, Supervisão de Ensino que tenham humanidade preservada
Parceria com os Estudantes: representantes de classe, grêmio, grupos de interesse (teatro, produção de mídia digital, cinema, literatura, matemática, iniciação científica. Muitas vezes, no calor da luta, deixamos de lado este poderoso fator de pressão e mudança![9]
Mudança de prática em sala de aula; superação do currículo disciplinar instrucionista (professor falando, falando, falando) e da avaliação classificatória e excludente (preocupação em reprovar ou aprovar, ao invés de focar na aprendizagem efetiva, no desenvolvimento humano pleno e na alegria crítica). Aluno não vai para a escola para ser aprovado ou reprovado, mas qualificado!
Participação efetiva nas Reuniões Pedagógicas Semanais (HTPC, ATPC, JEIF, H.A.)
Participação na Construção do PPP da Escola
Participação no Conselho de Escola
Rede de Apoio à Escola (Conselho Tutelar, CRAS-Centro de Referência de Assistência Social, UBS/SUS, Secretarias de Educação, Saúde, Cultura, Direitos Humanos, outras Escolas da região, Associação de Moradores, Associação de Pais e Mestres etc.).
Perspectiva mais Pessoal
Amizade: pode até parecer estranho para alguns, num primeiro momento, todavia, nos dias que correm, com níveis de esgarçamento das relações, de dispersão, de degradação social e ético-política tão grandes, a amizade é um Ato Revolucionário! Num mundo em que tudo virou mercadoria, em que tudo é mediado pelo interesse, pelo “metal sonante”, pelo dinheiro, a amizade é gratuita. Amigos são poucos, colegas são muitos. Amigos são aqueles com quem podemos abrir nosso coração. Chega um momento na vida da pessoa que, se não tiver o engendramento, o reconhecimento verdadeiro de alguém, vai à doença, à loucura, à desistência, como afirma a psicanalista francesa Françoise Dolto: Qualquer homem, se não tiver seres humanos que respondam por ele, ou pelo menos um único amigo para justificá-lo, pode abandonar-se ao desespero. Pode então duvidar de sua própria validade, da de seu desejo e de seus atos. (1981a: 64).
Em tempos de amor líquido (Bauman), de pós-pandemia, de fragmentação e fragilidade dos vínculos, na verdadeira amizade podemos experimentar o Afeto Radical, que é aquele que nos aceita do jeito que somos, que critica nossos erros, mas a partir de um respeito e de uma aceitação profunda da nossa pessoa.
Grupo de Vida/Estudo uma importante alternativa é a formação de grupos de educadores para partilha, estudo, reflexão e, depois de algum tempo, se for o caso, ação. O grupo é formado por colegas que estão vivos, que ainda não entregaram os pontos, que ainda acreditam na educação como prática da liberdade. Geralmente, são grupos não muito grandes, com educadores de diversas escolas mais ou menos da mesma região, sem que o grupo esteja vinculado à instituição escolar, para não perder a autonomia. O importante, num primeiro momento é procurar identificar quem podem ser estes nossos companheiros, e começar a refletir junto. Cremos que, no momento, esta é uma prática muito significativa, tal o estado de desmonte, de alienação a que chegamos. Pode parecer pouco, porém não é, pois uma das piores coisas para o professor, especialmente com o avanço dos ataques neoliberais, neofascistas, é a solidão, o sentimento de isolamento, de abandono.
No grupo, pode partilhar as conquistas assim como as dores, as angústias, produzir, inventar micro eventos que levem a pequenos afetos alegres (Espinosa), e a sonhar juntos, visto que a dominação precisa de corpos tristes (Espinosa, Deleuze). Temos de ser mais humildes, valorizar estes pequenos passos possíveis de serem dados na nova direção, lembrando que não estamos sozinhos nesta luta. O grupo de estudo, composto espontaneamente, com pessoas com as quais temos afinidades, possibilita a conversa, a prosa, o diálogo, a livre associação, além do aprofundamento do estudo individual, da troca intelectual e da comunhão de vida.
Grupo de Acolhimento, formado por professores, para colegas vítimas de ataques pessoais, violência, cyberbullying, perseguidos e/ou fragilizados, enquanto se busca apoios institucionais na escola e na sociedade.
Terapia (há atendimento psicológico gratuito disponibilizado em UBSs).
Estudo Pessoal, Pesquisa: através do estudo individual, a pessoa pode vivenciar a dialética Cognição-Afetividade: se é certo que o afeto interfere na cognição (como a Neurociência deixa tão evidente hoje), a recíproca também é verdadeira: há uma influência da cognição na afetividade.[10] Na medida em que o sujeito vai conhecendo, adquirindo certos saberes, isto o fortalece seu ânimo, o desejo, a esperança, a alegria, amplia sua potência. Espinosa é bastante provocativo ao afirmar o conhecimento como o mais potente dos afetos (1979). Valorizar as indagações, indignações, intuições pessoais (e coletivas). Além disto, pelo estudo pode usufruir do prazer de aprender de conhecer, que Freud compara ao prazer sexual.
Observação da Natureza: sua beleza, sua gratuidade, seu ritmo, suas conexões.
Silêncio, reflexão, meditação.
Espiritualidade, enquanto Produção de Sentido: procurar sair do “piloto automático”; refletir sobre o sentido da vida.
Devir-Criança: observar ou, sobretudo, conviver com crianças que ainda são crianças, que mantém a alma infantil: alegria, imaginação/criatividade, ingenuidade/crença/pureza, curiosidade/encantamento, atividade/presença/brilho/potência vital/pulsão de vida, espontaneidade, sinceridade, capacidade de perdão, ludicidade, esperança, transcendência/persistência e amorosidade! Resgatar a própria criança interior. Um caminho privilegiado para isto é o brincar, que é, por sua vez, a atividade principal da criança, a base do desenvolvimento infantil: É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self) (…) É no brincar e na criatividade que ele reconhece que a vida vale a pena de ser vivida (Winnicott, 1975: 80; 95).
Entendemos que uma das grandes aprendizagens que nós, professores, podemos fazer com as novas gerações, em especial pelo seu olhar, é a permanente e insistente a capacidade de perguntar pelo sentido das coisas!
E o tempo para isto? Tempo, como sabemos, em certa medida, é uma questão de preferência. Uma dica: estar muito atento aos mecanismos de distração programada; assumir o controle do tempo utilizado nas redes digitais. Focar!
Mais do que nunca:
Há homens [e mulheres] que lutam um dia e são bons
O objetivo desta Coletânea de Textos é, a partir de uma reflexão que se quer crítica, rigorosa e amorosa sobre o Planejamento, ajudar a fortalecer o ânimo, a esperança, a potência dos professores no seu desafiante cotidiano em sala de aula e na escola, num quadro social (tanto nacional quanto mundial) bastante preocupante, para dizer o mínimo. Para isto, nos pautamos, entre outras coisas, na Pedagogia da Esperança (Freire) e no Princípio Esperança (Bloch).
Nossa intervenção, através deste texto, se dá no seu campo de possiblidade que é da ordem do simbólico, qual seja, das ideias, teorias, representações, manifestadas através dos argumentos, das justificativas, das problematizações etc. A teoria, a mediação simbólica, não é suficiente, uma vez que o que muda a realidade é a prática.
A questão é que não é qualquer prática que produz a mudança desejada. A prática, para ser transformadora, precisa ser atravessada por uma intencionalidade (saber o que se quer), por uma leitura crítica da realidade (saber onde se está) e por um plano de ação (saber o que fazer), que corresponde às três dimensões metodológicas nucleares da Atividade Humana: Projeção de Finalidades, Análise da Realidade e Elaboração do Plano de Ação.
Qual seja, a prática precisa ser mediada por elementos teóricos! O importante, logo de início, é perceber que a teoria é necessária, mas não suficiente. Para que possa dar sua contribuição específica, a teoria deve se deixar desafiar pelo contexto concreto que inclui afetos, cultura, condições políticas e materiais de trabalho etc.
Sabemos que para alguns educadores, talvez, as reflexões aqui propostas possam ser desqualificadas, tratadas com desdém, entendidas como “blábláblá”: “é tudo teoria”, “o papel aceita qualquer coisa”, “na prática a teoria é outra”.
Efetivamente, sabemos que existem diferentes modalidades de produção escrita, e que, ao longo de sua experiência, desde o tempo da formação acadêmica, o professor muito provavelmente deparou-se com textos de qualidade duvidosa, tanto do ponto de vista do rigor teórico-metodológico (por exemplo, textos frutos de modismos, fragmentados, descontextualizados, de autores que nunca se sensibilizaram ou mesmo pisaram numa escola pública, sem contar os de “autoajuda pedagógica”, sem fundamentação alguma, a não ser a “inspiração momentânea do autor” etc.), quanto da intencionalidade política (textos alienados, alienantes, com finalidade de apontar problemas nos docentes como estratégia de responsabilizá-los exclusivamente pelo fracasso da escola e fragilizá-los enquanto categoria etc.). Portanto, a atitude crítica é fundamental. Ocorre que em alguns colegas parece ter-se instalado aquele “anticorpo” do tipo “não li e não gostei”, qual seja, o fechamento a qualquer forma de elaboração escrita.
Uma das funções básicas do Planejamento é produção de sentido: afinal de contas, o que estamos fazendo aqui na escola, na sala de aula, qual a finalidade maior de nosso trabalho, que ser humano desejamos formar, como vemos a realidade, o que vamos fazer para alcançar nossos objetivos? A atribuição de sentido é uma das necessidades humanas mais radicais. Claro que não se pode viver sem dar, espiritualmente, um sentido à vida. Sem filosofia (a sua própria filosofia de vida pessoal), pode haver niilismo, cinismo, suicídio, mas não vida (Vygotsky[11]),
Viver num mundo que faça sentido é a grande busca do ser humano. Poderíamos dizer que, como seres incompletos, de falta, temos muitas fomes —afeto, justiça, beleza, transcendência—, além da fome de comida e de palavra. Rubem Alves, fazendo esta articulação, diz que precisamos de palavras para comer. Desde muito cedo, cada ser humano, inserido no universo social, busca atribuir sentido ao mundo em que vive. O comportamento típico da inteligência é o de atribuir sentido.
O Planejamento, ao articular, entre outras coisas, Análise da Realidade, Projeção de Finalidades, e Elaboração do Plano de Ação, possibilita que os educadores (e educandos) atribuam sentido ao conjunto de suas práticas.
As palavras são limitadas (lembrar do papel dos afetos enquanto energética da ação, das condições materiais e políticas para a ação e do fato de que o que muda mesmo é a prática e não a teoria isolada) e contraditórias (somos seres de vida/eros e de morte/thânatos, sapiens e demens; no mesmo sujeito podem coexistir diferentes concepções e ainda em diferentes níveis de internalização), mas imprescindíveis, uma vez que, como apontamos acima, por detrás de toda prática (ou de toda decisão pela inação) sempre há uma justificativa, uma ideia, uma representação mental, uma concepção, um entendimento, uma explicação, um suporte reflexivo, um plano, uma teoria (latu senso), uma mediação simbólica.
As palavras que nos habitam têm consequências muito concretas![12] Sabemos qual concepção está pautando nossa prática? Vamos tomar consciência e optar, ou seguir reproduzindo mecanicamente? Temos conhecimento dos diferentes níveis de consciência que existe em cada um de nós (teoria superficial x teoria enraizada)? No concreto, a teoria que guia a prática é aquela que, até o momento, de fato internalizamos, e não necessariamente aquela que temos afinidade.
Superemos a eventual ingenuidade: algum projeto sempre seguimos, em função de nossa característica de seres simbólicos, semióticos, teleológicos (de télos, busca da perfeição, fim, finalidade, intencionalidade). Se não está explicitado, se não foi construído coletivamente e assumido pessoalmente, há um sério risco de termos práticas reprodutoras espontaneístas, miméticas ou impostas autoritariamente.
Por detrás de toda Prática, sempre há uma Teoria (a ação consciente não é “cega”)
Por detrás de toda Prática, de toda Teoria, sempre existe um Afeto (de tantas teorias, por que esta?)
Por detrás de toda Prática, de toda Teoria, de todo Afeto, sempre há uma Cultura
Por detrás de toda Prática, de toda Teoria, de todo Afeto, de toda Cultura, sempre há uma Base Objetiva (Material e Política) que condiciona, influencia.
Através desta Coletânea de Textos
Estamos na “disputa” pelas Teorias e Afetos que embasam nossas práticas
Para que possamos ter uma Prática que favoreça a mudança da Cultura e da Base Objetiva
Em favor de uma Educação Democrática e Humanizadora para Todos: a Escola como Instrumento da Res Publica (Coisa Pública, Bem Comum)
Sintetizando: por um lado, não existe formulação teórica ou reflexiva que garanta, por si, um bom trabalho educativo. Por outro, não existe atividade humana consciente que não seja pautada por alguma referência teórica ou reflexiva. Como seres semióticos, teleológicos, de linguagem, precisamos de instrumentos simbólicos que façam nossa mediação com o mundo. No entanto, estes instrumentos são o que são, isto é, instrumentos, não tendo poder de atuar por conta própria. É nesta tensão entre a necessidade e o limite do instrumento teórico que nos situamos, que produzimos reflexões, textos, e incentivamos que os educadores nas escolas façam o mesmo.
Seria interessante que nesta reflexão se buscasse:
Visão Abrangente, de conjunto: que o olhar não fique restrito a um aspecto ou detalhe da prática deixando de lado todo o resto (Totalidade)
Visão Crítica: que não fique preso às aparências, às manifestações primeiras; que seja capaz de penetrar na essência dos processos, não ser ingênuo nas análises, captar os conflitos e contradições; que não use uma linguagem estereotipada. Que procure superar o pensamento dicotômico (Criticidade)
Visão de Processo: que perceba como as coisas vêm acontecendo no decorrer do tempo; não ser acomodado (“normose”), nem “apressadinho” (querer tudo já) (Historicidade)
Visão Esperançosa: que, apesar das dificuldades, não desista, mantenha o entusiasmo, acreditando que uma outra escola/mundo é possível. Esperança, não do substantivo espera, mas do verbo Esperançar (Freire), Princípio Esperança (Bloch)
Visão Compromissada: que cada um se envolva, que não coloque as responsabilidades só para os outros (“diagnoutro”), como se não dependesse dele também, dentro de sua Zona de Autonomia Relativa (Ética).
VASCONCELLOS, Celso dos S. Introdução. In: Planejamento Escolar: Rigorosidade e Amorosidade para uma Práxis Transformadora. São Paulo: Libertad, 2024 (no prelo).
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[1].Agradeço também aos amigos Eliane Pinheiro, Luciano Castro Lima, Miriam Augusto, Pedro Demo, Sebastião Donizete Santarosa e Susan Cavallet pelos fecundos diálogos durante a elaboração deste material.
[2].Este texto é a introdução do e-book Planejamento Escolar: Rigorosidade e Amorosidade para uma Práxis Transformadora, a ser publicado em breve.
[3].O Prof. António Nóvoa, reitor emérito da Universidade de Lisboa, e um dos maiores especialistas do mundo em profissão docente, sempre afirma que “Nada substitui um bom professor”!
[4].Podemos lembrar aqui a dialética entre o Universal, o Particular e o Singular. Parafraseando Kluckhohn & Murray: “Todo Professor, em certos aspectos, é a)Igual a todos os outros Professores, b)Igual a alguns dos outros Professores, c)Diferente de todos os outros Professores”.
[5].Obviamente, não só dos Professores, mas também dos Alunos, das Famílias, da Comunidade Educativa, do Sistema de Ensino, enfim, da Sociedade como um todo. Aqui estamos focando o Professor pelo caráter introdutório deste texto, buscando o acolhimento profundo do Professor, seu engajamento na leitura e no desdobramento em sua práxis.
[6].E não desejo, absolutamente, contribuir com a produção ou o reforço do discurso de “culpa e má consciência” em relação aos professores. Entendo que ao invés de culpa (que remete ao campo da moral, desencadeando mecanismos de defesa), o mais apropriado é se falar de responsabilidade (que é do campo da ética).
[7].Em grandes linhas vislumbramos os seguintes posicionamentos dos professores em relação à Docência: 1)Firme na opção: procurar se fortalecer e ajudar os demais colegas em dificuldade; 2)Dúvida em relação à continuidade: buscar ajuda; 3)Certeza de que realmente não quer ser professor: pedir demissão; 4)Não deseja, mas não tem como sair: se tiver certeza de que não quer ser docente, mas, no momento, não tem como pedir demissão, fique, mas com ética profissional e dando uma chance a você mesmo de redescobrir as Grandes Alegrias da Docência, se abrindo às Crianças, no seu Devir de alegria, curiosidade, espontaneidade, sinceridade, amorosidade, atividade, enfim, de toda a Potência Vital dos educandos!
[8].Metafísica aqui utilizado em seu sentido negativo, pejorativo, além da física, além das possibilidades humanas.
[9].Será que as Políticas Públicas de Formação de muitos Estados e Municípios não têm focado, adequadamente, os Professores, mas deixado de lado, equivocadamente, a Formação Político-Pedagógica dos Estudantes (direitos sociais, participação, organização, liderança, representação, busca do comum, democracia, comunicação Não-Violenta etc.)?
[10].Daí um questionamento muito importante: de que palavras tenho me alimentado?
[11].Em carta para Levina, datada de 16 de julho de 1931, in van der Veer e Valsiner, 1996: 29.
[12].Onde temos amarrado nosso burrinho semiótico? De que palavras temos nos alimentado? Daí a importância de fazermos uma arqueogenealogia (Foucault), um exercício crítico em relação às várias camadas da teoria enraizadas, para nos apropriarmos das coisas que estão em nós e que, muitas vezes, não nos damos mais conta.
Em tempos de fake news, com certa facilidade nos enganam ou nos deixamos enganar ora pelo conteúdo ora pela embalagem, quando não por ambos. Em tempos de arrogâncias, de prepotências e intolerâncias, não são raros os casos de julgamentos e condenações baseadas apenas nas aparências.
Dizem que o importante não é a embalagem, mas o conteúdo. Na mesma direção, afirma-se que as aparências enganam. Os ditados populares carregam grande sabedoria, porém importa saber quando e como utilizá-los. Em muitos casos, nem a embalagem e nem o conteúdo nos enganam. Noutros, entretanto, podemos ser enganados ao mesmo tempo pelas aparências e também pelo conteúdo.
Com base apenas na embalagem e nas aparências, muitas vezes são feitos falsos julgamentos de conteúdos excelentes. Senão vejamos a história do humilde agricultor e do arrogante governante.
Em sua simplicidade, um agricultor familiar que produzia alimentos agroecológicos decidiu presentear o prefeito. Ao ir à cidade, levou maçãs bem maduras, gigantes e saborosas. Queria agradar o mandatário local e foi até a prefeitura para entregar o presente. O agricultor era desconhecido do prefeito e trajava roupas marcadas pelo trabalho da roça. Pôs as maçãs dentro de um saco sujo de terra e um tanto rasgado. Era o que ele tinha à disposição. Não imaginava que o destinatário poderia fixar sua atenção mais na embalagem do que naquilo que se encontrava dentro dela.
O agricultor estava movido pela nobre intenção de, ao presentear o prefeito, falar da importância de consumir alimentos saudáveis, livres de substâncias químicas que trouxessem danos à saúde das pessoas e do meio ambiente. Pretendia também que o governante criasse mecanismos para estimular a população a cultivar e consumir a fruta da longevidade.
Ao se aproximar do prefeito, o agricultor quis dar-lhe um abraço, demonstrando sua estima e cortesia. Porém, em sua empáfia ele bloqueou a primeira ação e todas as subsequentes. Abortou o diálogo e pediu que o agricultor se retirasse, dizendo que estava cheirando mal e que aquele gesto de querer entregar-lhe um saco sujo e rasgado, mesmo sem saber o que continha, configurava um desrespeito à sua autoridade.
Um pouco envergonhado e decepcionado com aquela reação, o agricultor retirou-se. Contudo, imediatamente pensou outra estratégia para fazer o prefeito provar a fruta, pois queria que seus objetivos fossem alcançados. Dirigiu-se até a mansão em que ele residia. Tocou o interfone e foi atendido por uma senhora humilde, da periferia da cidade, que ali trabalhava como doméstica. Explicou que queria presentear o prefeito com aquelas maçãs. A doméstica não parava de lhe agradecer pelo belo gesto. Sentindo-se confortado pela atitude da senhora, o agricultor voltou para sua casa.
A doméstica retirou daquela simples embalagem algumas das maçãs e colocou-as numa travessa de porcelana importada que o prefeito havia adquirido em sua última viagem ao exterior.
Quando chegou para o almoço, ficou maravilhado com as maçãs e antes mesmo da refeição provou uma delas. Gostou muito do sabor e perguntou onde a empregada havia comprado. Ela lhe disse: foi um agricultor que passou aqui e entregou de presente para o senhor. O prefeito, então, lembrou-se de sua deselegância com aquele trabalhador do campo e pensou consigo: ‘às vezes, as aparências enganam’. Porém, já era tarde! Perdeu a oportunidade de ser educado e de aprender com a sabedoria e a proposta do agricultor.
Além de diversas reflexões que podem ser feitas acerca dessa história específica, há múltiplas outras possíveis em torno da agroecologia, das formas de exercer o poder, das relações sociais e humanas, das aparências e das embalagens.
Em tempos de fake news, com certa facilidade nos enganam ou nos deixamos enganar ora pelo conteúdo ora pela embalagem, quando não por ambos. Em tempos de arrogâncias, de prepotências e intolerâncias, não são raros os casos de julgamentos e condenações baseadas apenas nas aparências.
Em tempos de consumismo exacerbado, as embalagens têm grande importância e facilitam muito o transporte de produtos e mercadorias. Porém, por outro lado, muitas vezes não são utilizadas com moderação e, no pós-consumo, não recebem o mais adequado destino. Não são recicladas, nem reaproveitadas e acabam produzindo graves impactos ambientais. Daí a importância não só de estimular a reutilização, senão também de adotar formas para reduzir o seu uso em vista de minimizar e evitar danos maiores à nossa Casa Comum. As reflexões e desafios nessa área são abundantes.
Igualmente sugestiva e sempre necessária é a reflexão sobre as aparências e os conteúdos humanos e humanizadores. A história do agricultor e do prefeito podem nos ajudar também nesse sentido.
Dito de outro modo, ou seja, em forma de questionamento: Quais aparências procuramos demonstrar em tempos de uso massificado das redes sociais? Que conteúdos temos a oferecer e que não cabem nos ambientes virtuais? Quais conteúdos e em que embalagens precisamos nos apresentar a nós mesmos e aos outros? Serão as falsas aparências e as embalagens importadas que mais importam?
Sim, que a natureza possa continuar usando a cor verde que é tão linda e tão significativa às crianças e aos animais, pois quando as árvores deixam de ser verdes é sinal de que estão morrendo e a morte é uma coisa que na qual não queremos que aconteça com quem amamos, pensando aqui que todos vocês amam o verde do nosso meio ambiente. Que seja amarelo apenas o nosso Sol e que ele nos traga mais plantas e árvores verdes aos nossos olhos.
Para quem não conhece ainda, energias verdes são as energia que a própria natureza renova infinitamente e que têm feito tanto sucesso no Brasil e no mundo. Vou citar alguns exemplos para maiores esclarecimentos. Elas são as energias vindas da natureza como a fotovoltaica que é proveniente do Sol, a eólica que é proveniente do vento, a biomassa que é proveniente da lenha ou do bagaço da cana e a energia das marés e das ondas.
Especialmente falando das energias verdes elas são excelentes para a conservação e o desenvolvimento dos países causando menos impacto ambiental e proporcionando maior número de empregos. Além de serem inesgotáveis, não contribuem para o agravamento do efeito estufa.
O problema é que o homem usa e abusa do meio ambiente e quando percebe que uma coisa dá lucro e gera dinheiro não mede distância para explorá-la de uma forma agressiva ao meio ambiente. E tudo que é demais, que extrapola o limite da quantidade de uma garrafa, acaba causando malefícios à sociedade. Eu não queria que fosse assim, mas é o que tenho visto. Serão mesmo benéficas as energias verdes? Ou elas são benéficas e não estamos sabendo explorá-las?
Muitas vezes vocês já devem ter visto aqueles carros nas estradas das grandes cidades soltando fumaça e poluindo o meio ambiente, não é mesmo? Pois bem, substituindo esses combustíveis fósseis que tanto nos faz mal já existe no mercado e novas pesquisas estão sendo feitas assim como a fabricação de automóveis movidos a eletricidade, a hidrogênio e a gás natural.
É preciso urgentemente salvar o planeta dos perigos da energia provinda dos combustíveis fósseis e que gera tantos problemas ao mundo como conflitos entre países que brigam por territórios que mais produzem barris de petróleo por dia e assim como locais de extração que ficam em meio a florestas e áreas litorâneas do nosso país.
O uso descontrolado de veículos nas cidades grandes polui tanto o ar que evita possamos ver um céu azul e bonito. São os reflexos de um combustível ultrapassado e gerador de doenças respiratórias. Na verdade, mexer com a natureza seja qual a forma mais amena encontrada pelo homem ainda assim estará a machucando e isso deveria ser o maior possível evitado.
Sem contar com os problemas causados pelos empresários que financiam energia solar para residências e pequenos prédios por preços super vantajosos, fazem os contratos e depois desaparecem sem entregarem o serviço, sendo preciso acionar a justiça. Sem contar que as casas com essas placas solares já não podemos mais ouvir os miados dos gatos sobre os seus telhados, pois eles ficam assustados com aqueles quadros estranhos espalhados pelos lugares onde antes passeavam à vontade. O que é necessário fazer é quanto menos usarmos as energias no nosso cotidiano estaremos cuidando do nosso meio ambiente.
Não é porque as energias verdes não poluam que também não trazem prejuízos ao meio ambiente. Só para contar um exemplo na região semiárida de Pernambuco foram instalados parques eólicos e têm ocorrido problemas graves nesse local e em outros que já pude ver pela imprensa. As pessoas dessa região estão sofrendo com depressão, ansiedade, seus animais estão desaparecendo ou morrendo e uma energia que prometia ser limpa e saudável acabou causando um problema grave na região.
Então, o importante não é mexer no meio ambiente de forma agressiva e sem pesquisas mais atentas aos seres vivos e aos locais de onde serão produzidas essas energias, mesmo que elas indiquem um maior benefício para o mundo. Faz-se necessário anos de estudo e não a cobiça por dinheiro a curto prazo.
Uma outra coisa que tenho observado e me surpreende são a enorme maioria de parques eólicos nas áreas litorâneas do meu estado, o Rio Grande do Norte, locais onde as pessoas vão se divertir e tomar banho de mar. Outro dia vi uma foto de uma surfista que se destaca mais o grande parque eólico ao seu redor do que ela própria.
As hélices dos parques eólicos são um perigo para as nossas aves que voam ao redor delas e vez ou outra se chocam, vindo a morrer assim como outros fatores que têm levado peixes e outros animais a sumirem das regiões litorâneas onde instalaram esses parques.
Quanto aos automóveis é preciso que os carros elétricos sejam barateados e que toda a população possa comprar o seu demonstrando um interesse maior pelo meio ambiente, pois a poluição causada pelos gases que saem dos veículos automotivos nas grandes cidades causa doenças até mesmo emocionais, principalmente as de estresse e ansiedade, e malefícios grandes à população que precisa andar pelas ruas para sobreviverem.
As energias verdes chegaram e vêm para ficar. Elas têm os seus grandes benefícios se forem usadas com cautelas, como já disse acima. São benéficas aos seres humanos e aos animais, não agridem o meio ambiente e evitam esse monte de fio elétrico que tanto enfeiam as ruas das nossas cidades.
Voltando a falar da energia fotovoltaica, a energia solar, é uma maravilha para o bolso do consumidor, pois no calor pelo qual passamos nos últimos meses as pessoas ficam com mais calor ainda por não poderem ligar os seus ar-condicionados preocupadas com o valor da energia que precisarão pagar no final do mês, enquanto que a energia solar traz uma grande economia para as residências. Mesmo assim é preciso usá-la com cautela.
Eu, como boa ambientalista, acho, particularmente, feios aqueles parques de energia eólica espalhados pelo meu Estado e as placas de energia fotovoltaicas penduradas nos telhados das casas. Acredito que o Brasil deveria preocupar-se com energias verdes sim, mas pensando numa forma bonita e mais econômica com retorno de bem-estar às pessoas que necessitam viver ao lado de onde elas são produzidas.
Costumo chamar aquelas torres de energia eólica espalhadas pelo meu país de moinhos de ventos modernos e tenho certeza que se Dom Quixote chegasse ao Brasil novamente as confundiria com gigantes robotizados e desses mais perigosos ainda por usarem bits e bytes e um monte de ferro velho que logo enferruja. Pena que não tenhamos um Dom Quixote brasileiro para lutar contra essas torres e dá um jeito nelas proporcionando uma distância maior da região litorânea.
É verdade que o combustível fóssil produzido pelos milhões de barris de petróleo da nossa querida Petrobrás e pelos demais países envolvidos na sua produção já foi uma coisa boa e rentável, mas com o passar dos tempos e o crescimento desenfreado da tecnologia essa energia só tem nos trazido malefícios.
O ideal era que produzíssemos mais carros elétricos e que usássemos energia verde de uma forma sustentável ou que seus motoristas fossem instruídos a soltarem sementes por cada rua por onde passassem. Acho que seria uma boa ideia instruir os motoristas a andarem com saquinhos de sementes dentro dos seus carros para as esquecerem em parques, praças e canteiros das cidades grandes.
Contudo, se a gente for pensar e se preocupar com os problemas que aparecem aqui e acolá com a chegada de novas tecnologias não conseguiremos mais viver e o melhor a se fazer é representar as camadas mais pobres, os animais que não podem gritar como a gente e pedirmos aos senhores técnicos e pesquisadores das energias verdes que sejam mais cautelosos quanto aos seus investimentos e instalações em locais onde pessoas e animais precisam morar porque o precisar não é boniteza, mas necessidade que advém da pobreza extrema que toma conta do nosso país. Um pescador quer pescar o seu peixinho e uma criança quer brincar com seu gatinho sem que ele se assuste com os barulhos das hélices das torres de energia eólica.
Deixo vocês com os versos da nossa querida poeta brasileira Clarice Lispector que nos diz “Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem.”
Tenho mais alguns segredos sobre as energias verdes para contar a vocês qualquer dia desses, por hoje já basta, pois já os contei para Deus.
Percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto.
Longe de apresentar uma tese que poderia responder/corresponder como modelo explicativo para o feminicídio, tendo em vista que a violência contra a mulher implica fatores que não podem ser negligenciados e, inclusive, assumem maior ou menor relevância em momentos e culturas distintas, quero oferecer uma pequena contribuição para tentar “compreender” esse fenômeno.
Atenho-me a constatação de que as transformações histórico-culturais, as conquistas femininas, os avanços tecnológicos e epistêmicos que liberam a mulher de certos paradigmas, por exemplo, se de um lado pactuam uma condição social mais equânime entre homens e mulheres, por outro, são insuficientes para deter a escorchante violência praticada a cada segundo contra as mulheres.
A minha questão é tentar entender como e apesar dos avanços e independente do nível cultural e intelectual, homens são capazes de violentar e matar mulheres. Como já referido, há muitos aspectos que devem ser levados em conta, mas tenho pensando na estreita relação entre ressentimento e feminicídio.
A temática do ressentimento é um dos pontos nevrálgicos da filosofia de Nietzsche, permeando a cultura ocidental por meio de uma axiologia própria, cadenciando uma disposição psíquica padecente e passiva. O estado psíquico do ressentimento responderia, de acordo com Nietzsche, pela decadência da vitalidade humana.
O indivíduo ressentido é incapaz de criar valores afirmativos da existência, pois “Ao sofrer uma ofensa, tal indivíduo, impotente em reagir efetivamente, desenvolve no seu íntimo o anseio por uma reparação imaginária, motivada pelo sentimento de vingança. O ressentido sofre de enfraquecimento da vitalidade, e perde qualquer tipo de vínculo efetivo com a realidade” (BITTENCOURT, p. 1, 2009)
A “moral dos escravos”, que seria própria da condição do ressentimento e que prevaleceu na civilização ocidental, – muito em razão da moral cristã que inverteu os valores ativos pelos decadentes -, desentranha-se como uma espécie de incapacidade dos indivíduos para interagir com as diferenças e com os antagonismos, atribuindo ao outro a responsabilidade pelo seu fracasso ou decadência. Incapaz de responder ativamente a estímulos externos, acaba assimilando negativamente a experiência, deixando de agir efetivamente.
Escravo desse sentimento em que se sente cada vez mais ensimesmado e reagente ao mundo, o indivíduo desentranha-se imobilizado e avesso aos outros, responsáveis pelo seu insucesso. No caso, escravo do ressentimento, o homem ressentido busca, através da violência praticada contra a mulher, uma espécie “de reparação imaginária, motivada pelo sentimento de vingança”, entre outros, por ocuparem, as mulheres, um lugar (família, sexo, prazer, política, trabalho, etc.) que “seria” seu por “natureza”. Pelo interior de um registro psíquico, uma atração por aquilo que causa repulsa, sofrimento.
Claro que se trata de uma breve apresentação de uma tema caro e complexo que deve ser tratado com o máximo rigor teórico, mas percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto.
“A juventude vive hoje numa era sem esperança, uma era em que é difícil sequer imaginar uma vida além do capitalismo de livre mercadoou superar o receio de que qualquer tentativa de fazê-lo só pode resultar noagravamento dessa situação” (Henry A. Giroux)
As juventudes que não estão estudando, que não estão empregadas nem realizando qualquer tipo de qualificação profissional ou estágios que os capacitem para o mundo do trabalho estão sendo dispensadas pelo modelo econômico e social capitalista neoliberal de uma sólida formação básica integral (oferta integrada de educação técnica profissional ao ensino médio), do ensino superior de qualidade social, do acesso ao mundo do trabalho com dignidade e, inclusive, do direito à vida com liberdade e segurança.
“Vistos cada vez mais como outro encargo social, os jovens não estão mais incluídos no discurso sobre a promessa de um futuro melhor. Em lugar disso, agora são considerados parte de uma população dispensável, cuja presença ameaça evocar memórias coletivas reprimidas da responsabilidade dos adultos”, assim escreveu Henry A. Giroux em 2011 em um ensaio intitulado “A juventude na era da dispensabilidade”.
Retomo nesta coluna o tema das juventudes do Brasil que tratei na minha primeira coluna, escrita em janeiro de 2017, quando defendi a ideia de que a nossa maior riqueza (“bônus demográfico” composto por mais de milhões jovens na época) e oportunidade de transformar o Brasil passavam pelo cuidado destes jovens, priorizando investimentos substanciais em políticas públicas de Estado e oportunizando uma educação de excelência para todos.
Porém, a realidade das juventudes brasileiras, especialmente das juventudes periféricas negras e pardas, é de exclusão, violência contínua, pobreza, desesperança, incertezas e negação dos seus direitos humanos básicos, como: Direito à Diversidade e à Igualdade; Direito à liberdade de Expressão; Direito à Cultura, à Educação, à Segurança Pública e o Direito à Vida. A garantia efetiva de todos estes direitos é dever do Estado (União, Estados e Municípios) e da Sociedade como um todo.
A dispensabilidade do direito à vida é comprovada pelas estatísticas de mortes e violências praticadas contra nossos adolescentes e jovens, evidenciadas em contínuas edições do Fórum Nacional de Segurança pública, por meio do Atlas da Violência de 2011-2023.
Desde 2011, o Brasil registrou 616.095 homicídios, sendo 326.532 de jovens de 15 a 29 anos. A cada 100 jovens mortos em 2021, 49 foram vítimas de homicídio.
Dos 47.508 mortos por violência intencional no país em 2022, 76,5% eram negros. O custo da violência juvenil no último ano ultrapassa o valor de R$ 150 bilhões.
Ou seja, continuamos praticando no Brasil o juvenicídio, matando nosso maior potencial humano e futuro civilizatório.
O crucial aqui é reconhecer que “os campos da política e da violência – uma violência que parece carecer de organização racional, sem excetuar a autodestruição – não estão mais separados.
Essa violência se amplia e estende contra pessoas negras (que representam 77% das vítimas, com risco 2,9 maior que pessoas brancas, com taxa de homicídio de 31%); contra crianças e adolescente com 1.031.283 casos entre 2011-2921; contra mulheres, povos indígenas, população LGBTQIAP+, idosos e deficientes.
Para Zygmunt Bauman o que salva as juventudes da total dispensabilidade e lhes garante um certo grau de atenção ainda é, somente, sua potencial contribuição à demando de consumo.
Pensa-se sobre juventude e logo se presta atenção a ela como “um novo mercado” a ser “comodificado” e “explorado”.
“Por meio da força educacional de uma cultura que comercializa todos os aspectos da vida das crianças, usando a internet e várias redes sociais, e novas tecnologias de mídia, as instituições empresariais buscam “imergir os jovens num mundo de consumo de massa, de maneiras mais amplas e diretas que qualquer coisa que possamos ter visto no passado”.
A evidência é a de que a educação empreendedora, inovadora e financeira já é concebida como mais relevante, mesmo nas juventudes de periferia, do que o direito à educação formal e formação de nível média e superior humanizadora.
O sociólogo polonês, no livro Sobre Educação e Juventude, reafirma um conjunto de evidências de que o “problema dos jovens” está sendo considerado clara e explicitamente uma questão de “adestrá-los para o consumo”, e de que todos os demais assuntos relacionados às juventudes são deixados numa prateleira lateral – ou eliminados da agenda política, social, educacional e cultural.
Uma demonstração são as sérias limitações impostas pelos governos ao financiamento de instituições de ensino superior, acopladas, também, a um aumento das anuidades cobradas pelas universidades privadas.
No Brasil, o financiamento estudantil (Fies) que beneficiava 21,3% dos estudantes matriculados no Ensino Superior (ES) em 2014 caiu para 0,9% em 2021.
A meta 12 do PNE que visava garantir 33% dos jovens de 18 a 24 anos na ES estagnou em 17,7% de acordo com censo educação de 2021.
Já a meta de certificar 40% das matrículas em Instituições Públicas está apenas em 11%, um quarto do previsto, conforme revela o censo de 2022.
Enquanto centenas de milhares são assassinados, outros são dispensados de formas diferentes. Me refiro a 45,3 milhões de adolescente e jovens de 14 a 29 anos (censo IBGE 2022), dos quais 61% são negros, vivendo em condições ampliadas de vulnerabilidade devido ao racismo estrutural, sendo 5,2 milhões desempregados, 55% desde jovens fora do mercado são mulheres pretas e pardas.
Dados do IBGE de demostraram que cerca de 18% dos jovens entre 14 e 29 anos no Brasil não completaram o ensino médio. A necessidade de trabalhar foi apontada como a principal razão para o abandono escolar, representando 40,2% das justificativas dadas por aqueles que deixaram a escola.
Esse índice é ainda mais alarmante entre os homens, atingindo 51,6%. Para termos consciência do que essas estatísticas significam, terminamos o ano de 2022 com 1 milhão de crianças e adolescentes fora das salas de aula no país, de acordo com o Censo Escolar da Educação Básica 2022 do MEC/INEP.
Vale notar que o primeiro decênio do século 21 no Brasil foi marcado por avanços significativos na constituição de um espaço próprio de institucionalização das políticas públicas para a juventude brasileira representada por mais de 50 milhões de jovens entre 14 a 29 anos. Desde a criação do Conselho Nacional de Juventude em 2004, da Secretaria Nacional de Juventude, das Conferências Nacionais de Juventude até a promulgação do Estatuto da Juventude (2013) observou-se um esforço de estabelecimento de uma agenda de participação com os jovens na construção das políticas e de suas prioridades nos vários espaços da sociedade.
Nesta perspectiva, segundo estudos recentes lançados pela Campanha Nacional Pelo Direito a Educação, a educação no Brasil tem leis avançadas, reconhecidas nacional e internacionalmente, mas essa estrutura legal não se traduz como deveria na implementação de políticas públicas.
As desigualdades educacionais geradas por essa ausência do Estado na vida de estudantes e trabalhadores da educação afetam especialmente mulheres, pessoas pretas e pardas e as populações do Norte e Nordeste do país.
Logo, a negação dos direitos das crianças, dos adolescentes e jovens, o descumprimento da legislação educacional vigente, bem como o descumprimento das metas dos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação e a descontinuidade de políticas por ciclos governamentais requer, que a sociedade civil seja mais participativa e efetiva na defesa dos direitos dos seus filhos estudantes.
Defender a educação e a democracia como forma de vida e a escola enquanto espaço comum público é um imperativo de todos cidadãos conscientes e comprometidos pela defesa das nossas crianças, adolescentes e jovens.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, até porque se ficarmos esperando nada vai acontecer de mudanças no cenário exposto acima.
Gilberto Cunha é uma daquelas pessoas que a gente quer sempre por perto, justamente porque concilia habilidades e detém um universo de conhecimentos gerais e específicos que envolvem filosofia, literatura, cultura e ciência. Cunha possui uma fala articulada, consistente e fundamentada pela experiência, pelas leituras e por muitos estudos que perpassam a trajetória de sua vida.
Possui graduação, mestrado e doutorado em Agronomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-EMBRAPA, desde 1989. Foi Chefe-Geral da Embrapa Trigo, de 2006 a 2010. Atua na área de Agrometeorologia, com ênfase em bioclimatologia de cereais de inverno, zoneamento agrícola, gerenciamento de riscos climáticos e uso de previsões de tempo/clima em agricultura. É autor da série de livros Meteorologia: Fatos & Mitos (1997, 2000 e 2003), Cientistas no Divã (2007), Galileu é meu pesadelo (2009), A ciência como ela é… (2011) e Ah! Essa estranha instituição chamada ciência (2021), além de ter sido editor e autor de diversos livros sobre história e tecnologia de produção de trigo no Brasil.
É membro da Academia Passo-Fundense de Letras, tendo presidido a agremiação nas gestões 2014-2016 e 2020-2022. Em 2009, foi patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo. É colunista de O NACIONAL desde 1995, editor da revista cultural Água da Fonte e Editor-Chefe de AGROMETEOROS, o periódico científico da Sociedade Brasileira de Agrometeorologia.
O jornalista de nossa cidade, Passo Fundo, RS, Celestino Meneghini assim o descreve:
“Sem apego aos pragmatismos elabora pensamento crítico de elevada consistência nas verdadeiras conquistas inabaláveis da ciência. Pela sua larga experiência de vida dedicada à pesquisa na Embrapa, acumula saber notável. Saliente é o talento na dimensão universal do conhecimento humano, orientando a ciência pela filosofia específica”.
E acrescenta:“Cunha alcança raro timbre de clareza e até leveza literária, ensejando fruir agradável à leitura. Tem o raro dom de compor as frases de modo criativo e com arte. A decidida atitude em relação às versões que contrariam o bom senso, ou a tentativa malsinada dos que desrespeitam a ciência como instituição, fica bem explícita. Esta justa ira contra os predadores do saber honesto vem fortemente nutrida pela argumentação do autor”.
Conheçamos um pouco mais de Gilberto Cunha, por ele mesmo.
Como, quando e por que a sua fascinação pelo universo da ciência?
Cunha – Talvez porque a atividade científica seja a minha profissão. Lá se vão 45 anos desde que comecei como auxiliar de pesquisa, em setembro de 1978, no extinto Instituto de Pesquisas Agronômicas (IPAGRO), em Porto Alegre. Passei, nesse período, por todos os postos dentro de uma instituição de ciência e tecnologia, de auxiliar, pesquisador, até dirigente, quando ocupei o posto de Chefe-Geral do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, a Embrapa Trigo, em Passo Fundo.
Eu tento exercer com certa competência aquilo que faço. E, até porque, nessa fase da vida, chegado aos 65 anos, não há mais volta. Mas, sim, independente de ser uma profissão, na qual me considero alguém bem-sucedido, eu gosto do mundo da pesquisa científica, pelos desafios que são postos e, acima de tudo, pela oportunidade de poder contribuir com coisas que podem ser relevantes para a sociedade.
Como vês ciência?
Cunha – É possível que, por vivenciar ao dia a dia e conhecer o ambiente científico pelo lado de dentro das organizações, a minha visão seja, radicalmente, diferente da idealização romantizada da ciência e dos cientistas que muitas pessoas têm. É um ambiente competitivo, normatizado, que tem, veladamente, o seu Ethos particular, cujas regras nem todos conseguem seguir sem sofrimento. Um ambiente onde a competição tem levado muita gente a abalos emocionais ao não se encaixar nos colégios invisíveis que controlam o mundo da ciência.
Mas, para o bem ou para o mal, eu vejo a ciência como a base da criação de conhecimentos e de inovações tecnológicas, que podem se materializar numa vacina ou numa mortal arma de guerra, como uma bomba atômica, a critério da sociedade que a patrocina e demanda. Os cientistas, na sua maioria, costumam acompanhar as sociedades que os financiam. E, geralmente, sabem menos do que supõem os leigos. De maneira nenhuma formam uma casta de “superdotados” que sabem de tudo e que todas suas opiniões mereçam ser levadas a sério.
Como se dá o processo de formação científica? Quais são os grandes marcos da ciência?
Cunha – A formação científica atual segue o formalismo acadêmico universitário. A especialização e a complexidade da atividade, cada vez mais, tem exigido que, após a graduação, os interessados em seguir uma carreira científica, cumpram programas de pós-graduação, envolvendo a busca de titulações de mestrado e doutorado. Mas, a massificação de cursos de pós-graduação no Brasil e no mundo, não assegura que apenas títulos sejam suficientes, como outrora fora, para garantir uma posição numa instituição cientifica, seja na esfera publica ou privada. Eu diria que a formação cientifica começa ainda na graduação, com o envolvimento em programas de iniciação científica das universidades. A maioria que segue essa carreira tem esse início. O grande desafio e saber transpor os limites das disciplinas, pois os grandes saltos, cada vez mais, se darão em zonas de fronteira das disciplinas. E, no caso, faz-se necessária a mudança de percepção da utilidade de um mestre ou de um doutor na iniciativa privada, pois o principal empregador desses profissionais ainda continua sendo o Estado no Brasil. As nossas academias precisam se preocupar, além de avançar o conhecimento, também materializar esse conhecimento em tecnologias que mereçam e justifiquem um instrumento de propriedade intelectual.
Os marcos da ciência, que realmente mudaram paradigmas e fizeram a diferença, são muitos e dependem de cada área do conhecimento. Nas ciências agrárias, onde eu tenho maior familiaridade, sem retroceder muito na história, eu destacaria, como principais, a redescoberta das Leis de Mendel, no começo do século XX, que deu forma ao chamando, hoje, melhoramento genético convencional das plantas cultivadas e que, termos de padrão de plantas cultivadas, nos trouxe até aqui. A descoberta da estrutura do DNA, 1953, o código genético, anos 1960, a técnica do DNA recombinante, na sequência, a clonagem de DNA pela técnica de PCR, a edição gênica e todos os desdobramentos da biologia molecular, que já deram e ainda darão muitos frutos na agricultura mundial. Esses são apenas alguns exemplos, muitos outros me vem, de imediato, à mente: Leis de Liebig, Haber-Bosch, fixação biológica de Nitrogênio, na área de nutrição de plantas, Sistema Plantio Direto, em agricultura conservacionista, etc., e, em tempos mais recentes, agricultura de precisão e toda a tecnologia digital que dão forma à chamada Agricultura 4.0.
Fale-nos sobre a essência das crônicas do livro “Ah! Essa Estranha Instituição Chamada Ciência”.
Cunha – Esse é mais um livro que, insisto nisso, foi ditado pelas minhas dúvidas, que não são poucas, sobre o que é ciência? que caracteriza a atividade científica? e para que serve a ciência? A busca do entendimento do que “é ciência” e do que “não é ciência” dá sustentação especial à primeira parte do livro. Depois, na sequência, encontram-se textos dedicados a Jorge Luis Borges, um dos escritores canônicos mais lidos e citados pela comunidade científica mundial. E, fechando a obra, ensaios diversificados que, sem outras pretensões, buscam unir literatura e ciência no trato de questões afetas à humanidade, como bem exemplificam os textos dedicados à pandemia da Covid-19, que assolou o mundo a parir de dezembro de 2019.
Já declarei, publicamente, que à primeira vista, por temática e estilo, este livro pode parecer uma espécie de dèjá vu de livros anteriores que publiquei: Cientistas no divã (2007); Galileu é meu pesadelo (2009); e A ciência como ela é…(2011). Eu diria que, em tese, sim, mas que são obras complementares e independentes. E, mais uma vez, volto a reiterar que não me alvoroço em reivindicação de originalidade. Em quase todos os ensaios/crônicas, com base no meu “direito de leitor”, usei ideias alheias, sempre que possível dando o devido crédito, e espalhei, acredito, pitadas de criatividade que, de tão dispersas e raras, talvez nem eu mesmo consiga identificar, embora, no primeiro momento, tivesse julgado serem as minhas melhores palavras e os meus melhores pensamentos.
E, reprisando o que escrevi no prólogo dessa obra, sigo atormentado por imaginar que, depois de lidas as 520 páginas desse livro, alguém ainda não consiga diferenciar o que “é ciência” do que “não é ciência”, ou que, a se ver desprovido de suas certezas, sinta-se mais confuso do que antes. Oxalá isso não aconteça!
Gilberto Cunha entre os finalistas do Prêmio Literário 2023
Como vês literatura?
Cunha – Não é tão simples quanto aparenta definir literatura. Nem perceber o valor da literatura. Ou a sua importância. Isso talvez explique a razão que distancia o discurso e a prática quando entra em jogo investir em literatura ou, mais simples ainda, a dificuldade, para muitos, sem qualquer limitação financeira, de se disporem ao mero ato de comprar um livro (e ler). Eu vejo a literatura como uma criação humana de valor imensurável. Uma obra, na minha visão, para ser considerada literária tem de interagir com a sensibilidade do leitor. Quando isso acontece, realidades, mesmo que seja no imaginário, podem ser transpostas e, por que não, futuros condicionados.
Lamentavelmente, ainda que o acesso tenha sido facilitado pelo ambiente digital, não se percebe a valorização que a literatura mereceria da sociedade, especialmente como fonte de produção de cultura e de geração e desenvolvimento social e econômico. Inclusive, para nossa tristeza, vale destacar, que vivemos tempos de muitos questionamentos equivocados em relação aos investimentos públicos na área cultural.
Qual é a tua trajetória de escritor e como se deu, até agora, a tua participação na Academia Passo-Fundense de Letras?
Cunha – Eu não sou escritor de ficção. E, sendo assim, tenho dificuldade em me perceber como escritor. Escrevo, até por obrigação profissional, mais textos técnicos e científicos. Dentro da chamada linha de popularização da ciência, desde 1995, tenho escrito sobre assuntos variados, em linguagem que intento seja acessível ao público geral, no formato de crônicas ou pequenos ensaios, para jornais e revistas de divulgação. Esses textos, de tempos em tempos, são reunidos em volumes, com alguma identidade, dando forma a livros. Os três primeiros, da série Meteorologia: Fatos & Mitos, para minha felicidade, foram e ainda são muito usados em disciplinas de climatologia de cursos de Agronomia e Geografia, em muitas universidades brasileiras. Essas obras, escritas semanalmente, nas páginas de O NACIONAL, me levaram, em 2001, à Academia Passo-Fundense de Letras, agremiação da qual fui alçado à presidência em duas gestões, e a ocupar o honorável posto de Patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo, em 2009. Sou muito grato à Academia Passo-Fundense de Letras, pela acolhida, e por tudo que tenho aprendido no convívio com os membros desse Sodalício.
Qual é a importância de editar a revista Cultural “Água da Fonte” desde sua primeira edição?
Cunha – ÁGUA DA FONTE, o periódico cultural da Academia Passo-Fundense de Letras, iniciou com a sua edição princeps, o número ZERO, em dezembro de 2003. Surgiu para suprimir a lacuna deixada por anuários e jornais que a agremiação publicara no passado, mas que, lamentavelmente, tiveram vida curta (nenhum durou mais de quatro edições). Uma nova proposta editorial, norteada pela pluralidade, primando pelo respeito à diversidade, aberta à comunidade e, acima de tudo, voltada à valorização dos escritores e dos artistas plásticos locais, que foram especialmente convidados para a assinatura das capas das revistas.
Os originais dessas capas compõem o acervo da Galeria das Capas, no auditório da agremiação. Além de, cada número, trazer entrevista central com uma personalidade de reconhecida relevância para Passo Fundo. Vinte anos depois, 22 números publicados (alguns em conjunto), ÁGUA DA FONTE não decepcionou os acadêmicos que, em 2003, foram unânimes no apoio à sua criação. Nas suas páginas, assim eu percebo, está registrada a história das letras locais no século XXI. É uma honra, em parceria com o acadêmico Paulo Monteiro, ter sido editor dessa revista. Acredito que essa revista, se não tivesse alguma relevância, não teria durado tantos anos. Vida longa para ÁGUA DA FONTE!
Como concilias e articulas ciência com literatura, através de tuas crônicas semanais, publicadas no jornal O NACIONAL?
Cunha – Na verdade, a intenção, ainda que nem sempre seja alcançada, é sempre, via essa união, tornar mais atrativo o tema ao leitor, sem perder a essência do conteúdo, dentro de uma proposta de popularização da ciência. E, embora eu tenha ciência que o establishment acadêmico tem preconceitos contra os chamados “popularizadores” da ciência, gente que escreve (ou procura escrever) de uma maneira inteligível para não iniciados, tenho feito isso, semanalmente, desde 1995. Isso fica claro na forma desdenhosa com que frequentemente são feitas referências a esse tipo de atuação acadêmica ou na valoração que é dada aos trabalhos dessa natureza no conjunto dos indicadores de produção científica: NENHUMA!
Como enxergas e vislumbras o futuro da humanidade?
Cunha – Eu gostaria de enxergar, embora os tempos atuais estejam embaçando o horizonte, um futuro promissor. Sei que, chegado aos 65 anos, já tenho mais passado do que futuro, mas ainda acredito que haverá de chegar o dia que nos daremos conta dos absurdos que muitas vezes defendemos e dos atos insanos que praticamos, seja contra o ambiente, contra outros seres vivos e, especialmente, contra outros seres humanos. Apesar de tudo, acredito na humanidade, mesmo ciente que utopias sejam lugares que não existam. Um pouco mais de respeito às diferenças, idealmente que nos tornemos indiferentes às diferenças, seria um avanço muito grande.
Uma mensagem final.
Cunha – Que deixemos cair o véu que nos impede de ver a necessidade de não darmos voz ao obscurantismo que grassa pelas redes sociais; que não se flerta com autoritarismo, pois a democracia deve prevalecer acima de qualquer outro regime que se apresente, uma vez que o verdadeiro democrata jamais lamenta resultado de eleição; que equidade social deve ser defendida sempre; e que empatia precisa ser melhor cultivada na sociedade.
O desafio está posto para você, para mim: fazer do necessário o suficiente, e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver. Encaramos?
Hoje é dia de culto ao ‘deus’ mais venerado pela sociedade de consumo (e do descarte): o deus mercado. Ele ocupa o centro do altar do sistema capitalista, que predomina no mundo.
Mercadoria: essa palavrinha denomina algo pelo qual muitos matam e morrem. Um mito ao qual somos induzidos a adorar toda hora, pela propaganda, pela sedução permanente da ideologia do consumo contínuo. Ser é ter…
Eu não me comovo nem um pouco com as multidões se atropelando na porta das lojas, naquele afã tresloucado de comprar, aproveitar as “ofertas”, adquirir coisas, especialmente em épocas de maior apelo comercial nos meses finais de cada ano.
Ninguém vive sem bens materiais, claro. Mas temos que, cada vez mais, aderir ao chamado “consumo consciente”. O colapso climático, que devasta várias regiões do planeta e ameaça nossa sobrevivência na Terra, exige novo jeito de produzir, distribuir e consumir.
Como dizia Gandhi (1869-1948), “a Terra provê o suficiente para satisfazer a necessidade de todos os seres humanos, mas não a ganância de alguns”.
O desafio está posto para você, para mim: fazer do necessário o suficiente, e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver. Encaramos?
Converse sobre hábitos de consumo com seus familiares, vizinhos, colegas de trabalho.
Professora(e)s: que “valores” estão sendo passados para a juventude?