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Não foram as águas

Talvez em algum outro horizonte possamos ainda semear o arco-íris, na infinita complacência da paz de uma criança.

Não foram as águas que me entristeceram…

Mas teu olhar, pálido como um dia de outono

prazeroso em demorar-se….

Não são as coisas que se dão fim.

Somos nós que damos fins a elas.

No jogo de arrancar

o coração um do outro,

perfuramos nossos olhos.

Ouvimos a música do horizonte e,

na verdade, era uma música triste, fria, distante,

porque nem nossos olhos,

nem nossos ouvidos,

estavam afinados com o arco-íris.

Sobe agora em meu barco,

como uma criança pequenina

e inocente,

e me deixa levá-la

para além da montanha onde o Sol desaba…

Talvez em algum outro horizonte

possamos ainda

semear o arco-íris,

na infinita complacência

da paz de uma criança.

Não me fiz surdo para o trompete

que anuncia o fim do mundo.

Não ignorei os corações afogados.

Com o mal, porém, é sempre assim: quanto mais lhe damos atenção,

mais ele cresce,

como erva daninha,

e toma e afoga nossos jardins.

Vem comigo para o outro lado da montanha,

ainda que tenhamos, primeiro, que subi-la.

Do lado de lá há um lindo e calmo córrego,

no qual lavaremos a face,

no qual nos banharemos nus,

e nos livraremos da lama que nos cobre.

Nus, poderemos, então,

olhar nos olhos um do outro,

e tomaremos um ao outro como espelho

da nossa própria alma.

Entre o teu olhar e o meu

o Sol, retornando, há de plantar o arco-íris.

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou crônica “Professores não sabem nada”: https://www.neipies.com/professores-nao-sabem-nada/

Fui me transformando em gaúcho, precisava

Enquanto as águas subiam, me disse meu amigo: “Fui me transformando em gaúcho. Precisava”. E completou: “Façamos, pois, cara feia para os males, companheiro”.

Acabo de falar com um colega diretamente atingido pela terrível enchente que nos assola. Me disse ele que nunca participou de Centros de Tradições Gaúchas, nem botas, alpargatas e bombacha tem. No entanto, para sua surpresa, quanto mais a água subia, mais recordava da vez que leu Martin Fierro de José Hernandez. Foi atrás do livro e recitou-me a passagem: “Por dura que seja a sorte, nem há que pensar na morte, senão em vencer a vida…”

Acabou se preocupando em salvar das águas não só o poema de José Hernandez mas também um texto que tinha de Richard Llewellyn, escritor inglês. Texto antigo de quando o inglês esteve por aqui e se impressionou com o povo gaúcho.

Sabemos, vou ser breve, é tema bem conhecido, que o gaúcho nasce onde havia europeu, índio e gado sem dono, solto em grande quantidade. O homem europeu começa a se acasalar com a índia e nasce dessa mistura um povo com mentalidade europeia e habilidade indígena. O europeu não sabe fazer nem se dispõe ao rude trabalho de reunir o gado silvestre. O índio, que tem habilidade para isso, não se interessa, não vê necessidade disso. O filho do europeu e do índio, este, sim, reúne as condições. E nessa lide vão se construindo gaúchos e vai se formando, aos poucos, um povo.

Serviço dificílimo: reunir gado chucro, domesticá-lo, transportar tropas por longas distâncias, atravessar rios, correntezas, alagamentos…

Esse gaúcho, é claro, não existe mais: as cercas, as cidades, as mudanças nos meios de produção fizeram com que ele descesse do cavalo. A ficção de Cyro Martins bem descreve esse “gaúcho a pé”. Mas seu lado “super-homem” permanece vivo.

Quem mora em outras paragens tem certamente outros modelos. O gaúcho é o nosso. Modelo no sentido de que se ele fez é sinal que é possível de ser feito. Se ele superou o que superou, também podemos.

E lembrando dele, podemos fazer crescer qualidades tão necessárias: honestidade, franqueza, coragem, destemor frente à morte, tomada imediata de decisão, aceitar qualquer empreitada e fazer o que tem de ser feito!

Enquanto as águas subiam, me disse meu amigo: “Fui me transformando em gaúcho. Precisava”. E completou: “Façamos, pois, cara feia para os males, companheiro”.

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu “Humana beleza de ser empático”: https://www.neipies.com/humana-beleza-de-ser-empatico/

Edição: A. R.

Uma catástrofe climática… Não só mais uma!

As lições que podem nos ajudar a aprender do acontecimento são aquelas que transformam e, sobretudo, que mobilizam a transformações profundas e duradouras, sustentáveis, produzindo uma virada!

A catástrofe climática é um fato. É vivida, desta vez, por milhões de gaúchos e gaúchas, particularmente e com maior impacto por aqueles e aquelas dos locais mais afetados e que estão em situação de maior precariedade e menor proteção. Chegou dramática. Mas, a situação somente poderá gerar algum tipo aprendizagem, para que não seja “só mais uma”, se for capaz de ser transformada efetivamente numa “experiência”, ou seja, num acontecimento do qual se aprende e que, o que dele se aprende, seja duradouro e capaz de transformar a vida!

Há muitos nomes para designar o que está acontecendo. Chamamos “catástrofe” intencionalmente para recuperar a ideia do teatro dramático antigo que significava o momento no qual os acontecimentos da representação se voltavam contra a personagem principal. Etimologicamente significa: Kata “para baixo” e strophein “virar”, virar para baixo. Tudo isso há de ajudar a “virar”, a “dar uma virada”, esperamos. É, portanto, mais do que um desastre, uma tragédia, um acidente, uma calamidade… ainda que todas estas sejam, de alguma forma, e também, sinônimo daquela.

A questão é saber, no sentido de Bruno Latour, se o fenômeno é “acontecimento”.

Para que seja, precisa levar a uma escuta profunda que transforme o fenômeno, de simples objeto externo a ser descrito funcionalmente, a ser justificado existencialmente, e leve a entender seu sentido, suas razões, motivadoras de reflexões e ações capazes de modificar a própria maneira de pensar e agir, o mais amplo e profundamente possível. Trata-se de superar a simples ocorrência, para problematizar e gerar outras formas de ser, de desejar, de julgar, de agir… e produzir uma ruptura com o modo normalizado e normalizador, gerar impossíveis, mundos totalmente diferentes, outros mundos…

Transformar ocorrências em acontecimento exige que haja reflexão, não somente reação.

Sim, o momento é de socorro, de salvamento, de solidariedade, exercida de forma tão intensa e forte, mas é também de fazê-lo com o desejo de que não se precise voltar a fazer, logo, de novo, uns dias depois. Há que trabalhar a reconstrução, que não pode ser um simples retorno ao mesmo, um refazer no mesmo lugar, posto que, para um bom número de situações, seria insistir em esperar novos eventos traumáticos. Há um processo de responsabilização daqueles que agiram ou que deixaram de agir para prevenir, para proteger, e não são poucas as ausências e as faltas. Há que construir condições para a reparação das vítimas da catástrofe climática e são milhares, aqui e em tantas outras emergências climáticas pelo mundo.

Enfrentar a complexidade das exigências postas pelo acontecimento requer tomar a circunstâncias a fundo, mas não ficarmos presos elas, hão de ser transpassadas, transfluidas… trans… A travessia que se exige neste momento é mais do que simplesmente encontrar alguma margem, ainda que numa enchente, uma margem física é “salvação”. Há que se fazer a travessia para buscar novas margens, margens portadoras potenciais de novas formas de relação que denunciem o intolerável, que travem e freiem a destruição do progresso infinito e abram à criação que fecunda transformações profundas, novas relações, novas existências.

Há uma compreensão a ser construída… um acontecimento não é uma simples casualidade, por mais que o componham. Há antecedentes, há consequências, há causalidades, diretas, indiretas, há agentes, há relações… uma complexidade a ser, não somente esquadrinhada, explicada, mas particularmente, compreendida, interpretada, sentida, refletida. E para tal não se pode dispensar qualquer tipo de saber, de sabedoria, de conhecimento. Todos eles estão convidados à roda dialógica. Mas não dá para acolher a desinformação massiva, a produção de informações falsas, a disseminação de ódio. Uma emergência climática é piorada com o uso das tecnologias da informação para desinformar e para desmobilizar.

É uma catástrofe que tem uma qualidade substantiva: é “climática”. Mas, dizê-la assim, pode sugerir carregar a separação entre ser “climática” e ser “humana”, reproduzindo a cisão entre natureza e cultura, tão cara ao “antropoceno”.

Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (2020), alerta que “[…] passamos a pensar que ele [o planeta] é uma coisa e nós, outra: a terra e a humanidade”. Davi Kopenawa, em A queda do céu (2015), diz que “[os brancos] pensam que a floresta está morta e vazia, que a natureza está aí sem motivo e que é muda. Então di¬zem para si mesmos que podem se apoderar dela para saquear as casas, os ca¬minhos e o alimento dos xapiri como bem quiserem!”.

A insistência em submeter, no sentido mais duro que esta palavra pode significar, a natureza à cultura, fazendo dela um “recurso” a serviço dos humanos, faz com que as águas sejam tratadas como inimigas da humanidade: deveriam ser recolhidas e enviadas para longe… sobretudo nas cidades… esta é a lógica das “drenagens”. Ao mesmo tempo, operações imensas para trazer água, de longe, do fundo, para abastecer a sede de milhões. E as águas voltam… desta vez voltaram com força! Voltaram para dizer que precisamos conviver com elas. Nos ensinam que não há humanidade sem natureza.

Uma catástrofe climática é uma catástrofe humana, inclusive porque mais produto da ação humana na natureza do que o contrário… longe de que seja uma simples “vingança” da natureza. O desafio de retomar a interdependência entre o humano e o natural é a mensagem mais dura que a “enchente” deixa, além de muita lama, destruição e morte.

O quilombola Antônio Bispo dos Santos, em A terra dá, a terra quer (2023), que há pouco encantou, chama a atenção para a necessidade de entender o movimento das águas: vão e voltam. Ele lembra que “a água não reflui, ela transflui e, por transfluir, chega ao lugar de onde partiu, na circularidade”. Simbólico e exigente entender o que ele diz quando o desejo imediato é que as águas simplesmente “refluam”, se afastem, rápido, para longe…

Bispo dos Santos propõe que, assim como as águas, o movimento humano seja de “transfluência”, porque, “transfluindo somos começo, meio e começo. Porque a gente transflui, conflui e transflui. Conflui, transflui e conflui. […] Na transfluência não há volta, porque ela é circular. Ao mesmo tempo que algo vai, fica; ao mesmo tempo que fica, vai – sem se desconectar”.

As lições que podem nos ajudar a aprender do acontecimento são aquelas que transformam e, sobretudo, que mobilizam a transformações profundas e duradouras, sustentáveis, produzindo uma virada!

FONTE: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/639406-uma-catastrofe-climatica-nao-so-mais-uma-artigo-de-paulo-cesar-carbonari?

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil) e associado da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF). Também escreveu e publicou no site a reflexão “Liberdade de ensinar e de aprender”: https://www.neipies.com/liberdade-de-ensinar-e-de-aprender/

Edição: A. R.

Rezar pela unidade cristã

Outro caminho de oração consiste em rezar pelas necessidades da humanidade que são preocupação comum. E temos muitas. São João Paulo II ensinou isto ao convocar as lideranças religiosas para rezar pela paz na cidade de Assis, como já mencionamos anteriormente, que tem motivado vários outros encontros. Neste caminho olhamos um pouco além dos nossos processos reiterando o papel das religiões no mundo.

Nesta semana a Igreja Católica propõe a Semana de Oração pela Unidade Cristã, tradicionalmente proposta no hemisfério sul na semana que antecede a Solenidade de Pentecostes. Já no hemisfério norte acontece na semana que antecede a festa da conversão do Apóstolo Paulo. Neste ano tem como lema: “Amarás o Senhor teu Deus… e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10, 27).

A proposta de uma semana de oração acolhe a iluminação e o desígnio do Espírito Santo que suscita a unidade de todos os cristãos. Na força e inspiração do Espírito os cristãos se aproximam, superam as diferenças e rezam juntos como rezaram Pedro e Cornélio (At 10,25-48). A oração é uma forma de se viver o amor enquanto acolhida da iniciativa divina, enquanto proposta de relacionamento humano e enquanto preocupação com o bem comum da humanidade.

Segundo Luciano Pacomio na apresentação da obra do cardeal Carlo Maria Martini, “orações do cardeal Martini” a oração cristã consiste em repetir a Deus com grande confiança as Palavras de Deus; é suplicar, interceder, oferecer em união com Jesus e seu Santo Espírito; é louvar e adorar ao Pai graças à ação do mesmo Jesus e do Espírito Santo.

As diferentes denominações religiosas têm grande apreço e valor à oração. A experiência orante lhes garante uma identidade. Podem também ser uma ponte com as outras denominações.

Atividade reuniu diferentes denominações religiosas na Catedral em ato inter-religioso tendo presente a dramática situação que assola o Estado do Rio Grande do Sul. Centenas de pessoas, de diversas comunidades e tradições religiosas responderam ao convite e se uniram em oração em favor das vítimas das enchentes.

Entre os católicos a tradição de rezar pela unidade cristã é secular e aos poucos foi encontrando sustentação no magistério eclesial.

Em 1865, o Papa Leão XIII fez a recomendação da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Em 1897, na Encíclica Divinun Illud Munus, sobre o Espírito Santo, destacou o valor da oração pediu que se rezasse pelo bem e o crescimento da unidade dos Cristãos. Em 1909, o Papa Pio X concedeu a bênção oficial à Semana de Oração. Durante o seu pontificado, o Papa Bento XV introduziu a Semana de Oração definitivamente como ação da Igreja Católica. Em um gesto expressivo São João Paulo II em 1986 se reuniu em Assis com irmãos de outras experiências religiosas para rezar pela paz, uma atitude de simbolismo profundo.

A crescente preocupação com a unidade cristã foi assumida com preocupação da Igreja Católica com especial atenção para a construção de uma espiritualidade da unidade que tem como um dos pilares a dimensão orante. Citamos alguns documentos do magistério eclesial que salientam a importância e recomendam a oração pela unidade.

Durante o concílio Vaticano II (1962-1965) foi aprovado Decreto conciliar Unitatis Redintegratio, sobre a reintegração da unidade cristã, que descreve a importância da oração como movimento para a unidade cristã. Assinala a oração e sua importância para os cristãos católicos, como alma do ecumenismo e como expressão de um coração convertido. Sobre a oração afirma: “esta conversão do coração e esta santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecumênico, e com razão podem ser chamadas ecumenismo espiritual” (UR 8). Assegura que a prática orante é um pedido de Jesus Cristo: “é coisa habitual entre os católicos reunirem-se frequentemente para aquela oração pela unidade da Igreja que o próprio Salvador pediu ardentemente ao Pai, na vigília de sua morte: que todos sejam um” (UR 8). Também aprova o encontro com os demais cristãos de outras denominações para a oração: “é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos separados na oração. Tais preces comuns são certamente um meio muito eficaz para impetrar a unidade” (UR 8). É um vínculo de unidade entre os cristãos e com o redentor.

Em 1994 o Pontifício Conselho para a Promoção e Unidade dos Cristãos publicou o Diretório para a aplicação dos princípios e normas do ecumenismo. Ali também destaca o valor da oração. Recomenda a oração em comum considerando um meio eficaz de pedir a graça da unidade e constituem expressão autêntica dos laços que unem os católicos aos outros cristãos (Diretório 108).

São João Paulo II, em 1995, publicou a carta Encíclica Ut Unum Sint tratando sobre o caminho do ecumenismo. No documento, afirma a primazia da oração no diálogo ecumênico: “no caminho ecumênico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se congregam à volta do próprio Cristo.

Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as debilidades e limitações humanas” (UUS 22).

A prece pela unidade é um caminho potente para os cristãos das diferentes denominações, porque a oração é dizer, fazer silêncio e escutar a voz do Criador a partir das diferentes contingências da vida. Aprende-se a exercitar a confiança e o abandono ao desígnio divino e então não são as nossas vontades que prevalecem, mas a vontade de Deus mesmo. Na perspectiva do diálogo vai prevalecer sobre as instituições religiosas a vontade daquele que deseja que todos sejam um (Jo 17,21).

A oração pela unidade cristã compreende um coração convertido a Deus e ao outro compreendendo que as diferenças não podem ser motivo de afastamento. Então, é possível rezar na intenção do outro que não professa a mesma trajetória de fé, mas que está aberto à proximidade e ao diálogo. É um gesto de abertura amplo segundo o princípio de que não se prioriza a particularidade, mas a necessidade do outro.

Também é possível rezar com o outro, o diferente, segundo o princípio de que é possível o entendimento via espírito orante. Na oração em comum e junto com o outro, de uma índole religiosa diferente abrimos espaço para a ação de Deus via Espírito Santo guiando nossas mentes e corações. Nas experiências de oração em comum nos enriquecemos e fortalecemos a fidelidade a Jesus e a perspectiva da construção da unidade.

Outro caminho de oração consiste em rezar pelas necessidades da humanidade que são preocupação comum. E temos muitas. São João Paulo II ensinou isto ao convocar as lideranças religiosas para rezar pela paz na cidade de Assis, como já mencionamos anteriormente, que tem motivado vários outros encontros. Neste caminho olhamos um pouco além dos nossos processos reiterando o papel das religiões no mundo.

A Semana de Oração pela Unidade Cristã assinala o compromisso com a unidade. A prece comum é um caminho fértil. Possamos exercitar este princípio que une todos nós e nos une com o Criador porque rezar é compromisso de fé, mas antes é dom vocação e graça.

Fotos: arquivo pessoal/divulgação

Leia também:

https://www.arquidiocesedepassofundo.com.br/interatividade/noticias/arquidiocese/catedral-acolhe-ato-inter-religioso

Autor: Ari Antônio dos Reis.

Edição: A. R.

Cuide de suas amizades em qualquer estação

Quando se trata de amizade, a conversa fica mais séria, não é mesmo? Ter bons amigos, que não faltem às promessas, é uma dádiva. A lisura é uma capacidade tão difícil de encontrar nas pessoas. Amigos confiáveis são raros.

Como sempre, nestes dias menos luminosos de outono, costumo recolher-me. Fico enrodilhada em uma poltrona, como faz minha gatinha Rita Lee. Introspectiva, me ponho a pensar em tudo. No sentido da vida. Gosto de me voltar para dentro. É um exercício intrincado, nesta época em que tudo é compartilhado nas redes, lotadas de oba-oba.

Ao fim da tarde de um sábado chuvoso, que fez com que escurecesse mais cedo, resolvi pedir uma pizza. Coloquei o desejo em ação. Na hora da entrega rolava muita água. Os carros passavam na rua, levantando e esparramando água para todos os lados. Os faróis ficavam ofuscados. Saí no avarandado de sombrinha em punho e fui em direção ao portão, já acionando o controle. Então, escutei:

— Não venha, Elenir! Você vai se molhar… Eu vou até aí.

O entregador era meu amigo e desejava me proteger.

— Imagina… Quanta gentileza. Te cuida. Não corra! — eu quis protegê-lo, também.

O delicioso cheirinho de pizza à portuguesa, minha preferida, exalava pela casa toda.

Naquele instante, dei-me conta de que faltava algo.

— Oh! Meu Deus! — o refrigerante não fora entregue.

— Bah! Não estou com vontade de tomar vinho hoje, embora a noite seja propícia.

A primeira coisa que pensei é que não iria reclamar. Não prejudicaria meu amigo com uma queixa. Já sofrem tanto com esse trabalho, indo até tarde da noite.

Quarenta e cinco minutos depois, ele estava no portão, pedindo desculpas e entregando o litro de Coca-Cola.

A chuva tinha diminuído um pouco. A pizza já havia sido devorada. O motoboy estava mais calmo. Desejando um bom final de semana, perguntou:

— Por acaso você ligou lá para a pizzaria, reclamando?

— Não, imagina se faria isso com você — respondi, colocando nas mãos dele o valor de uma nova tele-entrega.

Pondo o capacete, dando sinal de arranque na motocicleta, falou bem alto que eu era uma amiga de verdade.

Soledade, RS, 30 de abril de 2024.

Autora: Elenir Souza. Também escreveu e publicou crônica “Por que escrevo”: https://www.neipies.com/por-que-escrevo/

Edição: A. R.

Ética e Docência: desafios do tempo presente

Employees giving hands and helping colleagues to walk upstairs. Team giving support, growing together. Vector illustration for teamwork, mentorship, cooperation concept

Essa profissão humanizante e humanizadora que percorreu os séculos, em nosso tempo é frequentemente maltratada, perseguida, injuriada, precarizada. Apesar de tudo isso, milhares de homens e mulheres persistem a acreditam no valor de educar.

A motivação principal deste escrito é divulgar a belíssima coletânea Ética e Docência, organizada pelos professores Angelo Vitório Cenci, Andrei Luiz Lodéa, Bruna de Oliveira Bortolini e Patrícia Carlesso Marcelino (2024) que acaba de sair pela Editora da UPF. Trata-se de uma publicação que trata de um tema central para os desafios educacionais contemporâneos. Conforme os organizadores escrevem na apresentação, “a docência é uma profissão, mas também é um ofício. Ela necessita de uma esmerada formação intelectual, pedagógica e metodológica, mas também de saberes práticos adquiridos mediante experiência, tato pedagógico e criatividade” (p.7).

I

Essa profissão humanizante e humanizadora que percorreu os séculos, em nosso tempo é frequentemente maltratada, perseguida, injuriada, precarizada. Não por todos, certamente, e nem sempre de forma pública, mas na sutileza das sombras, no anonimato das ações tácitas, no submundo das redes sociais, nos discursos de ódio de uma extrema direita ressentida, na idolatria dos que colocaram o deus mercado no altar dos sacrifícios da vida humana e no uso instrumental da natureza; por estes a profissão docente é frequentemente hostilizada.

Professores e professoras, principalmente os que advogam um pensamento crítico e reflexivo em suas práticas docentes, são frequentemente acusados de serem doutrinadores, comunistas, insolentes, perturbadores do progresso econômico e responsáveis pelo fracasso da educação.  Apesar de tudo isso, milhares de homens e mulheres persistem a acreditam no valor de educar.

Em seu belo livro O valor de educar, o filósofo e educador espanhol, Fernando Savater, diz que “[…] em qualquer educação, por pior que seja, há suficientes aspectos positivos para despertar em quem a recebeu o desejo de fazer melhor com aqueles pelos quais depois será responsável” (Savater, 2000, p. 17). Tal perspectiva nos tutela, acompanhando as reflexões anteriores, o desafio de pensarmos e estruturarmos processos educativos para que as futuras gerações possam ser melhores que a nossa geração ou a geração que nos precedeu. Mas como realizar tal façanha? De que forma é possível pensar e projetar um processo educativo que seja suficientemente eficaz para dar conta das crises e demandas educacionais atuais?

A educação deve preparar pessoas para competir na sociedade do mercado ou deve formar seres humanos completos? Deve doutrinar ou educar para a autonomia? Deve focar-se e concentrar suas energias no repasse de informações e na instrução eficiente ou no árduo e complexo processo de produção de conhecimentos e na construção de cidadãos? Deve preparar para um emprego ou preparar para a vida? Deve manter uma “neutralidade aparente” diante da pluralidade de opções ideológicas, religiosas, políticas e tantas outras formas de vida, ou deve inclinar-se por debater sobre o preferível e propor modos de vida mais confiáveis?

No bojo de todas essas questões e tantas outras que poderiam ser apresentadas, ainda cabe perguntar: é obrigatório educar todo mundo da mesma maneira ou deve haver tipos diferentes de educação, isto é, conforme a clientela a que sejam dirigidos? A obrigação de educar é assunto público ou questão privada de cada um? Por que a educação carrega em si, no seu modo de ser planejada e exercida, uma dimensão existencial, antropológica, ontológica, epistemológica, política e ética?

“Ninguém escapa da educação”, afirmava o saudoso Carlos Rodrigues Brandão (1986, p. 7), em seu consagrado livro introdutório O que é educação. Em qualquer lugar que estamos, na rua, em casa, na escola, nas situações mais inusitadas, diante da televisão, quando conversamos com outras pessoas, lemos um jornal, um livro ou qualquer outro tipo de informativo, ou quando compartilhamos nas redes sociais informações ou curiosidades: todos nós estamos envolvidos com a educação para aprender, ensinar, socializar, construir, dinamizar, fazer, conviver, revitalizar nossa própria existência. “A educação invade nossa vida e nossa vida é misturada com a educação”, ressaltam Fávero e Tonieto (2010, p. 14), pois “[…] não há uma forma única de educação e ela não se realiza apenas em locais formais”.

Em cada cultura, em cada época, em cada espaço, há traços educativos que se traduzem em formas de vida de indivíduos, grupos e comunidades inteiras e é por isso que “ninguém escapa da educação”. Mas essa condição se restringe aos seres humanos ou se estende aos demais seres vivos?

Nas pesquisas e escritos de diversos cientistas e pensadores contemporâneos, não há dúvida de que em todos os seres vivos existe uma relação entre o viver e o conhecer. As teorias atuais que tratam dos sistemas complexos auto-organizativos e autopoiéticos indicam o profundo vínculo que existe entre o viver e o conhecer. Para essas teorias, as interações de um organismo vivo com o seu meio ambiente são vistas como interações cognitivas, de modo que há, portanto, uma identificação entre o processo de vida e o processo do conhecer. Humberto Maturana e Francisco Varela (2001, p. 194), em seu livro A árvore do conhecimento, destacam que “[…] toda interação de um organismo, toda conduta observada, pode ser avaliada por um observador como um ato cognitivo”. Sendo assim, “[…] o fato de viver – de conservar ininterruptamente o acoplamento estrutural como ser vivo – corresponde a conhecer no âmbito do existir”.

Dizendo de modo aforístico: “viver é conhecer” (viver é ação efetiva no existir como ser vivo). É com base nessa relação autopoiética da vida e com conhecimento que podemos responder à pergunta: como surge a ética? De acordo com Maturana e Varela (1995, p. 262), a ética surge da consciência da estrutura biológica e social dos seres humanos, que brota da reflexão humana e a coloca no centro como fenômeno social constitutivo. E como toda a ação humana sempre acontece na linguagem, assim, também, todo ato linguístico produz o mundo que criamos com os outros nos atos de convivência que dão origem ao humano: por isso, todo ato humano traz consigo um sentido ético. Esse vínculo entre humanos é o fundamento de toda ética como reflexão sobre a legitimidade da presença do outro.

Em Sem fins lucrativos (2019), a filósofa Martha Nussbaum argumenta que se tornou urgente nos preocuparmos com a diferença de perspectiva de uma educação baseada no modelo utilitarista — que aceita e propaga a ideia do crescimento econômico e que impõe, também, ao sistema escolar e universitário, um sistema de avaliação quantitativa de produtividade —, e uma formação que se oriente pelo modelo do desenvolvimento humano, no qual são fomentadas e preservadas as condições para a criação de capacidades que permitam a constituição de uma sociedade democrática e de uma cidadania global.

Mais recentemente, Nussbaum (2022) também dedicou um livro à questão da ética para com os animais, indicando a necessidade de incluir, na mudança paradigmática necessária à educação do nosso tempo, a consideração da nossa responsabilidade em relação às diferentes formas de vida. Estamos aqui, portanto, no centro de nossas indagações sobre as relações entre os pressupostos éticos e epistemológicos da atividade docente, para a qual é preciso ter sempre presente o caráter relacional que nos vincula aos outros e ao mundo.

É notório, a partir das posições defendidas por essas teorias e por esses autores, que “viver é conhecer” e que “[…] o processo de cognição tem a ver com a conduta efetiva ou adequada de um organismo vivo em um contexto relacional” (Fávero; Tonieto, 2010, p.15). No entanto, permanece a questão anteriormente formulada: a inevitabilidade do processo educativo se restringe aos seres humanos ou se estende aos demais seres vivos?

Ou ainda, qual é a forma especificamente humana de cognição que diferencia o ser humano de outros animais superiores? Em seu livro Educar para reencantar a vida, o teólogo e economista Jung Mo Sung (2006, p. 27-28) responde a essa segunda pergunta da seguinte maneira: “[…] o único mecanismo biológico capaz de gerar esse tipo de mudança no comportamento e na cognição […] é a transmissão social ou cultural que funciona em escalas de tempo de magnitudes bem mais rápidas do que as da evolução orgânica”.

A resposta formulada por Jung Mo Sung está ancorada em diversos autores os quais defendem a tese de que, na espécie humana, há um processo de transmissão e de aprendizagem cultural que se diferencia de outras espécies.

Baseado em seus estudos Sung (2006) identifica três tipos básicos de aprendizagem cultural humana: a) aprendizagem por imitação; b) aprendizagem por instrução; c) aprendizagem por colaboração. Esses três tipos de aprendizagem só são possíveis na espécie humana porque possuímos a “cognição social” que possibilita perceber e compreender os indivíduos pertencentes à mesma espécie como sendo iguais a nós.

Apesar de sermos biologicamente muito semelhantes aos primatas, por exemplo, é o ato de nos identificarmos com outros membros da nossa espécie que possibilita os três tipos de aprendizagem acima indicados. É nesse aspecto que a aprendizagem da linguagem simbólica se torna um divisor de água entre a espécie humana e os outros animais superiores. “O que dá à cognição humana o seu poder único e impressionante em relação aos outros animais”, ressalta Jung Mo Sung (2006, p. 29), “[…] é o fato de usarmos os símbolos linguísticos em interações discursivas onde as diferentes perspectivas de apreensão e compreensão de algum fenômeno possibilitadas por esses símbolos são explicitamente contrastadas e compartilhadas”.

Em seu instigante livro Ensaio sobre o homem, o filósofo contemporâneo Ernst Cassirer (2001, p.50-51) define o ser humano como sendo um animal symbolicum, pois, para ele, a razão é um termo muito inadequado para compreender as formas da vida cultural do homem em toda a sua riqueza e variedade. “É inegável que o pensamento simbólico e o comportamento simbólico estão entre os traços mais característicos da vida humana, e que todo o progresso da cultura humana está baseado nessas condições”.

Os animais também são suscetíveis de comportamentos simbólicos e os cientistas estão convencidos de que o problema da linguagem animal é algo que merece nossa atenção e cuidado. No entanto, ressalta Cassirer (2001, p. 54-59), é necessário distinguir “[…] as camadas geológicas da fala” que possibilitam distinguir a linguagem humana da linguagem animal, ou seja, “[…] a diferença entre a linguagem proposicional e a linguagem emocional é a verdadeira fronteira entre o mundo humano e o mundo animal” (grifos do autor). A linguagem proposicional é o grande distintivo da linguagem humana. Da mesma forma, há uma distinção entre sinais e símbolos: “[…] um sinal faz parte do mundo físico; um símbolo é parte do mundo humano do significado” (Cassirer, 2001, p. 54-59).

As reflexões de Cassirer nos ajudam a retomar a pergunta que foi indicada anteriormente: a educação se restringe aos seres humanos ou se estende aos demais animais superiores?

Acreditamos que as considerações acima expostas são, provisoriamente, suficientes para respondermos afirmativamente: a educação é uma particularidade humana e nos tornamos humanos pelos processos educativos que acontecem em nossa vida. Isso implica em dizer que a humanização não é um processo natural, mas que nos tornamos humanos na medida que participamos de uma comunidade que possui regras, linguagem e cultura. É neste sentido que Jung Mo Sung (2006, p. 35) diz que “[…] nós seres humanos somos de certa maneira ‘animais desnaturados’”, pois, mesmo sendo nosso ponto de partida natural, “[…] nossa espécie foi enxertada de certos processos biológicos” que foram se adaptando pelas necessidades (a posição do pé, o dedo polegar oposto a outros quatro dedos, o deslocamento do cérebro etc.) e “[…] de processos históricos e sociais que nos possibilitaram a habitar o universo da cultura”. Sendo assim, nós “[…] não habitamos mais apenas o mundo dos fatos, mas o mundo dos signos e dos sentidos” (Sung, 2006, p. 35).

O fato do ser humano habitar o mundo dos signos e dos sentidos requer um constante processo educativo e é por isso que a escola surge como uma das mais importantes instituições historicamente criadas para socializar os saberes culturais e, com isso, possibilitar o processo de humanização das futuras gerações.

Certamente, a escola foi uma das principais invenções que contribuiu de forma singular para o aprimoramento cultural da espécie humana e para o avanço do conhecimento. Não teríamos evoluído, em termos de civilização, e não teríamos atingido o estágio atual das modernas tecnologias sem a presença marcante da escola. No entanto, em um cenário de transformações rápidas e profundas, ocasionadas pelas tecnologias da informação e comunicação, associamo-nos às reflexões de Charlot (2019, p.161), quando diz que hoje, observa-se “[…] uma indeterminação crescente quanto à definição do que é um ser humano” e, por isso, um dos desafios fundamentais à educação diz respeito à questão antropolítica. Nesse cenário, a própria escola pública vê-se atacada, de todas as formas, com acusações, demandas e questionamentos que abalam suas estruturas e sua própria identidade, que fragilizam seus sujeitos (professores, alunos e gestores), de modo a confundir suas funções e sua relevância social em um mundo cada vez tecnificado e mercantilizado.

São imensos os desafios do tempo presente, pois envolvem situações complexas, problemas profundos, dilemas gigantescos, ações coletivas que ultrapassam as particularidades locais ou regionais. Tais desafios não podem ser enfrentados apenas com discursos ou com decretos, não serão contornados se não existir uma consciência coletiva cidadã que seja capaz de produzir uma responsabilidade solidária e ética que nos ajude a ver para além dos interesses imediatos econômicos. Tal consciência requer uma atitude ética educacional do conjunto da sociedade. Teremos coragem de dar esse passo?

Parte das ideias que foram esboçadas acima estão também desenvolvidas no capítulo que escrevi com grande amigo Luiz Carlos Bombassaro (Professor da UFRGS). A coletânea completa onde está publicado o capítulo pode ser acessada no seguinte link:  https://www.researchgate.net/publication/380404922_Etica_e_docencia_VI_ebook_2024

Referências:

BECKER, Fernando. A epistemologia do professor😮 cotidiano da escola. Petrópolis: Vozes, 1993.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 18ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

BOMBASSARO, Luiz Carlos. As fronteiras da Epistemologia. Como se produz o conhecimento. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

CENCI, Angelo Vitório; LODÉA, Andrei Luiz; BORTOLINI, Bruna de Oliveira; MARCELINO, Patrícia Carlesso (orgs.). Ética e Docência.  Passo Fundo: Editora UPF, 2024.

CHARLOT, Bernard. A questão antropológica na educação quando o tempo da barbárie está de volta. Educar em Revista, Curitiba, v. 35, n. 73, p. 161-180, jan./fev., 2019.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. Educar o educador:reflexões sobre docente. Campinas: Mercado de Letras, 2010.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. O lugar da teoria na pesquisa sobre a docência no Ensino Superior. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina (Orgs.). Epistemologias da docência universitária. Curitiba: CRV, 2016. pp. 31-49.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; POSSEL, Bianca. A resolução de problemas como prática interdisciplinar: uma proposta epistemetodológica. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro (Orgs.). Interdisciplinaridade e formação docente.Curitiba: CRV, 2018. pp. 89-102.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro; CENTENARO, Junior Bufon (Orgs.) Leituras sobre Martha Nussbaum e a Educação. Curitiba: CRV, 2021.

MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento:as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2001.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos. Por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

NUSSBAUM, Martha. Justice for animals. Our Collective Responsibility. New York: Simon & Schuster, 2022.

SAVATER, Fernando. O valor de educar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

SUNG, Jung Mo. Educar para reencantar a vida. Petrópolis: Vozes, 2006.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero. Também escreveu e publicou “O modelo de mensuração educacional e o desaparecimento da formação”: https://www.neipies.com/o-modelo-de-mensuracao-educacional-e-o-desaparecimento-da-formacao/

Edição: A. R.

Bullying não é brincadeira! Diga não ao bullying!

Repercutimos, neste site educacional, o trabalho de uma Escola da Rede Municipal de Passo Fundo, A EMEF Zeferino Demétrio Costi. A partir do trabalho da Coordenadora Pedagógica (que também já atuou na escola como Orientadora Educacional) Adriana Severo dos Santos, este educandário vem trabalhando diuturnamente para enfrentar o bullying, uma prática bastante comum em ambientes escolares e que deve ser enfrentada a partir de estratégias educativas permanentes.

Uma das temáticas mais debatidas na sociedade hoje, principalmente nos espaços escolares, é o Bullying, tornando-se um desafio a nós educadores e educadoras. O desafio é pensar e desenvolver um trabalho preventivo junto aos estudantes e toda a comunidade escolar.

Esse trabalho de sensibilização, conscientização, permeado de atividades pedagógicas preventivas, busca fortalecer e tornar a escola um ambiente escolar emocionalmente saudável, produtivo e positivo. Por este motivo, escolas tem se preocupado cada vez mais, não só com o desenvolvimento acadêmico, mas também com o desenvolvimento social e emocional dos estudantes.

Cabe ressaltar que, o bullying influencia e contribui diretamente no processo ensino aprendizagem, sendo um dos fatores determinantes ao sucesso ou fracasso escolar, por isso é tão determinante seu debate e medidas de prevenção.

A escola é um espaço de vivencias coletivas, por isso, é preciso oferecer meios para se encontrar novas soluções no combate a estes tipos de constrangimentos e, mostrar para as pessoas que bullying não é brincadeira, mas, sim, um ato de crueldade e violência contra estas crianças e adolescentes. Além disso, projetos de prevenção, essenciais no âmbito escolar, visam discutir formas de convivência, valorizando a amizade, os valores humanos, a integração, empatia, solidariedade, sentindo-se feliz, seguro e respeitado.

É importante destacar também, que os efeitos do bullying podem ser devastadores, traumáticos e irreversíveis, se não combatidos e denunciados, por isso partindo deste pressuposto, apresentamos algumas sugestões… que nos últimos quatro anos a Escola Municipal Zeferino Demétrio Costi tem trabalhado com os estudantes e toda comunidade escolar, em vários momentos educativos, refletindo e avaliando, buscando amenizar e instalar uma cultura da paz, pela harmonia e boa convivência de todos.

Coordenadora da EMEF Zeferino Demétrio Costi em seu ambiente de trabalho.

Seguem sugestões de materiais educativos que podem ser trabalhados junto a estudantes das séries iniciais do Ensino Fundamental.

LIVROS:

ERNESTO: 3º,4º,5º ANOS

– Os direitos das Crianças – Ruth Rocha

– Adaptação Declaração Universal dos Direitos Humanos – Ruth Rocha e Otávio Roth.

Materiais Audiovisuais como sugestões para trabalhos com estudantes:

1.A experiência da florzinha – 1º E 2ºS ANOS

LINK: https://youtu.be/8kv2L_2C0_w

2.Amigo sim! Bullying não | Música do Projeto Amigo SIM! Bullying NÃO | Karoline Steciuk & Pablo

LINK: https://youtu.be/0M70E3HGjMk?t=121

3. Turma da Mônica: Respeito e tolerância

LINK: https://youtu.be/sDWQ-QuSXXQ?t=54

Seguem, também, sugestões de materiais audiovisuais (vídeos) que podem ser trabalhados junto a estudantes das séries finais do Ensino Fundamental.

1. O filme CURTA DIFERENÇAS foi realizado com financiamento da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Tem o patrocínio exclusivo das Empresas RANDON, a realização da Secretaria Especial da Cultura, do Ministério do Turismo e do Governo Federal. A ideia nasceu com a música DIFERENÇAS de Rodrigo Munari. Da música surgiu o livro DIFERENÇAS do mesmo autor, com ilustrações de Felipe Munari. Do livro as palavras e ilustrações ganham vida, voz e movimento no filme CURTA DIFERENÇAS!!!

Acesse: https://youtu.be/4GyQY4Cfqcs?t=91

2.Time espanhol lançou vídeo promocional aderindo à campanha do Dia Internacional contra o Bullying Escolar. No comercial, com o tema “Contra o bullying, coragem e coração”, uma criança é vítima de bullying no pátio de uma escola e outras duas crianças a defendem, uma delas vestida com a camisa do zagueiro Stefan Savic, defensor do time de Diego Simeone. O vídeo é encerrado com a legenda: “Às vezes os verdadeiros craques são os que defendem, não os que atacam”. A campanha é realizada no dia 2 de maio e visa conscientizar crianças e adultos sobre o bullying em escolas.

Acesse: https://youtu.be/MyZRBtetedk?t=64

3. 7 de abril – Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola: vídeo Bullying e violência na escola

Acesse: https://youtu.be/FDOxruDcIlE?t=58

4. Que papo é esse: Bullying

Acesse: https://youtu.be/sQmdnMFp8Ek?t=1

5. Amor de cabelo | Curta-metragem vencedor do Oscar | Emocionante.

 Acesse: https://youtu.be/EbMvXiZq6HI?t=333

Edição: A. R.

O que aprender e ensinar nas escolas a partir de tragédias ambientais como a do RS?

Entendemos que a abordagem didática e pedagógica da tragédia ambiental no RS representa uma oportunidade única de construirmos sentido e relevância destes conteúdos nas salas de aula, trazendo elementos reflexivos que apontem possíveis soluções e ampliem a capacidade crítica e criativa dos nossos estudantes, razão maior da existência de nossas escolas.

Acreditamos numa educação contextualizada, que se importa e que trabalha, didática e pedagogicamente, temas emergentes e urgentes que impactam a sociedade, inclusive aqueles que surgem repentinamente, que podem estar fora dos nossos planos de trabalho ou planejamentos trimestrais ou mensais. É o caso da recente catástrofe ambiental que assola o sul do Brasil, impactando sob vários aspectos a economia, a vida social, cultural e educacional de nosso querido Rio Grande do Sul, do nosso querido e amado Brasil.

Nossas escolas não podem ficar alheias às realidades sociais e ambientais. Quando ocorrem eventos sociais ou ambientais que impactam a vida de nossas comunidades, precisamos ousar para incluir, efetivamente, este contexto como um tópico das discussões das nossas escolas, bem como uma interessante forma para nossos estudantes desenvolverem habilidades relevantes já previstas na nossa BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Este conteúdo pode ser abordado por diferentes componentes curriculares, por áreas de conhecimento ou mesmo constituir um trabalho de toda escola onde cada componente ou área de conhecimento colabora com uma abordagem específica. Se este conteúdo, da prática e da realidade social mais impactante e eminente não nos importa, o que nos importará?

A partir deste entendimento e convicção, decido socializar, neste ensaio, alguns apontamentos/sugestões de intervenção pedagógica, a partir de minha experiência vivenciada em salas de escolas públicas de anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Algumas sugestões e propostas foram sugeridas com colegas professores e professoras que, como eu, já ousaram trabalhar e problematizar o evento da tragédia ambiental que assola o RS em 2024 e das grandes e impactantes consequências para todos os gaúchos e gaúchas, brasileiros e brasileiras.

Lembramos que há habilidades específicas que versam sobre este tema. Citaremos algumas: (EF07CI08) Avaliar como os impactos provocados por catástrofes naturais ou mudanças nos componentes físicos, biológicos ou sociais de um ecossistema afetam suas populações, podendo ameaçar ou provocar a extinção de espécies, alteração de hábitos, migração etc. (EF09CI13):  Propor iniciativas individuais e coletivas para a solução de problemas ambientais da cidade ou da comunidade, com base na análise de ações de consumo consciente e de sustentabilidade bem-sucedidas.(EM13CNT301): Construir questões, elaborar hipóteses, previsões e estimativas, empregar instrumentos de medição e representar e interpretar modelos explicativos, dados e/ou resultados experimentais para construir, avaliar e justificar conclusões no enfrentamento de situações-problema sob uma perspectiva científica. (EF05GE10) Reconhecer e comparar atributos da qualidade ambiental e algumas formas de poluição dos cursos de água e dos oceanos (esgotos, efluentes industriais, marés negras etc.).

A educação ambiental está prevista em competência da BNCC, aparece entre as Competências Gerais: Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

Enumeramos alguns tópicos que podem auxiliar os professores e professoras na organização de intervenções didáticas e pedagógicas.

1. Sensibilidade social do problema.

Percebemos que um grupo expressivo de estudantes ainda não está/ nem estão envolvidos e sensibilizados para a leitura, interpretação e intervenção do problema vivenciado no RS.

Os estudantes possuem, modo geral, informações muito superficiais, pouco refletidas e, muitas vezes, resultado de disseminação de Fake News, reproduzidas em diferentes redes sociais. Para tanto, necessitam de uma provocação para a leitura e estudo de matérias científicas e jornalísticas sobre o tema, para a socialização de informações e para o debate das questões que envolvem a maior tragédia ambiental já vivida no RS.

Sugestões de atividades:

Uma das maneiras de fazer esta sensibilização e aproximação com a realidade concreta das milhares de pessoas afetadas pela tragédia pode ser através da representação de imagens/desenhos/interpretação através da arte. Esta atividade rende muito para a formação da sensibilidade social do problema. Força os estudantes a buscarem imagens impactantes reveladas através da mídia e das redes sociais. Leva-os também a pesquisar pequenos textos ou imagens na internet, a fim de superarem a interpretação rasa dos fatos.

Estes trabalhos confeccionados pelos estudantes podem ser expostos em painéis no interior das escolas, bem como podem ser postadas em redes sociais utilizadas pelas comunidades escolares.

Outra estratégia é contar histórias ou convidar pessoas que já vivenciaram o drama de abandonar as casas, voltar para as casas para habitá-las novamente e recomeçar tudo de novo. Pode-se também assistir com estudantes pequenas reportagens que contenham relatos de pessoas/famílias que já passaram por esta realidade.

2.Problematização e aprofundamento de conhecimentos

Este tópico compreende a necessidade de eleger e elencar aspectos mais específicos para aprofundar e compreender a tragédia ambiental que ocorreu em nosso estado.

Sugestões de atividades:

No caso específico, estudar a geografia do nosso estado, as bacias hidrográficas, as estatísticas sobre o volume de chuvas, as cidades mais afetadas, os problemas e soluções já experimentados para sanar ou mitigar o problemas das enchentes. Envolve saber também qual é a dimensão do problema: número de mortos, quais são as populações mais atingidas, número de famílias desalojadas e fora de suas casas; número de pessoas diretamente afetadas, cifras e números sobre os custos da recuperação das áreas e dos estragados causados pela tragédia ambiental.

Pesquisar e problematizar sobre quais foram os eventos semelhantes que ocorreram no passado, que ações foram tomadas pelos governantes e como a população reagiu ao que aconteceu.

3.Intervenção e engajamento social

Este tópico representa o desafio do engajamento social, a partir do conhecimento adquirido e construído junto e com os estudantes. Pode prever ações concretas que envolvam atividades voluntárias, arrecadação de mantimentos ou comidas.

A depender da situação e do lugar onde moram os estudantes, pode resultar em visitas de conhecimentos a comunidades afetadas diretamente pela tragédia ambiental.

Pode suscitar também o estudo sobre alternativas para a mitigação de consequências de uma tragédia ambiental deste porte como tratamentos para obter água potável, retirada de populações e cidades inteiras de áreas de risco, ocupação do solo urbano e riscos iminentes por ocuparmos áreas de preservação ambiental ou muito próxima de mananciais, rios ou lagos.

Entendemos, por fim, que uma tragédia ambiental como esta vivida por significativa parte da população gaúcha tem muito a ensinar a todos, sejam professores e professoras, como também aos estudantes. Entendemos, também, que a tragédia representa uma oportunidade única de construirmos sentido e relevância destes conteúdos nas salas de aula, trazendo elementos reflexivos que apontem possíveis soluções e ampliem a capacidade crítica e criativa dos nossos estudantes.

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Atividade para Educação Infantil (sugestão do professor Marciano Pereira)

Habilidade EI03EO01 (Demonstrar empatia pelos outros, percebendo que as pessoas têm diferentes sentimentos, necessidades e maneiras de pensar e agir)

Utilizar a história “E a Chuva” da autora Sabrina Fuhr ou “Céu, Sol, Sul de ”Cristina Saling Kruel.

Acesse aqui: https://educacaointegral.org.br/reportagens/livro-gratuito-apoia-dialogo-com-criancas-sobre-as-enchentes-no-rio-grande-do-sul/

PASSOS:

  1. Passo: ler a história para as crianças
  2.  Passo: explorar as ilustrações da história (pode- se mostrar as ilustrações enquanto se lê/ conta a história).
  3. Passo: pedir para as crianças falarem sobre o que sentem quando chove? O que fazem em dias de chuva?
  4. Perguntar para as crianças sobre o que já sabem a respeito de enchentes, o que ouviram e ou viram.
  5. Solicitar que elaborem desenho sobre a conversa feita. Aínda podem utilizar massinha de modelar para expressar sentimentos despertados pela história.

É importante que as crianças expressem sentimentos vivenciados com a história e o contexto. Pode ser que algumas delas já tenham tido experiências relevantes em dias de muita chuva, e até mesmo enchentes.

Onde for viável a Escola pode motivar campanha de doações junto a famílias e a comunidade do entorno da Instituição. Se cada criança fizer uma contribuição, ela mesma fazer a entrega vai estar aprendendo de forma prática a empatia.

Para valorizar a atividade didática feita com as crianças, é possível utilizar os desenhos delas como peça para campanha de doação, publicar nas redes sociais da escola também é uma maneira de motivar o estudo do contexto e possibilitar a ressignificação das realidades.

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Outros subsídios para a leitura dos professores e professoras.

Gabriel Grabowski, professor e colaborador convidado do site já escreveu, nos alertando sobre o papel das escolas para a educação ambiental: “…todas as instituição de ensino, da educação infantil à pós-graduação, precisam, emergencialmente, se transformarem em espaços integrais de educação ambiental sustentáveis. Uma educação ambiental permanente, não neutra, crítica, integradora, prática, transversal, inter e multidisciplinar, vivencial e com participação da sociedade e da comunidade”. Leia mais: https://www.neipies.com/crises-climaticas-e-educacao-ambiental/

Professora Ana Lúcia Vieira, em ensaio publicado no site, afirma que “precisamos pensar estratégias harmoniosas entre teoria e prática, entre o que se diz e o que se faz, caso contrário, nossos estudantes não entenderão o propósito e a importância de tratar das causas ambientais, e a forma de agir deles permanecerá inalterada”. Leia mais: https://www.neipies.com/educacao-ambiental-por-etica-ou-por-etiqueta/

Gládis Pedersen, pedagoga, tratando sobre a importância do cuidado com o Planeta Terra aponta que “atividades planejadas adequadamente, de forma multidisciplinar e interdisciplinar, enriquecem o processo ensino aprendizagem na escola. Encontramos, na Base Nacional Curricular Comum, entre as competências do Ensino Religioso que o aluno deve: “Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza enquanto expressão de valor da vida”. Leia mais: https://www.neipies.com/a-terra-nossa-mae-comum/

Rosângela Trajano, a partir de preocupação de como falar com as crianças sobre o clima, escreve:faça com que as crianças reflitam sobre clima e natureza e levantem questões críticas, de posicionamento favorável a proteção do meio ambiente e com mais rigor a quem prejudica a natureza. Crie uma cartilha de boas práticas junto a natureza”. Leia mais: https://www.neipies.com/como-falar-sobre-o-problema-do-clima-com-as-criancas/

Imagens: desenhos/gravuras feitos por estudantes da EMEF Zeferino Demétrio Costi e Instituto Estadual Cecy Leite Costa durante aulas da semana (06 a 10/05/2024)

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site.

Edição: A. R.

Quando as águas baixarem

Entre outras medidas, é importante desenvolver uma educação socioambiental crítica e transversal, em todos os níveis e instituições. Repensar o modelo de desenvolvimento em curso, baseando-o na sustentabilidade dos ecossistemas e da biodiversidade, no emprego da ciência e da tecnologia em vista da justiça social, econômica e ambiental.

No contexto das inundações reincidentes no Rio Grande do Sul, do caos generalizado e das mobilizações locais, nacionais e internacionais para prestar socorro e solidariedade, advém uma série de reflexões e questionamentos. Por que as águas caem de forma intempestiva e sobem tão depressa como em um novo dilúvio? E por que são tão devastadoras quando caem e sobem assim de repente? Quando as águas baixarem e mesmo enquanto elas permanecem caindo e subindo, é tempo (ainda) de pensarmos e agirmos em várias direções.

A meu ver, nossas ações devem ser, fundamentalmente, em três níveis.

1)  Nível imediato: Em forma de resgate de pessoas e animais; oferecendo abrigo e doando gêneros de primeira necessidade; com serviços de apoio psicológico, médico, fraterno, espiritual, etc. Trata-se daquilo sem o qual a tragédia se ampliaria e agravaria. De um modo ou de outro, medidas dessa natureza podem ser e estão sendo tomadas por instituições, grupos, organizações e população em geral. Nesse sentido, a solidariedade está bem aflorada, o que é altamente louvável e humano e faz toda a diferença. Será que desta vez conseguiremos fixar a solidariedade como uma verdadeira cultura, um modo de ser ampliado e duradouro?

2) Nível conjuntural:  Ser solidário na hora da tragédia é vital, mas não basta. É preciso (re)planejamento urbano sob vários aspectos, incluindo a previsão de desastres, com os devidos sistemas de alerta e orientações de prevenção. Repensar a infraestrutura urbana é prioridade número zero, a considerar que, segundo o IBGE/2022, dos mais de 203 milhões de habitantes no Brasil, 84,72% da população já vive em zonas urbanas, o que ainda poderá aumentar.

Neste nível conjuntural emergem desafios como a criação de mecanismos eficientes de segurança; garantia de recursos para emergências; realocação de residências, de bairros ou até de cidades inteiras, etc. Isso implica um grande dilema, pois ao mesmo tempo em que é algo urgente e envolve muitos recursos, não pode ser feito sem o devido planejamento. Reconstruir no mesmo local, além de oneroso é temerário, pois ocorrências semelhantes poderão se repetir. Então, onde, como e com que recursos reerguer o que foi destruído?

3) Nível estrutural e global: As mudanças climáticas e suas consequências diretas e intensas sobre os ecossistemas, a vida humana e as edificações materiais são um fato. Agora estamos numa crucial encruzilhada. Se seguirmos pela via neoliberal, consumista, individualista, predatória e negacionista, as tragédias inaturais, ou seja, produzidas pelo próprio ser humano tendem a ser sempre mais graves e dramáticas. Ainda em 2018, Raymond Pierrehumbert, professor de física da Universidade de Oxford, um dos autores do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) escreveu: “No que diz respeito à crise climática, sim, chegou a hora de entrarmos em pânico”.

Sem deixar de lado as ações no nível imediato e conjuntural, é essencial alargar ainda mais o horizonte.

Entre outras medidas, é importante desenvolver uma educação socioambiental crítica e transversal, em todos os níveis e instituições. Repensar o modelo de desenvolvimento em curso, baseando-o na sustentabilidade dos ecossistemas e da biodiversidade, no emprego da ciência e da tecnologia em vista da justiça social, econômica e ambiental. Adequar a legislação e as políticas públicas de proteção do meio ambiente, considerando a realidade do aquecimento global e suas consequências tais como essa que se abate sobre o Rio Grande do Sul

Enquanto as águas caem, sobem e baixam; seja no rigor do frio ou do calor, é imperativo refletir e construir meios para evitar que outras tragédias inaturais e de tamanha gravidade sigam acontecendo. Faz tempo que estudiosos do clima avisaram que estamos num ponto já sem retorno. Talvez ainda tenhamos um pouco de tempo para mudanças radicais no nosso modo humano de viver em sociedade e na relação de cuidado com a natureza. Mas, isso é mais um desejo do que uma certeza!

Autor: Dirceu Benincá.  Professor Universitário (UFSB e FURG). Também escreveu e publicou crônica “Encontrei a resposta”: https://www.neipies.com/encontrei-a-resposta/

Edição: A. R.

Chamado das Rosas Noturnas no Sul do Brasil

Unamo-nos, pois, em um só propósito: trazer alívio, conforto e esperança àqueles que enfrentam as tempestades da vida e das chuvas. O Rio Grande do Sul precisa do nosso apoio, da nossa compaixão, da nossa solidariedade. Que a nossa resposta seja um eco de amor que ressoe através das montanhas e vales, mostrando que, juntos, somos mais fortes do que qualquer tormenta.

Em um jardim de solidariedade, no qual as raras rosas pretas desabrocham como segredos guardados na noite, ecoa um chamado silencioso, uma sinfonia de compaixão que ressoa. Como as pétalas singulares que se tingem de um “carmesim” profundo, estas rosas são mais que simples flores; são testemunhas vivas da resiliência e da generosidade dos corações sulistas.

Imagine-se no jardim da solidariedade, onde as rosas noturnas dançam ao ritmo das sombras, cada pétala é um fragmento de compaixão. Enfrentando as tempestades da vida, como os bravos corações que chamamos de vizinhos, essas flores desafiam a seleção natural, buscando a profundidade do amor e da bondade.

O “carmesim” nelas é como um chamado silencioso, uma promessa de renovação mesmo nas noites mais escuras. E assim, nas entranhas do Sul do Brasil, onde o céu derrama suas lágrimas incessantes, essas rosas noturnas florescem como faróis de esperança, lembrando-nos de que a solidariedade é nossa maior força.

Que nossas mãos se estendam como compassos de música, guiando aqueles perdidos na escuridão da tempestade. Unidos, como notas numa sinfonia da compaixão, possamos oferecer abrigo e conforto. Que o amor seja nossa canção mais bela, mesmo quando as nuvens encobrem o céu. E que, como as rosas noturnas, possamos florescer mesmo nas condições mais desafiadoras, lembrando-nos de que a solidariedade é nossa maior força.

Nas terras do Sul do Brasil, onde a esperança se entrelaça e a bravura nunca passa, a solidariedade é a rosa preta, rara, que nos guia pelo caminho da compaixão. Unidos, como as pétalas de uma rosa, podemos enfrentar qualquer tempestade e florescer juntos, iluminando a escuridão com a luz da nossa generosidade. Que o chamado das Rosas Noturnas seja o nosso guia, e que a solidariedade seja a nossa mais bela melodia.

As pontes que nos ligam estão abaladas, mas não destruídas. Façamos delas laços de solidariedade, de apoio mútuo na medida em que é na união dos nossos esforços que encontraremos forças para reconstruir o que as águas furiosas levaram consigo.

Unamo-nos, pois, em um só propósito: trazer alívio, conforto e esperança àqueles que enfrentam as tempestades da vida. O Rio Grande do Sul precisa do nosso apoio, da nossa compaixão, da nossa solidariedade. Que a nossa resposta seja um eco de amor que ressoe através das montanhas e vales, mostrando que, juntos, somos mais fortes do que qualquer tormenta.

Saiba mais: maior tragédia e cheia do RS, em particular, na capital Porto Alegre. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c136m7y3vrzo#:~:text=A%20capital%20Porto%20Alegre%20j%C3%A1,segundo%20a%20Rede%20Hidrometeorol%C3%B3gica%20Nacional.

Autor: Prof. Dr. Mauro Gaglietti. Membro da Academia Passo-Fundense de Letras

Edição: A. R.

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