Início Site Página 48

Chamado das Rosas Noturnas no Sul do Brasil

Unamo-nos, pois, em um só propósito: trazer alívio, conforto e esperança àqueles que enfrentam as tempestades da vida e das chuvas. O Rio Grande do Sul precisa do nosso apoio, da nossa compaixão, da nossa solidariedade. Que a nossa resposta seja um eco de amor que ressoe através das montanhas e vales, mostrando que, juntos, somos mais fortes do que qualquer tormenta.

Em um jardim de solidariedade, no qual as raras rosas pretas desabrocham como segredos guardados na noite, ecoa um chamado silencioso, uma sinfonia de compaixão que ressoa. Como as pétalas singulares que se tingem de um “carmesim” profundo, estas rosas são mais que simples flores; são testemunhas vivas da resiliência e da generosidade dos corações sulistas.

Imagine-se no jardim da solidariedade, onde as rosas noturnas dançam ao ritmo das sombras, cada pétala é um fragmento de compaixão. Enfrentando as tempestades da vida, como os bravos corações que chamamos de vizinhos, essas flores desafiam a seleção natural, buscando a profundidade do amor e da bondade.

O “carmesim” nelas é como um chamado silencioso, uma promessa de renovação mesmo nas noites mais escuras. E assim, nas entranhas do Sul do Brasil, onde o céu derrama suas lágrimas incessantes, essas rosas noturnas florescem como faróis de esperança, lembrando-nos de que a solidariedade é nossa maior força.

Que nossas mãos se estendam como compassos de música, guiando aqueles perdidos na escuridão da tempestade. Unidos, como notas numa sinfonia da compaixão, possamos oferecer abrigo e conforto. Que o amor seja nossa canção mais bela, mesmo quando as nuvens encobrem o céu. E que, como as rosas noturnas, possamos florescer mesmo nas condições mais desafiadoras, lembrando-nos de que a solidariedade é nossa maior força.

Nas terras do Sul do Brasil, onde a esperança se entrelaça e a bravura nunca passa, a solidariedade é a rosa preta, rara, que nos guia pelo caminho da compaixão. Unidos, como as pétalas de uma rosa, podemos enfrentar qualquer tempestade e florescer juntos, iluminando a escuridão com a luz da nossa generosidade. Que o chamado das Rosas Noturnas seja o nosso guia, e que a solidariedade seja a nossa mais bela melodia.

As pontes que nos ligam estão abaladas, mas não destruídas. Façamos delas laços de solidariedade, de apoio mútuo na medida em que é na união dos nossos esforços que encontraremos forças para reconstruir o que as águas furiosas levaram consigo.

Unamo-nos, pois, em um só propósito: trazer alívio, conforto e esperança àqueles que enfrentam as tempestades da vida. O Rio Grande do Sul precisa do nosso apoio, da nossa compaixão, da nossa solidariedade. Que a nossa resposta seja um eco de amor que ressoe através das montanhas e vales, mostrando que, juntos, somos mais fortes do que qualquer tormenta.

Saiba mais: maior tragédia e cheia do RS, em particular, na capital Porto Alegre. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c136m7y3vrzo#:~:text=A%20capital%20Porto%20Alegre%20j%C3%A1,segundo%20a%20Rede%20Hidrometeorol%C3%B3gica%20Nacional.

Autor: Prof. Dr. Mauro Gaglietti. Membro da Academia Passo-Fundense de Letras

Edição: A. R.

Ensinar e aprender através do afeto: cartas pedagógicas

Repercutimos, nesta coluna, matéria feita por Marcos Antonio Corbari do jornal Brasil de Fato RS sobre uma experiência que realizei junto com professores e professoras de uma escola de Assentamento em Pontão, RS, utilizando a metodologia das cartas pedagógicas.

***

É um pequeno livro. Pouco mais de 50 páginas. De leitura rápida. Mas é ao mesmo tempo grande. Um grande livro pelo tanto que representa. Mostra como uma educadora pode provocar seus educandos e educandas a florescer para o mundo, efetivando a educação impregnada pelo esperançar, bem do jeitinho que ensinou Paulo Freire. Dá para dizer mais, a educação impregnada pelo afeto, semente das verdadeiras revoluções.

Com certeza a educadora Elaine Busch – do 4º ano na Escola 29 de Outubro, no assentamento 16 de Março, território da antiga Fazenda Annoni, transformado pela Reforma Agrária, no município de Pontão (RS) – não imaginaria que ao instigar o grupo de crianças a escrever cartas para a educadora e escritora Isabela Camini, veria a experiência tornar-se objeto de um livro. Esses educadores e educadoras do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) têm essa mania de olhar para seus Sem Terrinhas e esticar-lhes as asas.

Como educadora e mediadora da atividade, descrevo como um momento mágico. Em meio a tantas opções tecnológicas, não pensei que um meio já tido como ultrapassado por muitas pessoas, a carta, fosse despertar tanta emoção. É inexplicável o brilho nos olhos das crianças ao lerem a primeira resposta. Fala dos estudantes: “nossa, ela realmente respondeu. Ela gostou da nossa letra. Ela tirou um tempo para nos responder, sinto a emoção nas palavras! Ela disse que conheceu nossos pais. Ela conheceu o acampamento”. Nas entrelinhas, percebi que estavam contentes, porque se sentiram valorizados, importantes, porque alguém as ouviu e, acima de tudo, os respondeu.(professora Elaine Jovita Busch)

O trabalho com Cartas Pedagógicas não é novidade dentro da pedagogia dos e das Sem Terra. Nem para qualquer alguém que tenha Freire como guia. A novidade que o livro “Cartas de afeto e aprendizagens: uma relação entre educandos e educadora”, publicado pela editora Saluz, traz, é justamente o protagonismo das crianças. Suas palavras, suas histórias, suas raízes, seus sonhos são a pauta da conversa postal e provocam em Camini reflexões que vão além das respostas enviadas neste diálogo que se desenrolou via serviço postal entre maio e dezembro de 2023.

Não espere o leitor que este livro seja um tratado de ciência da educação. Não vem com um mosaico de recortes teóricos, nem com as costumeiras palavras difíceis ou citações de sobrenomes repletos de consoantes. O referencial teórico está na relação, o método é o afeto, a práxis é a história que antes de ser contada precisa ser escrita com o cotidiano daqueles e daquelas que são legítimos frutos de uma luta.

O instrumento de construção – a correspondência trocada entre Camini e o grupo do 4º ano – são cartas pedagógicas como devem ser de fato: repletas de verdades subjetivas, interpretações de mundo, leituras sobre um cotidiano que é transformador por natureza, tanto para quem aprende quanto para quem ensina (e é preciso citar, neste processo todas e todos deixam claro que muitas vezes quem tem o título de “educador/a” é que acaba aprendendo com quem está na condição de “educando”).

Este é um livro urgente, escrito com a pressa de quem vive o cotidiano de tempos que devoram as subjetividades das pessoas. Precisava chegar logo às mãos destes educandos e educandas, enquanto ainda encontram-se em meio ao processo de formação, tendo ciência de que seus escritos mesmo que singelos são extraordinários e por isso transformadores da realidade.


Para avalizar essa resenha, busco alguns recortes dos intertextos que vem em anexo ao livro:

“Escrever cartas é manter vivo em nós o aspecto mais necessário na atualidade: sermos humanos”, aponta Munir Lauer.

“O testemunho das trocas cultivadas nesta obra se insere no conjunto maior de esperanças na humanidade, de luta pela refundação da sociedade em bases sociais e ecológicas mais harmônicas”, afirma Roger Elias.

“Esse processo de troca é, em sua essência, a literatura na prática, como ferramenta de transformação de consciência do ser humano”, alinha Clarisse Teles.

“Nesse mundo de hoje, em que as relações são líquidas e superficiais, a carta é um acalanto, pelo fato de realmente trazer consigo a necessidade de pensar”, explica Elaine Busch.

“A cultura do saber ler e escrever o mundo, como já ensinou Paulo Freire, se concretiza nesse fazer pedagógico”, contextualiza Márcia Ramos.

“Essas crianças vivem suas infâncias com alegria, espontaneidade e plena liberdade. São crianças que podem viver suas infâncias com plena certeza de que sua palavra é ouvida, com respeito e dignidade”, conclui Isabela Camini.

E na resenha não será citado nenhum texto de algum dos alunos?

Enquanto redigia este texto debati com a pedagoga e dirigente do Setor de Educação do MST, Clarisse Teles, a respeito de uma delas, quiçá a mais singela, porém a que mais me instigou. O aluno Nicolas, inserido dentro do espectro autista, em sua carta afirmou: “Gosto da escola, dos colegas. De andar de bicicleta” e questionou: “E você?” Essa, entre todas, foi minha carta preferida. Lindamente simples e direta. Sem muita explicação nem justificativa. Bem como deve ser o “gostar”. A gente gosta e ponto. E você gosta do quê? Temos nos preocupado tanto com tantos “porquês” que acabamos deixando de lado o que realmente importa, que são os “oquês”.

O que eu achei do livro? Não fico cômodo na tarefa de “avaliador”. Convido a que o leiam, assim como fiz, com pensamento livre e coração aberto. Porque não devemos avaliar afetos. Leiam o novo livro de Isabela Camini. De Elaine Bush. De Clarisse Teles. De Munir Lauer, Roger Elias e Márcia Ramos. Mas sobretudo, leiam o primeiro livro de Nicolly, Bernardo, Valentina, Graziela, Luiza, Eduardo, Rafaela, Willian, Valentina e Nicolas.

O lançamento será realizado no próximo dia 14 de maio de 2024, na escola, com a presença dos pequenos autores e autoras, da organizadora, da educadora que provocou a escrita e demais que contribuíram com entrelinhas e intertextos. O Brasil de Fato RS também vai! Nos vemos em Pontão”!

FOTOS: Divulgação/ arquivo pessoal

FONTE: https://www.brasildefators.com.br/2024/04/29/ensinar-e-aprender-atraves-do-afeto-publicacao-divulga-cartas-entre-escritora-isabela-camini-e-criancas-sem-terrinha

Edição: A. R.

Para pensar no teto de todos nós

Nada vai acontecer! Até que o teto de cada um desabe sobre si.

Paredes salvas, lindas aos olhos de quem passa.

Sem teto, todavia. Pra quê! Quem se importa?

Não estamos correndo todos, por telhas escassas?

_Hoje não irá chover filhos! Fechem logo a porta.

Sob as nuvens, a ameaça! Sobe o tempo indiferente:

chuva, granizo, ventos, raios, e tudo será ensopado.

Sinta a emoção conosco?  Um céu feio passa, rente.

Passe você uma noite!  Uma noite apenas, encharcado.

Não há telhas que a contemplem, pelo menos hoje.

Muito menos consciência, que contemple a nós,

Tendo teto em minha casa, que mal que nos enoje?

Chame o prefeito, por um dia, e o deixe ali, a sós.

Até Deus pareceu abandonar. Que grande a eles o mal-feito?

Nesta vil tapera urbana, e que tem data e hora certa pra ruir.

Que as suas paredes, projetam apenas o vazio de quem eleito.

Mas, nada vai acontecer! Até que o teto de cada um desabe sobre si.

  11/04/2024

Autor: Nelceu A. Zanatta. Publicou e escreveu poesia “A menina, a janela e o cego”: https://www.neipies.com/a-menina-a-janela-e-o-cego/

Edição: A. R.

Trate as suas crianças de maneira igual

Trate seus filhos por igual como eles lhe tratam. Mesmo que você admire um mais do que o outro pelas suas habilidades e facilidades de compreenderem as coisas, pelo seu jeito físico de se parecer mais com você ou pelo seu jeito de agir ser exatamente igual ao seu.

Começo este pequeno ensaio literário com uma frase do meu amado poeta português Fernando Pessoa que nos diz “Mais vale ser criança que querer compreender o mundo.” A criança não compreende o mundo, mas compreende a forma como é tratada no ontem, no hoje e no futuro.

A infância é a fase da vida mais incompreendida pelos adultos. As crianças nascem vazias de conhecimentos e aos poucos vão recebendo conceitos diferentes e absorvendo os movimentos dos objetos e pessoas ao seu redor sem se dar conta do turbilhão de coisas que ainda têm para aprender.

Ser criança não é coisa fácil. Antes a gente só brincava e estudava. Hoje, temos que fazer um monte de coisas para deixarmos os nossos pais descansarem porque parece que eles se cansam da gente vez ou outra, não é mesmo? Os pais nunca deveriam se cansar das suas crianças, pois elas são o que de mais belo existe dentro de uma casa e sem elas nada teria mais importância no lar.

Se você é uma pessoa de muitos amigos deve tratá-los de diferentes formas quando os encontra ou numa roda de samba. Você sempre tem aquele preferido que quer sentar-se ao seu lado, o que gosta de falar de jogos e você o escuta com atenção ou o que fica calado o tempo inteiro e você o respeita. Cada amigo você trata de um jeito, certo?

No entanto, os amigos são pessoas adultas que já estão preparadas para isso e muitas vezes tem amigo que não gosta de receber um tratamento diferente, se zanga e vai embora. Todos gostam de ser tratados por igual. Ninguém quer ser tratado com diferenças numa festa ou reunião. As pessoas amam umas as outras e sentem ciúmes quando são tratadas de formas diferentes, ficam tristes e chegam até a chorar escondidas pela falta de empatia de alguns amigos.

Eu venho hoje pedir para você papai ou mamãe que tem mais de uma criança em casa tratá-las por igual, sim. Não dá mais atenção a uma do que a outra, não trazer um presente para uma e esquecer a outra porque já está maiorzinha e vai entender. Ninguém entende a falta de atenção, desleixo, a falta de amor.

Trate seus filhos por igual como eles lhe tratam. Mesmo que você admire um mais do que o outro pelas suas habilidades e facilidades de compreenderem as coisas, pelo seu jeito físico de se parecer mais com você ou pelo seu jeito de agir ser exatamente igual ao seu. Elas são crianças e entendem quando são tratadas de formas diferentes.

Por mais que você seja um pai ou mãe atencioso não esqueça de que a criança quer amor e atenção, ela quer saber que é amada incondicionalmente por você, logo imagine como se sente a criança que é esquecida no canto da casa enquanto o seu irmãozinho menor recebe todo o seu carinho. Claro que ela vai ficar triste e certamente até adoecer. Ela vai querer ir embora. Fugir de casa. Eu sempre pensava em fugir de casa quando meus pais brigavam comigo.

A vida de uma criança precisa ser tratada com respeito e cuidados. Alguns pais de primeira viagem esquecem de que seus filhos os amam e veem neles os seus heróis. Se os pais os tratam com indiferença, nas suas cabecinhas vão pensar que fizeram algo extremamente errado ou feio e vão ficar tristes. Muitos pais nem percebem essa tristeza porque estão ocupados demais com os seus problemas ou dando atenção para o irmãozinho que tirou notas boas na escola enquanto o outro está lá no quarto esquecido.

A criança que fica a mercê da própria sorte para sentir-se amada e tratada com cuidados e amor pode se deixar levar pelo carinho e palavras de qualquer estranho, principalmente aquelas que ficam horas no smartphone sem a vigilância dos pais. Elas contam tudo para a pessoa estranha do outro lado da linha como se fossem os seus salvadores e acabam fazendo coisas para essas pessoas que são prejudiciais aos seus crescimentos físicos e emocionais.

Tratar todas as crianças por igual é o certo e ponto final.

Mesmo que uma seja mais peralta do que a outra, mesmo que uma seja birrenta e a outra não, mesmo que uma tire notas boas na escola e a outra só faça bagunças. Pense naquele amigo que você esquece de dar atenção enquanto passa horas conversando com outro ao telefone. Como você se sentiria se fizessem isso com você?

Todas as crianças da casa devem receber o mesmo tratamento. Não que precisem se vestir com roupas iguais, não me refiro a isso. Mas, que sejam amadas e respeitadas nas suas individualidades e subjetividades recebendo a mesma atenção e cuidados dos seus pais para que se sintam amadas o tempo todo vivendo a segurança de um amor incondicional que nenhuma bruxa ou coisa parecida vai roubar delas.

A correria da vida, as exigências que o mundo faz dos adultos para cumprirem metas e objetivos, sempre nos deixam preocupados e cheios de temores. Esquecemos que as crianças têm medo de serem abandonadas nas portas das escolas ou em um parquinho qualquer.

Dessa mesma forma acontece quando as tratamos de um jeito diferente, elas pensam que estamos as deixando de lado porque já não gostamos mais delas, já não nos interessam mais. Estamos as descartando como se fosse uma coisa ou objeto e começam a chorar por qualquer coisa e até mesmo voltam a fazer xixi na cama.

Os traumas das crianças são causados na sua maioria por uma educação descuidada dos próprios pais ou responsáveis. Quando tratamos as nossas crianças de forma diferente elas ficam desconfiadas das nossas ações e começam a temer que façamos algo pior com elas ou que as abandonemos por não atenderem as nossas expectativas de serem boazinhas em tudo o que desejamos.

Não pense que você engana uma criança. As crianças são inteligentes e sabem quem as ama verdadeiramente. Elas também percebem quando são tratadas de forma diferente. Seja o tamanho do presente do irmãozinho que foi maior do que o dela, seja a atenção que você dá quando o irmãozinho fala do seu dia e você fica todo empolgado e quando ela fala você faz de conta que nem percebeu. São coisas pequeninas do cotidiano que fazemos com as nossas crianças que vão sendo acumuladas nas suas cabecinhas e começam a criar fantasias assustadoras com bichos e monstros.

Escuto quase todos os dias os meus amigos falarem que os consultórios de psicologia estão cheios de crianças assustadas e pais desesperados. Se o amor é possível curar tudo o que está acontecendo com as nossas crianças? Não conseguem perceber mais que as amamos? Ou estamos amando-as de um jeito errado?

Se pudéssemos entrar no pensamento de uma criança veríamos que lá dentro tem muitos questionamentos e coisas desarrumadas que foram causadas por nós. Sim, nós, pais e responsáveis que estamos mais preocupados em ficar milionários e irmos passar o resto das nossas vidas morando numa ilha paradisíaca.

O filósofo Sócrates não tratava os seus alunos de forma diferente, mas Platão vez ou outra tinha inveja deles. Achava que seu mestre dava mais atenção para os moços bonitos e o deixava de lado. Platão já era um jovem dotado de vários conhecimentos quando foi ter aulas com Sócrates e mesmo assim sentia que era tratado de forma diferente vez ou outra pelo seu mestre.

Deste jeito são as crianças na sala de aula com os seus professores. Elas conseguem perceber as que são verdadeiramente amadas e recebem cuidados. Desconfiam de que não recebem os mesmos cuidados porque não tiram notas boas ou porque são bagunceiras na sala de aula e que bagunçar parece não ser uma boa ideia, mas insistem na bagunça para chamar a atenção do professor somente para si nem que seja pelo erro e sabendo que está fazendo uma coisa feia e não boa para si própria a criança quer receber atenção também.

No meu mundo de criança fui tratada sempre com indiferença pelos meus professores e acho que devido a cor da minha pele ou quem sabe das minhas altas habilidades que eles não sabiam como lidar. Eu sempre terminava as minhas atividades primeiro do que os outros alunos e quando o professor passava uma tarefa eu logo resolvia antes mesmo da explicação.

Fui uma criança tratada de forma desrespeitosa pelos meus professores. Eles me colocavam num canto da parede, isolada de todas as outras e ali eu ficava até a aula terminar para não atrapalhar os demais alunos que ainda estavam aprendendo a fazer as tarefas enquanto eu já tinha terminado fazia tempo.

Meus pais nunca me trataram diferente e isso foi bom para mim. A minha mãe sempre cuidou bem de mim e mesmo eu sendo filha única numa família de três homens e uma mulher, mamãe nos beijava e abraçava com o mesmo cuidado que dava a cada um de nós. Eu via nos seus olhos cansados que se preocupava com o nosso bem-estar por igual e que quando perguntava como fomos na escola queria saber de nós quatro e não somente apenas de um ou dois.

Estou trazendo este assunto para você antes que seja necessário levar a sua criança ao consultório de um psicólogo ou a um terapeuta qualquer para saber o motivo dela estar triste por demais ou chorar o tempo todo quando você chega em casa ao invés de ficar alegre, talvez ela saiba que era para nesta hora você abraçá-la e dizer-lhe coisas lindas, mas você simplesmente se volta para o irmão mais velho ou mais novo e pergunta o que eles fizeram o dia todo esquecendo daquela que está ali quieta e tristonha à espera da sua atenção.

Ser bem tratado nos dias de hoje está bem difícil eu sei. No entanto, a criança não é culpada do seu comportamento malcriado, da sua birra ou da sua bagunça emocional na frente de estranhos, tudo o que ela quer é a sua atenção por pelo menos um instante. Ela quer que você chegue em casa e a abrace como faz com o bebê recém-nascido. Afinal, ela também é uma criança só mais crescidinha.

Cuidado com a forma com você trata a sua criança. Trate a todos por igual e experimente a dose dupla de amor que vem de Deus e dos seus amigos e crianças.

Para terminar este pequeno ensaio literário gostaria de citar um trecho do poema do nosso querido poeta português Fernando Pessoa que nos diz:

 “A criança que fui chora na estrada. / Deixei-a ali quando vim ser quem sou. / Mas hoje, vendo que o que sou é nada, / Quero ir buscar quem fui onde ficou.”

E que toda criança possa ir buscar quem foi ontem num cuidado atencioso por parte dos seus pais e responsáveis, afinal devemos ser tratados por igual sendo criança ou gente grande. Vá buscar você onde se deixou ficar.

Autora: Rosângela Trajano. Escreveu e publicou reflexão “É verdade que menina cresce mais rápido do que menino”: https://www.neipies.com/e-verdade-que-menina-cresce-mais-rapido-do-que-menino/

Edição: A. R.

Emergência climática e eleições municipais

Querendo ou não, há algo novo em nossas vidas. A população gaúcha está passando por um desafio – conviver com alagamentos urbanos. Mas será que a culpa é da chuva?

Parece ser mais simples culpar o visível, ou seja, a chuva, mas é preciso olhar com atenção o que isso revela. Chuvas sempre ocorreram, mas uma das principais razões para a cidade não dar conta da água da chuva é o excesso de impermeabilização do solo, que pode ser exemplificado pelos asfaltos. Em uma equação em que temos cada vez mais asfalto e cada vez menos solo disponível para absorver a água da chuva, a conta da absorção da água está cada dia mais deficitária. O reflexo direto disso corresponde a bocas de lobo sobrecarregadas, ruas e calçadas alagadas, resultando em famílias surpreendidas com água dentro de suas casas.

Experimentamos, na prática, o resultado do direcionamento dos investimentos públicos a iniciativas que reproduzem um modelo de cidade que não funciona mais, já que diminuem o verde e aumentam o cinza.

Mas é possível, a partir de ferramentas de planejamento urbano, contribuir para a redução dos efeitos dos dias chuvosos, entre as quais está a necessidade de os munícipios construírem planos de contingência que irão garantir um alerta mais qualificado, bem como o atendimento de famílias moradoras em áreas de risco.

E não só. Também é possível mitigar os dias quentes. Uma das formas é ampliar áreas verdes, e isso pode ser garantido a partir de inúmeras iniciativas apoiadas nas soluções baseadas na natureza (SBN).

As emergências climáticas devem ser entendidas como um fenômeno que se manterá constante. Esse problema requer uma solução coletiva, que se inicia com uma ação individual: o voto. Em um ano de eleições municipais, é importante perguntar: qual atenção será dada pelos candidatos e candidatas ao enfrentamento da maior emergência da humanidade?

FONTE: https://gauchazh.clicrbs.com.br/opiniao/noticia/2024/04/emergencia-climatica-e-eleicoes-municipais-clvebkhpu011r013lfgkbu93n.html

Por Marina Bernardes, arquiteta e urbanista e mestra em arquitetura e urbanismo.

Edição: A. R.

A máquina de resolver problemas

“A vida é mais do que solução de problemas. Aqueles que só solucionam problemas já não possuem futuro.” (Byung-Chul Han)

Projetos, conflitos gerados nas redes sociais, desagrado com a postura de alguns professores, problemas extraescolares, informações desencontradas, atendimentos exaustivos a pais e responsáveis que querem saber tudo nos mínimos detalhes, opinando frequentemente sobre os processos pedagógicos e muitas outras demandas compõem o dia a dia dos gestores escolares.

Todos parecem querer tudo ao mesmo tempo da escola. E aos gestores sobra pouco tempo para o que realmente importa: acompanhar o processo de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes.

Esse panorama já vinha se agravando, mas evidentemente com a pandemia foi potencializado. Resultado: professores e gestores estão no limite de suas forças físicas e psíquicas para lidar com tantas exigências (e por que não dizer, com tantas intransigências). A sociedade que vivemos parece adoecer a cada instante. Torna-se cada vez mais fria, egoísta e incapaz do que entendemos por empatia, sensibilidade e acolhimento do outro em suas diferenças. Tudo parece respingar na escola.

Estudiosos do comportamento humano indicam estarmos vivendo um período de infantilização. E já há pais que procuram os professores universitários para ‘tirar satisfação dos resultados insuficientes dos filhos nas cadeiras do ensino superior.” Para boa parte da humanidade, que passa horas diante das telas dos smartphones, os educadores devem ter algum poder mágico de resolver todos os problemas que surgem em decorrência de algo ou que são gerados pelas opções impensadas de alguns.

Enquanto isso, os processos educativos, a inovação no ensino, a apropriação de novas ferramentas e práticas relacionadas ao acompanhamento dos estudantes ficam para trás, por não sobrar tempo a uma séria e responsável reflexão sobre o que é importante ensinar, quais competências e habilidades são fundamentais num mundo em constante disrupção, como aliar teoria e prática, a fim de que os estudantes possam adquirir conhecimentos que lhes garantam autonomia, criatividade, consciência crítica entre outros.

Avalio como urgente a importância de uma séria revisão de relações e âmbitos a serem definidas entre o que compete aos diferentes atores no processo educativo das novas gerações. Pais que passam o dia todo no espaço pedagógico dos colégios não compreenderam ainda que sua tarefa é maior do que fiscalizar o que a escola faz.

Professores e gestores que ocupam a maior parte do tempo em atendimentos a um grupo seleto de “fregueses” que todos os dias insistem em tirá-los de seus campos de ação para satisfazer suas demandas particulares precisam se empoderar do que realmente lhes compete.  

Afinal, a escola com sua natureza educativa deve priorizar sempre os estudantes. A grande pergunta parece ser: qual a questão pedagógica que leva um pai ou uma mãe à escola. Caso não seja esse o tema, a resolução do problema não estará ali.

Leia também reflexão “Estão matando a essência da educação”: https://www.neipies.com/estao-matando-a-essencia-da-educacao/

Penso que à escola do presente e do futuro caberá criar gabinetes de crise com pessoas dedicadas ao atendimento de pais e mães, fazendo triagem do que realmente importa e do que deve ocupar-nos em nosso fazer pedagógico.  Caso continuemos querendo ‘agradar’ a todos, estaremos perdendo tempo em fazer o que realmente sabemos e o que está no âmbito de nossas competências e funções. E isso deveria ser assumido por todos, em uma verdadeira rede de cooperação.

É preciso discutir com a sociedade sobre o papel da escola, antes que o futuro dessa instituição tão valorosa seja roubado por quem costuma dar opinião em tudo, e vai pela vida trocando os filhos de escola em escola, por não encontrar uma escola que resolva os seus problemas particulares. Afinal, a escola não é e não deve ser jamais uma máquina de resolver problemas. A ela cabe ensinar as gerações a assumirem suas próprias vidas e serem responsáveis por suas opções.

FONTE: https://cnbbsul3.org.br/a-maquina-de-resolver-problemas/

Autor: Prof. Dr. Rogério Ferraz de AndradeSecretário Executivo do Regional Sul 3 – CNBB

Edição: A. R.

Um desafio chamado inclusão

A detecção precoce de riscos dos transtornos do desenvolvimento infantil e o seu atendimento específico e adequado faz toda a diferença na vida do autista, da família e da sociedade.

A criança de poucos meses dorme boa parte do dia. Já nesta fase inicial de vida os pais devem ajudar o nenê a perceber que nem sempre ele será atendido imediatamente quando chora. Conversar carinhosamente, explicando que ele deve ter calma e esperar um pouco para ser amamentado, trocado, banhado… é assim que ele começará a compreender a dinâmica da vida, preparando-se para enfrentar as frustrações naturais.

No primeiro ano de vida ele crescerá mais rapidamente e se modificará mais do que em qualquer outra idade.

Até os três meses o sentido do tato na criança é bastante desenvolvido. Ela aprende sendo tocada e tocando pessoas e objetos. O saber agarrar é um reflexo inato e não uma ação consciente.

O olhar da mãe é muito importante. Ela vai se “ver” refletida nos olhos da mãe, especialmente quando é amamentada.

O bebê, quando está acordado, gosta de companhia. O contato com a mãe e demais pessoas se dá pela vista, audição e tato. Ele é muito sensível ao som. Faz bem para ele ouvir a voz humana que pode se expressar por uma canção suave, como de ninar, o sussurro carinhoso, assovio, a contação de histórias, são atitudes que acalmam como também o som de móbiles pendurado junto ao berço, movidos pela brisa do vento. Ele ficará encantado com o som e o movimento.

Por volta dos quatro a cinco meses elas apreendem a alcançar e segurar os objetos que estão próximos. Eles gostam de chocalhos e brinquedos de superfície lisa e grandes coisas coloridas para apertar, brinquedos estofados, em forma de bichinhos ou de rosca, que é fácil de ser agarrado.

O sentido da audição é bem desenvolvido desde antes do nascimento. Proporcionar à criança a audição de música suave, cantigas de ninar, canções do folclore, contação de pequenas histórias demonstrando na voz e na expressão facial a emoção dos personagens.

Eles gostam de se olhar no espelho e serem estimulados a se ver no colo do adulto.

Nessa fase eles imitam os movimentos dos adultos com a cabeça, os braços e as mãos e começam a repetir os sons que os adultos fazem.

A partir dos seis meses dormem menos e já estão habilitados a brincar sozinho. Derruba e atira coisas e repete esses atos várias vezes que lhes dá prazer. A criança adora brincar com as pessoas que já conhece e acena quando o adulto se despede.

Aos sete ou oito meses começará a engatinhar e logo em seguida, a levantar-se apoiada em algo e ensaia os primeiros passos estimulada e amparada pelos adultos.

Quando o bebê adquire o senso de mobilidade vai se tornar um grande explorador do mundo que o cerca sem qualquer noção de perigo.  O ambiente onde a criança aprende andar deve ser preparado adequadamente. O que representar perigo deve ficar inacessível a elas: remédios, objetos perigosos, vidros, etc. Eles precisam ser vigiados atentamente desde quando começam a engatinhar até quando estiverem andando e descobrindo o mundo a sua volta.

Elas gostam de “casinhas” improvisadas, caixas de papelão, embaixo da mesa, lugares para se esconderem e serem achados. Estão descobrindo todos os cantos do seu mundo.

Brincar ao ar livre com terra, areia e água é muito gostoso e elas podem sujar-se à vontade, por algum tempo.

As crianças gostam de ouvir música suave ou alegre e movimentada e dançar, se sacudir no ritmo da música. Para acalmar e induzí-la a um sono reconfortante nada melhor que uma música suave e uma prece ao “Papai do céu.”.

As quadrinhas rimadas, versinhos e leituras curtas são apreciados pelas crianças. Elas gostam de folhear livros coloridos, revistas e dedilhar as telinhas coloridas do celular e similares, isto sempre como moderação e cuidado dos adultos.  Elas, até por volta dos três anos, costumam afeiçoar-se a algum brinquedo velho ou surrado e ainda não brincam com outras crianças nem gostam de emprestar seus brinquedos. A partir dos três anos ela passa a ser mais sociável.

A palavra predileta de grande número de crianças de dois anos é NÃO. É o início da autoafirmação, elas estão testando a própria vontade e a dos pais. De vez em quando elas necessitam ser obstinadas, isso faz parte do desenvolvimento. Não se deve fazer disso um problema.

A duração do interesse da criança por alguma atividade é muito curta. Ela só brincará por longo tempo se lhe derem uma bacia com água e areia para fazer barro.

Nessa fase as crianças gostam de subir em escadas e nas coisas, essa ação ajuda a desenvolver os músculos maiores, dos braços, pernas e tórax e de engatinhar em caminhos suspensos o que ajuda a desenvolver o senso de equilíbrio. Os passeios a pé, ao ar livre, com os familiares são ótimos. Eles devem ser curtos e simples pois a resistência da criança é limitada. Ela observará a natureza, ouvirá o canto dos pássaros, verá o voo das borboletas e das aves, acompanhará o deslocar das nuvens, no céu e a noite, olhar a lua e as estrelas.

Elas gostam de ouvir ou ver uma história que as fascina, várias vezes, até esgotarem à vontade, pois elas estão educando as emoções básicas, sentindo o que os personagens estão vivendo: surpresa, medo, tristeza, alegria, raiva, etc. O mesmo acontece com a audição de algumas cantigas infantis.

Aos três anos a criança torna-se sociável, adora brincar ou trabalhar com a mãe e o pai, aprender coisas com eles. A curiosidade de conhecer o mundo é insaciável. Gostam de experimentar e fazer coisas novas, de rasgar, despedaçar e esmurrar. Inicia-se a fase dos porquês, dos questionamentos. Ela quer entender o mundo.

As crianças de três a seis anos gostam de dramatizar, fingindo que são bichos ou coisas, e que já são adultas: motorista, professor, bombeiro, mamãe, papai, etc. e devem ser estimuladas para tal, elas também gostam de encenar as histórias ouvidas. Elas têm a tarefa de separar, na mente infantil, o mundo real do mundo imaginário. Gostam de serem reis, rainhas, fadas, príncipes, porquinho, lobo mau, etc. Possuem alta capacidade de imaginação e criatividade.

Os pais e educadores precisam estar atentos às emoções das crianças. Ideal que elas sejam expressas e trabalhadas pelos adultos. A frustração e a raiva são inevitáveis quando a criança está se desenvolvendo. Ela necessita aprender a desabafar, externando a energia de sua raiva, agredindo e mordendo coisas e não pessoas. Nas escolas maternais tem os “sacos de pancada”, os bonecos “João Bobo” ou “bode expiatório” sobre quem elas descarregam a raiva. Com eles a criança poderá desabafar sentimentos que devem ser externados sem prejudicar irmãos e colegas.

Os sentimentos recalcados são causas de futuras perturbações emotivas. Uma atividade desestressante é jogar, com a criança, pedras dentro de um lago, rio, à beira mar ou acertar num alvo previamente colocado em um lugar para ser atingido. O brinquedo é a mais alta fase do desenvolvimento infantil, cheia de pureza e espiritualidade. Proporciona alegria, liberdade, satisfação e paz com o mundo. A criança que brinca espontaneamente será um adulto harmonizado. 

Na fase infantil muitas crianças aprendem a tocar algum instrumento musical, com música simples e danças acompanhando o ritmo da música.  Gostam de imitar, basta sugerir: faça de conta que você é um animal qualquer, uma árvore ao vento. Ela vai agachar-se, dobrar-se, bambolear o corpo, andar na ponta dos pés e criar passos ao ritmo de música, de preferência de pés descalços.

Nos primeiros sete anos de vida a criança fisicamente sofre grandes alterações e crescimento. O corpo vital da criança ainda é dependente da vitalidade da mãe. Época de predominância das doenças febris e infecciosas comuns da infância, que estimulam o amadurecimento do sistema imunológico e a individualização das proteínas da criança. A criança, por isso, precisa se sentir aninhada, aprende a falar, andar, pensar, brincar, imitar e deve acreditar que o mundo é bom. Por esse motivo os contos de fada e as histórias da Carochinha sempre apresentam um final feliz. O bem sempre vence o mal.

Pelos seis anos, o pensamento já está mais desenvolvido inicia-se a alfabetização e a socialização melhora. As artes são muito importantes: o desenho, o canto, a dramatização, a dança, a pintura. É a época de desenvolver o respeito à autoridade externa, fora do lar.

Mas, atenção! Os pais, demais familiares e cuidadores das crianças devem ficar atentos com o comportamento infantil.  Até agora descrevemos as características gerais do comportamento das crianças típicas, até por volta dos seis anos e de de como elas reagem no transcurso de seu desenvolvimento normal nos primeiros anos da infância. São as crianças neurotípicas.  E as atípicas?

O que é o Transtorno do Espectro Autista?

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que se caracteriza por déficit na área da comunicação e da interação social, com estereotipias de comportamento repetitivo e de interesse restrito e peculiar a algumas atividades.  O TEA é muito complexo e diversificado. São diferentes dos neurotípicos, não é uma doença, é uma maneira diferente de pensar e aprender. Atualmente ocorre alto índice de nascimentos de crianças com TEA, no Brasil e no mundo.

O TEA ainda não possui causas totalmente conhecidas que podem ser predisposição genética ou mesmo fatores ambientais. O diagnóstico médico é feito a partir do histórico da criança, a observação de seu comportamento e o relato dos pais e deve ser feito logo que se percebe as dificuldades da criança de interagir com as pessoas mais próximas.  O diagnóstico precoce, que já pode ser feito a partir dos três meses de idade do bebê, é fundamental para iniciar terapias que vão amenizar os sintomas.  Estas crianças apresentam desenvolvimento físico normal mas com grande dificuldade de comunicação e interação, apatia ou agitação, comportamento aparente de viver num mundo isolado, paralelo ao mundo real. É considerado um transtorno multifatorial, mais comum em meninos do que meninas, havendo necessidade de intervenção especializada na condução do manejo com estas crianças que vão ajudar a reverter alguns transtornos do desenvolvimento.

Elas podem apresentar déficit na fala que pode ser total ou parcial. Apresentam dificuldade na interação social por falta de reciprocidade, de atuar em grupo e manter contato físico com outras pessoas. Alguns apresentam comportamentos repetitivos nos gestos, fala e/ou nos movimentos; são meios que as pessoas com TEA usam para se autorregularem e se acalmarem. Elas exigem rotinas e hábitos rígidos diários e reagem, podendo entrar em crise, surto, quando esta rotina é alterada sem elas serem preparadas previamente para tal.  Elas podem apresentar, entre outras, as seguintes estereotipias: rodar objetos nas mãos, girar em torno do próprio eixo, movimentar dedos na frente dos olhos, correr de um lado para o outro, fazer sons com a boca, acender e apagar o botão de interruptor, balançar o corpo, segurar sempre pequeno objeto.

Os terapeutas especializados aconselham que não se deve impedir as estereotipias pois elas ajudam o autista a se acalmar e organizar seu pensamento. Muito cuidado e atenção se deve ter com as portas que levam para a rua no ambiente onde a criança com TEA está participando, pois, utilizando este acesso, pode ocorrer uma fuga sem direção certa, colocando-a em risco.  Há uma grande variedade na manifestação destas condutas.  

Algumas estereotipias são auto lesivas como morder a si próprio, nas mãos, braços, arrancar peles das unhas ou lábios, bater com a cabeça no chão ou parede, deve-se impedir tal atitude   propondo logo uma outra atividade interessante, desviando o foco do problema.

Essas crianças e jovens podem, legalmente, participar das atividades escolares, num processo de inclusão junto com os alunos típicos. Para tal, a direção da escola, professores, funcionários e alunos típicos precisam ser preparados para recebe-los em condições favoráveis para todos.

Os níveis de autismo estão catalogados como:

 Nível 1 – ou grau leve, são mais funcionais do que os outros níveis, necessitam de suporte para se organizarem e planejarem as atividades, tem dificuldade de iniciarem interações com os outros, parecendo tímidos e introspectivos mas possuem rica potencialidade a ser estimulada e que, adequadamente explorada, pode surpreender, como no desenho, no canto, na escrita de histórias, elaboração de pequeno texto ou poema, na dramatização, nas ciências naturais  ou sociais, na matemática, etc. A sala de aula é um ótimo espaço para ajudar a aflorar as habilidades adormecidas quando estas forem incentivas adequadamente. Eles têm boa percepção para detalhes. Pessoas com síndrome de Asperger são incluídas neste grupo pois, falam bem, são inteligentes, mas tem dificuldade na interação social.

Nível 2 – grau moderado – necessitam de suporte maior para se organizarem. A fala é bastante comprometida, usam frases muito simples. Reagem mais ostensivamente às mudanças de rotina e de ambiente. Têm dificuldade no contato social pois seus interesses são específicos. Na sala de aula elas podem participar desde que as atividades pedagógicas sejam adaptadas a seu jeito de ser.  Com o tempo podem surpreender.  Indispensável que o educador possa contar com orientação psicopedagógica e ter, quando necessário, o suporte de outra pessoa para a realização da aula.

Nível 3 – Grau severo – Em geral, dependem do apoio direto de outra pessoa, pois são incapazes de agir de forma autônoma, têm grave dificuldade na comunicação, na interação social e na área da cognição. A criança ou jovem com TEA severo poderá participar das atividades na escola regular de forma bem limitada, sempre com o auxílio de um mediador capacitado.

O educador precisa estar ciente, em relação ao aluno com TEA, de quais são os gatilhos que provocam reações indesejáveis na conduta, como chorar, gritar, fugir do ambiente ou que o deixam irritado, angustiado, mas que não consegue verbalizar o que sente.  Muitas vezes é a intolerância aos sons, ruídos estridentes, barulho e agitação no ambiente. Este aluno leva mais tempo para processar as informações, o professor deve sempre usar frases curtas, com palavras simples e falar pausadamente, aguardando, com calma, paciência, pela resposta.

O autista deve ter acolhimento amável, sem toque físico, o olhar sensível, sentir a empatia e ter certeza do apoio e do desejo sincero de ser incluído no ambiente social da aula. Naturalmente, os alunos neurotípicos deverão ser informados e preparados, com antecedência, sobre as condições do colega com TEA para saber interagir com ele com amabilidade e respeito.

A administração municipal de Porto Alegre criou o Centro de Referência do Transtorno Autista (CERTA) que está sendo implementado desde 2023, e   reúne as ações de duas Secretarias Municipais, a da Saúde e a da Educação, que se compõe de equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, pedagogos e psicopedagogos.

A detecção precoce de riscos dos transtornos do desenvolvimento infantil e o seu atendimento específico e adequado faz toda a diferença na vida do autista, da família e da sociedade.

Leia também: “A criança autista e a necessidade de compreensão”: https://www.neipies.com/a-crianca-autista-e-a-necessidade-de-compreensao/

Autora: Gladis Pedersen   –  pedagoga. Também escreveu e publicou “A magia da arte de contar histórias”: https://www.neipies.com/a-magia-da-arte-de-contar-historias/

Edição: A. R.

Sobre o Trabalho: silêncios e vozes

Ao mesmo tempo que o Dia do Trabalho é um dia de memória também é um dia de resistência e de encorajamento, porque sabemos da importância da luta conjunta pela dignidade das pessoas que trabalham.

Muitos empobrecidos trabalham para poucos enriquecidos. Esses poucos dominam o mundo do trabalho, porque são os donos do capital. E isso continua, sem limite.

O mundo do trabalho tem seus silêncios e suas vozes. Ambos, silêncios e vozes, registram os fatos. Temos a história em nossas mãos. Cada momento de nossas vidas nos reinventamos nas novas formas de produção, como pessoas trabalhadoras. Nessa resistência, ainda exigimos melhores condições de trabalho, como exigência de dignidade e de direitos.

Silêncios e vozes têm sua eloquência!

Há direitos, que ainda não foram conquistados por todas as pessoas, como moradia digna, segurança alimentar, educação e saúde. A força de trabalho, que não é a força do capital, ainda não conseguiu atingir uma qualidade de vida em que todos esses direitos básicos estejam assegurados. Por isso que no Dia do Trabalho, que é o dia de quem trabalha, essas questões precisam ser lembradas, por uma questão de Justiça.

O Primeiro de Maio é comemorado como uma homenagem a quem trabalha. Por essa razão, é importante que tenhamos presente essa memória, para que haja sempre o registro de justiça e liberdade, como respeito à resiliência dos que constroem diariamente essa nação.

Ao mesmo tempo que o Dia do Trabalho é um dia de memória também é um dia de resistência e de encorajamento, porque sabemos da importância da luta conjunta pela dignidade das pessoas que trabalham. Desse modo, continuamos nessa tarefa histórica, que é a de diminuir as fronteiras entre poucos e muitos.

Lutemos e comemoremos! Feliz Primeiro de Maio!

Autora: Cecília Pires. Também escreveu e publicou no site crônica “Direitos humanos: porque são imprescindíveis”: https://www.neipies.com/direitos-humanos-porque-sao-imprescindiveis/

Edição: A. R.

Interculturalidade e Cidadania Universal

A globalização econômica, tecnológica, cultural e religiosa influencia diretamente a educação, interferindo até mesmo no modo de organização das instituições de ensino, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior. Nesse contexto, consolida-se uma tendência que reduz cada vez mais as disciplinas humanistas para a formação pessoal e profissional dos cidadãos.

Na obra Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades, a filósofa americana Martha Nussbaum (2015) defende as humanidades e as artes como fundamentais para a formação de cidadãos democráticos e participativos, numa sociedade complexa e global. Ela preocupou-se com o fato de que em muitos países os objetivos da educação estão voltados apenas para o crescimento econômico do mundo globalizado, instrumentalizando o ensino que forma alunos economicamente produtivos, ao invés de indivíduos críticos e cidadãos conscientes e compreensivos dos problemas que precisam ser enfrentados num mundo cada vez mais complexo e plural. Esse enfoque nas competências lucrativas, para a autora, enfraquece nossa percepção de crítica à autoridade e minimiza nosso apreço aos segregados e aos “diferentes de nós”.

A ideia de educação para sermos cidadãos do mundo vem de longa data e não é um desafio que se coloca apenas nos tempos atuais. Nussbaum (2005, p.77-78) retoma Diógenes, filósofo do antigo mundo grego, e toda a tradição estoica do mundo romano, mostrando que ambos já anteviam essa dimensão das obrigações morais e sociais que extrapolam nossa origem de nascimento, de identidade local, de pertencimento a um grupo. Compreender a dimensão cosmopolita e a ideia de educação para sermos cidadãos do mundo, para Nussbaum (2005, p.78), é “uma fonte de recursos essenciais para a cidadania democrática” e deveria “estar no centro da educação superior atual”.

A ideia de uma “educação multicultural”, considerada em nossos dias por setores conservadores como sendo uma moda passageira e inadequada, gozava de grande prestígio na Grécia de Sócrates e mesmo de Heródoto. De fato, como observa Nussbaum (2005, p.79), “Sócrates cresceu numa Atenas já influenciada por essas ideias no século V a.C.” e Heródoto, um dos mais celebrados historiadores etnográficos da antiguidade, “assumiu seriamente a possibilidade de que Egito e Pérsia poderiam ter algo que ensinar a Atenas sobre valores sociais”.

O processo educativo poderia ajudar a perceber e a constituir uma tomada de consciência de que aquilo que é visto como normal e natural em determinada cultura é completamente estranho e causaria escândalo numa outra cultura. Esse processo ajuda não só a perceber as diferenças como também a dar-se conta de que os modos de vida de cada grupo “não são os modos desenhados pela natureza para todas as épocas e pessoas”, mas são tão somente normas históricas produzidas em distintos contextos culturais.

Na Atenas do século V, a indagação socrática colocará em questionamento se os jovens deveriam ser educados na simples assimilação indiscriminada de valores tradicionais ou se deveriam ser mobilizados pelo questionamento ético. A educação espartana e a educação ateniense são apresentadas pela própria Nussbaum (2005, p.80) com duas formas distintas de educar os jovens: na educação espartana, tem-se uma cultura hierárquica e não democrática, a caracterização da uniformidade e o cumprimento inquestionável das regras, em um contexto no qual o bom cidadão é concebido como aquele que segue de forma obediente as regras tradicionais; já na educação ateniense tem-se uma cultura democrática em que ensinar a liberdade de indagação e o debate possibilitava dotar os jovens de instrumentos que lhe permitiam eleger seu próprio modo de vida, pois esse tipo de educação “requer uma ativa indagação e a capacidade de contrastar alternativas”. Sendo assim, para Nussbaum (2005, p.80), seguindo o posicionamento socrático, “a indagação ética requer um clima em que os jovens sejam incentivados a serem críticos de seus costumes e convenções, e que a indagação crítica, requer a consciência de que a vida contém outras possibilidades”.

Outros dois exemplos interessantes sobre como o estudo intercultural já fazia parte dos pensadores da Grécia Clássica se referem a Platão e a Aristóteles. “No livro V da República”, diz Nussbaum (2005, p.81), “aparece um exemplo particularmente fascinante, relativo ao modo em que a reflexão sobre a história e outras culturas desperta a reflexão crítica”, ao tratar especificamente sobre a forma como Sócrates elabora um argumento defendendo “a igualdade de educação para as mulheres”.

Aquilo que é considerado estranho e ridículo dentro de uma determinada cultura (no caso, na cultura ateniense), “não pode por si mesmo dar-nos argumentos válidos a respeito do que deveríamos fazer”. No que se refere a Aristóteles, o estudo intercultural ganha sistematicidade e se converte em tema central do currículo. A elaboração da constituição ateniense, por exemplo, é resultado de um amplo e cuidadoso estudo por parte dos alunos e do próprio Aristóteles para mostrar a dimensão transcultural da constituição, bem como sua noção de política.

Mesmo que o tema já estivesse presente na forma como Sócrates, Platão e Aristóteles trataram a inteculturalidade, a expressão “cidadão do mundo” não foi cunhada por eles e sim por Diógenes (404-323 a. C.): foi ele, segundo Nussbaum (2005, p.83), que optou por uma vida desprovida das habituais proteções dos ricos e poderosos, pois temia perder a liberdade; preferiu viver a pobreza e o desprendimento para manter firme o propósito de independência do pensamento; considerava a liberdade de expressão como a condição mais sublime da vida humana.

Para Diógenes, segundo Nussbaum (2005, p.85) “o verdadeiro fundamento para a associação humana não é o arbitrário ou o mero costume, mas sim o que podemos defender como bom para os seres humanos”, ou seja, compreender que a humanidade está acima de qualquer particularismo, nacionalismo ou crença.

Os filósofos estoicos também são indicados por Nussbaum (2005, p.85) como uma tradição de pensamento que expandiu a ideia do estudo intercultural e de cidadania universal, transformando o conceito de cidadão do mundo em “um elemento central do programa educacional”. Nesse sentido, seguindo os passos do estoico Sêneca, a educação deveria nos ajudar a tornar consciência de que cada um é membro de “duas comunidades: uma que é verdadeiramente grande e comum […] em que não tomamos em conta um setor ou outro, senão que medimos os limites de nossa nação por meio do sol; a outra comunidade é a que nos tem sido atribuída pelo nascimento” (apud NUSSBAUM, 2005, p.85).

O nascimento em uma determinada cultura não passa de um acidente, pois pertencer a uma classe social, a um grupo étnico, professar uma crença, praticar certos costumes não deveriam ser barreiras para reconhecer os ingredientes fundamentais da humanidade: o saber, a razão e a capacidade moral. A radicalidade de uma cidadania universal nos estoicos gregos e romanos se dá, na leitura de Nussbaum (2005, p.86), quando defendem que nosso primeiro compromisso deveria ser a lealdade para com a humanidade, “pela comunidade moral constituída por todos os seres humanos”.

Nussbaum (2005, p.86) também destaca a dimensão da cidadania universal na obra do estoico Cicero quando este argumentava em seus escritos “que o dever de tratar a humanidade com respeito nos exige tratar aos estrangeiros em nossa terra com honra e hospitalidade”. Cicero também defende que nunca deveríamos nos envolver em guerras agressivas, que a justiça deveria se sobrepor às conveniências políticas e que “formamos uma comunidade universal da raça humana cujos fins correspondem aos fins morais de justiça e bem estar humano”.

Ser cidadão do mundo não significa ignorar ou renunciar certas filiações locais, mas sim dar-se conta de que estamos rodeados por círculos concêntricos: o primeiro é a própria identidade; o segundo, a família imediata e o restante da família; depois, os vizinhos ou os grupos locais; na sequência, os grupos étnicos, religiosos, linguísticos, profissionais e de gênero. Mas além de todos esses está o círculo da humanidade.

“Nossa tarefa como cidadãos do mundo e como educadores que prepara as pessoas para que sejam cidadãos do mundo”, ressalta Nussbaum (2005, p.88, grifos da autora), “será ‘levar os círculos de alguma forma até o centro’, fazendo a todos os seres humanos semelhantes a nosso concidadãos”, ou seja, trabalharmos intensamente para que todos os seres humanos formem parte de nossa comunidade de diálogo e de preocupações, mostrando respeito pelo humano, independentemente de credo, raça ou religião.

Nussbaum (2005) acredita que a educação tem uma imensa responsabilidade para avançar na direção de uma formação cosmopolita. Aprender as culturas, ser um intérprete sensível e empático dos costumes distintos do familiar, cultivar atitudes de respeito, atenção e escuta são algumas indicações vindas da longa tradição estoica e que podem ser indicativos importantes para estruturar programas educacionais contemporâneos. Não seria defensável apresentar programas antissemitas, ou leituras preconceituosas nos processos formativos. Mas seria plenamente indicado que houvesse programas que fomentassem a sensibilidade em prol da cidadania universal.

Conforme ressalta Nussbaum (2005, p.94), “a proposta estoica é que deveríamos selecionar programas de estudo que fomente o respeito e a solidariedade mutua para evitar a ignorância que se apoia no ódio”. Trata-se de um desafio educacional imenso nos tempos atuais em que os particularismos, a xenofobia, o racismo, a misoginia e tantas outras práticas anti-cidadãs estão presentes no cotidiano das pessoas. Para além de um turismo estritamente mercadológico, cuja finalidade principal seria enriquecer grupos econômicos que querem transformar tudo em dinheiro, a cidadania universal poderia se tornar um intenso e promissor processo formativo de interculturalidade que promove o respeito ao outro e às diferenças em prol de uma sociedade inclusiva, digna e democrática.

O texto apresentado aqui constitui parte de uma trabalho mais amplo desenvolvido no Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior (Gepes/Ppgedu/UPF) coordenado por mim e que congrega diversos orientandos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, egressos do PPGEdu, bolsistas de Iniciação científica e diversos pesquisadores de diversas instituições de Ensino Superior espalhadas pelo Brasil.

Uma discussão mais ampliada desta temática pode ser localizado na Coletânea Leituras sobre Marta Nussbaum e a Educação (Fávero; Tonieto; Consaltér; Centenaro, 2021), de modo especial no capítulo 8, intitulado “Interculturalidade e cidadania Universal: o papel imprescindível das humanidades na perspectiva de Nussbaum” que escrevi em parceria com a Dra. Flávia Stefanello e a Me. Fracieli Nunes da Rosa (2021). Segue o link para os que tiverem interesse em ler o texto completo:

https://www.researchgate.net/publication/355037187_8_-_Interculturalidade_e_cidadania_universal_-_o_papel_imprescindivel_das_humanidades_na_perspeciva_de_Nussbaum

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; STEFANELLO, Flávia; ROSA, Francieli Nunes da. Interculturalidade e cidadania Universal: o papel imprescindível das humanidades na perspectiva de Nussbaum. In: In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro; CENTENARO, Junior Bufon (orgs.). Leituras sobre Martha Nussbaum e a educação. Curitiba/PR: CRV Editora, 2021, p.143-158.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro; CENTENARO, Juniro Bufon (orgs.). Leituras sobre Martha Nussbaum e a educação. Curitiba/PR: CRV Editora, 2021.

NUSSBAUM, M. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

NUSSBAUM, M. El cultivo de la humanidade:  una defensa clásica de la reforma em la educación liberal. Barcelona: Paidós, 2005.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF. Também escreveu e publicou reflexão “A construção de uma pedagogia da autonomia”: https://www.neipies.com/a-construcao-de-uma-pedagogia-da-autonomia/

Edição: A. R.

Um diagnóstico limitante

Eis o problema de vestir um rótulo e ser depressivo, ao invés de se relacionar com a depressão como uma parte de você que precisa de atenção e apoio. Ou melhor, eis a diferença entre um diagnóstico limitante, e impor um limite para o seu diagnóstico.

Sabe, eu sempre achei interessante a necessidade humana de procurar saber mais sobre si mesmo, e mais interessante ainda é a necessidade de compartilhar isso com as outras pessoas, quase que como um processo de validação. Exemplo clássico daquela pesquisa fajuta do facebook que “revela” mais sobre você e você faz questão de compartilhar a resposta.

O segredo está em falar para as pessoas o que elas querem ouvir, com termos genéricos presentes em ampla escala na idealização do comportamento humano: amável, generosa, carinhosa, esforçada, perseverante… e a lista de exemplos é ampla. Falar mais de uma característica também é importante e mais assertiva, porque tendemos a relevar o que não faz sentido, e potencializar o que faz, o que nos identificamos.

As previsões astrológicas, especificamente os nossos horóscopos, fazem algo parecido. Tanto que, se a gente embaralhar a descrição dos signos e mostrar para uma pessoa que não possuir associação prévia entre a personalidade de cada signo, falando que aquilo revela mais sobre você, possivelmente ela vai se identificar, em algum nível, com a descrição.

E no final, somos nós tomando medicamentos para resolver o nosso problema que tem mais a ver com o nosso estilo de vida do que qualquer outra coisa (cadê a coesão textual, dona autora?).

Espera, já vamos entender. Digo isso pois, o que percebo que recorrentemente fazemos, é buscar respostas sobre si mesmos fora, enquanto que deveríamos busca aí.

– Aí aonde?

– Aí dentro!

É muito mais fácil procurar saber quem você é fazendo uma pesquisa de 3 minutos, ou recebendo o seu mapa astral, do que se perguntar: quem é você? O que você gosta de fazer? O que você não gosta? Quais aspectos do seu comportamento você reconhece que deveria mudar? E o que te impede de mudar?

Perguntas muitas vezes incômodas, com respostas nada exatas, que podem demorar um tempo considerável a surgir. Algo completamente contrário ao nosso fastmundo, alimentado com hambúrguer carne e queijo que de nutrição não tem nada.  

Eu não vejo nenhum problema em você fazer os questionários do facebook, muito menos o seu mapa astral detalhadíssimo. Acredito que, quando observados de forma consciente e sincera, reconhecendo o que verdadeiramente faz parte em nós e o que não faz, é um movimento que pode até mesmo contribuir em nosso autoconhecimento.

Qual é o problema então, dona autora? O problema é quando usamos esses elementos para financiar o nosso comodismo. É mais fácil tomar remédio para a sua diabete tipo II do que alterar os seus hábitos alimentares. Também é infinitamente mais fácil você usar o seu signo para justificar, e muitas vezes financiar, o seu mau comportamento, do que o mudar!

“aí meu signo é dinossauro, e é por isso que eu sou agressiva”, “aí, você está falando com uma unicorniana, e é difícil que eu consiga chegar na hora”.

Por vezes, eu tenho a impressão que o período moderno ainda vive em nós, e aquela mentalidade a lá Gabriela, persiste!

“Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”

Minha tristeza aumenta quando eu percebo que esse mesmo movimento se intensifica na fase que intitulei como a fase “TAG”. Um tag é uma espécie de rótulo, mas o nome é bom porque nos lembra do transtorno de ansiedade generalizada, que também pode ser um diagnóstico rotulante, ou até mesmo pode ser um tag bônus pelo seu outro tag.

Você, querido leitor, já tem o seu? É depressivo, ansioso? bipolar?

Em verdade, observo que esse movimento vem crescendo em proporções significativas, ao acompanhar as mídias. Não é incomum encontrar vídeos com milhares de visualizações com um check-list de sintomas. E o detalhe, descrições muitas vezes genéricas e comuns a grande parte de nós, humanos. Por exemplo…

Recordo-me do último vídeo que eu assisti. Era de uma pessoa com determinado diagnóstico que começava assim “pode não parecer, mas, eu aprendi a mascarar” (1). Essa pessoa expunha o quanto para ela era difícil ser uma “adulta normal e funcional” (2). E o quanto ela possuía uma linguagem própria, mas que ela não conseguia traduzir (3). E com isso, alegava a sua dificuldade de se expressar, mas, se expressando muito bem no vídeo (4).

Vamos avaliar isso melhor:

Argumento 1: “pode não parecer mas, eu aprendi a mascarar”

Esse argumento pode revelar uma pessoa que parou para se conhecer melhor e constatar que suas escolhas de vida e seu jeito ser se orientavam mais pelo o que os outros iriam pensar do que por si mesmo. E como somos seres suscetíveis ao meio, não é incomum encontrar pessoas assim. Inclusive tem uma fábula linda que trata sobre isso e se intitula “O cavaleiro preso em uma armadura”, vale a leitura!

Argumento 2: sobre a dificuldade de ser uma “adulta normal e funcional”

Essa fala pode revelar o quanto somos iludidos pela ideia de que existe uma pessoa normal e funcional. Tipo aquela Barbie do mundo real igual a da caixinha. Meus queridos: de perto ninguém é normal (inclusive, tem um livro que trata sobre essa questão e se intitula “o mito da normalidade”) e o tempo todo, ninguém é funcional. É claro que em uma sociedade do desempenho, funcionalidade é um atributo muito valorizado, mas, às custas do que? De nossa saúde? Do tempo com as pessoas que amamos? Acredito que nesses casos, é essencial compreender o que verdadeiramente buscamos com isso. Porque muito além de status e dinheiro, está a nossa necessidade de conexão que se relaciona ao reconhecimento e a atenção que recebemos das pessoas. E podemos conseguir isso de formas muito mais leves.

Eu por exemplo, remodelei toda a minha rotina de trabalho, porque passei a aceitar a minha sensibilidade e reconhecer que está tudo bem não estar tudo bem o tempo todo. Foi um alívio. E assim, ao invés de insistir em me encaixar em uma caixa em que eu não cabia, eu criei coragem suficiente para despadronizar a minha rotina de trabalho. Olhando assim parece fácil, mas, tenta sair da caixa para você ver como dá medo. 

Argumento 3: “eu possuo uma linguagem própria que muitas vezes não consigo traduzir”

Bem, pode-se aqui revelar uma certa dificuldade de se abrir com o outro e se conectar. Isso envolve questões importantes como por exemplo, o quanto suas referências na primeira fase da vida foram relacionamentos seguros ou o contrário disso. Além de que, todos temos uma linguagem própria, e materializar com palavras o que estamos pensando ou imaginando nem sempre é uma coisa fácil, ainda mais dependendo da complexidade do seu pensamento.

Argumento 4: “a dificuldade de se expressar” ao meu ver, se expressando muito bem.

Aqui para mim ficou evidente o seu nível de cobrança ou perfeccionismo. Eu por exemplo, por vezes chego a cancelar várias vezes os meus áudios no WhatsApp porque alguma palavra não saiu como desejado (é por essas que eu amo escrever, porque me dá tempo para refletir mais). Mas, eu entendo que se trata de um nível de cobrança exagerado que quando bem calibrado, pode surtir efeitos positivos em nós! (Inclusive, se o perfeccionismo anda lhe causando prejuízos, convido você a me acompanhar no Instagram em @dialogosdaana, porque em breve pretendo lançar um curso sobre a arte de lidar com o perfeccionismo!).

Com essas considerações eu não quero passar a ideia de que o que essa pessoa está retratando é irrelevante, muito pelo contrário, é muito relevante, e dependendo das escolhas que ela fizer a partir dessas informações, ela poderá se tornar uma adulta mais segura de si, resiliente e preparada para encarar as adversidades da vida.

Isso porque, quando tiramos a ênfase nos sintomas e seu respectivo diagnóstico, passamos a compreender aquele ser humano em sua subjetividade. Elencamos com clareza seus pontos de fragilidade e isso abre espaço para que possamos investir em aprimoramento. Ou seja, não é uma condição imutável, mas uma condição ponderável.

O problema vem agora: quando esse discurso é colocado tendo como principal pano de fundo um diagnóstico, a conversa passa a ser outra. E na fala daquela pessoa, o que ficou mais claro foi o quanto ela mesma estava se limitando em função dos sintomas. É como se os fatores genéticos fossem a causa única daquela condição e ela nada tem a fazer a não ser aceitar.

Por exemplo, se você tem dificuldade de se relacionar com as pessoas, e atribui a causa dessa dificuldade para um diagnóstico, isso pode repercutir de tal modo que você nunca olhe para questões importantes de sua vida que vão muito além dele. Por uma questão de linguagem e otimização de energia, a sua mente não vai investir em um novo olhar para o problema, se você alimenta a ideia que para esse problema a causa é única e definitiva. 

Mas o que deveríamos fazer, então? Fingir que o diagnóstico não existe? Nada disso. Um diagnóstico, quando bem feito, pode nos trazer informações importantes sobre nós mesmos e auxiliar na identificação de nossos pontos, digamos, sensíveis. É com base nessa definição que somos possibilitados a procurar alternativas saudáveis de lidar melhor com nós mesmos. 

Mas cuidado. Quando a gente recebe um diagnóstico e apenas toma uma medicação, meio que renegando que parte da responsabilidade por essa condição também parte do que aconteceu com a gente, além das atitudes que escolhemos ter, ao invés da cura, a tendência é que isso cause mais dor, desconexão e incompreensão.

É o caso, por exemplo, de uma depressão crônica, tratada unicamente a base de medicamentos, com uma mísera resposta de melhora. As coisas complicam ainda mais quando a explicação se direciona unicamente para uma tendência genética e a pessoa passa aceitar aquela condição como um fardo que ela tem que carregar, ou de ser iludida pela ideia de que é o medicamento que não está fazendo efeito, quase como quem diz, o problema nem é comigo. 

Alimentação saudável, atividade física, rotina, meditação, conexão humana, terapia, filosofia, altruísmo… nada disso nem sequer chega a ser uma possibilidade que pode culminar no ciclo interminável da falta de vontade. Quando, por exemplo, a gente passa a misturar as coisas e adota a depressão como justificativa para algo que você deveria fazer para melhorar, mas, é incômoda e muitas vezes chata, e portanto, não faz. Eis o problema de vestir um rótulo e ser depressivo, ao invés de se relacionar com a depressão como uma parte de você que precisa de atenção e apoio. Ou melhor, eis a diferença entre um diagnóstico limitante, e impor um limite para o seu diagnóstico.

. . .

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou reflexão “Não está tudo bem”: https://www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/

Edição: A. R.

Veja também