O último baile da primavera

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Se você tivesse me beijado forte, naquela madrugada em nossos 15 anos, teríamos permanecido em nossa pequena vila, para viver um amor possível que a cidade nos roubou?

Se percorrêssemos de novo, todo o caminho desde o início, eu tentaria mudar, nas coisas que mataram o nosso amor… (Banda Scorpions) ¹

Quem dançou de rosto colado, aos seus 15 anos, vai me entender sem demora.  Quem não dançou, perdeu. Lamento!

Enquanto subíamos as escadas do salão paroquial, para uma noite inesquecível, segurávamos nas mãos partes das calças ‘boca de sino’ para que não nos pisassem a barra.

Ouvíamos a música de longe, já iniciada e sempre, sempre a banda de Caxias, visitando a nossa minúscula cidade. O lobo da Estepe tocando ‘He’s my brother’. ²

Era a sina de que o baile começava.

Semanas de espera, um dia inteiro para escolher a roupa, sem telefone em casa, sem carro, sem fakes, trocávamos opiniões na praça mesmo e ali disputávamos qual menina cada um iria levar à pista.

Na adolescência, também se joga xadrez e que ninguém ousasse a romper o acordo.

Coube a mim ficar com a colega de uma rua sem saída.  Fiquei até feliz, pois éramos bons em português e composição. Ambos, adorávamos Belchior. Não que fosse a minha escolha. A questão é que os códigos de comando vinham de quem já havia completado os 16. E até podia comprar cigarros e esnobar tragadas.

Mas o meu par não veio.  Ouviu-se, foi uma indisposição.

Na terceira música, ’Yellowriver,’(³) meus amigos saíram a procura de suas divas. Cada um dançando como podia, como em todos os inícios de bailes. Esperávamos pela primeira lenta, todavia, porque assim o rosto iria colar. Os mais tímidos, levavam as suas gurias para o meio do salão.  Inclusive eu.

Como a vida gosta muito de nos surpreender, andei por três voltas, evitando uma rejeição inesperada que se avizinhava, mas na quarta música, logo na primeira fileira de mesas, Ana Maria me olhava… Os seus pais, igualmente.

Não éramos da mesma turma na escola. O risco estava posto e na terceira, caso ela agradecesse, tudo acabaria ali mesmo.

Mas não agradeceu!

Afortunado eu, na certeza de que iríamos dançar mais três, mas o que era para ser mais uma, virou muitas; a noite inteira.

Um rosto lindo, um olhar destemido para um jovem envergonhado. No intervalo das músicas, ficávamos ali, em pé, sem saber o que fazer com as mãos, paralisados os dois, aguardando em uma espera infinita até que tocasse a próxima.

Agora, de rosto colado, um leve suor nos forçava a trocar o lado da face.  O seu perfume inominável, almiscarado, contagiava a minha alma para uma surpresa que poderia acontecer; porque a espera sempre é melhor que a chegada.

Linda ela, jovem, com um rosto de mulher, sabe-se lá no que pensava. Na chance de uma paixão explosiva, ali abracei uma boneca viva, uma fala como quem esbanjasse afeto… Mesmo que dançando de pés trocados.

Mas não foi nessa noite e o amor, improvável, durou até quando lhe dei as costas, em sua cozinha de madeira; na falta de coragem, perdi a Ana, perfeita ao meu olhar e que foram necessários 40 anos para esquecê-la, enfim.

Fui ao seu encontro, hoje, para esquecê-la.

_ Mas eu não quero que você me beije, agora, Ana de todas as minhas Marias.  Nada vai importar, nada vai nos trazer à tona, no que me foi anestesiado, adormecido e que o capricho do tempo me devolveu, assim que passei dia desses pela sua casa antiga.

Não, não preciso dos seus abraços tardios, dos beijos desejados que tive de suportar, pois nunca os tive. E saber que a culpa não foi sua!

Quem planta indiferença colhe ausências. Então, colhi. Perdoa?

Eu preciso que você volte àquela noite. Volte comigo?

Vamos retornar juntos à sua cozinha, onde nossos passos mal pisavam o chão, para que os seus pais não acordassem.  Ali, na madrugada de um verão disfarçado, ali mesmo, onde eu esperava um beijo que não veio. Por que meus planos eram de muitos mais e que os meus 15 anos não tiveram força em vê-los pelas sombras do seu corredor, no casarão azul claro, fugidio, no qual você morava… O beijo que eu não poderia perder.

Então, volte comigo! Encontre-me na pista de dança, vamos dançar a última, ouça!  É Alone Again. (4)

Vamos voltar ao mesmo salão e sair de mãos dadas, sem nos importar com os que caminham no outro lado da calçada. Vamos andar sem pressa, cantarolando baixinho B.J.Tomas.

Quem sabe ao vencermos a esquina da praça eu já abrace seu ombro, para que o meu calor chegue até você; sem sobressaltos.

O seu convite para entrar na sua casa? Não o mude. Eu aceito!  Não acenda a luz pois ninguém pode ser testemunha. Vamos tomar um café no escuro.  Quem vai sugerir?

Eu tenho planos para esta noite. Agora eu aprendi a escolher as palavras.  Fique muito próxima a mim, pois seu rosto iluminado é um ímã para tudo o que desejo.  E temos poucas horas!

Deixe o café e me abrace.  O abraço que todos os de 15 anos sonham em receber.   Pois do abraço para um beijo seria apenas um palmo a alcançar. Poderá ser demorado, dos que ficam represados pela semana, dos que saem das missas para um passeio curto e não retornam; dos que ficaram enterrados pelos meses em que saímos juntos do Colégio e pelos tantos recreios inesquecíveis ao seu lado.

Nem precisávamos ter saído de nossa cidade.  Poderíamos construir um mundo ali mesmo. Apenas um beijo faltava naquela noite e agora que retornamos, somente nós, nossas bocas e nossos futuros; decididos pelas 3h da manhã.

Mas não era para me atender, Maria. Não é sobre nossas vidas que eu a quero hoje; eu preciso do seu retorno ao baile.

Você precisa voltar comigo, será breve. Voltemos aos nossos 15 anos para que eu possa ver com mais clareza a minha perda. É lá que precisamos nos encontrar, porque o nosso rosto colado se desfez assim que o último baile terminou e o que era para ser a primeira primavera juntos, perdeu-se em 40 anos de sonhos prorrogados.

Procurei por seu telefone nas páginas amarelas, pedi o seu nome para muitos amigos, passei mil vezes em frente à sua casa, sempre em vão. Imaginei intermináveis vezes o seu quarto e sobre qual ombro você gostava de dormir.

Pensava em almoçarmos juntos, em sair pela praça para o sorvete de todos os domingos, mãos apertadas, olhares de paixão a prova de dias nublados. Nas despedidas de todos os dias, os lábios meus acomodados nos seus.

Poderíamos passar de ano juntos, ir à Capão em nossa formatura, vivermos e construirmos um amor único, desses que se escrevem em árvores nas praças dos apaixonados; como um leve sabor de menta.

Lembra, queria ser professor. Era tudo muito lindo; seguir nossos amigos no que mais gostávamos de fazer; estudar demais, claro, amar de menos, porém.

 Por que não tomamos uns goles de café para que o nosso beijo arraste seu gosto, disfarçando o incômodo de um desejo intenso e que ainda não sabemos o seu nome?

O tempo voou e precisamos voltar àquela noite, onde nossas vidas cruzadas poderiam despertar em uma manhã sonolenta de domingo, como que rompendo um ciclo de solidão, por uma paixão que comemorava o seu primeiro dia.

Vamos voltar juntos. Nosso beijo será sem idade a provar, intenso, como quem beija antes de ir à guerra. Será o primeiro. E o último!

Eu não preciso convencê-la a ficar comigo.  Não mais!  Mas se voltar nos poucos passos em que estivemos juntos, nas músicas inesquecíveis dos 70, aceito comer migalhas italianas por dias, em troca de me ver colado a você por uma noite apenas…

Depois retornamos às nossas vidas, eu disfarçando um desejo que nunca morreu e que em 40 anos, esteve levemente soterrado; em afeto que não pude estender, pelo menos na última noite de uma primavera que arrancou você de mim.

Então, nesses últimos dias eu a encontrei nas redes. Você não imagina? Falamos de projetos, amenidades. Quase faltou coragem, novamente. Eu queria ler a sua voz, mas ainda não foi possível, porque nesses anos todos descobri que a paixão, a mais impulsiva, sempre se esconde atrás de palavras que não podemos pronunciar. Foram elas que não usei, na noite de nossa primeira chance, as mesmas, as que agora fizeram-me descobrir, que o amor não precisava muito mais do que as palavras certas para se pôr em movimento.  Mas eu não as possuía.

Você virou ausência, não resta mais, mas sobrava dor.

Ambos viajamos pra longe.

Eu me escondi, não sei bem onde.

Atenda o Whats, por favor?

Referências:

  1. Still love you, Scorpions
  2. Banda de Caxias do Sul, muito comum em bailes da época.
  3. Yellow River, Christie
  4. Alone Again, Gilbert O’Sullivan.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Por que é importante revisitar as galinhas e os galinheiros de nossa infância”: www.neipies.com/por-que-e-importante-revisitar-as-galinhas-e-os-galinheiros-da-nossa-infancia/

Edição: A. R.

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