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Negação do piso e subproletarização da docência

Sem docência dignificada e valorizada não teremos educação e, sem educação, não teremos um país justo e democrático!

Uma lei federal de 2008, que está completando 15 anos em julho próximo, produz controvérsias e reações contrárias todo início de ano: trata-se da Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008, que regulamenta o inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, instituindo o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica.

A lei nº 11.738 determina no Art. 5o que o “piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica será atualizado, anualmente, no mês de janeiro, a partir do ano de 2009” e, que esse piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios não poderão fixar o vencimento inicial das carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 horas semanais.

Manifestações de entidades municipalistas, como a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), contra a Portaria do MEC nº 17/2023, que atualizou o piso do magistério de 2023 em 14,95%, retomam argumentos infundados como já fizeram por ocasião da publicação da Portaria MEC nº 67, o qual atualizou o piso em 2022. O Supremo Tribunal Federal (STF), em passado recente, já considerou constitucional, legal e direito dos docentes.

O piso do magistério de 2022 era R$ 3.845,63. Em 2023, com o reajuste de 14, 95%, passou para R$ 4.420,55, para uma jornada de 40 horas semanais.

Vamos comparar com outros aumentos bem superiores concedidos no serviço público no mesmo período e não questionados: os ministros de STF, que é referência para os demais poderes, teve um reajuste de 18%, passando o salário para R$ 41.650,92 em 2023, com reajustes escalonados anualmente, chegando em 2025 a R$ 46.366,19. Os servidores da Câmara e do Senado tiveram aumento de 18,13%, também escalonados, entre 2023 e 2025.

No Rio Grande do Sul, um dos cinco estados que questionou no passado a constitucionalidade da lei do piso, o salário do governador passou de R$ 26.841.71 para R$ 35.462,22 mensais, aumento de 32%. O vice-governador e os secretários tiveram um reajuste de 47%, com seus salários passando de R$ 20.131.29 para R$ 29.594.45. A Câmara Municipal de Porto Alegre propôs um aumento de 70% para vencimento do prefeito e 50% para o vice-prefeito e secretários. A proposta foi barrada pela oposição.

A docência e o piso

A reação contrária de parte de gestores públicos estaduais e municipais é descabida por inúmeras razões. O novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) prevê o aumento gradativo de sua complementação pela União dos atuais 10% para 23% até 2026; sendo que, para 2023, já será 17%; 2024, 19%; totalizando os 23% em 2026. Além disso, o Fundo determina que 70% dos valores sejam investidos no pagamento de profissionais da educação básica.

Importante rememorar que em 2020 e 2021, em plena pandemia, vários estados e municípios não investiram os percentuais constitucionais previstos nas constituições estaduais e Leis Orgânicas Municipais na educação, reduziram gastos em momentos de calamidade pública e, inclusive, defenderam a flexibilização dos percentuais para a educação devido a sobra de recursos.

A ausência de um salário digno é um dos principais, senão o principal, indicadores da desvalorização da carreira docente no Brasil. A reversão desse quadro é imprescindível para que a carreira tenha maior atratividade.

Porém, a agenda está sendo inviabilizada pela PEC-95 e por concepções neoliberais da economia, sendo frequentemente avançada a proposta de condicionar salários dignos ao cumprimento de metas pouco realistas de desempenho dos alunos em testes padronizados, num país campeão em desigualdades sociais, regionais, tecnológicas e educacionais.

Metas que tratam da valorização dos profissionais da educação estão previstas nas leis que instituíram o Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024 – Metas 15, 16, 17 e 18, nos Planos Estaduais de Educação (PEEs) 2015-2025 e nos Planos Municipais de Educação (PMEs) de 2016-2026. Aliás, leis e metas que na sua grande maioria estão sendo descumpridas pelos entes federados sem a devida responsabilização dos gestores.

Questionar e descumprir a lei do Piso, a Lei do Fundeb e as demais leis que instituem os planos e políticas educacionais é tão ou mais relevante que atender as metas de superávit e teto de gastos públicos. A sociedade precisa tomar consciência e lutar pelos seus direitos sociais e educacionais, até por que a educação é um dever do estado, da sociedade e das famílias.

O que as metas determinam e o que foi descumprido

Referente as Metas e Estratégias previstas no PNE 2014-2022, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, em seu Balanço Nacional de Educação de 2022, apontou a seguinte condição:

Meta 15 – Garantir, em regime de colaboração entre a união, os estados, o Distrito Federal e os municípios, no prazo de 1 ano de vigência deste PNE, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos I, II e III do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam.

Conforme balanço da Campanha Nacional, em nenhuma das etapas da educação básica o avanço no percentual de docências com formação adequada tem sido rápido o suficiente para que se atinja até 2024 o nível estipulado no plano.

Meta 16 – Formar, em nível de pós-graduação, 50% dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos os profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino.

Porém, desde 2014, essa porcentagem vem aumentando a 1,9 pontos percentuais por ano, em média, o que é pouco maior do que o ritmo necessário para atingir o nível disposto no PNE, mas para materializar o cumprimento do objetivo é necessário manter o ritmo observado. Também, o formato restrito de divulgação do Censo da Educação Básica implementado no início de 2022 não permite mais o cálculo dos indicadores desta meta. Assim, os dados de 2021 tiveram que ser obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Sobre a formação continuada em suas respectivas áreas de atuação dos 2.230.891 docentes em atividade na educação básica, 1.233.192 ainda não haviam recebido qualquer tipo de formação continuada. Sem mudanças na trajetória de evolução deste quadro, deve-se chegar a 2024 ainda muito distante do objetivo prescrito na meta.

Meta 17 – Prevista para 2020, a meta de equiparar o salário médio dos professores ao dos outros profissionais de mesma idade não foi cumprida no prazo, tendo avançado a cerca de um terço do ritmo necessário ao seu cumprimento. Sem alteração desse padrão de evolução, a tendência é que ao fim da vigência do atual PNE a situação ainda esteja irregular.

Meta 18 – Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais da educação básica e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de carreira dos profissionais da educação básica pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do inciso VIII do art. 206 da Constituição Federal.

Considerando todos os dispositivos em conjunto, 13 entre as 27 redes dos estados e do distrito federal e, aproximadamente, 76% das redes municipais estão em situação irregular segundo a meta 18 do Plano Nacional de Educação.

Meta 20 – Além do descumprimento das quatro metas relativas a valorização do trabalho docente, o mais grave é o descumprimento da Meta 20 que prevê ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país no 5º ano de vigência desta Lei 92019 e, no mínimo, o equivalente a 10% do PIB ao final do decênio (2024). Nos governos Temer e Bolsonaro tivemos redução dos investimentos em educação.

Subproletarização do trabalho

A subproletarização do trabalho não está restrita apenas aos trabalhadores da educação, mas abrange profissionais de diferentes setores e tem se agravado nos últimos anos em decorrência das sucessivas reformas trabalhistas no contexto das relações trabalho-capital.

Porém, no campo da educação, além da relativização das conquistas que muito fortaleciam a condição docente no trabalho educativo, como a participação dos professores nos processos decisórios e a formação inicial em cursos de licenciatura, percebe-se um recrudescimento nos processos de precarização de sua condição com a crescente desvalorização salarial. Também, na destruição dos planos de carreira, na não reposição salarial em contextos inflacionários, no aumento de contratos temporários de trabalho e contratos de horistas e a utilização do notório saber como forma de banalizar os conhecimentos pedagógicos próprios do trabalho do professor.

Segundo Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) , precisamos que a sociedade assuma de fato a importância da educação, visto que ela historicamente nunca foi valorizada.

A primeira Constituição Brasileira que estabelece quais os anos de educação obrigatória é somente a de 1946. Hoje, estabelecemos 14 anos de ensino obrigatório (dos 4 aos 18 anos), porém, nem todos cumprem e responsabilizamos ninguém pela negação do direito à educação de nossas crianças, adolescentes e jovens.

Mais desmonte e teoria da conspiração

Os professores Fernando Pena (UFFRJ) e Renata Aquino (FFP-UERJ) denunciaram, em artigo no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, que as instituições de ensino modificaram currículos, suprimiram disciplinas e rearranjaram turmas para demitirem em massa professores e aumentarem os lucros. Agora, ampliam a denúncia no sentido de que o bolsonarismo dos últimos quatro anos se formou a partir de teorias da conspiração e usou como estratégia a formação de grupo de ataques constantes a sistemas de verificação e de construção de conhecimento entre pares.

Logo, jornalistas e docentes foram usados como alvos por meio do medo e do ódio. Teorias da conspiração foram tomando o lugar do pensamento crítico no entendimento da realidade social brasileira, cuja prova de pura ignorância e barbárie se expressaram nos ataques contra a democracia no dia 8 de janeiro de 2023.

Ataques à Lei do Piso do Magistério, por entidades municipalistas e mesmo gestores públicos, afrontam não só os professores e a educação, mas o regime democrático, o estado de direito e decisões do Supremo Tribunal Federal.

É hora de pensar políticas de reparação à categoria profissional que o bolsonarismo transformou em inimiga. Descontinuar as políticas educacionais de Estado, inviabilizar a escola pública, perseguir professores e destruir a dignidade e a carreira docente, através de relações precárias e líquidas, atinge dimensões catastróficas.

Sem docência dignificada e valorizada não teremos educação e, sem educação, não teremos um país justo e democrático!

Fonte:https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/02/negacao-do-piso-e-subproletarizacao-da-docencia/

Autor: Gabriel Grabowski

Quando a vigilância compromete a liberdade

A vigilância que nos torna melhores não é aquela que vem de fora, imposta autoritariamente, mas a melhor vigilância é “a lei moral dentro de mim” que se desenvolve por meio de um processo autêntico de formação e por escolhas livres de uma cidadania autêntica que somente cria raízes se vivermos numa sociedade democrática.

O que seria de nossa liberdade, do nosso comportamento, das nossas atitudes e das nossas relações se fôssemos vigiados o tempo todo e em todos os lugares?

Há os que defendem que, se assim fosse, haveriam menos crimes, vandalismos, comportamentos indecentes, corrupção, desonestidade, falta de caráter, enfim, “as pessoas andariam na linha”, pois estariam sendo vigiadas e qualquer atitude imprópria seria mais facilmente punida. Alguns chegam a se entusiasmar com a ideia e pensam que instalar câmeras em todas as ruas das cidades nos daria segurança e tranquilidade para evitar o indesejável. Mas será isso mesmo? Não haveria algo de perverso nesse processo de vigilância total?

No mundo da ficção e da literatura já tivemos esse tipo de situação ilustrada de várias formas. O livro intitulado 1984 do britânico George Orwell, por exemplo, é uma distopia escrita em 1949 no qual o escritor projeta como seria a vida no futuro distante de 1984 onde tudo seria vigiado.

George Orwell, na verdade é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em 1903 em Bengala na Índia, filho de um funcionário britânico e de uma francesa. Publicou diversos livros, dentre os quais destacam-se “Na pior em Paris e em Londres e “A revolução dos Bichos” em 1945. Foi um visionário em suas obras, pois antecipou um conjunto de situações que se fizeram realidade na segunda metade do século XX e no início do século XXI.

No romance distópico de 1984, o totalitarismo é o percurso que embala a narrativa passada em Londres. Trata-se de um mundo fictício onde existem inúmeros televisores monitorando e controlando toda a população e onde ninguém tem mais direito à privacidade.

Wiston Smith (principal personagem do romance), um solitário funcionário do setor de documentação do Ministério da Verdade, responsável pela propaganda e pela reescrita do passado, é o protagonista da história. Ele detesta seu trabalho, pertence à classe média-baixa, e sua função é reescrever os jornais e documentos antigos de modo a apoiar o partido no poder. Tudo o que não for favorável ao governo e ao seu partido é destruído. O Governo é regido pelo Grande Irmão (Big Brother), um ditador e líder do partido que nunca foi visto pessoalmente, mas que tudo vê e tudo controla. No Estado não existe leis e impera uma única ordem: todos devem obedecer. A propaganda é a base do regime e garante a manutenção do poder. Vigilância total, inclusive do pensamento.

Um dos elementos importantes a serem destacados no romance distópico de Orwell é a forma como ele faz a construção psicológica do trama, ou seja a maneira de como o Partido consegue influenciar a mente dos indivíduos que garante poder ao Grande Irmão.

A delação, a censura, a desintegração humana, a falsidade, a tortura, a crueldade dos homens vão sendo mostrados no decorrer da obra descortinando a perversidade que pode haver quando somos engolidos pelo poder autoritário e pelo pleno controle.

1984 não deixa de ser uma obra profética em termos da quebra da privacidade. Sem saber, graças ao avanço tecnológico e a forma como cada um expõe seus dados de inúmeras formas, estamos sendo monitorados o tempo todo.

A simples criação de uma conta no Facebook, as compras no cartão de crédito, o preenchimento de um cadastro para acessar gratuitamente um serviço, se transforma numa servidão voluntária em que estamos revelando nossos dados que são amplamente comercializados por grupos econômicos, ideológicos e políticos. Com base nestes dados, estes grupos nos oferecem produtos e nos induzem ao consumo, as escolhas, as ideologias, as preferências.

Muitos perdem sua própria identidade, pois o que pensam, o que acreditam e o que defendem foi sutilmente influenciado por estes mecanismos perversos de indução de pensamento e de atitudes provenientes da vigilância.

A obra de Orwell certamente nos apresenta um gigantesco desafio educacional: como evitar que o fanatismo (religioso, político, ideológico) se transforme num mecanismo perverso de submissão das pessoas?

Talvez a escola, a universidade e as instituições educacionais de modo geral ainda possam ser um espaço importante de pensamento crítico, de autonomia e experiência formativa.

É necessário compreender que a vigilância que nos torna melhores não é aquela que vem de fora, imposta autoritariamente e que nos condiciona pela psicologia do medo a um comportamento inautêntico: a melhor vigilância é “a lei moral dentro de mim” que se desenvolve por meio de um processo autêntico de formação e por escolhas livres de uma cidadania autêntica que somente cria raízes se vivermos numa sociedade democrática.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com

Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF

Ideias difíceis de se conviver

Nas nossas vidas pessoais, quais ideias estão nos prejudicando?

As ideias que introjetamos podem nos parasitar, nos enfraquecer e até nos matar. Podem ter mais valor, muito mais valor que a nossa existência. Nos submetemos com facilidade à elas. E as transmitimos para os outros.

Como escreveu Yuval Noah Harari:

“Elas se multiplicam e se espalham de um hospedeiro a outro, alimentando-se deles, enfraquecendo-os e até mesmo os matando. Uma ideia cultural – tal como a crença no paraíso cristão nos céus ou no paraíso comunista aqui na Terra – pode forçar um ser humano a dedicar sua vida a espalhá-la, às vezes tendo a morte como seu preço”.  

De cada dez alpinistas que tentam chegar ao cume do Monte Everest, um morre. Acima dos 8 mil metros, há bem mais de cem corpos congelados: o cemitério mais alto do mundo. Alguns desses cadáveres são vistos pelos alpinistas. Mesmo assim, a ideia de subir o monte persiste. Muitos mais irão morrer devido a ela.

O bom senso nos manda abandonar ideias que vão encurtar nossas vidas, mas não é o que vemos acontecer. E elas já contaminaram muitas pessoas e essa contaminação se retroalimenta.

A Copa do Mundo de Futebol, para citar outro exemplo, é uma fábrica de sofrimentos. Só os torcedores de um país ficarão felizes. Todos os outros amargam a tristeza da derrota. E, assim, acontece com todos os esportes competitivos profissionais, mas eles vão persistir.

Crístofe, personagem de “A noite das tartarugas”, com facilidade, expõe-se ao risco de morrer ao enfrentar bandidos para salvar desconhecidos, ao se colocar na mira de tiro de bilionários traficantes de drogas.

Por quê?

Por duas ideias que comandam e se tornaram donas dele.

A primeira, veio de seu pai. Quando viu que não mais se livraria da dependência do crack e que, devido a ela estava se tornando violento, optou pela morte. Viver para fazer o mal? Melhor morrer.

A segunda, pelo bom vizinho que o pai arrumou antes de morrer para adotá-lo: não vale uma vida não dedicada ao bem.

Crístofe,  com o exemplo dos dois, com essas ideias dentro dele, deixou de lado a qualidade de sua vida e a quantidade de tempo que irá existir. Tem de fazer o bem, mesmo que morra ao fazê-lo.

Nas nossas vidas pessoais, quais ideias estão nos prejudicando?

Autor: Jorge Alberto Salton, no seu livro “Convivendo com pessoas difíceis”, Passo Fundo: Physalis Editora, 2018.

Quando as diferenças já não fazem a menor diferença

Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos.” (Martin Luther King)

Os discípulos estavam preocupados. Motivo? Alguém estava usando o nome de Jesus para fazer milagres. Ao contar a Jesus o que estava acontecendo, imaginaram que Ele daria um basta naquilo, exigindo que se respeitasse os direitos autorais de Sua mensagem. Mas para a surpresa deles, Jesus disse: “Não lhe proibais. Ninguém há que faça milagre em meu nome, e logo a seguir possa falar mal de mim, pois quem não é contra nós, é por nós” (Mc.9:39-40).

Jesus jamais exigiu royalties ou direitos autorais de suas obras ou mensagem. Ele queria que a mensagem fosse propagada.

Paulo também captou o mesmo espírito, e por isso, declarou: “Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia (…) mas que importa? contanto que Cristo, de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto ou de verdade, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei” (Fp.1:15a,18).

A mensagem de Cristo não é monopólio de quem quer que seja.

Quanto as motivações, deixemos que Deus as julgue no momento certo. Por agora, o que importa é que a mensagem seja anunciada.

Não importa se em uma igreja protestante histórica, ou em uma paróquia católica, ou numa igreja neopentecostal, ou mesmo em um centro espiritualista ou numa mesquita. Verdade é verdade, não importa por quem esteja sendo anunciada. E quem ama a verdade, reconhece-a de cara, ainda que anunciada pelos lábios de um cético. Assim como podemos reconhecer a mentira, mesmo quando dita por aqueles que julgamos estar acima do bem e do mal.

Diferentes, mas nem tanto.

Em vez de realçarmos o que nos distingue, por que não realçamos o que temos em comum? Nem que para isso tenhamos que descobrir quais as ameaças ou inimigos que temos em comum. Talvez, assim, as diferenças já não façam tanta diferença.

Por exemplo: em um país muçulmano, não faz diferença se você é evangélico ou católico. Ambos se reconhecem mutuamente como cristãos.

Numa classe universitária na França, onde a maioria dos alunos se diz ateia, a diferença entre muçulmanos e cristãos perde a importância. O ateísmo pode ser visto como um “inimigo” comum para ambos os grupos, haja vista serem monoteístas.

E quando somos ameaçados por um inimigo comum a toda a humanidade? Quiçá, um inimigo externo?

Se fosse anunciado que um asteroide estivesse prestes a chocar-se com a Terra, pondo em risco a civilização humana, todas as diferenças religiosas, raciais, étnicas, culturais, perderiam totalmente sua relevância. Ateus, cristãos, espíritas, hindus, budistas, dariam as mãos num esforço coletivo para evitar a tragédia.

Pode ser que não estejamos ameaçados pela queda de um asteroide mas, certamente, há outras ameaças que nos assediam, e que demandam que nos unamos em um esforço comum para enfrentá-las. Entre elas, destacamos a violência urbana, o aquecimento global, as injustiças sociais, e por último, a crise financeira global.

Estaremos fadados ao fracasso, caso não nos disponhamos a deixar nossos guetos ideológicos e darmos as mãos.

Parafraseando Agostinho: “No essencial a unidade, no não essencial a liberdade, em tudo a caridade”.     

Autor: Hermes C. Fernandes

O bem é falar muito no bem e o mal é falar muito no mal

Faz bem escutar: “São muitos os homens bons”. “São inúmeras as boas mulheres”. E como faz bem ouvir, de vez em quando que seja, que nós também somos bons.

Não devemos esconder os “malfeitos”. Como professor de Ética Médica, levo aos alunos os processos sofridos por médicos devido a comportamentos inadequados na profissão. Porém, o hábito de só criticar, de muito apontar os aspectos negativos gera desesperança e faz parecer que o único caminho é o dos “malfeitos”.

Melhoramos com bons exemplos. Sempre procurei contar aos meus alunos os melhores momentos revelados por médicos atuais e passados. Não é assim que se faz com o futebol? Se priorizássemos a divulgação não dos “melhores momentos” e sim dos piores continuaria ele sendo o esporte que mais admiramos?

O mal é falar muito no mal.

Pesquisadores já fizeram levantamentos – Martin Seligman, Katherine Dahlsgaard, entre outros – sobre quais atributos pessoais consideramos dignos, éticos, formadores de um bom caráter:

1. Capacidade de estabelecer relacionamentos honestos, leais e tolerantes;

2. Ter boa empatia;

3. Gostar, amar as pessoas e a vida;

4. Agir de forma construtiva e querer sempre fazer o que é certo;

5. Ser inteligente e capaz sem deixar de ser humilde;

6. Revelar senso de dever e senso de justiça;

7. Ser um otimista e não um crítico;

8. Perceber que a beleza existe e saber retê-la na memória: exemplo, a foto que me foi cedida por Claudete Menegat.

Admiramos quem possui algumas das qualidades referidas e também aqueles que, não as possuindo, revelam vontade de tê-las e se esforçam para tanto.

Há, inclusive, comprovação científica de que os bons exemplos nos fazem melhorar.

Dan Ariely, pesquisador norte-americano, perguntou-se: “O que nos leva a fazer o certo?” E, através de pesquisas, chegou a algumas constatações. Cada um de nós tem um nível x de “capacidade” para fazer o errado. Há um Fator Pessoal de Enganação (FPE). O FPE diminui quando ficamos sabendo de pessoas que agem de forma correta, que fazem o certo. Há uma contaminação positiva.

Faz bem escutar: “São muitos os homens bons”. “São inúmeras as boas mulheres”. E como faz bem ouvir, de vez em quando que seja, que nós também somos bons.

Autor: Jorge Alberto Salton

Por que esperamos das nossas crianças o que não esperamos de nós?

Diante de tantas exigências que nos fazem o mundo e a sociedade em que vivemos estamos sendo levados a exigir das nossas crianças que elas cresçam o mais rapidamente possível e passem a fazer coisas de adultos quando ainda são pequenas demais.

Uma vez existiu uma poeta chamada Cecília Meireles que nos criou uma poema intitulado “O menino azul” e nos seus versos ela nos diz

“O menino quer um burrinho / para passear. / Um burrinho manso, / que não corra / nem pule, / mas que saiba conversar.”

Que possamos oferecer um pouco de aconchego às nossas crianças sendo esse burrinho na sua imaginação ou sonhos.

Compreendendo que a criança que é ouvida consegue desenvolver o seu lado social muito mais rapidamente interagindo e perdendo a timidez diante das outras crianças. Um bom diálogo é sempre necessário para o crescimento espiritual da criança que se sente acolhida quando é ouvida sem esperar nada de quem a ouve.

E esperar para quê? A criança já sabe que tem afeto e cuidado de quem está a ouvindo, mas será que nós não estamos esperando dela que nos dê o mesmo? Sabemos lidar com os nossos sentimentos? Ou ficamos confusos todas às vezes que trocamos de parceiros ou precisamos tomar decisões em relação às nossas vidas?

As crianças gostam de brincar, pular, correr e fazer perguntas. Elas são curiosas por vida.

Na tenra idade, o brincar é a única coisa que a criança precisa fazer para ser feliz. Brincando ela descobre o mundo real e cria os seus mundos imaginários, passa a conhecer mais as pessoas ao seu redor e descobre novas coisas que despertam o seu pensamento crítico e reflexivo.

É necessário deixar a criança livre, ou seja, criar a sua autonomia e aprender que pode fazer muitas coisas sozinha como calçar uma meia, um sapato ou vestir um vestido. Coisinhas pequenas do dia a dia que são simples atividades devemos permitir que as crianças aprendam sozinhas a realizarem. Nada é mais gratificante do que saber que algo foi feito por nós quando vemos o seu resultado positivo. Assim, também se sentem as crianças.

Muitos de nós, adultos, exigimos demais da gente e nestas exigências acabamos esquecendo que estamos convivendo com espíritos ainda em formação, com uma gente miúda que não pode ser responsável pelos nossos erros, angústias, perdas e problemas. Muito menos devemos colocar sobre elas um peso maior do que podem carregar.

No mundo contemporâneo em que vivemos, nesta correria louca de trabalho e outros compromissos profissionais esquecemos que às crianças cabe tão somente a responsabilidade de estudar. Tendo o brincar como uma diversão que não pode ser tirada da sua vivência de maneira nenhuma. A criança que brinca descobre novos mundos, cresce mais rapidamente, seu pensamento cognitivo é desenvolvido com muito mais velocidade e os seus anseios são reduzidos.

O brincar acalma as emoções e distrai a criança das incompreensões do dia a dia.

Neste constante ritmo em que vivemos, no mundo da tecnologia e das mídias digitais, deixamos a criança se virar sozinha dentro de casa presos nos nossos aparelhos eletrônicos esquecemos de dar-lhes a atenção necessária para o bem-viver. A criança passa da hora de se alimentar, de tomar banho e até mesmo de dormir. Isso acaba criando hábitos não saudáveis à vida do pequeno espírito em crescimento.

Vivemos num mundo de intensas cobranças e a competitividade no mercado de trabalho cresce a cada dia. Só os melhores sobreviverão nas grandes empresas. Vemos todos os dias gigantes do mercado tecnológico realizarem demissões em massa. Mesmo os bons profissionais perdem seus empregos e precisam ir em busca de outros. Para isso é necessário que ele esteja preparado para enfrentar a concorrência.

Não existe mais aquela história de especialista em apenas uma área. O mercado busca agora profissionais que conheçam e caminhem por todas as áreas, que saibam três ou cinco idiomas, que saibam escrever e calcular com facilidade. As exigências são muitas.

Ficamos perdidos num mundo que nos cobra o tempo todo que estejamos estudando e fazendo cursos, assistindo palestras, reuniões e lendo revistas e jornais das nossas áreas e de outras também. Somos tomados pelas cobranças do mundo financeiro, econômico, político e social. Até mesmo nos templos religiosos precisamos nos renovar todos os dias para sermos bem aceitos entre os fiéis.

Com tantas cobranças ao nosso redor, acabamos angustiados e, muitas vezes, entramos em desespero caindo numa depressão ou ansiedade que não sabemos aonde vamos parar. Ficamos doentes, cegos e mudos em relação aos pedidos de socorro dos nossos corpos e almas. Vivendo uma vida cheia de compromissos e de cobranças, achamos que daremos conta de tudo mas, quando a conta chega, ela é alta e pagamos um preço muito maior do que esperávamos.

Diante de tantas exigências que nos fazem o mundo e a sociedade em que vivemos estamos sendo levados a exigir das nossas crianças que elas cresçam o mais rapidamente possível e passem a fazer coisas de adultos quando ainda são pequenas demais.

Sugestão: Vídeo sobre a importância das brincadeiras na formação das crianças.

Esperamos delas o que não conseguimos em nós porque sabemos que fraquejaremos uma hora ou outra, pois já estamos cansados de um mundo que só nos cobra e não nos oferece nada de graça.

Habituados a tantas cobranças e exigências tememos que as nossas crianças cresçam despreparadas e acabamos esperando delas o que nem mesmo esperamos de nós, ou seja, achamos que elas vão nos salvar qualquer dia desses. Dessa forma, as colocamos para estudar tudo quanto é disciplina e procuramos as melhores escolas para elas, exigimos que aprendam três ou mais idiomas, que pratiquem esportes, que toquem instrumentos musicais, que participem de competições e sejam sempre as vencedoras em tudo.

Ah, mundo difícil este que estamos oferecendo às nossas crianças! Dói saber que esperamos delas o que não podemos esperar nem de nós mesmos!

Muitos pais e responsáveis se animam ao verem a criança se destacar em uma arte ou disciplina qualquer e já começam a fazer mil planos para ela. Iniciam as exigências, a dedicação exclusiva, uma rotina de estudos pesada, sérias atribuições e esquecem que a criança só quer mesmo fazer as suas tarefas escolares e brincar. Que ela ainda é muito pequena para dar conta de tanta responsabilidade.

Não é à toa que consultórios de psicólogos e psiquiatras estão lotados com gente adulta e criança. Os adultos porque esperaram demais de si e tiveram seus sonhos e planos fraquejados e as crianças vítimas dessas esperas dos adultos acabaram adoecendo fisicamente e espiritualmente porque não souberam como lidar com tantas cobranças.

O que esperar de uma criança senão o riso e a vontade de ser amada? Esperar mais do que isso é tirania. É prender a criança dentro de uma caverna subjetiva que nós criamos para ela à nossa maneira e opressão.

É um mundo difícil o nosso. As batalhas que temos que vencer todos os dias são grandes. Chegamos em casa enfadados e cansados. Não damos conta sequer daquela pequena criança sentada no sofá da sala à espera de atenção, carinho e afeto. Já não temos mais tempo para contar histórias, fazer um desenho ou conversar com os nossos filhos. Parece que vivemos sozinhos dentro de uma bolha.

Estamos tão robotizados que já não pensamos criticamente. Não sabemos tomar decisões sem a ajuda de um profissional. Sempre pedimos a opinião de outras pessoas para termos a certeza de que não estamos fazendo a coisa errada, quando sabemos que estamos certos. Estamos cada vez mais indecisos, ansiosos e medrosos. Os homens fortes como Hércules, Davi e o sábio Salomão já não existem mais. Estes ficaram na história do tempo.

Baseados nestas histórias de heróis e super-heróis exigimos que as nossas crianças se tornem gigantes diante dos problemas e dificuldades, que enfrentem seus medos e angústias sozinhas e se “virem” para tomarem decisões que nós mesmos não saberíamos o que escolher ou fazer. Atualmente, esperamos que as crianças nos salvem do bicho papão.

Mundo cão, mundo devastador, mundo dos cronômetros e do tempo escasso. Da rapidez das informações e da pressa de ir e vir de um lugar a outro sem nem darmos conta das paisagens naturais e pessoas que deixamos para trás. Não seremos os próprios culpados desta crueldade que estamos fazendo conosco? Por que esperamos das nossas crianças o que não esperamos de nós? Acredito que é preciso pausa, o momento é de descanso, de um fôlego, de uma respiração profunda e um pensamento reflexivo sobre tudo isso que estamos vivenciando.

Não é certo que criancinhas sejam motivadas a competirem com os seus amiguinhos em tudo.

Sugestão: Vídeo sobre o direito ao brincar.

Esperar que as nossas crianças façam tudo certinho quando nós não conseguimos acertar em nada é exigir muito delas. Errar é necessário para o crescimento espiritual de todo ser humano. Quem erra é porque tentou. O segredo não está no que a criança vai ser quando crescer, mas no que ela é no presente, pois na sua vida adulta ela se lembrará de tudo o que lhe fizeram na infância e poderá sofrer distúrbios psicológicos com essa falta de cuidado que não recebeu quando era pequenina.

Não, não senhores pais e responsáveis por criancinhas. Não esperem que elas sejam o poço dos seus desejos. Que elas acertem os números da loteria ou salvem o mundo de grandes tragédias. Diante de tanta incompreensão, as crianças mal estão conseguindo lidar com os seus próprios medos e angústias. Elas não sabem mais o que fazer diante das suas dúvidas, pois não têm a quem recorrer. Os pais passam o tempo todo no trabalho e os professores devem cumprir as cargas horárias das disciplinas, dos diversos projetos que a coordenação pedagógica elegeu para aquele ano letivo.

Neste amontoado de atividades que a escola lança para a criança os professores não têm mais tempo para as ouvirem se não for para tirar dúvidas das disciplinas, conversas sobre seus medos, seus sonhos, seus desejos ficam para depois, amanhã, outro dia, nunca… e assim a infância vai passando com as diversas cobranças rondando o mundo da criança que não sabe mais o que fazer na solidão em que se acha dentro de casa e na escola com as suas dúvidas em relação a um mundo que não foi feito para ela.

O maior problema que encontro nas escolas por onde passei é o tanto de disciplinas que as crianças precisam estudar com material didático que nada tem a ver com os seus mundos. No meu tempo da infância estudei todas as ciências necessárias para o bom aprendizado, mas tudo estava dentro da língua portuguesa e da matemática.

Tive professores maravilhosos que ensinaram geografia com uma poesia, ciências com um conto de fadas, história com um cordel e por aí vai.  Por que as escolas estão enchendo de disciplinas escolares as grades curriculares das crianças? Não estão esperando demais delas? São apenas crianças dispostas a aprender tudo o que lhes ensinarem através do lúdico e da brincadeira. Esperar muito do outro acaba nos frustrando e frustrando o outro. É um jogo perigoso para ambos.

Sabemos da nossa missão de preparar as nossas crianças para um mundo diferente do nosso e dos nossos pais. Agora é cada um por si. O individualismo está cada vez maior, as pessoas já não se olham mais nos olhos, já não têm mais tempo para conversarem e muito menos ficarem sentadas nas calçadas conversando sobre as suas vidas. Nem calçadas existem mais nas grandes cidades. Isso não quer dizer que devemos exigir que as nossas crianças passem a se comportar como adultos desde cedo.

Como vejo nas minhas andanças pelas cidades do Brasil crianças adultizadas pelos seus pais com cabelos pintados, unhas pintadas, sapatos de saltos altos e meninos sendo estimulados a trabalharem e namorarem cedo demais. Que mundo é este que estamos oferecendo às nossas crianças, me digam? Eu temo que amanhã não existam mais crianças.

Se vimos uma criança acreditar em Papai Noel, bruxas, dragões ou fadas acabamos a ridicularizando e destruindo os seus mundos imaginários. Não estamos preparados para educar os nossos filhos, os nossos alunos, os nossos primos e sobrinhos. Somos ranzinzas e perdemos a doçura e inocência da infância que alguns adultos conservam dentro de si mesmo depois de tantos abalos e decepções.

Até mesmo Jesus Cristo se comportou como uma criança ao bagunçar e quebrar tudo o que havia no templo em que eram comercializados animais e mercadorias. No seu momento de raiva, Jesus Cristo virou mesas, espalhou moedas pelo chão, gritou com os mercadores e fez o que qualquer criança faz num momento de birra. Por que as julgamos sempre de mimadas? Será que Nossa Senhora mimou seu filho, também?

Deixemos de lado as nossas arrogâncias e queixos altos. Baixemos as nossas cabeças para ouvirmos as vozinhas das nossas crianças que só desejam um pouco de atenção. Não esperemos delas o que não esperamos de nós porque sabemos que o mundo é duro e mais tarde vai cobrar delas o que nos cobra todos os dias. Que possamos educá-las de uma forma que cresçam preparadas para lidar com as decepções, os medos, as incertezas e sempre confiando em si próprias.

Não podemos ficar sob a sombra das nossas crianças. Elas são árvores que precisam de cuidados. Elas não podem nos oferecer flores e frutos se não estiverem alimentadas com proteínas e carboidratos necessários para uma vida saudável. Até as árvores morrem de angústia quando esperamos que elas nos deem sombra e frutos da melhor qualidade quando não estão preparadas para isso.

Aprendamos que cada ser é único. Assim são as crianças. Elas não devem receber da escola um ensino-aprendizagem que não explore os seus pensamentos críticos e reflexivos, introduzindo-as no coletivo, mas cuidando do seu individual. Tratando-a com respeito e afeto no que concerne ao seu jeito de ser e compreender as coisas.

Que cada professor possa ter um tempo para com o seu aluno. Que o número de alunos em sala de aula seja reduzido para que os professores possam cuidar das nossas crianças com mais atenção, respeito aos seus limites e diálogos não somente sobre a escola, mas também sobre a sua vida lá fora. O nosso querido filósofo e educador Paulo Freire já rezava sobre este respeito ao conhecimento de mundo da criança.

Em tudo o que buscamos nas nossas crianças esteja o nosso aprendizado de que elas não estão preparadas ainda para nos salvarem das tempestades, mas podem enxugar as nossas lágrimas sem se darem conta do quanto é grande os nossos sofrimentos diante das suas inocências. Uma inocência que precisa ser mantida e alimentada. Não é feio falar de um duende para o vovô, vovó ou até mesmo para a professora assim como não é feio fazer cartinhas para o Papai Noel e pendurá-las à janela da casa.

A vida precisa de fantasias para se tornar melhor. Acreditarmos em coisas sobrenaturais é necessário. Quantas crianças não vão dormir todas as noites desejando que uma fada boa venha resgatá-las daquela casa onde ninguém as compreende, não recebe atenção e nem carinho? Já pensaram nisso, senhores pais?

A escritora Ruth Rocha em seu livro “O direito das crianças” já dizia “Toda criança no mundo / Deve ser bem protegida / Contra os rigores do tempo / Contra os rigores da vida.”

É assim que devemos proteger as nossas crianças contra esses rigores da vida que nos são colocados todos os dias e esperamos que elas se comportem como nem mesmo nós sabemos como nos comportar diante da dor e das adversidades que surgem na passagem do tempo.

Autora: Rosângela Trajano

O cuidado e o futuro dos espoliados e da Terra

Tudo o que vive precisa de ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa também de ser continuamente alimentado.

A categoria cuidado mostrou-se a chave decifradora da essência humana. O ser humano possui transcendência e por isso viola todos os tabus, ultrapassa todas as barreiras e contenta-se apenas com o infinito. Ele possui algo de Júpiter dentro de si; não sem razão, pois dele recebeu o espírito.

O ser humano possui imanência e por isso se encontra situado num planeta, enraizado num local e plasmado dentro das possibilidades do espaço-tempo. Ele tem algo da Tellus/Terra dentro de si; é feito de húmus, donde deriva a palavra “homem”.

O ser humano encontra-se sob a regência do tempo. Este não significa um puro correr, vazio de conteúdos. O tempo é histórico, feito pela saga do universo, pela prática humana, especialmente pela luta dos oprimidos, em busca da sua vida e libertação.

Constrói-se passo a passo; por isso, é sempre concreto, concretíssimo. Mas, simultaneamente, o tempo implica um horizonte utópico, promessa de uma plenitude futura para o ser humano, para os excluídos e para o cosmos. Somente buscando o impossível se consegue realizar o possível. Em razão dessa dinâmica, o ser humano possui algo de Saturno, senhor do tempo e da utopia.

Mas não basta dizer tais determinações. Elas, na verdade, dilaceram o ser humano. Colocam-no distendido e crucificado entre o céu e a terra, entre o presente e o futuro, entre a injustiça e a luta pela liberdade.

Que alquimia forjará o elo entre Júpiter, Tellus/Terra e Saturno? Que energia articulará a transcendência e a imanência, a história e a utopia, a luta pela justiça e a paz, para que construam o humano plenamente?

É o cuidado que enlaça todas as coisas; é o cuidado que traz o céu para dentro da terra e coloca a terra dentro do céu; é o cuidado que fornece o elo de passagem da transcendência para a imanência, da imanência para a transcendência e da história para a utopia. É o cuidado que confere força para buscar a paz no meio dos conflitos de toda a ordem. Sem o cuidado que resgata a dignidade da humanidade condenada à exclusão, não se inaugurará um novo paradigma de convivência.

cuidado é anterior ao espírito (Júpiter) e ao corpo (Tellus). O espírito humaniza-se e o corpo vivifica-se quando são moldados pelo cuidado. Caso contrário, o espírito perde-se nas abstracções e o corpo confunde-se com a matéria informe.

cuidado faz com que o espírito dê forma a um corpo concreto, dentro do tempo, aberto à história e dimensionado para a utopia (Saturno). É o cuidado que permite a revolução da ternura, ao tornar prioritário o social sobre o individual e ao orientar o desenvolvimento para a melhoria da qualidade de vida dos humanos e de outros organismos vivos. O cuidado faz surgir o ser humano complexo, sensível, solidário, cordial, conectado com tudo e com todos no universo.

cuidado imprimiu a sua marca registada em cada porção, em cada dimensão e em cada dobra escondida do ser humano. Sem o cuidado o humano far-se-ia inumano.

Tudo o que vive precisa de ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa também de ser continuamente alimentado. As ressonâncias do cuidado são a sua manifestação concreta nos vários aspectos da existência e, ao mesmo tempo, o seu alimento indispensável. O cuidado vive do amor primordial, da ternura, da carícia, da compaixão, da convivialidade, da medida justa em todas as coisas. Sem cuidado , o ser humano, como um tamagochi, definha e morre.

Hoje, na crise do projecto humano, sentimos a falta clamorosa de cuidado em toda a parte. As suas ressonâncias negativas evidenciam-se pela má qualidade da vida, pela penalização da maioria empobrecida da humanidade, pela degradação ecológica e pela exaltação exacerbada da violência.

Não busquemos o caminho da cura fora do ser humano. O ethos está no próprio ser humano, entendido na sua plenitude que inclui o infinito. Ele precisa de se voltar para si mesmo e de redescobrir a sua essência, que se encontra no cuidado. Que o cuidado aflore em todos os âmbitos, que penetre na atmosfera humana e que prevaleça em todas as relações! O cuidado salvará a vida, fará justiça ao empobrecido e resgatará a Terra como pátria e mátria de todos nós.

Autor: Leonardo Boff, em conclusão de seu livro Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra. Petrópolis, Ed. Vozes, 1999

Sapiens

Em tempos de Covid-19 em que ninguém está a salvo, a leitura de Sapiens pode se tornar um sábio conselho para revermos nossos valores e escolhas.

Sapiens: uma breve história da humanidade é uma instigante obra escrita por Yuval Harari. Trata-se de um best-seller de quinhentos e noventa páginas lançado originalmente em Israel e logo em seguida traduzido para mais de 40 idiomas que nos ajuda a compreender a história humana desde a formação dos primeiros traços do que veria a ser a espécie humana até nossos dias.

Sapiens tornou-se tão famoso que o próprio Barack Obama, ex-presidente dos EUA, confessou publicamente que leu duas vezes a obra e numa entrevista testemunhou que se trata de “uma história abrangente da raça humana, pois aborda alguns fatores cruciais que nos permitiram construir uma extraordinária civilização”.

Yuval Harari é doutor em história pela Universidade de Oxford (Inglaterra), especialista em história mundial e atualmente é professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, onde também desenvolve pesquisas em torno de questões abrangentes, tais como a relação entre história e biologia, se existe justiça na história e se as pessoas se tornam mais felizes com o passar do tempo.

Em tempos de quarentena por conta da Covid-19, a leitura de Sapiens nos ajuda a compreender melhor o cenário atual, o conturbado cenário político e econômico que está nos destruindo, a trajetória da espécie humana, os desafios que teremos pela frente para sobreviver, a necessidade de reinventarmos as relações sociais, o modo como a tecnologia modificou nossa vida e que tipo de ser humano nos tornaremos daqui para frente.

Apesar de ter sido escrito por um historiador e tratar de uma breve história da humanidade, o best-seller não é um livro tradicional de história com um registro interminável dos fatos e acontecimentos que marcou a trajetória humana no planeta. De forma instigante, Harari nos conduz por um percurso descritivo e questionador que nos constituiu como espécie.

O livro é composto por 20 capítulos divididos em quatro partes. Na primeira parte, intitulada de Revolução Cognitiva e composta de 4 capítulos, aborda desde o surgimento insignificante de um ser vivo que passou a andar sobre duas pernas e ter habilidade com as mãos, até chegar a se tornar um grupo que graças a capacidade cognitiva passou a dominar a natureza.

Na segunda parte, intitulada Revolução Agrícola e também composta de 4 capítulos, Harari descreve de que forma o domínio das técnicas agrícolas somadas com a domesticação de animais modificou a conduta dos sapiens. É nesta parte que descreve o surgimento das religiões, o que levou a construção dos grandes impérios da antiguidade, o surgimento da propriedade privada, a forma como os sapiens foram se tornando escravos de si mesmos, construindo muros e formas simbólicas de dominação.

O último capítulo dessa parte tem por título “Não existe justiça na história”, pois denuncia que foram as “leis e normas humanas que transformaram algumas pessoas em escravos e outras em senhores”. Isso significa dizer que se há diferenças no tratamento entre negros e brancos, ricos e pobres, judeus e muçulmanos, não se trata de uma diferença de inteligência ou uma diferença moral, mas sim uma invenção cultural de grupos que se arrogaram o direito de criar as leis e impor para todos os seus preceitos.

Cinco capítulos compõe a terceira parte que tem por título “A unificação da Humanidade”. É nesta parte que o escritor israelense analisa de que forma o dinheiro por meio da ordem econômica, os impérios por meio da ordem política e as religiões universais se espalharam pelo planeta e como assentaram as bases do mundo unificado de hoje.

Por fim, na última parte intitulada “A Revolução científica”, Harari se debruça sobre os últimos 500 anos da história humana mostrando os avanços e fracassos, a descoberta da ignorância e o potencial do conhecimento, o casamento entre ciência e política, o credo capitalista e as engrenagens da indústria, a revolução permanente que está em curso, os desafios e a pergunta mais importante da humanidade: o que de fato nos faz felizes?

Em tempos de Covid-19 em que ninguém está a salvo, a leitura de Sapiens pode se tornar um sábio conselho para revermos nossos valores e escolhas.

Fica como sugestão: Análise em vídeo sobre o livro Sapiens.https://youtu.be/lyitmFYBMWQ?t=35

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF

Como acolher seus alunos na volta às aulas, professor

Assim se faz a escola, ou seja, com professores cheios de vontade de ensinar e alunos que também estão cheios de vontade de aprender.

Vamos ouvir o cantor Toquinho na sua linda canção que nos diz “Numa folha qualquer / Eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / É fácil fazer um castelo…”.

Ouça: https://youtu.be/sCGND4gpT8s?t=19

Que toda criança e jovem possa ser estimulados a fazerem uso das suas criatividades desde os primeiros dias de aulas, pegando retas e círculos e os transformando em outros mundos, quem sabe o mundo que se deseja para si.

Há um tempo na infância que a gente acorda para brincar e estudar. Ir à escola é uma das atividades mais prazerosas para a maioria das crianças. Elas esperam encontrar lá amiguinhos, professores atenciosos e amorosos, um lugar para brincar e estudar cheio de cores e com brinquedos e livros maravilhosos.

Infelizmente, o meu primeiro dia de aula não foi assim. Eu fui recebida por uma professora chata e que me trancou num banheiro escuro por quatro horas devido eu ter brigado com o meu amiguinho de sala de aula. Trago o medo do escuro até hoje e não consigo ficar em lugares sem luz.

Peguei medo àquela escola onde tinha uma professora maldosa que trancava criancinhas no banheiro só porque elas fizeram coisas erradas e talvez eu nem tivesse errado tanto assim para merecer um castigo tão doloroso. Toda criança briga com o amiguinho. Isso é normal no jardim de infância quando estamos aprendendo a compartilhar brinquedos e material escolar.

As aulas estão começando em vários lugares do Brasil e trago este texto para poder ajudar professores e pais a acolherem seus filhos nas escolas, principalmente aquelas crianças que estão indo pela primeira vez à sala de aula.

É preciso paciência e amor. Sem amor nada sai bem-feito. Sem amor tudo desanda, como diz a minha mamãe quando vai cozinhar uma comida. É preciso saber temperar e não há tempero melhor do que o amor.

Pois bem, acolher a criança na escola nos primeiros dias de aula não é tarefa fácil. Aquelas pequeninas no período da educação infantil que choram e fazem birra para não ficarem na sala de aula sozinhas devem ter o acompanhamento dos pais ou responsáveis por alguns dias até que se acostumem com aquele ambiente estranho e de pessoas estranhas.

Para a criancinha deixar o seu lar, os seus brinquedos e as pessoas que ama para ir ficar por horas num lugar estranho pode não ser agradável o quanto pensamos. É preciso prepará-la dias antes conversando sobre a necessidade de ir à escola, perguntando sobre o que quer ser quando crescer e que isso vai depender de como vai se sair nos estudos, incentivar desde cedo a criancinha a ouvir e brincar de ler livros mesmo que ela esteja na tenra idade, ainda.

Criar dentro de casa um ambiente que se pareça com uma escola, ou seja, colocando uma mesinha com uma lousa pequena de frente à parede da mesa para a criança ir fazendo os seus primeiros rabiscos e se acostumando com os objetos físicos de uma sala de aula. A conversa sempre é necessária para que ela passe a saber que logo chegará o dia que precisará ficar algumas horas na escola e fazer muitos amiguinhos.

As criancinhas que choram e fazem birra devem ser acolhidas com muito amor e paciência por parte da equipe escolar, mais particularmente, pelo professor. Este precisará demonstrar afeto e cuidados com os sentimentos e emoções da criança.

Nos primeiros dias de aulas, é bom que a criança traga para a escola um brinquedo que gosta, que se vista à vontade, que faça as refeições que faz em casa e que seja acolhida toda necessidade. Se a criancinha necessitar de algum acompanhamento especial por ser pessoa com deficiência física ou mental precisará sempre de um bom profissional por perto.

Também ter o cuidado com a criança que toma medicações controladas e com horário exato para tomar. Os pais devem ficar atentos e levarem essas medicações à escola orientando os professores e a equipe pedagógica da dosagem e dos horários dos medicamentos, pois eles são tão necessários ao corpo ou mente da criança, podendo ocorrer problemas sérios se esta não vier a tomar conforme prescrição médica.

Cabe a escola diminuir ao máximo o sofrimento que a criança sente ao deixar o ambiente acolhedor da sua casa para vir à sala de aula, um local que para ela é estranho.

Para isso é necessário que se faça uma extensão da casa da criança com a escola, ou seja, que se faça uma ponte ligando os dois prédios físicos de uma forma que o caminho se torne agradável e conhecido pela criança e que essa extensão também seja de pessoas queridas e que possam passar confiança e segurança para as criancinhas que chegam assustadas e sem saber direito o que estão fazendo ali.

A maioria das crianças que conheço e já vi em muitas escolas de educação infantil são levadas à força pelos pais, sem explicações, apenas que devem estudar se quiserem ser alguém na vida. É quase uma obrigação para essas crianças irem à escola, isso porque os pais não estão interessados no conhecimento que a criança vai receber em sala de aula, mas na Bolsa Família que vai receber no final do mês.

Não se deve fazer do hábito de ir à escola uma obrigação em momento algum. Deve ser algo prazeroso, algo que traz felicidade e alegria para a criança. O professor deve ser neste momento de acolhimento pai, mãe, avó, avô, músico, desenhista, poeta, amigo, médico, enfermeiro… enfim, todas as profissões possíveis e imagináveis para mostrar à criancinha que pode confiar nele. Que tudo de bom fará para que ela se sinta confortável.

Cantar com as crianças é uma boa alternativa, perguntar aos pais quais cantigas elas gostam de ouvir para dormir, também é bom saber. Criar um ambiente de paz e sossego mútuo para professores e crianças na sala de aula, onde elas possam se sentir como se estivessem em casa e poderem desfrutar daquele momento de forma que fiquem impressas em seus pequenos espíritos coisas bonitas para sempre. Desenhar, pintar, brincar de ciranda também é uma alternativa. Resgatar as brincadeiras antigas dos nossos avós ou bisavós.

Ler um livro para as crianças, passar filmes na televisão ou até mesmo permitir que elas brinquem com jogos eletrônicos educativos, pois quer queira quer não a tecnologia está batendo nas portas das escolas faz algum tempo e os professores precisam mudar as suas metodologias de ensino, pois a maioria das crianças com dois ou três anos de idade não vai querer ir à escola porque ficará longe do seu celular. Acredito até que o uso do celular em sala de aula para brincadeiras educativas possa ser permitido para que a criancinha sinta mais acolhimento.

Tudo o que possa transmitir conforto e confiança às crianças pode ser feito. Não estamos mais falando de uma escola com metodologias ultrapassadas aonde a criança chegava, sentava-se na sua carteira e começava a tirar a matéria do quadro-negro, somente escrevendo linhas e mais linhas mecanicamente.

A educação 4.0 mudou a forma de enxergarmos o ensino-aprendizagem. Novas ferramentas e recursos educativos são produzidos todos os dias para que a educação possa ser ensinada da forma mais lúdica e lógica possível. É preciso despertar a curiosidade e a admiração das crianças na sala de aula.

Fazer um momento em que todas as criancinhas juntas possam assistir a desenhos animados educativos com músicas, vozes de animais, heróis, príncipes e princesas, dragões, duendes etc.

Toda criança gosta de assistir esse tipo de filme. Mesmo aquela que ainda continuar chorando ou inquieta por alguns dias deverá receber atenção especial do professor, pois poderá estar passando por algum problema de emoção que não consegue dizer o que é para ninguém, nem mesmo para os pais que acham ser apenas falta de costume de ir à escola quando, na verdade, pode ser algo mais profundo que necessite de investigação de outro profissional.

Levar às crianças para um passeio pelo jardim da escola se esta tiver um, plantar com elas mudas de árvores, convidá-las para ficarem quietinhas ouvindo o som da natureza talvez possa acalmá-las um pouco. É claro que a maioria dessas crianças nos primeiros dias de aulas precisará da companhia dos pais, mas depois essas mesmas crianças perceberão que as outras conseguem ficar sozinhas na escola e passam a querer ficar sozinhas também começando a despertar a autonomia.

Com as crianças maiores e que já sabem ler e escrever, recomendo que os professores elaborem cartinhas de afeto diferentes para cada um dos seus alunos. Eu sempre fiz isso com os meus.

Cartinhas que dialoguem com a experiência de mundo, da comunidade, do lugar onde essas crianças residem e ao mesmo tempo sejam um convite para a busca do conhecimento. As cartinhas são uma forma de demonstrar carinho e atenção para com a criança, colocando-a dentro de um envelope com remetente e destinatário. Se o professor quiser inventar um remetente fictício também poderá fazer isso. Nas minhas cartas eu sempre era a Fadinha Carmelinda, uma fada de 3.537 anos que adorava crianças.

Eu me lembro bem que na volta das férias escolares quando estudava o ensino fundamental II, a professora mandava a gente escrever uma redação sobre as férias. Acho que isso ainda existe em algumas escolas do nosso país, e se o exercício for feito com um pouco de reflexão e criticidade por parte dos alunos exercitar a produção textual será maravilhoso como também pedir para que ele crie um gibi, um poema, uma carta ou outra forma de mostrar como foram as suas férias também será uma ideia brilhante.

Até mesmo nas escolas que dispõem de computadores, o professor pode solicitar uma pequena animação dos alunos contando dos melhores momentos das férias. Vai valer a pena! Todo exercício mesmo que seja dos tempos dos nossos avós sendo trabalhado com outra didática e novos recursos pode ser prazeroso para o aluno e para o professor.

Também é uma boa ideia ficar na porta da sala de aula e receber cada criança com um abraço forte dando-lhe um poema ou uma lembrancinha que ela possa guardar para lembrar do seu primeiro dia de aula. As crianças e os jovens gostam de poemas quando são estimulados desde a educação infantil com este gênero. E aqui entro nos jovens do ensino fundamental II que adoram poemas de amor quando estão começando a despertar para as primeiras paixões bobas da juventude.

Se a sua escola não tem brinquedos, não tem jardim, não tem computadores, professor não fique triste. Use da sua criatividade e com cartolinas e cola faça desenhos de bichinhos, árvores, sol, casas e outras coisas que gostar e cole nas paredes velhas da sua escola. Traga o jardim para dentro da sua sala de aula.

Coloque um tapete seu, sim, traga um da sua casa porque se for esperar pela secretaria de educação para comprar um nunca poderá se sentar com os seus alunos no chão num lugar confortável. Um tapete onde caiba todos os alunos e você, professor.

Faça sempre esta roda de conversa e use perguntas que incentivem a criatividade dos seus alunos. Faça-os pensar além do supérfluo, além do que eles conhecem, faça-os despertarem para a metafísica das coisas.

Eu sei que nesta altura do campeonato não dá tempo para leituras, mas se puder ler um livro do professor e filósofo Paulo Freire será muito bom para aprender a como acolher os seus alunos em sala de aula. Recomendo duas obras dele importantes “Pedagogia da esperança” e “Pedagogia da autonomia”. Tenha empatia pelos seus alunos, deixe-os serem autônomos e respeite os conhecimentos de mundos deles sempre apresentando uma didática que os façam refletir sobre o conhecimento de dentro e fora da escola.

Não existem dois mundos na educação das crianças e dos jovens. É preciso criar um só mundo quando esses alunos chegam na escola cheios de vontade de aprender algo que possa ajudá-los no bem-viver. Somente jogar conhecimento goela adentro vai ser cansativo e mesmice.

O bom é que o ensino-aprendizagem traga sempre um novo conhecimento que o aluno possa utilizar no seu dia a dia. Assim, ele saberá que o conhecimento é algo prático e necessário para o seu crescimento como cidadão e como aluno.

Gostaria, também, de pedir aos pais que conversassem com as suas crianças sobre o valor que tem um professor e do quanto ele necessita ser respeitado e amado. Que os pais possam mostrar às crianças da importância do professor para a sua vida estudantil e que todo ensino dado em sala de aula deve ser prestado atenção, falar com cordialidade com o mestre, respeitar os horários das aulas e o principal, não colar nas avaliações. Cada mestre é um ser que está ali para transmitir não só conhecimento, mas para ser amigo e até mesmo um confidente.

Que alunos cuidem dos seus materiais escolares, mas também cuidem das instalações físicas da escola e saibam que em tudo é preciso limites. A volta às aulas deve ser cheia de alegrias e por isso os alunos devem chegar motivados e com sorrisos nos rostos e cheios de vida para adquirirem mais conhecimentos durante o ano letivo que se inicia.

Assim, esses alunos devem abraçar os seus professores e os outros profissionais da escola demonstrando atenção para com eles fazendo perguntas sobre as suas férias, como se sentem, e o que podem fazer para melhorarem as suas aptidões estudantis e darem orgulhos aos seus professores.

Agora, vamos falar de acolher as crianças e os jovens que já conhecem a escola e estão cansados daquelas aulas monótonas que não ensinam quase nada para as suas vivências, que o professor não se preocupa em saber como foi o seu ontem, a sua noite de sono, como estão sendo os seus dias e como está se sentindo ali não vai despertar curiosidade em ninguém.

As crianças e os jovens estão cansados do ensino-aprendizagem que somente transmite conhecimento sem reflexão.

Um bom acolhimento é fazer com que a primeira semana de aulas possa ser diferente, ou seja, nada de matérias novas para tirar do quadro, mas filmes para serem assistidos e debatidos, palestras sobre assuntos do interesse dos seus alunos, declamação de poemas, competições de jogos educativos etc. Os alunos necessitam de motivações em sala de aula.

Conheço professores que bem as aulas não começaram e já estão passando testes e seminários, marcando datas de provas. Parece até que estão querendo testar as emoções dos seus alunos. Quando você recebe uma visita em sua casa vai logo mostrando para ela as coisas feias que existem nela ou as procura esconder?

As crianças estão cansadas de professores ranzinzas. Dê um chocolate para cada aluno seu no primeiro dia de aula acompanhado de um desenho ou de um gibi, quem sabe até mesmo de um cordel. Faça a diferença, professor. Seja a diferença para os seus alunos.

Seria maravilhoso se cada jovem nos primeiros dias de aulas recebesse um pequeno livreto de quadrinhas ou tercetos dedicados para eles por algum autor convidado da escola. Também seria uma grande ideia que cada jovem pudesse receber um poema minimalista falando da sua comunidade, da sua cultura, do seu povo.

Há infinitas ideias, professor, basta colocá-las em prática. O que não podemos é fazer dos primeiros dias de aulas algo monótono e cansativo para nós e para os nossos alunos. A melhor didática não é aquela que está nos livros de pedagogia, mas a que o senhor aprende em sala de aula através das suas vivências.

Outra ideia bastante interessante é fazer um mural de artes visuais dos alunos onde eles possam pintar o que quiserem ou quem sabe um mural de recados onde eles possam escrever sobre os seus sonhos, expectativas, experiências, rotinas do dia a dia, ou seja, onde eles possam desabafar as suas angústias e alegrias.

A gente não perde a autoridade quando compartilha com um aluno os nossos momentos, mas ganha-se um amigo. Quem sabe abraçar no acolhimento também sabe contar segredos que só as joaninhas ou os grilos conhecem de nós. Procure fazer momentos de humor com os seus alunos, professor, fazendo-os rir com anedotas e causos interessantes. Também é uma boa forma de despertar para o pensamento crítico.

A nossa educação brasileira anda doente, eu sei. É difícil ter empolgação com salários baixos e desvalorização da profissão, mas os alunos não têm culpa disso.

Nós, professores, ensinamos porque amamos. Poucos fazem da profissão de professor apenas um emprego.

Que possamos acolher os nossos alunos neste novo ano letivo de uma forma que eles se sintam felizes, motivados, curiosos e com vontade de aprenderem coisas novas porque sabemos que só a educação pode mudar o rumo desse país.

Quero aproveitar a oportunidade para pedir que professores, coordenadores, orientadores educacionais, merendeiras, serventes e outros profissionais também sejam bem acolhidos pelos diretores e secretarias de educação e que possa ser feito um trabalho de recepção carinhoso e cuidadoso com quem vai cuidar do futuro das nossas crianças.

Que esses professores que estão voltando das férias e os novatos possam sentir que a escola não é somente um lugar de trabalho, mas um lugar onde ele tem amigos e alunos que os amam independente da sua vida lá fora. Deixemos de fofocas e de intrigas porque lidamos com gente e essa gente brasileira está cansada de mendigar afeto e cuidado.

Chega a hora de aprendermos a valorizar a equipe escolar das nossas crianças e jovens, inclusive este recado vai para os pais e responsáveis que podem fazer um afago também aos nossos professores, mandando-lhes flores ou lembranças que marquem o momento do acolhimento. Afinal, amor nunca é demais e é sempre necessário demonstrar que se ama.

Muitos professores que estão voltando das férias continuarão com as mesmas turmas, logo já conhecem os seus alunos e pais, nada melhor do que uma reunião na primeira semana de aulas para conversarem sobre a comunidade e os problemas de dentro e fora da escola que terão de enfrentar assim como o acolhimento do professor que está ali em mais um ano letivo para não somente transmitir conhecimento para a sua criança, mas para ensiná-la a crescer internamente e externamente aprendendo a enfrentar os desafios do mundo lá fora.

Termino este meu acolhimento de hoje, sim, porque para mim hoje começam as aulas e que eu possa ter um ano letivo maravilhoso ao lado de todas as crianças e jovens do Brasil, com o poema do meu eterno e maravilhoso professor e filósofo Paulo Freire intitulado “A escola é” que nos diz

“E a escola será cada vez melhor / Na medida em que cada um se comporte / Como colega, amigo, irmão. / Nada de ‘ilha cercada de gente por todos os lados’ / Nada de conviver com as pessoas e depois, / Descobrir que não tem amizade a ninguém. / Nada de ser como tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só.”

Então, professores, nada de ser tijolos, mas quem sabe flores para acolhermos as sementes que estão a chegar com o nosso afeto e cuidado que não aprendemos nos bancos das academias universitárias, mas nos rostinhos cheios de vontade de aprenderem e receberem um pouco de atenção e conhecimento da nossa parte.

Assim se faz a escola, ou seja, com professores cheios de vontade de ensinar e alunos que também estão cheios de vontade de aprender. E viva a educação brasileira porque acredito que, apesar de tudo, somos os melhores professores do mundo!

Autora: Rosângela Trajano

Pacificação e anistia?

Pacificação, sim; anistia não. Não há, aí, nenhuma contradição ou paradoxo, apenas uma necessária e imprescindível complementação.

Eis que temos um novo governo. Creio que o adjetivo novo, aqui, até seria desnecessário, pois o Poder Executivo nacional estava acéfalo a muito tempo – tanto que o governante de fato, há muito, era o presidente da Câmara dos Deputados. Poderíamos, assim, simplesmente dizer que agora temos um governo. Porém, formalmente, temos um novo governo.

Embora o fato do governante anterior praticamente não governar, ele mantinha muito apreço ao cargo e as benesses que o cargo lhe assegurava. Assim, a manutenção do cargo seria a garantia de que os benefícios de toda ordem seriam mantidos para o presidente de plantão e para a sua família.

Para mantê-lo, fez de tudo; mas de tudo mesmo: desde o uso jamais visto da máquina pública durante e para o processo eleitoral, como a manutenção e intensificação do discurso de ódio, provocando e incentivando seus seguidores ao enfrentamento dos adversários, inclusive com o uso da violência física, como jamais visto em um processo eleitoral.

Em que pese tudo isso, como resultado, tivemos a eleição de um novo presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva.

No emocionante cerimonial de posso de Lula e Alkmim, que aconteceu nesse primeiro de janeiro, não faltou simbolismo e emoção. Talvez o principal momento tenha sido a entrega da faixa presidencial que chegou ao peito do presidente apenas após passar pelas mãos de diversas pessoas, simbolizando a representação do povo brasileiro. Foi impossível não chorar – confesso.

Porém, veio da multidão presente uma pequena, porém muito significativa manifestação, que ecoou de forma muito clara e explicita durante o discurso presidencial: “SEM ANISTIA”. De forma imaginativa é possível concluir que a expressão dizia que “nós, povo brasileiro, que na sua maioria te elegemos, não queremos que sejam anistiados aqueles que nos impuseram longos anos de submissão horrenda e odiosa, sob um regime fascistóide e opressivo, que matou ou deixar morrer…”

Sem perder tempo, parte da mídia tradicional reagiu procurando identificar uma suposta contradição ou até um paradoxo entre uma busca de pacificação da nação, por parte do novo governo, com a necessidade de processamento e punição dos responsáveis pela prática de crimes praticados contra o povo, as instituições, o regime da democracia e o estado de direito, por quem quer que os tenha praticado. Tal relação, entre pacificação e uma pretensa anistia, quer fazer entender que uma não anistia seria contraria a busca pela pacificação; construindo assim, uma falsa dicotomia.

Ora, a democracia moderna, formada tanto pelo voto popular, como pela instituição de direitos e liberdades individuais e coletivos inalienáveis não subsiste com a busca de sua extinção. Dito de outra forma, não é democrático e, portanto, permitido, a busca da destruição da própria democracia; assim como não é lícito um governo agir contra o seu próprio povo. Portanto, quem agiu ou age assim, precisa ser responsabilizado.

Não se pode confundir, seja por equívoco ou má-fé, responsabilização com vingança. A vingança seria a manutenção do mesmo processo de ódio que se pretende superar; a responsabilização é necessária e indispensável para a reconstrução e manutenção da própria democracia e de um Estado em que o governante governe sob a égide das leis e para o bem de seu povo.

Também é necessário compreender que como contrabalanço para exageros e crimes que podem ser praticados por eventuais governos pretensamente totalitários, a democracia moderna criou instituições responsáveis por ajudar na proteção daqueles direitos e liberdades individuais e coletivas indisponíveis.

É preciso lembrar que os tempos de trevas que agora se pretende superar, é resultado não apenas de uma onda populista-fascista que atinge grande parte do mundo, mas também de ações e omissões de instituições inerentes de nossa democracia moderna, também chamada de democracia liberal.

Não podemos esquecer que tais instituições, como significativa parte dos meios de comunicação tradicionais, também foram responsáveis pela produção de informações falsas ou distorcidas – que atualmente se chama de fake News – produzindo um senso comum de desinformação, aversão à política e a participação das pessoas no espaço público, abrindo um enorme flanco para o ingresso e a sustentação de propostas políticas populistas-fascistas, cujos resultados são por todos conhecidos.

Diferente não é com outra instituição fundamental para a democracia, que é o Poder Judiciário. Como exemplo, basta ver o processo totalmente ilegal praticado (com o conhecimento e a conivência de todas as instâncias superiores) contra o ex e atual presidente Lula, num verdadeiro processo judicial-político, atualmente identificado por lawfare, que é o uso da justiça para a perseguição de adversários políticos.

Portanto, além da responsabilização – sem anistia – das pessoas que praticaram crimes contra a democracia, o Estado brasileiro e seu povo, também é necessário rediscutir o papel e a ação de instituições que fazem parte e que tem a responsabilidade de auxiliar na manutenção e fortalecimento da democracia, como a imprensa, o Poder Judiciário e outros.

A democracia se faz com pessoas e instituições coletivas e essas, como aquelas, precisam compreender que as grades protetoras da democracia precisam ser permanentemente observadas e reforçadas, para que não sejam voluntária ou involuntariamente fragilizadas, abrindo espaços generosos para o ingresso de propostas que, sob o argumento de salvar a nação e seu povo, tem apenas a real pretensão de se utilizar dela a qualquer custo: seja a destruição da democracia, seja em prejuízo de seu povo.   

Portanto, pacificação sim; anistia não. Não há, aí, nenhuma contradição ou paradoxo, apenas uma necessária e imprescindível complementação.

Autor: Edson Luís Kosmann

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