Início Site Página 140

Tempo contado ou tempo bem aproveitado?

Se há o tempo contado (Chronos), o do relógio, que nos impõe prazos que nos cobra e por vezes escraviza, há o tempo da oportunidade (Kairós), o tempo em que desfrutamos de qualidade.

Todo início de novo ano é oportuno que falemos de tempo. Todavia, não pretendo cair na vala comum daqueles que se limitam a queixar-se da falta de tempo, e vou explicar o porquê.

A mitologia influente no ocidente é a Greco-Romana, e é nela que encontramos o mito do deus Chronos, o qual, segundo uma profecia, um dia seria tirado do poder por um de seus filhos. Temendo isso, cada vez que um filho nascia ele o engolia. Quando o sexto filho (Zeus) nasceu a mãe enganou Chronos dando-lhe um pano para que engolisse. Uma vez adulto, Zeus – o sobrevivente –  deu uma poção ao seu pai e este vomitou todos os outros filhos, libertando-os e perdendo seu poder, cumprindo-se assim a profecia. Mais tarde Zeus teve um filho chamado Kairós.

Você já reparou que o instrumento chamado cronômetro (o qual serve para a medição do tempo) tem, na etimologia o nome do deus Chronos? Sempre que falamos em tempo somos compelidos a pensar neste contado em segundos, minutos, horas, dias, anos… como se fosse a única possibilidade.

Pergunto: se Chronos representa o tempo implacável – aquele que não perdoava os próprios filhos- então, por que se compadeceria de nós pobres mortais? É aqui que proponho a reflexão, pois os gregos tinham também outra definição de tempo. Para eles, o tempo Kairós era aquele que referia-se a um momento indeterminado em que algo de especial acontece, o tempo da oportunidade.

Veja a animação: Tempo Kairós x Chronos

Então, se há o tempo contado (Chronos), o do relógio, que nos impõe prazos que nos cobra e por vezes escraviza, há o tempo da oportunidade (Kairós), o tempo em que desfrutamos de qualidade.

Quem já não percebeu que, em situações desconfortáveis, de sofrimento ou de tédio, o tempo parece não passar nunca? E, do contrário, quando estamos em momentos agradáveis tudo parece passar tão rapidamente? O que precisamos aprender é como equilibrá-los, ou, em linguagem burocrática, como administrar o (s) tempo (s).

O homem filosofa sobre o tempo desde a antiguidade, basta lermos Sêneca (4 a.C) em sua obra ‘Sobre a brevidade da vida’ ou Cícero (106 a.C) em ‘Saber envelhecer’ que veremos tamanha sabedoria que parecem ter sido escritas nos dias atuais.

Também da antiguidade temos esta pérola bíblica em Eclesiastes: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz”.

É com esta mensagem que deixo meu desejo de que em 2021 possamos valorizar mais nosso tempo e aproveitar as oportunidades que se nos apresentem. Feliz Ano de 2021!

Chronos é o tempo do relógio, linear, que se vive no dia a dia. Kairós é o tempo próprio, totalmente presente, um momento de plenitude. Kairós é o tempo vivido com entrega, que afasta o caos atrai a felicidade. Assista e descubra em qual tempo você vive.

Também pode ver as Três Percepções sobre o Tempo (Cronos, Kairós e Aion)

Autor: César A. R. de Oliveira

Edição: Alex Rosset

O Combate a Intolerância Religiosa no Brasil

O Estado laico não é um estado ateu ou contra as religiões. Pelo contrário. O poder executivo, legislativo e judiciário precisam trabalhar para defender o direito das pessoas terem ou não uma religião, e as instituições religiosas seu direito de culto.

Em todos os anos,  21 de Janeiro é uma data de reflexão e de atividades no combate nacional ao combate a intolerância religiosa no Brasil. A data foi instituída durante o governo petista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi instituído no ano de 2007 pela Lei nº 11.635 em homenagem à mãe Mãe Gilda, Iyalorixá que sofreu intolerância religiosa e racismo religioso.

Assista ao vídeo: Racismo permeia a intolerância religiosa no Brasil

A prática da intolerância religiosa não é exclusiva de um grupo religioso. Historicamente, as ramificações religiosas têm dito dificuldade em exercer a sua liberdade religiosa. Não foram raros os momentos em que terreiros de Candomblé e Umbanda, e Centros Espiritas foram fechados pelo poder público, acusados de charlatões e curandeirismo. Evangélicos têm suas bíblias queimadas ou são apedrejados e os católicos suas imagens quebradas.

Entretanto, sem dúvida nenhuma o grupo que mais sofre discriminação pelo seu credo religioso são as religiões de matriz africana.  As lideranças deste segmento religioso relatam que seus terreiros são invadidos e destruídos, evitam sair de branco pelas ruas para evitar chacotas ou agressões físicas, e muitos vídeos, artigos de jornais e revistas que os associam com práticas demoníacas.

Outro ponto de reflexão do dia 21 de Janeiro é a defesa da laicidade. O Estado laico não é um estado ateu ou contra as religiões. Pelo contrário. O poder executivo, legislativo e judiciário precisam trabalhar para defender o direito das pessoas terem ou não uma religião, e as instituições religiosas seu direito de culto.

De acordo com o artigo quinto da nossa Constituição, o Brasil não possui religião oficial e não pode privilegiar um grupo em relação a outro. É responsabilidade dos políticos brasileiros evitar proselitismo religioso nas repartições públicas.

Contudo, no Brasil, não levamos a sério a questão da laicidade. Temos a formação da bancada evangélica, concessão pública de rádio e tv para grupos religiosos, feriados religiosos, ensino religioso confessional, partidos religiosos, financiamento público em eventos religiosos, projetos de lei de inspiração religiosa, momentos oracionais em escolas públicas, crucifixos nas câmaras dos deputados e no poder judiciário, dentre outros problemas.

Faz-se necessário de mais criação de comitês, secretárias, conselhos com o ajude na formulação de políticas públicas para o combate a intolerância religiosa.

São poucos os estados e municípios que possuem em seu arcabouço institucionais tais estruturas. Dialogar com as lideranças religiosas, centros universitários, e outros segmentos não religiosos é fundamental para vencer está batalha.

Os principais líderes religiosos do país refletem sobre a questão do preconceito. Referências para o budismo, o judaísmo, o protestantismo, o catolicismo e outras religiões compartilham suas visões sobre como enfrentar a intolerância e construir uma sociedade mais pacífica e igualitária. Veja a reportagem: Intolerância e fé no Brasil

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis

Edição: Alex Rosset

Falta Oxigênio no Pulmão do Planeta

Seria irônico se não fosse trágico: no pico desse flagelo geral que é o novo Coronavírus, falta oxigênio no coração da Amazônia, o pulmão do planeta.

As cenas da pandemia Covid-19, em Manaus e em outras cidades da região norte, lembram os filmes de terror de Alfred Hitchoock ou os livros de suspense de Agatha Christie. O sistema de saúde colapsou: faltam leitos, falta espaço, falta pessoal e falta oxigênio!

Os vivos, familiares, médicos ou enfermeiras, tropeçam com os cadáveres pelos corredores dos hospitais. Os corpos são guardados em contêineres, na fila por sepultamento.

Assista para entender o caos em Manaus.

As agências funerárias e os cemitérios não dão conta desse fluxo sem precedentes de falecimentos. A disputa pelos galões de oxigênio é questão de vida ou morte. Quando aparece um novo carregamento de galões abastecidos, os parentes das vítimas correm com eles às costas, numa desesperada tentativa, quase sempre vã, de chegar antes da “foice” mortal e implacável.

Trava-se outra disputa à porta do hospital, desta vez pelo direito ao atendimento. Boa parte dos contaminados sequer chega a se deslocar para o centro de saúde, vindo a falecer no interior da própria casa. Por outro lado, dezenas de pacientes são transferidos para unidades de saúde de outras capitais.

Ironicamente, a Venezuela, um dos países mais criticados e vilipendiados pela seita fanática do Messias, se oferece para socorrer-nos com o envio de um carregamento de oxigênio.

Clama aos céus o grito silencioso, e por isso mesmo mais estridente, de quem luta por respiro e vida! Seria irônico se não fosse trágico: no pico desse flagelo geral que é o novo coronavírus, falta oxigênio no coração da Amazônia, o pulmão do planeta.

Desnecessário repetir o desfile de erros perversos cometidos pelas autoridades municipais, estaduais e nacionais, entre os quais ganham destaque o deboche e o desdém, a indiferença e o menosprezo ao poder letal da doença.

Desnecessário também lembrar, uma vez mais, que o general Eduardo Pazuello, titular do Ministério da Saúde – cargo que ocupa devido à sua especialidade em logística – em viagem a Manaus simplesmente não levou em conta o fato de que urgia repor os estoques de oxigênio.

Desnecessário, ainda, seguir alertando para outro vírus, o do cinismo quanto às recomendações científicas e quanto à medicação imprópria da cloroquina. O comportamento ostensivo exibido por ninguém menos que o presidente Bolsonaro estimula as pessoas a descumprirem as medidas sanitárias de isolamento social, uso de máscara, etc.

O resultado negativo e nefasto é que Manaus (sem contar as outras cidades do Amazonas e de outros estados da região norte) se converteu numa caricatura macabra do que ocorre no restante do país.

Certo, a vacina já pousou em terras de Santa Cruz, e essa é uma boa notícia. A notícia nada confortadora é que, no que diz respeito aos diversos imunizantes por todo mundo, o Brasil colhe os frutos de uma diplomacia gratuitamente agressiva e desastrosa.

Por uma parte, a única vacina em território brasileiro é CoronaVac, produzida conjuntamente pelos institutos Sinovac, da China, e Butantan, de São Paulo. Mas os insumos para a continuidade da mesma devem ser importados da China. Além disso, a vacina da universidade Oxford, a AstraZeneca, na qual o governo apostou todas as fichas, é produzida no laboratório da Índia.

Por outra parte, enquanto o governo da China vem sendo sistematicamente maltratado por uma diplomacia amadora, ideologizada e irresponsável, o governo da Índia, por sua vez, não contou com o apoio do Brasil justamente sobre uma questão de quebra de patente nessa área da saúde pública.

O clã Bolsonaro e o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) parecem se divertir em achincalhar os dois países de maior população mundial.

Resulta disso um efeito triplo: do ponto de vista da saúde, agora os brasileiros sofrem atraso na chegada de vacinas e insumos, talvez como consequência de uma relação bilateral marcada por atritos inconsequentes; ainda do ponto de vista sanitário, ambos os países em questão – China e Índia – têm sobre os ombros a imensa tarefa de imunizar suas populações antes de olhar para fora de casa; do ponto de vista da retomada econômica, a administração brasileira compromete desnecessariamente o intercâmbio comercial com dois parceiros de peso incontestável.

Haja paciência e esperança!

Caos no Amazonas: depois de Manaus, interior sofre com a falta de leitos.

Autor: Pe. Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

A ciência é um dom de Deus

 O importante é sermos imunizados o quanto antes. Não se pode brincar com a vida.

Finalmente, chegou o grande dia. Duas das vacinas desenvolvidas para o combate ao novo Coronavírus foram aprovadas pela ANVISA. Minutos depois da aprovação, São Paulo saía na frente, vacinando a primeira pessoa no país. Independentemente do marketing político, aquele gesto trouxe esperança a milhões de brasileiros.

No dia seguinte, vacinas foram distribuídas pelo ministério da saúde para todos os estados. E cedendo à pressão dos governadores, o ministro anunciou que a vacinação começaria no mesmo dia e não dois dias depois como havia sido programado.

Era de se esperar que toda a população brasileira celebrasse a chegada das vacinas! Porém, a onda do negacionismo deixou um rastro que impediu que muitos vislumbrassem o valor de tal proeza.

Da parte do governo federal não há qualquer esforço para conscientizar a população a se vacinar. Pelo contrário, além de enfatizar o fato de não ser obrigatório, o presidente ainda faz questão de inculcar dúvidas acerca de supostos efeitos colaterais, incentivando as pessoas a preferirem recorrer a um tratamento precoce com remédios sem qualquer comprovação de eficácia. Não há interesse em vacinar a população, visto que isso representaria um enorme gasto aos cofres públicos.

Fake News se espalham pelas redes sociais, principalmente em grupos de whatsapp. E para completar, pastores que aderiram à onda negacionista e antivacina, usam seus púlpitos e redes sociais para dissuadir os fiéis a tomarem a vacina, alegando, entre outras coisas, que não houve tempo suficiente para as que vacinas comprovassem sua eficácia. Soma-se a isso as teorias da conspiração que dizem que as vacinas vão alterar o DNA humano e associam à marca da besta do Apocalipse.

Como enfrentar esta onda negacionista? Como persuadir as pessoas a serem vacinadas?

Em meio a uma pandemia assassina transmitida pelo contato social, o Brasil acaba gastando tempo precioso para enfrentar o naco de negacionistas que coloca em risco a si mesmos e aos outros. Toda vez que a realidade o desmente, ele se adapta e joga a culpa em outro.

Lembre-se que não se trata apenas de proteger o indivíduo de um eventual contágio pela COVID-19, mas também de proteger toda a sociedade. Se a vacinação não atingir a um percentual significativo da população, sua eficácia não alcançará o resultado esperado, permitindo que a pandemia siga sua marcha destruidora. E aí, os negacionistas tripudiarão, alegando que tinham razão desde o início.

Fico imaginando como foi que Moisés conseguiu convencer a todos os hebreus a espargirem o sangue de um cordeiro nos umbrais de suas portas para que ficassem imunes ao anjo da morte que passaria pelo Egito ceifando a vida de todos os primogênitos (Êxodo 12:1-13). Aquela foi a primeira imunização em massa da história. É claro que não se tratava de uma vacina. Mas o paralelo entre o que ocorreu naquela ocasião e o que está ocorrendo em nossos dias é inevitável.

O anjo da morte que está visitando os lares de toda a população mundial é a COVID-19. E o equivalente ao sangue do cordeiro espargido nos umbrais das portas é a vacina, seja ela qual for. Moisés disse que quem não tivesse um cordeiro, poderia lançar mão de um cabrito. Da mesma forma, se não nos for possível recorrer a uma vacina como a da Pfizer que tem mais de 90% de eficácia, recorramos a uma da Oxford/FioCruz que tem 70% ou a uma CORONAVAC do Butantan/Sinovac que tem pouco mais de 50%.

O importante é sermos imunizados o quanto antes. Não se pode brincar com a vida.

Naquela fatídica noite, o anjo da morte passou, Somente os primogênitos dos hebreus foram poupados. Não por serem hebreus, mas por causa do sangue espargido nos umbrais das portas.

O anjo da morte não faz distinção entre hebreus e egípcios. A única coisa que ele respeita é o sangue do cordeiro. De maneira análoga, o vírus não respeita distinções étnicas, culturais, religiosas, sociais ou de qualquer outra natureza. De acordo com a ciência, só há uma maneira de combate-lo: A VACINA.

Já pensou se algum negacionista da época resolvesse inventar um tratamento precoce? Que trabalheira Moisés teria para desfazer o estrago feito pela disseminação dessa mentira.

Os próprios cientistas, diretores da ANVISA, deixaram claro que não há alternativa terapêutica comprovada pela ciência.

Portanto, só nos resta uma esperança quanto ao fim desta pandemia que já ceifou a vida de mais de dois milhões de pessoas (210 mil somente no Brasil). Esta esperança é a vacina.

Sabemos que os cordeiros sacrificados pelos hebreus eram uma representação do Cordeiro de Deus, o Cristo, Aquele em quem encontramos “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:3).

Não tenho qualquer dúvida quanto à inspiração divina por trás da descoberta dessas vacinas.

Não me causa qualquer espanto o fato de terem sido descoberta em tempo recorde.

Conforme previsto nas Escrituras, a ciência está se multiplicando. O espaço entre uma descoberta e outra diminui cada vez mais. Seria devastador se tivéssemos que esperar oito ou dez anos até que a vacina contra o novo coronavírus fosse desenvolvida. Provavelmente teríamos um resultado semelhante ao da gripe espanhola que ceifou a vida de cinquenta milhões de pessoas no século passado.

Por isso, só me resta dizer: louvado seja Deus pela vacina!

E quem negar-se a tomá-la, estará tentando a Deus ao colocar em risco a sua vida e a vida de seus amigos e familiares!

Cientistas ganham espaço nas redes sociais, mas ainda é preciso crescer muito para superar a influência de grupos obscurantistas.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Defasagem do vale-refeição dos servidores gaúchos atinge níveis críticos no governo Leite

Além dos salários congelados desde novembro de 2014 e a consequente redução do perda do poder de compra em 39,53% em seis anos, os educadores(as) gaúchos também amargam um auxílio refeição extremamente defasado, de R$ 10,11.

Estudo do Dieese destaca que, até 2018, o Estado vinha realizando reajustes de acordo com o índice geral da inflação, conforme gráfico abaixo. Nos dois anos do governo Leite, no entanto, nem esta correção ocorreu.

Para compor a inflação do período seria necessário um incremento de pelo menos 8,35%, o que representaria 84 centavos a mais por dia, ou R$ 18,57 ao mês. Vale lembrar que este custo não seria repassado integralmente ao governo uma vez que o servidor(a) paga parte do VR com desconto em folha.

O Dieese também ressalta que o preço médio do almoço em Porto Alegre, de acordo com a Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador, é de R$ 34,061 (considerado o custo da refeição, bebida, cafezinho e sobremesa).

Assim, o vale conferido pelo Estado equivale a 29,7% do valor médio de uma refeição.

>> Baixe aqui a íntegra do estudo do Dieese

Enquanto isso, a cesta básica na capital registrou alta de 79,7% desde o último reajuste salarial, em novembro de 2014.

No gráfico abaixo, é possível visualizar a variação no preço de produtos selecionados. Os efeitos da inflação não são iguais para toda a população e os gastos com alimentação acabam pesando mais para os que menos ganham, já que grande parte do orçamento é gasto com alimentos.

O Dieese avalia a combinação da alta de preços, arrocho salarial e congelamento do VR como “catastrófica”, notando que ainda que a inflação fosse zero, a maioria dos trabalhadores(as) continuaria com rendimentos muito baixos para fazer frente ao custo de vida.

Vida na roça

“Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:  — Coitado, até essa hora no serviço pesado. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo”. (Poema Ensinamento, Adélia Prado)

Muitos, como eu, nasceram e viveram a infância na roça. Eu sinto orgulho de ser um filho da roça, porque a vida no “interior” me ensinou valores finos e refinados.

Na companhia de árvores frutíferas, animais, nascentes, riachos e lavouras, as pessoas que lá residem formam verdadeira comunidade. Comunidade quer dizer comunhão, integração, relação. Esta comunhão se perdeu na vida urbana atribulada e estressante.

Histórias de famílias que vivem na roça e produzem seus alimentos. Assista aqui: Família que vive no sítio e produz seus alimentos.

O tempo na cidade tem de ser um tempo ocupado. O tempo na roça segue o ritmo da própria natureza. Só agora entendi razões pelas quais meu avô paterno, um agricultor das antigas, quando dizia que, quando fora mais jovem, os anos não tinham pressa para passar e que, de repente, o tempo foi “aligeirado” também na roça. Um tempo ocupado com mais coisas para fazer tem mais pressa. Acontece que nas cidades não temos mais tempo para curtir o próprio ritmo (do tempo) porque temos muitas coisas a fazer, o tempo todo.

Roça é um lugar de fartura, mas também de muito trabalho. Iludem-se aqueles que pensam que uma “chácara” é um lugar maravilhoso sem dar muito trabalho. Para quem não pode oferecer seu trabalho, terá de ofertar dinheiro para que alguém cuide, zele e organize o ambiente, para poder desfrutá-lo lindo, aconchegante e organizado.

Não podemos romantizar o trabalho de quem cuida da terra; é preciso reconhecê-lo e valorizá-lo com a grandeza que ele merece.

Quantos, como eu, matam saudades de sua terra visitando propriedades que ainda resistem em levar adiante um estilo de vida interiorano! Colhem, no inverno abundante das frutas, o sabor de suas saudades e recordações. Visitam, no verão, matas, riachos, casas, salões comunitários, em busca de algo que um dia deixaram para trás: a simplicidade e a compaixão pela terra.

Rafael Duckur, um jovem agricultor, revela lições e aprendizagens generosas que o mesmo obtém na relação e no cultivo da terra, esperando que todos nós possamos encontrar nosso lugar nessa grande ecologia. Confira: Uma Vida Mais Gentil.

Como ilustram os versos no início desta reflexão, os valores da roça confundem-se com as necessidades mais imediatas de quem lá reside e faz de seu trabalho e suor o próprio modo de vida. Os pequenos agricultores ou camponeses ainda preservam os valores da gratuidade e da reciprocidade que aprenderam na relação com os outros, com a natureza e com o mundo.

Nem tudo na roça tem preço, mas tudo na roça tem o seu valor.

As relações com a natureza, particularmente através das semeaduras, reservam ao homem e à mulher do campo a noção do tempo, que é a noção aproximada de paciência. Quem espera colher, precisa saber esperar. Quem espera colher, precisa pacientemente acompanhar a renovação da vida em cada amanhecer e em cada anoitecer. Quem deseja recuperar a terra, precisa investir insumos, cuidados e tempo.

Só podem sentir saudades aqueles e aquelas que já experimentaram a vida da roça. Para estes, são necessárias brechas em sua conturbada agenda urbana para cultivar flores, frutas, hortaliças, chás, verduras. Não há nada mais contagiante e gratificante do que o alvorecer de vidas que dependem de terra, de ar, de água e de cuidados pacientes e permanentes.

A natureza nos permite a compreensão da própria existência. A vida na roça nos fornece importantes aprendizagens sobre os próprios desafios do ser humano. Valorizando a terra, estaremos sempre valorizando a nossa dimensão de humanidade e dignidade.

NOTA DE ADVERTÊNCIA:

“Esta reflexão, uma das primeiras publicações do site (15/08/2015), é
uma das mais acessadas e agora segue revisada, em respeito aos
leitores e leitoras. Confira a primeira versão: https://www.neipies.com/vida-na-roca/

Autor: Nei Alberto Pies

Créditos das fotos e edição: Alex Rosset

O que causa adoecimento é o descaso

“Para Rogério Giannin, que integra a atual diretoria da Associação
Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o país vive uma grande tragédia
que vem sendo tratada como se fosse uma ópera bufa. “A dimensão dessa
tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa
imensa ferida social”.



Publicado originalmente em Radis.

Como militante do movimento antimanicomial e defensor dos princípios da Reforma Psiquiátrica, o psicólogo Rogerio Giannini tem repetido que é preciso pensar saúde mental fora das caixinhas patologizantes. Para o coordenador da subcomissão de Saúde Mental e Drogas do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), muitos vêm se aproveitando da covid-19 para ampliar o alcance do poder biomédico. É por isso que se incomoda quando escuta que as pessoas estão adoecendo mentalmente “por causa da pandemia”. “Corremos o risco de voltar a legitimar um discurso medicalizante”, disse, em entrevista à Radis. Rogério parece não ter dúvidas de que nesta pandemia o que tem causado sofrimento é o descaso, o abandono, o desamparo.

No final de agosto, quando participou do 3º Encontro Virtual IdeiaSus sobre enfrentamentos ao sofrimento psíquico, o psicólogo leu um texto vigoroso em que pôs às claras “a máquina de morte que atende pelo nome de pandemia”. Acontece que dito assim, de forma banal, o termo pandemia pode soar como um fenômeno biológico — uma coisa, um conceito neutro. Mas não é. “Quando dizemos pandemia, falamos de como, frente a um determinado vírus que causa uma determinada doença que tem determinadas formas de propagação, as sociedades e governos se organizam para combatê-la. Ou não”.

Dias depois, quando conversou por telefone com a nossa reportagem, Rogério apontou o que mais está em disputa no Brasil com a eclosão da pandemia e aproveitou para saudar as iniciativas que vêm promovendo acolhimento e cuidado em saúde mental em territórios vulnerabilizados — mas demonstrou preocupação sobre como articular essas experiências com as políticas públicas e a defesa do SUS. Para Rogério, que integra a atual diretoria da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o país vive uma grande tragédia que vem sendo tratada como se fosse uma ópera bufa. “A dimensão dessa tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa imensa ferida social”.

Leia aqui a entrevista completa que faz parte de reportagem especial sobre pandemia e saúde mental a ser publicada na edição de novembro da revista Radis.

o Estado brasileiro se desorganizou muito nesses últimos anos e a pandemia escancara isso.



Você já disse que uma pandemia não é um fenômeno biológico em si, neutro ou autoexplicativo, que ela é também um fenômeno social. Pensando no recorte da saúde mental, como o Estado brasileiro se comportou?

Eu tenho a impressão de que a gente está vivendo uma quadra da vida social brasileira muito terrível mesmo. Não por causa da pandemia. Já vínhamos sofrendo uma série de desmontes nas políticas públicas, nos direitos sociais. Tudo isso foi se acumulando e, de alguma forma, a pandemia funcionou como uma espécie de contraste na radiografia, em que cada fissura fica muito mais exacerbada. É quase assim: se você quer conhecer a sociedade brasileira, você olha para a pandemia. Por isso que eu dizia que a pandemia, longe de ser um fenômeno biológico, é sempre um fenômeno da sociedade. De alguma forma, numa pandemia, você pode conhecer como uma sociedade cuida ou não cuida da sua população. Acho importante dizer que o Estado brasileiro se desorganizou muito nesses últimos anos e a pandemia escancara isso.

Mas é possível dizer que aumentou o sofrimento psíquico dos brasileiros durante a pandemia de covid-19?

Eu gosto de pensar as questões de saúde mental a partir de uma outra chave. Não acho que seja o caso de disputar o que seria sofrimento ou não. Mas não adoto uma postura de que as pessoas estão sofrendo mais porque estão isoladas, porque não têm contato ou, por exemplo, que as crianças vão sofrer porque não têm escolas. Quando falamos assim, ao mesmo tempo que parece que estamos falando de direitos sociais, acabamos dando uma certa neutralidade a um fenômeno que não é neutro. Acho que nesta pandemia, fundamentalmente, as pessoas sofrem pelo desamparo. Por acordar todos os dias e saber que ninguém está cuidando delas. Isso é um grande sofrimento. Isso, sim, talvez seja uma forma de produção social de uma angústia. Fazendo uma comparação com as cenas de um terremoto ou de um desmoronamento que mobiliza muita gente, aquelas perdas são muito tristes, mas há também uma comoção, que é uma forma de acolhimento das vítimas e de seus familiares. Isso indica para as pessoas a sua humanidade, inclusive, para aquelas que prestam ajuda. Ou seja, as pessoas são beneficiadas por uma solidariedade, algo que não estamos vendo agora — ou não estamos vendo majoritariamente. Nesse sentido é que acho que esse marcador do sofrimento está ligado muito mais a uma ideia de desamparo e de negligência — uma negligência que é reiterada um dia, dois, três, 10 dias, 30, 60, 90 dias e já estamos há 120 dias no processo de reiteração desse descaso, desse descuido absoluto.

Em relação às políticas de saúde mental, como esse desmonte se materializa? Qual o impacto da pandemia para a saúde mental?

Logo em março, a única regulamentação que sai do Ministério da Cidadania é uma orientação para continuar as internações nas comunidades terapêuticas [Portaria 340, publicada pelo Ministério da Cidadania em 30 de março e que define regras para serem seguidas pelas chamadas comunidades terapêuticas], que diz, com todas as letras, que é necessário dar continuidade aos processos de acolhimento — que, na verdade, são internações. E aí eles criam um conjunto de orientações para que as pessoas continuem internando, o que é um gigantesco absurdo. Com um certo cinismo conceitual, o documento vai dizer que o acolhimento é sempre não obrigatório, a partir da vontade expressa do acolhido, totalmente voluntário. Bom, se é voluntário, não faz sentido você criar uma portaria para manutenção dessas internações. Na verdade, numa pandemia, qualquer política sanitária apontaria, primeiro, a necessidade de acabar com as aglomerações e confinamentos. Nos casos impossíveis de acabar com o confinamento, para um grupo menor de internados, você criaria protocolos rígidos de cuidado. Mas não houve nenhum protocolo, nenhuma medida de segurança, indicando processos de desinternação, de cuidados especiais com essa população. Muito pelo contrário: as internações nas comunidades terapêuticas têm recrudescido. É um quadro infelizmente desalentador. Tudo o que é feito de interessante, de bom, é feito porque alguém resolveu fazer, não porque teve alguma orientação ministerial.

Qual o maior perigo disso?

Se a gente não tomar cuidado, a eclosão da pandemia de certo modo traz para cena outra vez um pouco do poder biomédico e dos discursos terapeutizantes. Tenho uma certa preocupação com essa patologização do fenômeno, que é a transformação de um fenômeno social em biológico, como se fosse um simples adoecimento, através de um agente biológico, no caso o vírus. Quando apenas dizemos que as pessoas estão adoecendo mentalmente por conta da pandemia, que há um risco de suicídio, de crise de angústia, “por causa da pandemia”, corremos o risco de voltar a legitimar um discurso medicalizante em relação à saúde mental e de voltar a tratar a saúde mental a partir da doença e não da promoção. É preciso fazer essa disputa contra os que aproveitam a pandemia para reproduzir e recuperar um status ainda hegemônico, digamos, que é esse do discurso biologizante e patologizante da sociedade. Mas a saúde mental tem, no seu percurso, a ideia de uma experiência que vai ao contrário disso.

E quais os principais desafios que se colocam para a preservação dos princípios da Reforma Psiquiátrica e do movimento antimanicomial?

O que a experiência da luta antimanicomial nos traz é que o que vale é a promoção da saúde, o cuidado, o acolhimento; é o cuidar das pessoas; é a liberdade. Porque os argumentos para manter internado, para manter no hospício, são muitos. Na psiquiatria tradicional, costuma-se usar o argumento de que, se o paciente tem um determinado quadro, comporta-se desse jeito, perde o controle, você o coloca em quadrados para justificar que seja internado. Esse é o movimento do tratamento segregado. E a luta antimanicomial trouxe exatamente o oposto disso: o que cura é o tratamento em liberdade. É importante para as pessoas estar de volta ao seu território e é importante que a própria comunidade e a família se transformem nesse processo. Tem a mesma lógica da pessoa com deficiência: você não fica adaptando a pessoa com deficiência para que fique parecida ao máximo com uma pessoa que não tem deficiência. Você muda o território, a acessibilidade, as tecnologias assistidas e integra essa pessoa a esse novo jeito da sociedade se organizar. É isso o que a luta antimanicomial propõe para a questão da loucura e para a questão do uso de álcool e outras drogas, a partir da política de redução de danos. A gente não parte nem para a medicação como regra universal, nem para abstinência como regra universal, mas pensa a redução de danos. E na questão dos quadros de sofrimento mental intenso, a gente pensa um tratamento em liberdade. Então, talvez a gente tenha um jeito de ler a pandemia que é diferente dos jeitos que uma determinada psiquiatria lê. Essa outra psiquiatria talvez se aproveite do quadro da pandemia para criar uma espécie de lógica em que as coisas acabam num adoecimento. Mas como eu disse no início, acho que o que realmente causa angústia, adoecimento, sofrimento e até o luto é muito mais porque essa experiência atual tem sido entendida na dimensão do desleixo, do abandono, do descaso. Essa, infelizmente, é uma marca muito poderosa que a nossa sociedade está deixando nessa pandemia. Está muito mais nesse registro do que no registro do aumento da compaixão, da solidariedade e do cuidado recíproco.

Por outro lado, temos visto uma série de exemplos de práticas solidárias, promovidas por coletivos, que valorizam o conhecimento produzido nos territórios. Qual a importância dessas experiências nesse momento? Como podemos ler isso?

Sim, aí tem as reações a isso, são reações que eu costumo chamar de “severinas” — no sentido do poema de João Cabral de Melo Neto [“Morte e Vida Severina”]. No finalzinho do poema, há um verso sobre o quanto é justo defender a vida [“E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida (…) / mesmo quando é assim pequena / a explosão, como a ocorrida; / mesmo quando é uma explosão / como a de há pouco, franzina; / mesmo quando é a explosão / de uma vida Severina”]. Eu acho que o que a gente está vendo são vidas severinas — que têm a sua beleza e vamos defendê-las. Mas acho que a gente não pode criar a ilusão de que está havendo um movimento em rede que traz a solidariedade para a pauta. Não traz. São experiências bonitas, diferentes, interessantes. É sempre bom a sociedade produzir a sua autodefesa, digamos assim, o seu autocuidado, seu cuidado comunitário. E por isso eu as considero louváveis. Mas apesar de louvar todas essas iniciativas, eu sempre gosto de me fazer uma pergunta: o quanto isso também nos conecta com as políticas públicas ou o quanto as políticas públicas são capazes de identificar essas forças? Porque acho que o objetivo das políticas públicas, principalmente da Atenção Primária, é ser uma força viva nessas comunidades, conhecendo e reconhecendo essas forças. Eu acho que, quando a gente faz esses movimentos, também é preciso conhecer e reconhecer a rede territorial de políticas públicas, numa forma de potencializá-las e desinvisibilizá-las.

De que maneira?

Em um sentido amplo mesmo: como essas experiências estão se articulando com os Centro de Atenção Psicossocial (Caps), com os agentes comunitários de saúde, com as unidades básicas de saúde, mas também com a rede do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com a delegacia da mulher, enfim, com um número grande de equipamentos sociais e da saúde que é preciso a gente continuar enxergando? Ou seja, como elas se articulam com o território, como identificam no território não só os equipamentos públicos, mas inclusive os outros equipamentos comunitários criados? Então, faço uma saudação a essas experiências que mostram uma sociedade mais viva, mas reforço a importância de fazer esse diálogo no sentido de desinvisibilizar esse SUS profundo, que é o mais poderoso SUS. De qualquer maneira, acho que isso se deve muito ao enfraquecimento do SUS como um todo. E não só do SUS, outras políticas poderiam se integrar em um momento como esse. A Rede do SUAS, por exemplo, poderia ter sido muito bem utilizada. Você poderia ter um grande movimento de mobilização contra a pandemia. Isso não houve e enfraqueceu também as relações da sociedade profundamente dividida pela cisão política que aconteceu no Brasil. É importante dizer que uma parte importante da sociedade se pôs a produzir uma contrainformação, um contracuidado. Então, em vez do cuidado, muita gente saiu na rua para dizer que não existia pandemia, virou uma disputa no seio da sociedade. E isso gerou um problema muito pesado.

Ouviu-se muito que esse é um vírus democrático, pelo fato de atingir todas as classes sociais. Qual o maior equívoco dessa frase?

Muito rapidamente a gente viu que não tinha nenhuma democracia nisso. Na verdade, o vírus em si é só um agente biológico. Mas eu entendo que chamá-lo de democrático significava dar um sentido social a esse fenômeno. Talvez fosse um sentido que a gente gostaria que fosse verdade. Ou melhor, a gente imaginou que, como as pessoas estão morrendo, ricos e pobres, a gente queria que todo mundo se mobilizasse, que fosse a hora das políticas púbicas, de fortalecer o SUS. Mas não foi o que ocorreu. E eu acho que não ocorreu porque, incidentalmente, houve esse atravessamento, a pandemia ocorre em um momento em que parece que ela confirma os últimos desmontes, o descaso, o aumento do fosso social.

É preciso recuperar a dimensão da tragédia.

E como você imagina que vamos sair da pandemia?

Costumo utilizar uma imagem de que a gente vive um grande drama, uma grande catástrofe, uma grande tragédia, mas ela tem sido tratada não como tragédia, mas como se fosse uma ópera bufa. Acho que essa dimensão da tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa imensa ferida social. Se a gente sentar em cima dela e simplesmente tentar esquecer essas dezenas de milhares de mortes espalhadas pelo Brasil inteiro e esse descaso todo, a gente não vai criar nada de bom. Vai ser mais um daqueles momentos da história do Brasil que um dia voltam, e voltam como sintoma social, como trauma. Acho que a gente precisa cuidar disso, primeiro resgatando a dimensão da tragédia. É fundamental a gente fazer esse resgate, é fundamental a memória — a gente não pode esquecer o que está acontecendo, a gente não pode acionar uma máquina de esquecimento, porque esse esquecimento vai ser mais trágico ainda do que a própria tragédia. Então, a gente precisa continuar lembrando disso. Não lembrando para remoer; lembrando para elaborar. Não é assim: simplesmente, acabou, amanhã sai a vacina, acabou, todo mundo em festa, como se nada tivesse acontecido. É muito sofrimento, muito descaso. E é uma sinalização para a sociedade, para o imaginário social, de que realmente a gente está desamparado. É uma mensagem poderosa de desamparo e a gente precisa desenvolver mecanismos para recuperar e transformar isso.

Planeta doente, terra cansada

Nas palavras de Rachel Carson (1907-1964):
“Mesmo na vasta e misteriosa extensão do mar,
somos trazidos de volta à verdade fundamental
de que nada vive para si mesmo”.


A conhecida dinâmica específica do modo de produção capitalista, em sua íntima relação com a economia linear (extrair, produzir, consumir, descartar), centrada numa visão egoísta (pois privilegia a acumulação individual) e antropocêntrica, (uma vez que coloca o homem, animal pensante, como “senhor de tudo”, inclusive sobrepujando as leis da natureza), produziu um tipo de crescimento econômico dilapidador (chamemos, assim, de “economia destrutiva”, termo que vem da geografia alemã do século 17) dos sistemas ecológicos da Terra e da biodiversidade, e agressor em potencial dos principais serviços ecossistêmicos (água limpa, ar puro, regulação do clima, polinização das flores, semeação do solo, fotossíntese etc). O que poderia ser um crescimento agregador, não fosse à voracidade mercadológica dominante e impositiva, consubstanciou-se num tipo de economia que, via sistema de preços, acaba por transformar absolutamente tudo em mercadoria, até mesmo o abominável tráfico de pessoas e de órgãos humanos – crime que movimenta anualmente mais de 30 bilhões de dólares segundo a ONU. 

Da tentativa de consolidar um modo global de produzir que não respeita limites, principalmente os ecológicos (matéria e energia), tem resultado, tout court, num intenso foco de tensão entre o sistema econômico (a tecnosfera, produção humana) e o sistema ecológico (a ecosfera, a natureza). 

Não obstante, para validar a ordem que emana do mercado de consumo (teologia do mercado), sempre recomendando políticas de crescimento econômico exponencial, a preocupação em preservar o meio ambiente e a biodiversidade simplesmente é jogada para escanteio, relegada no mais das vezes à condição de insignificância. E tudo isso, quando visto em amplitude, resulta num quadro atual bastante assustador: um planeta doente, uma Terra cansada, uma economia global socialmente desequilibrada, um retrato ecológico desanimador expresso, entre outros, na morte de espécies (assombrosamente é sabido que uma espécie desaparece por dia), e, por último, mas não por fim, uma economia dilapidada do ponto de vista social com taxas de pobreza e miséria que não param de crescer mundo afora – até 2021, 150 milhões de pessoas devem cair na extrema pobreza devido à Covid-19, recessão, conflitos e mudanças climáticas; as economias de médio rendimento terão 82% dos novos pobres do mundo, conclui estudos divulgado pelo Banco Mundial. 

O ponto de conflito aqui que precisa ser devidamente destacado é que o crescimento econômico exponencial – que não será conseguido – não resolve esse conjunto de problemas. 

Conheça algumas ideias de Mujica sobre o nosso modo de viver contemporâneo. Veja mais aqui.

O avanço econômico ininterrupto traz consigo um leque de muito mais desacertos e desequilíbrios, com destaque negativo para o descompasso ambiental, notadamente o excesso de dióxido de carbono (a cada minuto, 10 mil toneladas são lançadas na atmosfera), para citar apenas esse exemplo. Ocorre que o homem-econômico, para ter sua sede material saciada (pilar da ideia de modernidade, espécie de passaporte da civilização moderna), estreita sua relação com a natureza e, sem medir esforços, se entrega abertamente ao modo de consumo vigente nas economias avançadas. A configuração de mundo hoje, pensando na esfera do consumo global, é bem conhecida: 20% da população mundial do Norte global (a parte rica do mundo) consome 76% de toda a produção de riqueza mundial, ao passo que, do lado Sul do globo (a parte pobre), sobra apenas 24% da produção para ser “repartida” por 80% da população mundial.

O curioso é que, de um jeito ou de outro, procura-se ocultar a assertiva de que ao “alimentar” esse superconsumo (do Norte global) abastecido por uma superprodução de mercadorias artificiais (na maioria das vezes fúteis), contribui-se um tanto mais para o processo de esgotamento dos elementares serviços ecossistêmicos que, além de garantir a vida humana, ainda dá suporte à própria economia. Por isso, ousamos assim supor, Ban Ki-moon, então secretário-geral da ONU, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (em 2011) disparou em tom de alarde ao afirmar que esse “modelo” que acabamos de descrever, na verdade, é um verdadeiro “pacto de suicídio global”. De fato, parece mesmo que estamos todos propensos a esse “suicídio global” uma vez que, dentro da espaçonave Terra, como bem lembrou McLuhan, “somos todos pilotos e passageiros ao mesmo tempo, já que estamos inseridos na natureza”. 

É importante destacar isso porque realça a interligação de todos com tudo. Fato concreto é que nada existe isoladamente, tudo está conectado com tudo. Sendo bem objetivo, precisamos de todos, inclusive para a tarefa maior de erguer um mundo melhor a partir de uma economia também melhor, por isso capaz de aumentar o bem-estar das pessoas, compondo assim, ao fim e ao cabo, uma melhora coletiva. 

Nas palavras da iluminada Rachel Carson (1907-1964): “Mesmo na vasta e misteriosa extensão do mar, somos trazidos de volta à verdade fundamental de que nada vive para si mesmo”. Já na “poesia metafísica” de John Donne (1572-1631) é possível ler que “nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo”. 

Colocando todo esse rico assunto na primeira linha de debate, nosso sempre estimado Leonardo Boff assevera que “no universo e na natureza, em todas as circunstâncias, tudo tem a ver com tudo, afinal, somos todos feitos do mesmo pó cósmico que se originou com a explosão das grandes estrelas vermelhas”. Da terra tiramos nosso sustento e à terra devolvemos dejetos do processo produtivo (resíduo, poluição, matéria dissipada). É assim, tomando essa última colocação como ilustração, que age o sistema econômico global: usa e explora os limitados recursos naturais (input) e devolve lixo (output) à natureza. 

Portanto, para fazer uso aqui de uma linguagem modesta, é preciso dizer às claras que, quanto mais crescimento (econômico), mais intensa é a agressão (ecológica). E assim, fato concreto, aumenta-se a tensão entre essas duas correntes, a econômica e a ecológica. Esse processo é tão agressivo que, de acordo com estudos recentes, 60% dos serviços ecossistêmicos estão degradados. Daí a ideia corrente de que crescer física e economicamente se converteu, desde há muito, em sinônimo de poluir (no sentido amplo do termo) assoberbadamente. 

Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não existe “produção” sem “destruição”. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão maior do processo produtivo) significa “destruir”. 

Ocorre que as economias modernas, do jeito como hoje estão estruturadas, têm aperfeiçoado os mecanismos dessa “destruição”, o que implica no esgotamento em várias frentes do chamado patrimônio natural (biomassa das florestas, solo arável, disponibilidade de água etc). 

Na Carta da Terra, um dos mais importantes e sérios documentos elaborados pela inteligência humana, lê-se que “os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando”. 

Fazendo por fim uma espécie de rápido balanço geral, cabe dizer que no visor do “relógio econômico” os ponteiros marcam um crescimento destruidor da natureza. O momento, portanto, exige uma só saída: abandonar definitivamente esse modelo econômico que transformou tudo em mercadoria, antes que a bomba-relógio acabe conosco. 

DIÁLOGOS ENVOLVERDE – O desrespeito aos limites do planeta.

Presença da religião na política brasileira

O que acontece hoje no Brasil é que a fronteira entre a
religião e a política está comprometida.
As duas esferas se confundem. Resultado disso:
questionamento da laicidade, preconceitos,
intolerância religiosa, racismo religioso, dificuldade
no ecumenismo, não respeito aos direitos humanos
e autoritarismo


Desde a conquista das terras brasileiras pelos portugueses, a variável religião foi determinante para definição das questões políticas. As autoridades politicas necessitavam do apoio da Igreja Católica para justificar suas ações. Isto é, o projeto colonizador teve respaldo institucional da Igreja Católica que, por sua vez, objetivava a expansão dos seus princípios doutrinários as novas terras conquistas. 

Ao longo do período colonial e imperial, o regime de padroado foi importante para manter a aliança entre Igreja e Estado. A construção da identidade brasileira passava pela religiosidade católica que era exercida por quase a totalidade da população que aqui habitava. Aqueles que se recusassem a praticar a fé católica tinham sanções, algumas realidades até a morte. 

Com a proclamação da República e o início do século XX, a Igreja Católica não era mais a religião oficial do estado. Entretanto, isto não quer dizer que não tivesse benefícios. Culturalmente, o brasileiro era católico. Os bispos e os padres tinham muito poder de barganha com o poder executivo, legislativo e judiciário para manter benefícios as instituições católicas, investimentos públicos a hospitais, escolas, e outras obras sociais administradas por organismos católicos, e ainda impedir o avanço de outros credos e instituições religiosas (vale ressaltar que terreiros de umbanda e centros espiritas tinham dificuldades de funcionamento autorizados por serem taxados de curandeiros ou charlatões).

Ao longo do século XX, o perfil religioso do brasileiro modificou. A pluralidade religiosa é a nova realidade do campo religioso nacional. As pessoas optaram por outros credos ou também não terem vínculos institucionais com organizações religiosas. O censo realizado a cada década pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma queda do número de católicos, aumento dos evangélicos, aumento dos sem religião, e considerável aumento de pessoas que dizem ser não cristãs. O Brasil é um país diverso no tocante a matéria de religião ou religiosidade. 

As relações entre religião e política também acompanharam as mudanças do perfil religioso brasileiro. Não apenas a Igreja Católica participa da política, mas sim diversas instituições religiosas dialogam com o Estado. Cada uma a sua maneira. Destacamos aqui os evangélicos, com a formação das bancadas no poder legislativo, grupos religiosos em seus eventos posicionam abertamente sobre temas nacionais, participação em conselhos, articulação para concessão de rádio e tv, dentre outras formas. Em síntese, dificilmente o Brasil não terá como lidar com o envolvimento dos religiosos na política.

O certo seria religião e política não se misturarem. Religião é assuntos privados e Estado assuntos públicos. O parlamentar que é eleito deve governar para todos e não apenas para sua base religiosa ou a partir de seus princípios religiosos.  O que acontece hoje no Brasil é que a fronteira entre a religião e a política está comprometida. As duas esferas se confundem. Resultado disso: questionamento da laicidade, preconceitos, intolerância religiosa, racismo religioso, dificuldade no ecumenismo, não respeito aos direitos humanos e autoritarismo. 

O que a memória ama, fica eterno

Quanto mais vivemos,
mais eternidades criamos
dentro da gente.



Quando eu era pequeno, não entendia o choro solto de minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro.

O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis.

Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.

O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo.

Nós temos pressa, mas é preciso aprender que a memória obedece ao próprio compasso e traz de volta o que realmente importou, eternizando momentos.

Crianças têm o tempo a seu favor e a memória muito recente. Para elas, um filme é só uma animação; uma música, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente se despede.

Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis.

Nossos filhos são nossas crianças, os amigos estão perto, nossos pais ainda são nossos heróis.

A frase do título é de Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno”.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente.

Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi a trilha sonora de um amor, embalou os sonhos de uma época ou selou uma amizade verdadeira – e mesmo que os anos tenham se passado, alguma parte de você se perde no tempo e lembra alguém, um momento ou uma história.

Ao reencontrar Amigos da juventude, do Colégio, nos esquecemos que somos adultos e voltamos a nos comportar como meninos cheios de inocência, amor e coragem.

Do mesmo modo, perto de nossos pais, seremos sempre “As Crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos.

Para eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das histórias contadas ao cair da noite… serão sempre recentes, pois têm vocação de eternidade.

Por isso é tão difícil despedir-se de um Amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas.

Dizem que o tempo cura tudo, mas talvez ele só tire a dor do centro das atenções. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na ferida.

Mas aquilo que amamos tem disposição para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando.

Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que nos tocou pode ser facilmente reativado por novos gatilhos – uma canção cala nossos sentidos; um cheiro nos paralisa lembrando alguém; um sabor nos remete à infância.

Assim também permanecemos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex amores, amigos, irmãos.

E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.”

Ubirajara Picanço | O que a Memória Ama, Fica Eterno | Fabíola Simões

Autora: Fabíola Simões, dentista e escritora, Criadora do blog “A Soma de todos os Afetos” (https://www.asomadetodosafetos.com/)e autora de 3 livros.

FOTO: Divulgação/rede social

Veja também