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Breves notas e experiências na educação pública e popular

Em regiões esvaziadas de manifestações culturais, a escola, como espaço democrático e participativo, deve ser preenchida com música, artes visuais, projetos para cinema, rádio e tv na escola, teatro e outras práticas artísticas e comunicativas.

A convite do colega e amigo Nei Alberto Pies, decidi escrever algumas notas a respeito de minha trajetória como professor da rede pública. Sistematizar as nossas práticas e experiências faz parte do nosso autoreconhecimento e do reconhecimento social, tão importantes na vida de cada educador ou educadora.

Minha trajetória se faz de caminhos profissionais que estão indubitavelmente conectados com minhas participações em projetos socioculturais e artísticos com jovens e adolescentes em contextos urbanos e periféricos. São redações de lembranças, indispensáveis para minha constituição como sujeito que busca, incessantemente, distintos modos de olhar e interagir no mundo e com os outros.

Embora narradas em primeira pessoa, essas são histórias vividas a partir de um “eu” coletivo, povoado pelos afetos, rodeado pelas amizades com profissionais dos campos da Educação e da Cultura e pela inserção às comunidades escolares. Diante disso, não posso esquecer que estas histórias são emaranhadas com as distintas relações de poderes cotidianos e atravessadas pelas forças sociais, políticas e econômicas existentes nos locais em que atuei e ainda exerço minha função como professor.

Pode uma alma-artista se fundir com a de um professor “observador-participante”?

Passados mais de vinte anos atuando no campo da educação pública talvez seja possível vislumbrar algumas considerações a essa questão. Experiências constituídas de práticas, projetos e vivências que permitiram extrapolar as fronteiras entre a educação formal e não formal.

Como destaca Larrosa (2002), cada experiência vivida se constitui como “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta ou se prova” (p. 25). Sobretudo, experiências pelas quais aprendi, seguindo Paulo Freire, a praticar uma pedagogia da esperança que vem movimentando-me de forma coletiva e solidária no campo da educação popular. Para que possamos entender a tessitura dessa história é preciso retroceder no tempo…

Durante minha adolescência, iniciada juntamente com o fim da ditadura militar e com o processo político-social de abertura para as liberdades de expressão, flertei com a arte e com a cultura, seja no campo das artes visuais com a produção de fanzines, histórias em quadrinhos e desenhos, na formação e participação em bandas de rock ou com organização de festivais de música.

O legado daquele tempo de investimentos juvenis para transformar artisticamente o lugar onde vivia, foi o entendimento de que a arte pode se misturar com a vida de maneiras distintas.

Em meados dos anos de 1990, já vivendo em Porto Alegre, ingressei no curso de graduação em História, proporcionando-me um estágio no Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo. No Museu, exerci função em que participava dos processos de pesquisa, concepção e montagem de exposições, além de monitoramento com alunos em visitas guiadas.

Entre 1999 e 2000, organizei, juntamente com a equipe diretiva, a primeira oficina de grafite naquela instituição. A ideia para a oficina surgiu da observação e do registro dos grafites, pichações, stencils, adesivos e outras formas de arte de rua que remodelavam esteticamente os espaços da cidade de Porto Alegre.

O objetivo dessa oficina pretendeu aproximar a comunidade com o museu, visando à apropriação democrática daquele espaço cultural por meio de ações pedagógicas e promovendo a educação patrimonial. O público era composto por adolescentes e moradores do bairro Cidade Baixa, onde fica localizado o museu. Hoje, percebo o quão interessante foi aquela experiência de estágio, pois minha entrada no mundo da Educação iria se articular com os campos da Cultura, da História e das Artes.  

Em uma tarde de novembro do ano de 1999, adentrei com minha bicicleta a cidade de Alvorada, RS, na procura da escola onde iria iniciar minhas atividades como professor. Logo percebi que a prática docente em escolas da região metropolitana de Porto Alegre me inseria em outros ambientes multiculturais, onde as experiências e vivências dos alunos estão entrelaçadas com suas distintas condições sociais.

Ao professor, educador ou outro trabalhador da área social, a escuta e o diálogo contínuo, não somente com alunos, mas com a toda a comunidade escolar, é indispensável.

A implantação do programa de Educação de Jovens e Adultos EJA, na escola em que eu atuava à época, proporcionou uma riqueza de experiências. Lecionar nessa modalidade de ensino é entrar em um universo de múltiplas vivências, em que diferentes faixas etárias se encontram, possibilitando profícuos diálogos e atividades entre gerações.

Desde minhas primeiras experiências com educação pública, precisei um olhar atento, investigador, um olhar que pretende adentrar o “universo” dos alunos, pois atuamos em condições, situações e públicos diversos e multifacetados.

Em cada estudante existem mundos onde se misturam conflitos, incertezas e precariedades, mas também desejos e vontades. Muitas vezes, esses mundos são germinados através de diferentes modos de expressão pelos quais representam suas vidas.

O projeto Graffiti na Escola, realizado em 2005 na Escola Estadual João Goulart, nasceu dessa observação às ilustrações e escritas esboçadas nos cadernos dos alunos, alertando-me para o fato de essa linguagem artística fazer parte de seu cotidiano. A metodologia utilizada para execução das oficinas consistia na criação e esboços de desenhos de autoria própria dos alunos, priorizando a criatividade e, posteriormente, o desenvolvimento de técnicas de pintura em painéis, muros e paredes. As oficinas de grafite surgiram da necessidade de outras intervenções didáticas e de conteúdos extracurriculares.

Em seus cadernos, os estudantes podem esboçar medos e vontades, como aquele aluno que somente desenhava personagens com armas nas mãos. Nos muros da escola, outros projetos de vida são matizados, como aquele mesmo aluno, que após algumas oficinas, ao invés de uma arma, grafitou um microfone nas mãos do personagem.

Acredito que a poética da vida pode ser grafitada na existência dos alunos. Onde existe o cinza da realidade, o professor auxilia na mistura das cores para seus sonhos escondidos. Embora olhares de contentamento não possam ser captados em um texto, estas são narrativas de um professor que ao vislumbrar a capacidade de criação dos alunos procura instigar projetos semelhantes para ornamentar as monocromáticas superfícies de concretos das escolas.

Em regiões esvaziadas de manifestações culturais, a escola, como espaço democrático e participativo, deve ser preenchida com música, artes visuais, projetos para cinema, rádio e tv na escola, teatro e outras práticas artísticas e comunicativas.

Essa atuação cultural na educação foi enormemente favorecida pela minha participação, entre os anos de 2006 e 2010, como oficineiro, coordenador pedagógico e membro do Conselho da ONG Movimentação. Fundada no final dos anos de 1970 pelo jornalista e ativista social João Carlos Agostinho Prudêncio, o contato com esta ONG possibilitou, em meados dos anos 2000, a edição da revista escolar Construir União e Cidadania. Embora com publicação restrita, a revista exerceu uma importante função pedagógica, já que desde a captação de notícias à editoração final sua produção era realizada pela atuação conjunta entre professores, alunos e comunidade escolar.

Em 2007, preparando-me para iniciar o mestrado em Educação, participei de uma experiência riquíssima junto ao ponto de cultura De Olho na Cultura, instalado na cidade de Alvorada, RS. Vivíamos, no Brasil, um período de valorização e reconhecimento dos saberes populares, principalmente aqueles oriundos das tradições ancestrais de matriz indígena, afro-brasileira e quilombola. Não por acaso, o lema proposto pelo Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura do Brasil era o de “desesconder as culturas populares”.

Nesse contexto, em busca de legitimar as manifestações culturais e artísticas de cada comunidade, as atividades propostas pelo ponto de cultura percorreram regiões periféricas do Município de Alvorada, RS. O De Olho na Cultura desenvolveu ações de apoio a grupos culturais e artistas locais atuando como uma agência de fomento ao fazer artístico. Ao realizar parceria com escolas municipais e estaduais o De Olho na Cultura trabalhou no sentido de consolidar uma ação de organização e construção da memória cultural da cidade. As atividades envolviam a criação e manutenção de oficinas de música, artes visuais, dança, teatro e cineclube.

O Grupo de teatro Terreira da Tribo intensificou as ações do ponto de cultura. Encenada a céu aberto, o espetáculo A Saga de Canudos apresentava uma peça teatral ambulante e diferente das performances cênicas executadas de forma tradicional. Atores e população pareciam se fundir; a rua se transformava em palco. Na interação entre a comunidade e a arte a participação popular era mais que democrática, possuía função libertária, transformando a peça em experimento artístico e público como condição estético-política para outros modos de atuação social e comunitária.     

Entre os anos 2013 e 2014, preparando-me para iniciar um doutorado em Educação, assumi a coordenação do PROTEJO, projeto do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, PRONASCI, do Ministério da Justiça. Como já atuava desde 2010 na função de professor da Rede Municipal de Educação de Alvorada, o convite foi feito pela Prefeitura e Secretaria de Assistência Social daquela cidade, pois minhas experiências em projetos com público juvenil e periférico já eram conhecidas.

O objetivo do PROTEJO visou a formação e inclusão social de jovens e adolescentes expostos à violência doméstica ou urbana nas áreas geográficas de maior risco social. No município de Alvorada, o trabalho abrangeu as regiões conhecidas como Umbu e 11 de Abril. Com duração de um ano, o projeto focou a formação cidadã dos jovens e adolescentes a partir de práticas esportivas, culturais e educacionais, visando o resgate da autoestima por meio da convivência pacífica. Cada jovem inscrito no projeto participava no turno inverso ao escolar, recebendo uma bolsa-auxílio. O projeto foi encerrado em 2014, coincidindo com meu afastamento para dedicar-me ao doutorado.

Os contextos hoje são outros, vivemos tempos pandêmicos entremeados com uma inimaginável situação política, econômica e social caótica e complexa que atravessa o Brasil. Nossas experiências, vividas quase completamente de forma virtual, não são sentidas com intensidade suficiente para atravessar todo nosso corpo e produzir outros sentidos para existir em comum.

Diante de tantas incertezas, as práticas e projetos apresentados neste texto, muitas vezes acusados de se confinar no espaço da utopia, são lembranças de tempos em que outra educação foi possível. Seguindo a consciência biocêntrica de Ailton krenak (2020), considero que as ideias para adiarmos o fim do mundo talvez se encontrem na capacidade de trazermos para a experiência desperta as histórias de nossos sonhos. Assim como esse autor, acredito no sonho como instituição “onde as pessoas aprendem diferentes linguagens, se apropriam de recursos para dar conta de si e do mundo” (p.34).

Autor: Eloenes da Silva

Edição: Alex Rosset

Não queira ser o que não é

Ninguém é descartável por ser o que se é. Permitamos que o outro se torne aos nossos olhos como aquele que nos dê prazer. Talvez isso dependa mais de nós mesmos do que dele.

Em meio a declarações românticas recíprocas entre um rei e uma camponesa, surge a inusitada digressão abaixo:

“Temos uma irmã pequena, que ainda não tem seios. O que faremos a essa nossa irmã no dia em que for pedida em casamento? Se ela for um muro, edificaremos sobre ela um palácio de prata. Se ela for uma porta, nós a cercaremos com tábuas de cedro. Eu sou um muro, e os meus seios como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.”

No afã de explicar no que ela mesma havia se tornado, Sulamita recorre à figura de sua irmãzinha. Ninguém é o que é sem que tenha passado por vários estágios. Sulamita percebe em sua pequena irmã potencialidades que havia em si mesma. Porém, tais potencialidades não são sentenças. Ela não poderia esperar que sua irmã a recapitulasse, tornando-se uma mera cópia de si.

O fato de ainda não ter seios significa que ela estava em processo de maturação. Não ter seios hoje não significa que não os terá amanhã. O nome disso é latência. Eles já existem em potencial. Só faltam aflorar, vir à tona. O que hoje é latente, amanhã será patente. Os seios representam o aparato fornecido pela natureza para que a mulher cumprisse o propósito de sua existência, que para as sociedades antigas limitava-se à maternidade. Ela ainda não tem seios, mas um dia os terá. Daí surge a questão: Que faremos no dia em que for pedida em casamento?

Cada estágio da existência humana apresenta suas próprias demandas. Uma criança requer atenção especial, cuidados essenciais. Um pré-adolescente requer disciplina, acompanhamento, instrução. Porém, não se pode perder de vista as demandas que o futuro trará. Quem hoje nem sequer tem seios, amanhã será pedida em casamento. Quem hoje nem sequer tem pelugem na face, amanhã estará pedindo a mão de sua filha em casamento. O pequeno empreendedor de hoje, poderá se tornar no empresário de vulto amanhã. E quando isso ocorrer, as demandas serão outras. Aquele garoto rebelde traz consigo potencialidades que o tornarão um chefe de família responsável e exemplar.

Até que ponto estamos preparados para as demandas futuras? Como reagiremos quando estas se apresentarem? O que requererão de nós? A vida se apresenta imprevisível. Mesmo que não haja tantos cenários possíveis, nossas respostas se incumbirão de estabelecer os rumos que ela seguirá.

Sulamita nos apresenta dois cenários. Sua irmã poderia revelar-se um muro ou uma porta. Ser muro pode expressar uma característica de inacessibilidade. Alguém difícil de lidar, que prefere resguardar-se, sendo seletivo na escolha de seus relacionamentos. Os muros protegem, estabelecem perímetros, mas também aprisionam.

Há pessoas que desenvolveram tal característica depois de terem sofrido alguma decepção. Outras são assim desde que se entendem por gente. Não há qualquer demérito em ser muro. Temos que respeitar a personalidade de cada um. Mesmo porque, o evangelho jamais se propôs a mudar a personalidade, e sim, o caráter. Em vez disso, o Espírito Santo nos aperfeiçoa, reforçando certas características inerentes à nossa personalidade, direcionando-as ao cumprimento de Seu propósito.

Amar é acolher a pessoa tal qual ela é, sem tentar mudá-la, nem impor sobre ela nossas expectativas, sem projetar nela o que somos.

Paulo não deixou de ser colérico após sua conversão. Tampouco Pedro deixou de ser sanguíneo. Porém, ambos tiveram seu caráter transformado. Se Pedro era um muro, Paulo, sem dúvida, era uma porta. Cada um cumpriu o seu papel como apóstolo de Cristo.

Ser porta aponta para acessibilidade. Porta é passagem, entrada, acesso. Se o muro protege, a porta acolhe.

Assim como não há demérito em ser muro, não há mérito em ser porta. Cada qual tem um papel a cumprir. Todavia, devemos cuidar para dispensar a cada um o trato que lhe é devido.

“Se ela for um muro”, conclui Sulamita, “edificaremos sobre ela um palácio de prata.” Coisas de valor inestimável precisam ser cercadas de cuidado. Para isso servem os muros! Ainda que sejam pessoas difíceis de se lidar, com temperamento forte, pouco sociáveis, por vezes, introvertidas, elas servem a um propósito. Geralmente, são absolutamente confiáveis. Sabem guardar segredo. Protegem aquilo que amam. Portanto, vale a pena edificar um palácio de prata sobre elas.

“Se ela for uma porta”, prossegue Sulamita, “cercá-la-emos com tábuas de cedro.” Quem é porta costuma ser muito dado, por isso, carece de ser cercado, não no sentido de tornar-se refém, sendo privado de sua liberdade, mas no sentido de ser protegido. E repare que não se trata de um muro, mas de uma cerca. O muro é algo fixo, permanente, delimitador. A cerca de madeira pode ser removida rapidamente, adaptada, alargada. Quem é porta carece de ser protegido, mas não sufocado; precisa de cuidado, não de controle.

Sulamita termina sua participação no livro de autoria de seu amado afirmando ser ela mesma um muro:

“Eu sou um muro, e os meus seios são como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.”

Imagino que não deva ter sido fácil para Salomão conquistar o coração de Sulamita. Mesmo se apresentando como um muro, Salomão encontrou nela uma porta de acesso. Todo muro possui ao menos uma porta. Assim como toda porta precisa estar devidamente cercada. Toda armadura possui frestas, caso contrário, sufocará aquele que a veste. No final das contas, Sulamita tornou-se aos olhos de seu amado “como aquela que traz prazer.”

Portanto, ser o que se é não se constitui numa sentença.

Há potencialidades latentes que precisam ser descobertas por quem nos enxerga para além das aparências. Todos podemos nos tornar alguém que seja o motivo daquele “frio na barriga” do outro, sem que para isso tenhamos que negar nossa própria essência. Basta que descubra a porta escondida em algum lugar do muro.

Ninguém é descartável por ser o que se é. Permitamos que o outro se torne aos nossos olhos como aquele que nos dê prazer. Talvez isso dependa mais de nós mesmos do que dele. Talvez requeira tão-somente um novo olhar, ou, simplesmente, olhar por outro ângulo, parar de reclamar e aceitar o outro exatamente como ele é.

Isso se aplica não apenas ao campo dos relacionamentos, mas a qualquer outra área. Reconhecemos as potencialidades, preparamo-nos para as possibilidades e buscamos responder às demandas tais como se apresentam.

Autor: Hermes Carvalho Fernandes

Edição: Alex Rosset

Benefícios do Método Dialógico e da Crítica

“O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial” (FREIRE, 1980, p.42).

Janeiro de 2021. Um estudante recém formado no Ensino Médio, me interpelou na fila de uma lotérica. O primeiro estranhamento, da máscara, em função da Pandemia (leia também sobre Pandemia e lições educacionais. O segundo estranhamento, da abordagem.

Este estudante frequentou minhas aulas de Ensino Religioso e Filosofia no primeiro ano. Sua postura, absolutamente fechada ao diálogo, trazia elementos super, hiper e mega conservadores. Ele tinha dificuldades de dialogar e escutar, pois sempre, a todo momento, tinha algo a dizer e sempre se manifestava, sobretudo para destruir as perspectivas críticas do conhecimento e de análise da realidade.

Na turma da escola, poucos dialogavam com este jovem estudante. Ele tinha ideias muito claras e fixas. Ele tinha a solução para todos os problemas. Seus argumentos sempre vinham na perspectiva de manter o “status quo”, afirmar superioridade e justificar o insucesso na vida daqueles que não conseguiam sucesso (parecidas com as ideias defendidas pelo liberalismo). Suas ideias não eram nada complexas, não permitiam novas perguntas e novos questionamentos. As ideias eram demasiadamente simples e de rápida solução, tanto nas saídas como nas perspectivas pessoais ou sociais.

À época, conseguiu desqualificar-me, de forma descontextualizada, numa atividade pública de escola, por conta de minhas posições políticas e ideológicas (o que não vinha ao caso, naquele momento). Mas, eu pensava comigo: este menino não tem a mesma maturidade que eu, por isso, não devo confrontá-lo.

Como professor sempre atuei, e me esforço para  exercitar, a perspectiva dialógica do conhecimento, o que nem sempre é fácil. O professor pode e deve ter suas convicções e entendimentos de realidade, mas isto não lhe dá o direito de colocar estes acima da compreensão, maturidade e possibilidade de entendimento dos jovens estudantes. Deve permitir a fala dos estudantes, considerando as contradições, imaturidades e desejos de mudança que lhes são intrínsecos.

Este menino, de forma transparente e sincera, interpelou-me, agora, dizendo que havia mudado o seu jeito de ser e de pensar. Disse-me que revisou os seus posicionamentos e pensamentos conservadores e acríticos. Disse que hoje entende a complexidade da realidade, bem como a amplitude dos conhecimentos que qualquer teoria tenta abarcar. 

Detalhe: disse-me que teria feito esta revisão por causa do meu método e meu jeito de abordar os conteúdos e conceitos em sala de aula. Exemplificou: “embora o senhor não concordasse comigo, sempre permitiu que eu falasse e nunca deixou de me ouvir. O senhor é o maior responsável por esta recente mudança que fiz de mim mesmo, e eu lhe agradeço muito”.

Suas afirmações me chocaram, inicialmente, mas também me ensinaram muito.   Confirmei, então, acertos de método, sobretudo quando trabalhamos com inexperientes, pensantes mentes brilhantes dos jovens estudantes.

Os jovens, modo geral, gostam do confronto direto, gostam de testar suas inquietudes, incertezas e medos “afrontando” os adultos. Se os adultos respondem com novos afrontes, a tendência é que os jovens se sintam donos da verdade ou seguros de sua razão. Na medida em que os adultos lhes permitem a liberdade da fala sem julgamentos, estes tendem a revisar seus próprios pensamentos, a partir das contradições que os mesmos vão percebendo no seu tempo.

Verdade é que não mudamos as ideias de ninguém, mas podemos, sim, utilizar metodologias dialógicas que levem os outros a darem conta das contradições dos próprios pensamentos, como já nos ensinou Sócrates, com a maiêutica. O sábio Sócrates era especialista em fazer perguntas aos seus jovens interlocutores, fazendo com que os mesmos percebessem a sua ignorância e as contradições do seu pensar.

Princípio da Maiêutica, uma “técnica” utilizada por Sócrates para fazer com que seus discípulos chegassem à verdade dentro de si.

No horizonte de um ensino cada vez menos reflexivo praticado na maioria das nossas escolas, perde-se o benefício da crítica, ou da criticidade e caminha-se, a largos passos, para a alienação dos sujeitos.

A filosofia é sempre atividade perigosa, porque instiga a pensar. Pensar bem, para viver melhor, era desejo dos gregos. Para alcançar o real desenvolvimento humano, recomendavam a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça. Na Grécia Antiga competia-se em tudo, sobretudo no campo das ideias e dos destinos da cidade (polis), tendo em vista ser cidadão (capaz de governar e ser governado). Neste sentido, herdamos o desafio de formarmos seres humanos preparados para viver a vida e a cidadania.

Como viver? É uma das perguntas mais importantes a serem respondidas nos dias atuais. Se “é preciso saber viver”, as formas de construir nossa vida sempre passam ou pelo individualismo ou pela coletividade. 

Sócrates (470-399 a.C.) é o grande marco da filosofia ocidental. Mesmo não sendo o primeiro filósofo ele é conhecido como o “pai da filosofia”. Muito disso se deve à sua busca incansável pelo conhecimento e o desenvolvimento de um método para essa busca, o método socrático. Nele, a dialética socrática tinha como objetivo questionar as crenças habituais de seu interlocutor para posteriormente, assumir sua ignorância e buscar um conhecimento verdadeiro. O método socrático busca afastar a doxa (opinião) e alcançar a episteme (conhecimento). Para Sócrates, somente após a falsidade ser afastada é que a verdade pode emergir. Saiba mais.

O exercício cotidiano do diálogo abre sempre novas possibilidades de construir uma vida mais justa, feita através da liberdade, e considerando a possibilidade da felicidade de todos e todas. Este mesmo diálogo permite transformar a rebeldia saudável dos jovens em atitudes cidadãs, a partir do conhecimento gerado pelo reconhecimento das ideias de todos.

O convite que se faz aos jovens estudantes e a todos nós é que nos superemos a nós mesmos, com novas formas de agir e pensar, num espírito de cooperação e amizade. Se a filosofia é arte de pensar, aproveitemos nossas ideias e nossos pensamentos para conquistar novas amizades e novas percepções de vida e de mundo. A humanidade se faz em movimento, de pessoas e de ideias.

A ironia, o diálogo, a crítica, as perguntas, a dialética são conceitos chaves para um pensar crítico, um pensamento aberto e para o exercício de atitudes dialógicas. São parte do caminho pedagógico daqueles que acreditam no conhecimento como ferramenta de emancipação humana, que torna cada um e a todos sujeitos de sua história e da história no seu conjunto.

À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver. (José Ernani Almeida) Veja mais sobre o assunto.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Narrativa

A inteligência nos remete a vermos os fatos por dentro, além da exterioridade. Este é o momento em que há necessidade de união entre o raciocínio lógico e o evento narrado. Não pode haver lacunas. A seriedade exige rigor no entendimento lógico dos fatos.

Nos últimos tempos, as mídias começaram a usar a palavra narrativa, como um elo conceitual da notícia com a verdade relatada, sem contestações.

Sabemos que essa forma midiática de usar o vocábulo produziu no imaginário social uma cadeia de compreensões, de tal modo que ao ser usado o termo narrativa, estaria sendo produzida uma verdade incontestável. Esqueceu-se de que a narrativa é tão somente um relato de um fato ou acontecimento, a partir de um ponto de vista. E assim passaram os dias…

Hoje, o Brasil vive a plenitude do espetáculo da narrativa.

No entendimento dos estudiosos, um fato, um acontecimento pode ser relatado, a partir de visões e interpretações do narrador, que interpreta o fato. Isso não significa que seja absolutamente verdadeiro em todas as nuances que se apresenta. No entanto, a população entende que o narrado, o relatado é fundamentalmente o ocorrido, o vivido. Em nenhum momento, analisa-se que uma forma de tomar um conjunto de fatos e construir uma narrativa é a expressão de uma visão, na leitura dos acontecimentos.

Há outras visões.

A inteligência nos remete a vermos os fatos por dentro, além da exterioridade. Este é o momento em que há necessidade de união entre o raciocínio lógico e o evento narrado. Não pode haver lacunas. A seriedade exige rigor no entendimento lógico dos fatos.

Espera-se que a passionalidade dos relatos não obscureça a Inteligência e que, afinal, a narrativa seja construída com transparência inequívoca, de modo que a Justiça se realize.

Veja aqui um exemplo prático de comunicação, com diferentes narrativas, a partir da periferia. Democracia e comunicação: novas narrativas no enfrentamento das desigualdades.

Autora: Cecília Pires

Edição: Alex Rosset

Maldades e Mentiras

O desmerecimento desvairado à pesquisa está em fúria, com maldade e mentiras. Então, muito cuidado!

O lado ilegítimo do direito de manifestação e liberdade de imprensa tem degringolado, nos órgãos de divulgação e nos múltiplos meios de comunicação eletrônica. O fanatismo religioso e o fundamentalismo político são vícios que vicejam de forma assustadora.

Os principais prejuízos retornam imediatamente ao todo da sociedade. O desmonte do espírito crítico causa horrores. O problema se agrava progressivamente no momento de tantas incertezas e pavores da pandemia.

Pessoas equilibradas não suportam mais ouvir mensagens prestidigitadas pelos defensores do negacionismo em relação à doença que nos atormenta. As mentiras invadem as mais sagradas instituições sem qualquer piedade.

O próprio presidente vem promovendo irresponsabilidades. Logo ele, que deveria ser o principal agente na orientação social. Piadas sem graça, eivadas pelo cinismo, são ditas pelo principal servidor público que deveria liderar o ânimo dos brasileiros para enfrentar essa difícil fase.

Agora, como foi desmascarado na versão “gripezinha”, desaconselha o povo a vacinar-se, diante da tão esperada oportunidade que chegou a outros povos. Com isso vemos mensagens dolorosas de descrença ditas por pessoas que frequentam os meios de comunicação.

Sem qualquer razão técnica, querem desmoralizar a vacina. Isso tem chegado a importantes meios de comunicação, protagonizado por negações jornalísticas que versam irresponsavelmente sobre o mais grave problema da humanidade, a Covid-19. E faço aqui uma ressalva aos bons comunicadores.

Dia desses ouvia o amigo Regis Leonardo e a Ieda na Uirapuru. A emissora do interior tem sido corajosa e persistentemente séria na divulgação dos fatos sobre a pandemia. O mesmo não acontece em redes de TV que apresentam situações comprometedoras desvirtuando, sem motivo plausível, a seriedade da ciência médica e farmacêutica.

Alguns espalham desconfiança na vacina de modo desvairado, incluindo os arroubos de fanatismo contra pesquisa credenciada, que tem como motivo apenas as ilações ideológicas do país que dá origem à vacina apresentada para o crivo da ANVISA. É certo que são necessários cuidados ente as incertezas que de tudo o que nos chega, do ponto de vista científico. O desmerecimento desvairado à pesquisa está em fúria, com maldade e mentiras. Então, muito cuidado!

Mais pressão pela vacina

As formas de pressão para despertar a atuação mínima do governo no combate à pandemia estão centradas em dois pilares.

O primeiro imperativo imposto à letargia negacionista de gestão foi a sombra partidária de João Dória. O tucano atropelou os supostos brios de Bolsonaro e da influência militar, a partir de sua ação lépida ao plantar no braço da primeira brasileira em situação de risco no fronte de atendimento hospitalar, a vacina contra o vírus maligno.

O gesto, mesmo afrontando a liturgia oficial, tornou-se ato inapagável de socorro e urgência ao tormento do povo. O ato derrubou falácias e conotações dúbias sobre a necessidade, inclusive perante a inconsistente propagação da preterição da primeira vacina – Coronavac. Temos aí o concreto que abala toda a conversa fiado, mediante a indulgente presença da vacina e uma pessoa vacinada.

O segundo fator que pressiona pela solução científica e técnica é a consequência lógica do primeiro momento. O prestígio popular do presidente sofre abalo por omissão. O Planalto sentiu o golpe e passou a reagir imediatamente. O fanatismo político vinha iludindo a comunidade com a versão precária e mesquinha de que tudo o que viesse do ocidente vermelho seria inócuo e comunista.

Na verdade, as insinuações fascistas neste sentido não param de pé por um instante. Os laboratórios farmacêuticos do mundo estão num processo virtuoso de avanços em alta velocidade, sem nada a ver com ideologia.

Hoje o governo que vê pesquisas apontarem queda de apoio nessas teses absurdas, vira o jogo. Oficialmente, com a aprovação da Anvisa, a vacina circula no país sinalizando esperança de cura.

Agora, o próprio presidente que capitaneou a ojeriza à vacina russa, foi a público dizer que a Sputnik –V, tão logo seja aprovada pela agência brasileira, será também adquirida para socorrer o país. Tudo aconteceu repentinamente e inesperadamente, sob pressão do óbvio reconhecido pela ciência e informado ao público.

Assim, não temos tempo para criticar ou analisar o mérito da quebra do ritual, ou da paternidade dos lentos avanços na vacinação, nem mesmo os erros do fanatismo da cloroquina e outros. É preciso concentrar recursos para garantir vacina, venha de onde vier, conquanto tenha bons resultados.

Fake News se espalham pelas redes sociais, principalmente em grupos de whatsapp. E para completar, pastores que aderiram à onda negacionista e antivacina, usam seus púlpitos e redes sociais para dissuadir os fiéis a tomarem a vacina, alegando, entre outras coisas, que não houve tempo suficiente para as que vacinas comprovassem sua eficácia. Soma-se a isso as teorias da conspiração que dizem que as vacinas vão alterar o DNA humano e associam à marca da besta do Apocalipse. Como enfrentar esta onda negacionista? Como persuadir as pessoas a serem vacinadas? (Hermes C. Fernandes)  Leia mais.

Autor: Celestino Meneghini

Edição: Alex Rosset

Não quero cancelar ninguém. E você?

A liberdade é condição primeira para sonhar e sorrir. Liberdade não combina com exclusão e eliminação. Não combina com cancelamento!

O advento da internet e das redes sociais mudou a forma e o jeito com que vivemos e elaboramos nossas relações interpessoais.

No anonimato, numa guerra por curtidas, likes e por aprovações sem fim e a qualquer custo, vivemos uma guerra temerária de egos, que não se importam em excluir, em difamar e em proclamar a negação da existência daqueles que julgamos “fora da nossa lei”.

É triste e desolador constatar que vivemos tempos loucos, onde somente a loucura dos mais fortes e “inteligentes” tende a se impor, a qualquer custo.

Como falar em reconhecimento social, num mundo que consagrou o primado do interesse individual nas relações sociais e econômicas? Por que temos tantas dificuldades em tolerar diferenças?

O prazer maior passou a ser mitificar ou demonizar os outros, ao invés de reconhecê-los por seus acertos ou méritos, erros ou deméritos. Sim, perdemos a noção de que críticas sempre são bem-vindas, desde que não ataquem as pessoas, e sim, suas posturas.

Somos seres sociais que precisam de reconhecimento, muito antes da efêmera fama.

“A fama é efêmera; quando alcançar um grande sucesso, troque a festa por um momento de silêncio e oração. (Lc 5,12-16) Assista aqui.

Até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas buscava este reconhecimento através das habilidades e competências que eram geradas pela liderança, pelo trabalho ou pela atuação social. Para tanto, era necessário certo tempo e investimento pessoal nas relações com as outras pessoas. Não era nada instantâneo, como se pretende agora.

Somos, se temos palco ( Texto: Somos se temos palco, em busca de reconhecimento). Este palco agora também virtual (internet e redes sociais) tem peculiaridades que precisamos compreender e reconhecer.

Aprendemos, desde pequenos, a necessidade de socializar, de dividir, de crescer juntos, de compartilhar, de experimentar sentimentos alheios.  Na escola, vamos aprendendo a importância da socialização e experimentando a riqueza das trocas, para a nossa humanização.

O conhecimento crítico-reflexivo e a socialização tem o poder de nos tornar pessoas melhores, mais humanizadas.

Confira o que pensamos sobre “Como nos tornamos humanos?”

Qualidade da vida social

A qualidade da vida social está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de conviver, de associar-se, de mover-se, de construir acordos e consensos, de investir em projetos e ideias coletivas, de agregar-se aos outros para produzir vida de sentido.  

Sozinhos, não somos ninguém, e nem haverá felicidade nas vivências solitárias, embora uma multidão gostaria que houvesse.

Os aprendizados são pessoais, mas os processos envolvem diferentes sujeitos que marcam a vida de cada um de nós.

Cada um acumula, constrói e vive determinados papéis sociais, que se traduzem pelas formas de ser, pensar e agir. Estes papéis (ideias que os outros passam a ter da gente) passam pelo crivo permanente da coerência. A coerência é essencial; difícil de ser mantida, mas o grande pêndulo pelo qual somos permanentemente avaliados pelos outros. Os papéis sociais permitem-nos compreender a situação social, pois são referências para a nossa percepção do outro, ao mesmo tempo que são referências para o nosso próprio comportamento (Aprofunde mais).

Está em curso, entre nós, uma cultura do rótulo, uma cultura de rápida identificação do outro como alguém que posso seguir, posso negar ou posso odiar, instantaneamente. Martha Medeiros, em seu livro Non-stop (crônicas do cotidiano). Porto Alegre: L&PM, 2007 (Confira aqui) , já descreveu:

“Simplificações são tentadoras neste mundo onde tudo é bem mais complexo do que parece. É quase um insulto quando encontramos uma morena burra, um português inteligente, um poeta rico, uma celebridade deprimida, um político honesto, um adolescente bem resolvido. Preferimos conviver com estereótipos porque eles facilitam a vida da gente: generaliza-se e fim. Menos uma coisa pra pensar”. (p. 62-3)

Era de cancelamento na internet

A condenação sumária em massa, com apoio da galera, passa a ser a novidade do que descrevemos acima. Ela se traduz no que foi denominado cancelamento.

A internet virou o palco das nossas disputas onde formamos bolhas, onde não interessam mais as contradições e a diversidade dos nossos pensamentos e pontos de vista, sobretudo quando falamos de raça, gênero, discurso político ou aspirações profissionais.

As bolhas nos dão a errada sensação de que, ao pensarmos como todo mundo, viveremos mais confortáveis. Será?

Em entrevista recente (assista a entrevista) , a psicanalista Anna Carolina Lementy, ao falar deste tema, faz importantes afirmações sobre as duras consequências de quem é “cancelado” pelos outros. Veja o que pensa Lementy:

A gente precisa fazer parte, ter aprovação, isso não é um problema, é inerente à maneira como estamos colocados no mundo hoje. O problema é lidar com essa desaprovação – porque ela virá em algum momento e de alguma forma – e precisamos ter recursos para lidar com isso. Se sentir excluído é problemático e pode causar diversas questões em relação aos vínculos. A pessoa pode acabar, sim, ficando extremamente deprimida se ela faz parte de um grupo e ele a bane. Ela pode questionar a si mesma até que ponto vale como pessoa, principalmente se não tiver recursos para lidar com o que aconteceu”. 

Anna Carolina segue:

Pra mim ainda é um enigma a crueldade das pessoas que promovem esse tipo de ação em relação ao outro. De verdade. É muito difícil uma pessoa não entender a dimensão daquilo que faz. Só que, por incrível que pareça, as pessoas estão cada vez mais desapropriadas do poder da própria palavra, porque é tudo muito rápido, instantâneo, ao alcance do dedo. Se você quiser compartilhar uma fake news hoje em dia, isso se faz com a maior facilidade. E esse tipo de facilidade foi deixando as pessoas alienadas do poder que cada uma delas têm”.

Perguntada sobre se existe algo de bom a partir do cancelamento na internet, a psicanalista e jornalista Anna Carolina Lementy é enfática:

Eu acho que não. Qualquer ação que não permita o diferente, a discordância, pode ser danosa para a gente em termos de sociedade. É isso que produz discursos violentos. Não creio que qualquer pessoa possa também se colocar no papel de “reprimido”, porque também isso é problemático. Reprimir uma ideia torna ela muito mais potente, já vimos isso acontecer. O debate, o questionamento, é o que nos faz evoluir como sociedade e pensar em caminhos. Silenciar equivale a fermentar uma espécie de ódio que pode ir para caminhos que não conseguimos prever ou controlar. Se a gente para pra pensar o que foi o nazismo chegamos um pouco a esse raciocínio. Então, é preciso poder falar e ouvir o outro – e isso só se dá se todo mundo tiver voz. Não vejo o cancelamento ser benéfico olhando por esse sentido”.

Nem sempre quem grita tem razão

O professor de filosofia Filipe Campello, uma das referências nacionais voltadas à compreensão do fenômeno, explica os mecanismos que movem o linchamento virtual, em matéria publicada na Revista Veja é enfático sobre as características que se assenta a cultura do cancelamento:

“No lugar de uma crítica social, passa a predominar uma lógica de cancelamento dirigida aos próprios indivíduos, em vez do reconhecimento de direitos, o punitivismo baseado numa lógica moralista; e ao contrário da possibilidade de aprendizado e mudança, a pressuposição de uma espécie de essencialismo atemporal”. Em outra passagem, Campello afirma: “Alias, esse é o paradoxo da pós-verdade: não é que haja várias verdades continuamente disputadas, mas a pretensão de uma única verdade que se impõe. E ela pode não passar de um boato (Leia mais).

O cancelamento torna-se perigoso, porque não permite aos outros o contraditório; não permite a quem toma determinadas atitudes defender-se e resolver situações pelo diálogo e/ou recuo de uma das partes envolvidas. Em 2021, no BBB 21, brigas entre dois participantes foram a prova de cancelamento real e virtual (Acesse).

Babu Santana, ex-BBB também se manifesta: “Não devemos cancelar as pessoas, devemos educar” (Para saber mais).

Lucas Penteado, participante do BBB21, deixa a casa de maneira triste, sem direito de se expressar como deveria e tendo de ouvir muitas barbaridades. Esta edição do BBB21 é marcada pelo cancelamento e levanta questões sobre a ética das relações interpessoais, bem como a perversidade do bulliyng e da discriminação, amplamente praticados no cotidiano dos lares, escolas e ruas de nossas cidades brasileiras. Lucas não teve uma crise nervosa à toa. Seus gritos no confessionário, vazados pelo pay-per-view, dão uma boa mostra do tamanho do estrago emocional que o bullying pesado e a falta de respeito lhe provocaram. As marcas desta experiência trágica doerão mais do que qualquer paredão e vão durar por muito tempo. Que vergonha de quem assistiu calado a tudo isso…. (Veja mais).

O reconhecimento social

Todos precisamos de reconhecimento social. Reconhecimento social é uma lacuna que precisamos preencher; faz parte das grandes necessidades humanas, sobretudo da necessidades de sermos cuidados, vistos e reverenciados. Reverência é atenção, consideração, respeito.

Cada fase de nossa vida, exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar, de si mesmos e dos outros. E, somente juntos, promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos e todas, a necessidade de nela sermos aceitos, queridos e promovidos. Como já escrevemos em outra reflexão, “a necessidade do cuidado e as carências afetivas, próprias do ser humano, não significam atestado de fraqueza humana. O que nos torna fortes, capazes de superar as nossas maiores contradições, é a nossa capacidade de encarar nossos limites e carências, pois estas nos despertam para o crescimento e discernimento pessoal, afetivo e social”.

A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de aprendizagens colaborativas. Cotidianamente, através das relações interpessoais, a escola administra as suas tensões internas, favorecendo o diálogo, o respeito às diferenças, o reconhecimento das alteridades. As escolas deveriam ser espaços de humanização. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento.

As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e perdem sua importância (Leia mais).

A escola cumpre um papel importante na sociedade na promoção do reconhecimento social. Mas diferentes grupos sociais como família, amigos, colegas de escola, grupos de jovens, clubes, dentre outros, devem também promover o reconhecimento social de cada indivíduo e de todos os indivíduos. Este reconhecimento começa com o respeito às diferentes individualidades e, consequentemente, o reconhecimento das diferentes potencialidades e habilidades que são próprias ou desenvolvidas por treino ou aperfeiçoamento por cada um e por todos.

Cada um tem, na sua individualidade, algo de bom que merece ser visto, conhecido e reconhecido.

Eis um dos desafios maiores dos nossos tempos: promover o reconhecimento social num mundo que cultua o individualismo, promove a intolerância e pratica a exclusão sumária daqueles que, por ventura, não se consideram mais dignos de serem seguidos ou considerados.

Vivemos num tempo em que qualquer “pisada na bola” é motivo de exclusão; não oportunidade de repensar conceitos, atitudes ou valores.

O reconhecimento social é o atestado de consideração e reverência que a sociedade, ou o grupo da nossa maior convivência social, confere a cada indivíduo e a todos os indivíduos. Cada um de nós precisa ser reconhecido em virtudes, habilidades ou conhecimentos.

Cada um precisa ter condições de buscar seu lugar ao Sol e neste grande Universo o Sol brilha para todos. A liberdade é condição primeira para sonhar e sorrir. Liberdade não combina com exclusão e eliminação. Não combina com cancelamento!

Raimundos- Lugar ao Sol

Proposta de atividade pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do Nono Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio. No Nono Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Refletindo sobre temas morais e éticos/Liberdade Habilidades: EF08FL03PF01 Examinar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente, reconhecendo possibilidade de fazer escolhas e justificá-las.

No Ensino Médio, na àrea de Ciências Humanas, pode ser trabalhado também em aulas de filosofia, sociologia e ensino religioso.

Questões para pensar, refletir e desenvolver:

1. Caro estudante! Já discutiu uma centena de vezes a cultura do cancelamento no Twiter mas não saberia como abordá-la em uma redação? Esse texto é para você! Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo: o boicote a personalidades (famosas ou não) que cometeram alguma violência dentro e …  (Aqui é o início do texto que os estudantes devem dar seguimento?)  (Leia mais).

2. Investigue, na internet, um caso ou dois de pessoas que foram canceladas. Descreva a situação e a sua opinião sobre este cancelamento concreto que você conheceu.

3. A partir da leitura do texto acima e depois de assistir ou acessar textos complementares, responda: Cancelar significa infligir um direito natural, o de existir? O que significa ser humano e livre diante dessa “cultura do cancelamento”? A liberdade exige, requer a negação da alteridade/ do outro?

4. Em grupos, separados por turma, discutir a situação vivida por Lucas Penteado, na edição do BBB21. Problematizar, levantar hipóteses e saídas que poderiam ter evitado o constrangimento e a humilhação do participante. Depois, grupos podem dividir com restante da turma.

4. Depois dos estudos e leituras, organizar debate em sala de aula sobre o tema, escutando todas as posições e opiniões sobre o tema cancelamento com a ideia de aprofundarmos o assunto.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

O Novo Normal e o Reinventar:Reflexões Desde o Horizonte da Ambivalência

Impera o normal, e não o novo, em sua mais sórdida reinvenção para mascarar as intenções, os mesmos objetivos imperativos do sistema centralista, globalista e renovado/reinventado em sua capacidade, desejo e poder de afirmar-se como mais poder.

As limitações que se impuseram aos indivíduos, às instituições e aos coletivos por força da pandemia desencadeada pela Covid-19, pelas mutações do sagaz vírus, eficiente em sua função embalada pelas irracionais atitudes humanas, pelo retardo da ciência em enfrentar um gigante nanológico, pelas burocracias e necropoderes instalados geopoliticamente, suscitam plurais sentidos que denominamos ambivalentes.

Há quem, mais otimista ou de olhar visionário, consiga situar no horizonte incerto e aleatório do amanhã, grandes mudanças e perspectivas de rupturas com práticas e compreensões sistêmicas e individuais de individualismo, opressão, exploração, concentração de renda, fundamentalismos dogmáticos e dogmatizantes, além de reviravoltas consideráveis nas hegemonias e homogeneizações globais. Também, há os céticos ou, comumente – e problematicamente – denominados, pessimistas.

“Fico me perguntando na leitura que faço dos que se apressam com o “novo normal”, preocupados que estão com a tão “insuportável anormalidade” da pandemia: como será o “novo normal” para os/as desempregados/as, os precarizados/as, os subempregados/as, os/as “sem-direitos”, os/as de sempre, os/as de antes e os/as de agora, ainda mais precarizados em razão do impacto que a crise pandêmica produziu em suas vidas? Haveria “vidas matáveis”, “humanos descartáveis”, “humanos essenciais” no “novo normal”?” (Paulo César Carbonari). Leia mais.

Não são somente estes dois fronts. É possível, sem muito esforço, identificar outras tendências que podem assumir influências maiores ou serem anuladas dadas as condições de considerável irracionalidade e espírito de alienação – termo antigo e, talvez, fora de moda no mundo acadêmico, mas atual no mundo cotidiano – que concorre com o Covid em velocidade de expansão e contágio – ainda, também, sem vacina – por entre instituições, indivíduos, Estados, laboratórios e governos.

Como aconteceu na história da humanidade, especialmente, na dimensão sócio-política, mas igualmente, na científica, na econômica e na legal, a grosso modo, as variantes ideológicas ou de compreensão, reforçam a polarização, principalmente, até não se constituírem em novas teses com expressão.

Entre os objetivos dessa reflexão estão os sentidos dos conceitos – pretensamente inovadores e de amplo uso nesses tempos de distanciamento social ou, como compreende a Professora Maria Cristina Pansera de Araújo, “de distanciamento físico” – que transitam, tem parecido, com disfarces ideológicos, perspectivas corporativistas-personalistas, subsistem com sentidos hegemônicos e, mais grave, estão em uso sem a crítica terminológica, conceitual e de significados.

Nessa direção que se esforça e, também, desafia, a presente reflexão ao pensar o uso dos termos “novo normal” e “reinventar” e os compreende carregado de ambivalências. São termos indiscriminadamente em uso e podem legitimar o status quo, bem como, esconder continuísmos concentradores de renda, messianismos fundamentalistas, doutrinações dogmáticas, recrudescimento de poderes ditatoriais e culturais do ódio, da violência e da destruição.

Nessa compreensão, a presente reflexão, justamente por tratar-se de uma tentativa de filosofar sobre termos com vasto uso comum, parte de obras, pensadores/as e pensamentos de domínio amplo. Tais entendimentos, a característica textual e as remissões a autorias pela veiculação pública que detém, desobriga as referências ao final do texto.

“O que é isso que todos começam a chamar de “Novo Normal”? Qual era mesmo a “velha normalidade”? E a pergunta que mais deve(ria) incomodar: O que é “normal”?” (Sidinei Cruz Sobrinho) Leia mais.

O perigoso “novo normal”

Mesmo que a humanidade tenha atingido o atual estágio tecnológico, de relações e conquistas, via comunicação, muito dificilmente ela, a comunicação, tem se difundido sem um toque de racionalidade, de pensamento. Seja para emitir os sinais ou para interpretá-los, o pensar parece fazer parte desse movimento como elemento indispensável. Ainda que a questão não seja de ordem moral e maniqueísta, como sugere a moda habitual, ou indique opções entre a fronteira do bem e do mal, comunicar sugere ação natural e criadora de cultura e denota esforço, além de o exigir.

Comunicar tem uma dimensão gratuita e outra intencional. A gratuita é espontânea, acontece no cotidiano e tem significados, sentidos, expressos pelo/a emissor/a, são colhidos por quem interpreta. Na dimensão intencional, aquela que é produzida com vontade e determinada por alguma atitude – com a compreensão de ação humana com planejamento, com motivação racional – a parte emissora desenvolve sentidos e os articula num conjunto de signos para expressar a outrem, os seus desejos, demandas e intenções, embora possa ter que repeti-los, ajustá-los, ampliá-los ou simplifica-los, para tornar compreensível suas manifestações.

Essa espécie de preâmbulo, embora pareça deslocado, tem o objetivo de reafirmar o quanto a comunicação tem um horizonte democrático, ao permitir, possibilitar interpretações plurais, e, simultaneamente, apresenta uma necessária e indiscutível proposta de continuidade, de manutenção, de afirmação permanente que indicam a inesgotabilidade de seu valor. É nesta lógica que se apresenta a reflexão acerca do “novo normal”.

Muito embora possa – e deva – ser compreendido na seara da ambivalência, a terminologia novo normal pode esconder perigos como a continuidade e defesa da arqueologia das estruturas de poder historicamente instaladas e vigentes na sociedade humana. Novas adaptações a uma estrutura que, ao contrário da compreensão de vários filósofos e economistas, não cambaleia por ser anciã ou não têm pés de barro. Antes, se fortalece e ganha corpo nutrido nas explorações, dominações e expropriações das camadas de seres humanos e demais seres da rica e ampla natureza ecológica, biológica.

O novo normal pode esconder – e tudo indica para esse rumo – o fortalecimento sagaz e o apossamento de mais controle dos órgãos e instituições e indivíduos já poderosos, tanto a níveis locais, quanto regionais e mundiais. Cabe, para uma prosa ampliada, pensar em torno do que seja o “novo” e do que seja o “normal”.

Na atual conjuntura, o “novo” pode esconder a volatilização das relações, instituições – entre elas o Estado, a legislação – e, desse modo, assume a perspectiva de um engodo macabro que disfarça intenções dominantes e projetos há muito em curso.

O boicote ao Estado – inclusive defendido e tido como a salvação, por porção considerável da população mundial, brasileira e regional – que não consegue, até o momento, compreender o abismo para onde a humanidade caminha. Este “novo” é verniz em madeira carcomida e demonstra a ambivalência das terminologias.

O mundo quer, deseja, anseia e mata ou morre, pelo novo. Mas qual é o sentido que o novo, pós-pandêmico, está disposto a construir? E quem está? Do fato de a humanidade passar por mais um período de distanciamento físico – ou de necessário e científico distanciamento social e/ou físico – não decorre a novidade.

Talvez o novo resida no inusitado, para o avançado século das comunicações ou telecomunicações e era das informações recebidas em avalanches, das restrições para evitar as contaminações há, pelo menos, um ano. O perigo de ufanizar o novo é não compreendê-lo como fantasma do anciènne, da retrotopia (Bauman…), maquiado em novos palácios, laboratórios, estúdios e redes sociais, para continuar sendo o que é: mau, perverso, necrófilo.

Afirmar o novo no pós-pandemia, é antecipar a naturalização do desconhecido, do ainda-não, como compreende Ernest Bloch e não como esperança, mas como certeza. Aí reside o perigo porque a acomodação do pensar, da possibilidade do comunicar dialógico, não tem mais perspectivas. É abortada junto com a concepção.

Esta reflexão não quer explicar o óbvio, tampouco o mundo; pensa, ainda que embrionariamente, atitudes humanas que exigem racionalidade, compreensão, comunicação, implicam escolhas e podem impactar a sociedade. Esta perspectiva sugere que indicar algo novo como acontecimento decorrente – quase obrigatório – dos momentos vivenciados no presente, fragiliza tanto o conceito de novo, quanto o desautoriza enquanto tal, acomoda as expectativas e as necessidades de luta, de envolvimento e de ação dos indivíduos para definições das agendas e persecução das conquistas. Nesse ponto se encontra a normalização que parece querer comunicar com alguma intencionalidade pré-estabelecida que as coisas acontecem como têm que acontecer.

Quanto o novo é ou pode ser normal?

O novo é desconhecido, embora possa ser pré-anunciado; mas é de sua propriedade pré-ocupar e, por vezes, causar expectativa, temores, apreensões. O normal do novo implica espera, inquietude, ansiedade e, por isso, não pode ser aceitável, assimilável, simplesmente. Nem, desse modo, compreensível, porque é somente esperança gestada na ambivalência/plurivalência e exige pensar, esforço. O novo normal pode não ser tão normal como insinuam propagandismos gratuitos, voláteis e arquitetados para fazer ver apenas as certezas elaboradas antecipadamente.

Ao ampliar a reflexão, encontra-se a normalização que é padronização, a institucionalização e modos de ser, compreender e agir. Algo, ao ser padronizado entra no rol das naturalizações e, nessa lógica, sucumbe às necessidades de reflexões e possibilidades de construções.

Nessa linha de pensamento, o novo entre em contradição performática porque apresenta como objetivo último que o qualifica para ser novo a condição de normal. É ser normal, dito de outro modo, que o constitui novo.

Em chave ambivalente, o normal é acontecer o novo porque é próprio da evolução, o acontecimento da mudança, do crescimento, da construção. É normal que o novo se apresente nas experiências e nas vivências dos seres humanos como decorrências de suas iniciativas e como presença constante do aleatório, do inusitado e, também, do incontrolável das naturezas que compõe o mundo. É normal que o novo se apresente, difere em essência, potência e existência do novo como normal.

O normal não é novo e quando tende para essa formatação, já está pré-definido, pré-constituído, pré-concebido e, portanto, já arquitetado, assimilado, conhecido. É da norma do novo ter outro regramento, outro modo e isso é o seu normal até ser estudado, pensado e, de algum modo, controlado. Por isso o novo não pode ser definido aprioristicamente.

Ao ganhar força e ecoar em várias dimensões sócio-culturais e científico-econômicas, o clichê do novo normal arrasta consigo a concepção histórica reprodutivista do resgate, das re-vivências e advoga a própria impossibilidade do novo.

Alimenta-se, o poder hegemonizado, dessa impossibilidade do movimento criativo, da incapacidade humana de criar, produzir, novos caminhos, alternativas e, inclusive de pensar novas relações institucionais e entre as pessoas, de alterar as estruturas sistêmicas há muito emperradas mantenedoras do o olhar fixo no passado como o normal para acolher e seguir o novo.

O novo acaba por reforçar as mesmas estruturas e compreensões viciadas que historicamente forjaram as características, as funções e as estruturas da micros e macros vivências. O mundo – porque as pessoas – acaba por conformar-se com as imposições, com as normalizações instituídas abortivas ou, pelo menos, dificultadoras – porque domina o poder e controla o normal e, com ele, engoma o novo – das possibilidades constituintes das mudanças profundas, das metamorfoses, para pensar com Ulrich Beck.

O novo para ser novo precisa não ser normal; precisa ser pensado, conhecido, controlado/dominado, também, de um modo novo.

O novo é estranho e a estranheza é elemento importante na motivação, no despertar, para a reflexão, para o pensar e abertura para o dialógico pois começa pela provocação comunicativa de querer ser significado, justamente, na sua epifania, no seu aparecer.

A ambivalência, a plurivalência, ensina a abertura, a possibilidade e ensaia o ato criador, desperta para a novidade e estimula a empresa do conhecer, da investigação, que tem condições de descortinar multiplicidade de sentidos.

Veja-se, então, que o novo tem uma dimensão estética, mas ela está na relação com a ética e a política. Diz respeito a cada indivíduo e ao coletivo, mas, também, àquilo que transcende às fronteiras do somente ego ou alter para envolver com mais plenitude um horizonte ainda maior, tanto em amplitude, quanto em profundidade e compromisso.

O professor Mauro Cardoso Simões, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, explica neste bate-papo que é uma ilusão pensar que a vida é regular, estável, previsível e que isso é o “normal”. Para ele, a expressão não dá conta da catástrofe que a humanidade está experimentando. O “novo” que estaria por vir é imprevisível e pode conter tanto visões negativas, preconceituosas e segregacionistas, como algo positivo que seria uma maneira mais saudável de pensar na nossa vida em sociedade. Veja: Novo normal para quem?

Reinventar: o ancien com verniz

Inventar é arte; reinventar é adorno, uma espécie de cópia que reproduz e enverniza uma realidade teimosa em prolongar-se em função de algum poder que, de certa forma hegemônico, não quer perder o status. Essa chave sócio-filosófica de compreensão sugere a continuidade ou, de modo mais radical, um continuísmo que esconde objetivos, critérios, interesses dominantes sem uma preocupação de alteração substancial de procedimentos, de estruturas, de compreensões.

Nesse sentido, o reinventar é atualizar algo existente e apresentar como solução. Fazer adaptações. Não contempla mudanças substanciais o que não quer, necessariamente, significar algo ruim, menos valioso. Contudo é revestimento de material, práticas e concepções em uso ou cimentadas. Conota um certo temor, medo, receio, do novo, da mudança, de novas posturas, além de transitar em perigoso lugar-comum e aziado discurso elitista.

Nesse sentido, o reinventar não é profundo, mas superficial e não enfrenta a possibilidade com multiplicidade e pluralidade. Por isso não tem condições de colocar-se no diálogo equânime, além de falhar no compromisso com o espírito criador que avança, em agenda ética, na direção da solidariedade, das pesquisas por alternativas preocupadas com a vida.

Reinventar é tomar o ancien, adornar e apresenta-lo como novidade. Alterar aquilo que já esteve ou ainda está de posse e sob controle e ajeitar para dar conta de suprir os objetivos, as necessidades, do presente.

A ambivalência, nessas cercanias, pode ser vista em confabulação com os poderes antigos. No chá da tarde, são definidos os cardápios para os jantares da ceia nos quais são reapresentados menus com paladares de outrora, elaborados sempre por gourmets protegidos em grandes e poucos palácios.

Reinventar, nesse sentido, parece denotar uma saída tangenciada para não encarar o problema em grave estrutura, peso e consequências. Assim, não contribui para transformar, mudar, a realidade e abrir espaços para a criatividade, a alternativa, a possibilidade; contenta-se em manter a essência da conservação em reacionária marinada, apimentar o futuro da grande maioria massiva da população e despejar sal grosso e ácido nas estruturais chagas que prolongam e aprofundam as diferenças e injustiças. 

Algumas reflexões para continuar a pensar no horizonte da ambivalência

As adaptações, readaptações, mudanças, transformações, as reflexões, provocadas pela pandemia, alterações comportamentais, de hábitos e relações, são fortes em demasia para limitar o novo a reinvenções, apenas e a conformações de um novo normal. Esse novo normal pode ser a reinvenção daquele historicamente constituído e instituído com a supremacia das forças hegemônicas e hegemonizantes, exclusivas nas pretensões de absolutas verdades e definições do bem e do mal.

Reinventar é saudosismo conformador que pode inibir a força da mudança que o momento indica e a necessidade de rupturas que se evidenciam. Algumas já em curso como novas polarizações e contradições.

A afirmação pode ser ilustrada com a elevação da China ao patamar de enfrentamento à grande potência norte-americana, ao pioneirismo dessa mesma China e da Rússia, nos desenvolvimentos dos antídotos à Covid-19 – e, possivelmente, de suas variantes –, a capacidade de regulação social interna da China.

Mas há ainda outras questões que demonstram alguns processos equivocados e assumidos por nações poderosas ou nem tanto: Cuba, a eterna nação relegada pelas centralidades econômico-militares do ocidente, parece não ter enfrentado colapsos hospitalares e faltas de oxigênio. Algumas nações latino-americanas, vizinhas ao Brasil, também indicam enfrentamento racional à pandemia. Entre algumas contradições pode-se ver a Índia com a maior capacidade mundial instalada para produzir vacina enquanto sua população sofre consequências de pesada estrutura cultural.

Incorporar, simplesmente e superficialmente, as ondas modísticas das linguagens clichês, favorece a reprodução de valores fundamentalistas e estranhos ou contraproducentes às possibilidades de aprimoramento humano, das qualificações de relações e alargamento das compreensões que favorecem diálogos, estimulam a solidariedade e gestam novidades, criatividades interessantes para a humanidade em sua caminhada pela harmonia e realização individual e coletiva.

Ao invocar a ambivalência que subsiste na linguagem e nas ações humanas, é possível apresentar a nada normal e nada nova constatação de que as camadas mais empobrecidas da população, com a pandemia, continuarão, ainda, a não participar dos benefícios da ciência, a não usufruir das riquezas acumuladas às custas de suas dificuldades, da miséria, da fome, da exclusão. Por outro lado, as camadas mais enriquecidas não voltarão o olhar e, sequer, os sentidos, para a mudança, a transformação, a metamorfose da estrutura sócio-econômica e histórico-cultural que oprime e desumaniza.

Paira, nesta reflexão, o indicativo da retomada de uma racionalidade não limitada ao estético, mas ao político e ao ético com invenção, pensar, alternativas, novidades, originalidades para além da estrutura solidificada da história do homem branco, rico, autorizado a desenhar os destinos.

Não se trata de jogar fora a tradição mas, também, de não incorporá-la como uma atitude sine qua non. Isto significa que a grande tradição precisa considerar a razoabilidade, na compreensão do Professor Paulo Evaldo Fensterseifer, e uma ponderada racionalidade que não seja dogmaticamente legislativa e alinhada aos ditames do estado jardineiro, temas de Zygmunt Bauman.

Não pode, não tem espaço, por isso, e, tampouco, sentido, um novo normal que não seja aquele do prolongamento das viciadas e retrógradas vicissitudes há muito em curso. Impera, desse modo, o normal, e não o novo, em sua mais sórdida reinvenção para mascarar as intenções, os mesmos objetivos imperativos do sistema centralista, globalista e renovado/reinventado em sua capacidade, desejo e poder de afirmar-se como mais poder.

Autor: Claudionei Vicente Cassol

Edição: Alex Rosset

Desobediência Moral, Intelectual e Religiosa

O niilismo reativo que tomou conta da mentalidade conservadora fascista é autodestrutiva e envenena a todos os que dela se aproximam. O distanciamento moral, intelectual e religioso dos que estão no poder central é a única forma de imunidade para uma vida saudável no Brasil.

“Numerosas são as maravilhas da natureza, mas, de todas, a maior é o Homem’, diz Sófocles em Antígona. Nessa mesma peça trágica de Sófocles, se lê que “ninguém é louco a ponto de desejar a morte”. Esta última frase é proferida pelo Rei Creonte que alimenta a convicção de que suas ordens serão obedecidas e desobedecê-las serio o mesmo que desejar morrer.

Na peça, Antígona desobedece ao Rei que proíbe sepultura de seu irmão Polinices, por este ter lutado contra o seu governo na tentativa de derrubá-lo. Antígona desobedece a lei do Rei invocando uma lei mais alta, a lei divina e da tradição, que garantem o sagrado culto aos mortos e suas devidas cerimônias de despedida e de sepultamento.

Sófocles não conhecia o Brasil, por suposto. Se conhecesse, talvez, refizesse tanto a frase de que somos a quintessência da criação e das maravilhas, a maior, quanto a de que “ninguém é louco a ponto de desejar a morte”.

Que alguns desejam a morte dos outros, ou nada façam para impedi-la, mesmo tendo condições, é por demais sabido e todos os dias há provas disso, mesmo que, falsa ou cinicamente, digam que se preocupam com a vida quando, na verdade, priorizam o capital em detrimento da vida.

Há os que desejam a própria morte desafiando a pandemia ou prescrevendo remédios que a medicina não recomenda. Quanto à ideia de que somos mais maravilhosos do que o conjunto dos outros animais e mais maravilhosos do que o sol, a lua, as estrelas, rios e mares, bom, talvez sejamos mesmo, como espécie, mas como indivíduos, sinceramente eu prefiro o Chico, o Mick e a Preta, de quatro patas.

Mas, o que me interessa mesmo, aqui, da referida tragédia de Sófocles, é a ideia defendida por Antígona, segundo a qual, é imperioso desobedecer às ordens das autoridades políticas, sobretudo quando oriundas de mentecaptos e necrófilos, se essas ordens forem uma afronta a um princípio ou valor mais alto e mais nobre do que o valor e o princípio que baseia a ordem.

Sejamos claros. É imperioso desobedecer, moral, intelectual e religiosamente, o inquilino que se instalou no Planalto Central. A desobediência deve ser de ponta a ponta, em todas as áreas, seja nas suas orientações sobre o meio ambiente, educação e cultura e, sobretudo, em relação à saúde. Um inquilino desastroso, sem compaixão, sem dignidade e sem alma. Urge despejá-lo enquanto há tempo.

Umberto Eco dizia que os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa. Não se iludam, a fachada religiosa do inquilino que ora nos governa é uma máscara que esconde cadáveres atrás de si. Nunca será demais denunciar e marcar posição contra o pior que a história já produziu entre nós. Não se opor, resistir e desobedecer é agir por cumplicidade.

Na medida em que envelheci, comecei a odiar a humanidade. Portanto, se eu tivesse um poder absoluto, deixaria que ela continuasse em seu caminho de autodestruição. Ela seria destruída e eu ficaria mais feliz. Pessoas como eu são intelectuais: nós fazemos o nosso trabalho, escrevemos artigos, temos maneiras de protestar, mas não podemos mudar o mundo. Tudo o que podemos fazer é apoiar a política de empatia“. Leia mais.

O niilismo reativo que tomou conta da mentalidade conservadora fascista é autodestrutiva e envenena a todos os que dela se aproximam. O distanciamento moral, intelectual e religioso dos que estão no poder central é a única forma de imunidade para uma vida saudável.

Mas, o mais trágico nem é isso. O mais trágico é a morte acompanhada da proibição das sagradas despedidas e rituais de passagens. Isso sim é de doer o coração e de matar! E o pior, não há a quem apelar para reclamar que seja diferente. Se reclamar para o Bispo ele vai pedir para que se vá reclamar ao prefeito ou ao governador. É um destino trágico.

O que faria Antígona nesse caso? Até ela ficaria paralisada. Ou será que ela arriscaria se contaminar e contaminar outros, mas não abriria mão do último adeus com todas as cerimônias que qualquer senso antropológico prescreveria?

 “A gloria de Deus é o homem vivo”, dizia Santo Irineu. Os mortos não louvam a Deus e não dá para louvar a Deus pelos mortos. E, muito menos, louvar a Deus pelos que matam. Se estivermos de acordo com isso, quem sabe se possa chegar a um acordo sobre o que seria o desejo de Deus e nosso, inclusive, quanto o procedimento ritual e litúrgico que marca a despedida de um ente querido, nesse momento de pandemia. 

É doloroso e quase insuportável morrer sem adeus? É. Tem outra forma? Tem algum protocolo que se possa seguir com segurança? Se, sim, então é urgente pensá-lo. Se não há, e se o melhor para a vida dos que ficam é o afastamento físico total, então, em nome da vida e do Deus da vida, que se chorem os mortos mesmo sem as devidas despedidas. E, quem sabe, se pense alguma forma de marcar e tornar célebre a vida que se foi, numa cerimônia doméstica, na comunidade de fé e, futuramente, em praça pública.

Afinal, sem os devidos rituais de despedida, de que nos diferenciamos dos outros animais? 


Desculpe Antígona, mas o teu caso não é o nosso caso. Não há heroísmo nenhum em se arriscar e não há uma lei positiva que possa ser revogada. O que há é um estado da coisa que se impõe, e contra o estado das coisas não há porque desobedecer.

Esta publicação foi originalmente publicada no blog do autor.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

Memórias de Uma Vivência Franciscana

“Onde há amor e sabedoria, não há medo e nem ignorância”. (Francisco de Assis)

Paz e bem!

Fiz uma breve passagem numa casa de formação franciscana, mais especificamente, dos Freis Capuchinos, que neste ano completam 125 anos de presença no RS. Os primeiros Capuchinhos Franceses chegaram em Garibaldi no ano de 1896. Veja mais aqui.

Esta experiência de formação humana e cristã, de apenas um ano, foi importante para experimentar e vivenciar aspectos da vida e do cotidiano que os irmãos de congregação vivenciam como teoria e como prática.

 Passaram 25 anos desta rica experiência. Na época, tinha 23 anos de idade. Fiz parte de uma pequena comunidade, inserida numa paróquia, com a presença e convivência de dois freis, o que me marcou profundamente até hoje e, talvez, para o resto da minha existência.

Francisco de Assis sempre foi, para mim, uma importante referência de vida e de espiritualidade. Me marcou e ainda marca, profundamente, a sua simplicidade, sua relação de irmandade com os demais seres humanos e a sua relação amorosa com os demais animais.

Uma das coisas que logo incorporei na minha vida é a simplicidade e o uso de sandálias. O uso de sandálias, para além do conforto em dias de calor, representa a humildade de caminhante, a necessidade de se colocar a serviço dos demais e de reconhecer que a sabedoria é um processo que está em curso; jamais está pronto.

Outro hábito que herdei desta breve experiência de formação cristã franciscana foi a apreciação de vinhos. Como descendente de imigrantes alemães, não tinha o hábito de apreciar um bom vinho. O vinho não faz parte da vida e da espiritualidade franciscana, mas é um bom hábito que vem sendo perseguido pelos descendentes dos imigrantes italianos (a maioria, na Ordem dos Frades Menores, OFM). Além de apreciarem bons vinhos, os freis Capuchinhos tornaram-se referência na produção e venda desta bebida no RS e no Brasil. O vinho é uma bebida citada biblicamente, incorporada ao ritual da Santa Ceia e faz parte da cultura dos descendentes de italianos no RS e no Brasil.

Portanto, vá, coma com prazer a sua comi­da e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz”. (Eclesiastes 9:7)

Guardo também como grande aprendizagem o cuidado recíproco exercido entre os membros desta comunidade franciscana. Num grupo de 7 pessoas, éramos convidados, diariamente, a nos cuidar, a nos fortalecer como irmandade, a nos respeitar, a valorizar os dons e as habilidades individuais e a exercermos a confiança nas nossas capacidades (individuais e coletivas). Não éramos estimulados a disputar com os demais a partir de nossos conceitos e habilidades, mas éramos reconhecidos pelas qualidades e alertados de nossas fragilidades e imperfeições.

A espiritualidade franciscana é muito intensa e rica ao invocar o cuidado de si, o cuidado dos outros, o cuidado com a natureza e o cuidado com a Transcendência. Inspirados em Francisco e Clara de Assis, os confrades vivem uma espiritualidade viva, renovada e cultivada cotidianamente. Renovam sua fé e seus desejos de mudança no mundo, a partir de sua presença e testemunho de vida, todos os dias, em comunhão na oração e na vida fraterna de suas pequenas comunidades.

Vivi, também, o protagonismo da experiência pastoral inserida na comunidade, através da catequese, das visitas às famílias, da inserção e animação das comunidades através de encontros ou celebrações semanais. Foi uma experiência única, exercida com protagonismo pessoal e muita confiança dos freis que conviviam comigo e eram os responsáveis pela formação cristã franciscana.

Sou muito grato pela oportunidade que a vida me propiciou, mesmo que de forma bem breve, de conhecer e viver intensamente o ideário franciscano. Além de admirar, nutro profunda reverência aos irmãos e irmãs que decidiram consagrar sua vida a esta proposta de vida e de humanidade.

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado…
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado…
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

(Francisco de Assis)

Passados 25 anos, tive o prazer de reencontrar, em fevereiro de 2021, frei Gilmar Zampieri, responsável pela formação religiosa e espiritual desta breve experiência de formação cristã franciscana. Este reencontro me encorajou para escrever breve memória desta vivência tão marcante em minha vida.

Transcrevo aqui de documento da Ordem dos Frades Menores (2017 algumas das lições aprendidas e vivenciadas nesta breve passagem de formação cristã franciscana.

“Viver o dom do irmão comporta:

>> uma relação com os outros encharcada de humildade, sem procurar ter razão com suas próprias ideias, antes de qualquer coisa, por melhores que sejam, e muito menos impô-las aos outros irmãos. O espírito fraterno pressupõe uma mútua e recíproca acolhida que não se baseia no domínio de um irmão sobre o outro. A humildade nas relações permite que haja uma descentralização de si para dar mais espaço ao Senhor e a uma melhor disposição à acolhida do irmão diferente de mim;

>> o gosto pela escuta recíproca, pela partilha de vida e pelas comunicações fraternas que favorecem o crescimento da comunidade e de cada um dos irmãos. Um desejo de construir junto com os outros, na dinâmica da busca do Reino de Deus que se chega a conhecer no cotidiano. Uma alegria que se reconhece num modo simples de viver relações justas e sadias, consigo mesmo, com os outros e também com os mais pobres. O alegre saborear a beleza do perdão, dado e recebido, através da simples e franca correção fraterna.

Missão evangelizadora

A missão evangelizadora, realizada sempre como Fraternidade e como íntima necessidade de ir e anunciar aos outros tudo o que Senhor nos deu comporta:

 >> o desejo ardente de testemunhar aos nossos irmãos e irmãs do mundo aquilo que nos faz viver, para que possam beber na mesma fonte; uma real disponibilidade de partir em missão; um profundo desejo de anunciar o Evangelho e o apelo para vivencia-lo. É a audácia evangélica que nos impulsiona a viver esta aventura no seguimento de Cristo; uma relação viva com Cristo que se encarna na mútua e benevolente ajuda fraterna;

>> uma adequada preparação antes da missão, assim como uma proveitosa colaboração entre os diversos protagonistas>> a entrega e avaliação regular de nossas jornadas diante de Deus e sob o olhar benévolo dos próprios irmãos. A partilha do Evangelho, depois de um tempo de atividade intensa, é um meio formidável para este restituição; isto permite uma tomada de distância daquilo que é vivido e um recentrar-se em torno da Palavra de Deus, prontos para acolher aquilo que o Senhor diz”. Veja mais direto da fonte.

Atreva-se a ser mais humano. Veja!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Projeto de vida e protagonismo: a justa medida entre o individual e o institucional

Narrativas comprometidas com o liberalismo contemporâneo são indicativos de um individualismo descomprometido e da passividade conformada.

Temos o dever de aprender a reconhecer as vidas e as construções anteriores às nossas que se manifestam em nosso presente e preservam as melhores condições de vida para as gerações futuras. As rupturas, associadas com o antropocentrismo moderno e com a razão científica, devem  ser ressignificadas para  que a construção social consolide uma  fase  mais elevada para a existência humana.

Ao se reconhecer como resultado do conjunto de suas relações, o ser humano assume as condições básicas para se perceber como sujeito de escolhas e do próprio projeto de vida.

Para se diferenciar dos outros animais, pela capacidade de construir relações e planejar sua própria vida, faz-se necessário reorientar compreensões divisionistas e reducionistas. Isto sugere que o divisionismo e o reducionismo, centrado no individual, que não reconhece as relação ou o coletivismo, que anula a singularidade individual, são modelos organizativos insuficientes para orientar o comportamento das pessoas civilizadas.

Ensinar Exige Compreender que a Educação é uma Forma de Intervenção no Mundo. Veja este interessante vídeo!

Uma análise, mesmo sem profundidade ou elaboração profunda, sugere que estamos ligados e somos interdependentes.

As narrativas comprometidas com o liberalismo contemporâneo, são indicativos de um individualismo descomprometido e da passividade conformada.

Ao evidenciar estes modelos de comportamento social, faz-se necessário produzir e comunicar conteúdos que ajudem a vida a se tornar mais humana. Imposições castastróficas como as guerras e as pandemias são indicativos para que as ferramentas construídas pela inteligência humana sejam universalizadas.

O conjuto das ferramentes construidas pela inteligência humana são resultados simultâneos  de regramentos institucinias e protagonismos individuais. Os desiquilíbrios na disponibilização dessas ferramentas, se constituem como uma das varíaveis para explicitar o conjunto das distopias que nos envolvem.

Para além do atendimento universal das necessidades materiais básicas, incluindo habitação, educação e alimentação, o acesso universalizado de internet e das vacinas, devem estar incluídos o conteúdo das narrativas a serem entoadas por todas as pessoas que orientam civilizadamente o próprio comportamento.

Esta é uma reflexão de conteúdo inesgotável, por isto sugiro que você participe, registrando teu ponto de vista no nosso canal em construção, conforme sugere o link a seguir.

Criamos um canal no yotube para produção de conteúdo para evolução humana. Sabemos que a internet se apresenta como um espaço de grande transformação no comportamento humano. Neste vídeo, uma conversa com professor da UPF (Universidade de Passo Fundo) Otávio Klein. Assista e inscreva-se!

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

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