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Definição de pecado atualizada

Se quer viver de maneira agradável a Deus, ame mais e não perca seu tempo julgando. Viva e deixe viver.

Nunca vi um povo tão obcecado com o pecado do que aqueles que deveriam fazer do perdão a sua bandeira. Para os tais, pregar o evangelho seria sinônimo de falar contra o pecado. E assim, sem que percebam, fazem coro com aquele que é chamado nas Escrituras de “o acusador dos nossos irmãos”, o arquiadversário do amor, o diabo.

É claro que não dá para falar de perdão sem falar daquilo que está sendo perdoado, isto é, o pecado. Porém, temos que entender de uma vez por todas o que é ou não pecado.

Etimologicamente, pecar é errar a alvo. Fomos criados com um propósito, e viver de maneira contrária a ele constitui-se pecado. Que propósito seria este, afinal? Fomos criados para o amor. E o Deus revelado nas páginas dos evangelhos escolheu ser amado no outro. Amar ao próximo não é um mandamento abaixo do amor a Deus. Trata-se da única maneira de amar ao Criador.

À luz desta verdade, podemos definir o pecado como todo sentimento, atitude ou postura que promova o mal de nossos semelhantes. O pecado é o antônimo do amor. Pecar não é viver alheio a um código moral, ainda que imposto por uma divindade.

Pecar é não amar, vivendo exclusivamente em função de seus próprios prazeres, sem considerar a dor que possa causar ao outro. Pecado é uma vida autocentrada, egoísta, interesseira, preconceituosa, acumuladora, abusiva, traiçoeira, arrogante, invejosa.

Quando se vive em pecado, o sofrimento do outro não nos causa qualquer incômodo. Só pensamos em nós mesmos. Por isso, ofendemos, difamamos, espalhamos fake news, sabotamos e inviabilizamos a existência do outro.

Tem muita gente travestida de santidade e piedade, mas que destila ódio. E por incrível que pareça, usa sua fé para justificar o seu ódio sem o menor constrangimento.

Há quem use a verdade para enganar. Sem que profira uma única mentira, articula-se a verdade com o objetivo de oprimir e explorar o seu semelhante. Os tais se esquecem que a verdade deve ser seguida em amor. Sem amor ela pode ser tão destrutiva quanto à própria mentira.

Há quem se gabe de sua própria honestidade enquanto segue acumulando riquezas, sem jamais se preocupar em atenuar a miséria de tantos à sua volta. Ainda que honestos aos olhos dos homens, seguem gananciosos e presunçosos.

Há quem viva em adultério mesmo sendo fiel ao seu cônjuge, pois em vez de amá-lo, usá-o como se fosse um mero objeto. A maior parte dos estupros ocorre dentro do matrimônio. Qualquer relação sexual que não seja consensual é um estupro. O que legitima uma relação aos olhos de Deus é o amor e não um contrato ou uma cerimônia. Sem amor, um casamento não passa de um embuste.

É pecado ser conivente com uma agenda governamental negacionista da ciência, e por conseguinte, genocida. É pecado julgar e discriminar alguém pela cor de sua pele, por sua orientação sexual ou mesmo por seu credo religioso.

Homofobia é pecado!

Racismo é pecado!

Xenofobia é pecado!

Misoginia e machismo são pecados!

Explorar o trabalhador, privando-lhe de seus direitos é pecado.

Humilhar o seu próximo por sua condição material é pecado.

Tentar disfarçar seus próprios pecados ao apontar os pecados alheios também é pecado.

Pecado também é viver de maneira inautêntica, escondendo-se atrás da máscara da religiosidade ou da moral e dos bons costumes.

Pecado é tudo aquilo que desumaniza o outro, transformando-o num trampolim para alcançar nossos mais sórdidos objetivos.

Se quer viver de maneira agradável a Deus, ame mais e não perca seu tempo julgando. Viva e deixe viver. Só não se cale diante da injustiça. Seja um cordeiro em causa própria, mas um leão pela causa do seu semelhante.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

A maioria das pessoas é decente

Precisamos deixar de nos ver como o centro do mundo e apostar mais na promoção de valores coletivos e universais. Somente assim superaremos esta profunda crise.

Vivemos tempos que predominam narrativas e ideias que produzem diariamente um mito persistente de que, pela própria natureza, os humanos são egoístas, agressivos e, em situações de crise, suscetíveis ao pânico. Na realidade, diz Rutger Bregnan, é o oposto. É na crise que os humanos dão o melhor de si.  

Apesar de algumas práticas de atestados falsos, dos fura fila da vacina, da negativa de uso máscara, de descumprimento de protocolos e aglomerações proibidas, estas pessoas e manifestações são de uma minoria. Nestes 15 meses de pandemia, apesar de maus exemplos, inclusive de autoridades públicas, prepondera a coragem dos profissionais de saúde, a solidariedade dos voluntários e o altruísmo da grande maioria das pessoas. Ou seja, as pessoas, em sua grande maioria, são decentes e éticas.          

Resgato esta ideia e visão da obra Humanidade: uma história otimista do homem. Nela evidencia-se que são apenas algumas elites, ditadores e déspotas, governos e generais que costumam apelar à força bruta para evitar cenários que só existem na cabeça deles. Baseados na suposição de que o cidadão comum é regido pelos próprios interesses, assim como eles, reforçam generalizações que não representam a totalidade das comunidades humanas.   Cabe insistir que nossa humanidade deve sobrepor-se a animalidade, nossa sociabilidade sobre individualidade, nossa inteligência coletiva sobre o egocentrismo, a cooperação sobre a ganância e a justiça sobre a desigualdade promovida. A educação deve promover as potencias afetivas humanas positivas em detrimento das negavas e pessimistas.

Os seres humanos se tornarão melhores quando conseguirmos mostrar quem são e como podem humanizar-se durante toda sua vida, pois não nascemos humanos prontos, mas com capacidades de nos humanizarmos. Como? Através da educação, do trabalho, da ciência e da cultura. Nós não vamos conseguir dissolver nenhum tabu, nenhum paradigma, se não for pelo caminho da educação, cuja, principal missão, é formar humanos, por humanos, para o bem da comunidade.

A partir da ruptura social, aprofundada pela Covid, é preciso repensar o papel do ser humano na Terra. Precisamos deixar de nos ver como o centro do mundo e apostar mais na promoção de valores coletivos e universais. Somente assim superaremos esta profunda crise.  

A perspectiva ética almejada deve estar assentada numa relação de vida boa com o outro, para o outro, em sociedades e instituições. Portanto, é injustificável que o homem imponha e generalize os seus valores, inevitavelmente particulares, pois ele não é a causa nem o centro do mundo.

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alex Rosset

    

Isolamento social pode estar afetando desenvolvimento da fala das crianças

Fonoaudióloga e professora da UPF esclarece a respeito da linguagem e orienta sobre a estimulação para o desenvolvimento da fala

A pandemia da Covid-19 transformou o mundo no âmbito econômico, social, educacional e de desenvolvimento.

Os reflexos disso ainda estão sendo sentidos e conforme especialistas há muito a ser estudado. Mas quando se fala em desenvolvimento, lembramos de uma geração de crianças que nasceram durante a pandemia e que não conhecem outro mundo que não o do isolamento social. Dessa forma, as interações voltaram-se para pais e familiares mais próximos, cerceada pelos “muros” dos cuidados para evitar o contágio da doença. Contudo, muitos pais têm se preocupado com o desenvolvimento da linguagem das crianças que parecem estar mais lentos no período.


Conforme a coordenadora do curso de Fonoaudiologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), a professora Dra. Luciana Grolli Ardenghi, a linguagem começa a desenvolver-se desde o nascimento. “A criança inicialmente está plenamente engajada em uma interação social com o adulto. Entretanto, suas habilidades primeiramente estão direcionadas para a compreensão da linguagem e posteriormente, com a maturação neurológica, a linguagem começa a ser produzida por meio de vocalizações, balbucios, palavras e frases”, explica.

 Para Luciana, a linguagem é uma função social que precisa de interação e os exemplos em casa são fundamentais. “Os pais e irmãos são excelentes modelos para as crianças, entretanto o isolamento social vivenciado durante a pandemia da Covid-19 criou situações atípicas para as famílias. Pais que, apesar de estarem juntos fisicamente, não estavam disponíveis para a interação e, dessa forma, temos observado dificuldades na interação linguística da criança. Trata-se de mais um efeito negativo da pandemia”, comenta.

Ainda conforme a professora, pelo tempo extenso de distanciamento social, as experiências interativas das crianças foram alteradas. “Ainda estamos avaliando a repercussão desses fatores no desenvolvimento global, mas é certo que produzirão efeitos a longo prazo de forma mais ou menos intensa. Por isso, os profissionais precisam estar mais atentos aos critérios diagnósticos das patologias da linguagem”, destacou.

Marcos de desenvolvimento

De acordo com Luciana, há marcos no desenvolvimento das crianças em que os pais devem ficar atentos. Aos 6 meses, as crianças devem estar engajadas em jogos vocais com os adultos, caracterizados pelos balbucios (mamama, papapa, entre outros). Por volta de 12 aos 18 meses de idade, surgem as primeiras palavras e a velocidade de aquisição aumenta muito nesse período. “Chamamos essa fase de ‘explosão de vocabulário’, pois os pais relatam literalmente que ‘a criança está aprendendo muito rápido’. Em função desse repertório variado de palavras que a criança adquiriu, ela começa a juntar essas palavras em frases que inicialmente são compostas por duas palavras (‘nenê mamá’, ‘qué papá’) e ampliam-se até os 36 meses, quando produzem frases relativamente completas”, afirma.

Ainda conforme Luciana, é importante respeitar o ritmo de cada criança e, em caso de dúvidas, buscar o auxílio de um fonoaudiólogo, pois nessa fase é muito comum a família ter dúvidas sobre o desenvolvimento da linguagem da criança.

Estimulação
O ambiente no qual a criança está inserida é fundamental para a estimulação. Pais, mães, irmãos e avós são excelentes exemplos e modelos linguísticos e cada membro da família tem um papel importante nessa relação. “Essa troca se faz por meio de uma grande variabilidade de estímulos. A dica principal é variar os estímulos, acolher a linguagem da criança, apesar de suas dificuldades, questionar quando não compreender, proporcionar um ambiente seguro e desafiador ao mesmo tempo”, disse.

Dicas
Atitudes estimuladoras
: aguarde, espere, fique atento ao que a criança quer expressar. Brinque e divirta-se com jogos que a criança goste e desafie seu filho em novas brincadeiras.

Evite: ficar pedindo para a criança repetir, usar diminutivos (casinha, bonequinha, etc), falar em excesso sem dar tempo para a criança pensar.

Fique atento: quando as necessidades da criança são atendidas muito rapidamente e quando não há desafios adequados a sua idade no meio ambiente.
Importante: Crianças com distúrbios de linguagem têm a tendência de desistir facilmente ou frustram-se quando não são compreendidas. Por isso, crie um ambiente de acolhimento e carinho nessas situações. Além disso, as crianças não perdem habilidades adquiridas. O desenvolvimento é um processo contínuo. Por isso, quando a criança “esquece palavras” ou “para de falar” são sinais de grande risco para o desenvolvimento.

Clínica de Fonoaudiologia da UPF

A Clínica de Fonoaudiologia da UPF possui um conjunto de ações nas quais a comunidade pode beneficiar-se por meio de programas que realizam avaliação, tratamento e orientação às famílias.

Mais informações podem ser obtidas pelo telefone: (54) 3316-8498, nos horários das 16h às 21h.

Foto: Arquivo/UPF  

Edição: Alex Rosset

O ensino da filosofia às crianças

As crianças nascem filósofas, nós é que vamos adormecendo a filosofia dentro delas quando lhes damos respostas prontas para tudo o que nos perguntam.

Filosofia é coisa de adulto. Será mesmo? Será que Platão estava certo ao dizer que só os adultos devem estudar filosofia? Que ensino é este que faz as crianças pensarem de forma crítica e reflexiva capazes de formular as suas próprias opiniões senão a filosofia? Por que ela nos causa tanto medo? Por que as crianças gostam tanto de filosofar?

Não está na hora de revermos os nossos conceitos sobre essa educação que prioriza a compreensão de fórmulas matemáticas e decoreba de regras gramaticais por uma educação que leva a um pensar além da sala de aula?

Alguns educadores, teóricos da educação e até mesmo filósofos dizem que a filosofia não deve ser ensinada às crianças. Eu discordo disso.

Acredito que a filosofia é tão linda e tão maravilhosa às crianças que todas elas deveriam desde a tenra idade aprenderem a filosofar junto com os demais filósofos da nossa história. Talvez a discussão seja o motivo da nossa filosofia ser levada muito a sério e ter os seus conceitos muito complexos e áreas de estudo difíceis como a metafísica. Não sei.

As crianças estudam muitas coisas difíceis e complexas, pois tudo que é novo não é fácil de aprender. E se nos disponibilizarmos a ensinar-lhes desde cedo os conceitos da moral, das virtudes e dos vícios elas vão compreender dos seus jeitinhos.

Assim são os homens, cheios de mimos, de espanto, de curiosidade. Homens que investigam a natureza à procura de respostas às suas indagações. Afinal, já perguntava Sócrates: “Quem sou eu?” Esta pergunta nos leva a indagar sobre o futuro da humanidade e quem seremos nós daqui a alguns anos com esse crescimento desenfreado. Leia mais!

Claro que não podemos exigir que uma criança pense e tenha a opinião de um adulto. E também não devemos empurrar a filosofia goela adentro da criança, afinal todo ensino deve ser oferecido com cuidado, amor e sabedoria.

A filosofia questiona o tempo todo as coisas ao nosso redor e as crianças são eternas questionadoras. De uma certa forma, elas nascem filósofas, nós é que vamos adormecendo a filosofia dentro delas quando lhes damos respostas prontas para tudo o que nos perguntam.

Não temos mais paciência para conviver com as nossas crianças, nem sentarmos com elas para apreciar um fenômeno da natureza, não temos mais tempo para conversar com as nossas crianças assuntos que as levem a um pensar crítico e reflexivo.

Ficamos impacientes quando as crianças começam a nos encher de questionamentos sobre coisas que nunca pensamos e como somos donos do saber e nos achamos muito inteligentes diante das crianças não admitimos para elas que não conhecemos tais assuntos para que não nos passarmos por ridículos diante desses pequenos seres que estão cheios de curiosidades e que nós poderíamos despertar-lhes cada vez mais essas curiosidades para os mais diversos assuntos do mundo contemporâneo.

Somos os culpados das nossas crianças ao invés de estarem filosofando viverem o tempo todo presas a aparelhos eletrônicos, viciadas em jogos e redes sociais. Fomos nós que formamos essa geração tecnológica. Fomos nós que tiramos dela a beleza do pensar reflexivo e crítico. Não devemos culpá-las.

Talvez nunca mais vejamos as nossas crianças e jovens pensando e fazendo perguntas intrigantes como víamos há algum tempo. Estamos deixando as nossas crianças robotizadas e nem percebemos isso no corre-corre dos nossos dias. Os pais já não têm mais tempo para conversarem com os seus filhos, as escolas estão preocupadas em prepará-los para exames nacionais e competições as mais diversas.

Ensinar filosofia às crianças está cada vez mais difícil. Primeiro porque o Ministério da Educação não tem interesse em implantar essa disciplina nas primeiras séries do ensino básico, os professores não estão preparados e falta material didático. O ensino da filosofia proporciona à criança um olhar diferente diante do mundo e das pessoas ao seu redor.

A criança que tem contato com a filosofia desde a tenra idade nunca ficará calada diante de uma opinião pronta que lhe seja oferecida. Ela terá argumentos para negar certas opiniões.

Talvez por não desenvolvermos o pensamento crítico e reflexivo das nossas crianças é que estamos vendo o fracasso dos nossos jovens no Ensino Médio e no exame nacional de ensino médio quando esses não coonseguem escrever uma redação porque não sabem como argumentar, formular uma opinião e elaborar uma solução para um problema.

A filosofia não só contribui para a instrução da criança, mas também para a sua formação espiritual. Uma criança que estuda filosofia está mais preparada para lidar com os percalços da vida, sabe enfrentar os desafios e os problemas que surgem ao longo do seu viver.

Não quero dizer aqui que a filosofia seja a salvadora das crianças, mas quero afirmar com toda a certeza que ela é de fundamental importância na sala de aula da infância, pois pode ajudar na compreensão e facilitação do ensino-aprendizagem das demais disciplinas.

Também não quero dizer que qualquer pessoa esteja preparada para ensinar filosofia a uma criança. Não é verdade. Ensinar filosofia às crianças exige formação superior de licenciatura e pedagogia.

Antes de se ensinar a filosofia às crianças é preciso saber se o educador ama a filosofia. Não saberá ensinar filosofia aquele que não a conhece ou que faz apenas para complementar as suas horas de trabalho. É um mal às crianças colocar um professor para lhes ensinar filosofia que não goste do que faz.

Também chamo atenção para o cuidado de como se ensinar a filosofia às crianças. Muitos professores pensam que é somente se fantasiar de alguma coisa e contar uma historinha para a criança. Nada disso. A contação de histórias é um meio importante para o ensino da filosofia às crianças, mas deve ser contada de forma séria e alegre ao mesmo tempo para que não fique apenas no lúdico e acabe fazendo com que a criança apenas se distraia e não atente para a essência do que se quer passar através daquela história.

Falei acima da falta de material didático para o ensino de filosofia para crianças, mas este não é um obstáculo. Já existem muitos bons escritores com livros paradidáticos que trazem histórias que podem ser trabalhadas em sala de aula com esta disciplina. Também podemos encontrar na internet um bom número de material didático especialmente criado para as crianças.

O problema é que as editoras não investem em autores desconhecidos. Preferem publicar um material de difícil compreensão por parte dos professores e alunos de um filósofo renomado do que publicar o material de um professor que tem mais experiência de sala de aula na disciplina de filosofia para crianças.

O ensino de filosofia deve ser oferecido em salas de aulas com ventilação, cartazes coloridos nas paredes, tapetes no chão, almofadas para as crianças sentarem ou até mesmo deitarem, janelas abertas e um vaso de flores na mesa do professor. O ambiente deve ser aconchegante.

O acolhimento por parte do professor a cada dúvida, curiosidade ou simplesmente opinião do aluno deve ser registrado e observado com importância. A leitura é obrigatória. O diálogo também se faz necessário. Deixar que a criança descubra as suas próprias dúvidas quanto ao texto lido é importante. Tudo deve ser cuidadosamente elaborado. Nada deve ser obrigatório no ensino de filosofia às crianças.

Incentivar nas aulas de filosofia para crianças que elas criem as suas próprias histórias e elaborem perguntas sobre as coisas ao seu redor, sobre as pessoas também incentiva o pensar crítico e reflexivo.

Elaborar projetos interdisciplinares com outros professores também é uma boa ideia. Não ficar apenas nos livros paradidáticos, mas contar a história da filosofia, o seu surgimento, falar das grandes obras e até mesmo trazê-las à sala de aula de forma adaptadas vai despertar a curiosidade da criança. Como já falei acima, ensinar filosofia exige que o professor tenha imenso amor por ela e que seja um estudioso incansável das suas diversas diversas áreas.

O ensino da metafísica, da filosofia da linguagem, da filosofia da lógica, da filosofia da religião, da filosofia política, da filosofia moral e de tantas outras áreas podem despertar diversas curiosidades nas crianças. Elas podem usar essas curiosidades externas com as suas próprias e formar opiniões a respeito da realidade intrigantes.

A criança que tem a sua própria opinião não teme falar em público e nem se deixa abalar quando interrogada por um adulto curioso. Ela vai sempre ter uma resposta para oferecer a alguém.

Todos que me conhecem sabem da minha luta há mais de vinte anos pela implantação da filosofia nos currículos escolares da educação básica. No entanto, vejo que a luta não é fácil. Algumas escolas privadas ainda trabalham a filosofia para crianças, mas no ensino público não vejo mais no meu estado.

Há uma preocupação de se ensinar programação de computadores, lógica computacional às crianças como se a filosofia não fosse tão importante o quanto essas outras disciplinas. A criança que filosofa tem um pensar mais crítico capaz de criar programas com maior facilidade e que tenha utilidades maiores à sociedade. Ninguém pensa nisso.

Para ensinar filosofia às crianças, basta uma sala de aula, um professor cheio de desejo de ensinar e bom conhecimento. Apenas isso. Eu tenho lutado pela implantação do ensino de filosofia nas escolas públicas e vou continuar lutando. Há vinte e dois anos faço um trabalho voluntário com as crianças do meu bairro ensinando a filosofia. E como é lindo ensinar filosofia no meio da rua diante das estrelas!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Por que filosofia é importante na educação básica?

É inegável que, com o advento da internet e das redes sociais, se popularizaram a escrita e a possibilidade de emitir opinião sobre os mais variados temas. Isso é bom! Porém o que refiro como derrota do pensamento é o nivelamento de todas as pessoas (ou quase todas), pois há muito de exclusão social e digital na abordagem dos temas. (Rui Antonio de Souza)

Já começo me explicando. Aliás, a filosofia sempre teve de justificar sua existência e sua utilidade. Coitada!

Ser professor ou professora de filosofia neste início de século é essencial, necessário e urgente. Mais do que nunca, é preciso fazer o enfrentamento das ideias, é necessário fazer a relação do conhecimento com as novas mídias para apresentar-lhes a criticidade, é urgente fazer o resgate do sentido do conhecimento crítico/reflexivo e científico.

A filosofia se coloca, mais do que nunca, na perspectiva inter e transdisciplinar do conhecimento, principalmente na área de Ciências Humanas, como uma atitude filosófica, como uma postura crítica diante da vida e dos fenômenos, como um viés investigativo/científico e crítico da realidade social, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio.

 Nossa participação em Encontro Virtual com professor Israel Kujawa e Marciano Pereira, com abordagem do tema: Mundo digital: ensino da filosofia na educação básica.

Alguém sabe quando filosofia e sociologia retornaram às nossas escolas? Confesso-lhes que, apesar de sua recente volta, seu destino pode ser novamente o desaparecimento. Transcrevo artigo de minha autoria, escrito em 2008, que esclarece algumas pertinentes questões.

Filosofia e sociologia: bem-vindas!

“Numa espécie de “revolução silenciosa”, construída através da garra de estudantes, professores e mestres da educação, a filosofia e a sociologia retornam aos nossos currículos escolares, em 2007, em mais de 23 mil escolas de ensino médio em nosso país, através de uma Resolução do Conselho Nacional de Educação.

Bem-vindas! As suas contribuições, para além do esforço de uma formação mais integral e integradora, nos fazem crer que ainda há tempo para sermos menos céticos, mais críticos, mais atentos, mais cidadãos e cidadãs, com mais atitude, mais compreensivos, mais tolerantes, mais humanos e felizes, mais gente.

As disciplinas de filosofia, sociologia e história são importantes ferramentas para auxiliar na compreensão do ser humano, consciente e conhecedor de si mesmo e, igualmente, inserido em seu contexto social.

Temos insistido, em nossa prática cotidiana de sala de aula, na ideia de que pensar bem, como acreditavam os gregos, nos faz viver melhor. Pensar é algo inerente ao ser humano mas, estranhamente, explícita ou de forma silenciosa, muitos professam seu descrédito no pensar.

Desistindo de pensar, abrimos mão de conduzir nossos próprios rumos, uma vez que não pensar significa ser pensado pelos outros. Não se assumir, em pensamentos e ações, é também diminuir-se como ser humano.

Eu e os outros: sempre em relação

Outra percepção em nossos dias atuais é a grande dificuldade de convivência social. Vivemos permanentemente o conflito de nossas diferenças, a tensão de sermos, ao mesmo tempo, indivíduos e sociedade. Neste sentido, a sociologia, para além de nos ajudar a compreender os fenômenos sociais, poderá nos ajudar a compreender os fenômenos sociais, poderá nos ajudar a constituir e reconhecer novos valores e parâmetros de convivência.

Viver é con-viver, é tolerar, é respeitar, é somar diferenças, é sentir-se parte de uma determinada cultura que se inova e renova constantemente.

Em tempos que somos regidos pela velocidade das informações e do conhecimento, carecemos de habilidades de interpretação e compreensão do mundo. Compreendendo melhor o mundo, ampliam-se nossas oportunidades de nele intervir e com ele colaborar.

O que pode nos mudar são nossas atitudes!

Do conformismo para uma vida social mais ativa, seremos capazes de compreender o alerta de Bertold Brecht: “não diga nunca: isto é natural para que nada passe a ser imutável”.

Roda de Conversa 2- Experiências atuais no Ensino da Filosofia: em busca de perspectivas (GEPES – UPF) Assista!

Com que metodologia trabalhar com os estudantes?

Seguem algumas pistas, construídas pelo trabalho especifico de 15 anos com este componente curricular.

Acredito, como Kant, que “não se ensina a filosofia, ensina-se a filosofar”. Defendo a ideia de que professores são parturientes, seguindo a Maiêutica de Sócrates. Através do diálogo, os estudantes são desafiados a confrontar-se com seus próprios pensamentos, motivados por professores e professoras que lhes sugerem perguntas boas e essenciais, que tenham sentido para sua existência.

A partir de leituras prévias, seguidas de debate e apresentação dos diferentes entendimentos, os estudantes devem ser convidados a sistematizarem o que leram e debateram. A construção textual, feita de várias maneiras (resumos, resenhas, pequenos textos, reflexões) contribuem para fortalecer a construção dos conhecimentos, sempre além da informação e da mera opinião. Depois das leituras de textos, é importante colocar “questões para pensar”.

Outra estratégia metodológica importante é trabalhar a construção de conceitos, que nada mais é do que “dar nome às coisas, dizer o que as coisas são”. O exercício de conceituar, de resumir, de definir é tão importante quanto descrever. Reparem que, talvez, seja mais fácil para muitos de nós escrever um texto sobre felicidade, por exemplo, do que construir uma definição, mesmo que sempre provisória, da coisa felicidade.

Uma aproximação da filosofia com outros campos de conhecimento como a literatura pode favorecer o interesse e a dinamização dos conhecimentos filosóficos.

A filosofia é sempre atividade perigosa, porque instiga a pensar. Pensar bem, para viver melhor, era desejo dos gregos. Para alcançar o real desenvolvimento humano, recomendavam a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça. Na Grécia Antiga competia-se em tudo, sobretudo no campo das ideias e dos destinos da cidade (polis), tendo em vista ser cidadão (capaz de governar e ser governado). Neste sentido, herdamos o desafio de formarmos seres humanos preparados para viver a vida e a cidadania. Leia mais!

Problemáticas atuais do Ensino da Filosofia nas escolas

Elencamos algumas dificuldades que se perpetuam no Ensino da Filosofia nas últimas décadas:

  1. Pouca valorização deste componente curricular nas escolas;
  2. A maioria dos professores que atuam com disciplina não tem formação específica em Filosofia, dificultando o entendimento sobre os objetos de conhecimento e as finalidades da mesma na formação dos estudantes;
  3. Poucos períodos de aula para a abrangência das competências e habilidades da Filosofia. Na contramão desta situação, no estado do Amapá, Resolução do Conselho Estadual de educação amplia para 2 períodos semanais as disciplinas de filosofia e sociologia. Leia mais!
  • A questão do pensar crítico é atribuída, muitas vezes, somente ao professor de filosofia, quando deveria ser função de toda escola e de todos os componentes curriculares;
  • Proposta interdisciplinar da Filosofia pode reduzir a mesma a pó, por conta da falta de professores com entendimento sobre suas especificidades. Como integrar a Filosofia aos demais componentes curriculares sem a devida compreensão do seu objeto de estudo e das suas finalidades na formação crítica e cidadã dos estudantes?
  • Muitos estudantes chegam ao Ensino Médio com pouca bagagem de conhecimentos filosóficos e poucas habilidades críticas diante da vida, dos conhecimentos e dos fenômenos sociais e culturais. Leia mais!

 As temáticas apresentadas para a filosofia procuram caracterizar o objeto do conhecimento, que é o pensamento crítico e reflexivo. Para tanto, remetem sempre ao que é filosofar, aos grandes temas abordados pelos filósofos ao longo da história da humanidade , qual é o papel da lógica e da ética, da ciência e da política. A filosofia, ou o filosofar, devem ajudar a problematizar o nosso cotidiano, em busca de respostas mais elaboradas e mais consistentes e conscientes. Leia mais!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

A necessidade da reinvenção humana

Em março de 2020, quando fomos surpreendidos pela pandemia da Covid 19, imaginávamos algo passageiro, fato que os cientistas contestavam. Surgiram muitas críticas ao dito alarmismo que, na opinião dos céticos quanto à gravidade, começava a prejudicar a nação, especialmente a economia.

Depois de um ano e alguns meses, vê-se que a pandemia persiste e continua fazendo vítimas. Estes últimos tempos têm sido marcados pela consciência da enfermidade e pelo luto. Muitas famílias foram atingidas pela doença e também pelo luto devido à perda dos entes queridos.

No cenário de pandemia generalizada, fomos provocados à reinvenção ou à atitudes resilientes para continuarmos vivendo. Os processos tais quais estávamos acostumados não decorreriam da mesma forma. A máscara deixou de ser um instrumento “folclórico” e passou a ser de uso cotidiano e permanente. A atitude de lavar as mãos, tornou-se essencial no cuidado pessoal. A tônica do cuidado extrapolava o âmbito pessoal e estendia-se à família e à sociedade. Usar máscara e lavar as mãos implicava em responsabilidade social e demonstração de compromisso com o cuidado da vida e da vida do outro.

Infelizmente,  atitudes de cuidado e proteção à vida foram ligadas às ideologias ao ponto da pessoa que defendesse o uso da máscara ser chamada de comunista. Os disparates estenderam-se para outras direções, inclusive em teorias conspiratórias quanto ao uso da vacina. Em tempos que eram necessárias boas e verídicas informações circularam e continuam circulando muitas informações falsas. Muitos ainda acreditam, mesmo com evidências contrárias.

A reinvenção fez-se necessária. Fomos alçados a novas necessidades em vista da preservação da vida e da manutenção das atividades ordinárias ligadas à economia, à convivência familiar e com amigos e à prática religiosa. Entramos em um tempo de espera paciente, de adiar processos. Isto não se traduziu em tempo perdido.

Entramos no tempo dos processos mais lentos e cuidadosos. Nestes meses, fizemos planos e não os concretizamos. Organizamos atividades, mas fomos impedidos de levá-las para frente. Algumas iniciativas, aparentemente urgentes, foram suspensas e o mundo não ruiu. Ações consideradas prioritárias não foram assumidas e viu-se que poderiam ficar em segundo ou até terceiro plano.

Atrás das nuvens da pandemia e do desespero, vimos muita luminosidade boa. Descobriu-se o vizinho que se colocou à disposição para ajudar aqueles que não podiam sair de casa. Partilhou-se procedimentos em vista de um cuidado maior. Algumas pessoas dedicaram muito tempo em confeccionar máscaras para doar àqueles que não podiam comprar. Redescobrimos o bom uso da tecnologia e das redes sociais.

Muitos viram que a correria a que estavam acostumados não era tão interessante assim. A sociedade deu-se conta do valor dos educadores e educadoras que passavam horas no cuidado das crianças e adolescentes e também tiveram que se adaptar aos novos métodos de ensino.

Compreendeu-se o valor do trabalho das profissionais da limpeza pois, no pano passado no chão e na desinfecção dos móveis e ambientes está um princípio de saúde. Nos damos conta do valor desse trabalho. Quem passou pelo hospital viu que junto ao médico e enfermeiros existem tantos outros profissionais lá atuando e que são fundamentais para a recuperação da saúde.

Mesmo que alguns teimem em olhar somente para o seu mundo, alicerçado nos pilares do egoísmo, nos damos conta da necessidade da solidariedade.

As redes sociais não foram usadas apenas para semearem a desinformação e a mentira. Por elas, também passaram também as boas informações e várias iniciativas de solidariedade. A entre ajuda tem permitido fazermos esta travessia menos machucados e mais conscientes da nossa condição humana frágil, contudo propensa à comunhão.

Sentimos falta do abraço, do aperto de mão, do afago. Por vezes, não reconhecemos o amigo ou familiar atrás da máscara. Há tempos que não vemos sorrisos. Estas coisas fazem falta. Outras nem tanto. Neste tempo de enfermidade e luto, mas também de solidariedade e partilha, vamos fazendo a travessia em constante reinvenção de nós mesmos e das nossas relações.

Que lá no final disso tudo estejamos melhores aos olhos do outro e aos olhos de Deus.

Em junho de 2020, o jornalista e cartunista Leandro Dóro já fazia importantes perguntas e algumas respostas sobre o pós pandemia: “Quais aspectos serão predominantes ao final da pandemia? Quais irão morrer? Cada um tem uma resposta particular. Mas também necessitamos de uma pesquisa científica avalizada em métodos para que possamos ter uma abalizada interpretação do porvir. Leia mais!

Autor: Pe. Ari Antônio dos Reis

Edição: Alex Rosset

Narciso não tira férias

A pandemia deu uma freada no espetáculo da auto exposição, mas o mundo parece querer voltar ao normal, e voltar ao normal significa poder desfilar novamente, mostrando-se em forma para aparecer nas redes e arrasar, acumulando curtidas e apreciações de lindo/a.

Feios são os outros. Maus também. Ignorantes, nem se fala. Narcisistas que somos, achamos feio, mau e ignorante tudo o que não é espelho.

Vivemos tempos de bolhas, de replique do mesmo, de imunidade com a alteridade, de adoração a pequenos deuses criados a nossa imagem e semelhança e embarcamos na crescente onda de intolerância e violência ao diferente, à mulher, ao pobre, ao negro, ao índio, ao homossexual, aos de outro campo ideológico, aos de outra sensibilidade religiosa e cultural etc. Narciso nunca tira férias, contrariando Caetano.

Cada época tem seus mitos explicativos e a nossa não é uma época prometeica, nem abraâmica, nem marxista e, muito menos, crística. A nossa época é narcísica.

A pandemia deu uma freada no espetáculo da auto exposição, mas o mundo parece querer voltar ao normal, e voltar ao normal significa poder “desfilar” novamente mostrando-se em “forma” para aparecer nas redes e “arrasar”, acumulando curtidas e apreciações de “lindo/a”. A superficialidade da pele parece ser o que há de mais profundo em nosso tempo…!

Recordemos o mito.

Narciso era filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. A gestação foi penosa e indesejada, porque Liríope não amava Cefiso. Se fosse hoje, talvez a gravidez fosse interrompida, mas a ninfa, que não é de hoje, aguentou até o fim e, enfim, veio à luz um formoso e belo menino. Tão formoso e belo que causou apreensão. Em excesso, nem beleza é boa.

Para os gregos, origem cultural desse mito, a beleza em excesso assustava porque abria caminho para a hýbris, isto é, a desmesura, a insolência, o orgulho e a arrogância. Em outras palavras, quem é bonito demais, tende a “se achar”.

Mas, voltemos ao mito.

A preocupação, pelo excesso de beleza de Narciso, tomou conta de sua mãe Liríope porque entendia que a beleza concentrada no seu filho causaria desequilíbrio e poderia provocar a ira da deusa da justiça, Nêmesis.

O temor pelo futuro do filho a fez procurar o velho e cego Tirésias, o mais célebre adivinho da Grécia, para saber do seu destino e quantos anos viveria. Tirésias profetizou que a vida dele seria normal e longa “se não se visse”. Profecia estranha, mas na mosca!

Narciso cresceu e as ninfas e as moças enlouqueciam de paixão por ele. Elas jamais tinham presenciado tamanha beleza. E ele gélido, indiferente, “nem aí’, “na dele”. Não dava a mínima, para nenhuma das pretendentes. Até que apareceu o amor incontrolável de Eco que o perseguia por onde quer que ele fosse. Narciso a repeliu indiferente e ela caiu na mais absoluta solidão e tristeza.

Essa condição a levou a parar de se alimentar até morrer e se transformar num imenso rochedo capaz apenas de repetir os sons do que se diz. As demais ninfas ficaram furiosas e exigiram vingança de Nêmesis que, prontamente, condenou Narciso “a amar um amor impossível’.

E, então, o destino se fecha.

Era verão e Narciso saiu para a floresta para caçar e depois de muito andar, cansado e sedento, aproximou-se de uma límpida fonte de água para mitigar a sede. Debruçou-se sobre as águas e “viu-se” projetado, como num espelho, e não mais conseguiu fazer outra coisa senão se contemplar. Apaixonou-se pela própria imagem. Nêmesis cumpriu a maldição e Tirésias a profecia.

O mais belo dos efebos morreu, vendo-se. O corpo jamais foi encontrado e no lugar onde morreu nasceu uma linda e delicada flor de pétalas amarelas: narciso!

Moral da história.

Bom é tudo o que promove a vida e mau é o que promove e leva a morte. A morte, se for consequência da defesa de uma grande causa, como a causa de Jesus, que era de promover mais vida e vida abundante para todos, então não será em vão e produzirá muitos e bons frutos. Mas, se a morte for a consequências da incapacidade de sair de si para fertilizar o mundo com amor e solidariedade, então será a morte de uma vida sem sentido.

Será que estamos vivendo uma vida sem sentido, voltados para si, aficionados em aparecer mais do que ser, agarrados ao culto da imagem, mas vazios e ocos, obcecados pelo consumo e pouco afeitos à criatividade e ao amor ao próximo?

Se a resposta a essa pergunta foi sim, então está na hora de ultrapassarmos afase narcisista e voltarmos a cultuar o verdadeiro Deus e não suas sombras.

O mito de Narciso parece querer nos revelar essa sabedoria. O trágico destino de Narciso é, na verdade, uma lição para não seguirmos o mesmo caminho.

O discurso e a prática de autoreferencialidade, a pregação de si mesmo, tão criticados pelo Papa Francisco, precisam encontrar um lugar de saída para que o afogamento não seja o nosso destino. Isso vale, inclusive, para a nossa sociedade e para o nosso sistema político que não consegue encontrar o caminho de volta do buraco lamacento em que se meteu depois que elegeu como líder máximo um discípulo feito a imagem e semelhança da coisa mais feia nunca antes produzida.

Tenho prazer em pensar perguntas sem respostas que sejam definitivas. É a mania dos filósofos, perguntar, lá onde o senso comum não vê problema algum. Os teólogos também fazem perguntas essenciais, mas eles sempre são socorridos pelo além, pela revelação que vem de fora. O filósofo não. O filósofo está no limite da razão. No máximo pode ter intuições e inspirações humanas, demasiadas humanas, mas nunca divinas. O que lhe é limite é, contudo, sua grandeza. Leia mais!

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

Relações e diferenças entre o virtual, o digital e o material

Precisamos nos orientar e nos sintonizar com o sentido para o digital, que se caracteriza por representar uma realidade física, mas indica um sentido e uma realidade que não é mais material, como por exemplo, auditório ou sala.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) ensina sobre o poder da linguagem em geral e das palavras, em específico, na simbolização e representação do mundo. A primeira fase da sua produção filosófica foi dedicada para buscar um sentido lógico, objetivo, universal para a linguagem.

Seu objetivo estava inserido em um movimento filosófico que almejava construir uma linguagem exata, sem ambiguidades para esclarecer de modo universal os grandes problemas filosóficos e existenciais. Após realizar o percurso da sua construção demonstrou que não é possível construir uma linguagem, lógica, exata, universalmente válida.

Na segunda fase da sua construção filosófica, Wittgenstein continua afirmando a centralidade da linguagem como uma construção cultural e ponto de partida para representar nosso pensamento. Deste modo, o sentido da linguagem não está restrito ao determinado pela gramática ou por leis universais, mas se estabelece a partir do contexto em que é usado.

A valorização da linguagem, do poder das palavras, não é uma inovação deste brilhante pensador austríaco, pois foi difundido pelo platonismo, pelo cristianismo e continua sendo criteriosamente usado pelos grupos e instituições de comunicação.

As transformações decorrentes da digitalização, potencializadas com ampliação no uso da internet, sugerem que estamos inseridos na culminância de uma mudança de época. Para compreendermos este mundo em mudança, no qual estamos inseridos, precisamos perceber que a linguagem em geral e as palavras em específico têm grande impacto em nossas vidas.

Este impacto, demonstrado pelo platonismo, pelo cristianismo e pelos filósofos da linguagem, salienta a relevância de pensar no sentido e nos novos sentidos para as palavras. Podemos pensar, por exemplo, no sentido da   palavra “auditório”.

O sentido de auditório, deixou de ser apenas um lugar físico, apesar da continuidade da sua existência material. Importante, também, nos atentarmos para o sentido da palavra “virtual”, cujo sentido se vincula ao imaginário, sem vinculação material.

Por fim, e com muita centralidade em nosso cotidiano atual, precisamos nos orientar e nos sintonizar com o sentido para o digital, que se caracteriza por representar uma realidade física, mas indica um sentido e uma realidade que não é mais material, como por exemplo auditório ou sala.

Nesse ativismo exagerado, existem poucos espaços para o autocuidado em todas as suas formas. Numa época de mudanças profundas, desafiados a desenvolver nossa resiliência, devemos pensar e ajustar nossa organização em todos os níveis, com disciplina, para que se transforme, a médio prazo, em hábitos sustentáveis. Leia mais!

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Como nascem as balas perdidas

Para ser sincero, como homem branco, eu não tenho argumentos para explicar de modo claro como nascem as balas perdidas. Só sei como morrem os tão pobres e tão pretos quando se encontram com elas.

Sou pardo, mais para branco, embora tivesse um avô negro e uma avó indígena. Tenho um filho mulato, um irmão negro e, como todo branco gosta de dizer, tenho amigos negros e isso já parece ser um álibi antirracismo.

No seminário – acreditem, estudei para ser padre – nunca tive um colega negro. Na faculdade de Direito, também nenhum colega negro. Sou funcionário público federal e, em quase 30 anos de trabalho, tive apenas dois colegas negros.

Como dizem que não há racismo, acho que ser branco no Brasil, de alguma forma, está ligado a algum tipo de sorte, um ICI – índice de coincidências incríveis.

Nunca fui parado andando de bicicleta, e mesmo quando uma viatura passou na Vila Vergueiro, enquanto eu tirava fotos, não fui abordado nem me exigiram documentos. Até já me desentendi num caixa de supermercado e ninguém me matou, e nunca fiquei naquela posição em que policiais apalpam as pessoas. Isso é inacreditável.

A coisa mais sortuda da minha vida de branco é nunca ter me encontrado com uma bala perdida. Vejo no noticiário que ser preto, e ser pobre, junto ou separado, aumenta a chance do universo de que você se encontre com uma bala perdida mesmo se estiver dentro de casa.

Balas perdidas são seres criados com o fim de servirem de alimentos para pobres, ração para bichos de estimação, adubo para plantas e, especialmente no Rio de Janeiro, são produzidas para alimentar os peixes e garças da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Apesar dessa natureza das balas perdidas, se elas não acham esse rumo tão bonito para o qual foram criadas, elas se transformam em zumbis metálicos cheios de ódio. E, não sei por quais cargas d´água, as balas perdidas acabam se tornando mortais quando encontram alguém preto, ou preto e pobre, sejam qualidades juntas ou separadas.

Negros e pobres, por alguma razão do universo, contrário de mim que sou branco, tem o azar de encontrar uma dessas balas perdidas que não tiveram o fim humanitário para o qual nasceram.

Essa coincidência incrível de alguém preto se encontrar com uma bala perdida não é na mesma intensidade, desse mesmo sujeito, de conseguir estar na faculdade, ou em algum cargo de maior relevância.

É como se nascer pobre e preto tivesse um destino. É algo muito parecido do destino com que nascem as balas perdidas, só que na proporção inversa.

Kethlen Romeu foi uma das últimas pessoas negras que, justamente, nessa semana, encontrou-se com uma bala perdida. Por causa do ICI (índice de coincidências incríveis) ela era negra e pobre, embora não morasse na favela. E estava grávida de um bebezinho negro que, muito antes de nascer, já fez partes das estatísticas.

Para ser sincero, como homem branco, eu não tenho argumentos para explicar de modo claro como nascem as balas perdidas. Só sei como morrem os tão pobres e tão pretos quando se encontram com elas.

Autor: Pablo Morenno

Edição: Alex Rosset

Estão matando a essência da educação!

Crédito: Getty Images/iStockphoto

Qual é o tempo de um professor ou uma professora estudar, planejar e criar atividades que resultem num processo de aprendizagem e não num repasse mecânico de conteúdos aos estudantes? Que sentido tem a aprendizagem em tempos de pandemia?

A problemática da excessiva burocracia na educação, sobretudo a partir dos tempos da pandemia, vem sendo discutido por este site faz um bom tempo. Mas uma postagem, em rede social, do professor e educador brasileiro Celso Vasconcellos, reproduzindo texto de nossa autoria, nos faz aprofundar mais o tema, pois chamou atenção para a seguinte questão: a burocracia é um fim em si mesma ou um meio de registrar a atividade docente?

Escrevemos: “Cada dia que passa, sinto que roubam meu tempo e minhas energias de professor com burocracias excessivas, que não faziam parte de nossa rotina docente. Definitivamente, não é pela aprendizagem dos estudantes, mas pela comprovação estéril de que estamos fazendo educação. Triste e lamentável! Simples assim!”. Celso Vasconcellos fez postagem com esta escrita e acrescentou: Burocracia como meio ou como fim?A repercussão que o texto “Não precisamos mais dar aula” (Acesse aqui!) do professor Laércio Fernandes dos Santos, tanto em número significativo de acessos quanto às significativas reflexões sobre o tema em diferentes grupos nas redes sociais é uma prova recorrente desta problemática acima levantada em diferentes lugares do Brasil.

Em publicação recente, pensando sobre os tensionamentos que a escola vem passando a partir da pandemia, escrevemos:

“pensar a escola de agora, neste momento pandêmico, com seus limites e potencialidades e com a possibilidade de maior uso das tecnologias e das plataformas educacionais, parece ser o caminho para melhorá-la. Fora disso, nossa tentação será repeti-la como mera reprodutora de conteúdos e sem diálogo com a vida e com as maiores necessidades humanas.

Qual foi a escolha dos sistemas de ensino? Em grande medida, foi transformar os professores em meros entregadores de conteúdos, planilhas, relatórios, devolutivas. Nada, ou muito pouco, de relação, de diálogo, de trocas, de conversas sobre a vida e a pandemia.  Neste quesito, há poucas diferenças entre o ensino público e privado. Resta perguntar: a escola sempre foi assim? Onde ficou e onde fica a dimensão relacional, mesmo que de forma remota e precária? Ou ela nunca contou nas relações de ensino-aprendizagem? Parece que a escolha unânime das redes de ensino é pela validação do ano escolar, através da burocracia”. Leia mais!

No nosso modesto entendimento, as redes de ensino públicas adaptaram muito abruptamente os seus processos pedagógicos e de ensino-aprendizagem no modelo virtual. Para além da natural dificuldade dos professores e professoras, num primeiro momento, e da dificuldade de entendimento e operacionalidade das plataformas educativas e das redes sociais, estas redes fizeram a escolha de provar a execução do ano letivo de 2020 e o andamento do ano de 2021, através de muitas planilhas, relatórios, preenchimento duplicado de roteiros, implantação de novos sistemas de controle das frequências e registro das aulas numa proporção desmedida com o tempo que os professores dispõem para o exercício da docência.

Para a frustração dos professores e professoras, sobretudo daqueles que realizam práticas pensando a educação e a aprendizagem como processos de crescimento e evolução dos estudantes, a burocracia excessiva representa perda do tempo para elaboração e execução de atividades e de processos mais significativos e relevantes para a aprendizagem dos estudantes.

É importante lembrar que a burocracia deveria existir para registrar, não somente para comprovar o esforço que todos os professores e professoras, mais do que nunca, estão fazendo para promover a educação possível em tempos de pandemia.

Esta preocupação excessiva de demonstrar que as escolas fazem tudo o que podem, sem levar em conta as horas que os professores tem à sua disposição para o trabalho, está acarretando muitos problemas de estresse, depressão, fadiga, decepção. E o pior, está desmotivando os professores para a sua função principal: a de serem mediadores do conhecimento.

Todos os esforços, meios e estratégias utilizadas pelas redes de ensino só tem sentido se houver boas, robustas e significativas aprendizagens dos discentes.

Os profissionais da educação sofrem, também, sucessivos ataques que afrontam a dignidade da profissão e as condições de trabalho dos mesmos, revelando descaso dos órgãos públicos responsáveis pela área. As sucessivas reformas do serviço público, a suspensão de aumentos ou reposições salariais e o aumento das contribuições previdenciárias, por exemplo, acabam penalizando e passando a ideia de que o servidor público é um “peso” ou um problema para o Estado. A pandemia, por sua vez, evidenciou ainda mais o ataque aos professores e professoras, que não vem obtendo o devido reconhecimento profissional e social do seu trabalho para a formação das novas gerações.

Camila de Freitas, professora de uma rede municipal de ensino, em recente publicação neste site, aborda esta perspectiva.

Em nenhum momento nós, professores, paramos de trabalhar. Em nenhum momento eu parei de me preocupar com a alfabetização dos meus alunos. Estamos trabalhando muito mais, fazemos vídeos, atendemos ao vivo em grupos, individualmente, respondemos whatsapp, preparamos aulas para turma e para as particularidades de cada aluno e ainda damos conta da burocracia. Por que os professores estão tão irritados, magoados e ansiosos? Porque nós estamos sendo atacados por todos os lados. Por que estamos nos defendendo tanto? Porque nenhum outro setor da sociedade defende os professores. Somos nós por nós e nós pelos nossos alunos! Leia mais!

Como podemos observar, a carga excessiva de trabalho, mesclando aulas virtuais e presenciais, somadas às excessivas burocracias que os professores e professoras tem de dar conta para provar que estão trabalhando, está ocasionando um grande prejuízo para o foco principal da educação: o envolvimento e a aprendizagem dos estudantes.

Infelizmente, a tese de que a “escola boa é a escola onde os professores estudam”, defendida pelo professor Altair Fávero, fica cada vez mais longe de ser alcançada.  Ele assim escreveu, na sua entrevista ao site:

“Eu diria que o professor é um ser inacabado e quem consegue compreender isso percebe que o SER PROFESSOR é um processo continuo de construção. Essa construção se dá por meio do estudo, de vivência, de práticas e do exercício permanente de reflexividade crítica de sua própria ação. Só consegue fazer isso o professor que pensa, que ama o que faz, que sistematiza sua prática, que tem um referencial teórico para analisar sua ação e, principalmente, que tem na profissão um projeto de vida. Essa é a diferença entre um autêntico professor e um simples técnico/instrutor que faz da profissão uma ocupação para sobreviver”. Leia mais!

Seguem algumas indagações, possíveis a partir das reflexões acima desenvolvidas.

*Qual é o tempo de um professor ou uma professora estudar, planejar e criar atividades que resultem num processo de aprendizagem e não num repasse mecânico de conteúdos aos estudantes?

*Qual é o sentido da aprendizagem (remota, precária, presencial, híbrida) que as escolas estão fazendo sem olhar para o tempo, para a qualidade e para o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes?

*Por que não mudamos novamente o foco da educação para a aprendizagem dos estudantes e concentramos nossas energias e criatividade no planejamento, na elaboração de boas estratégias que busquem recuperar o terreno perdido durante esta pandemia?

*Por que não simplificamos as ferramentas e os meios para registrar o nosso trabalho pedagógico?

*Por que é tão difícil entender que a burocracia excessiva do trabalho dos professores e professoras mata justamente a vocação e a essência do trabalho educativo?

*Por que não transformamos novamente a burocracia do registro de nossas atividades pedagógicas como um meio e não como um fim em si mesmas?

Por fim, queremos afirmar a importância do trabalho dos professores e professoras neste contexto de pandemia que, a partir de seus lares e de seus recursos, garantiram a execução das aulas remotas, híbridas e presenciais (que voltam aos poucos) mesmo sem o devido apoio e o devido reconhecimento nem por parte dos gestores, nem por parte de parcela da sociedade.

A prioridade do trabalho dos professores e professoras deve ser o pedagógico, deve ser a relação com os estudantes, deve ser a exploração dos seus potenciais criativos, o uso de novas tecnologias e ferramentas educacionais e a mediação da construção dos conhecimentos. As quinquilharias da excessiva burocracia na educação só enchem tabelas de relatórios e os olhos dos burocratas que pouco entendem de educação.

Como já previa Charles Chaplin, sem saber o que viveríamos neste momento histórico: “não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

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