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Por que ensino religioso na educação básica?

O Ensino Religioso é conhecimento/ é cultura que precisa ser estudada nas escolas, visto que a religiosidade é uma dimensão que compõe o ser humano. Negar essa dimensão significaria prestar um desserviço a formação humana, cada vez mais urgente neste cenário marcado pela intolerância, pelo desrespeito a vida, pelos totalitarismos que se impõe ferindo a dignidade e destruindo o planeta terra.

Este é o segundo de três ensaios sobre o Ensino Religioso escolar. No primeiro ensaio abordamos, ainda que de forma breve, a história deste componente curricular, na sua origem vinculado a Igrejas e ao ensino de doutrina:

O catolicismo, religião considerada na época oficial e hoje a que tem maior número de adeptos, contribuiu para essa concepção de um ensino religioso com caráter catequético. Pensando na realidade brasileira isso se torna ainda mais crível se considerarmos o “descobrimento” da América Latina, a catequização dos que aqui residiam e toda educação Jesuíta que se seguiu. Você pode acessar esse primeiro ensaio aqui: https://www.neipies.com/historia-fundamentos-e-metodologia-do-ensino-religioso-escolar-ensaios-de-uma-reflexao-em-construcao/  

Neste segundo ensaio, pretendemos apresentar os fundamentos para um ensino religioso concebido como conhecimento necessário para a formação humana, que se deseja crítica, dialógica, democrática e consequentemente   marcada pela afirmação da alteridade, desta forma pretendemos oferecer uma resposta para a questão: porque é importante o ensino religioso nos currículos escolares?

Em primeiro lugar salientamos que o ser humano possui uma dimensão religiosa, as instituições de ensino, independente do sistema a que pertençam, não podem excluir do seu horizonte pedagógico essa dimensão que é tão importante quanto a política, social, psicológica e ética.

[…] ontologicamente, a dimensão religiosa compõe a estrutura do ser humano. Pressupor, por isso, a dimensão religiosa, significa acreditar que o ser humano é radicalmente religioso, no sentido de raiz e fundamento. A dimensão religiosa seria, então, um fundamento da estrutura do ser humano, e ao mesmo tempo, uma busca, uma tentativa de compreensão dos fenômenos religiosos nos induz a investigar a estrutura do ser humano, a fim de compreender o que seja “o religioso”, ou seja, a dimensão religiosa. A disciplina de ensino religioso, talvez, seja a melhor provocação para uma investigação mais profunda em torno do religioso. (BENINCÁ, 2010. p. 52).  

O Ensino religioso consiste no espaço mais adequado para investigação do fenômeno religioso, visto que no interior das instituições prima-se pela doutrina, o que se constitui em impedimento para contemplar a diversidade, a pluralidade e as especificidades dos fenômenos religiosos como aparecem nas diferentes culturas e tradições. Aqui está um argumento favorável ao ensino religioso como estudo dos fenômenos que envolvem as diferentes práticas, independentemente de serem politeístas, monoteístas, ocidentais ou orientais.

Sendo assim, entendemos também que cabe ao ensino religioso oferecer aos estudantes acesso a ampla cultura religiosa já produzida pela humanidade, visto que é da natureza da escola oferecer aos estudantes acesso aos saberes produzidos:

A escola por sua natureza histórica tem uma dupla função: trabalhar com os conhecimentos humanos sistematizados, historicamente produzidos e acumulados, e criar novos. Os mesmos são produto da experiência individual (senso -comum), da ciência, da filosofia e da teologia. Embora tenha como ponto de partida o conhecimento revelado, a teologia é uma reflexão humana, ou seja, um saber humano. (BENINCÀ, 2010, p.64).

Entendemos que o Ensino Religioso precisa ser ofertado na escola porque se trata de um conhecimento, com objetos específicos a serem estudados. Embora possa não interessar a todos, é de grande relevância que as religiões, os fenômenos religiosos sejam estudados e conhecidos. A educação não pode se eximir do dever ético de formar para posturas cidadãs, inclusivas, o que se faz a partir de valores que o ensino religioso pode ajudar a solidificar enquanto componente que possui suas especificidades e seu caráter de valorização da diversidade e dos diferentes modos de crer e viver, essa premissa se torna ainda mais crível se consideramos que no Brasil “a cada 15 horas ocorre uma denúncia de intolerância religiosa ou seja, alteridades são negadas, concepções totalitárias se impõe pela força da violência, do desrespeito, da negação da liberdade, o que se constitui em violação do 18º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do art. 5º, inciso VI, da Constituição Federal de 1988.” (PEREIRA, Marciano. 2021).  

Importante salientar que o ensino religioso, quando “ministrado” na perspectiva do respeito às alteridades, favorece para construção de uma cultura da paz, que não ocorre sem um agir democrático e coerente com os Direitos Humanos.

Ainda nesse sentido, ao pensar essa dimensão humana e acessar conhecimentos religiosos já produzidos pela humanidade, os estudantes são instigados a refletir a própria existência, a finitude e o valor da vida, a importância dos rituais, dos valores éticos e morais de cada crença, cujo fenômeno é estudado e investigado. Mais do que em outros tempos, precisamos proporcionar uma educação para a paz, visando produzir uma cultura democrática que acolha e dialogue com a diversidade, esse princípio emana da liberdade como salientou o papa Francisco em seu discurso sobre liberdade religiosa:

“A razão reconhece na liberdade religiosa um direito fundamental do homem que reflete a sua mais alta dignidade, aquela de poder procurar a verdade e de aderir a ela, e reconhece nessa uma condição indispensável para poder empregar toda sua potencialidade. A liberdade religiosa não é somente aquela de um pensamento ou de um culto privado. É a liberdade de viver segundo os princípios éticos consequentes da verdade encontrada, privada ou publicamente. (Papa Francisco 20/07/2014)

A partir deste princípio salientado pelo Papa Francisco, entendemos e frisamos que a escola é o local adequado para o estudo e a produção de cultura. É na escola que além do estudo os sujeitos se encontram com a diversidade de orientações também religiosas, por isso conhece-las do ponto de vista fenomênico significa promover a liberdade enaltecida no trecho do discurso citado acima. Ainda sobre esse aspecto salienta Benicá sobre a sala de aula:

Um espaço onde o fenômeno   religioso pode ser observado é a sala de aula. O fenômeno é evidenciado: na curiosidade dos alunos sobre “verdades” que envolvam o tema do mistério e do absoluto; no vinculo dos valores e comportamentos morais com as doutrinas das instituições religiosas. Esse fenômeno se expressa, na maioria das vezes, em forma de contestação, como proibições: nos objetos artísticos com sugestões simbólicas; nas diferenças de credos, doutrinas rituais; nas aproximações de doutrina, de culto, de ritos em prol da saúde, entre os grupos religiosos; na capacidade de dialogar sobre o religioso, sem gerar agressão e violência […]. (BENINCÁ 2010. p. 59).

Frisamos que a escola pode valorizar a dimensão religiosa de cada sujeito e oferecer acesso à cultura religiosa, visando educar para uma cultura da paz. No entanto, não é objetivo do ensino religioso escolar propor a vivência de uma religião aos estudantes, existe o âmbito da vivência religiosa que pode ocorrer ou não, deste o seio familiar, a escola não desautoriza, não nega esse fato, ao contrário, acolhe, valoriza e dialoga com tais vivências dentro do conjunto maior de fenômenos religiosos encontrados na cultura dos povos deste o surgimento da humanidade até os dias de hoje.

O Ensino Religioso é um conhecimento/ é cultura que precisa ser estudada nas escolas, visto que a religiosidade é uma dimensão que compõe o ser humano. Negar essa dimensão significaria prestar um desserviço a formação humana, cada vez mais urgente neste cenário marcado pela intolerância, pelo desrespeito a vida, pelos totalitarismos que se impõe ferindo a dignidade e destruindo o planeta terra.

De que forma as aulas de ensino religioso podem se constituir em espaços para investigação do fenômeno religioso, para o desenvolvimento de atitudes humanizadoras fundadas no respeito a alteridade? Qual/ quais metodologias favorecem um ensino pautado nos princípios apresentados neste ensaio? Essas são as perguntas que tentaremos responder no terceiro ensaio.

Referências:

BENINCÁ, Elli. Religião, Saúde e o Popular. Passo Fundo. Editora Berthier 2010.

PEREIRA Marciano. Palavras de Esperança e Religiosidade em Tempos de Pandemia. Disponível em https://www.neipies.com/palavras-de-esperanca-e-religiosidade-em-tempos-de-pandemia/#_ftn1 Acesso 02/09/2021.

Audiência com os participantes da Conferência Internacional “A liberdade religiosa segundo o direito internacional e o conflito de valores” Sala do Consistório – Vaticano Sexta-feira, 20 de junho de 2014. Disponível em https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/discursos/discurso-do-papa-sobre-liberdade-religiosa-200614/ Acesso 05/09/2021.

Autor: Marciano Pereira

Edição: Alex Rosset

Aqui os saberes se humanizam

O Centro de Ensino Médio Integrado UPF, mantido pela Fundação Universidade de Passo Fundo, atua em nossa comunidade há 32 anos, oferecendo a nossos jovens cursos de ensino médio e de educação profissional, estes por meio de cursos Técnicos e de Especialização Técnica. Atualmente, atende a mais de 600 alunos e conta com importante diferencial, visto que, seus estudantes têm acesso a laboratórios, à rede de bibliotecas da FUPF e a uma plataforma digital própria para as aulas on-line.

O Centro de Ensino Médio Integrado UPF é uma instituição de ensino cuja função básica consiste na formação de cidadãos competentes, conscientes e comprometidos com a construção sistemática e crítica do conhecimento, pessoal e coletivamente, a partir da interação entre os vários sujeitos nela envolvidos. Além disso, propõe-se a desenvolver a solidariedade, a criatividade, a responsabilidade, os direitos humanos, os imperativos ecológicos, a valorização da vida e a compreensão da cultura e da história.Queremos destacar a importância deste Educandário, de inspiração humanista, na formação de jovens estudantes da cidade de Passo Fundo e região, entrevistando o diretor Jonir Dalbosco.

SITE NEIPIES: Professor Jonir, fale-nos da sua atuação e da atuação da sua equipe junto ao Centro de Ensino Médio Integrado UPF. Quais são os desafios atuais? 

Professor Jonir Dalbosco: Primeiramente, agradeço a oportunidade de poder apresentar um pouco sobre nossa instituição de ensino que, neste ano, completa 32 anos na formação de adolescentes, jovens e adultos por meio de nossos cursos de Ensino Médio, Técnicos e Especialização Técnica. Neste ano, estamos trabalhando para a implementação do novo Ensino Médio, para cursos Técnicos na modalidade EaD e para a implantação do Ensino Fundamental. Neste cenário, compreendo que a gestão educacional necessita estar sempre atenta, atuante e embasada nas legislações vigentes para fundamentar o desenvolvimento de novas práticas educacionais, as quais envolvem não somente o processo de ensino e de aprendizagem, mas também a formação integral de nossos estudantes. 

Acredito muito que a sensibilidade da gestão com as individualidades de nossos estudantes, professores, colaboradores e famílias seja determinante para que o desejo e o sentimento de pertencimento em relação à escola e ao processo de formação aconteça de forma leve e natural, sem obrigatoriedade e, sim, de forma prazerosa. Em relação aos desafios, acredito que eles são e sempre serão muitos, pois a vida nos impõe desafios diários e eles estão presentes em qualquer instituição.

No momento, porém, os desafios são mais intensos, devido à pandemia que trouxe mudanças de cenários e um novo formato de ensinar e aprender por meio das plataformas digitais, além da vigilância constante para que os protocolos sanitários e de distanciamento sejam cumpridos por toda a comunidade escolar, zelando sempre pelo bem-estar, pela saúde e pela segurança de todos. Também, o momento é de compreensão e de sensibilidade em relação à aprendizagem de nossos estudantes durante as aulas on-line, híbridas, e agora com a presencialidade. Entendo que os desafios são como combustíveis, necessários para que o movimento educacional aconteça.

SITE NEIPIES: Qual é o diferencial que este educandário oferece para a formação dos jovens estudantes? 

Professor Jonir Dalbosco: O diferencial de nossa instituição está primeiramente no acolhimento individual e coletivo que oferecemos a toda a nossa comunidade escolar, em especial aos nossos protagonistas, os estudantes. Oportunizar espaços que promovam o sentimento de pertencimento, e o convívio feliz e compartilhado com colegas, professores e colaboradores; costumo dizer que “onde há felicidade, há aprendizagem”. A infraestrutura da Fundação Universidade de Passo Fundo (variedades de laboratórios, ampla área verde, espaços diferenciados para educação física, biblioteca, centro de convivência, auditórios e cursos de graduação) está disponível e são compartilhados e vivenciados por nossos estudantes no ensino médio e na educação profissional. Nossa proposta pedagógica dialoga com a formação cientifica, técnica e humanista, por meio de currículos diferenciados que integram componentes curriculares, temas transversais e a interdisciplinaridade. O processo de formação acontece em diferentes cenários oportunizados pela gigantesca infraestrutura da FUPF, além do convívio diário em um ambiente universitário, onde o ensino, a pesquisa e a extensão agregam-se a nossa metodologia de ensino.

O olhar individualizado para cada um de nossos estudantes, olhar este com afeto, empatia, respeito e cuidado, a valorização de nossos docentes, o incentivo ao aprimoramento acadêmico e a formação continuada e a comunicação constante e agregadora junto às famílias são diferencias que acreditamos serem relevantes em nossa instituição e tão importantes quanto o processo de ensino e de aprendizagem. Somos a única escola de Passo Fundo que tem plano de carreira para docentes e funcionários, visto que, incentivamos o aperfeiçoamento constante e a qualidade do ensino e dos serviços prestados à comunidade escolar.

Ademais, os resultados alcançados ao longo de nossa caminhada refletem no sucesso de nossos estudantes nos concursos (Enem e vestibulares). Em relação ao Enem, o Integrado UPF tem destacado no ranking das Escolas Públicas e Particulares de Passo Fundo.

As escolhas e a vida profissional de nossos egressos nos enchem de orgulho e nos dão a certeza de que o Integrado contribuiu e certamente e continua sendo referência em suas vidas. 

SITE NEIPIES: A perspectiva humanizadora também está escrita nas finalidades do Centro Integrado UPF. Como se persegue, na prática cotidiana escolar, este objetivo?

Professor Jonir Dalbosco: A principal função de uma Escola é a formação integral de seus estudantes. Logo, muito mais do que ser um espaço que promove a aprendizagem, o conhecimento, os saberes e os fazeres, deve ser um espaço de relações, de compartilhamento, de formação de sujeitos cidadãos, um espaço individual e coletivo.

A unicidade de cada ser (estudante, docente, colaborador e família), assim como a essência trazida por cada um, precisa ser compreendida. Faz-se necessário, assim, compreender que o processo de aprendizagem é diferente para cada estudante; compreender as histórias e as experiências trazidas e principalmente compreender os anseios e as dificuldades de nossos estudantes.

Ensinar a acolher e ser acolhido, que todos possuem direitos e deveres e que o convívio com as diferenças torna as pessoas mais humanas, solidárias e felizes. Essa é nossa postura enquanto gestão, orientação educacional e educadores – protagonizamos juntamente com nossos estudantes a vida escolar acolhedora e a formação humanística. Nas palavras do Educador e Filósofo Paulo Freire, “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

SITE NEIPIES: Quais as mudanças mais significativas na educação, neste momento histórico, advindas da pandemia?

Professor Jonir Dalbosco: No meu entendimento, como professor há 27 anos, a educação só tem significado se ela for agregadora, amorosa, empática e resiliente. A pandemia que ainda nos circunda, que nos traz desafios e que ainda nos causa inseguranças e incertezas, também nos traz resiliência, novas aprendizagens e nos impõe mudanças, replanejamentos e novas estratégias para ensinar e aprender. As instituições de ensino, em todos os seus níveis (Educação Básica e Superior), necessitaram e ainda necessitam um pensar e um agir rápido, sem muito tempo para diálogos ou reflexões, pois, de um dia para o outro, a vida nos impôs levar a Escola para as residências e as residências para a Escola, e os espaços de compartilhamento das escolas se tornaram espaços enclausurados apenas conectados por intermédio da tecnologia.

No ano de 2020 e parte de 2021, o ensino presencial tornou-se remoto através das plataformas digitais. Foi um período de muitas buscas, de compreensão e de aprendizagem, quando nós professores necessitamos de instrumentalização, de formação e de ajuda mútua para que pudéssemos chegar de forma remota nos lares de nossos estudantes.

Como ensinar sem a interação presencial, sem o aconchego da sala de aula presencial? Como promover o processo de ensino-aprendizagem? Desafios constantes e alguns angustiantes, como o uso de novas tecnologias e plataformas digitais. Como estimular e promover a aprendizagem dos estudantes? Como promover o desejo de estar em movimento com a escola e como avaliar? Como diagnosticar, medir e compreender a aprendizagem?

Tantos questionamentos que ainda são momentos de reflexão; portanto, acredito que é possível aprender sempre, pois a cada instante a vida nos ensina, e se ela nos ensina, então estamos aprendendo. Neste contexto, se aprendemos em tempos e de formas diferente as aprendizagens durante a pandemia, e ainda nos dias atuais aconteceram e acontecem, agora é momento de compreender essas aprendizagens e de utilizá-las para um novo fazer escolar, que necessita ser mais humano, individualizado, empático, tecnológico, criativo, ousado e acolhedor. Precisamos promover a reinserção escolar, compreender as defasagens provocadas por um tempo atípico, único e sem precedentes na vida das pessoas e em especial de nossa comunidade escolar.

Durante a pandemia, a aproximação com as famílias e com os estudantes foi ainda maior, mesmo que distantes, mas, conectados pela tecnologia. Foi possível perceber que alguns adolescentes adoeceram ou passaram por abalos de sua saúde mental, ocasionados pelo isolamento social e pela falta da interação, que é extremamente relevante nesta etapa da vida. As aulas remotas, as atividades domiciliares e a falta de compartilhamento presencial no processo de ensino e de aprendizagem também contribuíram para esse sofrimento, que ainda está presente atualmente, mesmo com as aulas presenciais. A orientação educacional tem um importante papel na escuta, na compreensão, no diálogo, nos encaminhamentos e na mediação entre estudante/família e docentes.

SITE NEIPIES: Apesar deste contexto de rápidas mudanças, o que, na sua avaliação, deve permanecer como essência, na educação?

Professor Jonir Dalbosco: Em minha leitura de mundo, o que deve permanecer sempre é o bem maior, “a vida” e para a sua manutenção, a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas. O cuidar de si para cuidar do outro, a importância de a escola promover espaços para diálogos e reflexões sobre a unicidade de cada um, mas, que somos coletivos, seres relacionáveis e que, portanto, necessitamos do outro, como necessitamos do ar para viver.

Acredito que a essência na educação está na resiliência, na esperança, na capacidade de adaptação e na criatividade. Necessitamos uma educação amorosa e empática, para que as pessoas se tornem mais amorosas e com pensamentos e ações coletivas, vendo o individual como necessário para existir e o coletivo como essência humana.

Acredito muito na “Educação das Sensibilidades” defendida pelo Educador e Teólogo Rubem Alves: “Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido”. Ensinar com competência, com olhar sensível, único, e promover aprendizagens significativas e que promovam transformação na vida de nossos estudantes.

SITE NEIPIES: A partir de 2022, todas as escolas implantarão o Novo Ensino Médio. Como o Centro Integrado UPF está se preparando/organizando para isso?

Professor Jonir Dalbosco: Estamos trabalhando na implementação do Novo Ensino Médio desde 2020. Nossa primeira intenção era de iniciar ainda no ano 2021; porém, fomos atropelados pela pandemia e então retomamos de forma mais intensa neste ano. Muitas leituras e releituras sobre a legislação vigente, muitos eventos on-line e vídeos assistidos com educadores sobre o novo EM. Adequações no Projeto Político Pedagógico, no Regimento Escolar e a elaboração do novo Plano de Estudos para o Ensino Médio, formação de professores, pesquisa com os estudantes e muitos encontros com a comissão e com a equipe pedagógica foram realizadas. Hoje, estamos organizando o sistema acadêmico, produzindo vídeos informativos sobre as trilhas formativas e planejando as entrevistas com os nossos futuros estudantes, os quais protagonizarão esse novo ensino médio que, na minha concepção, será inovador, desafiador e de adaptação para estudantes e docentes, assim como também para a escola e as famílias – são aprendizagens significativas, interdisciplinares e práticas, vivenciadas através de suas escolhas.

Nosso currículo será de quarenta horas semanais, organizados pela Formação Geral Básica (parte comum a todos os estudantes) e pelos Itinerários Formativos que compõem as Trilhas Formativas, a Formação Técnica e Profissional (parte flexível em que os estudantes podem optar pelas trilhas formativas ou um curso Técnico) e as Unidades Curriculares de Práticas Experimentais, Projeto de Vida e Projetos Integradores (Semana de Formação Integrada, Mostra do Conhecimento, Mostra de Arte, Brechó do Livro, Nós Propomos, Festival de Cinema e Circuito Integrado de Produção Textual).

A nova proposta para o Ensino Médio dialoga com os Temas Contemporâneos Transversais na Formação Geral Básica e com os Eixos Estruturantes nos Itinerários Formativos, articulados com as quatro áreas do conhecimento (Linguagens e suas Tecnologias, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Matemáticas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias).

Nossos estudantes terão a parte flexível (escolhas) no primeiro e segundo ano, e no terceiro ano será comum a todos com Formação Geral Básica e Trilhas Formativas de Aperfeiçoamento de Estudos (preparação para Enem e vestibulares). Nosso currículo oportuniza dezesseis Trilhas Formativas (Da ficção à realidade, Comunicação Criativa e Mídias Digitais, Educomunicação, Laboratório Jurídico, Identidade e Cidadania, Empreendedorismo Social, Mediação Sociocultural, Empowerment, Energias do Futuro, Gerenciamento Ambiental, Robstean: ciência em ação, Ciências da Saúde, Criatividade e Inovação, Busines School/Escola de Negócios, Building Green e Startup) e cinco cursos Técnicos (Alimentos, Eletrotécnica, Enfermagem, Mecânica e Segurança do Trabalho), que serão desenvolvidos no primeiro e no segundo ano. As Trilhas Formativas também estarão integradas aos cursos de graduação da Universidade de Passo Fundo.

SITE NEIPIES: Soubemos que haverão mudanças importantes previstas para o ano 2022, como a implantação das séries finais do Ensino Fundamental. Fale-nos sobre isso.

Professor Jonir Dalbosco: Estamos expandindo nossa Escola e será implantado em 2022 o Ensino Fundamental com a mesma qualidade e infraestrutura que o Integrado dispõe por estar inserido dentro de uma Universidade. Contará com carga horária e currículo diferenciado e integrado aos diversos laboratórios para as práticas experimentais, dialogando com a investigação cientifica, a cultura digital, a arte (dança, cênica e plástica) e a língua estrangeira dividida por nível de conhecimento, atividades de ensino (tema) orientadas pelos professores e compartilhada com os colegas de turma.  Crescer e aprender em meio à natureza e descobrindo a vida através de um novo método de ensino integrado a grandes e novas formas de ensinar e aprender.

No ano de 2022, será ofertado o nono ano, com quarenta horas semanais, e o oitavo ano, com trinta seis horas semanais; em 2023, todos os anos finas, do sexto ao nono ano; e, em 2024, todo o Ensino Fundamental anos iniciais e finais (primeiro ao nono anos). Destaco dois espaços únicos e diferenciados que estarão disponíveis aos nossos estudantes do EF, o Laboratório de Pesquisas e Aprendizagens Lúdicas – Brinquedoteca e o Centro de Referência de Literatura e Multimeios – Mundo da Leitura.

SITE NEIPIES: Como estão estruturados os Cursos Técnicos? Qual a sua importância nos dias atuais?

 Professor Jonir Dalbosco: O Centro de Ensino Médio Integrado UPF oferece para a comunidade de Passo Fundo e região, cursos Técnicos desde 1994 e já formou ao longo de sua trajetória mais de dez mil estudantes das diversas áreas do conhecimento, que hoje atuam como profissionais Técnicos de Nível Médio, em empresas, indústrias, hospitais, clínicas, rede básica de saúde, instituições de ensino e autônomos.

Nossos cursos técnicos têm duração de dois anos e carga horária de 1200 horas de aulas teórico-práticas e 400 horas de estágio supervisionado, desenvolvido em unidades concedentes conveniadas com a FUPF

Toda a infraestrutura da Fundação Universidade de Passo Fundo está disponível para os estudantes dos cursos técnicos que compartilham os mesmos espaços que os estudantes dos cursos de graduação da Universidade, laboratórios específicos para cada curso e área do conhecimento, rede de bibliotecas e mais ambientes para pesquisa. Hoje, o Integrado oferece seis cursos Técnicos (Alimentos, Eletrotécnica, Enfermagem, Mecânica, Radiologia e Segurança do Trabalho), além de uma Especialização Técnica em Radioterapia. Ofereceremos um novo curso no segundo semestre de 2022, o curso Técnico em Química. Nossa instituição também oportuniza benefícios como bolsas de 50% e 100%, crédito educativo Pravaler, desconto de até 20% para empresas conveniadas e desconto de 50% na UPF Idiomas.

Fazer um curso técnico nos dias de hoje, além da habilitação/diplomação, da formação e preparação para o mercado de trabalho, oportuniza o ingresso ou a progressão no trabalho para adolescentes, jovens e adultos. Com curta duração, menor investimento e alta empregabilidade, o curso técnico promove a qualificação por intermédio da formação inicial e garantida pela formação continuada.

Profissionais Técnicos de Nível Médio são essenciais para o mercado de trabalho, pois garantem para empresas, indústrias e outros cenários, qualidade nos serviços prestados e com fundamentação técnica, cientifica e humana.

SITE NEIPIES: Uma mensagem sua, como diretor deste importante educandário, aos adolescentes e jovens que estão à procura de uma boa escola de Ensino Médio.

Professor Jonir Dalbosco: As escolhas sempre partem de uma decisão, às vezes, acertadas e outras não. Escolher nem sempre é tarefa fácil, pois a partir de nossas escolhas, nossas histórias serão escritas.

Convido você, caro estudante, a vir conhecer o nosso querido Integrado UPF; a conhecer a nossa estrutura inserida em uma grande Universidade, com uma belíssima área verde e com espaços privilegiados e preparados para você que ainda no Ensino Médio deseja vivenciar novas experiências e oportunidades dentro de um campus universitário. A instituição conta com currículo, carga horária e processo avaliativo diferenciado, com proposta pedagógica ousada, acolhedora e formadora de sujeitos competentes e íntegros e que protagonizam, através do autodesenvolvimento, suas próprias histórias. Venha SER INTEGRADO UPF, aqui os SABERES QUE HUMANIZAM.

SITE NEIPIES: Uma frase, um pensamento, que diga algo sobre a sua atuação como diretor de escola ou que diga algo sobre a educação neste momento histórico.

Professor Jonir Dalbosco: “O saber não nos torna melhores nem mais felizes”. Mas a educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas. (Edgar Morin)

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Legendas: Abertura IX Mostra do Conhecimento Ensino Médio/ Quentão pedagógico/ Formação dos professores/Simulado/Estudos Novo Ensino Médio.

Edição: Alex Rosset

O ser e o não-ser das crianças e das árvores: de Parmênides a Paulo Freire

Cada criança e cada árvore tem o seu jeito de ser. As árvores, por exemplo, podem ser da mesma espécie, mas cada uma delas tem algo que as diferencia das outras, por isso é importante que conservemos as florestas para que possamos ter uma diversidade de árvores capazes de nos transmitir narrativas distintas, mas que dizem coisas quase sempre iguais, pois juntas e próximas umas das outras elas se conectam com os deuses e nos transmitem mensagens parecidas.

Assim dizia o poeta Manoel de Barros “Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa / Com janelas de aurora e árvores no quintal – / Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores / E ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.” Sim, Senhor ajudai-nos a construir as nossas casas mesmo no meio da cidade grande com árvores frondosas e cheias de galhos.

Para que as crianças possam desfrutar de seus frutos e folhas nos finais de tarde diante da primavera ou até mesmo do outono. Que as suas folhas sejam as roupas da terra a embelezar o chão. Em cada casa haverá uma criança e uma árvore a brincarem de ser felizes além deste mundo real, mas no mundo que só as crianças conseguem entrar, o imaginário.

Outro dia fui questionada o que é o ser das coisas e se existe o ser existe também o não-ser. Isso levou-me a pensar no filósofo Parmênides e, de repente, me peguei pensando também nas crianças e nas árvores. Nesses seres que tanto amam e fazem da minha vida uma constante alegria. Talvez nunca tenha parado para pensar na verdadeira existência das crianças e das árvores, na relação de afeto que tenho por elas e isso me deixou intrigada.

Penso que sem as crianças e sem as árvores eu não seria quase ninguém, quase nada nessa vida, porque tudo ao meu redor tem um pouco de criancice e um pouco de árvores. Já falei aqui da minha pequena floresta que foi queimada, do meu cajueiro da infância, da mangueira de dona Marilde e também vivo a falar das crianças que fazem parte do meu viver. Talvez não tenha falado tanto de como são essas crianças, e isso deixe vocês um pouco curiosos.

As minhas crianças gostam de brincar na rua. Ficam a correr pra lá e pra cá o dia inteiro. Não gostam de produtos eletrônicos. Preferem uma partida de futebol, uma brincadeira com bonecas do que ficarem presas na tela de um celular ou tablet. Também gostam de proteger a natureza e nunca pisam nas flores dos canteiros da minha rua. São crianças alegres e dificilmente ficam doentes. Estão sempre a sorrir das coisas mais engraçadas que acontece no dia a dia e com tudo fazem uma festa.

Sim, elas existem e vivem perto de mim. Gostam de gatos, cachorros, patos, sapinhos e lagartixas. Adoram fazer barulho. Quando a rua está silenciosa é porque elas estão na escola. Sim, elas fazem parte do mundo do ser, ou seja, de tudo aquilo que existe e nós conseguimos formar uma ideia no pensamento.

Estudo o filósofo Parmênides faz alguns anos. Não podemos dizer ao certo quando nasceu e morreu Parmênides, apenas localizá-lo entre o final do século IV e começo do século V a.C. Sabemos, no entanto, que ele foi o criador da Escola Eleática. O pensamento da escola eleática, dos quais também são representantes Melisso e Zenão, é marcado por não procurar uma explicação da realidade baseada na natureza.

As preocupações dos filósofos eleatas eram mais abstratas e podemos ver nelas o primeiro sopro de uma lógica e de uma metafísica. Defendiam a existência de uma realidade única, por isso ficaram conhecidos também como monistas, em oposição ao mobilismo. A realidade para eles é única, imóvel, eterna, imutável, sem princípio ou fim, contínua e indivisível.

Sempre intrigou-me a sua teoria do ser e do não-ser. Talvez para alguns sejam uma teoria simples, mas não é. Ela é complexa e exige bastante estudo e anos de pesquisa. Dizer que uma coisa é e que ela não pode ser e não ser ao mesmo tempo é meio confuso. Algo somente pode ser porque esse algo pode ser formado em nosso pensamento e tudo aquilo que nos cria uma ideia de imagem existe. O não-ser não existe porque ele não cria uma ideia. Ele é vazio de pensamento. Não pode ser pensado. Não pode ser elencado como algo que esteja em nossa mente.

Ora, apenas o ser pode ser pensado, já que o não-ser não é. Se eu não consigo ter uma ideia do que a coisa é, não posso pensá-la – e o que não pode ser pensado não é ser. Daí, Parmênides conclui que só o ser é – e que o não-ser não é.

O ser é todo inteiro – se o ser tivesse partes, algo nele seria separado, não fazendo parte do ser, mas isso seria não-ser. Consequentemente, o ser, sendo uno e indivisível, não pode ter partes e o ser é imutável – o ser não pode ter surgido do não-ser ou tornar-se não-ser, já que o ser só pode ser idêntico a si mesmo – e não pode ser e não-ser ao mesmo tempo. Acreditar que o ser foi gerado significa dizer que houve um tempo em que o ser era não-ser, o que é contraditório. Logo, o ser é eterno, sem começo nem fim.

O mesmo se aplica ao dizer e ao pensar. Só podemos pensar no que é, pois só o que é exprime-se em palavras. Pensar em nada é não pensar; dizer nada é ficar em silêncio.

Como vimos acima, o ser é inteiro e imutável e isso nos leva a refletirmos sobre as crianças e as árvores. Primeiro, começo pelas crianças que são inteiras, completas, ou seja, elas não são divididas, não são formadas por partes. A criança é um ser uno e indivisível. Cada criança é um ser, por isso nenhuma é igual a outra. E isso nos leva ao pensamento de respeito e cuidado quando formos educá-las, porque sendo diferentes têm pensamentos distintos que precisam ser aceitos pelos pais e responsáveis.

Muitas vezes, queremos que as crianças sejam iguais umas às outras e até mesmo criticamos as nossas crianças perguntando “por que você não age igual ao amiguinho?” ora, ora, ela não vai agir igual a ninguém porque ela é um ser uno que tem seus próprios pensamentos e constrói um mundo à parte que é só seu.

Assista ao vídeo: O livro As árvores frondosas e suas crianças maravilhosas é fruto da observação da natureza e suas transformações no transcurso do tempo, assim como o do contato diário com meus alunos, com seus temperamentos e particularidades. A união dessas duas vivências deu origem a uma visão poética das semelhanças entre árvores e crianças. Ele tem por objetivo despertar os leitores, de todas as idades, para a natureza que nos cerca, unindo poesia, arte, psicologia e observação atenta do mundo e de seus encantos.  https://youtu.be/covkHVyhuIQ?t=1

No que diz respeito as árvores, o ser inteiro e imutável significa que ela não pode ser vista apenas pelas suas folhas, frutos, troncos ou raízes, mas pelo conjunto completo que lhe dá essa forma. A árvore nunca será o não-ser, pois se ela é certamente não surgiu de algo que nunca existiu, ela sempre foi e sempre será. Logo, precisamos cuidar das árvores para que continuem a existir e possamos falar do que ela é, pois só assim poderemos falar sobre elas em palavras e criar ideias sobre elas.

Nesta questão do ser das árvores fica uma reflexão para todos nós: e se um dia as árvores forem destruídas do nosso planeta? É preciso que cuidemos disso urgentemente.

Como poderão as nossas crianças fazer uma ideia de pensamento delas se já não existirem mais? Como ficará o pensamento de Parmênides? Porque enquanto ser a árvore existe e não pode não-ser, porque assim não seria formada palavra sobre ela e sim um silêncio substancial.

Trago essa questão do ser e do não-ser para que possamos refletir sobre os nossos gestos e atitudes para com as nossas árvores nos dias atuais. Estamos desflorestando e queimando as árvores. Estamos cortando as árvores das nossas ruas e não plantamos mais árvores em casas. O ser das árvores é completo, é um todo, e precisa ser cuidado para que não se transforme em partes e venha a deixar de existir. E quando essas partes forem separadas simplesmente deixarão de existir e passarão a não-ser, ou seja, as árvores morrerão. 

Se derrubamos uma árvore aqui, se podamos mal podada outra ali, se machucamos o tronco de uma árvore mais acolá, se não as regamos com cuidado elas aos nossos olhares se tornarão pequenas partes e mesmo que Parmênides afirme que o ser não pode ser separado e nem feito de partes estaremos contribuindo para destruição do pensamento do nosso filósofo e das nossas árvores. Todo ser precisa ser completo na sua essência. Para existir, o ser da árvore necessita de todas as suas partes saudáveis e bem formadas nos nossos pensamentos senão elas não serão árvores nunca.

Aquilo que conseguimos pedir às crianças para desenharem numa folha de papel como sendo árvores é fácil para elas porque faz parte do ser e não do não-ser. As crianças conseguem desenhar porque é algo que existe, que elas podem pensar sobre e até mesmo conseguir falar das árvores.

A ideia do filósofo Parmênides faz-nos lembrar do não-ser também. E o não-ser é tudo aquilo que não pode ser porque nunca existiu. Se pensarmos assim as árvores poderão até continuar a ser, mas serão apenas lembranças longínquas no pensamento de cada um de nós. É como se falássemos aqui dos dinossauros. Eles existiram e foram o ser, nunca foram o não-ser e nunca serão. Apesar de fazer milênios que já se foram conseguimos desenhá-los e fazer uma ideia de como eles foram.

O que não podemos aceitar é que as árvores deixem de existir e passem apenas a serem lembranças nas cabecinhas das nossas crianças. Não queremos que aconteça com as árvores o que aconteceu com os dinossauros, mesmo porque precisamos delas para muitas coisas.

Assim sendo, para Parmênides, a verdade não precisa estar em conformidade com os fenômenos, mas, ao contrário, a verdade muitas vezes é paradoxal, ou seja, contrária ao que a opinião ou os sentidos indicam. Enquanto os pitagóricos advogavam a existência de uma pluralidade, Parmênides afirma que tudo é uno e contínuo. As crianças e as árvores são unas. Elas não se dividem em partes e nem podem estar em vários locais ao mesmo tempo.

Cada criança e cada árvore tem o seu jeito de ser. As árvores, por exemplo, podem ser da mesma espécie, mas cada uma delas tem algo que as diferencia das outras, por isso é importante que conservemos as florestas para que possamos ter uma diversidade de árvores capazes de nos transmitir narrativas distintas, mas que dizem coisas quase sempre iguais, pois juntas e próximas umas das outras elas se conectam com os deuses e nos transmitem mensagens parecidas.

Os nossos sentidos às vezes nos enganam e, quando pensamos que uma árvore nos diz tal coisa sobre si, ela está querendo dizer outra coisa que não conseguimos construir uma ideia e acabamos ficando perdidos em sensações de mistérios infinitos.

As árvores são unas e isso precisa ficar bem claro no nosso pensamento. Cada árvore é um ser e ela nunca se tornará o não-ser porque ela existiu um dia. Assim como as crianças são unas e nunca se tornarão o não-ser porque elas são constituídas de elementos que sempre existiram na natureza. O que nos leva a pensar sobre as árvores e as crianças serem unas? Talvez possamos pensar nessa unicidade como sendo algo proveitoso para preservação das florestas e para a educação das crianças.

Quando protegemos uma floresta estamos sendo guardiães de narrativas de árvores distintas, ou seja, de histórias seculares ou não que têm em si suas vivências contadas pelo homem já que as árvores, claro não falam. Quem conta as suas narrativas são os homens que convivem perto delas.

As crianças sendo unas nos chamam a atenção para o cuidado na sua educação. Nem toda educação deve ser igual. Tem aluno que aprende mais rápido do que o outro, tem aluno que custa mais a aprender, tem aluno que gosta de matemática e outro de português e por aí vai.

Precisamos respeitar o conhecimento de mundo e a autonomia de cada aluno como dizia o nosso querido educador Paulo Freire. O ser da criança se forma a partir da educação que ela recebe em casa e consegue levá-la para sala de aula produzindo assim conhecimentos necessários para a sua alfabetização. Precisamos mais do que nunca respeitar esse ser da criança e não vê-la como partes separáveis. A criança é inteira e completa. E essa completude ficará cada vez mais forte com o conhecimento adquirido em sala de aula.

Na sua pedagogia, Paulo Freire parecia conhecer um pouco do pensamento de Parmênides quando unia o conhecimento do mundo da criança ao conhecimento escolar sendo pautado num pensamento crítico e de que a criança deve ser vista por completo e não como partes que vão se encaixando a partir de conhecimentos que nada dizem.

O educador que completou agora em 2021, 100 anos do seu nascimento, o nosso querido Paulo Freire, sabia que a criança é una é imutável quando diz nos seus escritos que a educação não deve ser bancária, mas uma educação reflexiva e crítica.

A criança sempre será uma criança e sempre terá o seu pequeno mundo que deve ser respeitado pelos pais e educadores, logo precisa desenvolver com esse conhecimento da realidade o seu pensar crítico diante das coisas que lhe são apresentadas todos os dias como necessárias para o seu bom viver.

Não eduquemos as crianças tirando delas a sua autonomia. Deixemos que pensem por si próprias e que levantem questões talvez nunca antes percebidas por outras crianças, pois o que é belo é pensar criticamente diante do ensino que se propõe a mostrar a realidade como ela é de fato.

Para Parmênides, ainda, o ser é idêntico a si mesmo: se o Ser fosse diferente de si mesmo, ele não seria o que “é”. Em outras palavras: se não fosse idêntico a si mesmo, o Ser não seria ele mesmo, o que é impossível, pois, o ser “não pode não ser”. Ser idêntico a si mesmo dá a ideia de que cada ser é uno e tem as suas próprias caraterísticas. Muitos podem dizer que as árvores são unas. Não! Cada árvore é um ser. Assim como cada desenho que fazemos é algo diferente. Nada pode ser igual.

O sentido de estarmos aqui neste planeta chamado Terra é que as coisas são todas diferentes umas das outras e é isso que nos torna grandes e maravilhosos diante dos outros mundos, se é que existem outros mundos. Uma árvore pode fazer um tipo de sombra que outra não faz, uma árvore pode deitar os seus galhos pelo chão o que outra não faz. Essa diferença que constitui as árvores é que nos chama a atenção para o cuidado de as preservarmos.

Uma floresta é muito importante para que continuemos a experienciar o pensamento do nosso filósofo Parmênides. Nas florestas, encontramos diversos tipos de árvores. O ser das árvores faz delas únicas no mundo. Cada uma contribuindo para o bem do planeta da sua forma. É isso que devemos ensinar às nossas crianças, essas coisas que os filósofos trouxeram da natureza e formularam teorias.

E segundo o nosso filósofo o ser é um, ou seja, não podemos conceber que exista outro Ser, pois, se houvesse um “segundo ser”, ele seria diferente do “primeiro ser” — o que é impossível, pois, assim, “o primeiro ser” teria que não ser o “segundo ser” e teria que ser compreendido como não sendo. Além disso, é absurdo pensar que o Ser não é. Por isso, só pode existir um Ser. Conforme vimos até aqui, o ser é apenas um, ou seja, cada elemento da natureza é uno e aquilo que pensamos sobre ele é o que o torna ser. O ser das árvores é crescer, dar sombras, frutos e nos proteger contra a poluição. O ser das crianças é crescer, tornar-se adulto e proteger o mundo ao seu redor.

O ser não pode ser gerado, ou seja, nada pode ser gerado do nada (“o nada não é e não pode ser”), então ele não pode dar origem ao ser. Se fosse gerado de outro ser seria admitir que existem dois seres e um deles seria o “não-ser” de outro, e isso é impossível. Para o filósofo Parmênides e aqui no nosso texto as árvores sempre existiram e as crianças também.

Quando o mundo foi criado, de uma certa forma, já havia árvores e crianças nele e que bonito pode ser ver isso no pensamento do nosso filósofo. Se desde a criação do planeta terra sempre existiram as árvores e as crianças e que elas não precisaram ser geradas de outro ser é porque não existem dois seres, logo o não-ser nunca existirá para elas.

O ser é imutável, isso nos diz que a mudança faria com o que o ser deixasse de ser aquilo que é e se tornasse algo que ainda não é. Desse modo, admitir a possibilidade de mudança seria admitir o contrário daquilo que já estudamos: o que não é ser nada é, ou seja, passaríamos a concordar com a existência do não ser.

Se até mesmo a passagem de tempo não é admitida no pensamento parmenidiano, pois o ser seria eterno, não é difícil entender que as outras mudanças devem ser excluídas, pois só é possível pensar em mudança em relação à temporalidade. Só percebemos a mudança de um objeto A porque no passado ele era A e, no momento presente, ele é B. É por isso que Parmênides diz que o Ser “jamais foi nem será, pois é, no instante presente”.

As árvores e as crianças nunca mudam a sua essência, elas podem até mudar os seus jeitos de pensar e agir no mundo, mas nunca mudarão o que é, ou seja, o que realmente são. Dizendo melhor, as crianças serão sempre crianças e as árvores serão sempre árvores e com isso quero dizer que uma árvore nunca deverá tornar-se um móvel ou coisa parecida porque aí estaria deixando de ser. A árvore é e pronto. Assim como a criança é.

O ser é imóvel e isso nos diz que da mesma forma que a temporalidade está associada à mudança, está associada ao espaço: para mover de um lugar ao outro é preciso, também, deslocar-se no tempo. A criança não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo e a árvore jamais poderá estar em dois lugares ao mesmo tempo, por isso dizemos que as árvores são diferentes e não se deslocam no tempo. O ser descansa em si próprio sempre, ou seja, ele não precisa se deslocar para lá e para cá, ele é e está ali no seu lugar assim como as árvores que ficam presas ao chão balançando seus galhos e as crianças gostam de ficar brincando ali no chão da sala.

Quero explicar que este ensaio é motivo de muitos estudos ainda e que tive a colaboração do site SANTOS, Wigvan Junior Pereira dos. “O Ser para Parmênides”; Brasil Escola, disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-ser-para-parmenides.htm., (acesso em 08 de outubro de 2021)para redigí-lo.

Na verdade, o que quis mostrar para vocês é que as árvores e as crianças são seres unos e imutáveis e que não foram gerados por nada, ou seja, sempre estiveram presentes no planeta. Claro que isso é motivo de muita discussão e de comentários controversos, como também de sugestões. Estou aberta a ouví-los, meus caros leitores.

Para finalizar, deixo vocês com os versos do poeta português Fernando Pessoa que nos diz “Quando vier a Primavera, / Se eu já estiver morto, / As flores florirão da mesma maneira / E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. / A realidade não precisa de mim.” Talvez a realidade não precise de mim, mas eu preciso dela para não morrer antes que a primavera acabe.

Especial Para as Crianças – Qual a importância de uma única árvore para o Planeta Terra? Assista: https://youtu.be/vs6ChftV-bs?t=100

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Algumas lições da Pandemia

Podemos optar por cooperar com os outros em vez de culpá-los; podemos compartilhar como sabiamente já aconteceu em outras épocas de crise e assim enfrentar com lucidez e sensatez a própria pandemia; podemos promover e avançar em busca de um conhecimento científico que nos ajude a enfrentar de forma mais rápida a pandemia e tantas outras que poderão acontecer no futuro. Ou não, muito antes, pelo contrário.

Até mesmo as piores e mais cruéis experiências podem se tornar lições de vida se tivermos a capacidade e a mente aberta para aprender com os erros, percepção dos equívocos cometidos e consciência da finitude humana.

Quase dois anos de pandemia, que provocou mortes, incertezas, medo, angústias, crise sanitária, fragilidade econômica, corrupção no governo e seus aliados, perdas irrecuperáveis e tantos outros dilemas humanos, podem se tornar uma oportunidade para uma balanço avaliativo, um olhar retrospectivo e um replanejamento do nosso modelo civilizatório, ou mesmo de nossas escolhas e de nosso modo de vida.

Como bem observa o reconhecido e prestigiado historiador israelense Yuval Harari (2020) num escrito recente, “epidemias desempenharam um papel central na história humana desde a Revolução Agrícola e frequentemente deflagraram crises políticas e econômicas”. Resta saber em que medida somos capazes de aprender com as crises e que tipo de enfrentamento somos capazes de fazer para superá-las.

Sobre este aspecto concordo como Harari quando diz que “o maior risco que enfrentamos não é o vírus, mas os demônios interiores da humanidade”, que afloram em tempos de crise também provocados pelo vírus. Os demônios internos são o ódio, a ganância e a ignorância.

São demônios porque dividem, produzem violência e fragilizam ainda mais a condição humana. O ódio se faz sentir quando, com medo ou acuados, culpamos os outros pela crise pandêmica ou inventamos um suposto inimigo para acusar, muitas vezes baseados em fake news; a ganância se faz sentir quandoalguns poderosos se aproveitam da crise para aumentar seus lucros, como fazem as grandes corporações, certos grupos empresarias, donos de estabelecimentos ou até mesmo políticos corruptos que ganham barganham vantagens em função da crise; a ignorância se torna um demônio, quando acuados pela crise alguém espalha mentiras, acredita em ridículas teorias da conspiração, nega a ciência e a vacina, desrespeita as orientações sanitárias e não se dá conta que a forma mais eficiente e eficaz de enfrentar a pandemia e acreditar no conhecimento de quem estuda e não em falsos pastores e políticos genocidas.

Os três demônios indicados por Harari são letais e muito presentes no cenário brasileiro: as redes sociais estão minadas de maldade,  pois frequentemente vemos postagens absurdas de discurso de ódio que circulam livremente sem a mínima capacidade reflexiva de dar-se conta de como tais atitudes podem ser tóxicas para o tecido social; enquanto milhões de brasileiros são jogados no mapa da fome, encontramos empresários, comerciantes, banqueiros, “empreendedores”, investidores, falsos pastores, políticos medíocres que se aproveitam da situação de crise para saquear a soberania nacional, aumentar suas riquezas e condenar os pobres a miséria e a morte; apesar de ser um fenômeno mundial.

O Brasil está se tornando o centro do negacionismo da ciência, da vacina, do conhecimento por conta de uma legião de falsos pastores, de políticos oportunistas e de setores conservadores da sociedade que espalham preconceitos e produzem o câncer social do racismo, da homofobia, de ignorância cega, das crendices destrutivas, do ódio ao pensamento crítico e do desprezo aos pobres.

De forma oposta aos demônios humanos que afloram em tempos de crise, podemos reagir de outra forma. Podemos por exemplo optar por cooperar com os outros em vez de culpá-los; podemos compartilhar como sabiamente já aconteceu em outras épocas de crise e assim enfrentar com lucidez e sensatez a própria pandemia; podemos promover e avançar em busca de um conhecimento científico que nos ajude a enfrentar de forma mais rápida a pandemia e tantas outras que poderão acontecer no futuro.

Mas, para isso acontecer, é necessário sair de uma forma perversa de egoísmo medíocre, de autocentramento, de ganância e de violência que tem tomado conta de certos grupos políticos e associações que promovem a maldade.

As crianças precisam ser educadas. Elas precisam ser educadas para possamos nos sair melhor do que hoje estamos nos saindo de crises como essa; precisam ser educadas para que eduquem os adultos negacionistas que as cercam e que querem acelerar processos de retorno à vida normal, mas se negam a usar máscaras, tomar as medidas higiênicas necessárias e não aglomerar; precisam ser educadas para ajudá-los a não louvar governantes desumanos e irresponsáveis. (Francisco Carlos Santos Filho, psiquiatra). Leia mais: https://www.neipies.com/escola-pandemia-e-capacidade-de-pensar/

Autor: Altair Fávero

Edição: Alex Rosset

Ensino médio: entre educação de base e qualificações

A narrativa de um novo ensino médio, com mínimo de itinerários, sem escuta dos jovens, sem prévia formação de professores, sem plano de investimento e implementação nas escolas públicas, especialmente as de periferia, constituem-se em falácias de um projeto excludente das juventudes e a desconstrução de seu futuro.

O que a reforma do Novo Ensino Médio (NEM) e a Medida Provisória (MP) nº 1.045/2021 que propôs introduzir o Regime Especial de Trabalho Incentivado, Qualificação e Inclusão Produtiva (Requip), têm em comum?

Aparentemente preocupadas com os jovens, ambas reformas, com duvidosas promessas e iniciativas descontextualizadas, possuem propósitos comuns: ensino e trabalho precários.

O NEM reduz a formação básica geral do ensino médio ao máximo de 1,8 mil horas, complementadas por mais 1,2 mil horas com qualificações fragmentadas, aligeiradas e pulverizadas.

O Requip induz empresas a demitir seus atuais empregados e contratar jovens, sem vínculo empregatício, sem direitos trabalhistas, com subsídios da União Federal e dos recursos do Sistema S.

O alinhamento entre NEM e Requip já consta na atualização das diretrizes do ensino médio (Res. CNE/CEB nº 03/2018), quando no itinerário de formação técnica e profissional constam categorias como: ambientes simulados; formações experimentais; aprendizagem profissional; qualificação profissional; habilitação profissional técnica de nível médio; programa de aprendizagem; certificação intermediária e certificação profissional.

Ou seja, o ensino médio, como última etapa da educação básica, sendo transformado em precoce profissionalização de adolescentes como mão de obra para o setor produtivo.

Com o Requip, à margem da legislação trabalhista vigente, os jovens, ao serem contratados, não teriam vínculo empregatício, nem direitos trabalhistas. Receberiam uma bolsa-auxílio, que pode ser até R$ 550,00 para uma jornada de 22 horas e não precisam estar matriculados em instituições de ensino, pois as empresas teriam que ofertar cursos de qualificação profissional aos bolsistas. Evidencia-se uma discriminação negativa ao público jovem, em função da idade.

Na MP não há qualquer mecanismo que impeça que os contratos vigentes pelas regras trabalhistas atuais não sejam rescindidos e sejam substituídos pelos critérios do Requip, sendo que na vigência do regime (três anos) a cota máxima de admissões será de 5% do total no primeiro ano, 10% no segundo e 15% no terceiro ano.

Portanto, as empresas poderão demitir e contratar outros via Requip, o que impactará a base de cálculo da aprendizagem, cujo público prioritário são os jovens-adolescentes, os mesmos que têm direito ao ensino médio na escola.

Conheça livros de Gabriel Grabowski: “Dois aspectos são preocupações constantes nas avaliações do autor em seus textos: a precarização progressiva da formação dos professores e o comprometimento das potencialidades da juventude brasileira em decorrência do descaso das elites com a educação dos jovens”, assinala o diretor do Sinpro/RS, Marcos Fuhr. O livro tem o apoio do Sinpro/RS Publicações.  Leia mais: https://www.neipies.com/desmonte-da-educacao-publica-e-reforma-do-ensino-medio-em-livros/

Precarização

O Ministério Público do Pará emitiu nota denunciando que sob o pretexto de dar oportunidades aos jovens em situação de vulnerabilidade, a proposta sujeita esse público à total precariedade na relação de trabalho e fomenta ainda mais o ciclo da pobreza.

Cria cidadãos de segunda, quiçá de terceira classe, sem quaisquer direitos trabalhistas e, tampouco, qualificação técnico-profissional metódica, de complexidade progressiva, sólida e robusta, e ainda o faz em detrimento da aprendizagem profissional.

A Constituição Federal reconhece a profissionalização como um dos direitos fundamentais de todo adolescente e jovem (artigo 227), a ser garantido com absoluta prioridade. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Estatuto da Juventude também reafirmam o Princípio da Proteção Integral e formação profissional desde que não impeça nem prejudique o acesso, a frequência e o sucesso escolar. Um direito não pode suprimir os outros.

Exclusão

A Unicef apontou, em novembro de 2020, 5 milhões de meninos e meninas sem acesso à educação no Brasil. A exclusão e evasão escolar que já eram graves antes da pandemia se acentuaram ainda mais.

A Pnad 2019 apontou 1,8 milhões de estudantes entre 5 e 17 anos em situação de trabalho infantil, sendo 1.392 milhões na faixa etária entre 14 e 17 anos que deveriam estar na escola e no ensino médio.

Segundo dados do Ministério da economia, o Brasil tem cerca de 415 mil aprendizes contratados, a maioria entre 14 e 17 anos. Porém, se a cota de 5% obrigatória fosse cumprida pelas empresas teríamos mais de 900 mil. Esta é uma política pública de Estado essencial e estratégica para evitar evasão escolar e enfretamento do trabalho infantil.

Para Jeferson Tenório, Mestre em Letras, a implementação do Novo Ensino Médio deve aumentar as desigualdades na educação. Do modo como está sendo estruturada, a escola pública se transformará num espaço voltado para a formação de técnicos e operários. Alunos mais pobres poderão ser empurrados para trabalhos subalternizados. Aliás, este é o sonho do atual ministro da Educação, que afirmou que o Brasil precisa de mão de obra técnica e profissional e não de diplomas acadêmicos, até porque a universidade é para poucos.

Uma forte reação e resistência à MP 1.045 e ao Requip forçou o Senado a devolver a MP para a Presidência da República. Porém, a proposta não está sepultada. Desde 2016, reformas nas relações trabalhistas são frequentes e são as juventudes que sofreram os maiores impactos, mediante: agravamento do desemprego; crescimento do trabalho informal, temporário e intermitente; redução de renda e interrupção dos estudos.

Estudos e especialistas indicam que as principais preocupações das juventudes hoje são, nesta ordem: trabalho, educação, vida segura, saúde (emocional) e cultura (expressão, autoestima). A dificuldade em projetarem seu futuro no mundo do trabalho atual é a preocupação central.

Projeto excludente

A narrativa de um novo ensino médio, com mínimo de itinerários, sem escuta dos jovens, sem prévia formação de professores, sem plano de investimento e implementação nas escolas públicas, especialmente as de periferia, constituem-se em falácias de um projeto excludente das juventudes e a desconstrução de seu futuro.

Para este projeto das elites, não é necessário investir em educação, nem na formação e carreira dos docentes, pois instrutores e tutores de plataformas digitais orientarão as qualificações de 15 horas por mês como o Requip se propõe.

Porém, entendo que a prioridade do ensino médio não deve ser a qualificação profissional. Sua finalidade principal, conforme a LDB, é a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental; a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando; o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico e, a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos.

Para as qualificações já temos a Lei da Aprendizagem (Lei nº 10.097/2000) e todo o Sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senac, Sebrae, Sescoop, Sest, Senat, Senar), com recursos públicos bilionários, em diversos segmentos econômicos e profissionais, responsáveis pelas qualificações profissionais conforme demandas do mundo do trabalho.

Ou seja, o Brasil já possui um sistema de qualificações estruturado, que iniciou com as reformas de 1942, com melhor expertise e infraestrutura que as próprias escolas públicas de ensino médio.

Ofertas de cursos de qualificação pelo Sistema S existem há décadas no Brasil. O Senai é de 1942 e o Senac, de 1946. Programas federais como Planfor, PNQ, Projovem, Pronatec, entre outros, já qualificaram milhões de trabalhadores e jovens.

As qualificações cumprem uma função específica, mas pouco impacto estrutural na vida e trajetória escolar oportunizam.

Nos últimos 10 anos, apesar do aumento de 27% nos anos de estudos (6,4 para 8,4) da população mais pobre, a renda despencou 26,2 dessa mesma população. “É consequência de um país que não cresce e não cria oportunidades. Embora exista tendência de aumento da escolaridade entre os mais pobres, ela não se refletiu no mercado de trabalho”, afirma Marcelo Neri, diretor da FGV Social.

Dignidade do trabalho

A formação durante a Educação Básica é para toda a vida e não pode ter sua centralidade baseada nas exigências das ocupações profissionais momentâneas. Assim é em todos sistemas escolares no mundo. A formação profissional e qualificação deve ser complementar a uma sólida formação de nível médio. Até porque a formação não deve apenas equipar estudantes para o mundo do trabalho, mas também preparar as pessoas para que sejam seres humanos moralmente reflexivos e cidadãos democráticos efetivos, capazes de deliberar sobre o bem comum”.

A dignidade do trabalho é um bom ponto de partida. Um projeto político que reconheça a dignidade do trabalho deve usar o sistema tributário para reconfigurar a economia da estima, desencorajando a especulação e honrando o trabalho produtivo. Descuidar do direito ao trabalho digno, educação de qualidade, desestimular prosseguimento dos estudos no ensino superior e pós-graduação é comprometer o futuro do Brasil.

Parabéns a todos/as professores que sonham juntos com os jovens. Dia 15 de outubro – Dia do Professor – é dia de luta pela dignidade do Trabalho de todos trabalhadores, sejam jovens ou professores.

Originalmente publicado na página do Extra-classe: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2021/10/ensino-medio-entre-educacao-de-base-ou-qualificacoes/

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alex Rosset

Professores/as estão mudando ou estão sendo mudados?

Diante das impactantes mudanças, convidamos algumas pessoas que tem responsabilidade direta com os professores e professoras das mais diferentes redes de ensino, sejam eles coordenadores, orientadores educacionais, dirigentes da educação a escreverem sua percepção sobre estas mudanças. Estes escritos podem subsidiar professores e professoras para que, eles mesm/as possam também se perceber e se reconhecer a partir do olhar dos outros.

Os professores e professoras, das diferentes redes de ensino, mudaram muito durante a pandemia que começou em março de 2020 e perdurará ainda, pelo menos, até o final de 2021.

Estas profundas e significativas mudanças geralmente não são e não foram percebidas pelos próprios professores e professoras, pois é natural que os outros reconheçam as nossas qualidades, os nossos limites e, neste caso, o impacto das mudanças na forma de organizar a docência e ressignificar a essência relacional na educação.

As impactantes mudanças vieram com a abrupta necessidade de mudar a forma de organizar os seus planejamentos, as maneiras de propor aos estudantes o estudo dos conhecimentos, a seleção dos conhecimentos e habilidades que agora são julgados mais essenciais mudaram também as suas concepções de vida, de mundo, de conhecimento, de perspectivas e de mudanças de abordagem com os estudantes.

Diante de tão impactantes mudanças, convidamos algumas pessoas que tem responsabilidade direta com os professores e professoras das mais diferentes redes de ensino, sejam eles coordenadores, orientadores educacionais, dirigentes da educação a escreverem sua percepção sobre estas mudanças. Estes escritos podem subsidiar professores e professoras para que, eles mesm/as possam também se perceber e se reconhecer a partir do olhar dos outros.

Mudar faz bem

Dizem que mudar é preciso, às vezes é algo detalhadamente planejado e. às vezes, é uma oportunidade inesperada. De um jeito ou de outro, por razões pessoais, profissionais ou ambas, os últimos dois anos, para nós profissionais da Educação, esse processo de mudança trouxe consigo momentos únicos, repletos de desafios, de angústias, situações de puro exercício de empatia, de resiliência e sobretudo nos ensinou a força da superação, do trabalho coletivo, resgatando o prazer de aprender, buscando novos conhecimentos, planejando diferente   e assim adquirindo novas ideias e formas de ver, pensar e agir.

Estamos findando o ano de 2021, atualmente estou na função de Orientadora Educacional Anos Iniciais e Coordenadora Pedagógica dos Anos Finais, e durante esse tempo presenciei a mudança e o crescimento gradativo dos meus colegas de escola.

Cada um construiu seu caminho de mudança, dentro do seu tempo e espaço. Tivemos choros, risos, nos conectamos, mas mudamos integralmente. Não somos mais os mesmos, a mudança aconteceu para todos, independente da função exercida.

Tenho a convicção que para cada um foi uma vitória pessoal e a certeza que novas situações e desafios nos impulsionará a novas mudanças.

Mudar é preciso. Mudar é possível. Mudar é permitido. Mudar é recomeçar.

(Adriana Severo dos Santos, Orientadora Educacional Anos Iniciais e Coordenadora Pedagógica dos Anos Finais EMEF Zeferino Demétrio Costi)

Os(As) Professores(as) estão mudando? Ou estão sendo mudados?

Em tempos de pandemia, muitas coisas mudaram. A economia, a mobilidade urbana, a saúde, os hábitos de higiene pessoal, os relacionamentos, a educação… Em todos os setores, profissionais e usuários tiveram que se adaptar, mudar procedimentos, modos de agir, de pensar, de falar. De ser! Hoje, não somos mais os mesmo que iniciaram o ano 2020 neste mundo.

Mas, em que pese todas as mudanças trazidas pela pandemia (algumas bastante necessárias, pois o ser humano havia esquecido sua capacidade de amar, de doar-se pelo bem comum, de ser solidário e fraterno), ainda há muito o que avançar, principalmente na Educação. E me refiro a todos os atores do processo educativo que, dentro ou fora da escola, exercem papel importante na formação humana dos membros da sociedade, não importa a idade que tenham. Certamente, os professores foram os mais afetados, pois a mudança de paradigma, embora anunciada há anos, só aconteceu por força das circunstâncias e da necessidade de criar novas formas de chegar aos estudantes.

Embora não pareça, os professores das escolas particulares também sofreram nesse processo de mudanças e adaptações. E ainda sofrem! O mundo não estava preparado para uma demanda de conexões incomensurável e as redes de internet ainda não suportam o número de acessos diários, necessários para o desenvolvimento do processo educativo.

A internet tem se tornado, para aqueles que ainda estão assistindo aulas online, o grande vilão das dificuldades de compreensão e de aprendizagem. E com isso, os professores sofrem… Sofrem com as mudanças, sofrem com organização dos novos currículos para o Ensino Médio, com a insegurança profissional, com a necessidade de buscar novas metodologias e práticas, de adaptar-se a novas tecnologias e de encontrar vida e esperança no regaço das instituições educativas.

Não há como escapar da mudança de época que vivemos. Precisamos estar abertos ao novo e olhar para o futuro com esperança e serenidade. Dessa forma, a mudança não será um sofrimento e uma tortura, mas momento de crescimento pessoal e profissional.

(José Adilson Santos Antunes, professor das redes estadual e privada no RS)

Estamos distantes, e agora?

A relação pedagógica é, essencialmente, uma relação humana, uma relação de proximidade, de diálogo, de corpo a corpo, ou pelo menos é assim que a desenvolvemos, é assim que os mais variados cursos de licenciatura nos ensinaram a desenvolver os processos de ensino e de aprendizagem.

Com a chegada da pandemia de Covid-19 ao Brasil foi necessário nos distanciarmos, mas estes processos didático-pedagógico-acadêmicos não podiam parar. Era necessário buscar alternativas para dar continuidade à escolarização das crianças, dos jovens e dos adultos. Coube aos professores e professoras buscar metodologias de uso digital enquanto as redes de ensino buscavam estratégias para oferecer acesso à internet e, em alguns casos, equipamentos aos estudantes para continuar as aulas de forma remota.

Em um primeiro momento, o desafio aos professores e professoras era se apropriar das novas tecnologias digitais e aprender a usá-las com fins pedagógicos. As redes de ensino ofereceram formações (e muitas!), desde os conhecimentos mais básicos de uso do computador até o domínio de ferramentas destinadas para fins educacionais. Aqui está a primeira mudança vivida por todos e todas: tornar-se um operador de tecnologias de informação e comunicação. No entanto, o maior desafio viria na sequência.

Como ressignificar aquela prática pedagógica de presença? Como estabelecer vínculo pessoal sem proximidade física? Como ensinar sem saber o quanto os estudantes estão aprendendo? Como avaliar à distância?

Diante de tantas dúvidas, incertezas, angústias, vê-se um movimento dos professores e professoras na busca pelo apoio dos seus pares, a troca de experiências passa a ser uma necessidade para acalmar a aflição, motivando até mesmo a realização de seminários internos nas instituições.

A anormalidade, nunca vivida anteriormente, faz surgir ideias, talentos, criatividade, superação e constante busca por dar o seu melhor. Em meio a toda essa preocupação de ordem pedagógica ganha destaque a sensibilização dos professores e professoras com as famílias enlutadas, com os problemas emocionais decorrentes do isolamento social, com os casos de ansiedade que aumentam a cada dia, agravado com a situação socioeconômica de desemprego, vulnerabilidade e insegurança alimentar vivida por muitas famílias. A empatia mobiliza o engajamento em ações sociais emergenciais.

A vacina traz de volta a esperança do encontro, do abraço, das relações interpessoais e pedagógicas, porém, não mais como antes, todos diferentes em alguma medida e, quiçá, melhores, mais humanizados nos coletivos do mundo acadêmico. 

(Ionara Soveral Scalabrin, pedagoga do IFSul e orientadora educacional da EEEM Maria Dolores Freitas Barros)

 

Construir e reconstruir-movimento da vida

Nesta navegação chamada VIDA, por vezes nos vemos em terra segura, por vezes nos vemos em tempestades, em mares bravios. Com a vinda deste tempo de pandemia passamos por tempestade com ventanias e muitos percalços. Foi necessário muito equilíbrio em momentos que quase nada vislumbrávamos a frente. Certezas muito poucas. Tateando, olhando esmiuçadamente, com cuidado, avançamos. Na escola, não foi diferente.

Durante um ano e meio colocamos adormecidas habilidades de convívio, de raciocínio, de exercício de memória, de trocas e agilidades reflexivas. O medo paralisa. A saúde em primeiro lugar, nos fez ter maiores cuidados consigo e com os outros. Queira Deus que a consciência desta fragilidade e das consequências de nossos atos que tem relação direta com os outros nos faça crescer. Que sejamos cuidadosos sempre, pelo valor do bem comum. Aprendizagens feitas, vividas em tempos de escassez.

Hoje trabalhamos para retomar um caminho interrompido. Com calma, com algumas ferramentas a mais, como o uso da tecnologia, mas, dando um valor muito maior para o contato, o convívio da reciprocidade, da brincadeira, do desafio, do exercitar, do viver. Do ir e Vir com liberdade para respirar. O valor do professor, do orientador, do olhar para outra alma e nela depositar esperança foram incontestavelmente reconhecidos. Que este recriar a vida na ESCOLA VIVA, nunca se apague. Que este reconstruir faça parte de nossas vidas, com o exercício da criatividade, das peculiaridades de cada um, um laço forte de movimento pela VIDA. Conviver e aprender com seus pares é um dos movimentos mais saudáveis que o ser humano pode se propiciar. Ferramentas necessárias para atravessarmos tempos bravios e tempos de navegação mansa. Navegar é preciso.

(Márcia Bandeira Vargas Muccini, professora e Diretora da Escola Redentorista Instituto Menino Deus em Passo Fundo, RS)

Edição: Alex Rosset

Com a palavra as crianças!

Chegará o dia em que veremos assegurados os nossos direitos básicos previstos legalmente, que nos garantem condições de vida saudáveis e dignas. 

Chegará o dia em que não escutaremos notícias envolvendo negligência, agressões, maus-tratos, abusos e mortes de crianças. É muito triste saber e ver que a violência contra a criança aumentou, reflexo que uma sociedade doente e perversa.

Chegará o dia, na escola, em que os nossos direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer serão respeitados plenamente, o que implica materializar, fazer o que se diz e o que está proposto na documentação legal.

Chegará o dia em que as canetas e lápis cederão lugar aos pincéis e as tintas! Haverá cor, muita cor, tantas cores! E todas escolhidas por nós.

Chegará o dia em que os painéis e murais, “bem aprumados, arranjados, arrumados” pelos adultos, serão substituídos por nossos registros! Não haverá coisinhas penduradas, só o que nós construirmos.

Chegará o dia em que as trezentas e tantas datas do calendário não serão comemoradas, servirão apenas para evidenciar a certeza de um caminho que não devemos seguir.

Chegará o dia em que as festas acabarão! Porque já não existirão mais tantas datas para celebrar! Mas tem exceções: Para as festas que tocam o coração. Festas do reino da emoção!

Chegará o dia em que haverá o lá fora de fato, preparado para nos receber! Hoje ele existe, mas ainda não faz parte de nosso cotidiano, só em “ocasiões especiais”.

Chegará o dia em que a calçada e o piso sintético cederão espaço para grama, para o verde. Haverá também terra, muita terra. Haverá areia, muita areia!  Afinal, quem brinca é o adulto ou a criança? Por que ele interfere tanto no espaço que não ocupa?

Chegará o dia em que as árvores substituirão os brinquedos plásticos, porque eles não são instigantes e desafiadores!  Os galhos servirão para fazer os balanços mais perfeitos do mundo.

Chegará o dia em que a matemática poderá ser aprendida de forma acrobática! Em sala, poderá servir a mesa, por exemplo! Em cima da mesa, embaixo da mesa, de cima para baixo, de baixo para cima, ou para saltar de um penhasco, ou para ultrapassar um lago com crocodilos ferozes! Sem medos, receios, dúvidas ou anseios.

E os números? Eles servirão para contabilizar e valorizar o tempo em que NÃO estivemos a “raciocinar” com lápis e papel na mão, a contar, e contar, e contar. Porque não é assim que aprendemos a pensar! Olhem o entorno. Vocês terão provas suficientes sobre a redução e ausência do pensamento! O mundo está tosco, rude, inculto!

Chegará o dia em que os grafismos desaparecerão! E se não desaparecerem, que sejam propostos na companhia do verde e do vento. Novas literaturas serão acolhidas, trazendo oportunidades para situações de aprendizagem diferentes, sem a repetição que ocorre ano após ano, data após data, e não colaboram o suficiente para o que é necessário à vida.

Chegará o dia em que os desenhos e registos todos iguais desaparecerão. Será que é preciso explicar a razão? Não queremos forma! Queremos formação! Em vez de crianças formatadas, queremos ser crianças que sabem optar, criar, criticar, pensar, inventar, fazer, experimentar, opinar, participar e viver!

Chegará o dia em que os joguinhos orientadinhos que promovem habilidadezinhas e competenciazinhas sucumbirão!  Eles obstaculizam e até impedem o nosso brincar. E a gente quase esquece de como se brinca! E não sabendo brincar, quase nada poderemos fazer quando adultos. Inclusive, ser e agir como adultos.

Chegará o dia em que as nossas experiências de vida serão consideradas, e não vistas como “só coisas de criança”.

Chegará o dia em que nossas vozes serão escutadas. O medo de nos escutar e não saber lidar com o que dissemos será superado!

Chegará o dia em que não haverá só o azul para os meninos e só o rosa para as meninas. Queremos aprender sem doutrinas. Queremos todas as cores!

Nossos pais deixarão de olhar e criticar se nos sujamos. Deixarão de fazer de nossa vida uma “Checklist”. Deixarão de perguntar pelo número de páginas que escrevemos na escola. A primeira pergunta estão será: – Você foi feliz hoje?

E então, com brilho no olhar, cada uma de nós responderá: – Sim, hoje fui feliz!

Para ser feliz enquanto criança, e mais tarde, enquanto adulto, mudemos a Educação na família, na escola, na sociedade como um todo. Na Infância, só é preciso que a criança seja criança!

***

A educação faz uso de metáforas para tratar das próprias questões. Dewey, filósofo e educador norte-americano, faz uso deste recurso para explicar diversas situações, inclusive sobre a redução do entendimento de educação para simples ideia de aquisição de hábitos indispensáveis à adaptação do indivíduo a seu ambiente. O autor afirma que o crescimento/desenvolvimento pleno da criança acontece quando há a ação dela. Dito de outro modo, para aprender ela precisa ser ativa, o que significa para além da mera adaptação ao que lhe impõem. Caso seja considerada só a dimensão da adaptação, ocorre a promoção da educação técnico-transmissiva, já presente na época em que o autor escreveu, e revigorada na sociedade atual.

Em uma metáfora, o autor se refere ao aluno/criança como cera e ao professor como sinete. A educação, por sua vez, acaba sendo a ação do sinete para gravar na cera, a qual se deixa moldar passivamente, ao ponto de estar condizente com o objetivo almejado (DEWEY, 1979b, p. 50).

O aprendiz, ao receber como marca este tipo de educação, luta até certo ponto, para dar conta do que lhe é imposto, mas corre o risco da ruína. Como diz Dewey, metaforicamente, o aluno luta, mas acaba vencido diante do que a educação reivindica, pois morrem seus desejos, interesses e curiosidades. A formação que segue esse percurso se afasta dos ideais democráticos, razão da preocupação de Dewey, e motivo que o levou a elaborar a sua construção teórica.

Frente ao exposto, fica evidente que a democracia não consegue florescer em ambiente com condições formativas reduzidas. E, ainda, quando a educação alinha os seus princípios essenciais aos fins exclusivamente utilitários e os semeia para a maioria (massa), está fazendo uso de sementes ruins, que não vão dar bons frutos (democracia). Se a instrução mais elevada, ou seja, as sementes boas, forem semeadas para poucos, a colheita não será suficiente. Em outras palavras, a educação de qualidade é direito de todos, e talvez seja a única maneira de garantir a democracia.

Dewey aposta na formação integral, que contemple todas as dimensões humanas. É contrário à ideia do ensino reduzido à determinados elementos. A noção que se tem de uma educação direcionada somente ao ler, escrever e contar, segundo ele, ignora o que é essencial para a concretização e cultivo dos ideais democráticos. É preciso, neste sentido, resgatar as humanidades.

A preservação da democracia depende da organização de programas de estudo amplamente humanos, que ainda devem “apresentar situações cujos problemas sejam relevantes para a vida em sociedade e em que se utilizem as observações e conhecimentos para desenvolver a compreensividade e os interesses sociais” (DEWEY, 1979b, p. 212). Por isso, educar com base com o propósito limítrofe de se ensinar ler, escrever e contar é insuficiente.

A incompreensão sobre a importância de um programa educativo completo, por parte daqueles que deveriam ter esse conhecimento, pode ser um dos motivos de estarmos enfrentando um dos períodos mais conturbados da história. E o próprio autor, como mencionamos anteriormente, já nos alertava de que a escola não conseguiria, sem urgentes transformações, alcançar seus objetivos, mesmo sendo os elementares, reduzidos ao ler, escrever e contar. Tanto é verdade, quem nem isso a escola consegue!

Mas, voltando às metáforas, muitas outras são conhecidas no campo educacional, como a ideia de expressar a cooperação por meio do “tecido” que forma uma colcha de retalhos; o projeto coletivo explicado por meio do “barco”, com o argumento de que todos estamos nele; a ponta do “iceberg” que mostra uma parte mínima da realidade; a “bússola” que indica o professor como guia. Marinheiro, âncora, vela, raiz, asa e gaiola, essas e outras tantas palavras utilizadas na linguagem metafórica, explicam o universopedagógico, colaborando na reflexão e na construção de argumentos sobre a complexidade educacional.

A educação da infância, sob a ótica da “metáfora do bambu” nos leva a pensar sobre a condição de crescimento da criança, pelo viés deweyano. A planta tem o registro de crescimento mais rápido no mundo vegetal. A sua semente pode demorar até sete anos para brotar, mas quando surge no exterior, em apenas seis semanas, pode crescer 30 metros! E qual é o seu segredo? Durante o tempo em que permanece invisível no subsolo, lentamente vai gerando uma complexa rede de raízes horizontais que mais tarde sustentam o seu desenvolvimento.

Em relação à infância, podemos pensar nas tendências espontâneas, na capacidade de adaptação, assim como no respeito ao tempo da criança, por parte do adulto. Em todos os períodos a criança cresce, ora por dentro, ora por fora. No entanto seu crescimento depende do cultivo, precisa ser na justa medida, condição para que se desenvolva plenamente. 

A educação, pela metáfora da “esponja do mar”, é bastante conhecida e retrata a perspectiva tradicional combatida por Dewey. Ela mobiliza o pensamento quando questiona a visão de criança como ser poroso, que absorve passivamente o que o adulto transmite. É como um recipiente vazio a ser completado. Mas, pela outra vertente, podemos mudar o sentido da metáfora, na medida em que passamos a considerar a esponja como elemento vivo e dinâmico, no qual a vida flui. Por esse viés a educação mobiliza o pensamento, as ideias entram e saem.

A educação é como um “saquinho de chá” porque contém a essência de algo que se expande, ficando maior do que o que estava guardado em um simples embrulho. Também é apreciado com os sentidos, fica na memória graças ao sabor, aroma e calor. É melhor quando desfrutado em companhia, na interação com outras pessoas. Aqui, com base no que vimos da teoria de Dewey, podemos pensar na condição de crescimento, no continuum da experiência e as associações retrospectiva e prospectiva e também no valor do aparelho sensitivo para a criança, assim como a importância da interação social.

A metáfora textual é uma ponte(uso uma metáfora para explicar a própria metáfora) que liga os significados de diferentes palavras, ideias e conceitos. Algumas vezes é conexão poética, como a da obra Como pensamos (1979a), sobre professor, aluno, ensinar e aprender, escolhida para concluir esta reflexão, porque evidencia que cada um tem seu papel, o que é próprio do professor e o que é próprio do aluno.

“O único meio de fazer que os alunos aprendam mais é ensinar de verdadeiramente mais e melhor. Aprender é próprio do aluno: só ele aprende, e por si, portando a iniciativa lhe cabe. O professor é um guia, um diretor; pilota a embarcação, mas a energia propulsora deve partir dos que aprendem” (DEWEY, 1979a, p. 43).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DEWEY, John. Como pensamos. Tradução: Haydée Camargo Campos. São Paulo: Nacional, 1979 a. Atualidades pedagógicas; vol. 2.

DEWEY, John. Democracia e educação. Tradução: Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São Paulo: Nacional, 1979b. Atualidades pedagógicas; vol. 21.

Autora: Ana Lúcia Vieira

Edição: Alex Rosset

CPERS protocola emenda à Lei Orçamentária Anual para garantir reposição salarial

No início da tarde desta quinta-feira (7), a presidente do CPERS, Helenir Aguiar Schürer, protocolou junto à Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa uma proposta de emenda ao texto da Lei Orçamentária Anual, enviado pelo governo Eduardo Leite à Assembleia.

A emenda busca inserir a recomposição salarial de 47,82% para os servidores ativos, inativos e pensionistas vinculados à rede estadual de ensino, na previsão orçamentária de 2022.

O percentual representa apenas a inflação do período de 2014 até o presente momento, tratando-se de uma recomposição do valor dos salários, sequer falando em aumento real.

Helenir afirma que os educadores(as) do Rio Grande do Sul estão fazendo a sua parte, mesmo há 7 anos sem reposição salarial, e necessitam urgentemente de valorização para toda categoria.

“Há sete anos o Rio Grande do Sul joga seus professores(as) e funcionários(as) de escola, na ativa e aposentados(as), para a miséria. Os governos Sartori e Leite se elegeram com o discurso de sempre: educação é prioridade. Mas na prática, o Rio Grande do Sul prioriza qualquer coisa, menos a educação.”, afirma.

Para a presidente do Cpers, a Lei Orçamentária Anual apresenta um cenário de descaso com a educação, que precisa ser corrigido. “No projeto da LOA para 2022 a função educação diminui 0,3% da sua fatia no orçamento e a previsão de gastos com pessoal também cai 3,3%”, declara.

No entanto, segundo Helenir, dados apontam que o governo do Estado tem recursos para garantir essa reposição. 

“O governo estima um crescimento de 6,9% na arrecadação. Para os altos salários do TJ, MP e Assembleia Legislativa também há dotação de aumento. Podemos falar também dos R$20 bilhões que o Estado deixa de arrecadar ao ano por conceder isenções fiscais sem qualquer transparência ou dos R$340 milhões ao ano que o governo passou a confiscar dos aposentados(as) da Seduc após as mudanças na Previdência”. 

Para o CPERS Sindicato, dinheiro tem. Basta priorizar a educação! No dia 15 de outubro às 09h30, a categoria realizará Ato em frente ao IPE Saúde com caminhada até o Palácio Piratini reivindicando respeito e salário digno.

O texto da emenda foi elaborado em conjunto com a assessoria jurídica Buchabqui e Pinheiro Machado, e assinado, também, pela CUT/RS e CTB/RS. Confira aqui a íntegra o texto da emenda.

Fotos: divulgação/CPERS

Fonte: https://cpers.com.br/cpers-protocola-emenda-a-lei-orcamentaria-anual-para-garantir-reposicao-salarial/

Edição: Alex Rosset

“Os miseráveis”, de Victor Hugo, às crianças de hoje: o amor pelas árvores

É importante e necessário que cada casa tenha um jardim. Nem que seja um pequeno jardim, mas que a criança possa ter contato com a natureza e perto dela ficar o tempo que for preciso. Se morar num apartamento que existam plantas e flores em vasos. Se morar numa casa com quintal que possa ter plantas frutíferas, hortas e flores. Faz bem às crianças conviverem perto da natureza.

Nos versos de Khalil Gibran ele nos diz o seguinte “Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio.” Sim, e que lindos poemas a terra escreve para o céu e que nós poderíamos recitá-los no poente, embaixo de um arco-íris ou num bosque próximo da gente. Mas, preferimos derrubá-las para escrever nelas o vazio da nossa existência, o nada que muitas vezes nos sentimos.

Nós derrubamos as árvores por uma necessidade emocional? Não! As derrubamos porque somos egoístas, porque somos ingratos a natureza, porque somos medíocres e queremos registrar a nossa história num pedaço de papel para a posteridade e esquecemos o quanto de mal fazemos as árvores que são derrubadas todos os dias para servirem de elemento que fabrica o papel. Nós poderíamos registrar os nossos feitos em outros locais, como assim faziam os homens das cavernas que deixaram registradas as suas histórias nas paredes das cavernas e até onde se sabe eles não agrediram a natureza para deixarem registrados os seus grandes feitos.

Que queremos nós das árvores? Que queriam os românticos do século XIX? Como se apresentava a natureza para esses escritores loucamente apaixonados pelas suas senhoritas? Muitos ficaram famosos e até hoje são lidos no mundo inteiro como é o caso do romance que vamos estudar neste ensaio intitulado “Os miseráveis” do autor francês Victor Hugo. Eu tenho muitas razões para ter escolhido este romance para falar sobre as árvores e a natureza que o preenche em todos os seus capítulos, mas uma delas é o amor que o autor procura passar para o leitor da natureza.

Esse cuidado com a natureza, de mostrar-lhe bela e exuberante mesmo em meio a uma guerra, mesmo em meio a fome, mesmo em meio ao desespero, faz do romance “Os miseráveis” de Victor Hugo algo maravilhoso aos nossos olhos e se o leitor for atento igual a mim verá que são tantas as vezes em que o autor traz a palavra “árvores” em seu romance que a gente acaba criando uma paisagem verde na descrição dos lugares que ele faz de forma própria e rápida. Uma leitura que recomendo a todos os amantes da literatura é essa obra que enaltece a beleza da natureza do eu, ou seja, do ser na sua essência mais sofrida e da própria natureza das florestas que estão sempre presentes nos românticos desse século.

Os temas principais do romantismo giram em torno do nacionalismo, a supervalorização dos sentimentos e das emoções pessoais (angústias, tristezas, paixões, felicidades e etc). Esse sentimentalismo exagerado está refletido nos enredos que, em sua maioria, consistem em histórias de amor ou, quando este não é o dado principal, em histórias em que o amor e a paixão prevalecem. Mas um dos temas mais recorrentes no romantismo é o culto à natureza que ganha traços diferenciados no romantismo pois, a partir de agora, passa a funcionar não apenas como pano de fundo para as histórias, mas também, passa a exercer profundo fascínio pelos artistas.

Além disso, a natureza passa a entrar em contato com o eu romântico, refletindo seus estados de espírito e sentimentos. É assim que podemos ler a obra “Os miseráveis” de Victor Hugo, ou seja, um profundo fascínio pelas florestas, bosques e jardins. Uma grande obra que se fosse lida nas aulas sobre meio ambiente chamaria atenção do público pelo enaltecimento que o autor propõe a natureza em cada capítulo da sua obra.

A obra “Os miseráveis” foi escrita pelo autor francês Victor Hugo no ano de 1862, tendo sido traduzida para vários idiomas logo depois de ser lançada, inclusive para o nosso português. É considerado por muitos como um dos maiores clássicos do romantismo francês. Na história da obra “Os miseráveis” o autor narra a situação política e social da população francesa no século XIX, por meio do personagem Jean Valjean.

No romance, o autor descreve a vida das pessoas miseráveis e pobres de Paris durante a Insurreição Democrática. Por meio do personagem Jean Valjean, o romance faz críticas a sociedade francesa da época, desde a desigualdade social aos dilemas morais individuais das pessoas. É também através dos seus diversos personagens que o autor enaltece o seu amor pela natureza em vários dos momentos que se seguem na obra. Uma leitura agradável e fiel ao leitor porque traz sempre críticas aos acontecimentos marcantes daquela época como também retrata bem uma França onde a natureza se faz presente em cada casa, em cada praça em cada local onde podemos chegar através da leitura que nos fascina e nos prende nas suas volumosas páginas.

Este amor pelas árvores na obra “Os miseráveis” pode ser visto logo nas suas primeiras páginas quando o personagem principal tem como profissão ser podador de árvores e viver perto delas, ou seja, ser um homem do campo. Mais a frente este mesmo personagem depois de passar por muitas aventuras encontra-se num belo bosque encostado numa árvore quando rouba uma moeda de um garoto. As páginas do romance vão se passando e a gente encontra o autor morando numa casa com um belo jardim, ele passeia numa praça cheia de árvores, depois vai morar num convento onde passa a ser seu jardineiro, volta a morar numa casa com um belo jardim com flores as mais diversas e repleto de árvores e faz os seus passeios pelos bosques sempre a sentir o ar verde da natureza.

Até mesmo quando descreve a batalha de Waterloo, Victor Hugo, consegue trazer as árvores de uma forma cheia de romantismo e amor por elas. No meio da batalha, os soldados feridos, os cavalos, os canhões e lá estavam as árvores como testemunhas de que os soldados franceses lutaram até seus últimos momentos contra os ingleses.

Mas, Jean Valjean não está sozinho nesta obra. Ao contrário, ele tem a companhia de uma menina com lindos olhos azuis chamada Cosette que também aprecia muito os passeios pelas praças e bosques e gosta de cuidar do seu jardim da casa onde mora com o seu pai Jean Valjean.

Assim como a menina Cosette poderiam ser as crianças de hoje em dia, morarem em casas rodeadas por jardins com flores, insetos e árvores para que pudessem aprender a amar a natureza desde a tenra idade.

Cosette foi educada num convento de freiras onde tinha um grande jardim cuidado pelo seu pai e por um amigo fiel. Nas escolas também poderíamos ter jardins além de câmeras, computadores, tablets e muros altos. A menina Cosette e seu pai chegam a passar horas sentados no banco de uma praça contemplando a natureza, em completo silêncio. É nessa praça onde ela conhece aquele que será o seu grande amor o jovem revolucionário chamado Marius. Os jardins do romance servem muitas vezes para proteger Jean Valjean contra a polícia de quem ele vive fugindo, principalmente para se esconder do inspetor Javert que não o para de perseguir. Em todas as casas alugadas pelo nosso personagem principal sempre encontraremos a presença de um belo jardim.

A presença das árvores no romance é a coisa mais linda que podemos ver na narrativa de Victor Hugo. Parece que em cada local ele quis colocar uma árvore. Talvez um apelo para a nossa atualidade onde poucos romances enaltecem a natureza e dão valor aos edifícios, as avenidas, aos muros altos e esquecem de falar nas flores e nos insetos que fazem parte desses jardins que já não encontramos mais na maioria das casas.

Eu conheci um jardineiro recentemente que ama o seu trabalho. Falei do jardim do convento de freiras onde Jean Valjean trabalhou por muitos anos junto com um dos seus melhores amigos. No jardim das freiras havia plantas e árvores frutíferas. Muitas vezes o autor da obra nos fala do cultivo de melões e peras. Sim! Os jardins daquela época tinham também árvores frutíferas e não somente flores como vemos atualmente. As árvores eram o grande destaque dos belos jardins. Saber cuidar bem delas era o ofício principal do jardineiro.

Na casa onde Cosette teve o seu primeiro encontro com Marius havia um jardim cheio de árvores frutíferas. Também tinha um banco onde Cosette gostava de sentar-se, refletir sobre a sua vida e pensar na mãe que não conhecera. É nesse jardim onde acontece a primeira paixão arrebatadora de Cosette. Os encontros com o jovem Marius são sempre ali. Ele pula a grade de ferro e entra no jardim sorrateiramente para não ser visto pelo pai e por mais ninguém. Não sei se o autor quer nos dizer que ele é um amante da natureza ou se Jean Valjean, o seu personagem principal, é quem ama tanto a natureza que não consegue viver longe dela porque nas casas que aluga sempre existirá um jardim a sua disposição.

Os belos jardins de Victor Hugo não são muito detalhados. Ele simplesmente fala sobre a existência deles em alguns locais de forma quase despercebida pelo leitor não atentar para a presença da natureza no seu romance. Confesso que na primeira leitura que fiz da obra, há alguns anos não atentei para isso. Para mim, na primeira leitura é como se as árvores estivessem ali por estarem simplesmente e não por serem elementos necessários a narrativa do autor.

Na sua infância Cosette sempre gostou dos jardins depois que passou a viver com Jean Valjean. Ela aprendeu com o pai a cuidar das flores e das árvores. Esse cuidado que tanto falo aqui necessário as crianças das grandes cidades. Para mim, a cada criança que nasce deveria ser presenteada uma árvore. Que ela pudesse desde cedo cuidar dessa árvore e fazê-la crescer frondosa e exuberante aos olhos do mundo. Não se sabe se Jean Valjean ensinou a Cosette amar os seus jardins, com efeito sabe-se que ele sempre a levava para passear nos bosques e praças.

De certa forma, não é preciso ensinar, mas fazer gostar. As crianças tendem a imitar os pais. Se elas são acostumadas desde crianças a cuidarem da natureza, nunca que a agredirão. Do mesmo jeito se elas forem acostumadas a passearem em parques e bosques, sempre que puderem, mesmo adultas, voltarão a passear nesses lugares porque as lembranças da infância estão vivas no pensamento. Tornamos a voltar nas nossas infâncias sempre que lembramos de algo agradável.

É importante e necessário que cada casa tenha um jardim. Nem que seja um pequeno jardim, mas que a criança possa ter contato com a natureza e perto dela ficar o tempo que for preciso. Se morar num apartamento que existam plantas e flores em vasos. Se morar numa casa com quintal que possa ter plantas frutíferas, hortas e flores. Faz bem às crianças conviverem perto da natureza.

Na obra “Os miseráveis” a menina Cosette era triste e sofrida pela ausência da sua mãe, mas depois de ganhar o amor e cuidados de Jean Valjean passou a ser alegre e amar todas as coisas ao seu redor. Apesar da simplicidade com que viviam pai e filha, a menina aprendeu a amar as árvores da mesma forma que o seu pai. É isso que sempre peço nos meus textos, ou seja, que as crianças tenham proximidade com as coisas que os pais gostam e apreciam.

Todos os papais e mamães precisam aprender a amar a natureza. Alguns reclamam que as árvores sujam muito. As folhas secas que caem das árvores servem para reter a água da chuva evitando as enchentes, elas também servem como adubos para outras plantas. Além do mais, apanhar folhas secas junto com as crianças é uma grande terapia ocupacional para esquecer a ansiedade e o estresse do dia a dia.

Quando a gente lê as obras dos românticos do século XIX aprendemos com eles a amar a natureza e cuidar bem dela.  Passamos a valorizar as nossas árvores. Descobrimos que o amor pelas florestas é grandioso e necessário. Nesses romances, não vemos árvores sendo derrubadas, florestas desmatadas ou queimadas. Nada disso! O amor dos autores pela natureza é tão grande que vemos sempre descrições bonitas sobre ela. Essas obras românticas deveriam chegar às crianças de uma certa forma. Talvez através da adaptação que se faz tão boa para dialogar com a criança.

Alguém pode dizer que “Os miseráveis” não tem como ser lido por crianças, mas eu digo o contrário. Tem muita coisa nesta obra que pode ser discutida e interpretada pelas crianças. Além do podador de árvores temos os jardineiros, os proprietários de jardins, os que apreciam bosques, os que passam horas sentados em praças públicas. Nós já não temos mais esses costumes que tinham Jean Valjean e a sua filha de passearmos pelas praças públicas, porque as coisas estão tão violentas que tememos um assalto ou coisa parecida. Mas, podemos ir a esses lugares num horário que tenham outras pessoas. Claro que não podemos ir sozinhos. Correremos o risco de realmente sermos assaltados porque as autoridades públicas não se preocupam com as nossas seguranças. É uma pena!

O nosso personagem principal Jean Valjean gostava de podar árvores com um machado. Há no romance outro personagem que faz isso do qual não lembro o nome agora. O podador de árvores necessita ter um carinho e cuidado com elas, pois se podar demais a deixará feia e tristonha.

As árvores também choram. As árvores também ficam tristes. Nas suas diversas fugas que tinha sempre o inspetor Javert o perseguindo, Jean Valjean subiu em muitas árvores para cair dentro de jardins alheios. As árvores sempre foram generosas para com o nosso personagem. E ele também sempre teve um amor grandioso por elas. Talvez o maior amor da sua vida depois da menina Cosette. Jean Valjean gostava de viver nos fundos das casas que alugava bem lá atrás dos seus jardins escondido de todos e, principalmente, do inspetor Javert.

Já existe uma versão para crianças dessa obra que ora falo. Seria bom que professores e pais lessem para as suas crianças dando ênfase aos elementos da natureza que nela aparecem. Contando as aventuras de Jean Valjean, Cosette, Javert e tantos outros personagens. Trazendo sempre a presença das árvores significativa na narrativa. Que o professor possa junto com as crianças descobrirem imageticamente como eram os jardins do século XIX da França e como eram os nossos jardins brasileiros daquela época. Também que seja criado um diálogo em relação aos jardins que não têm mais árvores e sim apenas flores.

Por que estamos deixando de plantar árvores nas nossas casas, nas nossas ruas e nas nossas praças? O que fazer para colocar esse amor de Jean Valjean pela natureza à mostra de todas as crianças nas escolas? O que nos aproxima do romance e ao mesmo tempo nos afasta dele? Ainda temos nas nossas casas jardineiros? Conhecemos algum podador de árvores? Que tal convidar um podador de árvores para fazer uma fala na escola?

Se Jean Valjean ensinou a menina Cosette a cuidar e amar o seu jardim nós também podemos ensinar às nossas crianças a amarem os seus. As crianças enxergam nas árvores grandes amigas que são capazes de ouvi-las e confiarem os seus segredos. Se não podemos mais passar horas sentados num banco de uma praça sentindo o ar puro das árvores que possamos ter nas nossas casas um pequeno jardim florido onde as crianças possam regá-lo e cuidar dele com todo o carinho do mundo assim como fazia Cosette com os seus jardins pelas diversas casas onde passou com o seu pai.

Afinal, a vida requer um pouquinho de amor em tudo o que fazemos e esse amor Jean Valjean e a menina Cosette sabiam doar muito bem as coisas que faziam e onde viviam. A gente aprende a valorizar mais a vida comendo pão preto, acreditava Jean Valjean. Eu acredito que a gente aprende a valorizar mais a vida chupando cajus quando a fome aperta na barriga e dentro de casa não tem nada para comer.

Destaco uma parte do texto que traz as árvores de uma forma maravilhosa para a nossa leitura que diz o seguinte “Que fez durante todo esse trajeto? Em que pensava? Como de manhã, olhava as árvores passarem, os tetos de colmo, os campos cultivados e os diferentes aspectos da paisagem que se desloca a cada volta do caminho; essa é uma forma de contemplação que muitas vezes satisfaz a alma, dispensando-a de pensar.” Momento em que Jean Valjean está indo decidir mais uma vez o destino da sua vida difícil e sofrida ele escolhe olhar as árvores para pensar e refletir sobre tudo o que fez nela e o que poderá fazer para tornar-se um homem bom e virtuoso.

E para finalizar o meu texto deixo outra passagem bonita que gosto muito e nos diz o seguinte “Uma hora depois, um homem, caminhando pelo meio das árvores e do nevoeiro, afastava-se rapidamente de Montreuil-sur-Mer na direção de Paris. Era Jean Valjean.” Mais uma vez Jean Valjean se vê na necessidade de fugir das mãos do inspetor Javert e caminha pelas árvores. Quantos de nós não fugimos dos nossos problemas, angústias e aflições caminhando pelo meio das árvores da nossa cidade?

Em outra publicação, escrevemos: não é porque moramos em áreas urbanas movimentadas que não teremos uma árvore próxima de nós. O resto, se quisermos, será sombra das nossas próprias árvores, plantadas pelas nossas e pelas mãos das nossas crianças com sorrisos e alegrias de não se acabarem mais. Leia mais: https://www.neipies.com/as-arvores-urbanas-e-sua-importancia-para-as-criancas/

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Espiritualidade vem de dentro e comunica com alteridade

A espiritualidade do olhar nos conecta com o respeito, com o diálogo e com o encontro presente no olhar daquele e daquela que não pode mais receber um abraço, um afago. O distanciamento é essencial para nossa sobrevivência. Se o olhar é a porta da alma, sem dúvida é a janela do coração; e o termômetro da emoção e da razão.

Espiritualidade é tudo aquilo que dentro de mim, de nós, faz uma transformação. Tudo aquilo que me leva a mudar enquanto ser humano. A espiritualidade desce da cabeça para o coração e através do respeito, diálogo e encontro, coloca-me em direção ao diferente fazendo, portanto, uma mudança interior e exterior.

O isolamento social tem sido benéfico pois exige de mim, de cada um, de cada uma de nós, conhecer alguém que pouco conhecemos: nós mesmos! Tenho que nestes dias de quarentena encarar a mim mesmo sem máscaras, sem subterfúgios, sem rotas de escape, apenas eu comigo mesmo, para entender o que Karl Rahner já dizia: Espiritualidade é viver pelo Espírito.

Se eu vivo no Espírito, não posso voltar a ser quem eu era antes da pandemia. Preciso ir além, exercitando a cada dia a misericórdia, a compaixão, a justiça, a paz. Precisamos voltar à anormalidade, pois a normalidade não deu certo!

A espiritualidade é para mim alteridade, pois, me coloco sempre na estrada que me leva ao outro, me leva ao diferente. Não é fácil esta caminhada, se não conseguimos respeitar o outro, não conseguimos dialogar com o outro, não conseguimos encontrar o outro.

A espiritualidade é para mim o encontro do ser humano com o Deus da Vida, pois, só há espiritualidade dentro de um cenário em que está inteiramente inserida na realidade histórica. É fácil falar do fim, porém, o difícil é indicar o começo e o caminho.

A fé não é antídoto para a Covid-19, pelo menos até o momento, a ciência ainda não atestou isso. Mas, a fé caminha de mãos dadas com a vida e a vida é cheia de espiritualidade que tem como características a liberdade e a libertação.

Eu vejo você!

O lugar da pluralidade que liberta é a valorização da pessoa, do indivíduo, da consciência, da diversidade. E como dizia o teólogo Segundo Galilea: “A espiritualidade é o conjunto de práticas e atitudes que manifestam a experiência de Deus (do Espírito Santo), numa pessoa, numa cultura, ou numa comunidade. É toda existência humana que põe em marcha existência pessoal e comunitária. Trata-se de um estilo de vida que dá unidade profunda ao nosso orar, nosso pensar e nosso agir”.

Acredito nisso!

A alteridade é um substantivo feminino que procura explicar a condição natural do que seja o outro; deve ser entendida a partir de uma divisão entre um “eu” e um “outro”, ou entre um “nós” e um “eles”. A alteridade se aproxima da empatia, pois implica colocar-se no lugar ou na pele desse “outro”, alternando as perspectivas e as prospectivas que nascem em torno do respeito, do diálogo e do encontro.

A pandemia e o isolamento social trouxeram um novo viés para as relações humanas: todo ser humano precisou se livrar das máscaras e das maquiagens e, teve que extinguir os preconceitos e encarar-se em frente do espelho.

O ser humano, consigo mesmo, na busca por um entendimento profundo de como fortalecer ou refazer laços de amizade e de admiração desfeitos por conta de fofocas, desentendimentos e mentiras. É o desafio que terá nos dias que virão. Uma minoria abraâmica, como dizia Dom Hélder Câmara, sairá modificada desta pandemia buscando fazer a diferença.

A espiritualidade enquanto alteridade reforça a ideia de que somos seres humanos propensos à liberdade e à libertação; o Espírito que habita em cada um, em cada uma de nós, nos convida e nos impulsiona a mergulharmos nas águas profundas do nosso ser, mas ao retornarmos à superfície, ir em direção do outro, do que é diferente, e que fortalece a nossa pluralidade na unidade.

A Teologia da Libertação ensinou a quebrar os grilhões que tornavam mulheres e homens da América Latina e Caribe em escravos políticos, sociais, econômicos e religiosos. Na liberdade de filhas e filhos de Deus, ousamos sonhar um outro mundo novo e possível.

Neste outro mundo novo e possível, será preciso experimentar uma espiritualidade do olhar. Antes, podíamos contemplar a face de mulheres e homens em sua plenitude e beleza. Com a pandemia, resta-nos contemplar os sinais transmitidos pelos olhos; estes ainda não foram escondidos pelas máscaras. A comunicação que brota e jorra dos olhares, de tantas pessoas, define o grau de cumplicidade e proximidade com a outra pessoa que deve se manter longe, para o bem de ambos.

Será necessário assistir ao filme AVATAR. Há uma frase do casal principal que ilustra muito bem este exercício de enxergar a gentileza, a misericórdia, a coragem, a compaixão, o amor e a ternura que existe na outra pessoa, mas que só pode ser revelada com a contemplação profunda do olhar: “EU VEJO VOCÊ!”.

A espiritualidade do olhar nos conecta com o respeito, com o diálogo e com o encontro presente no olhar daquele e daquela que não pode mais receber um abraço, um afago. O distanciamento é essencial para nossa sobrevivência. Se o olhar é a porta da alma, sem dúvida é a janela do coração; e o termômetro da emoção e da razão.

Eu vejo você, e você não é mais invisível para mim! Toda a sua dignidade humana me interessa: suas dores, suas alegrias, suas derrotas, suas conquistas. Eu vejo você por inteira, por inteiro. Eu vejo você, porque antes eu me vi, eu me enxerguei e me aceitei enquanto ser humano comprometido com o Espírito de Jesus de Nazaré e isso me faz frutificar o mundo.

A espiritualidade do olhar não tem uma fórmula, não tem um método. Ela nasce na observação atenta dos olhares. O olhar não faz barulho nenhum. Neste silêncio encontraremos as respostas.

Me lembro do último encontro que tive com meu querido amigo e irmão Dom Pedro Casaldáliga, em Ribeirão Cascalheira – MT, durante a Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, em 2016. Ele estava sendo cuidado em sua cadeira de rodas e eu fiquei ali parado na porta, olhando-o de longe. Ele me viu, me reconheceu, me beijou e me abraçou com o seu olhar. Não dissemos uma única palavra, mas falamos tudo o que a saudade e nossa amizade pediam.

Para mim, há um profundo significado em dizer eu vejo você! E para você?

*Reflexão originalmente publicada em Revista Missões: https://www.revistamissoes.org.br/2021/09/encontro-com-deus/

Autor: Emerson Sbardelotti é mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Agente de pastoral leigo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Cobilândia, Vila Velha, Espírito Santo.

Edição: Alex Rosset

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