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Reflexões sobre a Topologia da Violência

A obra Topologia da Violência do filósofo Byung-Chul Han (2016) constitui um preciso escrito para analisar o tema da violência em suas múltiplas faces.  A leitura dessa obra constitui uma aprendizagem e uma reflexão ímpar. Não havia ainda lido algo com essa compreensão da violência.

Apesar de ser uma prática tão antiga quanto a espécie humana, a violência com certeza continuará sendo um tema instigante sobre o qual precisamos pensar, estudar, investigar, refletir e escrever. Dentre as coisas que nunca desaparecem, a violência certamente pode ser incluída e por isso constitui assunto/tema/problema da antropologia, filosofia, política, psicologia, história, sociologia, economia, literatura, educação. Sua forma de aparição varia segundo a constelação social.

Na atualidade, ela tem se modificado de visível para invisível, de frontal para viral, de direta para mediata, de real para virtual, de física para psíquica, de negativa para positiva e, sutilmente, se retira para os espaços subcomunicativos e neuronais, de tal maneira que pode dar a impressão de que desapareceu. Porém, um olhar mais apurado possibilita perceber que ela se mantem constante, presente, invisível.

A obra Topologia da Violência do filósofo Byung-Chul Han (2016) constitui um preciso escrito para analisar o tema da violência em suas múltiplas faces.  A leitura dessa obra constitui uma aprendizagem e uma reflexão ímpar. Não havia ainda lido algo com essa compreensão da violência.

Han consegue nos fazer participar de sua reflexão devido a clareza com que aborda o tema. Se compreendermos o modo como a experimentamos e as múltiplas faces pela qual ela se constitui ao nosso redor talvez possamos não somente fazer dela nosso objeto de estudos, mas mudar os contornos da vida e de nosso modo de viver.

Byung-Chul Han, nascido na Correia do Sul em 1959, estudou Literatura alemã e teologia na Universidade de Munique (Alemanha) e Filosofia na Universidade de Friburgo/Alemanha, onde também se doutorou em 1994 com uma tese sobre Martin Heidegger. Na atualidade é professor de Filosofia e Estudos Culturais da Universidade de Artes de Berlim. É autor de mais de uma dezena de qualificados Ensaios dentro os quais está Topología de la Violência, objeto da presente reflexão. O Ensaio é composto de 13 capítulos, divididos em duas partes: a primeira, intitulada Macrofísica da Vilência, é composta de 5 capítulos; a segunda, intitulada Microfísica da Violência, é composta de 8 capítulos.

Para Han é possível adquirir o poder por meio da violência, mas é um poder frágil. “É um erro pensar que o poder remete à violência. A violência tem uma intencionalidade completamente distinta do poder”. Tanto a macrofísica da violência quanto o poder “do soberano” são fenômenos da negatividade.

Na atualidade o “poder e a violência” não representam um meio fundamental para a política. “Com a positivização da sociedade, também o poder, como meio socioimunológico, perde cada vez mais significação”. Não significa o fim da “violência”, mas um novo tipo de violência, porque esta não se manifesta somente na negatividade do outro, mas também na positividade.

Da macrofísica para a microfísica. “A violência macrofísica destrói toda a possibilidade de ação e atividade. Suas vítimas são jogadas em uma passividade radical. A destrutividade da violência microfísica, ao contrário, tem sua origem no excesso de atividade que se manifesta como hiperatividade”. O outro não é mais o inimigo, mas o competidor. Este não gera nenhuma reação imune. A micrológica da violência que será explorada na segunda parte deste livro, é uma lógica do igual. “E o terror do igual”

As reflexões de Han em Topologia da violência certamente constitui um rico arsenal para pensar os dilemas e conflitos vivenciados na sociedade contemporânea. Além de dialogar com diversos autores de distintas áreas, Han apresenta uma amplo e complexo panorama do lugar da violência no cenário da sociedade atual.

Uma boa leitura para educadores, pesquisadores, profissionais de distintas áreas e principalmente para todos aqueles que buscam compreender as novas e distintas patologias provocadas pela violência que se faz sentir nos micro e nos macros espaços da globalização.

Para os que se interessarem no assunto, sugiro também um artigo de minha autoria intitulado “Violência da positividade e educação: da cultura do tédio à promoção da cultura do sentido”, publicado em 2018 na reconhecida Revista Roteiro da Unoec/Joaçaba/SC. O artigo na íntegra pode ser acessado pelo seguinte link: https://www.researchgate.net/publication/327334303_Violencia_da_positividade_e_educacao_da_cultura_do_tedio_a_promocao_da_cultura_do_sentido

A cidade, outrora local de convivência, de contatos freqüentes, de vida social intensa, está se tornando espaço de segregação onde os muros estão cada vez mais altos ao redor das casas, dos condomínios, dos parques, das praças, das escolas, dos escritórios. Leia mais: https://www.neipies.com/a-mixofobia-da-cidade/

Autor: Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

Não é só a pandemia: a evasão escolar também é resultado do desmonte do governo Leite (PSDB)

A evasão escolar é um problema real, agravado durante a pandemia. No entanto, é necessário destacar que o descaso do Governo do Estado com a educação e com as políticas de inclusão social e de transferência de renda é uma das causas para esta realidade.

Com o programa Avançar Educação, o governador Eduardo Leite (PSDB) prioriza o marketing vazio e sua campanha presidencial, ao invés de dialogar com a comunidade escolar, valorizar educadores e garantir de fato uma ação concreta para diminuir a desigualdade social.

Durante toda a sua gestão, Leite tirou a educação pública da sua lista de prioridades. Desde antes da pandemia só fez retirar direitos, fechar escolas e diminuir investimentos na pasta.

O mesmo acontece com as políticas de inclusão social, tão necessárias para garantir o direito à educação. Leite tardou em lançar o auxílio emergencial gaúcho e não conseguiu executar nem 11% do previsto, novamente quem mais precisa na mão.

Em um cenário de sucateamento total, nas escolas do Rio Grande do Sul falta tudo: professores, funcionários, infraestrutura e segurança. Até 11 de março de 2020, em apenas 9 meses, Leite (PSDB) já havia fechado 61 escolas da rede estadual e 1.889 turmas.

Com a pandemia, o cenário só se agravou. Novamente o executivo gaúcho lavou as mãos, não garantindo nenhum plano de melhoria neste período. Pesquisa do CPERS Sindicato, que ouviu 695 escolas gaúchas, apontou a falta de 1149 profissionais e 85,1% dos participantes consideram que os EPIs recebidos não foram adequados.

A falta de valorização dos educadores também é gritante. Há sete anos a categoria não recebe reajuste. Servidores da SEDUC estão desde novembro de 2014 com salários congelados, mesmo com o fato de que não conceder a inflação fere a previsão constitucional de irredutibilidade salarial. Negar este repasse tem o mesmo efeito prático de uma redução.

Desta forma, apresentar projetos após 3 anos de inércia e ataques, sem garantir a reposição salarial dos trabalhadores e nem a conexão com uma política permanente de transferência de renda para a população, é pura maquiagem eleitoreira.

A educação não pode mais esperar! Dinheiro, o governo tem! Basta priorizar o que importa!

Autor: CPERS SINDICATO

Edição: Alex Rosset

Jamais seremos perfeitos

Infelizmente, gurus modernos e livros de autoajuda barata não se cansam de afirmar que devemos focar apenas em nossos pontos positivos.

É difícil, para qualquer um, aprender a conviver com seu lado obscuro. Todos nós deveríamos adquirir consciência do mal que carregamos. Infelizmente, gurus modernos e livros de autoajuda barata não se cansam de afirmar que devemos focar apenas em nossos pontos positivos.

Outras vertentes do pensamento, como a Psicanálise, focam mais naquilo que nos incomoda e, quer desejemos ou não, faz parte de nós. Não está no outro, no vizinho. No colega de trabalho, no partido político, no sistema. Sendo parte de nossa natureza em termos de espécie, está em todos.

Outra linha da psicologia a trabalhar muito bem com esse “eu nefasto” é a Psicologia Analítica. Fundada por Carl Gustav Jung na primeira metade do século passado, ela tem um conceito específico para se referir a isso: sombra.

A sombra é, segundo Jung, parte de nossa estrutura psíquica. É aquele aspecto rejeitado de nós mesmos que, muitas vezes, nem ousamos admitir, repleto de egoísmo e violência. A sombra não deseja nada além de satisfazer seus próprios desejos, pouco se importando com questões morais.

Quando não conseguimos suportar nossos piores defeitos, os projetamos nos outros.

Não devemos nos surpreender, assim, com notícias sobre pessoas que, gritando contra a corrupção, acabam elas próprias sendo presas por cometerem tal delito ou crimes piores.

Pelo mesmo motivo, é bom desconfiar de alguém muito esforçado em passar uma boa imagem de si mesmo, em parecer dócil e correto. Pode ser alguém que, tendo dificuldade em suportar sua própria sombra, a projeta nos outros e, ao mesmo tempo, faz um esforço hercúleo para a esconder de si.

Ninguém é “bonzinho”. O santo e o sábio são idealizações, objetivos inatingíveis. Servem para nos auxiliar em nossa busca pela perfeição.

Precisamos, no entanto, ter consciência de que jamais seremos perfeitos. 

Você já parou para pensar quais são os aspectos mais sombrios da sua personalidade? A Sombra é um assunto que muitas pessoas não gostam e evitam falar sobre. Assista: https://youtu.be/YohTU-38s00?t=99

Sugestão de uma prática pedagógica – (Aulas de Filosofia ou Ensino Religioso –Anos Finais do Ensino Fundamental

Agora que você já leu o texto, responda:

1) Quais são seus três defeitos mais aparentes?

2) “Quando não conseguimos suportar nossos piores defeitos, os projetamos nos outros.” Explique, com suas palavras, esse trecho.

3) Usamos as palavras sem parar para pensar em seu real significado. O que é um defeito?

4) Se, conforme afirma o texto, jamais seremos perfeitos, de que adianta, então, buscar a perfeição?

4) Depois de assistir ao vídeo Como limpar sua sombra (https://youtu.be/YohTU-38s00?t=99 ), faça um breve resumo do que você entendeu.

Autor: Aleixo da Rosa

Edição: Alex Rosset

Da sala de aula para o mundo

Há 31 anos trabalhando como educadora, Ana Delise leva consigo o amor por ensinar, muitas histórias e agora o título de Professora Emérita 2021

(Matéria Jornalista Andressa Wentz)

“Deixa a gente voltar pra cá, Ana”, é o que dizem os alunos para a diretora Ana Delise quando saem da Escola Municipal de Ensino Fundamental Daniel Dipp para cursar o Ensino Médio. Ana Delise Cassol, a menina que entrou para o magistério com 15 anos por conta de um desejo da mãe – que sempre quis a sua independência –, hoje carrega consigo 31 anos na educação, o título de Professora Emérita de 2021, e a pedagogia freireana.

A mãe do Marcelo e do Gabriel, e esposa do Jaime, é natural de Entre-Ijuís, graduada em Estudos Sociais, pós-graduada em Geografia e especialista em Gestão Escolar. Foi em um primeiro de março que Ana chegou ­à Passo Fundo, no ano de 2004, após ter sido aprovada em um concurso da Prefeitura. Antes de encontrar a Daniel Dipp, a professora havia passado pelas EMEFs Professor Arno Otto Kiehl e Antonino Xavier. Embora fossem escolas diferentes, seu objetivo sempre o mesmo: fazer com que os alunos construíssem seu próprio espaço. “Olhar nos olhos, não de cima”.

Seu envolvimento com a equipe diretiva da Daniel Dipp começou quando foi convidada pela professora Leonise Cola para ser sua vice-diretora, mas havia uma condição: Ana só aceitaria se pudesse trabalhar diretamente com os alunos. O que sempre quis foi fazer parte de suas histórias. “Foi um trabalho constante para que os estudantes gostassem da escola, sentissem que ela é a casa deles, e que é da comunidade”.

Até então, não se percebia por parte dos alunos um amor pelo local… Quem buscou construir esses afetos foi a direção. A aproximação foi acontecendo aos poucos, por meio do diálogo e da confiança, criando um espaço onde quem estudasse na Daniel Dipp pudesse sentir que lá existe um lugar para chamar de seu. Um lugar para voltar e dizer que sente saudades – e é o que acontece. “Que escola você quer deixar para o seu filho? Eu e Nadia – sua vice-diretora e companheira – dizemos a eles quando não tomam o devido cuidado com o ambiente escolar. Mas a mão que puxa a orelha, também é a mão que afaga.”

Uma escola colorida

No Dipp, não há sala da diretora. A direção é um espaço amplo, onde todos podem estar. Fazer com que os alunos sentissem medo da equipe diretiva nunca foi a intenção de Ana Delise, pelo contrário, ela acredita em conversas abertas e em dar chances. Embora seja firme – uma ‘tigra’ – quando é preciso. “Quando o aluno tem medo da diretora é porque a única metodologia utilizada é a da ameaça. Nesses casos, não existe liberdade para o estudante”.

Quanto à inclusão, essa também é uma de suas bandeiras. Não só de Ana Dê – como é chamada pelos amigos –, mas de toda a Daniel Dipp. Para a diretora, o essencial está no olhar com carinho, na socialização em sala de aula – sem separações –, e em permitir que os alunos evoluam dentro de seu próprio tempo. Afinal, no Dipp tem lugar para todos. E todas.

Sala de aula construída pelos alunos, escadaria literária, reformas no ginásio, ambiente acolhedor para professoras e professores… Muitos foram os projetos desenvolvidos pela atual gestão. A Escola Colorida foi um deles, onde a proposta se baseava em colorir paredes e espaços físicos para que ficassem com a cara dos estudantes e dos educadores, captando aquilo que mais gostassem. Colorir por fora aquilo que já estava sendo pintado por dentro.

Para Ana Delise, mudar o mundo físico dá trabalho, mas transformar a mente das pessoas dá mais ainda. É aí que entra o papel da educação. “Tem uma frase do Piaget que eu gosto muito, é a seguinte: “O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram””. No fim das contas, pode-se dizer que educar e transformar são sinônimos.

Mas nenhuma mudança teria conseguido realizar sem sua equipe diretiva, ela conta. Foi em conjunto da vice-diretora Nadia Bolzan, das coordenadoras Angela Santos, Camila Santos e Vera Lucia Mazuco e da orientadora Maria Andreia Reginato que construiu o Daniel Dipp de afetos que existe hoje.

Porém, não é só com o carinho dos alunos, da gestão e dos professores com o qual Ana pode contar. E também não são só os alunos que sentem falta do Dipp. O professor Tiago Machado sente a mesma saudade. Para o professor de História e atual diretor administrativo do CMP Sindicato, nos dois anos em que esteve na escola encontrou um dos melhores ambientes para desenvolver sua ação docente. Um privilégio. E, em grande parte, o local tão receptivo se deu pelo trabalho do grupo da direção. “Quem conhece a professora ‘Ana Delícia’ sabe que a mesma é uma grande educadora, administradora e defensora do ensino público de qualidade”.

A verdade é que o que Ana Dê sempre quis foi deixar um legado. Deixar marcas nos estudantes. Hoje, sempre que um deles entra em sua sala carregando uma florzinha amarela – dessas do campo – para dar a ela de presente, pensa que não há algo mais precioso que seu trabalho.

Créditos fotos: Andressa Wentz

Edição: Alex Rosset

Os efeitos da poluição sonora na saúde das crianças

Eu fico me questionando como se sentem os bebês e as criancinhas. Se nós, adultos, nos sentimos perturbados com o barulho de uma música horrível, imagine esses seres tão pequeninos e que tanto precisam de cuidados.

Para começarmos bem um texto, que também pode ser lido como um poema às crianças, precisamos iniciar com alguns versos que introduzam o nosso pensamento e aqui eu trago Pedro Diniz, poeta português nascido em 1839, que diz “Palram pega e papagaio / E cacareja a galinha; / Os ternos pombos arrulham; / Geme a rola inocentinha.”

Pelos versos do nosso nobre poeta já deu para perceber que vamos falar de sons, mais precisamente desses sons do século XXI que muitas vezes nos nina e noutras nos incomoda a ponto de gritarmos por silêncio. E por falarmos em silêncio, sentimos que está cada vez mais difícil um lugar tranquilo e sereno para podermos refletir ouvindo apenas o canto dos pássaros, ou seja, o som da natureza. Cada vez esse lugar tornar-se mais raro, principalmente para quem mora na cidade grande.

Ouvimos tantos sons o dia inteiro que muitas vezes acabamos acostumados com essa barulheira toda sem darmos conta do grande mal que ela nos faz. É disso que vamos tentar falar neste texto que parece mais um poema com versos tocando cantigas de ninar aos ouvidos de vocês.

Antes de entrar no assunto propriamente mencionado no título, gostaríamos de falar um pouco sobre esse silêncio que é tão bonito e saudável à nossa saúde emocional e física. Estamos esquecendo de ouvir o som da natureza que se traduz no canto dos pássaros, nas ondas do mar, no vento nas folhas das nossas árvores e etc. Vamos caminhando para um barulho ensurdecedor de máquinas de todos os tipos ao nosso redor maltratando os nossos ouvidos e os nossos espíritos.

Há algumas tardes perto da minha casa onde o silêncio paira no ar e conseguimos ouvir a natureza cantar e falar conosco. Ainda acontece essas coisas por aqui. Mas, também tem dias que o barulho do som da casa de espetáculo que tem próxima da nossa rua só falta explodir os nossos ouvidos.

Eu fico me questionando como se sentem os bebês e as criancinhas. Se nós, adultos, nos sentimos perturbados com o barulho de uma música horrível, imagine esses seres tão pequeninos e que tanto precisam de cuidados.

Já não temos mais silêncio nas cidades grandes. Tudo é barulho demasiado. São aparelhos de som ligados em volumes altos, buzinas de carros, máquinas de fábricas, pessoas falando alto de madrugada e construções com as suas máquinas pesadas. O mundo perdeu a sua tranquilidade e ganhou uma porção de sons barulhentos que nada nos diz a não ser de que o homem contemporâneo está trabalhando por demais para conquistar o pão de cada dia para a sua família. Operários em construção são os que mais fazem barulho nas cidades grandes. Não posso reclamar deles. Estão fazendo os seus trabalhos.

Quem dera que as máquinas fossem mais silenciosas. Quem dera que as pessoas aprendessem a arte de ouvir e não tagarelassem tanto umas às outras. Dentro das nossas próprias casas, precisamos saber lidar com o barulho do liquidificador, da televisão em som alto, do irmão que toca bateria e da vizinha que grita o tempo todo com os seus filhos. Esses sons entram pelas janelas, pelas frestas das portas e vão direto para os nossos ouvidos nos afligindo. Nada podemos fazer. As crianças são as que mais sofrem com toda essa barulheira, principalmente as que ainda não sabem falar.

A poluição sonora nas cidades grandes é a segunda maior do meio ambiente, perdendo apenas para atmosférica. Sim, temos barulho por todos os lugares aonde chegamos. É gente falando, é carro buzinando, é vendedor gritando, é campainha tocando e tantos outros barulhos que possamos lembrar quando estamos sentados à espera de sermos atendidos em algum órgão público ou privado.

O barulho vem de todos os lugares. Lembramos do tempo em que éramos telefonistas e fazíamos de três em três meses exames de audição para saber como estava a nossa. O barulho daquelas vozes nos nossos ouvidos durante seis horas todos os dias era incômodo e doía em nós. Muitas amigas perderam a audição ou ficaram doentes. O atendente de telemarketing deve atentar para esse tipo de problema de saúde e se cuidar. Na empresa em que trabalhávamos, havia o cuidado sério com as telefonistas. Nem todas as empresas se preocupam com os seus profissionais, por isso o próprio indivíduo deve procurar cuidados.

Quando criancinhas, perto das nossas casas podíamos ouvir o som da natureza às cinco da manhã. Era a coisa mais linda do mundo. Talvez isso nunca mais volte a ser ouvido. O jumento lá longe dava o seu recado de que já estava acordado, os passarinhos faziam as suas festas nas árvores que se espalhavam pelos nossos quintais, as galinhas cacarejavam nos terreiros, os gatos e cachorros avisavam que o dia nascera e todos esses sons vinham numa sinfonia coletiva. Parece que a natureza combinava de fazer esses sons junto com todos os animais. Nós costumávamos ir ver o rio que passava perto das nossas casas. A água limpinha fazia barulho ao correr da cacimbinha e descer a ladeira. Parece até que estamos ouvindo esse som da nossa infância. A verdade é que o rio não existe mais e nem a cacimbinha. Foi tudo aterrado para a construção de casas e empresas.

O homem que destrói tudo, destruiu o nosso rio. Enquanto escrevemos este texto, escutamos uma cigarra cantar lá longe. As cigarras que são uma das coisas mais bonitas da natureza. Elas anunciam a chegada da noite na nossa cidade.

Temos muito barulho e muitos animais. Os animais além das criancinhas também sofrem muito com o barulho, principalmente os dos fogos de artifícios. Todo final de ano é a mesma coisa nas nossas casas, precisamos abraçar os nossos cachorrinhos para que não morram de medo do barulho desses fogos. Em seus pequenos ouvidos eles tornam-se um barulho enorme, várias vezes maior do que nos ouvidos dos humanos podendo chegar até a matar o animalzinho de infarto. Se fosse apenas um dia no ano ainda estaria bom, mas agora as pessoas resolveram soltar fogos de artifícios nos jogos de futebol e nas campanhas políticas. Qualquer coisa é motivo para queima de fogos. Essas pessoas que fazem isso parecem até que não convivem com animais, crianças e idosos. Elas mesmas não se respeitam. A audição é algo tão perfeito e maravilhoso e, se nós soubéssemos disso, cuidaríamos melhor das nossas.

Vocês já imaginaram como é a vida de uma pessoa surda? Os surdos no nosso país têm poucos direitos. Muitas escolas, órgãos públicos e privados não têm intérpretes de libras, língua oficial dos surdos no Brasil. A falta de intérpretes nessas instituições é grande. Até mesmo nas escolas e academias muitas vezes o surdo deixa de participar de alguns eventos porque não tem intérprete disponível. Não é nada fácil ser surdo no nosso país. Você já pensou querer assistir uma peça teatral, uma palestra, uma aula remota e não poder por que não há intérprete?

A língua de sinais devia ser oficializada em todas as escolas da educação infantil à graduação. É preciso dar voz aos surdos. Nos preocupamos com essa questão porque temos amigos e amigas surdos, mas também porque nos preocupamos com o bem-estar de toda comunidade surda nacional. Vivemos num país onde as pessoas com deficiências têm poucos direitos.

Que façamos barulho para essa comunidade possa ter os seus direitos garantidos principalmente nos postos de saúde, nos hospitais e nos shopping centers. Outro dia, ouvimos uma amiga reclamar de que foi ao posto de saúde do seu bairro e não tinha como se comunicar com o médico porque ele não sabia libras. E era um assunto muito pessoal para dividir com outra pessoa próxima. São esses pequenos detalhes que pedem a nossa participação na luta pelos direitos da pessoa surda.

Atualmente, temos visto muitas pessoas jovens perderem a audição. Antigamente, isso era comum nas pessoas idosas. Os jovens e isso serve de alerta para os pais das crianças também têm passado muito tempo com fones de ouvido escutando músicas ou ouvindo coisas nos seus celulares. Muitos jovens e crianças acham bonito e até charmoso usarem fones de ouvido caros e modernos. Existem fones de ouvido de todos os tipos e para todos os gostos. Outro dia, o meu sobrinho pediu para eu comprar um para ele. Disse que não. Ele ficou aborrecido comigo, mas depois me compreendeu quando lhe apresentei os motivos.

As crianças influenciadas pelos jovens adoram os fones de ouvidos. Algumas alegam que é para não incomodar quem está por perto ou apenas para a sua privacidade mesmo. O certo é que devemos evitar que os nossos jovens e crianças fiquem tanto tempo com esse aparelho.

Outra categoria que tem perdido a audição muito cedo são os trabalhadores de indústrias com máquinas barulhentas. Apesar de todo o cuidado que se possa ter através dos profissionais da segurança do trabalho dessas empresas ainda assim o barulho é tão violento aos ouvidos do trabalhador que ele não suporta e acaba adoecendo. Tem até profissionais desse ramo que recebem insalubridade por trabalharem com essas máquinas barulhentas. Passar seis a oito horas ouvindo o barulho de uma máquina deve ser muito difícil e dolorido ao espírito e ao corpo.

Homens de 35 a 50 anos estão perdendo a audição devido as horas que passam diante dessas máquinas. Muitos desses profissionais depois de perderem a audição são demitidos e não recebem os seus direitos como manda a lei. Diga-se de passagem, a lei trabalhista no Brasil ainda está cada vez mais ausente da vida do trabalhador. Os direitos e garantias nunca são ofertados como deveriam porque falta sempre um órgão para fiscalizar as indústrias e empresas.

canal auditivo de uma criança é muito menor do que de um adulto e a pressão que entra no ouvido dos pequenos é maior, aumentando os riscos de problemas auditivos. Mas essa não é a única preocupação, já que a exposição a altos níveis de ruído também atrapalha o desenvolvimento e o aprendizado. 

A exposição a barulhos e ruídos afeta não somente a criancinha, mas também o bebê na barriga da sua mamãe que a partir do sétimo mês de gravidez já consegue ouvir os sons externos. Mesmo protegido pelos músculos da barriga da mamãe, o bebê consegue ouvir todo o barulho externo e isso afeta a sua audição e emoções. O bebê na vida uterina já começa a sofrer com os problemas do mundo aqui fora, muitas vezes nascendo com traumas e medos que costumamos responsabilizar a outros fatores.

Muitos pais e mães no estresse do dia a dia costumam falar com os seus filhos gritando. Talvez para imporem autoridade e procurarem disciplinar as crianças gritam com elas como se não pudessem ouvi-los se falassem num tom de voz agradável. As crianças que recebem gritos acabam aprendendo a gritar também porque elas sempre imitam os pais e isso vai desencadear problemas emocionais graves na vida adulta.

Ninguém gosta de ouvir gritos. É educado e respeitador conversar baixinho com a criança. Da mesma forma que um grito afeta o emocional da criança também ela é afetada pelos barulhos que vêm de fora da sua casa e entram no seu pequeno mundo. Elas não sabem o que está acontecendo do outro lado das suas casas, mas não conseguem dormir com os barulhos dos carros e dos aparelhos de som dos seus vizinhos.

Nas escolas, o problema da poluição sonora ainda é muito maior. Escolas que não são bem planejadas nas suas construções escutam todos os tipos de ruídos e barulhos que vêm lá de fora. As crianças não conseguem ouvir a professora e a professora grita o tempo todo para que seja ouvida. É um sofrimento ouvir a voz da professora com o barulho das buzinas e de motores dos carros e ônibus. Também tem o barulho que vem da quadra esportiva onde as outras turmas torcem pelos seus times favoritos. As crianças não conseguem aprender desse jeito. É na idade escolar que as crianças estão mais expostas a ruídos elevados e suas complicações.

Na escola, a poluição sonora e a falta de tratamento dos ruídos geram dificuldades de comunicação e aprendizagem, prejudicam o desenvolvimento escolar, além de aumentar o estresse e a frequência cardíaca. Muitas vezes não se sabe o motivo da criança está tão ansiosa ou sofrendo com outras emoções que sozinha não sabe lidar, tudo isso pode vir do barulho com o qual tem que enfrentar todos os dias na escola para tentar compreender o que lhe é ensinado e não ser reprovada no final do ano letivo.

A falta de acústica adequada nas escolas afeta estudantes e professores. Se a sua escola estiver enfrentando barulhos e ruídos externos procure chamar um profissional para que ele possa elaborar um projeto que diminua esse barulho. A NBR 10.151 estabelece que os níveis de pressão sonora para ambientes externos em áreas escolares são de 50 dB no período diurno e de 45 dB durante a noite. Já em ambientes internos os níveis de conforto acústico, de acordo com a NBR 10.152, são os seguintes: 35 a 45 dB em bibliotecas, salas de música e desenho, 40 a 50 dB em salas de aula e laboratórios, 45 a 55 dB em áreas de circulação. Na verdade, esses valores não são respeitados. Há escolas onde o barulho chega a 90 dB. Quando há festas nas escolas também deve-se ter o cuidado para os aparelhos de som que são utilizados não machucarem a audição das crianças. Todo cuidado é necessário e desejável.

As escolas devem ser planejadas antes da construção atendendo as normas acimas, ou seja, com uma acústica adequada, principalmente as que ficam próximas de aeroportos e rodovias. Alguns problemas acústicos podem ser minimizados já na definição do layout da escola. Nessa fase, o projetista acústico vai identificar quais são as áreas mais sensíveis e separá-las das mais barulhentas por corredores, divisões de edifícios etc. Esse zoneamento é utilizado ainda para evitar que fontes ruidosas como a quadra de esportes, por exemplo, fiquem próximas de áreas sensíveis. Um bom projeto evitará que o barulho perturbe as crianças e os professores, sendo assim o ensino-aprendizagem estará garantido.

As crianças que crescem em meio a gritos e barulhos tendem a ter comportamentos agressivos devido estarem extremamente estressadas com o barulho que chega de todos os cantos e lugares. A criança não sabe como agir com todo aquele barulho que nunca para e continua perturbando o seu sono, os seus estudos e o filme na televisão. Muitas dessas crianças apresentam choros inesperados e fazem xixi na cama mesmo depois de grandes. Quando isso acontece é porque elas não estão sabendo como lidar com tanto barulho.

Os pais devem ficar atentos a certos tipos de reação das crianças como a televisão ligada num volume mais alto do que o normal quando não há tanto barulho por perto. Isso é sinal de que a sua audição, de certa forma, está sendo prejudicada por algo, quer seja em casa ou na escola.

Muitas crianças que têm problemas de audição sentem vergonha de usar o aparelho no ouvido com receio de sofrerem bullying e acabam, escondidas dos pais, tirando o aparelho ao chegarem na escola. Com isso, muitas acabam perdendo os seus aparelhos auditivos e inventam as mais diversas mentiras para não serem castigadas. Isso também é um problema escolar. A escola precisa combater esse tipo de bullying, pois a criança necessita do seu aparelho para ouvir bem seus colegas e a sua professora.

Certa vez, peguei as crianças no meio do recreio da escola onde dava aulas brincando com o aparelho auditivo do amiguinho enquanto ele pedia, desesperadamente, para que o devolvessem. O que é mais esquisito nisso tudo é quando alguém sabe que a criança tem baixa audição e fala de seus medos e dificuldades para outra pessoa sem saber que ela pode ler os seus lábios. As crianças são inteligentes por demais como sempre digo aqui. Isso pode deixá-la muito triste e até depressiva. É preciso cuidado quando se convive com essas crianças para que elas não se sintam rejeitadas ou excluídas de alguma tarefa só porque não ouvem bem.

Também temos visto muitas crianças frequentando consultórios de médicos cardiologistas. Algumas apresentam problemas de arritmia cardíaca logo cedo. Os seus pequenos corações não dão conta de tanto barulho. Os gritos que vêm de quem mais amam causam tremor e medo. Os seus lindos sonhos passam a ser pesadelos. Não conseguem dormir bem a noite toda e se sentem sozinhas e abandonadas quando os pais não permitem que durmam na cama com eles. Aquele barulho insuportável lá fora parece não cessar nunca e os seus ouvidos estão doendo com tudo ao seu redor.

Sem conseguir dormir, a criança começa a chorar e a gritar por ajuda acordando os seus familiares. Isso ocorre com os bebês também. Sendo que alguns bebês quando ouvem sons conhecidos sorriem e quando são vozes ou sons que nunca ouviram tendem a chorar como se quisessem nos chamar a atenção para tudo aquilo que lhes é estranho. O bebê não deve ser forçado a ouvir um adulto estranho tentar niná-lo, pois ele pode sentir medo ao invés de conforto e segurança.

A poluição sonora afeta a todos nós, na verdade. Sendo as crianças as mais prejudicadas, por isso devemos cuidar de sempre que possível as levarmos para um lugar sossegado onde só escutem o som da natureza. Colocar a criança para dormir cantando músicas de ninar com a voz doce ou contando-lhes histórias vai acalmá-la e confortá-la. Sempre que se dirigir a uma criança mantenha a voz calma e tranquila para não a assustar. Quem fala de forma branda e suave também é ouvido por todos. Você não precisa gritar como se estivesse numa feira para chamar a atenção da sua criança. Acostume-a a lhe ouvir com apenas um gesto ou uma palavra dita baixinha e docemente. O grito é uma agressão aos ouvidos da sua criança.

E para finalizarmos deixo você, querido leitor, com os versos do meu poeta português predileto, Alberto Caeiro, o poeta da natureza que nos diz “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… / Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. / Mas porque a amo, e amo-a por isso, / Porque quem ama nunca sabe o que ama / Nem por que ama, nem o que é amar…”

Que os sentidos das crianças possam ser amados com bastante amor, mesmo a quem não sabe o que ama e que ama a criança tanto que é para ela os seus ouvidos e voz. Silêncio, por favor, vai começar a historinha!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Água: não a privatização!

Blue Earth world with dripping water on two hand at wait on abstract black background. Water shortage and earth day concept or world water day. Elements of this image furnished by NASA.

A água, tão sagrada para a preservação da vida, será tratada como mercadoria PRIVADA e provavelmente não haverá tarifa social para famílias de baixa renda.

Antes de nascermos, a água já está presente na nossa vida.

A importância da água é inquestionável. Em que pese a crescente população mundial, o aumento de demandas econômicas e sociais que impõem a urgência de se ampliar o consumo de água para a produção de alimentos e para a indústria, a água é um bem comum e não uma mercadoria.

Estudiosos e pesquisadores reconhecem que, atualmente, todos os seres vivos existentes precisam de água para a sua sobrevivência.  O corpo humano é constituído em média 60% em massa de água. Os músculos esqueléticos são constituídos por 73% de água.

plasma sanguíneo chega a ser constituído em mais de 90% de água.

Cerca de dois litros de água são perdidos diariamente do corpo de uma pessoa adulta. Desta forma, a mesma quantidade deve ser reposta para evitar a desidratação, através do consumo de água tratada e alimentos ricos em água, como frutas e vegetais. No caso de nenhuma ingestão de água, o indivíduo morre em no máximo quatro dias.

No Rio Grande do Sul, em 28 de março de 1966, devido a precariedade no abastecimento de água as populações, foi criada a Companhia Riograndense de Saneamento – Corsan, sociedade de economia mista, de capital aberto, sediada em Porto Alegre, a partir da Lei Estadual nº 5.167/1965, sendo que o controle acionário é exercido pelo Estado do Rio Grande do Sul. 

Atualmente é inegável que a Corsan proporciona ao Rio Grande do Sul e a sua população qualidade de vida, pois abastece cerca de 6 milhões de gaúchos, conforme levantamento realizado pela companhia e disponível em seu site institucional. Isso representa cerca de 2/3 da população do Estado, distribuídos em 317 municípios.

Nesses 55 anos de existência e atuação no Rio Grande do Sul, a Corsan já se consolidou como uma empresa pública que presta serviços de qualidade, gerando riqueza para o Estado. Prova concreta disso são os cerca de R$ 2 bilhões de lucro somados pela estatal no ano de 2020.

Em Passo Fundo, a Corsan investe em diversas obras de infraestrutura para o tratamento de água e saneamento, especialmente por meio de um Fundo Municipal de Gestão Compartilhada, criado em 2010, por ocasião da assinatura do contrato de prestação de serviço entre a empresa e o Município.

Contudo, apesar de ser considerada uma empresa geradora de desenvolvimento e garantidora da vida, o governo do estado quer privatizar a Corsan.

Após derrubar a exigência de plebiscito, consulta feita diretamente ao povo, por meio de votação do tipo sim ou não à venda de estatais, no dia 31 de agosto de 2021, por 33 votos a 19, os deputados “autorizaram” o governador Eduardo Leite a repassar à iniciativa privada o controle acionário da companhia.

Ocorre que alguém vai se beneficiar com a venda da Corsan, mas não será o povo gaúcho. Serão os representantes do “capitalismo selvagem” que buscam o lucro a qualquer preço. A água, tão sagrada para a preservação da vida, será tratada como mercadoria PRIVADA e provavelmente não haverá tarifa social para famílias de baixa renda.

Não podemos permitir a privatização da Corsan, nem das reservas e mananciais. Preservar o direito humano a água é garantir a vida das próximas gerações.

Ora, os direitos a vida, ao abastecimento de água, a produção de alimentos, a preservação dos recursos hídricos e do meio ambiente, a geração de energia, entre outros temas fundamentais para a existência de um futuro sustentável e justo não podem ser entregues ao interesse privado pelo lucro.

A água é do povo gaúcho E ASSIM DEVE PERMANECER.

Os municípios gaúchos têm agora uma importante missão: precisamos do apoio e da sensibilidade das vereadoras e vereadores, das prefeitas e prefeitos que ainda podem impedir a privatização, pois dispõem de mecanismos como não assinar a proposta do governador do Estado de aditivo aos contratos municipais que estão vigentes com a Corsan. Além disso, também podem fazer a municipalização da Corsan ou buscar alternativas junto à esfera judicial.

Por fim, ressalto que eu acredito na luta e na força popular, o povo organizado também pode evitar um erro sem precedentes no Rio Grande do Sul, que causará prejuízos incalculáveis para a manutenção da vida e do desenvolvimento justo e sustentável de todos os municípios gaúchos.

Continuaremos debatendo esse importante tema nas nossas próximas colunas nesse espaço.

Vamos à luta! Não a privatização da Corsan!

Autora: Eva Valéria Lorenzato.

Edição: Alex Rosset

As faces do racismo no Rio Grande do Sul

Dados cruzados pela reportagem de diferentes órgãos do Estado revelam o perfil dos que atacam e dos que são vítimas da discriminação.

Reportagem de Andressa MoraisDaniela GonzattoSara Nedel PazTainara Pietrobelli e William Martins.

Esta reportagem começou a ser produzida há três meses, portanto, bem antes do assassinato de João Alberto de Freitas por funcionários do Carrefour. E as estatísticas que a reportagem teve acesso já anunciavam que João era um alvo em potencial da discriminação pela cor da pele. Pelos dados do Ministério Público do RS relativos a processos judiciais de racismo e injuria racial nos últimos cinco anos, é possível traçar um perfil tanto de quem comete a violência, como quem é vítima dela. Nos dois extremos, estão o gênero masculino. Os homens, representam 72% dos que cometem o crime e 68% dos que sofrem a violência.

João Alberto era negro, tinha 41 anos e foi morto no dia 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra. O tema é complexo, e os números parecem ser a ponta do iceberg, pois apesar dos crimes e denúncias se centrarem no gênero masculino, dados exclusivos da Policia Civil do RS para esta reportagem revelam que as mulheres são as que mais registram boletins de ocorrência relacionados aos crimes raciais. Esta reportagem que você está começando a ler agora, é uma tentativa de juntar pontas e lançar questões para um tema e um crime — o racismo — que tem ganho cada vez mais espaço no Brasil e no mundo.

“Um olhar agressivo […] a expressão no olhar era muito intimidadora, que parecia procurar confusão”. A simples percepção de ter recebido um olhar se tornou o motivo suficiente para que João Alberto Freitas fosse brutalmente assassinado. A afirmação anterior foi retirada do depoimento dado à polícia por uma das funcionárias do supermercado, que teve contato com a vítima minutos antes dos seguranças da loja o conduzirem para fora do prédio para violentá-lo.

O crime segue em investigação, três pessoas foram presas e o crime mobilizou o país e deixou explícito o racismo estrutural no Rio Grande do Sul e no Brasil.

O acontecimento jogou luz sobre as práticas racistas e as posturas das pessoas brancas em relação aos negros, apesar do Brasil ser formado por uma maioria parda ou negra. Não é demais lembrar que a região sul do país é historicamente reconhecida por valorizar sua cultura majoritariamente branca (colonização europeia), o que não acontece quando o tema é a formação afro-brasileira.

A pesquisador Helena Bonetto comprovou como é difícil ser negro na capital gaúcha com a tese A invisibilidade negra na cidade de Porto Alegre, defendida há dois anos no Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A amostra foi de 336 pessoas: 71% brancos, 27% negros e 2% amarelos. O perfil dos entrevistados estava associado às representações que possuem do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre.

Uma das perguntas era: Quando você escuta falar sobre o Rio Grande do Sul, você pensa automaticamente em que grupos culturais? Entre os brancos, o resultado foi: portugueses (37%), italianos (34%), e gaúchos com 13%. Somente 1% dos autodeclarados brancos respondeu que pensa na população negra como grupo cultural relacionado ao estado. Outra pergunta feita na pesquisa foi: Quais bairros que você evitaria em Porto Alegre? Entre os bairros mais evitados, destacaram-se Bom Jesus e Rubem Berta, dois lugares marcados pela grande presença negra.

Os perfis de um Racismo Estrutural

Porto Alegre não está sozinha neste ranking de denúncias. Ainda de acordo com os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, disponibilizadas pelo Ministério Público do RS, a soma dos procedimentos policiais e processos judiciais ocorridos no estado de 2015 até 25 de setembro de 2020 é de 256.

Os destaques ficam, além de Porto Alegre, para Bento Gonçalves e Caxias do Sul (Serra Gaúcha), Canoas (Região Metropolitana) e Rio Pardo (Vale do Taquari). São estas cidades que concentram os maiores registros em cada ano. Já em relação às denúncias coletadas até setembro deste ano, o MP conta com 74 registros.

E, entre os dados, a cidade de Encruzilhada do Sul, que fica na região do Vale do Rio Pardo, se sobressai por ter o maior número de denúncias, cinco, no ano de 2019.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, o Rio Grande do Sul é sem dúvida um estado racista. O estado lidera o triste ranking com 1507 registros de injúria racial. Das 27 unidades federativas, apenas 17 disponibilizam dados completos dos anos de 2017 e 2018 para análise. Os dados são baseados em informações das secretarias estaduais de segurança pública, polícia civil e Instituto de Segurança Pública/RJ (ISP). Se comparado ao ano de 2017, quando o estado disparava 1404 registros, o aumento foi de 103 casos*.

Diferença entre os crimes de racismo e injuria racial

Racismo e injúria racial são os únicos crimes existentes tipificados sobre a cor da pele na legislação brasileira. A distinção entre eles, contudo, é pouco conhecida para a maioria. Segundo o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), o crime de racismo “é mais amplo do que o de injúria qualificada, pois tem por objetivo atingir uma coletividade, discriminando toda a integralidade de uma raça”. Previsto na Lei nº 7.716, de 1989, é inafiançável, imprescritível, possui multa e sua pena pode chegar até cinco anos de reclusão.

Já o delito de injúria é previsto no artigo 140 do Decreto Lei nº 2.848, de 1940, do Código Penal, com pena de reclusão, que pode ser de um a seis meses, ou multa. No parágrafo 3º, porém, o crime de injúria racial é tratado como uma forma de injúria qualificada, possuindo, nesse caso, pena de um a três anos de reclusão e multa. Quando feita, a vítima recebe ofensas direcionadas à sua raça, cor, etnia, religião, origem, idade ou deficiência.

Agredido em via pública

Em uma tarde de dezembro do ano de 2014, em São Sebastião do Caí, que Luis* teve sua dignidade ofendida em consequência de sua raça e cor. Em plena via pública foi chamado por Maurício* de “ladrão” e “negro macaco”. O agressor afirmou ainda que “negro não podia morar na cidade de Harmonia, deveria morar na Coréia”. A Coréia é o apelido pejorativo do Bairro Navegantes de São Sebastião do Caí, conhecido por ter altos índices de criminalidade, e por abrigar moradores que possuem poucos recursos financeiros.

O relato, retirado do processo nº 70082672676, disponível no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), ressalta que Maurício* foi denunciado pelo crime de injúria racial, pelo artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal. A sentença foi proferida em 2018 e a pena foi de um ano de reclusão, em regime inicial aberto, e pagamento de 30 dias-multa, à razão de 1/30 do salário mínimo vigente ao tempo do fato. Depois, no entanto, foi concedida a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, consistente em prestação pecuniária no valor de dois salários mínimos. Recentemente, o agressor ainda pediu apelo à justiça, a fim de reduzir sua pena. Essa, no entanto, foi negada em outubro de 2020, em julgamento.

Os processos

O caso apontado acima representa um dos 6.654 processos que corriam no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul entre 2015 e 2018. Mais da metade deles não foram levados adiante por desistência ou morte das vítimas (3.376). Em 924 sentenças houve absolvição ou perdão. 349 réus foram considerados culpados, como Maurício. 155 acordos foram feitos. Os números anteriores foram obtidos via assessoria de comunicação do Tribunal de Justiça do RS.

Nos casos de crimes de injúria racial, como a pena máxima é de três anos, o prazo para processar quem cometeu o ato de injúria é mais curto, uma razão para a descontinuidade segundo a juíza da 1ª Vara do Júri de Porto Alegre, Karen Pinheiro, que se destaca na representatividade do tema dentro da magistratura.

“(…) Isso acontece muitas vezes porque vai indo, indo, e aí acaba decorrendo o prazo prescricional.”. Por outro lado, a relação entre a ofensa e o crime racial ainda é difícil de ser vista. “Muitas vezes, a pessoa pratica o fato, chama de negro, de macaco, de negra suja e outros adjetivos. Mas é muito difícil que se aceite que essa conduta seja uma conduta intencional e que a pessoa estaria agindo de maneira racista, de maneira a subjugar ao outro em razão da cor da sua pele”, exemplifica a juíza. Assim, declara que o índice de absolvições acaba sendo significativo por isso, o que é chamado de “racismo recreativo”.

Legenda: Juíza Karen Pinheiro é voz ativa na discussão da temática racial dentro da magistratura gaúcha. (Foto: Flickr/Secretaria de Comunicação Social do TRT 4ª Região do RS)

Punir, se torna ainda mais difícil quando não se tem testemunhas, ou quando as testemunhas que não querem se comprometer, e isso independente do estrato social, como se poderá ver no exemplo a seguir.

Um jornalista injuriado pela cor da pele

Em março deste ano, pouco tempo antes de começar a quarentena, o jornalista Chico Izidro viajou para a cidade de Não-Me-Toque junto da equipe do jornal Correio do Povo, local em que trabalha desde 1994, a fim de cobrir a feira Expodireto. No penúltimo dia do evento agrícola, uma festa foi anunciada para comemorar o sucesso atingido, porém, a data que era para ser alegre se tornou, segundo ele, o fato mais violento que já ocorreu em sua vida. E, mesmo com as diversas ofensas racistas, Chico não pode sequer seguir com um processo em razão da “ausência” de testemunhas.

Legenda: Chico Izidro, jornalista, foi alvo de preconceito racial na cidade de Carazinho. (Foto: Arquivo pessoal)

Antes da ocasião, o jornalista já havia combinado com seu fotógrafo de saírem para comemorar, mas, no fim, decidiram comparecer na festa, que aconteceu na cidade de Carazinho, vizinha do município de Não-Me-Toque. Logo ao chegarem, o jornalista percebeu que, dentre as 20 ou 25 pessoas do local, apenas duas eram negras, contando ele. Em determinado momento do encontro, pediu o controle remoto para uma pessoa próxima e decidiu assistir a um show de blues na televisão. Assim que o programa acabou, outro show começou, desta vez de pagode, o que fez Chico querer mudar de canal. Por não conhecer o funcionamento do controle, desligou o aparelho por engano.

Nesse momento, um dos diretores presentes passou por ele, o olhou segurando o controle e começou a ofendê-lo: “Quem deixou esse negro pegar o controle remoto? Porque é isso que acontece. Olha só, não sabe. Pega o controle remoto, pega qualquer coisa, não pode deixar o negro no comando de nada. Isso não é uma banana, cara, isso é um controle remoto. Tá entendendo?”. Sem acreditar no que estava acontecendo, Chico tentou parar as ofensas, mas elas apenas continuaram: “olha só, o macaco ainda fala”. Ao redor, as pessoas riam em vez de prestar qualquer ajuda.

Agravando a situação, o agressor ainda afirmou que por esses motivos era contra a Lei Áurea (Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil): “Olha o que ela fez, olha a merda que a princesa Isabel fez em libertar vocês. Vocês deviam estar tomando chicotada, porque vocês não são gente.” Prontamente, Chico trouxe a questão de abuso de poder e de que tudo isso poderia virar um processo, mas, após todo o discurso ofensivo, todos os presentes continuaram bebendo e conversando como se nada tivesse acontecido.

Na volta para Porto Alegre, os murmúrios sobre a injúria racial começaram, assim como pessoas falando para ele abrir um processo. “Eu precisava que as pessoas testemunhassem. Quantas pessoas acha que se ofereceram para testemunhar? Zero. Nenhuma. Ninguém”, admite Chico, que não pode dar continuidade na busca de seus direitos, pois os argumentos eram de que seria pior para ele e para a empresa. ”E ficou por isso, ainda está entalado na garganta. Não ouvi um pedido de desculpas. Simplesmente ficou assim. Uma agressão que extrapolou todos os limites do bom senso, da civilidade.”, finaliza.

O Racismo Institucional

A fim de que esses problemas sejam reduzidos, Gleidson Renato Martins Dias, especialista em Direito Público pelo Instituto de Direito Contemporâneo, fundador do Fórum Nacional de Comissões de Heteroidentificação e membro do Movimento Negro Unificado,- organização brasileira formada por pessoas negras, que luta há 42 anos contra o racismo, organizando reivindicações políticas — defende, assim como a juíza Karen Pinheiro, a necessidade de que exista uma delegacia especializada para tais crimes. Segundo ele, não há pessoas preparadas para atender as vítimas assim como há, por exemplo, na Delegacia da Mulher. Anteriormente, as mulheres vítimas de violência também eram ridicularizadas pelos servidores da Polícia Civil. “As mulheres demandaram a necessidade de uma delegacia especializada onde as pessoas estariam, pelo menos em tese, com uma preparação para receber as mulheres que estão em violência”, salienta.

A falta de um atendimento adequado nas delegacias é antiga, e fez a Aléxia Plost sofrer um processo de revitimização ao tentar denunciar a violência sofrida, como é possível ver aqui.

Mas como Gleidson ainda assegura, é necessário que todas as pessoas entendam como é violento o racismo, assim como as instituições precisam estar por dentro de uma visão antirracista. “Então, se existe um direito penal feminista, se existe uma criminologia feminista, se existe um direito da antidiscriminação, por óbvio nós precisamos que o Direito, hoje, entenda que a questão racial é estrutural”, destaca. Desse modo, indica que, para combater o racismo estrutural, é preciso ter esses aportes, não só teóricos, mas práticos.

Guilherme de Azevedo, professor e coordenador do curso de Direito da Unisinos, desenvolveu a tese Raça, Igualdade e Trauma: a função do direito na inclusão/exclusão dos negros na diferenciação social brasileira. Para ele, há uma defasagem na formação dos profissionais que estão no sistema de justiça e que muitas vezes acabam levando o caso para um lado folclórico e oferecendo mais tolerância do que esses processos deveriam receber. “Os nossos alunos, futuros profissionais de direito, podem passar às vezes cinco anos em uma faculdade de direito sem ter estudado a fundo o direito da discriminação. Então a questão técnica não é compreendida, ela é só completude. A baixa formação técnica de juízes, de promotores e de advogados na área de direito discriminatório leva a reforçar esses índices baixos de continuidade das ações e de condenação” afirma o professor.

De acordo com a juíza Karen Pinheiro, não apenas o campo do Direito, mas todas as demais áreas do ambiente escolar refletem o racismo institucional. “Um dos espaços que deveria ser objeto de um olhar muito profundo, são os espaços escolares, desde o ensino fundamental até o ensino superior, pós-graduação, mestrado, a política de cotas não é o suficiente. Educação antirracista é muito mais do que isso!”, afirma. Ela ainda explica que a falta de contato com professores e colegas negros impossibilita a visão de que eles também são capazes de transmitir conhecimento.

Já para a advogada e presidente da Comissão Especial da Igualdade Racial da OAB, na Subseção do Rio Grande, RS, Mauren Lisiane Acosta Amaral, o fato dos currículos das universidades serem compostos majoritariamente por pensadores e escritores brancos influencia na questão educacional, em que há uma presença quase nula de profissionais negros como fonte de conhecimento. Em sua perspectiva, afirma que não somos levados a estudar ou a aprender sobre a ótica dos autores negros e isso é um fator que influencia, inclusive, na conduta profissional.

Mauren também reflete que, se tivéssemos mais autores, mais conteúdo gerado por pessoas negras nos bancos universitários, seria possível formar profissionais de outra maneira: “Conscientes da sua negritude enquanto pessoas negras, enquanto pretos, e conscientes da necessidade de se respeitar o outro e de se buscar uma sociedade mais equânime, quando não negros.”, conclui.

A ausência de diversidade racial nos espaços escolares, seja no ensino básico como no âmbito superior, é um problema tanto para alunos, com para professores negros, como explicam a mestranda Carol Anchieta e o professor Elói Marques Coelho Júnior aqui.

Os juízes e as cotas raciais

Menos presentes nos espaços universitários, os negros também são em bem menor número entre os magistrados. De acordo com os dados do último senso do Conselho Nacional de Justiça, publicado em 2018, apenas 18,1% dos juízes brasileiros são negros. Dentro deste percentual, somente 1,6% se declara como preto, e 16,5% é pardo. “Isso revela um déficit de representatividade e é também uma demonstração de como essas carreiras são construídas de forma a dificultar o acesso de pessoas negras.”, explica Karen.

Hoje, 20% das vagas de juízes são reservadas para negros. No entanto, ainda que exista este espaço, ele não é ocupado totalmente. Segundo a juíza, é necessário ao menos seis anos de dedicação total e exclusiva ao estudo, já que o processo seletivo é muito exigente. No entanto, o negro dificilmente tem condições de não trabalhar e se focar apenas na busca por conhecimento, já que, geralmente, por trás dele existe uma família dependente da sua força de trabalho.

Além do fator de intimidação para as vítimas, a advogada Mauren Amaral, presidente da Comissão Especial da Igualdade Racial da OAB, na Subseção do Rio Grande, admite que, como o sistema judiciário é composto majoritariamente por profissionais brancos, isso inquieta igualmente os advogados e defensores negros. Para ela, há uma luta contra a diferença e contra esse racismo estruturado na sociedade: “Não é incomum o relato de colegas que foram ou se sentiram intimidados em audiência. São os advogados negros que são confundidos com partes, como acompanhante das partes, e isso não é tão raro quanto se imagina”, afirma.

Análise de Boletins de Ocorrência no estado

Dados exclusivos da Polícia Civil-RS via lei de acesso a informação, trazem detalhes dos boletins de ocorrência (B.O) registrados nos últimos 5 anos nos estados. Os números revelam que o total de B.O’s só aumentou, passando de 1532 em 2017 (menor índice desde 2015) para 1810 em 2019.

Comparado a 2018, em 2019 houve uma queda de 26 B.O’s em “Injúria Qualificada” e 13 em “Preconceito Raça Cor e Etnia”. No entanto, em “Injúria Discriminatória” quase 200 B.O’s a mais foram feitos. No geral, os números de boletins de ocorrência registrados nessa categoria são superiores às outras tipificações.

Neste ano, até o momento da apuração dos dados, 842 .O B.Os haviam sido abertos por Injúria Discriminatória, enquanto apenas 318 se enquadraram em Injúria Qualificada, e 22 em Preconceito de raça, cor e etnia. Conforme a juíza da 1° Vara do Júri de Porto Alegre, Karen Pinheiro, membro do Judiciário há 21 anos, muitos boletins são registrados em uma categoria errada, e isso é resultado da falta de uma delegacia especializada para crimes raciais.

Em 5 anos, foram realizados 9.330 registros por crimes raciais no estado, um número alarmante quando comparado com os dados do Tribunal de Justiça.

Mulheres registram mais Boletins de Ocorrência

De acordo com os dados da Polícia Civil sobre Boletins de Ocorrência, nos últimos 5 anos 5225 B.O’s foram feitos por mulheres, enquanto 4105 foram feitos por homens. Esse dado traz a tona a vulnerabilidade da mulher negra em relação aos homens. Apesar dos dados do Ministério Público mostrarem que o maior número de denúncias é feito por homens, é importante entender que para isso, a vítima precisa fazer a queixa formal ao MP, e isto só é possível se o inquérito for levado adiante, não sendo arquivado.

Uma hipótese para os B.O’s feitos por mulheres negras não serem levado adiante se refere às dificuldades que elas encontram para serem ouvidas, consideradas e apoiadas.

De acordo com a juíza Karen, isso se deve a uma pirâmide social muito presente no Brasil: “Mulheres negras ganham menos do que homens negros, que ganham menos que mulheres brancas, que ganham menos que homens brancos, ou seja, mulheres negras estão no topo da pirâmide social das opressões.”

Dados do Atlas da Violência 2020 indicam que a realidade é ainda mais crítica. Entre 2008 e 2018, a taxa de feminicídios de mulheres não negras caiu 11,7%, enquanto a taxa entre as mulheres negras aumentou 12,4%.

*Os dados de 2020 já saíram, mas os de injúria racial divergem dos que foram divulgados nos anuários anteriores. Para tentar entender a questão, a equipe da reportagem tentou contato com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, por e-mail, mas não obteve retorno até o momento da publicação da reportagem.

**Os nomes do agressor e da vítima foram alterados, pois o caso foi retirado do portal do Tribunal de Justiça do RS

Esta matéria jornalística foi originalmente publicada no site Beta Redação, no link: https://medium.com/betaredacao/as-faces-do-racismo-no-rio-grande-do-sul-9645a4055fc Esta matéria foi feita para a disciplina de Jornalismo Investigativo da Unisinos, com o suporte da professora Luciana Kraemer.

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Edição: Alex Rosset

Cursos jurídicos – qualidade ou menor preço?

O que queremos com os cursos jurídicos – qualidade ou menor preço? Formar juristas e operadores qualificados do direito, para qualificar a justiça e propiciar confiança e segurança jurídica ou só fornecer diplomas?

Dia desses, em momento de reflexão, rascunhei opiniões pessoais que podem identificar ou caracterizar o atual ciclo da minha existência, ou do que percebo dela. Nessa oportunidade, registrei desafios e compromissos na escrita. Sustentei que escrever é um ato de alguma coragem e de singular responsabilidade. 

Explico a assertiva. O que habita no pensamento, o que alimenta as conexões e possibilidades da atividade intelectual e afetiva, mas principalmente o que representa as nossas reações refletidas sobre a realidade vivida e projetada, exige muita cautela quando é traduzido em forma de texto escrito, esse turbilhão de pensamentos, sentimentos e desejos precisam ter forma, conteúdo e sentido (s) coerentes.

Se somos livres para pensar (e acreditamos nisso), impulsivos para falar (não raras vezes pecamos pelo excesso), mas quando escrevemos não podemos deixar de aprimorar e organizar o que pensamos, sentimos e desejamos – o escrito deve ser expressão do pensamento criterioso, refletido e ponderado.

Ao entrar (ao menos desconfio que assim esteja) num ciclo de prevalência da avaliação, da reflexão e ponderação – esse quadro retarda a decisão, prolonga a angústia e gera a sensação contraditória da passagem do tempo. Tarda, não precipita, a produção escrita.

Faço essa peroração para tentar justificar o atraso em disponibilizar, agora em texto, o conteúdo de uma entrevista dada em emissora de rádio local sobre a realidade e os movimentos dos cursos jurídicos do país, o que não tem sido diferente na nossa cidade.

Afirmei, nessa entrevista, que um assunto estava passando sem muito alarde, sem chamar muita a atenção da sociedade e da comunidade – até mesmo porque a maioria de nós está fazendo um esforço enorme para enfrentar os efeitos danosos da pandemia, procurando trabalhar para sobreviver e retomar suas atividades profissionais e empresariais, mas que há séria repercussão sobre os cursos jurídicos e nos seus desdobramentos culturais, jurídicos e sociais.

E que assunto é esse?  As iniciativas de muitas instituições de ensino superior de oferecer cursos jurídicos 100% EAD – Ensino à distância.  

Destaquei a necessidade de uma especial atenção a tais decisões.  Para isso, uma indagação que precisa ser feita: ter-se-á mais qualidade na formação jurídica ou simplesmente haverá a oferta de cursos mais baratos, pois a estimativa é de que os cursos poderão ser oferecidos com mensalidades de R$300,00 (trezentos reais).  Haverá uma competição para quem cobrará menos e não quem prestará o melhor curso e preparará melhor os egressos para as carreiras jurídicas?

Estude direito, estude sem sair de casa, por 300 “pilas” ou até por menos, já que a competição será marcada pelo menor preço.

O Brasil já é o país com maior número de cursos jurídicos, já são mais de 1.800 faculdades de direito e que oferecem em torno de 350.000 vagas anuais.  O país também é o que tem o maior número de advogados por habitantes, são um milhão e oitocentos mil advogados inscritos na OAB, um advogado para cada 174 habitantes.

Mas tem outros dados que precisam ser conhecidos e analisados.  Com esse número de cursos jurídicos e da oferta de vagas em faculdades de direito, tem-se dois milhões e quinhentos mil bacharéis, formados por estas faculdades, mas que não conseguem aprovação nas provas da OAB.  Isso é impressionante, mas já se disse que nada do está ruim não possa piorar. Nas provas da OAB que se encerraram em janeiro de 2021 houve aproximadamente 130.000 inscritos e foram aprovados pouco mais de vinte e dois mil candidatos – índice de 17,41% de aprovados, uma reprovação de 82,59%.  Será que a reprovação não foi dos cursos jurídicos, das Faculdades de Direito?

Pode-se afirmar que isso também tem como causa a pandemia, que exigiu a realização de aulas remotas nos cursos jurídicos, pela excepcionalidade da situação. Mas pode-se imaginar o que irá ocorrer com a oferta de cursos de graduação em sistema 100% à distância?

Se o que move as instituições é a preocupação com o menor preço, qual a preocupação e o compromisso com a qualidade?

Aula presencial na formação jurídica é insubstituível, pela interação do professor com o aluno – deste com os seus colegas – pois não devemos esquecer que o Direito é ciência social e não pode ser transformado em fragmentos ou pílulas de conhecimentos e oferecido sem qualquer interação direta entre alunos, professores e comunidade. 

Em obra escrita pelo ex-reitor da Universidade de Passo Fundo, no livro Universidade Comunitária, destacava que os cursos superiores em Passo Fundo dando origem à UPF, “não foi ato da generosidade de algum governante. Não caiu de paraquedas num determinado lugar. Ela foi pensada e desejada. Nasceu do sonho e da vontade de visionários.” Deve ser destacado que o Curso de Direito foi o pioneiro na nossa região.

Se há mais de 65 anos a comunidade local se mobilizou para que o ensino jurídico pudesse vir para a região norte do Estado, pois só tinha cursos jurídicos na capital e na região sul – movimento que lutava pelo direito de acesso ao ensino jurídico … pelo direito de apreender – logo, muito logo, teremos que mobilizar para que a oferta de cursos jurídicos não tenha como único e predominante critério o valor das mensalidades, mas a qualidade necessária para formar e preparar bons profissionais, pensadores, juristas. Será necessário, talvez, pedir licença para que especialistas do “mercado do direito” dêem lugar a visionários, novamente.

Com a oferta da graduação em direito como ensino à distância – EAD, unicamente para estabelecer uma concorrência como se a educação fosse uma simples relação de mercado, uma mercadoria, pelo menor preço, sem compromisso e preocupação com a qualidade, os prejuízos individual, familiar, social e jurídico serão irreversíveis.

Acredito que pautas e temas com estas repercussões precisam ser conhecidas, discutidas e analisadas pela comunidade e não somente pelas instituições de ensino, desde que se tenha compromisso comunitário e responsabilidade social, política e jurídica.

O que queremos com os cursos jurídicos – qualidade ou menor preço? Formar juristas e operadores qualificados do direito, para qualificar a justiça e propiciar confiança e segurança jurídica ou só fornecer diplomas?

Liberdade de pensamento, de expressão e de opinião são valores que precisam ser alimentados, nutridos e estimulados com bons e qualificados referenciais… lembrando uma frase do ex-presidente americano Barack Obama: “na vida, na política, a ignorância não é uma virtude…”. Leia mais: https://www.neipies.com/a-ignorancia-nao-e-uma-virtude/

Autor: Alcindo Batista da Silva Roque

Edição: Alex Rosset

Pedagogia do envelhecer

Talvez seja urgente e necessário educar nossas crianças para que compreendam a dinâmica da vida em que o envelhecer não é um problema social e sim a oportunidade de compreender o sentido da existência.

No dia 1 de outubro comemora-se o dia do idoso. Uma importante oportunidade para pensarmos de que forma tratamos nossos idosos, pessoas que “gastaram” sua vida na construção de muito daquilo que nos constitui; momento para refletirmos sobre nossa própria condição humana, pois para quem tiver a graça de envelhecer, será nosso futuro; oportunidade para realizar uma espécie de pedagogia do envelhecer.

Em seu livro A velhice, considerado um dos mais importantes ensaios contemporâneos sobre as condições de vida dos idosos, a pensadora francesa Simone de Beauvoir nos apresenta um excelente trabalho para pensar sobre esse tão conturbado assunto, presente em todas as sociedades e em todos os tempos, mas dificilmente enfrentado e tratado com a seriedade e dignidade que merece.

Quando o assunto é velhice, há uma espécie de “conspiração silenciosa”, uma postura tangencial que evita enfrentar uma dura e inexorável verdade que se anuncia, pois preferimos ignorar aquilo que nos assusta e evitar aquilo que nos incomoda. A velhice é algo que nos espera e por isso nos assusta, causa mal estar, perturba.

Num modelo de sociedade que elegeu o protótipo juvenil, a vivacidade, o culto do corpo, a vida frenética, a sedução do consumo, conviver com a velhice é considerada uma ofensa. Tratar da velhice é um assunto sem charme estético, sem apelo político, com pouco interesse midiático (a não ser quando a velhice é romantizada e se torna mercado de consumo), um incômodo social e de pouca produtividade intelectual.

Ninguém quer ser chamado de velho. É preferível utilizar conceitos mais refinados, menos agressivos: terceira idade, pessoa madura, sênior, vovô, vovó etc. No entanto, o crepúsculo da vida acontece.

Parafraseando Heidegger, somos seres que caminhamos para a velhice. “Paremos de trapacear”, nos adverte Simone de Beauvoir, pois “o sentido de nossa vida está em questão no futuro que nos espera; não sabemos quem somos, se ignorarmos quem seremos: aquele velho, aquela velha”.

Possivelmente um dos principais motivos que nos fazem evitar a tematização da velhice é o medo que temos do futuro que nos espera, pois a maneira como tratamos os velhos será a maneira como seremos tratados quando assim seremos.

Compreender e exercitar a pedagogia do envelhecer significa aprendermos com nossos idosos (pais, avós, vizinhos, amigos), para que a velhice não seja sinônimo de doença, enfermidade, lamúrias, mas a rica oportunidade de aprender com quem já viveu muito e quem tem muito para nos ensinar.

Uma sociedade que despreza a vida dos mais pobres, que transforma tudo em capital, que advoga um estilo de vida ancorado no consumismo, no prazer e na vida fútil e vazia, que reduz o valor das pessoas pela sua capacidade de produzir ou de consumir, a velhice não constitui atrativo mercadológico, muito menos atenção de políticos medíocres.

Talvez seja urgente e necessário educar nossas crianças para que compreendam a dinâmica da vida em que o envelhecer não é um problema social e sim a oportunidade de compreender o sentido da existência.

Envelhecer com arte não supõe tanta ciência, mas não dispensa, de forma nenhuma, a sabedoria, principalmente a sabedoria dos humildes para aceitar que seus passos sejam mais lentos, que seus joelhos já não se dobrem com tanta facilidade e não sejam mais tão firmes. (Euclides Benedetti). Leia mais: https://www.neipies.com/a-sublime-arte-de-envelhecer/

Autor: Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

O pensamento ambiental de Paulo Freire e as crianças

O que faz do pensamento de Paulo Freire uma aproximação com a educação ambiental é o reconhecimento do ser humano de que está sempre se transformando e encontrando novas soluções para um viver melhor.

Já dizia a filósofa política Hannah Arendt “A educação é onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo.” Sim, devemos amar as crianças e educá-las com esse amor grandioso para que se tornem adultas virtuosas e possam sempre procurar fazer o bem as pessoas ao seu redor, aos animais e a natureza em geral.

A boa educação se resume não somente na criança ir à escola todos os dias para adquirir uma bagagem de conhecimento técnico e pronto. Não! Educar vai além dos muros da escola. Educar é amar. Educar uma criança exige paciência e boa vontade por parte dos pais e professores. Quando aprendemos a educar uma criança, aprendemos também a amá-la com todo o nosso amor. E, certamente, essa criança também aprenderá a nos amar, pois vê na gente aquele adulto que a protege e a educa com carinho e afeto.

No aniversário de 100 anos do nosso educador Paulo Freire eu não poderia deixar de trazê-lo até vocês num texto que é mais um poema dedicado a ele com todo o meu amor e carinho pelo que fez à nossa educação.

Apesar de termos uma parcela de pessoas que o criticam e o excluem, o certo é que Paulo Freire sempre viverá nas academias universitárias públicas, nas escolas as mais longínquas que pudermos imaginar e nas lembranças do homem do campo desde a cidade de Angicos no Rio Grande do Norte até as maiores por onde passou deixando o seu legado de bom educador. Mesmo que inventem outro patrono para a nossa educação brasileira, Paulo Freire permanecerá por muitos séculos como o melhor de todos os educadores que o nosso país já teve e o seu método de alfabetização merece respeito e aplausos.

Mas, Paulo Freire não foi simplesmente um alfabetizador. Ele via o aluno ir distante, ele sonhava com o aluno alcançando novos caminhos, ele fazia com que o seu aluno pensasse além dos muros da sala de aula, foi isso que fez dele esse grande educador reconhecido no mundo inteiro. E nesse seu método de alfabetizar entrava o seu pensamento de tornar o adulto crítico e reflexivo diante das coisas ao seu redor. De forma que esse método foi trazido para o mundo das crianças e, atualmente, muitas escolas de educação infantil e fundamental adotam o seu método. Paulo Freire desejava que o seu aluno aprendesse conforme o conhecimento de mundo que ele trazia para escola. A maioria dos seus alunos era de trabalhadores rurais. Como sabemos um trabalhador rural conhece o campo, a pequena plantação de milho e feijão, os seus poucos animais como duas ou três vaquinhas e etc. Era baseado nesse entorno da escola que tudo acontecia na sala de aula de Paulo Freire.

Quando um aluno de Paulo Freire era solicitado a soletrar a palavra “uva” fazia-se necessário que ele conhecesse sobre aquilo que estava estudando para melhor assimilar o seu conhecimento. Foi assim que surgiu a educação ambiental do nosso grande educador Paulo Freire. Lecionando a homens do campo ele conseguiu descobrir que a criticidade e o pensamento reflexivo para cuidar da natureza era preciso ou o seu aluno jamais seria alfabetizado como desejava. Era preciso cuidar dos mundos daqueles homens e ensiná-los a transformá-los para melhor, a dialogar sobre eles, a pensarem que esses mundos exigem cuidados.

Todos nós sabemos que no campo existem árvores e animais de todas as espécies. E foi assim que convidado para fazer uma palestra sobre meio ambiente Paulo Freire pôde mostrar que no seu método de ensino havia uma preocupação com a natureza. O educador tornou-se uma referência para a temática após ser convidado para participar da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco 92, no Rio de Janeiro.

As escolas que educam as suas crianças baseadas na metodologia freiriana são as que mais se preocupam com o meio ambiente e ao mesmo tempo com o pensamento crítico e reflexivo dos seus alunos.

O pensamento de Paulo Freire sobre a educação ambiental entra na escola de educação infantil e fundamental quando a criança é convidada ao diálogo na construção do seu conhecimento, ou seja, quando o professor deixa que o seu aluno fale daquilo que chama a sua atenção, das coisas ao seu redor e nada melhor do que neste momento o professor introduzir o tema da natureza para que o diálogo possa desencadear várias questões necessárias ao momento em que estamos passando com poluição, desmatamento, queimadas e tantos outros problemas. Esse diálogo sempre conduzido pelo professor pode trazer o tema do meio ambiente e outros também, o importante é que o aluno possa apresentar o seu pensamento de forma autônoma e crítica. Assim, é dada a oportunidade ao aluno de pensar na importância das florestas, dos animais, dos oceanos e etc.

Outro aspecto que pode ser observado no pensamento de Paulo Freire e trazido para a sala de aula das crianças é quando as vemos como agentes transformadoras da sociedade e do meio onde vivem, ou seja, a criança que tem o pensamento crítico ela consegue com a sua curiosidade transformar o mundo em sua volta fazendo com que os adultos reflitam sobre os seus gestos e atitudes. Isso pode ser bem utilizado quanto ao meio ambiente, pois a criança que dialoga na escola sobre a natureza vai saber que não se pode jogar lixo na rua e, logo vai chamar a atenção do adulto para a sua atitude. Com isso, ela consegue transformar as pessoas para melhor criando um mundo mais saudável para se viver.

Transformar a sociedade para uma criança sozinha pode ser bem difícil e quase impossível, mas se a criança tiver o auxílio de pais e professores certamente ela conseguirá. Essa sociedade que está cheia de vícios e atitudes agressivas ao meio ambiente. Não se aprende mais soletrando como antigamente, mas se aprende ainda conhecendo as coisas no entorno da escola e com o conhecimento de mundo que as crianças trazem para dentro dela. E isso é importante.

“Em ‘Pedagogia da indignação’, Freire diz que não tem como a educação acontecer sem levar em conta o entorno da escola. Do pensamento freiriano o aluno sabe que está inserido num local e que faz parte do planeta. Com esse saber o aluno ou criança traz tudo o que tem fora dos muros da escola para dentro dela. E o que tem no planeta de grandioso? O meio ambiente. Essa natureza que precisamos cuidar e que os adultos todos os dias a agridem.

Quando uma criança vê uma floresta sendo queimada ou uma árvore sendo derrubada isso está ocorrendo no local onde vive e é preocupante para ela saber que não pode fazer nada sozinha, mas pode levar tudo o que presenciou lá fora para dentro da escola e dialogar com os professores e amigos sobre o que fazer para evitar tais problemas ambientais. A criança conhece melhor o nosso planeta do que nós próprios porque ela pesquisa, ela lê, ela é curiosa, ela busca nos livros e na internet respostas sobre coisas que deixamos passar despercebidas. Na fase da alfabetização quando se está aprendendo a ler a palavra “árvore” muitas dúvidas surgem na sala de aula, muitos pensamentos são expostos e tudo isso o professor deve aproveitar para construir um diálogo onde as crianças tenham vez e voz de falar.

Quando a gente fala da natureza nos vem à mente logo florestas, oceanos e animais. Mas, há uma dimensão muito maior em tudo isso que é preciso pensar criticamente sobre como resolver as questões que estão ameaçando a natureza. Há uma ideia no senso comum de que a educação ambiental é necessária para salvar as árvores, os animais e os rios das agressões dos adultos, porém é algo que vai mais além.

Faz-se necessário cuidar da natureza porque ela é a garantia da vida como um todo e porque a gente está ligado a ela. Neste contexto entra mais uma vez o pensamento de Paulo Freire, pois a garantia de vida do homem só pode ocorrer se ele cuidar das coisas ao seu redor, do seu local de moradia, do seu planeta. Assim é que quando ensinamos as crianças a plantarem árvores e limparem as folhas secas dos canteiros das nossas cidades estamos ensinando-lhes a cuidarem do planeta, mas para isso é preciso que as expliquemos o motivo de estarmos praticando aquela ação e deixemos que elas nos façam perguntas.

O nosso grande educador Paulo Freire não escreveu textos propriamente sobre o meio ambiente, mas o seu pensamento tem muitas questões que podem servir para o seu ensino. Como todo bom educador, o seu pensamento pode ser utilizado em todas as áreas do ensino.

A educação crítica problematiza, faz o aluno pensar, sai do comodismo e nos traz indagações necessárias aos dias atuais: isso sempre foi assim? Pode ser diferente? O que fazer agora? Como fazemos? Por que estamos fazendo assim? Como melhorarmos? São indagações como essas que levam as crianças a refletirem sobre os problemas que têm afetado o meio ambiente e que precisam ser discutidos tanto dentro da escola como em casa e nas brincadeiras com os coleguinhas.

Afinal, uma criança não pode permitir que o seu amiguinho jogue a garrafa plástica que tomou água no meio da rua, mas explicar a ele o motivo de não fazer aquilo para o bem do nosso planeta.

Uma contribuição freiriana importante para a educação ambiental é a visão do ser humano como ser inacabado, logo o mundo é inacabado também e pode ser transformado. O que isso quer nos dizer? A criança precisa saber que ela vai aprender um pouco todos os dias e que ela vai se moldando ao longo do tempo. Essa aprendizagem a ajudará a transformar o mundo ao seu redor, pois fará dela uma pessoa crítica e reflexiva em relação as coisas como lhe são apresentadas e como gostaria que elas fossem.

O mundo pode ser modificado por nós, cada um de nós pode interferir no mundo e fazê-lo ficar parecido conosco. Como seres inacabados, as crianças sentem vontade de todos os dias irem para escola e aprenderem um pouco mais para formarem os seus espíritos com conhecimentos críticos que possam auxiliá-las a construir um mundo melhor para si e para as pessoas que amam. Você já experimentou perguntar para uma criança: o que você faria para melhorar o planeta? Certamente muitas respostas interessantes serão alcançadas e assim formar um grande diálogo sobre este assunto.

Ainda em “Pedagogia da indignação”, Freire diz que não tem como a educação acontecer sem levar em conta o entorno da unidade escolar. A criança aprende que o planeta é algo que está ali perto de si, ao seu entorno, é o seu bairro, é a sua rua, é a sua casa. Descobre que o planeta não é algo abstrato e longe de si. Assim, a escola passa a ser um lugar onde vai contribuir com a cidadania planetária. A criança se percebe nesse local e que as suas atitudes vão contribuir para o todo e que é preciso melhorar as ações para a vida continuar existindo. É neste momento de descoberta por parte da criança que o professor e os pais devem apresentar-lhes filmes, documentários e livros sobre a importância de proteção ao planeta. Isso ajudará a criança a entender que o seu planeta Terra é esse lugar onde vive e onde estão todas as coisas ao seu redor e que tudo o que fizer impactará nele.

Para a criancinha, o planeta parece ser uma coisa longínqua e que ela nunca vai alcançar, quando na verdade ela precisa descobrir que vive dentro dele.

O professor pode convidar a criança para descobrir as coisas fascinantes do nosso planeta Terra fazendo caminhadas entorno da escola, fazendo trilhas em sítios ecológicos, passeios a parques florestais. Ele também pode encorajar a criança a falar do local onde vive, como é a sua rua, como é a sua cidade e o que acha delas. Esses conceitos freirianos podem ser trabalhados com teatros de fantoches, paródias, desenhos e etc. Os desenhos podem ser bastante explorados sempre solicitando para que as crianças desenhem como é o lugar onde vivem e como poderia ser para melhorar a vida ao seu redor. O professor deve permitir que a criança crie e não aprontar nada para ele. Também deve sempre se manter o diálogo buscando explorar a curiosidade das crianças sobre os problemas de calçamento, saneamento básico, lixo nas ruas e etc., nesses debates.

O que faz do pensamento de Paulo Freire uma aproximação com a educação ambiental é o reconhecimento do ser humano de que está sempre se transformando e encontrando novas soluções para um viver melhor. Assim é preciso ensinar a criança. Que ela possa aprender a buscar sempre transformar-se para que a sua vidinha seja sempre cheia de alegrias e coisas boas. Com isso, a criança sabe que se o dia hoje não foi bom para ela, amanhã poderá ser melhor e que se não conseguiu aprender um assunto ensinado pelo professor hoje terá o amanhã para aprender. É preciso ensinar a criança que todos os dias é tempo de aprendemos algo novo e de que devemos agir sempre em busca do bem do nosso planeta para uma vivência saudável.

O diálogo e o agente transformador começam dentro de casa e depois vai para a escola, é preciso que os pais saibam disso desde a tenra idade da criança. Não basta entregar a sua criança a escola e esperar que ela faça tudo para a aprendizagem crítica e reflexiva do seu pequenino ser, mas que esse ser inacabado possa sempre agir para transformar o mundo ao seu redor e transformar-se a si mesmo visando o melhor para a sua vida e para tudo aquilo que está ao seu redor.

Ensinar as crianças a cuidar do meio ambiente para que a vida continue existindo é bastante importante. E esse ensinamento pode chegar com o pensamento de Paulo Freire dando autonomia à criança para pensar por si mesma e não que lhe introduzam conhecimentos no seu pensar sem que possa refletir para que isso tudo vai lhe servir.

Todo conhecimento ensinado a criança deve ter um motivo, uma explicação, não se vai descendo goela abaixo um conhecimento que nem se sabe o que vai fazer com ele agora ou mais tarde. É preciso respeitar o pensamento da criança. Também é preciso respeitar o seu conhecimento de mundo. O professor deve se colocar como um mero observador, quem é o protagonista de tudo é o aluno, ou seja, a criança.

E foi Paulo Freire que nos disse “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” Que nós possamos ver alegria nesse processo de busca ao transformar as coisas ao nosso redor e ao nos transformar sempre almejando a boniteza dos nossos gestos. Os gestos da criança que pensa com autonomia são sempre grandiosos e curiosos, ela quer cada vez mais saber o porquê das coisas e isso faz bem para si. Quando crescer passará a ser um adulto crítico que não aceitará determinadas atitudes e palavras que possam ferir o seu espírito crítico e reflexivo.

Da mesma forma se apresenta a criança que quer transformar o seu planeta, de repente ela pode com a ajuda dos pais plantar uma árvore no seu quintal ou desenhar um dia de sol para presentear a vovó. Tudo é motivo de alegria e boniteza quando a busca necessária ao conhecimento se dá através de um ensino-aprendizagem onde a criticidade da criança possa dialogar com as nossas ações e atitudes diante do mundo que nos rodeia.

Deixo vocês nesta manhã de primavera com os versos do meu amado poeta Alberto Caeiro, o poeta da natureza, que nos diz o seguinte “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? / A de serem verdes e copadas e de terem ramos / E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, / A nós, que não sabemos dar por elas. / Mas que melhor metafísica que a delas, / Que é a de não saber para que vivem / Nem saber que o não sabem?”

 Que as nossas crianças não precisem saber para o que vivem assim como as árvores do nosso poeta, e que a as suas metafísicas sejam sempre as de buscar o nada dentro de uma árvore frutífera desenhada nos seus pensamentos críticos. Amei estar com vocês nesta manhã linda onde os pardais cantam à minha janela!

Começamos a nos educar quando passamos e exercitar a admiração pela beleza da vida, não como turistas, mas como nativos que dividem o seu território, o seu ambiente exterior e interior com os demais seres que o habitam. Quando, então, amar e respeitar se tornam ações compartilhadas. E hábitos são transformados a partir de um contínuo trabalho interior. (Sergio Augusto Sardi) Leia mais: https://www.neipies.com/educacao-ambiental-e-pedagogia-do-amor/

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

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