Início Site Página 109

Só uma aldeia inteira pode educar uma criança

“É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança” (provérbio africano)

As crianças são o centro da educação. As crianças, no mundo inteiro, em diferentes culturas, países, nacionalidades e crenças, precisam da atuação direta de vários sujeitos sociais que colaboram diretamente na sua formação humana pessoal e profissional. Em grupos sociais de cultura indígena e africana, há uma compreensão mais ampliada de educação, quando se entende que todos os sujeitos da comunidade tem o direito e o dever de educar as crianças, em todos os momentos, aspectos e circunstâncias. Nestes grupos, a educação das crianças é compartilhada como responsabilidade conjunta, de todos os membros.

A aprendizagem na primeira fase da infância ocorre pela imitação. A criança aprende a andar, falar e reagir a uma provocação imitando o adulto presente na sua vida: pai, mãe, irmãos e demais pessoas a sua volta. Até por volta dos três anos é o período que mais acontecem sinapses no cérebro infantil pois a criança, com sua natural curiosidade, quer explorar e conhecer o mundo que a cerca e interagir com ele. O lar e a escola infantil exercem muita influência na formação emocional, psicológica, física e mental do infante.

É mais complexo do que se parece educar uma criança. Toda criança é envolvida desde sua tenra idade, por mãos, mentes e sabedorias de muita gente. Muita gente põe a mão na massa na vida de uma criança, mas a responsabilidade maior sempre será das famílias, que são a primeira e a maior referência educativa.

Ideal que os pais ou responsáveis se preocupem não só no desenvolvimento da dimensão intelectual da inteligência da criança, mas também da educação das dimensões emocionais, espirituais e morais, pois, é nesta fase que começa a se construir a identidade moral que estará concretizada até a adolescência. As regras devem ser simples, claras. Saber falar, no momento certo, de maneira afetuosa: Sim, sim. Não, não. Desde pequena ela já pode entender que para tudo há limites, que sofrer frustrações faz parte da vida.

SUJEITOS FAMÍLIAS: as famílias têm papel fundamental na construção do caráter e da personalidade de um indivíduo. No seio das famílias que as crianças têm o primeiro contato com a existência do outro e é onde elas desenvolvem noções de afeto e de solidariedade.  As famílias são, também, lugar de onde as crianças extraem relevantes princípios e valores éticos. Famílias acompanham a educação das crianças de forma permanente, nos diferentes estágios de desenvolvimento (crianças, adolescentes, jovens e adultos).

SUJEITOS AMIGOS E VIZINHOS DAS FAMÍLIAS: A convivência com amigos e vizinhos das famílias permite que as crianças desenvolvam a socialização, cultivem amizades, façam pequenas trocas, desenvolvam o espírito de colaboração e entendam a importância de outras pessoas na sua formação. Muitas famílias convivem com outras famílias de forma intensa, onde ocorre a colaboração e a ajuda no cuidado e na educação dos filhos e filhas. Neste caso, uma família é quase como que uma extensão de outra família, favorecendo uma educação mais ampliada e socializada das crianças.

SUJEITOS ESCOLAS:  As escolas têm destaque no processo de aprendizagem das crianças, sendo responsáveis por proporcionar conhecimentos científicos e sistematizados e permitir a convivência em coletividade, estimulando, assim, o respeito ao outro. As escolas e as famílias, nos primeiros anos de vida escolar, devem ser muito parceiras e próximas, uma vez que atuam fortemente na formação humana das crianças. Nos anos finais do Ensino Fundamental, as escolas exigem de seus estudantes uma maior autonomia e responsabilidades, tendo as famílias como alicerces da aprendizagem escolar.

SUJEITOS RELIGIÕES: Geralmente, a partir das famílias que se decide pela educação e vivência religiosa. Muitas crianças, seguindo o exemplo de seus pais, participam de vivências religiosas em templos e igrejas. As religiões, por sua vez, organizam momentos e espaços de aprendizagem e vivência da fé das crianças, seja através da catequese, de escolas dominicais, escolas de evangelização e de encontros específicos com as crianças. As religiões cuidam da educação da fé e da espiritualidade, cuja função consiste no entendimento da doutrina e dos ensinamentos religiosos seguidos por cada igreja ou cada religião.

SUJEITOS INTERNET E REDES SOCIAIS: Num mundo marcado pela tecnologia e pelo acesso livre e permanente das redes sociais, as crianças recebem influências na sua formação humana pessoal e profissional do mundo digital. Desde muito cedo, as crianças desenvolvem capacidades cognitivas importantes através dos jogos eletrônicos. Usam as tecnologias para se comunicar, fortalecem os laços de amizade através de conversas virtuais, recebem atividades educativas através de plataformas educativas.

A internet e as redes sociais são hoje importantes ferramentas na educação de crianças, sendo um dever dos adultos ensiná-las e orientá-las para seu uso de forma ética e responsável. Entretanto a comunicação virtual deve ser usada com critério e sob a orientação dos responsáveis. Ela não deve substituir a interação pessoal, olho no olho, o encontro presencial, o ouvir a voz do outro, conversar frente a frente, juntos, o aperto de mãos, o sorriso, a gargalhada, o brincar com o outro ou outros, criar vínculos fraternos.

SUJEITOS AMIZADES DE PREFERÊNCIA: As crianças e adolescentes vão aprofundando suas amizades, desde cedo, escolhendo-as por afinidade ou preferência. Destas amizades de preferência surgem os grupos específicos de convivência e de socialização das crianças e adolescentes, fundamentais para o reforço de suas identidades e suas decisões pessoais e coletivas. Surgem daí os grupos para encontros na praça, o lazer do final de semana, o grupo de amigos para festas ou saídas para diversão.

Como podemos perceber, os diferentes sujeitos sociais cumprem diferentes finalidades na complexa função de educar crianças e adolescentes. Todos estes sujeitos são importantes na formação humana integral e cumprem, junto com a família, função de ampliar os conhecimentos e vivências necessárias para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e adolescentes. Deste modo, parece-nos consistente e importante a ideia de que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Todos, de uma forma ou de outra, educamos e somos educados.

JESUS – uma referência de educação

Jesus é uma referência importante na educação. Sua pedagogia (seu jeito de ensinar e aprender) revela-se uma prática que contempla a liberdade e a responsabilidade como pilares da boa educação.

Quando criança, dos poucos registros que se tem, sabe-se que crescia em sabedoria e graça, com a participação, envolvimento e suporte de sua família. Maria, sua mãe, o educou com sua amorosidade e bondade. Seu pai, José, homem austero e digno, ensinou ao filho a sua profissão, a carpintaria, e o jovem menino, desde cedo, colaborava na manutenção e harmonia do lar. Seus pais não se descuidaram de lhe dar a orientação religiosa que abraçavam, o judaísmo. Eles frequentavam a sinagoga de Nazaré todos os sábados e o menino ouvia as explicações sobre a Torá, tanto que, aos doze anos, já discutia as questões religiosas com os Doutores da Lei, no Templo em Jerusalém.

Na fase adulta, Jesus, como mestre, utilizava a cátedra da Natureza para ensinar os preceitos da boa nova, sempre com naturalidade, muitas vezes utilizando-se do recurso da contação de parábolas para passar seus ensinamentos, o que facilitava a compreensão do assunto. Ele ensinava ricas lições a respeito da ética e do comportamento humano. Nestas histórias ele usava imagens singelas com coisas que eram habituais para aquelas pessoas e que, muitas vezes, não são valorizadas para despertar a atenção e a curiosidade.

Jesus nos alerta, como educador, que a Natureza é a maior fonte de equilíbrio para o ser humano, que estimula a elaboração de bons pensamentos, da razão ativa, da consciência participativa e da vontade de mudar, melhorar. Ele nos indica que aprender com a Natureza é o mais rico processo comparativo e de identificação divina.

A linguagem simbólica da parábola, que contava com os elementos que o povo conhecia na época – rede de pescar, a moeda de circulação, as sementes, os grãos, as pérolas, as figueiras, o fermento, os peixes, os pães – permanece até hoje, rica de conteúdo moral, orientando e salvando vidas.

Jesus ensinava e exemplificava, passava a sua mensagem impregnada de ternura, com alegria e era respeitado e ouvido. Falava sempre com palavras exatas, com significados profundos. Era paciente, instigava seus seguidores a observar a Natureza: “Olhai os lírios dos campo…” “Olhai as aves dos céu… “para que pudessem comparar essas situações com as preocupações da vida cotidiana, perceber os detalhes. Jesus, como educador, evitava discursos longos, abstrações filosóficas que exigissem muito da compreensão do ouvinte. 

O mestre Jesus “fala com sabedoria e ensina com amor”. Quando ensinava (ou fazia reuniões de pregação), sempre observava se não havia ninguém que estava sendo esquecido ou ignorado no meio da multidão. Nas suas abordagens, evitava o julgamento, mas levava as pessoas a pensarem sobre seus atos, como no caso da mulher adúltera (os sumo sacerdotes e os senhores da lei queriam colocá-lo à prova por conta da lei judaica). Sempre sugeriu que quem quisesse conhecer ao Pai, o seguisse, mas nunca impôs esta condição a ninguém.

Jesus teve a prática de incluir, de aproximar-se das pessoas para compreender seus sofrimentos, mas sempre propondo soluções que partissem da realidade de cada um e cada uma.

Podemos concluir que a prática educativa de Jesus era democrática, que respeitava as individualidades e o contexto de cada pessoa. Jesus acreditava no poder e na superação de cada pessoa e se colocava ao lado das pessoas que o procuravam (nunca acima e nunca como salvador da pátria).

Autores: Gladis Pedersen e Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Educar para o Esclarecimento

A ideia de esclarecimento está associada diretamente a ideia de autonomia. É esclarecida e autônoma a pessoa que é capaz de tomar as própria decisões, assumir a responsabilidade de suas escolhas e não culpar os outros pelas consequências provocadas pela sua decisão.

A palavra “esclarecido” tem uma certa nobreza na nossa língua portuguesa. Se formos aos dicionários encontramos que o adjetivo “esclarecido” significa iluminado, elucidado, dotado de ilustração, saber, cultura. Quem é esclarecido é portado de uma certa “lucidez” e, portanto, sabe e compreende melhor as coisas. Talvez essa deveria ser a função mais importante da educação: tornar as pessoas mais esclarecidas.

Historicamente, a filosofia tem se ocupado em realizar a tarefa de tornar as pessoas mais esclarecidas. Talvez por isso, para alguns, a filosofia deve ser evitada. Ela pode se tornar perigosa, pois pode esclarecer as pessoas sobre a forma como funciona o poder, a corrupção, a exploração de uns sobre os outros; alguém esclarecido pode se dar conta dos processos de alienação que escravizam os trabalhadores, perceber as falsas promessas dos políticos, entender como funciona o sistema econômico, o jogo do poder, a propaganda enganosa, os males sociais, a destruição ambiental, o fanatismo religioso, os preconceitos raciais, a xenofobia, a mixofobia e tantas outras formas de patologias que ameaçam e destroem a convivência humana.

Em seu ensaio “O que é o esclarecimento?”, escrito ainda no século XIX, Immanuel Kant, um dos mais importantes filósofos da modernidade, diz que “o esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem”. O esclarecimento, portanto, segundo Kant, é ter coragem de te servires do teu próprio entendimento.

Apesar de ser um texto escrito há tanto tempo e em outro contexto, percebemos claramente sua atualidade. De fato, estamos muito distantes de vivenciar o esclarecimento.

Nossos estabelecimentos educativos pouco fazem para construir processos de esclarecimento. A menoridade denunciada por Kant se faz sentir de todas as formas. Percebemos com frequência a dificuldade que crianças, adolescente e adultos tem de fazer uso do próprio entendimento.

A grande maioria das pessoas preferem não pensar por si mesmo e, sim, tomam emprestado o pensamento de outros. Trata-se de um processo de submissão ao já estabelecido, as circunstâncias do momento. Assim, temos dificuldade de enfrentar os problemas que nos cercam porque acreditamos que alguém fará por nós.

O culto aos ídolos, a cegueira moral, o fanatismo político e religioso, a crença cega em qualquer informação que chega pelas redes sociais, a dificuldade de compreender as razões pelas quais temos a pobreza, a ignorância, a mortalidade infantil, o analfabetismo, a violência doméstica, a destruição do meio ambiente, a precarização e ataque à escola pública, a invenção de certos fantasmas como o comunismo são expressões materiais da vida cotidiana que ainda vivemos uma menoridade.

A ideia de esclarecimento está associada diretamente a ideia de autonomia. É esclarecida e autônoma a pessoa que é capaz de tomar as própria decisões, assumir a responsabilidade de suas escolhas e não culpar os outros pelas consequências provocadas pela sua decisão.

Algo aparentemente simples, mas muito difícil de ser concretizado. É mais fácil deixar que os outros decidam por nós e assim não precisamos ter a responsabilidade de arcar com as consequências. É por isso que o próprio Kant diz que a menoridade é resultado da preguiça mental e da covardia pessoal de fazer uso do próprio entendimento.

Talvez aqui resida um dos mais importantes desafios e compromissos educacionais: construir processos formativos que ajudem as crianças, os jovens e os adultos a saírem da menoridade e serem mais esclarecidas.

Convido a todos os leitores a acompanharem algumas reflexões sobre essa forma espontânea de pensar a filosofia. Num mundo marcado pelo descontrole e pela irracionalidade, talvez um pouco de filosofia seja apropriado para pensarmos sobre a forma de vida que estamos vivendo e talvez concordar com Sócrates que “uma vida não examinada, não merece ser vivida”. Leia mais: https://www.neipies.com/filosofia-para-que/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

A criança pode ir ao banheiro na hora que ela quiser

A escola ainda é aquele lugar bonito, de afeto, carinho e cuidado onde a criança pode ficar com segurança, pois terá os seus direitos respeitados, aprenderá coisas novas para o seu desenvolvimento, fará amizades, compartilhará conhecimentos e será sempre ouvida pelos seus professores com atenção.

“Sufoca-se o espírito da criança com conhecimentos inúteis.”, já dizia o escritor inglês Voltaire. Que nós, professores e professoras, possamos ensinar o que será útil para as nossas crianças, não o que está no material didático somente, pois muitas vezes quem o redigiu não conhece as necessidades dos nossos alunos.

Ao invés de mandar o aluno abrir o livro didático na página de número tal, converse com ele antes perguntando sobre o seu dia de ontem, os seus sonhos, as suas conquistas, as suas dores e angústias. Depois de iniciar criticando os produtores de materiais didáticos para a educação básica, entro no assunto que quero falar hoje e sei que vai dar uma boa discussão.

Nenhuma criança deve ser impedida de ir ao banheiro no meio da aula. É um grave problema o professor que não permite os seus alunos irem ao banheiro alegando que eles vão bagunçar no corredor ou passear na quadra de esportes. Ninguém sabe o que o outro está sentindo e nem pode adivinhar quando é mentira ou verdade.

Os alunos trazem de casa alguns vícios. Muitos deles estão acostumados a irem ao banheiro de vez em quando só para mexer na torneira ou na descarga. Outros querem mesmo é ficar andando pra cima e pra baixo como faziam dentro de casa, livres para passearem por todos os compartimentos. São esses vícios que devem ser tirados aos poucos dos alunos logo nos primeiros dias de aulas.

Talvez este seja um dos maiores problemas enfrentados pelos professores do ensino fundamental II, mais precisamente no sexto ano letivo. O pior é quando todos, de uma vez só, pedem para ir ao banheiro, de repente. O que fazer? Como reagir diante de uma situação que pode parecer comum, mas que não nos ensinam nos cursos de licenciaturas?

Primeiro quero começar pelo professor autoritário e não venham me criticar dizendo que isso é mais um dos meus mimimis porque não é. Todo mundo sabe que existe professor chato e autoritário em toda escola que só trabalha para garantir o seu salário no final do mês. Não estou acusando ninguém, mas estou falando uma verdade que vejo quando visito escolas e dou cursos pelos diversos estados e cidades brasileiras.

Tem professor que usa da sua autoridade para amedrontar os alunos ameaçando-os de diversas formas. Uma delas é a perda de pontos na nota final do bimestre letivo, a outra é mandar para diretoria e a que questiono hoje que é impedir o aluno, principalmente, aquele que é mais bagunceiro de ir ao banheiro. O professor se vale da sua autoridade para fazer medo aos alunos e os acalmarem. Assim, ele tem certeza que poderá dar a sua aula para uma turma de trinta e cinco ou quarenta alunos pré-adolescentes que acham aquela aula cansativa por demais.

Também não venham me criticar dizendo que eu falo isso porque nunca vivi na prática o que é dar aulas para uma turma de quarenta alunos do sexto ano letivo em um bairro de periferia porque isso não é verdade. Eu vivi essa experiência, sim, e por isso tenho autoridade para falar aqui sobre o problema da ida ao banheiro pelos alunos.

As crianças quando estão na escola recebem os nossos cuidados. Existe o regimento escolar. Mas, antes do regimento vem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), vem a Constituição Federal e vem um monte de leis que nem são necessárias citar aqui porque vocês as conhecem todas. Na verdade, é que a criança assim como todo adulto tem garantido por lei o direito de ir e vir quando quiser.

Este direito deve ser garantido em todos os lugares onde a criança estiver, principalmente na escola, pois nela os pais depositam toda confiança.

E como é bacana saber que os pais confiam na gente para cuidarmos dos seus pequenos, num mundo onde confiança está cada vez mais desvalorizada porque tememos deixar as nossas crianças com qualquer um, esse qualquer um, pode ser até a babá com uma lista enorme de qualificações, mas eles não a conhecem direito e será sempre uma estranha até que prove o contrário.

A escola ainda é aquele lugar bonito, de afeto, carinho e cuidado onde a criança pode ficar com segurança, pois terá os seus direitos respeitados, aprenderá coisas novas para o seu desenvolvimento, fará amizades, compartilhará conhecimentos e será sempre ouvida pelos seus professores com atenção.

Pois bem, é assim que os pais vêem a escola e é assim que deve ser, pois nós professores damos o nosso melhor para que as crianças aprendam a ler e a escrever com amor e carinho. Planejamos aulas, elaboramos trabalhos e avaliações com todo o cuidado sempre pensando no desenvolvimento cognitivo e emocional dos nossos alunos. Fazemos o melhor possível. Se é que não fazemos mais do que esse tal possível.

Se a aula está chata e cansativa, se na classe faz calor e se o seu aluno é hiperativo e precisa correr, pular, brincar o tempo todo ele não vai ficar quieto e prestar atenção nunca. Os alunos do sexto ano letivo precisam de aulas dinâmicas que os façam parar por um tempo e pensarem criticamente a respeito daquele assunto. As aulas que o professor passa a matéria na lousa e o aluno escreve no caderno são cansativas.

Ninguém suporta mais ser depósito de conhecimento. As crianças estão cada vez mais cheias de energia. A escola é o local ideal onde elas encontram outras parecidas consigo para brincarem e correrem o tempo todo.

É preciso mostrar aos seus alunos que a escola é uma instituição que eles vão para aprender a ler e a escrever, que nela há normas, que o senhor professor ou professora está se esforçando para fazer da sua aula um momento prazeroso para os seus alunos e que vai depender deles que esse momento se torne algo inesquecível no fim do dia.

Sempre que um aluno meu pedia para ir ao banheiro logo em seguida o outro fazia o mesmo pedido e com mais um tempinho vinha outro e mais outro. Muitas vezes fui surpreendida pelo coordenador pedagógico a me perguntar por que estava com tantos alunos fora da sala de aula e sempre respondia que eles tinham pedido para ir ao banheiro. Este era o meu momento mais difícil do meu trabalho como professora.

O meu coordenador trazia os alunos para sala de aula e olhava para mim com a cara de quem não gostou nada do que viu, mas eu não podia impedir de que os alunos fossem ao banheiro. Como eu ia adivinhar quem estava apertado ou não? Muitas vezes a criança comeu algo que lhe fez mal, tomou água demais no intervalo ou está com algum problema de saúde que precisa ir ao banheiro várias vezes e não quer me dizer. Eu não posso impedir os meus alunos de irem ao banheiro.

Contudo, posso fazer um combinado com a turma de que permitirei que todos possam ir ao banheiro, primeiro os mais apertados e depois os demais. A gente não precisa ser autoritário neste momento. É no diálogo que conquistamos as coisas. As crianças gostam de serem ouvidas e de opinarem. O combinado é a melhor ferramenta para mostrar aos alunos que nós, professores, estamos do lado deles, que só queremos o bem de todos eles e que aceitamos como eles são sem questionamentos.

Todo o mundo tem o direito de ir ao banheiro, mas primeiro os que estão mais apertados e depois os que estão com vontade, mas podem esperar um pouco. E quem for ao banheiro deve saber que o coleguinha está esperando o seu retorno para chegar a sua vez.

Este foi o meu combinado no primeiro dia de aula numa determinada escola num bairro de periferia da minha cidade. Não deu certo! Nunca que daria certo, gente! Os alunos mais bagunceiros quebraram o combinado e pediram todos os seis para irem ao banheiro de uma vez só alegando que estavam muito apertados. Eu permiti porque não sabia se estavam falando a verdade ou não. Na verdade, eles estavam morrendo de calor dentro daquela sala quente e abafada onde até eu estava quase desmaiando de tanto transpirar.

Então, professor e professora, esta questão de ir ao banheiro é algo difícil de lidar. Acho que cada um de vocês sabe como resolver esse problema da sua forma. O meu eu nunca resolvi. Sempre deixei os meus alunos irem ao banheiro quando eles diziam que estavam apertados porque vi na turma vizinha a minha, certo dia uma criança que era considerada a mais bagunceira da sala fazer xixi nas calças porque foi impedida de ir ao banheiro. Foi terrível ver a cena da criança chorando e o professor se lamentando por achar que ela estava mentindo.

Os alunos do sexto ano letivo das escolas de periferias vivem muitas vezes certos problemas fora da escola que não sabemos e quando estão lá dentro eles só querem saber de bagunçar e interromper a aula a todo instante. Pedem para ir ao banheiro  pra ficarem passeando pelos corredores da escola ou frequentarem a quadra esportiva. Certa vez o coordenador pedagógico pegou um deles se drogando dentro do banheiro da escola, e fiquei muito triste com isso. Fazia mais de vinte minutos que ele tinha me pedido para ir ao banheiro.

Não existe uma receita pronta para controlar a ida dos nossos alunos ao banheiro. O que podemos tentar fazer é uma aula dinâmica onde eles possam se concentrar com tarefas dos seus cotidianos. Nas minhas turmas de sexto ano eu sempre mantenho o diálogo na maior parte do tempo. Procuro saber como eles estão e os deixo falarem até se cansarem. Este diálogo é sempre baseado no assunto da aula.

Os alunos do sexto ano adoram falar das suas vidas fora da escola, das suas primeiras paixões pelas menininhas, dos seus bichos de estimação e dos seus esportes prediletos. Eu puxo conversa com o mais bagunceiro da turma sempre. É para ele que vai a minha atenção perguntando coisas sobre o seu dia a dia. Conforme ele vai explanando as suas ideias eu vou entrando no assunto da aula. Tem dias que ele não está a fim de falar, então fica mais difícil pra mim. Tento outro aluno com um assunto que sei vai despertar a sua atenção. E assim consigo dar a minha aula.

Fazer com que as crianças fiquem umas de frente para as outras também é uma boa ideia, pois elas passam a interagirem melhor. Sei que tem escolas com regras rígidas para os professores e infelizmente muitas coisas do que gostaríamos de fazer em sala de aula não é possível. Mas, professor apresente o seu plano de aulas ao coordenador pedagógico. Tente convencê-lo que dessa forma é possível que as suas aulas fiquem mais interessantes e possam reduzir a ida dos alunos ao banheiro sem necessidade verdadeira.

Quase esqueço de falar da forma como os pais defendem os seus filhos quando essa confiança por parte deles com a escola é quebrada. Geralmente, eles chegam gritando com o professor que não deixou a criança ir ao banheiro e causou-lhe vergonha diante das demais, xingamentos e ameaças de processos à escola. Neste momento em que a criança fez xixi na sua roupinha, o professor não teve ninguém para lhe acolher. Todos acusaram-no e xingá-lo de tirano ou coisa parecida.

Para evitar que a criança faça xixi em sala de aula e sofra vergonha dos risinhos e piadas dos coleguinhas o melhor é sempre permitir que ela vá ao banheiro mesmo já tendo três ou quatro lá fora. Deixe que o coordenador pedagógico se encarregue de trazê-las de volta para sala de aula mesmo dizendo que é preciso mostrar para seus alunos autoridade. A autoridade não lhe dá o direito de ser autoritário. São coisas diferentes.

A autoridade lhe convida a dizer aos seus alunos que é você quem administra a sala de aula e sabe o que é bom ou não para elas. É você quem vai decidir quais as tarefas serão feitas em um determinado horário, mas que você nunca vai impor a força nos seus alunos para eles serem obrigados a fazerem o que não querem. A autoridade é o poder de convencimento e gerenciamento de uma situação difícil de lidar. Os seus alunos precisam dela para continuarem aprendendo com eficiência.

Por isso, antes de impedir que os alunos bagunceiros possam ir ao banheiro mais de uma vez na sua aula, tente conversar com eles explicando que o senhor quer o melhor pra todos e que este melhor é a turma junto com o senhor se comprometendo a ensinar e aprender o que eles necessitam para o bom desenvolvimento. Não é balela o que eu digo aqui e muito menos teoria, é experiência de mais de trinta anos de sala de aula. Sei que é preciso um mimimi para escrever um texto como este.

Não conheço a sua turma, professor, porém sei que a sua luta deve ser árdua. Afinal, uma sala de aula com trinta a quarenta alunos debaixo de um calor de quase quarenta graus com cadeiras desconfortáveis não é todo profissional que sabe manter a ordem e nem como gerenciar uma turma onde não se consegue colocar disciplina com alunos que trazem para dentro da escola os seus mais diversos problemas do mundo lá de fora.

No entanto, antes de impedir o aluno bagunceiro de ir ao banheiro mais de uma vez na sua aula procure conversar com ele e saber se está precisando de uma coisa. Muitas vezes ele só deseja ser ouvido. Pergunte o que ele acha da sua aula e se ele gosta do seu jeito de ensinar. Peça para ele falar no que o senhor pode melhorar para que ele aprenda e explique para ele como se sente triste quando ele bagunça na sua aula. Talvez isso o leve a um pensamento reflexivo e mudança de atitude.

E para finalizar este texto cheio de xixi deixo vocês com uma frase de Victor Hugo que nos diz “Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança.” Para tentar chegar nesse local lindo, é preciso amar e respeitar a criança interior e exterior da sua vida, é preciso dar voz a criança que está ao seu redor mostrando para ela que a compreende e que em você pode confiar seus medos e angústias. Nenhuma criança deve ser impedida de sorrir.

Para amedrontar as crianças inventaram um tal cantinho do castigo em casa e na escola. A criança desobediente ia direto para esse cantinho que era um lugar estranho e doído para ela. Quem ia para o cantinho do castigo ficava estigmatizada pelas outras. Era vista como perturbadora da ordem. As demais crianças morriam de medo de passarem pelo cantinho do castigo. Leia mais: https://www.neipies.com/o-cantinho-do-pensamento-causa-dores-e-traumatiza-a-crianca/

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Uma experiência associativa de horta domiciliar na cidade

A implantação de pequenas hortas na cidade pode ser importante alternativa econômica numa época em que há uma alta de preços dos alimentos, em especial, verduras e hortaliças.

Matéria da UPF TV apresenta uma experiência associativa de dois vizinhos da cidade de Passo Fundo, RS, que resolveram empreender uma horta de 30 metros quadrados para produzir alimentos saudáveis, com variedades de verduras e hortaliças, conforme ciclos e períodos específicos.

Assista a matéria: https://fb.watch/cbYR4JLGbn/

Os entrevistados destacam, para além das questões econômicas, a relação saudável e respeitosa com a terra que retribui na medida dos cuidados e da preservação que para com ela temos. Trabalhar com a terra energiza a vida das pessoas e é também um fator que permite uma vida menos estressante e de maior harmonia e equilíbrio entre o ser humano e a natureza.

Para Iltomar Siviero, “a iniciativa da horta é uma experiência ímpar de estabelecer outras formas de relações e (pre)ocupações em nossa vida. Primeiro aspecto a considerar é que isso nasce de uma parceria associada de vizinhos que decidem gastar seu tempo e trabalhar conjuntamente.

Em tempos de individualismos, com lógicas de empreendendorismo calcada em talentos que exaltam personalidades isoladas, estar entre e com alguém, é uma forma criativa de pensar novos modelos societários e de produção. Segundo aspecto tem a ver com o contato e relação com a terra, organismo vivo e cheio de energia, capaz de dar novos sentidos à vida. Terceiro aspecto, tem a ver com a decisão de independente do lugar, do espaço e do parco tempo no mundo urbano, não abrir mão de produzir alimentos saudáveis, orgânicos, livres de agrotóxicos, prontos para ir à mesa, gerando mais saúde e qualidade de vida.

Por fim, importante destacar que o contexto do século XXI urge e espera da humanidade respostas inteligentes e capazes de mostrar que a relação com a natureza e a terra não pode seguir em com atitudes predatórias, pensando nos recursos materiais como acessos infinitos. Precisamos reverter lógicas lineares de produção e introduzir formas sustentáveis, economicamente viáveis e ambientalmente necessárias, em defesa e promoção da saúde dos ecossistemas do qual somos parte .”, destacou Siviero.

Para Nei Alberto Pies, viver uma experiência coletiva de produção de alimentos significa potencializar a força da cooperação, ao invés da competição. Significa colocar a terra a serviço do ser humano, dividindo os frutos que a mesma dá, a partir do trabalho que gera vida e dignidade.

Há mais de 20 anos deixei a roça, mas os cuidados com a produção de alimentos saudáveis e produzidos em escala familiar, não. Manter uma horta em sociedade com um vizinho permite também vivenciar a experiência de tantos agricultores e agricultoras familiares que faziam, e ainda fazem, experiência de trocas de trabalho, de maquinário compartilhado, de ajuda mútua em períodos de maior necessidade de mão de obra para a colheita de alguns produtos.

Por fim, Pies afirma ainda o prazer de dividir com outros vizinhos e amigos, as sobras da produção, como fazem até hoje muitos agricultores e agricultoras familiares.

***

Outro aspecto abordado é a implantação de um minhocário para a produção de húmus, a partir de restos de vegetais e frutas. A horta utiliza também água coletada das chuvas, utilizada para molhar as plantas por sistema de gotejamento, via gravidade natural.

Por fim, como mostra a matéria, a implantação de pequenas hortas na cidade pode ser importante alternativa econômica numa época em que há uma alta de preços dos alimentos, em especial, verduras e hortaliças. A matéria destaca ainda a importância dos conhecimentos e do planejamento para que as hortas se tornem viáveis.

Assista a matéria: https://fb.watch/cbYR4JLGbn/

Leia também:

“Quantos, como eu, matam saudades de sua terra visitando propriedades que ainda resistem em levar adiante um estilo de vida interiorano! Colhem, no inverno abundante das frutas, o sabor de suas saudades e recordações. Visitam, no verão, matas, riachos, casas, salões comunitários, em busca de algo que um dia deixaram para trás: a simplicidade e a compaixão pela terra”. https://www.neipies.com/vida-na-roca-2/

Edição: Alex Rosset

Censo da educação superior, mitos e meias-verdades

“Seria um futuro sem futuro, pois a educação implica a existência de um trabalho em comum num espaço público, implica uma relação humana marcada pelo imprevisto, pelas vivências e pelas emoções, implica um encontro entre professores e alunos mediado pelo conhecimento e pela cultura. Perder esta presença seria diminuir o alcance e as possibilidades da educação” (António Nóvoa).

Na epígrafe acima, o autor, em seu mais recente livro Escolas e professores: proteger, transformar e valorizar, contrapõe visões “fantásticas” de um futuro sem escolas e sem professores. Na visão destes futuristas, as escolas seriam substituídas por diferentes atividades e situações de aprendizagem, em casa e noutros lugares, através de momentos presenciais e virtuais. Os professores seriam substituídos por dispositivos tecnológicos reforçados pela inteligência artificial.

Nesta perspectiva, Nóvoa critica três ilusões perigosas: a ilusão de que a educação está em todos os lugares e em todos os tempos e que acontece “naturalmente” num conjunto de ambientes, sobretudo familiares e virtuais; a ilusão de que a escola, como ambiente físico, acabou e, a partir de agora, a educação terá lugar sobretudo “a distância”, com recurso a diferentes “orientadores” ou “facilitadores” das aprendizagens; e a ilusão de que a pedagogia, como conhecimento especializado dos professores, será substituída pelas tecnologias, “dopadas pela inteligência artificial”.

O censo

Durante a pandemia e na recente divulgação dos dados do Censo do Ensino Superior de 2020 deu-se novamente destaque justamente para a educação a distância por ter tido mais matriculas de novos ingressantes nesta modalidade do que em cursos presenciais. Aqui no Rio Grande do Sul, as matrículas em curso em EAD foram quase o dobro dos cursos presenciais. Torna-se necessário analisar o contexto social e econômico dos estudantes brasileiros para ousar apontar tendências ou conclusões.

Entre 2010 e 2020, o número de ingressos na educação superior variou negativamente 13,9% nos cursos de graduação presencial e, nos cursos a distância, aumentou 428,2%. Neste período, o grau tecnológico registrou o maior crescimento em termos percentuais: 156,7%. Quase 70% das matrículas de cursos superiores de tecnologia (tecnólogos) já são a distância.

As matrículas em cursos de licenciatura presencial representam 40,7%, enquanto a distância são 59,3%. As vagas novas nos cursos presenciais alcançaram 37,6% enquanto nos cursos em EAD apenas 20%. Ou seja, há mais oferta e vagas ociosas na EAD do que nas presenciais.

Dados estatísticos indicam um panorama e uma tendência mas não revelam as causas reais do fenômeno social e ou educacional.

No caso brasileiro, a procura por cursos à distância, aqui representados por tecnólogos e licenciaturas, podem indicar que são justamente os jovens estudantes mais carentes, trabalhadores de baixa que conseguem cursar e pagar cursos de curta duração – como os tecnólogos – e de menor custo na modalidade de EAD.

Inclusive, tal crescimento coincide com a redução e extinção das políticas públicas de apoio ao financiamento estudantil nos últimos sete anos.

Mitos e meias-verdades

No ensino superior brasileiro, ilusões, mitos – enquanto meias-verdades –, mentiras, grifos e fantasias são difundidas e anunciadas como verdades há pelo menos duas décadas.

No livro, Mitos e meias-verdades: a educação superior sob ataque” (2021), Dilvo Ristoff, pesquisador e especialista no assunto, elenca e analisa os vários mitos difundidos, tais como:

– a quantidade é inimiga da qualidade;

– a inclusão de grupos historicamente excluídos só faz piorar a qualidade;

– a educação superior no mundo é majoritariamente privada;

– o ensino presencial é bom e o ensino a distância é ruim;

– a educação superior para todos levará ao desemprego profissionais altamente qualificados;

– a educação superior deve ser contida pois já temos alunos demais na graduação;

– a única função da universidade é profissionalizar;

– o custo do aluno é alto demais e o ensino remoto e a educação aberta são o país das maravilhas.

Contraponto

Entre várias diretrizes extraídas das análises, Dilvo Ristoff destaca que:

– qualidade para poucos não é qualidade, é privilegiamento de oligarquias;

– qualidade sem oportunidade igual para todos não é qualidade, é iniquidade;

– educação que imagina que o futuro será uma réplica do passado ou do presente não é educação de qualidade, é um equívoco grosseiro, uma traição imposta aos jovens;

– educação que não valorize a ciência não é educação de qualidade, é superstição;

– educação puramente instrumental não é educação de qualidade, é formação de bárbaros fortemente municiados;

– educação autoritária não é educação de qualidade, é sufocamento da criatividade e da autonomia docente, é deseducação para a cidadania;

– educação que não considere, ao mesmo tempo, os desafios locais, regionais e globais não pode ser de qualidade suficiente, pois não é possível salvar um país ou uma região em um planeta condenado à morte;

– educação que não faz uso das mais recentes tecnologias não pode ser de boa qualidade, pois subtrai dos jovens o direito de acesso às melhores oportunidades de aprendizagem de seu tempo e, portanto, não os prepara adequadamente para os desafios sociais e profissionais à frente;

– educação que imagina que a formação está concluída com a outorga do diploma não pode ser de boa qualidade, pois desconhece a necessidade de preparar os jovens para o aprendizado ao longo da vida num mundo em acelerada mudança;

– educação que não reconheça a possibilidade de múltiplas trajetórias de aprendizagem não pode ser de qualidade, pois nega não só as sensibilidades individuais, mas também as relações que os indivíduos têm com os inúmeros caminhos hoje disponíveis para o acesso ao conhecimento;

– educação que não capacite os seus docentes e jovens para o desenvolvimento das competências transversais necessárias para viver num mundo cada dia mais complexo não é educação de qualidade, é falta de percepção do óbvio ululante.

Por trás dos mitos

O professor Nelson Cardoso do Amaral (UFG), em estudo intitulado A hora da verdade para as universidades federais brasileiras: metas do PNE (2014-2024) e 10 mitos a serem debatidos e desvendados, evidenciou e analisou mitos repetido no Brasil apresentando argumentos sólidos de sua insustentabilidade, dentre os quais destacamos:

– o “Brasil não aplica um volume adequado de recursos financeiros em todos os níveis de seu sistema educacional, da educação infantil à educação superior”, como afiram alguns formadores de opinião ao dizerem que o Brasil já aplica um volume adequado de recursos financeiros em todos os níveis de seu sistema educacional;

– pode-se afirmar também que “nos períodos de grande expansão, a qualidade das universidades federais não diminuíram”, em contraposição aos que afirmam que nesses períodos diminuem a qualidade;

– não é verdade que “os estudantes das universidades federais não pertencem aos estratos de renda mais elevados da sociedade”, como defendem interessados que as instituições cobrem mensalidades de estudantes de alta renda;

– pode-se afirmar, ainda, que “os alunos das universidades federais brasileiras não são os mais caros do mundo (no sentido de gasto por estudante)”, como é difundido pelos opositores das universidades públicas;

– e, pode-se afirmar, segundo o pesquisador, a “educação básica não poderia melhorar muito se fossem transferidos recursos das universidades federais para esse nível educacional” e é evidente que a “grande parte das famílias brasileiras não poderiam pagar mensalidades nas universidades federais e, dessa forma, um substancial volume de recursos financeiros não poderia ser incorporado a seus orçamentos”, diferentemente do que é propagado.

Desafios

Essas questões precisam ser desmistificadas e pautadas na ordem do dia do processo político. Este precioso bem público que é a educação pública, básica e superior, deve ser assumido pelo estado e pela sociedade com maior seriedade e honestidade. Continuamos negando a universalização à educação básica e o acesso ao ensino superior de qualidade.

Portanto, estamos diante de muitos desafios, alguns mais antigos e outros que já se anunciam na esquina do próximo ano.

Praticamente 90% mas matrículas da educação básica são públicas e 90% do conhecimento científico é produzidos em nossas universidades por jovens pesquisadores que dependem de bolsas que estão, desde 2013, sem reajuste e atingem o menor valor da história.

Aliás, políticas públicas de ensino e pesquisa no Brasil, mesmo no contexto da pandemia do covid-19, nunca foram prioridade dos últimos dois governos federais que, inclusive, nomearam os piores ministros da educação de nossa história.

Na obra The transformative humanities, Mikhail Epstein (2012) sustenta que a universidade, vale para escola, não é um centro comercial, uma loja para clientes de diplomas e de profissões e, também, não é uma rede de informações ou um supermercado intelectual: a universidade é uma instituição humanista e o seu propósito é educar humanos por humanos para o bem da humanidade.

O que é verdade para a universidade é verdade para toda a educação.

Assista também: 10 Mitos Sobre a Educação Superior Brasileira: https://youtu.be/fmbNIq9WMmQ?t=330

*Este artigo foi originalmente publicado no Extra-classe: Censo da educação superior, mitos e meias-verdades – Extra Classe

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alex Rosset

História no Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio

A História, ou as histórias, são contadas por meio das fontes que as registram, mas, como escreve Walter Benjamin (1986), não existem documentos que, ao mesmo tempo, não possam representar tanto a cultura quanto a barbárie.

O objetivo desta exposição é auxiliar os/as colegas da Área de Conhecimento das Ciências Humanas, especificamente do Componente Curricular de História, a compreender a estrutura, a organização, o desenvolvimento e as vinculações hierárquicas dos documentos nacionais e estaduais que implicam o Ensino Médio nesse aspecto e contribuir com a compreensão e o funcionamento da ciência Histórica na sala de aula. Não de modo hermético e dogmático, mas como um desenho possível e, talvez, esclarecedor que se coloque como ponto de partida para os primeiros movimentos de uma apropriação e uma práxis dinâmica.

Estas sugestões se apresentam como um referencial, apenas e motivação, impulso, para ações mais encorpadas e vultosas na ação pedagógica.

Por ação de Edital de Transferência Temporária para Dedicação à escrita do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio para o Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 2020, a Secretaria Estadual de Educação realizou seleção de dezoito (18) redatores/as titulares e respectivos suplentes, Professores e Professoras efetivos/as da rede estadual de ensino. Após entrevistas, os/as redatores/as, organizados/as em suas respectivas Áreas de Conhecimento, iniciaram os trabalhos previstos em 22 de outubro de 2020 e seguem em ação de escrita (PIES, 2022).

A partir das dificuldades encontradas com a compreensão dos documentos e a viabilização das atividades docentes, encaminhamos, sugestões de operacionalidade para ações de sala de aula e, também, para a compreensão da gênese e construção dos documentos.

Palavras iniciais

O documento denominado Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio compreende, logo na introdução, ser  

[…] um documento orientador da caminhada educacional de uma sociedade, especificamente, no ensino. Ao responder às perguntas: “o quê”, “quando”, “como”, “para quem” e “para onde”, pensa, como documento sistematizador, a educação de um determinado território e estabelece possibilidades, horizontes, metas, finalidades, perspectivas, sobre a práxis educacional. O Referencial Curricular Gaúcho se traduz em um caminho a ser seguido baseado em pressupostos teóricos e práticos, consideradas as condições, as realidades em que se encontram as redes de ensino no atendimento às demandas sociais. Constitui-se em guia que indica objetivos, sugere linhas gerais unificadoras, aponta fragilidades e recomenda parcerias, formas de enfrentamento e superação das insuficiências do sistema educacional. (RCGEM, 2021, p. 16)

Nesse sentido, o RCGEM apresenta linha gerais, amplas e abre para possibilidades de construção de planos e de aulas democráticas, dialógicas, criativas, de pesquisa e, especialmente, cientificidade e promoção do conhecimento e da cidadania.

Na perspectiva auxiliar para compreender as estruturas dos documentos e suas vinculações, explicamos que a História, na BNCC e no RCGEM é Componente Curricular integrante da Área do Conhecimento das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, simbolizada pela sigla CHS. A titulo geral, o documento se apresenta na seguinte linearidade:

Fonte: Fig. 01 – parte autora

Processo de Construção

O Componente Curricular de História, nas páginas 127 a 128 do RCGEM, reflete acerca dos Tempos e seus significados e, a partir dessa compreensão, assim discorre, em linhas gerais, acerca de algumas ideias que possam contribuir na reflexão para iluminar o horizonte de ação docente e discente:

O espetáculo das atividades humanas, realizado para seduzir a imaginação dos homens e mulheres, forma o objetivo da História, na sentença de Marc Bloch (2002). Ao esclarecer que o distanciamento no tempo e/ou no espaço torna sutil essa sedução, Bloch lança o princípio fundamental da História que consiste em trabalhar com as mudanças e as permanências históricas, a partir das investigações que essa ciência procura capturar: o ser humano e sua diversidade social no mundo concreto e simbólico.

Assim, como destaca a BNCC na etapa do Ensino Médio, os estudantes precisam desenvolver noções de tempo que ultrapassam a dimensão cronológica, ganhando diferentes dimensões, tanto simbólicas como abstratas, destacando as noções de tempo em diferentes sociedades. Na história, o acontecimento, quando narrado, permite-nos ver nele tanto o tempo transcorrido como o tempo constituído na narrativa sobre o narrado. (BRASIL, 2018a, p. 551).

Em consonância com a BNCC e o RCG, o estudo da História atravessa de forma interdisciplinar as CHS e as demais Áreas do Conhecimento, buscando desenvolver habilidades pelas quais os/as estudantes possam refletir sobre distintas noções de tempos e seus significados. Articulados aos conceitos e às perspectivas teóricas e metodológicas das CHS, os objetos de conhecimento utilizados no estudo da História devem contribuir de forma significativa para a Formação Geral e Básica, pois, como destaca March Bloch (2002), uma ciência sempre terá algo de incompleto se não ajudar, cedo ou tarde, a viver melhor.

As clássicas divisões da história da humanidade estudadas no Ensino Fundamental, nomeadas como Antiga, Medieval, Moderna ou Contemporânea são classificações que podem ser retomadas no Ensino Médio e ressignificadas a partir das convenções, assumindo outras perspectivas, abordagens e compreensões, visto que essa forma de organização historiográfica, delimitada por fatos e acontecimentos, tem formulação eurocêntrica. Como assinala Aníbal Quijano (2005), referindo-se à ideia da colonialidade do poder, tal condição não é tributária somente do fato de os europeus serem os criadores e portadores dessas classificações, mas à capacidade de difundir e estabelecer as divisões e seus entendimentos da História.

Considerar essa questão não significa subestimar a importância de conceitos e conhecimentos estabelecidos globalmente ou valorizar a importância de uma perspectiva teórica em detrimento de outra. Em se tratando do campo da educação, adotar outros pontos de vista significa assumir a responsabilidade de que o conhecimento da História pode ser estudado e analisado de forma crítica, promover investigações e problematizações acerca das condições contextuais e das relações de poder que possibilitaram a instituição, o uso e a legitimação de conceitos e denominações.

A História, ou as histórias, são contadas por meio das fontes que as registram, mas, como escreve Walter Benjamin (1986), não existem documentos que, ao mesmo tempo, não possam representar tanto a cultura quanto a barbárie. Seguindo a mesma tese, Benjamin observa, com lucidez crítica, como o risco e a entrega em busca do saber são substituídos por um pacto das juventudes com a previsibilidade da carreira profissional e certa acomodação ao vislumbrar o porvir.

As afirmações de Benjamin (1986) servem de alerta para que a produção do conhecimento possa funcionar como alavanca, propiciando a liberdade do futuro dos/as estudantes, mas sem desconfigurar continuamente o seu presente. Tais reflexões podem auxiliar o estudo crítico e problematizador da História em consonância com as demais Áreas do Conhecimento e com os objetivos do Ensino Médio. (Eloenes Lima da Silva, RCGEM, 2021, disponível no endereço: https://educacao.rs.gov.br/gestao-pedagogica).

Os debates e as construções sintonizadas entre a equipe de redação do RCGEM para a Área de CHS, as contribuições e sugestões da Consulta Pública a que foi submetido o RCGEM nos meses de novembro e dezembro de 2021, resultaram na produção de mais algumas habilidades que a BNCC não contemplava. Desse modo, destacam-se, algumas habilidades que são mais específicas para o Componente de História, por ano do Ensino Médio, mas ressalta-se que o objetivo é o desenvolvimento de uma formação integral das juventudes, de modo inter e transdisciplinar com a clareza de evitar formação fragmentada e superficializações tecnicistas.

O texto do RCGEM está aprovado pelo Conselho Estadual de Educação (CEEd) desde o dia 20 de outubro de 2021 através do Parecer CEEd n.003/2021 que institui o Referencial Curricular Gaúcho para o Ensino Médio (RCGEM), etapa final da educação básica, bem como, suas modalidades. O CEEd, reforça que o RCGEM é “referência obrigatória para elaboração dos currículos das instituições integrantes dos Sistemas Estadual e Municipais de Ensino do RS” que devem seguir os termos do Parecer e da Resolução CEEd n.361/2021.

Para facilitar, desse modo, a compreensão da estrutura hierárquica dos documentos e a operacionalização na escola e na sala de aula, destacamos o seguinte esquema:

Competências gerais da BNCC para a Educação Básica

A BNCC apresenta dez (10) Competências Gerais para a Educação Básica. Elas são a base para as ações educacionais em todas as modalidades e níveis da Educação Básica. Por educação Básica se compreende desde a Educação Infantil até o Ensino Médio e a Educação Profissionalizante (Ensino Médio Integrado, Cursos Técnicos Concomitantes e Subsequentes).

As dez Competências Gerais, podem ser encontradas na BNCC (p. 09-10):

1. Conhecimento: Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.

2. Pensamento científico, crítico e criativo: Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.

3. Repertório cultural: Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

4. Comunicação: Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

5. Cultura digital: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

6. Trabalho e projeto de vida: Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.

7. Argumentação: Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.

8. Autoconhecimento e autocuidado: Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.

9. Empatia e cooperação: Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.

10. Responsabilidade e cidadania: Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários

Competências específicas das CHS que podem ser desenvolvidas no Componente de História

Como desdobramentos das dez (10) Competências Gerais, a BNCC organizou competências especificas por área do conhecimento. Essas Competências estão disponíveis na BNCCEM (p. 558 a 565) e no RCGEM (p. 134 a 139), conforme Fig. 2. Para auxiliar no trabalho docente, visto que a BNCC não apresenta, objetivamente, Objetos do Conhecimento para serem trabalhados, tomamos a liberdade de sublinhar os aspectos que identificam a dimensão filosófica em cada uma das Competências Específicas das CHS.

Destacamos que, a partir das propostas de trabalho nas escolas, encadeadas pela filosofia de cada escola, que expressa as intencionalidades formativas e as linhas pedagógicas, as habilidades podem dar suporte para a definição dos objetos de conhecimento a serem trabalhados, operacionalizados, para a consecução dos objetivos da educação integral, do protagonismo cidadão das juventudes e o crescimento, pessoal, intelectual, científico e profissional de cada indivíduos que acessa, permanece e se fortalece em conhecimento, na escola.

Proposta de Habilidades da BNCC e RCGEM para os três anos do Ensino Médio

A BNCCEM apresenta uma lista de habilidades, enquanto documento base da educação nacional. Porém, a equipe de redatores do RCGEM, para as CHS, percebeu lacunas que poderiam ser sanadas com habilidades específicas para algumas temáticas que não estavam contempladas a nível nacional e outras relacionadas com o território Rio Grande do Sul. Nesse sentido, foram incluídas habilidades àquelas já construídas pela BNCCEM. Desse modo, nas habilidades elaboradas pelo RCGEM há um acréscimo da sigla RS ao código. Isto significa que ela foi elaborada pela equipe redatora por decisão autônoma ou por sugestão das entidades, docentes e comunidade durante a consulta pública organizada pelo CEEd-RS.

A preocupação da CHS para o Componente Curricular de História, no Ensino Médio, é facilitar o trabalho docente com o destaque das principais habilidades. Contudo, cada docente pode ir além e aproximar a História a outras habilidades a fim de desenvolver com maior amplitude o trabalho pedagógico para almejar as dez Competências Gerais da BNCC, onde pode se localizar a excelência congitiva.

Cada docente de História deve retomar o RCGEM e aprofundar os estudos das 10 Competências Gerais da BNCC, das 6 Competências específica da área de CHS e das habilidades que decorrem de cada uma das 6 Competências específicas de CHS.

Apresentamos agora, as habilidades que decorrem da BNCC e aquelas elaboradas pela equipe do RCGEM que implicam diretamente a História, para os três anos do Ensino Médio.

– Acerca da Competência Específica das CHS, 01:

(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais. (1º, 2° e 3°);

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos. (1º, 2° e 3°);

(EM13CHS104) Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço. (1º, 2° e 3°);

(EM13CHS105) Identificar, contextualizar e criticar tipologias evolutivas (populações nômades e sedentárias, entre outras) e oposições dicotômicas (cidade/campo, cultura/natureza, civilizados/bárbaros, razão/emoção, material/virtual etc.), explicitando suas ambiguidades. (1º, 2° e 3°);

(EM13CHSA108RS) Identificar e analisar datas comemorativas, feriados locais e nacionais com origens religiosas ou sejam referências por reconhecimento de lutas, por consciência ou por afirmação de direitos. (1º);

(EM13CHSA112RS) Compreender e relacionar os processos de socialização e de instituições sociais na formação do sujeito, reconhecendo os motivos que aproximam e separam as pessoas em grupos sociais, a importância das relações de parentesco e de grupos que vinculam os indivíduos a determinadas relações culturais e compreensões da realidade. (1º, 2º e 3º).

– Acerca da Competência Específica das CHS, 02:

(EM13CHS201) Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos diversos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles. (1°, 2º e 3°);

(EM13CHS202) Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHS203) Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/barbárie, nomadismo/sedentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras). (1°, 2º e 3°);

(EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas. (1°, 2º e 3º);

(EM13CHS205) Analisar a produção de diferentes territorialidades em suas dimensões culturais, econômicas, ambientais, políticas e sociais, no Brasil e no mundo contemporâneo, com destaque para as culturas juvenis. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHS206) Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico. (1°, 2º e 3º);

(EM13CHSA207RS) Analisar e reconhecer as relevantes contribuições culturais e religiosas dos povos indígenas, africanos e afro-brasileiros para a história e a cultura. (1º, 2º e 3°);

(EM13CHSA208RS) Estudar, investigar e compreender os sentidos e as processualidades das revoluções, das mudanças e rupturas provocadas na história da humanidade e de seu pensamento. (1°, 2° e 3°);

EM13CHSA209RS) Identificar e valorar a importância dos agentes sócio-históricos em diferentes contextos de protagonismo e tensionamentos de forças políticas e compreensões na perspectiva de conquistas e garantias dos direitos humanos, no Estado republicano de direito. (1°, 2° e 3°);

(EM13CHSA210RS) Investigar e compreender como os principais processos expansionistas interferem e provocam profundas transformações sócio-culturais nos povos nativos de cada território e impactam a história, a autonomia e a vida. (1°, 2° e 3°);

(EM13CHSA211RS) Conhecer as hipóteses que explicam a chegada do humano nas Américas e avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos e ambientais dos povos ao longo da história. (1° e 2°).

– Acerca da Competência Específica das CHS, 03:

(EM13CHS304) Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições governamentais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas, selecionando, incorporando e promovendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável. (1°, 2° e 3º);

(EM13CHSA308RS) Compreender as relações intrínsecas entre os elementos constituintes do cosmos e o protagonismo humano nas fronteiras da ética e da bioética concentrando esforços na promoção, defesa e continuidade da vida. (1º, 2º e 3º).

– Acerca da Competência Específica das CHS, 04:

(EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos. (1º, 2º e 3°);

(EM13CHS403) Caracterizar e analisar os impactos das transformações tecnológicas nas relações sociais e de trabalho próprias da contemporaneidade, promovendo ações voltadas à superação das desigualdades sociais, da opressão e da violação dos Direitos Humanos. (2º e 3º);

(EM13CHS404) Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em especial, os jovens, levando em consideração, na atualidade, as transformações técnicas, tecnológicas e informacionais. (1°, 2° e 3º);

(EM13CHSA405RS) Analisar e compreender os conceitos de mundialização e globalização, seus processos históricos, culturais, sociais, políticos, econômicos e ambientais, as interações e consequências – em diferentes escalas – para os indivíduos, as sociedades e para os Estados. (1°, 2° e 3°).

– Acerca da Competência Específica das CHS, 05:

(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHS504) Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas. (2º e 3º);

(EM13CHSA508RS) Reconhecer o direito e a liberdade de crença como garantias de um Estado laico e de vivência dos direitos humanos. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHSA509RS) Analisar e compreender as condutas humanas a partir dos comportamentos, atitudes e sentidos incorporados historicamente como consolidação de valores morais, éticos e estéticos. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHSA511RS) Compreender as relações humano-sociais como construções histórico-culturais e o racismo, a etnofobia e a xenofobia como ocorrências resultantes de processos estruturais dominadores, exploradores e simplificadores da condição humana instituídos por compreensões homogeneizantes e hegemônicas nas fronteiras do mundo democrático e republicano, impeditivos das diversidades. (1°, 2° e 3°);

(EM13CHSA513RS) Analisar social e historicamente a luta e as conquistas de direitos das minorias compreendendo as relações de gênero, o feminismo, LGBTQI+, as culturalidades e suas implicações e as consequentes desigualdades para iniciar processos de equidade, respeito, justiça social e afirmação dos direitos humanos. (1°, 2° e 3°).

– Acerca da Competência Específica das CHS, 06:

(EM13CHS601) Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo os quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país. (1º, 2º e 3º);

(EM13CHS602) Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual. (2º e 3º);

(EM13CHS603) Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.). (1°, 2º e 3º);

(EM13CHS606) Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na análise de documentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para enfrentar os problemas identificados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva, que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança e a empatia. (1°, 2º e 3º);

(EM13CHSA609RS) Compreender características socioeconômicas e culturais – com base na análise de documentos, dados, tabelas, mapas etc., de diferentes fontes – e propor políticas públicas e medidas para enfrentar os problemas identificados. (1º, 2º e 3º).

Autores: Claudionei Vicente Cassol e Eloenes Lima da Silva

Fontes mínimas de consulta:

Associação Brasileira de Ensino de História – ABEH.

Associação dos Professores de História – APH.

Associação Nacional de História – ANPUH.

Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas – ANPHLAC.

Base Nacional Comum Curricular – BNCC.

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana – DCNERER.

Parecer n. 003/2021.

Resolução CEEd n.361/2021.

Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio – RCGEM.

Site do Professor Nei Alberto Pies.

Edição: Alex Rosset

O cantinho do pensamento causa dores e traumatiza a criança

É preciso acabar com todas as formas de castigo que traumatizam as crianças. Pai, mãe, professor, não criem cantinho do pensamento em casa ou na escola. Criem ambientes onde a sua criança possa se sentir segura e confortável.

Começo com os versos da canção de Benito de Paula intitulada “Amigo do sol, amigo da lua” que nos diz. “Ê ê, criança presa em/
Brinquedos de trapaças / Quase sem história pra contar.”

A história de uma criança começa a partir dos seus primeiros dias de vida quando ela descobre e passa a reconhecer os carinhos e cuidados das pessoas conhecidas. Toda história de uma criança deve ser construída com afeto e cuidado para que ela se torne um adulto saudável e eficiente em tudo o que se dedicar a fazer.

Houve um tempo em que as crianças não eram reconhecidas como humanos que deviam participar das reuniões familiares.

As crianças viviam trancadas em seus quartos longe das visitas e dos parentes próximos. Eram vistas como terríveis para lidarem com os mais velhos. Esse tempo durou muito e as crianças sofreram diversos tipos de abusos físicos e psíquicos.

As mudanças vieram com o passar das décadas, mas não foram muitas. As crianças ainda eram vistas como birrentas e arengueiras. Na verdade, eram incompreendidas pelos adultos. Deixadas em segundo plano as suas palavras e opiniões nunca eram validadas pelos familiares. Não tinham voz entre os parentes.

Para amedrontar as crianças inventaram um tal cantinho do castigo em casa e na escola. A criança desobediente ia direto para esse cantinho que era um lugar estranho e doído para ela. Quem ia para o cantinho do castigo ficava estigmatizada pelas outras. Era vista como perturbadora da ordem. As demais crianças morriam de medo de passarem pelo cantinho do castigo.

Em casa, os pais inventaram um cantinho do castigo que é um lugar sem nada por perto, muitas vezes sem a luz do sol onde a criança fica de frente para a parede durante horas até que se redime. Era e é ainda um verdadeiro castigo e tormento para as crianças que gostam de brincar, pular, correr, espalhar os brinquedos pela casa inteira, gritar, fazer perguntas e pular muros, mas os pais não entendem que isso é coisa de uma criança saudável que está gastando a sua energia necessária para o crescimento.

Nos últimos anos, não sei quem e nem quero saber inventou o cantinho do pensamento. Trata-se de um local para a criança pensar e refletir sobre a sua desobediência. Justo as crianças que passam a maior parte da infância pensando coisas sobre os adultos.

O cantinho do pensamento só faz com que as crianças deixem de pensar, parem de pensar, tenham medo de pensar.

Quando elas chegam na escola que o professor ou professora fala sobre como pensar bem, as que estão acostumadas a irem para esse tal cantinho do pensamento começam a se tremer. Não é um lugar legal, pode ser menos feio do que o cantinho do castigo, mas é um castigo que dói, machuca e traumatiza a criança para o resto da sua vida.

Nas minhas andanças pelas cidades do meu Estado e outros que acabei conhecendo, descobri muitos pais orgulhosos do cantinho do pensamento que fizeram para os seus filhos quando eles desobedecem ou ficam de birra. Os pais acham esse cantinho maravilhoso, diga-se de passagem. Não é! Nunca será! Acordem pais! Esse é um cantinho que vai maltratar a sua criança.

Toda criança necessita ficar sozinha no lugar que ela escolher e não num determinado lugar ao qual damos o nome “bonito” de cantinho do pensamento. Pensar o quê?

Quem pensa enquanto está com raiva, aborrecido, triste, ameaçado, com medo, ansioso, chorando e incompreendido? Quem consegue pensar quando está com receio de levar uma palmada se desobedecer novamente.

As ameaças dos pais e professores à criança são tantas que ela fique naquele cantinho do pensamento sozinha, abandonada, largada de tudo e de todos sem saber o que está fazendo ali. Ela não consegue pensar em coisas boas, pois o seu desejo é sair o mais rápido possível desse tal cantinho.

Para acalmar uma criança é preciso carinho, amor e cuidado. Toda mãe, pai ou professor deve saber lidar com as diferentes maneiras que as crianças têm de expressarem seus sentimentos e emoções. Elas gostam de brincar e correr. Até os seis anos de idade, toda criança só deveria brincar, mas antes disso já vejo muitas delas no cantinho do pensamento. Será que os pais pensam que elas vão se tornar filósofas neste cantinho?

Sem poder fazer quase nada em favor das crianças que vivem ao meu redor eu as vejo no cantinho do pensamento com as lágrimas caindo pelo rosto e perguntando aos seus pais quanto tempo ainda falta para saírem dali. Nenhuma delas consegue pensar em coisas boas porque nenhum castigo é bom para o desenvolvimento da criança.

Todo castigo é sempre algo que desmotiva, que cobra, que ordena, que impõe. A criança não está acostumada a ser cobrada por coisas que não sabe como reagir. As suas emoções muitas vezes são novas demais e elas precisam de alguém que as ajude a lidarem com o que sentem. Tem criança que sente o coração disparar na hora da birra e não sabe o que fazer com aquela arritmia cardíaca porque não tem a quem perguntar sobre o que está sentindo já que foi abandonada naquele cantinho do pensamento, sozinha.

É preciso acabar com todas as formas de castigo que traumatizam as crianças. Pai, mãe, professor, não criem cantinho do pensamento em casa ou na escola.

Criem ambientes onde a sua criança possa se sentir segura e confortável. Que ela possa ser estimulada a pensar sobre a sua desobediência de uma forma saudável e lúdica. Coloque a sua criança no colo, abrace-a, dê carinho, espere que a raiva dela passe, espere que ela pare de chorar e fazer birra. Afinal, tudo passa.

Não tenha vergonha dos demais adultos se a sua criança desobedecer a você em público ou fizer birra no supermercado. Só não vai entender a sua criança quem nunca precisou educar uma. Não dê ouvidos a críticas ou comentários maldosos. As crianças já sofrem demais com as incompreensões dos seus sentimentos, do crescimento do corpo e desenvolvimento do intelecto. Elas precisam de tempo e espaço para descobrirem que o crescimento faz parte da vida.

A maior dor que uma criança pode sentir em relação a um adulto é quando ela sofre incompreensão. Sem contar que a incompreensão vem sempre acompanhada de um castigo. Os pais adoram castigar as crianças, alguns professores também. Como se elas fossem culpadas por não entenderem bem as coisas ou por não aceitarem fazer o que desejamos.

Sempre queremos que as nossas crianças estejam limpinhas e cheirosas não pensando no bem-estar delas, mas no que os adultos vão pensar de como as educamos. Não estamos preocupados em mostrar aos adultos que as nossas crianças são felizes e amadas do jeito que agem e são para todos nós.

É uma pena que ainda exista escola e pais que tenham esse cantinho do pensamento. Conheci uma escola que até colocou brinquedos e livros no cantinho do pensamento para a criança achando ser uma boa ideia. Não é uma boa ideia. Enquanto a criança for obrigada por você para estar num lugar onde ela não gostaria, fazendo o que ela não quer, nunca será bom nem para ela e nem para você.

Uma casa ou escola com crianças deve ser toda dela. Ela deve poder entrar em todos os compartimentos do lugar sendo orientada onde pode mexer ou não, e o motivo. O lugar deve ter espaço para a criança poder se movimentar à vontade e espalhar os seus brinquedos como quiser.

Não se deve construir um cantinho do pensamento. Se algum pedagogo ou psicólogo orientá-lo a fazer isso não aceite, professor ou mamãe. A criança gosta de pensar quando está brincando. Ela tem o seu próprio momento de pensar sobre as coisas ao seu redor, as pessoas, os animais de estimação e a sua vida.

Sim, as crianças pensam sobre os seus viveres. Elas também sofrem angústias e medos do amanhã iguais aos adultos.

Incentive a sua criança a pensar conversando com ela confortavelmente antes de dormir sentados na cama, na poltrona da sala, no chão da varanda ao redor dos brinquedos. Faça perguntas que estimulem o pensar crítico da criança. Elabore junto com a criança porquês que a faça ficar intrigada e querer saber mais coisas a respeito de determinado assunto.

Toda criança é desobediente porque ela não sabe direito diferenciar o certo do errado. Para ela em tudo pode mexer. Ainda não foi concebido no seu pensamento o que é errado e feio. No mundo da criança há muita incompreensão e medo dos adultos quando ela é o tempo todo ameaçada de castigo das mais diversas formas. O importante é que seja criada uma forma de diálogo para que essa desobediência tenda a diminuir com o passar dos meses.

Eu sei que existem crianças difíceis de serem educadas, mas tudo que recebe amor acaba sendo conquistado. Não é amor colocar a sua criança no cantinho do pensamento. É amor sentar-se com ela no seu colo enquanto chora para ir para a rua e o horário não permite. Diga isso para a criança e espere que ela processe a informação, logo que isso acontecer o choro vai passar e ela se distrairá com outra coisa.

Substitua o cantinho do pensamento por uma sala cheia de livros, com janelas abertas, brinquedos espalhados por todos os cantos, paredes coloridas onde a criança possa se sentir respeitada, amada, cuidada. Um lugar para onde ela possa escolher ir e ficar o tempo que quiser e sentir-se bem. Que não lhe seja ordenado por ninguém ficar presa neste lugar. Com portas e janelas abertas para ela se sentir livre.

Se a sua casa for pequena decore o quarto da sua criança com bichinhos de pelúcia, bonecos de pano, brinquedos simples, mas que vão alegrar o dia a dia dela. Os brinquedos se tornam parte da vida das crianças. Tem muita criança que se apega a um boneco ou boneca como se fosse seu irmãozinho mais velho ou mais novo, conforme as suas necessidades.

Eu não gostaria de ver mais cantinho do pensamento em casa nenhuma e em nenhuma escola.

Acredito que toda criança desobediente só está mostrando o seu lado saudável de querer aquilo que tanto deseja mesmo sem nem saber o que vai fazer direito com aquilo. Cabe a nós, adultos, sabermos lidar com as desobediências e as birras. Nenhuma criança é terrível ou assustadora que não possa ser educada com carinho e cuidado.

Para terminar deixo vocês com uma frase inspiradora do escritor inglês William Shakespeare que nos diz “O amor é como a criança: deseja tudo o que vê.”

Que não coloquemos nunca mais as nossas crianças de castigo só porque desejaram e fizeram birra ou nos desobedeceram em público por algo que não podíamos lhes comprar ou oferecer.

Educar uma criança não é somente colocá-la na escola e alimentá-la. Vai muito além das pequenas coisas do dia a dia. Educar é antes de tudo respeitar e tentar compreender o que não se consegue dizer facilmente em palavras e, por isso o choro.

 Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Por que as guerras não nos comovem?

“Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano.” (Leon Tolstói)

Amigo, cronista e jornalista Celestino Meneghini escreveu reflexões sobre a Utopia da Paz: “estamos em plena escalada da guerra em sua configuração mundial. As mulheres, crianças, velhos, doentes e homens guerreiros, que morrem ou são lançados na dor da violência, reduzem-se a uma explicação genérica, de que a guerra sempre existiu. Esse é o sentimento que se pulveriza na consciência humana. Abandonamos a utopia da paz”. (Leia mais: https://www.neipies.com/a-utopia-da-paz/)

Ao publicarmos estas reflexões, restou-nos algum incômodo sobre a veracidade das afirmações acima descritas, pois sempre acreditamos que o horror da guerra deveria mobilizar o que de mais nobre pode habitar um coração humano: a compaixão e a solidariedade com o sofrimento alheio. As guerras deveriam ser motivos suficientes para o mundo insurgir-se pedindo e exigindo a paz, através da tolerância e do diálogo, capazes de persuadir os briguentos.

No contexto da guerra na Ucrânia, em andamento, ouvimos colegas professores e professoras afirmarem que já temos suficientes problemas para nos preocupar com a realidade brasileira, com a situação das famílias de nossos estudantes, com as complexidades das nossas famílias e de nossas escolas; de que a guerra é uma realidade distante da vida da gente. Diante destas narrativas, vimos sentido e razão em suas percepções, amigo Meneghini. Entendemos, intuitivamente, que esta percepção deve ser recorrente em significativa parte da população brasileira, que vive longe de guerras.

É verdade que há muitos que lutam, incansavelmente, para evitar as guerras e proteger as suas vítimas. Mesmo com interesses escusos, muitos que estão próximos dos poderosos da guerra manifestam preocupação humanitária. No entanto, suas forças e manifestações não conseguem, efetivamente, trazer resultados mais objetivos para evitar os conflitos e as guerras.  Neste sentido, resta-nos problematizar sobre o que estaria por trás de tanta passividade diante da estupidez das guerras.

Por que as guerras não nos comovem?

Não somos especialistas do assunto, mas queremos apresentar modestas hipóteses para enriquecer a compreensão desta temática, que pretende, antes de mais nada, suscitar novas e mais profundas reflexões. Há elementos que podem nos ajudar na compreensão sobre tanta passividade diante da estupidez das guerras.

1. Saída pelas armas: quando vivemos uma sociedade que apela para o uso de armas como forma de controle social, é porque as tragédias das mortes injustificadas já não perturbam mais o imaginário das pessoas;

2. Cultura da violência: a cultura da violência, altamente disseminada em alguns jogos virtuais, faz uma desconexão absurda com a realidade cruel a que estão submetidos os povos e grupos em guerra. As crianças e adolescentes, por exemplo, revelam com relativa naturalidade esta reverência às mortes e eliminações dos outros, sem escrúpulos.  A tolerância da sociedade com o uso violência é sinal de que a mesma pode ser utilizada para resolver conflitos, sem escrúpulos;

3. Cultura individualista: hoje, as saídas para os problemas da humanidade, modo geral, invocam o individualismo. As mídias e as redes sociais invocam os mais sublimes desejos individualistas que se sobrepõem aos aspectos coletivos e comunitários. As saídas raramente apontam a solidariedade e a compaixão (atitude de colocar-se no lugar do outro) como molas propulsoras de uma convivência respeitosa e fraterna.

4. Cultura brasileira: pacífica ou passiva? Vivemos uma cultura nada pacífica e, sim, de muita violência no nosso cotidiano. Basta observarmos os números diários da violência do trânsito, contra as mulheres, homicídios e suicídios, a violência fruto das mais variadas formas de preconceito e discriminação. Nossa cultura é passiva diante da crueldade da violência e da violação dos direitos de cada um e cada uma e de todos nós. Raramente reagimos exigindo mudanças de posturas que agridem a nossa dignidade e a nossa liberdade.

5. Indiferença com o sofrimento alheio: por razões diversas, muitos de nós tomam distanciamento do sofrimento dos outros, a não ser que estejam envolvidas pessoas de sua família ou comunidade. O que é de outro país, de outra cultura, parece não pertencer à mesma humanidade que todos carregamos.

6. Guerras recorrentes fazem parte da “paisagem contemporânea”: importante dizer que a existência perene das guerras parece “suavizar” o sofrimento que todas elas provocam. Em diferentes países, e por diferentes motivações, ocorrem guerras, perseguições e mortes todos os dias. Parece, então, estarmos acostumados com as diferentes e injustificadas atrocidades cometidas pelos senhores da guerra.

7. “Se queres paz, prepara-te para a guerra” (provérbio romano). Parece que, para muitas pessoas, justifica-se a guerra porque ela pode trazer a paz. Será? Esta parece ser também a máxima que levou os EUA e países europeus, através da OTAN, a armar o exército e a população da Ucrânia mesmo sabendo da superioridade do exército russo.

***

Para compreender um pouco melhor a relação dos brasileiros diante da violência urbana e das guerras, tomamos estas ideias de Helena Simonard-Loureiro, ao descrever em texto “Cenas de uma guerra que não comove ninguém”:

“…vivermos neste fatalismo estúpido. Qualquer um sabe que amanhã alguém vai morrer no trânsito, depois de amanhã também e assim por diante, sempre. Não há protestos, não há solidariedade e não há soluções à vista para reverter o quadro. O que há é cada vez mais a multiplicação de meios para que estas mortes não apenas continuem como aumentem. A perda não é sentida pela sociedade com o mesmo horror de um atentado terrorista, que se transforma num temor coletivo. A perda, neste caso, é quase individual. A dor fica circunscrita à família, aos filhos, aos pais, aos amigos. Se há indignação é contra o motorista que avançou o sinal. A responsabilidade tem que ser apurada, mas o problema como um todo é de natureza coletiva, porque não foi apenas uma morte. Ela se soma às milhares de outras. Todos os anos. Uma carnificina hedionda”. (Leia mais: https://tribunapr.uol.com.br/blogs/comer-e-viver/cenas-de-uma-guerra-que-nao-comove-ninguem/)

Cultura de paz e papel das escolas

A esperança é a força mobilizadora que nos faz olhar para o nosso lado (e para a história), com o propósito de perceber quem luta e quem já lutou por uma cultura de paz. Cremos que a cultura da tolerância e da paz nasce justamente nos esforços diários e perseverantes que afirmem o diálogo como pressuposto maior dos entendimentos humanos.

Martin Luther King, líder negro, religioso e pacifista, afirma que“nós não podemos nos concentrar somente na negatividade da guerra, mas também na positividade da paz”.

A paz não está e nem se realiza em contextos sem conflitos. Os conflitos fazem parte da natureza humana, mas cabe à sociedade e, às escolas, de modo particular, estabelecerem dinâmicas de convivência onde se experimentem a resolução de conflitos e diferenças pelas vias da escuta, do diálogo, do respeito mútuo e da aceitação das diferenças.

Escolas no pós pandemia

A pandemia que colocou muitas coisas em cheque, inclusive o papel das escolas e da educação, poderia ter deixado lições que apontem mais para o horizonte da coletividade, superando a visão fragmentada do individualismo. Como escreve o professor Everaldo Reis, em texto “Escolas mais solidárias pós pandemia”,

as escolas só serão locais de profusão de solidariedade se fizerem de seus espaços, locais onde se alimenta sonhos. Há muito as escolas deixaram de ser o local onde se vive sonhos. É comum encontrar estudantes no ensino fundamental e nos primeiros anos do ensino médio que não se identificam com nenhuma causa, engajamento cultural, propósito de vida, profissão, ou mesmo nutre o desejo de ir a faculdade. No máximo se sonha ou se nutre a ideia de uma ida a faculdade quando se está concluindo o ensino médio. As escolas como locais de sonhos é mais que isso. É ir eticamente promovendo experiências e conectando os alunos aos seus interesses e desejos. (Leia mais: https://www.neipies.com/escolas-mais-solidarias-pos-pandemia/ )

Reafirmamos nossas convicções por um mundo de paz, de respeito e de tolerância, ao invés da brutalidade da violência. Temos que continuar lutando pela paz, sombreada pela onda de consumismo que suplanta a existência da alma.

Acreditamos que a escola deve ser um lugar que permita aos estudantes olhar para o mundo, a partir das suas realidades. Neste sentido, as guerras interessam para o estudo, para discussão e discernimento com os estudantes e para afirmação de valores que promovam a dignidade e a liberdade humanas. As mulheres, crianças, velhos, doentes e homens guerreiros, que morrem ou são lançados na dor da violência, não podem ficar reduzidos a uma explicação genérica de que a guerra sempre existiu. A guerra é evitável, sim!

Como disse Albert Einstein: “A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos”. Se quisermos viver a humanidade que está presente em cada um de nós e em todo mundo é preciso fortalecermos uma cultura de paz, alicerçada em valores mais solidários e mais fraternos.

O filme egípcio “L’altra par” durou só 3 minutos e ganhou o prêmio de melhor curta metragem no festival de cinema de Veneza. O diretor tem 20 anos. O filme descreve como as pessoas se isolam na tecnologia e perdem a convivência. Assista: https://youtu.be/bpQMsc0EpjE?t=20

Sugestão de leitura e aprofundamento temático:

  1. “Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano.” (Leon Tolstói). Assista vídeo sobre obra Guerra e Paz, Leon Tolstói. https://youtu.be/uZ1fHezR8p8?t=476

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Somos mesmo todos irmãos?

Somos todos irmãos! Esta é a mensagem do Evangelho! Temos todos o mesmo Pai que nos ama incondicionalmente e jamais desistirá de Seus filhos.

Perguntaram-me numa postagem em rede social se um umbandista deveria ser considerado meu irmão. Sim. Não apenas o umbandista, mas também o candomblecista, o kardecista, o budista, o hinduísta, e até o ateísta.

Somos todos irmãos! Pelo menos é o que leio na passagem em que o apóstolo Paulo se dirige aos atenienses no areópago e afirma que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração” (Atos 17:28). Ser “geração de Deus” não é outra coisa que não seja ser filhos de Deus.

Foi o próprio Jesus quem nos ensinou a chamar a Deus de Pai. Ele não é Pai de alguns, mas Pai de todos os espíritos (Hebreus 12:9).

Alguns poderão objetar alegando que de acordo com João, somente os que cressem em Jesus poderiam ser chamados filhos de Deus, os demais seriam apenas Suas criaturas. Ledo engano. O que João diz é que “a todos quanto creram, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:12).

Não nos tornamos Seus filhos quando cremos, mas quando nascemos. Porém, ao crermos, somos regenerados de modo que a imagem de Deus nos é restaurada. Recebemos, então, o poder de sermos o que somos, abraçando, assim, nossa vocação existencial em sua plenitude.

Já que Paulo cita filósofos gregos em seu sermão, tomo a liberdade citar Nietzsche: “Torna-te quem tu és”.

Não deixamos de ser criaturas para sermos filhos, como se ser criatura fosse menos que ser filho. Se assim fosse, Paulo não teria dito que em Cristo somos “novas criaturas” (2 Coríntios 5:17). Logo, somos tanto filhos quanto criaturas, de modo que tudo quanto Deus criou também desfruta da mesma irmandade. Por isso, São Francisco de Assis se dirigia aos astros como “irmão sol” e “irmã lua”.

Deus é Pai até de quem não tem consciência disso.

Ora, se Jesus não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hebreus 2:11), por que cargas d’água eu me recusaria a reconhecer a paternidade universal de Deus?

Somos todos irmãos! Esta é a mensagem do Evangelho! Temos todos o mesmo Pai que nos ama incondicionalmente e jamais desistirá de Seus filhos.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Veja também