O problema nunca foi o trabalho. O problema é quando ele deixa de ser expressão de vida e passa a ser instrumento de opressão.
Chamaram o trabalho de maldição, mas isso é um equívoco teológico. Antes de qualquer queda, o ser humano já havia sido colocado no jardim para cultivar e guardar.
O trabalho, portanto, não nasce do pecado, mas do propósito. Ele é extensão da criatividade divina em nós. Trabalhar é participar da obra de Deus no mundo, dar forma ao caos, gerar sustento, dignidade e sentido.
O problema nunca foi o trabalho. O problema é quando ele deixa de ser expressão de vida e passa a ser instrumento de opressão.
A teologia do descanso começa exatamente aí. Se Deus, que não se cansa, escolhe descansar, não o faz por necessidade fisiológica, mas por princípio espiritual.
O descanso é um ato de resistência contra a lógica da produtividade sem alma. É uma declaração de que o valor do ser humano não está naquilo que ele produz, mas naquilo que ele é.
O sábado bíblico não é apenas um mandamento religioso. É uma subversão econômica.
Num mundo onde tudo girava em torno de produzir sem parar, Deus institui um freio. Um dia em que ninguém trabalha, nem o patrão, nem o empregado, nem o estrangeiro, nem os animais. Um dia em que a vida vale mais do que o lucro.
Por isso, qualquer sistema que normalize a exaustão como estilo de vida está, na prática, negando esse princípio divino.
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A escala 6×1 é um exemplo gritante disso.
Trabalhar seis dias seguidos para descansar apenas um não é equilíbrio, é sobrevivência institucionalizada. É a espiritualização moderna do cansaço crônico.
É um modelo que rouba do trabalhador o tempo com a família, o cuidado com o próprio corpo, a possibilidade de lazer, o cultivo da espiritualidade e até o simples direito de não fazer nada sem culpa.
E o mais curioso é ver políticos que se dizem defensores da família se posicionando contra mudanças nesse modelo. Defendem a “família” em discursos, mas sustentam estruturas que impedem o convívio familiar na prática. Que tipo de defesa é essa que não garante tempo para um pai brincar com seu filho, para uma mãe descansar sem culpa, para uma família sentar à mesa sem pressa?
A teologia do descanso nos lembra que trabalhar é importante, mas descansar é sagrado. Que produzir é necessário, mas viver é essencial. E que nenhuma economia deveria ser construída à custa da saúde física, emocional e espiritual de quem a sustenta.
Descansar não é perder tempo. É recuperar a alma.
Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Somos todos professores”: www.neipies.com/somos-todos-professores/
Edição: A. R.












Uma interessante abordagem do tema “Fim da Escala 6×1”. Obrigado Hermes C. Fernandes pelo brilhantismo deste texto.