Se você pretende conquistar meu voto, não tente conquistar minha fé. Não se apresente como escolhido de Deus. Apresente suas propostas. Não me ofereça profecias. Ofereça dados. Não me peça devoção. Preste contas. Não demonize seus adversários. Mostre o que pretende fazer. Não peça que eu confie cegamente. Dê-me razões para confiar.
Quem me conhece sabe que não costumo me envolver em campanhas eleitorais. Não faço do púlpito palanque, não transformo a igreja em comitê e não entrego minha consciência a partido algum. Mas, já que existem candidatos empenhados em conquistar votos a qualquer preço, permito-me oferecer algumas “sugestões” àqueles que fazem questão de não ter o meu.
Quer mesmo perder meu voto? Então tome nota.
1. Desdenhe da cultura.
Trate manifestações culturais que não correspondem à sua visão de mundo como degeneração, ameaça ou coisa de gente inferior. Reduza a riqueza cultural do país aos limites daquilo que você considera aceitável. Demonstre desprezo por tudo o que não cabe no seu repertório moral.
2. Ataque a religião alheia.
Zombe das tradições religiosas que não são as suas. Transforme a fé das minorias em motivo de escárnio e faça da religião uma trincheira. Apresente-se como único representante legítimo de Deus e ensine seus seguidores a enxergar os demais como inimigos espirituais.
3. Minta com convicção.
Espalhe fake news, distorça fatos, invente inimigos e repita uma falsidade tantas vezes quanto for necessário para transformá-la em “verdade”. Quando for desmentido, não peça desculpas. Mude de assunto, ataque quem o desmentiu e siga em frente. A mentira, afinal, funciona melhor quando vem acompanhada de segurança.
4. Atribua ao adversário os próprios pecados.
Acuse-o daquilo que você mesmo fez, faz ou pretende fazer. Transforme qualquer denúncia contra você em perseguição política. Jamais admita um erro quando houver alguém a quem responsabilizar.

5. Nunca assuma a responsabilidade por uma gestão fracassada.
Se algo deu errado, a culpa é do antecessor, da imprensa, do Judiciário, do Congresso, da oposição, dos servidores, dos comunistas, dos globalistas ou de qualquer conspiração suficientemente ampla para absorver a sua incompetência. Governar é mérito seu; fracassar é sempre culpa dos outros.
6. Prometa o impossível.
Prometa aquilo que o cargo não permite realizar, ignore limites orçamentários, competências institucionais e condições materiais. Transforme desejo em programa de governo e fantasia em compromisso eleitoral. Há sempre alguém disposto a acreditar que um candidato pode resolver sozinho problemas que atravessam décadas.
7. Fabrique o apocalipse.
Diga que, se seu adversário vencer, o país acabará, a família desaparecerá, a economia entrará em colapso, Deus será expulso da nação e o inferno tomará conta das ruas. Não apresente argumentos. Produza medo. O eleitor assustado pensa menos e obedece mais.
8. Cerque-se de predadores.
Escolha como aliados aqueles que enxergam o Estado como propriedade particular, o dinheiro público como oportunidade de enriquecimento e a política como negócio. Dê espaço aos inescrupulosos, desde que sejam úteis. Depois, se alguma coisa vier à tona, declare que não sabia de nada.
9. Use Deus como cabo eleitoral.
Associe seu nome ao nome de Deus. Suba a púlpitos. Receba orações. Seja apresentado como “ungido”, “escolhido” ou “levantado para salvar a nação”. Transforme o Evangelho em propaganda eleitoral e a fé em instrumento de mobilização. Misture cristianismo com moralismo, fundamentalismo, negacionismo, intolerância e desprezo pela ciência. Faça parecer que votar em você é um ato de fidelidade religiosa.
Meu voto? Você jamais terá. E não o terá nem que estivesse disputando contra o próprio diabo. Porque existe algo que considero ainda mais repulsivo do que um político que não tem fé: um político que usa a fé dos outros para conquistar poder.
O diabo, segundo a narrativa bíblica, pelo menos reconhece diante de quem está. Os demônios sabem quem é Jesus e tremem diante dele (Tg 2:19; Mc 1:24).
O que me escandaliza não é a irreligiosidade de quem não crê, mas a religiosidade de quem instrumentaliza Deus enquanto despreza aquilo que Deus, nas Escrituras, ordena com insistência: justiça, misericórdia, verdade, compaixão e cuidado com os vulneráveis.
Não me interessa o candidato que sabe citar mais versículos. Interessa-me aquele cuja vida pública suporta o peso dos princípios que esses versículos anunciam.
Não me impressiona a Bíblia erguida diante das câmeras. Quero saber o que acontece quando as câmeras se apagam.
Não me convence a oração feita no palanque. Quero saber como esse candidato trata quem não pode lhe oferecer nada em troca.
Não me interessa ouvir que determinado político “defende a família” se sua política produz abandono, fome, violência e desumanização. Não me interessa ouvir que “defende os valores cristãos” se mente, persegue adversários, despreza a ciência, alimenta o ódio e transforma os pobres em estatística.
O nome de Deus não absolve ninguém do exame moral.
Por isso, se você pretende conquistar meu voto, não tente conquistar minha fé. Não se apresente como escolhido de Deus. Apresente suas propostas. Não me ofereça profecias. Ofereça dados. Não me peça devoção. Preste contas. Não demonize seus adversários. Mostre o que pretende fazer. Não peça que eu confie cegamente. Dê-me razões para confiar.
E, se ainda assim insistir em utilizar Deus como cabo eleitoral, pode ficar tranquilo: meu voto você já perdeu.
Nesse caso, prefiro não votar a entregar meu voto a alguém que, em nome de Deus, aprendeu a desrespeitar o próximo.
A você, caro candidato, eu não tiro o chapéu.
Não por falta de reverência à autoridade, mas por excesso de reverência à consciência.
Autor: Por Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “A teologia do descanso e a escala 6 x 1”: www.neipies.com/teologia-do-descanso-e-a-escala-6×1/
Edição: A. R.











