Marilise Brockstedt Lech: Encontros com Educadores

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Repercutimos matéria/entrevista da psicóloga e educadora Marilise Brockstedt Lech, também acadêmica da Academia Passo-Fundense de Letras publicada no ano de 2010 pela Revista Direcional Educador.

Consideramos este material ainda muito atual, sobretudo porque fala de realidades ainda não plenamente superadas em diferentes salas de aula do nosso Brasil. Com seu olhar de psicóloga, Marilise Brockstedt ainda nos ensina muito a partir de sua entrevista, publicada juntamente com outras 49 pessoas, dentre elas, para citar alguns e algumas: Nádia Freire, Mario Sérgio Cortella, Ana Maria Araújo Freire, Celso Antunes, Maria Helena Matarazzo, Ziraldo, Pedro Bandeira, Ilan Brenman.

A educadora e psicóloga Marilise Brockstedt Lech estuda os conflitos na sala de aula e defende que afeto e autoridade podem conter atitudes inadequadas.

Professores desrespeitados em plena sala de aula, alunos vítimas de humilhações por parte dos colegas, brigas que chegam à agressão física. Que atire a primeira pedra a escola que nunca viveu alguma dessas situações.

Desde o início de sua carreira na Educação, como professora de Educação Infantil, Marilise Brockstedt Lech percebeu que o afeto era fundamental para o estabelecimento do processo de ensino-aprendizagem.

“Percebia o quanto as crianças dependem de um conjunto de competências do professor para resolver as diversas situações imprevistas em sala de aula, dentre elas a questão dos comportamentos agressivos, que ocorrem cada vez com maior frequência nas escolas.”

Graduada em Educação Física e Psicologia pela Universidade de Passo Fundo, especialista em Educação Infantil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Marilise aprofundou seus estudos sobre os conflitos escolares e as competências necessárias aos educadores para lidar com essas situações.

Esse trabalho deu origem ao livro Agressividade na Escola: uma questão docente, publicado pela Editora Mediação.

Embora o título destaque a agressividade, a autora explica que escreveu, principalmente, sobre as competências que o educador deve desenvolver para lidar com as situações de conflito vividas no cotidiano escolar.

Na época da entrevista, Marilise também atuava como docente em cursos de pós-graduação e como extensionista do Programa A União Faz a Vida, cuja proposta era desenvolver valores como solidariedade, cooperação e cidadania.

A seguir, a entrevista concedida à revista Direcional Educador.

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Em seu livro, a senhora afirma que nem todo conflito gera um comportamento agressivo. Pode dar um exemplo de uma situação em sala de aula em que um conflito tenha um “final feliz”?

Marilise Brockstedt Lech – Um conflito pode significar apenas um choque de ideias, capaz de ampliar a capacidade de reflexão, o pensamento crítico e o crescimento pessoal. Quando duas pessoas apresentam opiniões diferentes, não significa que uma esteja certa e a outra errada. Muitas vezes, ambas possuem razões legítimas.

As pessoas precisam compreender que o contrário de uma verdade pode ser outra verdade. Quando o conflito passa a ser entendido dessa forma, ele deixa de representar ameaça e transforma-se em oportunidade de aprendizagem.

Em seu livro, a senhora trata da agressividade desde a Educação Infantil. Como definir o limite entre aquilo que é esperado para a idade e aquilo que excede o padrão?

Marilise Brockstedt Lech – Todas as crianças, em maior ou menor grau, passam por situações em que utilizam a força física para defender suas ideias ou aquilo que acreditam ser seus direitos. Até o final da Educação Infantil, a criança ainda não possui plena noção do certo e do errado, ainda está desenvolvendo a capacidade de colocar-se no lugar do outro — ou seja, a empatia — e também não dispõe de recursos linguísticos suficientes para expressar verbalmente seus sentimentos. Assim, a agressão acaba sendo, muitas vezes, o caminho mais curto para sua comunicação.

A partir dos seis ou sete anos, espera-se que a criança já consiga organizar melhor o pensamento e utilizar a linguagem para resolver conflitos. Quando isso acontece, diminui a necessidade de responder fisicamente, pois também diminui a angústia provocada pelos sentimentos negativos que impulsionam a agressividade.

Da mesma forma, observamos o fenômeno do bullying especialmente entre pré-adolescentes e adolescentes. Cabe ao professor discernir aquilo que faz parte das interações próprias da idade daquilo que caracteriza violência sistemática.

Como o professor deve agir diante dos alunos que praticam bullying?

Marilise Brockstedt Lech – Os limites entre uma brincadeira e o bullying são bastante tênues. Muitas vezes observamos alunos discutindo, brigando ou provocando-se mutuamente.

Um dos critérios mais importantes é observar o grau de sofrimento existente entre as partes. Quando ambos se divertem, estamos diante de uma brincadeira. Quando apenas um dos envolvidos demonstra irritação, tristeza, constrangimento ou humilhação, a situação deixa de ser brincadeira e passa a caracterizar uma forma de agressão.

Os alunos que praticam bullying frequentemente não conseguem perceber o sofrimento que provocam nas vítimas. Por isso, é papel dos professores ajudá-los a desenvolver empatia e consciência sobre as consequências de seus atos. As atitudes educativas são muito mais eficazes do que as meramente punitivas.

A autoridade do professor parece estar enfraquecida nas salas de aula. Como resgatá-la?

Marilise Brockstedt Lech – A relação dos alunos com a autoridade começa muito antes da entrada na escola. O professor acaba sendo, em muitos casos, um reflexo das primeiras figuras de autoridade presentes na vida da criança.

Sob essa perspectiva, resgatar a autoridade exige que crianças e adolescentes estabeleçam novos modelos positivos de identificação. Trata-se de um processo lento, mas extremamente necessário.

Respeitar um aluno que não respeita os demais costuma surpreendê-lo. Aos poucos, esse novo modelo de relacionamento pode modificar seu comportamento.

O princípio da autoridade está fundamentado no respeito. Já a ameaça representa autoritarismo. Quando o professor ameaça constantemente seus alunos, perde sua autoridade.

A escola inclusiva contribui para o aumento dos conflitos?

Marilise Brockstedt Lech – De certa forma, sim. Até poucas décadas atrás, frequentavam a escola principalmente aqueles que possuíam condições sociais, cognitivas e familiares favoráveis.

Com a universalização do ensino, a escola passou a acolher uma diversidade muito maior de estudantes. Há alunos que não gostam de estudar, outros apresentam dificuldades físicas ou intelectuais, enquanto muitos possuem diferentes formas de aprender.

Atender toda essa diversidade representa um enorme desafio para a escola e pode gerar conflitos entre alunos, professores, famílias e gestores públicos.

Esse processo de inclusão é lento e faz parte de uma transformação social muito maior, que acredito ser uma verdadeira revolução da consciência. Enquanto ela não estiver consolidada, os conflitos continuarão existindo, pois fazem parte da condição humana.

Como a formação de professores pode desenvolver competências para resolver conflitos?

Marilise Brockstedt Lech – A formação do professor começa muito antes da universidade. Ela se inicia na própria história de vida de cada educador. Costumo dizer que um bom professor é, antes de tudo, um educador nato. Suas habilidades de relacionamento dependem tanto de sua formação acadêmica quanto de suas experiências pessoais.

A universidade deveria dedicar mais espaço ao desenvolvimento das competências humanas dos futuros professores.

Em meu livro destaco algumas competências fundamentais: bom senso, experiência, capacidade de reflexão, pesquisa e, acima de tudo, afeto. É o afeto que permite ao professor desenvolver empatia, acolher o aluno como ele é, compreender seus sentimentos e, ao mesmo tempo, exercer autoridade para ajudá-lo, gradativamente, a modificar atitudes inadequadas.

A senhora fala sobre a corporeidade como forma de comunicação. A escola ainda é muito tradicional nesse aspecto?

Marilise Brockstedt Lech – Sim. O corpo é nosso principal meio de comunicação. Quanto menos ele é considerado na escola, maiores tornam-se as dificuldades para estabelecer vínculos e expressar emoções.

A agressão é, muitas vezes, a expressão corporal da raiva e da frustração. Quando essa energia emocional não encontra formas saudáveis de elaboração, ela acaba sendo descarregada através do comportamento agressivo.

Por isso defendo a importância do corpo e do movimento no processo educativo. Eles ajudam tanto a canalizar as tensões do cotidiano quanto a ampliar as oportunidades de vivenciar emoções positivas.

Esse ainda é um desafio para muitos professores, que acreditam que a aula ideal é aquela em que todos permanecem sentados e em silêncio durante todo o tempo.

Que orientações a senhora daria aos professores para minimizar os conflitos escolares?

Marilise Brockstedt Lech – Em primeiro lugar, é preciso investir mais emoção no processo educativo. Quando aprender torna-se algo significativo e prazeroso, sobra menos espaço para os conflitos.

Também considero essencial o afeto, entendido como respeito, bom humor e amor, no sentido proposto pelo biólogo chileno Humberto Maturana: a capacidade de aceitar o outro como um legítimo na relação.

Quando o aluno se sente aceito e respeitado, aumenta sua disposição para rever suas atitudes e encontrar formas mais saudáveis de expressar seus sentimentos.

A escola começa a perceber que seu papel mudou. Vivemos em uma sociedade inundada de informações. Mais do que transmitir conteúdos, cabe à escola ajudar os alunos a atribuírem sentido ao conhecimento, para que possam utilizá-lo em benefício próprio e da sociedade.

FOTOS: Arquivo pessoal entrevista/divulgação

Marilise Brockstedt Lech também escreveu no site: www.neipies.com/carta-pela-natureza-as-futuras-geracoes/

Edição: A. R.

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