Escola de Contadores de Histórias: o início

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Recebi como presente uma frase do meu xará, o Gabriel, que de forma espontânea disse: “professor, ainda seremos melhores amigos”. Já somos, meu querido, já somos. E são as histórias que vão levar essa amizade ainda mais longe.

Não basta apenas fazer, é preciso também ensinar a fazer. Com esse espírito educador, de quem deseja compartilhar não só conhecimento, mas também vivências enriquecedoras, propus o projeto Escola de Contadores de Histórias, uma iniciativa que teve contemplação de recursos do Edital PNAB Passo Fundo – 2025.  A ideia era simples e clara: levar oficinas formativas a educadores e crianças, transformando pessoas e espaços e garantindo engajamento em torno da arte da oralidade.

Com o apoio de cinco profissionais da contação de histórias de Passo Fundo (Luciana Marinho, Cássio Borges, Vanessa Hickmann, Ezequiel Silva e eu), foram estruturados dois grupos de aprendizes.

A turma de educadores, com as oficinas ocorrendo no espaço da Casa Drum Música e Arte e a turma infantil, em parceria com a Assistência Arquidiocesana da Leão XIII, com atividades que tiveram lugar no Centro de Juventude do Bairro Záchia. Fizemos e acontecemos, como diz o provérbio popular, com a circulação dos oficineiros duas vezes com cada grupo, propondo interações, dividindo técnicas, estimulando à narração. Ocupamos a Feira do Livro de Passo Fundo com uma apresentação em sua programação oficial e promovemos um festival dedicado aos novos narradores. Levamos livros para as crianças participantes do projeto, inundando-os de leitura.

O êxito dessa ação toda se propagou. A Escola de Contadores de Histórias tomou vida própria e se deslocou a outras instituições e municípios. Pensando em contar um pouco desse movimento pioneiro, criei um diário, com anotações pessoais daquilo que vi, ouvi e ajudei a criar.

O que vocês lerão são fragmentos do que ocorreu nessas oficinas, divididos em capítulos curtos. Oxalá essa gana de contar histórias também atinja os leitores. Merecemos – e precisamos! – cada vez mais retornar ao nosso ímpeto imaginativo, de agentes da palavra, para tornar um mundo um pouco melhor. Assim espero.

CAPÍTULO 1

O dia 04 de setembro de 2025 amanheceu chuvoso. Nada de anormal em se tratando do estado mais meridional do Brasil, onde a água tem sido recorrente e castigante. Problemas à parte, foi essa a data que escolhemos para o primeiro encontro de uma série de oficinas visando formar contadores de histórias e espalhar essa arte.

Era o princípio do projeto Escola de Contadores de Histórias, a minha menina dos olhos, que me despertou à consciência da necessidade de formar novos narradores. A responsabilidade daquele pontapé inicial era minha e eu me sentia entusiasmado.

Estive no Bairro Záchia, em Passo Fundo, em um Centro de Juventude mantido pela Assistência Social Arquidiocesana Leão XIII, um local onde a arte e a cultura andam de mãos dadas com uma vontade tremenda de transformar vidas. A chuva atrapalhou um pouco os planos, é verdade. Nem todos os que habitualmente frequentam o espaço estiveram presentes. Mesmo assim deixamos a imaginação tomar conta. Tratei de conhecer um por um, apertar-lhes a mão, apresentar-me. Fiz-me igual a eles; se a minha estatura e a idade destoam para cima em relação a esse público, a imaginação nos coloca em pé de igualdade.

Não foi uma atividade longa, dada a situação. Batemos papo, contei a história “Uma aventura pra lá de doce” (livro de minha autoria) e os desafiei a criarem o final da narrativa. Onde estaria o caderno de receitas de Dona Maria? Essa parte sempre me surpreende. A obra tem um final aberto. O caderno sumido não aparece; fica a cargo do leitor pensar qual é o seu paradeiro. Foi uma mudança da primeira para a segunda edição do livro, pois o final que eu havia criado estava muito aquém daquilo que poderia ter sido.

Ao final apresentamos as nossas ideias e encerramos com a clássica aventura do Zé e do Mané, a jornada de dois amigos narrada com os dedos. Algumas luzes se acenderam nesse primeiro contato. A obra contada tocou em uma memória afetiva especial na vida deles: os doces feitos pelas avós. Nada melhor do que um carinho de avó em forma de comida. É sinônimo de segurança, proteção. É sinônimo de saber ancestral, de raiz. Para uma criança, isso tem um forte significado.

Da personalidade deles, alguns mais expressivos, outros introspectivos. A curiosidade era a mesma. O brilho no olho também. Ao ouvirem a história e, depois, participarem da sua construção, mesmo quem era tímido deixou espaço para o mágico se manifestar. Contar histórias é também saber ouvir, internalizar, deixar fluir. Uma hora a flor desabrocha.

Ao me despedir, recebi como presente uma frase do meu xará, o Gabriel, que de forma espontânea disse: “professor, ainda seremos melhores amigos”. Já somos, meu querido, já somos. E são as histórias que vão levar essa amizade ainda mais longe.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin – Gabito. Também escreveu e publicou no site “Uma cidade contadora de histórias”: www.neipies.com/uma-cidade-contadora-de-historias/

Edição: A. R.

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