Talvez esteja aí uma das maiores injustiças desse debate: quando o serviço público não funciona, frequentemente se olha primeiro para quem está na ponta e quase nunca para quem deveria garantir as condições para que ele funcionasse.
Você, servidor público, sabe melhor do que ninguém o que falta para o serviço público funcionar melhor.
Falta estrutura. Faltam equipamentos que funcionem. Faltam materiais, insumos, pessoal e, muitas vezes, condições mínimas para fazer o trabalho como deveria.
Mesmo assim, você continua.
É você quem abre a escola, atende no posto de saúde, orienta o cidadão, fiscaliza, limpa, conserta, organiza documentos, dirige veículos, cuida das crianças, mantém setores funcionando e, muitas vezes, tira solução de onde parece não existir.
E ainda precisa ouvir reclamações por problemas que não criou.
Talvez esteja aí uma das maiores injustiças desse debate: quando o serviço público não funciona, frequentemente se olha primeiro para quem está na ponta e quase nunca para quem deveria garantir as condições para que ele funcionasse.
Um equipamento velho não é responsabilidade do servidor. A falta de insumo não é responsabilidade do servidor. Uma estrutura inadequada não é responsabilidade do servidor. A falta de planejamento e investimento também não.
Mas, mesmo assim, cresce o discurso de que é preciso “enxugar a máquina”, reduzir servidores, flexibilizar direitos e mexer na estabilidade.
Agora, alguns candidatos apresentam a reforma administrativa como se ela fosse a grande resposta para os problemas do Estado.
Mas vamos combinar: reforma administrativa não conserta equipamento quebrado, não compra medicamento, não coloca professor onde falta professor e não abastece uma unidade de saúde.
Problemas de gestão não se resolvem transformando o servidor em vilão.
Servidor público não pede que o Estado seja ineficiente. Ao contrário. Quer trabalhar melhor, ser respeitado e ter condições para entregar à população o serviço que ela merece.
E ele próprio faz parte dessa população.
Ele e sua família também precisam de escola, saúde, transporte, segurança, atendimento e de tantos outros serviços públicos. Quando o serviço funciona bem, o servidor também ganha. Quando funciona mal, ele também enfrenta a fila, a falta de atendimento, a escola sem estrutura e o posto sem recursos.
Defender um serviço público de qualidade, portanto, não é defender apenas o trabalho do servidor. É defender aquilo que também faz parte da sua própria vida.
Por isso, é preciso olhar com atenção para o discurso político.
Quem passa um mandato inteiro ou uma campanha inteira atacando servidores, tratando direitos como privilégios e o serviço público como um peso para o Estado está dizendo, antes mesmo de ser (re)eleito, qual será sua relação com quem trabalha e com aquilo que é público.
Não é apenas retórica eleitoral. É uma escolha de visão de Estado.
Quando a solução apresentada é sempre reduzir servidores, retirar direitos, enfraquecer carreiras ou tratar a estabilidade como privilégio, acaba-se colocando nas costas de quem está na ponta uma responsabilidade que muitas vezes pertence a quem administra, planeja e decide onde os recursos serão aplicados.
E aqui é preciso fazer uma distinção importante: cobrar o servidor é legítimo. Transformá-lo no culpado por tudo é injusto e ignora a responsabilidade de quem gere os recursos.
A sociedade tem todo o direito de exigir um serviço público melhor. O servidor também.
Mas é preciso perguntar quem oferece as condições para que esse serviço aconteça.
Porque é muito fácil cobrar rapidez de quem trabalha com sistema lento. Cobrar atendimento de quem não tem pessoal suficiente. Cobrar resultado de quem recebe equipamento ultrapassado. Cobrar eficiência de quem precisa improvisar todos os dias.
Não dá para cobrar o resultado e esconder as condições em que o trabalho é feito.
Não existe serviço público sem servidor.

Quando se enfraquece quem está na ponta, enfraquece-se também a escola, a saúde, a assistência, a fiscalização e tantos outros serviços dos quais todos nós dependemos.
Por isso, servidor, não basta ouvir o que um candidato e seu partido prometem. Preste atenção em como ele fala de você e de seu trabalho, mas olhe, sobretudo, para o que seu partido fez quando teve de votar seus direitos e suas condições de trabalho. Porque, na política, discurso de campanha é promessa; voto é posição.
E a sociedade precisa fazer o mesmo.
Na hora de votar, não olhe apenas para quem promete “modernizar” o Estado ou “enxugar a máquina”. Pergunte o que isso significa na prática. Pergunte quem vai perder direitos, quem vai trabalhar com menos recursos e, principalmente, quem vai pagar a conta quando o serviço público for enfraquecido.
Porque, no fim das contas, a conta chega para todos.
O servidor não precisa de políticos que o tratem como problema. Precisa de gestores que entendam que valorizar quem trabalha também é uma forma de valorizar o serviço que chega à população.
E o eleitor precisa olhar além daquilo que quer ouvir em uma campanha. É preciso olhar para o histórico, para as posições e, principalmente, para as escolhas feitas quando foi preciso votar. Porque quem chega ao poder tratando o servidor como inimigo dificilmente vai enxergá-lo como parceiro depois da eleição.
Quem pretende enfraquecer, desmontar ou até mesmo extinguir o serviço público não merece o voto de quem vive dele, trabalha nele e depende dele.
Autor: Jonas A. Fusiger. Já publicamos no site outro texto de sua autoria: Professores sob ataque: o silêncio do poder e o colapso da escola”: www.neipies.com/professores-sob-ataque-o-silencio-do-poder-e-o-colapso-da-escola/. Fusiger mantém o blog Pulsar Debates: https://www.pulsardebates.com.br/
Edição: A. R.










