Eles fariam o que já fizeram

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Se Cristo caminhasse por aqui hoje, ficaria longe dos palácios e das bancadas políticas. Estaria na calçada, dividindo o pão com os invisíveis, ignorado pelos que gritam seu nome nos microfones do poder. Talvez cuidando da natureza criada por seu pai.

Nas esquinas do Brasil, o sagrado virou poder para excluir e atacar. Políticos negociam parcelas do céu em troca de votos na terra. Diante da pressa em legislar a fé, restam os dois caminhantes da Galileia.

Jesus e Maria cruzam os séculos em silêncio. Apenas mostrando-nos o que fizeram e como agiram.  Ele avisou que seu Reino não era deste mundo e viveu sem teto onde reclinar a cabeça. Ela, a mãe discreta, acolhia desamparados, não generais.

O mestre nazareno nunca rejeitou o diferente; conversou com a mulher samaritana — considerada de outra crença e marginalizada pelos religiosos da época — oferecendo acolhimento em vez de exclusão. Hoje, ambos são arrastados para o centro de uma arena barulhenta. Suas imagens viraram escudos para quem busca controle. A dupla que jamais desejou o poder humano assiste à própria memória ser usada pela ambição dos homens.

A história avisa sobre esse perigo. O Império Romano usou a religião para divinizar imperadores e esmagar povos. Séculos depois, a Idade Média repetiu o erro ao fundir a coroa e o altar, transformando a divergência em fogueira. Quando o trono se veste de divindade, o dissidente vira um demônio a ser extirpado. Contra o fanatismo cego, a própria tradição cristã traz antídotos.

Santo Tomás de Aquino defendia que se a fé contraria a inteligência, é melhor ficar com a inteligência. Afinal, é a nossa capacidade de raciocinar e discernir que nos faz imagem e semelhança do Criador. O Estado religioso totalitário nega essa luz interna ao aniquilar a diferença pela força de massificar e unificar o que é diverso e múltiplo.

O Brasil é majoritariamente cristão, mas sua alma é feita de centenas de grãos de areia da fé.  Sob o céu brasileiro, abrigam-se a espiritualidade indígena que cuida da terra, a resistência viva das religiões afro-brasileiras e o direito de quem escolhe o ateísmo. A Constituição protegeu essa diversidade por meio da laicidade.

O Estado laico não nega Deus; ele garante que o templo, o terreiro e a descrença convivam sob as mesmas leis. Não é preciso ameaçar a sociedade com as chamas do inferno para que as pessoas sejam éticas ou pratiquem o bem. A moralidade nasce do respeito ao próximo, não do medo da punição eterna.

No entanto, o cotidiano agride o bom senso e a tolerância. A mesma mão que ergue um livro sagrado tolera o ataque à casa de matriz africana. Desumaniza-se o vizinho em nome de um Criador que as próprias escrituras definem como amor.

Se Cristo caminhasse por aqui hoje, ficaria longe dos palácios e das bancadas políticas. Estaria na calçada, dividindo o pão com os invisíveis, ignorado pelos que gritam seu nome nos microfones do poder. Talvez cuidando da natureza criada por seu pai. Maria, como ao pé da cruz, estaria mais preocupada com todo tipo de violência e marginalização. Para sabermos o que eles fariam, basta ver o que eles fizeram.

Autor: Pablo Morenno. Escritor e editor. Também escreveu e publicou no site “Guerrear pela paz”: www.neipies.com/guerrear-pela-paz/

Edição: A. R.

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