Bets não deveriam existir. Mas, se não há como evitá-las (por causa das apostas feitas pela internet com empresas sediadas no exterior), jogadores de futebol, por serem ídolos e formadores de opinião (especialmente para os jovens), deveriam proteger seu público de produtos de alto risco, assim como alguns astros internacionais recusam publicidade de fast-food ou bebidas alcoólicas. É o que eu penso.
O menino que jogava descalço na várzea, que dividia uma coxa de frango com 5 irmãos, que aprendeu a dar chapéu porque o campinho era de terra e pedra, hoje aparece na TV de terno italiano dizendo “tigrinho, clica no link da bio”.
Dancinha do gol não resolve problema. Gratidão a Deus no avião não tem a ver com Deus.
Deus é o patrocínio, o contrato de milhões, a agência de marketing.
Porque o mesmo moleque que saiu do Alemão, da Vila Cruzeiro, do Zacchia, voltará pra favela em forma de anúncio. “Fique rico como eu. Só apostar 5 reais”. E o primo dele, o vizinho dele, o porteiro que lavava o carro dele, vê aquilo e acredita. Porque se o ídolo falou, deve ser verdade.
Aí o salário que não dava pra conta do mês vira 20 reais na bet. Depois 50. Depois o vale. Depois o nome sujo. O jogador ficou rico. A quebrada empobrece.
E na Copa isso fica escancarado. Porque na Copa a gente lembra. A gente lembra do nome da rua, da escola, do gol no campinho de terra. A gente projeta neles a nossa revanche. “Esse aí é um de nós”.
Mas, vocês conhecem o filme espanhol “O Poço”? Assistam.
Trailer: https://youtu.be/7CxKksqGrbI?t=4
O filme mostra o que a gente finge que não vê na Copa: o sistema só funciona porque quem tá em cima come primeiro e come demais. E porque quem tá embaixo aceita migalha achando que um dia vai subir.
A grande sacada de “O Poço” é essa. Não tem comida nova a cada andar. Tem só uma plataforma que desce. Igual à carreira de jogador. Se os de cima não deixarem nada, os de baixo morrem. E se os de baixo resolverem comer tudo antes, os de cima passam fome na volta.
Só que na vida real ninguém escolhe dividir. O jogador que saiu da favela chega no nível 1 e esquece o endereço. Troca a memória por relógio. E vira garoto-propaganda da roleta que afunda quem ficou lá atrás.
Na hora do hino, ele olha o relógio no pulso. Na hora da entrevista, ele decora três frases que o assessor passou. Na hora do comercial, ele sorri e aponta pra bet. Defende a família e faz festa com garotas de programa.
Virou criança com cartão de crédito. Quer brinquedo novo toda semana: carro, tênis, relógio, casa, e ostenta para que todos pensem que Deus abençoa.
Não penso que jogador deva ser político. Nem pastor. Nem herói. Talvez, pudesse apenas não vender a ilusão para a quebrada de onde saiu.

Porque bet não tira ninguém da miséria. Bet só muda o endereço da miséria. Do bairro pobre pro bolso do dono da bet.
Bets não deveriam existir. Mas, se não há como evitá-las (por causa das apostas feitas pela internet com empresas sediadas no exterior), jogadores de futebol, por serem ídolos e formadores de opinião (especialmente para os jovens), deveriam proteger seu público de produtos de alto risco, assim como alguns astros internacionais recusam publicidade de fast-food ou bebidas alcoólicas. É o que eu penso.
Quem brinca de roleta, na realidade, é a esperança. No futebol, ela seria um moleque que, mesmo chegando no topo, lembrasse do campinho de terra e não vendesse ilusão pra quebrada.
A maior parte da quebrada passará a vida com seu álbum incompleto. E os campinhos da várzea seguem lá esperando. Claro, com wi-fi para ficar on line, e propaganda de aposta no alambrado. A Copa termina, o poço continua.
Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “Guerrear pela Paz”: www.neipies.com/guerrear-pela-paz/
Edição: A. R.











