Em nome d´Aquele que pediu para guardar a bainha, multiplicaram-se os exércitos, e o “amai-vos” foi devorado pelo “vencei-os”.
Promover a guerra em nome da paz parece um nebuloso, mas, infelizmente, é uma realidade límpida. Sob a retórica de promover a paz e proteção a povos violentados, líderes políticos e religiosos cometem outras barbáries, alegando buscar a proteção de seus povos ou tentando instaurar uma ordem justa. Na prática, é apenas uma forma de manipulação para justificar agressões e conquistas.
Talvez seja porque a guerra é vista como um meio para alcançar um fim, e o fim seria a paz. Mas como se chegar à paz pela guerra? Como chegar à vida pela morte? Como chegar à justiça pelo totalitarismo?
E como pode um líder político cristão promover a guerra em plena semana da Páscoa?
Catedrais de silêncio avançam sobre os cadáveres de inocentes. Cantam-se “Aleluias” para abafar os gritos de desespero dos feridos. Ironia tecida com salmos de ferro.
Em nome d´Aquele que pediu para guardar a bainha, multiplicaram-se os exércitos, e o “amai-vos” foi devorado pelo “vencei-os”.
O Deus que mora nos detalhes da paz vê-se, de repente, sequestrado por discursos absurdos, enquanto homens de joelhos calejados pela oração levantam mãos que já usaram gatilhos e botões de mísseis.
No fim, a guerra dita santa deixa apenas a terra profanada pelos que deviam ser pacificadores. E quando Ele chegar e disser “A paz esteja convosco!” poderá ser um tanto tarde, até mesmo para o príncipe da paz.
Em tempos de guerra, a Páscoa pode parecer um sussurro distante, um eco de esperança abafado pelo barulho das armas e pelo choro das mães. Onde existirá a Páscoa, em meio à guerra?
No oriente médio, uma jovem acorda antes do sol nascer. Ela acende uma vela em sua casa improvisada, feita de escombros e sonhos quebrados. A chama dança no rosto dela, iluminando um sorriso fraco. “Hoje é Páscoa”, sussurra para si mesma. Pega pedaço de pão seco e o parte ao meio. Coloca um pouco de azeitona em cima e fecha os olhos. “Ele ressuscitou!”, grita na janela. Seu grito se mistura ao som das bombas.
Em algum lugar da cidade, um soldado anônimo, cansado e sujo, encontra um ovo de chocolate escondido em sua mochila. Sua filha o havia colocado lá antes de ele partir. Ele sorri, um gesto quase esquecido em meio à guerra.
A Páscoa procura a paz em gestos quase invisíveis, em promessas vazias de cristãos armados de espadas. E Jesus é morto e crucificado a todo momento. E tenta perguntar a seu Pai o que não funcionou direito com sua encarnação, paixão e morte.
Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “O menino do Portinari e o colapso do mundo”: www.neipies.com/o-menino-do-portinari-e-o-colapso-do-mundo/
Edição: A. R.












Em algum lugar da cidade, um soldado anônimo, cansado e sujo, encontra um ovo de chocolate escondido em sua mochila. Sua filha o havia colocado lá antes de ele partir. Ele sorri, um gesto quase esquecido em meio à guerra.
A Páscoa procura a paz em gestos quase invisíveis, em promessas vazias de cristãos armados de espadas. E Jesus é morto e crucificado a todo momento. E tenta perguntar a seu Pai o que não funcionou direito com sua encarnação, paixão e morte.
Autor: Pablo Morenno.