Mulher não deve maternidade a ninguém. Deve a si a vida que escolheu.
Mulher sem filho é árvore sem fruto, alguém havia falado. Ela riu. E tornou-se floresta.
Maternidade é escolha, e nunca será destino. Escolha não feita também pode ser caminho. O ventre é sagrado por si mesmo, não precisa de um berço para ser divino. Um colo pode embalar livro, projeto, madrugada de amigo em prantos, gato com medo de chuva, um hamster comendo floquinhos. E tudo está certo.
Mulher sempre nasce inteira.
Não é metade esperando outra metade pra se completar. Os outros podem estar presentes, nem sempre como filhos. Ela é verbo inteiro: cria ideia, cria empresa, cria silêncio bom dentro de casa no domingo. Cria a si mesma, todo dia, sem manual de instruções e sem palpite de parente no almoço. Se quiser, poderá rodear-se de crianças das amigas, das irmãs, numa escola, numa ONG. E se não quiser, tudo está certo.
Maternidade cansa.
Coragem também é não desejar o cansaço. Ou esse cansaço. E se quiser cansar, pode ser de viajar, de estudar. É coragem dizer “não” para o relógio biológico quando ele vira despertador alheio tocando na sua cabeceira. É coragem entender que instinto não é obrigação, é convite. E convite a gente aceita se quiser. Se quiser se cansar, pode passar um dia cuidando do jardim. Ou cansando de descansar. E se pensar diferente, também está certo.
Tem quem encontre sentido na fralda, na mamadeira, no “mãe” gritado do outro quarto. E tem quem encontre sentido no voo solo, no passaporte carimbado, no eco da própria risada dentro do apartamento vazio. Duas gramáticas diferentes pro mesmo milagre: ser dona de si.

Deixem em paz as mulheres sem filho. Nada de atacá-las com culpa no chá de bebê dos outros. Que não lhes cobrem neto como se fosse boleto vencido. Mulher não deve maternidade a ninguém. Deve a si a vida que escolheu.
E se perguntarem, ela responde sem pedir desculpa: meu M é de mata, de mar, de mistério, de música, de metamorfose.
Minha maternidade é de ideias, de sonhos, de poesia, de livros, de viagens, de justiça, de empatia. Até mesmo de nada, se eu assim desejar.
Não há nenhum filho obrigatório, exceto o respeito por sua própria história e por suas próprias escolhas. A essas coisas, ela dá a luz todos os dias.
Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “Afeto não fere”: www.neipies.com/afeto-nao-fere/
Edição: A. R.












Mulher não deve maternidade a ninguém. Deve a si a vida que escolheu. (Pablo Morenno)