Olha para o calçado sujo, depois para a rua deserta de telas. Abre os braços, deixa o celular pesado no bolso e encara o aguaceiro. Irado!
Quando caminho pelas ruas e vejo a galera com o rosto colado na tela do celular, percebo que o isolamento virou endereço. É como se cada um de nós estivesse trancado na própria cratera, tentando equilibrar o chão de asfalto com as coisas que a gente inventa nas redes sociais.
O dia escorre pelo apartamento. Ele veste jaqueta jeans e um tênis branco, intacto. Vive sozinho, feito um Minotauro moderno em um labirinto de paredes de luz azul, moldadas para refletir apenas o que o algoritmo escolhe. Os amigos inventados na infância no quintal viraram avatares nas notificações. Rostos sem corpo desaparecem com um toque na tela. Evita garotas reais de mochila. Procura traços lapidados por filtros e cenários de hotéis caros que saltam no feed.
A campainha toca. Ele recebe a caixa comprada na internet. O entregador estende o papel do recibo e uma caneta. Seus dedos travam no movimento das curvas. Ele hesita, segura o plástico e copia as letras devagar, decifrando um alfabeto estrangeiro para resgatar o próprio nome.
No visor, o vídeo do influenciador de masculinidade dita regras de força. O algoritmo comanda o tom da voz. Ele quer ser mais homem, mas só precisa ser mais humano. Notícias sobre seca, fumaça no horizonte ou bombardeios passam direto. O polegar descarta o mundo. O movimento de subir a página imita uma escada rolante, uma escalada contínua, sem topo. É o castigo de Sísifo, empurrando a pedra do engajamento ladeira acima para ver o feed atualizar e a rocha rolar de volta ao ponto de partida. Mais um clique, mais um minuto, outra vida gasta no esforço de preencher um abismo.
Mais tarde, ele busca o movimento do shopping. Caminha pelos corredores climatizados de queixo baixo, atento à bateria que marca doze por cento. Falta o barro da trilha para sujar o calçado. Falta o nó-cego na corda da barraca, a linha esticada no rio. Falta o corpo no tablado do teatro, a voz unida na roda de violão, o trabalho voluntário sob a chuva.

Lá fora, o céu escurece rápido e a ventania causa estragos na cidade inteira. Protegido pelas vidraças, o rapaz não nota o tempo mudar. Um estalo ecoa do teto. Os refletores apagam. O shopping mergulha na penumbra dos geradores de emergência, mas a torre da operadora caiu. O retângulo digital nas mãos perde o sinal. A barra de dados móveis some, abrindo o vazio. No bolso, o metal esfria. Sem internet, a ilusão desmorona. O fio de Ariadne rompe.
Desorientado, vai até a saída e ganha a calçada do cruzamento. A tempestade continua. A enxurrada escura carrega o lixo direto para as bocas de lobo. Gotas grossas de chuva desabam do céu. A primeira gota bate na testa, escorre pelo nariz, alcança a boca. O vento frio atinge o peito, atravessando a jaqueta jeans. As luzes da padaria da esquina também se apagam. Carros reduzem a velocidade no escuro. Trovões reorganizam o mundo. O tênis branco afunda por inteiro na poça. A lama atinge as meias.
Olha para o calçado sujo, depois para a rua deserta de telas. Abre os braços, deixa o celular pesado no bolso e encara o aguaceiro. Irado!
Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site a crônica “Afeto não fere”: www.neipies.com/afeto-nao-fere/
Edição: A. R.











