E nós, para onde vamos?

64

Podemos saber qual o sentido NA vida, na nossa vida. Podemos ter criado um. Mas nunca saberemos o sentido DA vida.

Muitos escreveram que a vida de cada um seria uma jornada heroica: todos os dias, estaríamos a ultrapassar o limite entre o que já conhecemos e o que desconhecemos.

Alguns ultrapassaram limites tais que se tornaram heróis para todos nós, humanos. Lançaram-se no imenso e desconhecido oceano. No imenso e desconhecido cosmos.
Mas, para nós que não enfrentamos o mar e o cosmos, o desconhecido e o mistério estiveram e estão nos acompanhando no cotidiano.

“Acorda trabalhador, acorda!”; era a voz do locutor da emissora que, pelo meu rádio-relógio, me despertava para mais um de meus conhecidos/desconhecidos dias.

Enfim, não vou ficar enumerando o dia a dia de todos nós.
Em resumo, ao longo da vida, vamos conhecendo e fazendo o que precisamos fazer para sobreviver e para viver bem. Tentar viver bem, sendo mais preciso.

Vamos conhecendo um pouco mais de nós mesmos, sabendo quais as nossas habilidades, limitações… Nossas possibilidades, melhor dizendo.

Com as experiências boas e ruins que a vida nos proporciona, vamos “penetrando” mais e mais no mundo real. Conservamos, é verdade, a fantasia de que a vida não terminará. Se esta acabar, haverá outra, a eterna, aquela das religiões.

Mas há momentos em que nos percebemos mortais. E então, temos duas saídas: acreditar em vida após a morte ou não pensar – não pensar mesmo! – na morte, e só pensar na vida.

E seguir tentando viver bem. A propósito, viver bem depende de muitos fatores, entre eles o tripé: (1) estar sempre fazendo alguma coisa; (2) conviver com pessoas com as quais a gente se sente bem; (3) desejar algo.

No filme “Ikiru” (Viver), de Akiro Kurosawa, Watanabe, um homem que trabalhou como burocrata por trinta anos na prefeitura de Tóquio e está com uma doença terminal diz, em um bar, para um estranho: “Eu não posso morrer, pois não sei para que vivi durante todos esses anos”.

Watanabe passa a viver quando: (1) faz todos os contatos na prefeitura para conseguir verba para a reforma de uma pracinha com balanços e brinquedos; (2) convive com as crianças e seus pais; (3) cria um desejo: de que o local fique acolhedor.
Gosto de acrescentar um quarto (4) fator relacionado a uma pergunta sem resposta. Sim, não há graça em saber todas as respostas.

Podemos saber qual o sentido NA vida, na nossa vida. Podemos ter criado um. Mas nunca saberemos o sentido DA vida.

Sendo assim, felizmente, nunca saberemos para onde vamos. Aliás, o título de mais de uma canção é o que coloquei na crônica: “E nós, para onde vamos?”. Que bom que não sabemos. E que bom, de vez em quando que seja, se perguntar sem se obrigar a encontrar a resposta, ou melhor, sem querer resposta alguma: “E nós, para onde vamos?”

Autor: Jorge A. Salton. Também escreveu e publicou no site “Como é bom ouvir de  vez em quando que seja que nós também somos bons”: www.neipies.com/como-faz-bem-ouvir-de-vez-em-quando-que-seja-que-nos-tambem-somos-bons/

Edição: A. R.

DEIXE UMA RESPOSTA