A criança só deseja mesmo um tempo para viver a sua infância do seu jeito, sem relógios, sem cronômetros e sem agendas. Que toda a brincadeira dure o tempo da criança poder sentir que ser criança é para vida inteira e que ela não precisa correr para se tornar grande como costumamos dizer-lhe.
A mãe diz “Para dentro, dormir!”, o menino responde “Mãe, só mais um pouquinho!”. E neste pouquinho pedido pelo menino o tempo corre e a mãe fica brava. Quantos pais já não passaram por este tipo de situação? O que fazer diante do tempo de uma criança?
Sim, deixemos a criança viver o tempo dela, ou seja, o tempo de ser criança e não ter hora marcada para tantas tarefas, compromissos e eventos. Que cada criança possa junto com seus pais ou responsáveis ter o direito de escolher a hora de ir ao dentista, a hora de tomar banho e outros horários que possam ser combinados.
Nós, adultos, somos apressados demais e queremos que as crianças sejam iguais a gente, nos acompanhando na correria do dia a dia, das reuniões intermináveis, do trabalho cansativo, do pouco sono. Sabe qual é o maior castigo para uma criança nos dias de hoje? É determinar o seu tempo para brincar.
Vejo muitos pais estabelecerem um tempo para que suas crianças brinquem pelas ruas, corram, pulem e se divirtam. Fico triste quando a mãe ameaça bater no filho porque já está tarde e ela quer dormir, mas a criança não tem pressa nenhuma, ela não está com um pingo de sono. E entra em casa chorando enquanto seus amiguinhos ainda podem desfrutar de mais um tempinho para a brincadeira.
Também obrigamos as crianças a acordarem cedinho para ir à escola, e esquecemos que há muitas que são dorminhocas. Não pensamos na possibilidade da criança ter tido uma noite mal dormida ou mesmo que ela ainda não dormiu seu soninho completo e já estamos as levando para escola ainda dormindo nos nossos ombros. Como é triste ser criança num mundo onde o tempo é quem dá as ordens!
Marcamos o horário do dentista ou do pediatra bem na hora que a criança tinha combinado ir salvar seu ursinho do lobo mau, e acabamos interrompendo a sua aventura de ser herói ou heroína, porque não combinamos com ela o horário que desejariam sair de casa. Tudo na infância parece ser determinado por nós, adultos inconsequentes.
A criança tem o poder de escolher o tempo de ficar embaixo do chuveiro, de se alimentar com paciência ou correndo, de fazer uma escolha ou até mesmo de querer adiantar o final da historinha que lhe contamos por que ela está ansiosa para saber quem vai sair vitorioso.
E por falar em histórias, chamo a atenção dos contadores de histórias e professores para que não levem tanto tempo nas suas contações de histórias, pois as crianças não ficam presas a uma narrativa oral por mais linda que ela seja, a criança gosta de movimentar-se e não de ficar paradinha por tanto tempo.
Há criança que por qualquer coisa se distrai e acaba perdendo a concentração, por isso as histórias que lhes contamos devem ser rápidas, educativas e com um final feliz já que o mundo está tão cheio de coisas tristes.
O tempo da criança é aquele onde ela balança os pezinhos na sala do psicólogo, sentada numa cadeira a cantarolar uma canção para distrair a sua ansiedade. Sim, temos muitas crianças ansiosas na atualidade devido a tantos estímulos desnecessários a sua pequena idade que lhes damos como uma forma de passatempo.
E o tempo mais bonito da criança é o de sentir-se realmente uma criança, a ficar quietinha olhando uma formiga carregar uma folhinha nas costas, a querer abrir apressada o presente recebido, a ficar muito tempo ao lado dos avós.

Saiba, querido leitor, que as crianças têm dificuldades em assimilar o nosso tempo porque os delas são diferentes dos nossos. Elas ainda não conseguiram compreender o motivo de ter horário para tudo na vida. Elas só querem poder brincar o dia todo até se cansarem e ir dormir para no dia seguinte brincar novamente.
Os pais costumam fazer festas de aniversários para suas crianças em dias e horários que talvez elas nem gostem, mas são obrigadas a participarem para não deixarem tristes nós, adultos chatos. Tem criança que dorme cedo, tem criança que dorme tarde, tem criança que custa a dormir. E daí? É o tempo delas, e temos que respeitar.
Nesta coisa de tempo não respeitamos a autonomia da criança e estabelecemos horários para tudo nas suas vidas. Nunca nos preocupamos se o horário da natação, do cinema, do museu ou até mesmo o turno de estudos na escola está bom para a criança. Matriculamos as nossas crianças nas escolas sem lhes darmos o direito de escolherem.
A criança só deseja mesmo um tempo para viver a sua infância do seu jeito, sem relógios, sem cronômetros e sem agendas. Que toda a brincadeira dure o tempo da criança poder sentir que ser criança é para vida inteira e que ela não precisa correr para se tornar grande como costumamos dizer-lhe.
Talvez um dos tempos mais bonitos para a criança é na noite de Natal quando ela espera, ansiosamente, pela meia-noite, a hora que o Papai Noel chegará trazendo o presente tão esperado. Infelizmente, muitas vezes atropelamos esse tempo mandando as crianças para cama mais cedo e tirando delas o encantamento, quando não lhes dizemos que Papai Noel não existe, é invenção do comércio. Muitos de nós não somos mais crianças por fora e muito menos por dentro.
Deixo você, querido leitor, com o poema “O relógio” de Vinicius de Moraes onde ele nos diz nos seus versos lindos “Passa, tempo, tic-tac. // Tic-tac, passa, hora. // Chega logo, tic-tac. // Tic-tac, e vai-te embora. // Passa, tempo. // Bem depressa. // Não atrasa.
Não demora.” E assim, no tic-tac do tempo da criança esperamos o momento certo da borboleta sair do casulo.
Autora: Rosangela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A criança também tem segredos que devem ser respeitados”: www.neipies.com/a-crianca-tambem-tem-segredos-que-devem-ser-respeitados/
Edição: A. R.











