A voz da criança: o direito de falar de si e de fazer escolhas

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Apesar das diferenças de formação entre as crianças pobres e ricas, o que sempre aconteceu e acontece até os dias de hoje é que elas nem sempre foram ouvidas, ninguém nunca se preocupou em consultá-las antes de tomar uma decisão sobre elas, as suas dores e medos são muitas vezes ignorados, o que falam não é levado a sério pelos pais ou responsáveis.

No século XVIII, entre 1700 e 1799, a maneira de compreender a infância não era como a de hoje em que pais, pedagogos e psicólogos estão sempre atentos aos anseios e traumas das crianças que vivem presas às telas ou são submetidas a vários estímulos sensoriais que podem sobrecarregar seus corpos e suas emoções.

Em alguns lugares da Europa, as crianças eram vistas como seres em formação que precisavam de uma educação virtuosa, enquanto as crianças mais pobres trabalhavam junto com os pais e eram tratadas com o rigor de que precisavam ser fortes e corajosas.

Algumas crianças ricas já recebiam cuidados valiosos para a formação do corpo e do espírito naquela época e estudavam outros idiomas, como o grego, o latim além de aritmética, religião, artes, filosofia. Existia um cuidado entre os pais ricos com os seus filhos. Por outro lado, as crianças de pais pobres muitas vezes precisavam cuidar da casa, das tarefas no campo ou enfrentar longas jornadas de trabalhos em oficinas ou no comércio.

Nos dois casos, atualmente, não houve muitas mudanças apesar do trabalho infantil ser proibido em vários países ainda vemos crianças trabalhando nas ruas ou até mesmo dentro de casa. Continuamos vendo a educação das crianças se diferenciar entre as pessoas mais ricas e as mais pobres. São as desigualdades sociais cada vez maiores se apresentando num lugar onde não poderia existir.

Apesar das diferenças de formação entre as crianças pobres e ricas, o que sempre aconteceu e acontece até os dias de hoje é que elas nem sempre foram ouvidas, ninguém nunca se preocupou em consultá-las antes de tomar uma decisão sobre elas, as suas dores e medos são muitas vezes ignorados, o que falam não é levado a sério pelos pais ou responsáveis.

Chegou a hora de dar voz às nossas crianças. Elas são sujeitos políticos e sociais, assim como a gente tem o direito de opinar, de criticar, de perguntar e de falar o que sentem e acham. Acabou esse tempo de que a criança deve apenas obedecer ordens, brincar e estudar. Cada infância deve ser compreendida em sua singularidade, considerando as diferentes condições sociais e as necessidades da criança.

Geralmente, tratamos as crianças como se fossem seres sem pensamento próprio ao nosso redor. As matriculamos nas escolas onde queremos, compramos roupas do jeito que queremos, as levamos para passear onde queremos e nunca paramos para perguntar-lhes o que gostariam de verdade, se o que fazemos está sendo bom ou não para elas. Muitas vezes tornamo-nos os grandes “ditadores” da vida das crianças.

Esquecemos que elas precisam ser ouvidas para se sentirem compreendidas num mundo tão cheio de estímulos que, muitas vezes, rouba a sua curiosidade e criatividade. A criança tem o direito de escolher a roupa que quer vestir, reivindicar mais espaço na casa, dizer que não, e está tudo bem para nós, adultos. Por que uma criança não pode dizer não? Por que uma criança tem sempre que nos obedecer? Ora, ora, ela tem sentimentos e voz. Precisa ser ouvida antes de silenciar aquilo que sente como fazemos muitos de nós na idade adulta nos nossos trabalhos ou relacionamentos tóxicos.

A criança, no seu mundo imaginário, é um ser social, político e cultural que dá ordens aos seus personagens, que administra cidades, que resolve problemas e por que não pode também nos ajudar a tomar decisões no mundo real? Chegou a hora de pararmos de tratar as crianças como seres que não pensam por si mesmos, que não sabem fazer escolhas ou que devem aceitar tudo o que fazemos para elas como se isso fosse grandioso.

Quantas vezes você já parou para conversar com a sua criança sobre economia, política, cultura ou até mesmo contar um pouco da sua vida de adulto para ela conhecer outros mundos? Toda criança deve estar bem-informada não diria do mundo dos adultos, mas do que se passa ao seu redor. Costumamos nas nossas conversas dizer às crianças “isso é coisa para adultos” e mandá-las brincar como se elas não tivessem autonomia para dirigirem as suas próprias vidas.

No filme “Esqueceram de mim”, o personagem Kevim é esquecido em casa em plena noite de Natal e precisa tomar decisões importantes para salvar a sua casa e a si mesmo dos perigos de dois bandidos.

Ele tem ideias fantásticas para não somente se proteger, mas proteger toda a casa onde mora. É uma criança que vai às compras, que conversa com adultos e passa uma noite de Natal sozinha brincando e fazendo a sua própria ceia natalina. Ele, por mais que sinta falta da sua grande família, consegue vencer os desafios desse dia sozinho em casa porque é esperto e demonstra capacidade de tomar decisões.

As relações de poder entre as crianças e os adultos revelam uma sociedade “estranha” onde as primeiras devem sempre aceitar tudo o que queremos para elas como se fôssemos os donos da verdade e nunca serem ouvidas das suas vontades, sentimentos e escolhas. Estamos construindo uma sociedade que quer a toda hora dizer preocupar-se com as infâncias quando, na verdade, não dá voz para elas.

Existe uma diferença muito grande entre ouvir a voz da criança e realmente aceitar o que ela nos disse. Podemos parecer bonzinhos e ouvir tudo o que ela nos diz pensando que vamos enganá-la ou que logo elas esquecerão do que disseram, mas isso chama-se calar a voz de quem pede para ser ouvido a todo instante.

Se a criança não quer ir à escola e chora ela precisa ser ouvida com atenção e perguntar seu motivo, muitas vezes pode não ser somente “preguiça”, mas algo que está acontecendo na escola e não sabemos. Cabe aos pais poder argumentar sobre a importância de ir à escola com jeito e com o cuidado que toda criança precisa. As crianças são conhecidas por nos fazerem muitas perguntas, porém nunca acontece o contrário: quantas vezes no dia fazemos perguntas às nossas crianças? Quantas vezes ouvimos com atenção as suas respostas?  Fica um pouco de descuido onde a criança não é ouvida.

Se as crianças são seres sociais com deveres e direitos, por que muitas vezes não tomam parte nas decisões familiares? É importante que a criança se posicione e diga o que pensa, principalmente quando o assunto em questão pode afetá-la de alguma forma. Toda criança tem algo a dizer sobre o que menos esperamos que elas saibam, observem, escutem ou simplesmente percebam antes de nós.

A escola e a família têm um papel importante na formação da criança quando oferecem para ela o direito de participar e não apenas de ser obediente. Participar das decisões que envolvem mudanças na sua vida escolar, combinar regras, escolher o horário de estudar, poder dizer o que pensa sobre alguma atividade de sala de aula, sentar-se no lugar que escolher se for possível.

São essas pequeninas participações das crianças em suas próprias vidas que vão formando um sujeito social que se adapta logo cedo a conviver numa sociedade contemporânea cheia de compromissos e regras que devemos obedecer a partir da infância até os nossos longos anos de vida.

No belo poema de Ruth Rocha “O Direito das Crianças” encontramos tudo isso que disse acima de uma maneira poética grandiosa em seus versinhos “Direito de perguntar… // Ter alguém pra responder. // A criança tem direito // De querer tudo saber.”

Que possamos dar voz às nossas crianças não as fazendo submissas aos nossos desejos, mas com autonomia desde cedo para tomarem decisão e aprenderem a diferenciar o bem do mal, o feio do bonito, o certo do errado e por aí vai.

  Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Dê colo a uma criança; não um aparelho celular”: www.neipies.com/de-colo-a-sua-crianca-e-nao-um-aparelho-celular/

Edição: A. R.

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