A criança também tem segredos que devem ser respeitados

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A criança tem o direito de guardar seus segredos? Você é daqueles pais, professores ou responsáveis que quer saber de tudo o que a sua criança pensa, brinca, local onde esconde seus brinquedos, o que sente e outras tantas coisas do mundo dela?

A criança tem o direito de guardar seus segredos? Leitor querido, o que me diz desta pergunta. Você é daqueles pais, professores ou responsáveis que quer saber de tudo o que a sua criança pensa, brinca, local onde esconde seus brinquedos, o que sente e outras tantas coisas do mundo dela? Se você é assim, pare um pouco para ler este meu pequeno ensaio. Prometo que hoje não vou me alongar. É um assunto novo para mim e estou no início dos meus estudos.

Todos nós temos segredos. As crianças também têm os delas e precisamos respeitá-los. É claro que mantendo o cuidado, a responsabilidade, o afeto, a segurança e a proteção cuidadosa e respeitosa.

O que não podemos e não devemos nunca fazer é invadir a privacidade e a intimidade das nossas crianças garantidas por Lei. É coisa que frustra e dá tristeza ter a vida íntima exposta. Toda criança precisa ter seu cantinho reservado na casa onde possa esconder suas coisinhas sem que ninguém saiba. Essas é uma das coisas que quero falar dentre outras que acho importante.

Antes de começarmos falando propriamente dos segredos das crianças quero fazer vocês rirem um pouco sobre os segredos familiares mais “cabeludos” que as crianças vez ou outra costumam revelar nos eventos públicos, festas e outros locais com a inocência de um ser que não sabe direito o que está acontecendo ao seu redor e conta tudo o que viu e ouviu numa pureza encantadora ou preocupante de quem ouve, dependendo do assunto.

A outra coisa que acho por deveras importante é respeitarmos o que as crianças conversam com seus amigos imaginários. Não devemos ficar fazendo uma espécie de interrogatório policial com as crianças pensando que elas estão inseguras nos seus mundinhos, pois elas sabem se defender no mundo do faz de conta com seus heróis, suas histórias e suas aventuras.

Entre as crianças também existem segredos que devem ser respeitados. Elas confiam mais umas nas outras do que em nós adultos porque pensam, agem e falam com a mesma simbologia. As crianças que aprendem a guardar os segredos dos amiguinhos vão crescer e farão laços de amizade confiáveis. É preciso respeitar esse espaço da criança.

Se a criança cochicha para outra uma coisinha deixemos as duas com seus segredinhos. Elas se entendem e se aceitam nos seus pequenos mundos de normas e regras que também precisam ser obedecidas. Não vale contar o que foi cochichado para um adulto. E não insista em saber. Ao contrário respeite o motivo da criança não ter expressado em voz alta a sua fala.

Existem muitos segredos entre as crianças e os animais de estimação. Quanto mais amarem os seus bichinhos mais passarão a confiar neles e até mesmo porque sabem que só elas os compreendem nas suas linguagens de bichos, que nenhum adulto saberá conversar com um bichinho e descobrir o segredo revelado a ele. As crianças também costumam acreditar que os bichos dividem seus segredos com elas e isso ensina a compartilhar sabedoria, amizade e afeto.

Também nunca revelar em público um segredo que a criança não tem como esconder de você, principalmente quando ela faz xixi na cama ou cocô na roupinha. Se ela não disser para ninguém é porque não quer sentir “vergonha”, não quer que ninguém saiba que já crescidinha está fazendo suas necessidades biológicas fora do lugar apropriado. Este é um assunto que deve ser conversado com muito respeito e cuidado. Sempre que a criança estiver disposta para falar sobre isso e não a invasão da sua intimidade com falas de castigo ou coisa parecida.

Claro que as crianças devem ser protegidas de estranhos nas telas azuis ou até mesmo fora de casa. Todo cuidado é pouco, mas querer saber tudo o que a criança pensa e sente sobre o mundo e as pessoas ao seu redor pode ser um pouco invasivo e colocá-la numa reflexão de que ninguém respeita o seu jeitinho de ser e sua vontade de não querer contar nada para ninguém. Eu falo dos segredos inocentes próprios da infância, não dos que causam insegurança e preocupação.

Não é que a criança não confie na gente, adultos que tudo querem saber, mas é uma questão de autonomia, de respeito a si próprio, de autocuidado da criança ter seus segredos guardados. Se a criança esconde um brinquedo num canto e você acha, não quebre o encanto dizendo que descobriu o lugar onde ela guarda seus brinquedos. A magia e o encanto são algo preciosos na infância.

Nós, adultos, acreditamos ser legítimo conhecer tudo o que as crianças fazem, como agem, seus interesses e desinteresses, seus medos, suas raivas, seu contato com o próprio corpo, seus desejos e até mesmo seus amiguinhos. Fazemos isso como forma de proteção, mas até que ponto podemos respeitar os segredos da nossa criança?

Deixar que ela decida o momento de contar o que acha importante que saibamos. A proteção demasiada muitas vezes se torna em invasão à intimidade.

Quando amamos nossas crianças sabemos muito bem como elas agem, com quem falam e fazem amizades. Não é preciso passarmos o dia todo as enchendo de perguntas sobre o que estão pensando ou sentindo. Temos hoje ferramentas tecnológicas que protegem as crianças contra os perigos dos aparelhos celulares, podemos rastrear os sites que as nossas crianças visitaram. Há formas de respeitarmos os segredos das crianças, e isso é preciso conhecer para garantir que seus direitos não sejam violados.

Os direitos assegurados às crianças no Estatuto da Criança e do Adolescente nos oferece mais segurança e cuidado para com elas. Eu não estou falando de deixamos as crianças ao Deus dará, mas respeitamos seus pequenos mundos, seus amiguinhos e seus personagens imaginários. Aceitar que a criança poderá ficar tranquila que ninguém vai rir do seu segredo, mesmo aquilo que já sabemos e ficamos em silêncio só para não quebrar o encanto.

A criança muitas vezes deseja um brinquedo que ela sabe os pais não podem comprar, fica com aquilo guardado dentro de si. Um dia, quando menos esperar ela poderá dizer que sempre teve vontade de ganhar aquele brinquedo, mas nunca quis falar porque achou ser difícil para o papai ou a mamãe comprá-lo.

É coisa de criança também guardar segredos. Faz parte da infância.

Difícil para alguns de nós compreendemos se levarmos para a questão da proteção e da segurança excessivas, mas será aceito e concordado com quem ama a infância e a respeita como autônoma porque até para ser feliz nesta vida é preciso tornar-se criança outra vez.

Termino hoje com os versos do lindo poeta português Miguel Torga intitulado “Sei um ninho” que nos diz nos seus versos “Sei um ninho. // E o ninho tem um ovo. // E o ovo, redondinho, // Tem lá dentro um passarinho // Novo. // Mas escusam de me atentar: // Nem o tiro, nem o ensino. // Quero ser um bom menino,
E guardar // Este segredo comigo // E ter depois um amigo // Que faça o pino // A voar…”.

Portanto, se uma criança sabe onde fica um ninho e não quer lhe contar respeite o segredo até ela revelar ou o passarinho crescido começar a voar.

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A voz da criançao direito de falar de si e de fazer escolhas”: www.neipies.com/a-voz-da-crianca-o-direito-de-falar-de-si-e-de-fazer-escolhas/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Termino hoje com os versos do lindo poeta português Miguel Torga intitulado “Sei um ninho” que nos diz nos seus versos “Sei um ninho. // E o ninho tem um ovo. // E o ovo, redondinho, // Tem lá dentro um passarinho // Novo. // Mas escusam de me atentar: // Nem o tiro, nem o ensino. // Quero ser um bom menino,
    E guardar // Este segredo comigo // E ter depois um amigo // Que faça o pino // A voar…”.

    Portanto, se uma criança sabe onde fica um ninho e não quer lhe contar respeite o segredo até ela revelar ou o passarinho crescido começar a voar.

    Autora: Rosângela Trajano

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