A criança quando brinca ela estabelece relações de conflitos, de causalidade, de encontros e desencontros com o seu eu interior e os seus outros eus que surgem do mundo imaginário reflexo daquilo que recebe do mundo real.
As crianças estão brincando de amarelinha e uma delas começa a indagar quais são as regras da brincadeira? Todas explicam a mesma coisa porque as combinaram antes de começar a brincadeira. Há um consenso entre o grupo e quem entra na brincadeira passa a conhecer e aceitar essas regras, mas também pode sair da brincadeira quando quiser. Eis o mundo do brincar na sociologia da infância.
Sua criança brinca de casinha com os bonecos, de riscar o chão com um graveto, de pular e brincar junto com os demais amiguinhos ou até mesmo de imaginar situações e papéis para si e para os seus brinquedos os mais diversos, sejam eles: médicos, professores, advogados, garis, donas de casa etc. A criança simplesmente reinventa do seu jeito outro mundo transformando a realidade numa linda brincadeira.
Neste momento, em que os bonecos ganham uma casa para morar, em que o gato e o cachorro passam a dividir o mesmo espaço, pode ser uma cabaninha feita em cima da cama com um lençol ou feita no quintal de casa, não importa, o que a sua criança está mostrando é que ela já tem autonomia para elaborar regras e normas, pois a sua comunidade se constitui a partir do que ela recebe do mundo real e reinventa o seu lugar no mundo conforme percebe a vida que lhe mostramos.
Para um brincar pensando na sociologia da infância podemos dizer que a criança não brinca somente para se distrair, para passar o tempo ou não chorar, quando ela brinca também está criando um espaço seu onde ela tem autonomia para fazer o que desejar.

É ela quem institui a cultura, a religião, a educação e outras instituições para o seu mundo; é ela também quem dá papéis de autoridade ou não aos seus bonecos, ursinhos, carrinhos e até mesmo bolinhas de gude.
O brincar na infância exige da sociologia um olhar com mais cuidado, pois não é apenas uma necessidade de ensinar a criança a se acalmar diante de um mundo cheio de estímulos e pressa, mas também esse brincar oferecer a oportunidade da criança reinventar uma sociedade para si onde possa estabelecer regras e normas que ela gostaria que o mundo real lhe oferecesse, assumir papéis que tem medo de viver no mundo real. Quantas vezes não as dizemos “Você tem que se comportar assim porque este é o jeito certo.”? Se nem sabemos direito o que é o certo ou o errado na nossa comunidade e sociedade.
A criança quando brinca ela estabelece relações de conflitos, de causalidade, de encontros e desencontros com o seu eu interior e os seus outros eus que surgem do mundo imaginário reflexo daquilo que recebe do mundo real. Ela transforma, corrige do seu jeito o que percebe como estranho para si. Respeitar o momento do brincar da criança e até mesmo tentar compreender este brincar é fundamental para ajudarmos na sua formação social, política e cultural.
O brincar não é só um exercício para o corpo, um passar de tempo, um divertir-se etc, é muito mais profundo, quando a criança brinca com outras crianças aprende a respeitar, a cuidar, passa a conhecer limites, regras, normas. É uma experiência vivida no presente. Viver em sociedade exige reconhecer as necessidades de si e os alheios, e as crianças aprendem isso brincando.
Nas brincadeiras as regras são modificadas, o fim de uma história pode ser benéfico para toda a sociedade. A criança pode tentar resolver as suas dificuldades conhecendo as dos amiguinhos, compartilhando brinquedos, reduzindo desigualdades sociais, estabelecer relações com quem tem afinidade e se comprometer em aprender a cuidar do seu próprio corpo.
Brincar é simplesmente estar diante do coletivo, não porque toda brincadeira seja gostosa para as crianças, algumas têm o direito e autonomia de não gostarem de uma ou outra brincadeira, mas o brincar traz aproximação e conflitos, ensinando desde pequeninos o quanto é difícil a vida em sociedade. Temos que respeitar uns aos outros e as regras que estabelecem a boa convivência entre as pessoas. Imaginemos aquela criança dona da bola que a pega e para a brincadeira só porque lhe causaram raiva. Essa criança ainda está aprendendo a viver em uma sociedade cheia de diferenças.
Porém, nem todas as crianças conseguem passar a infância brincando. Algumas vivem realidades difíceis sejam por guerras, doenças, fome e tantos outros problemas. Algumas vivem em espaços com quintais, campos, parques e outras vivem em segurança presas a muros, portões e grades. Também influencia bastante no brincar aquelas que vivem grandes desigualdades sociais, insegurança, trabalho infantil e abusos afetivos. Todavia, o brincar aparece muitas vezes como uma fuga da realidade e uma reinvenção de um mundo melhor onde a criança pode viver do seu jeito respeitando a si própria.
É no brincar que passamos a conhecer as regras interiores do mundo das crianças, logo descobrimos traumas, medos, esquecimentos, lembranças que podem estar ou não doendo dentro delas, assim como uma certa dificuldade para lidar com limites.
O brincar conduz a criança para uma vida em sociedade onde aprendizagens são compreendidas de uma forma mais respeitosa ao seu pequeno mundo onde tudo é novidade.
Por isso, devemos permitir e deixar sempre que a criança brinque consigo e com os amiguinhos para aprender a respeitar não somente normas e regras, mas para reconhecer que o mundo real também faz parte do seu viver e assim, saber o momento de fazer a birra ou receber um não dos pais e responsáveis. Mesmo a criancinha precisa conhecer que no mundo real há regras e normas que precisam ser aceitas quando nem sempre conseguimos entender para que servem.
Eu fico hoje com a poeta Cecília Meireles no poema “Ou isto ou aquilo em versos que dizem “Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… // e vivo escolhendo o dia inteiro! // Não sei se brinco, não sei se estudo, // se saio correndo ou fico tranquilo.”
Sabendo que a criança que aprende a fazer escolhas e não pode ter tudo ao mesmo tempo está no caminho da autonomia. Ou você tem a mim ou tem a dias sem poesia de leitura. Escolha, querido leitor!
Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A voz da criança e o direito de falar de si e de fazer escolhas”: www.neipies.com/a-voz-da-crianca-o-direito-de-falar-de-si-e-de-fazer-escolhas/
Edição: A. R.












Eu fico hoje com a poeta Cecília Meireles no poema “Ou isto ou aquilo em versos que dizem “Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… // e vivo escolhendo o dia inteiro! // Não sei se brinco, não sei se estudo, // se saio correndo ou fico tranquilo.”
Sabendo que a criança que aprende a fazer escolhas e não pode ter tudo ao mesmo tempo está no caminho da autonomia. Ou você tem a mim ou tem a dias sem poesia de leitura. Escolha, querido leitor!
Autora: Rosângela Trajano