E a corrupção?

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Não adianta continuar alimentando a rinha entre o “cidadão de bem” e o “malvadão indigno”. Essa gritaria, muitas vezes, não passa de propaganda eleitoral, capaz de produzir mais divisão e violência sem resolver os problemas de quem trabalha e vive neste país.

(Por Paulo Reguly – Professor no município de Caxias do Sul)

A corrupção é um dos temas recorrentes nos períodos eleitorais. Está na mesa do almoço em família, na conversa entre amigos, na roda de chimarrão. Costumamos dizer que precisamos votar em homens e mulheres dignos, honrados, capazes de resistir ao suborno, à propina, ao aliciamento e à podridão que atravessa a sociedade e, por consequência, a política.

Criamos, assim, uma oposição entre “nós e eles”, “dignos e indignos”, “cidadãos de bem e corruptos”. Mas, talvez, estejamos olhando para o lugar errado.

No fundo, o que importa às pessoas é a concretude da vida: escola para as crianças, médico na UBS, trabalho para os adultos, segurança nas ruas, feira, show, dança, música e teatro. Afinal, não queremos apenas comida; queremos também diversão e arte. Há vida para além do trabalho.

Por isso, é preciso compreender a materialidade da corrupção na política e investigar de onde ela vem. Uma breve pesquisa sobre o Parlamento Nacional mostra que, dos 594 parlamentares, cerca de 270 são empresários ou possuem vínculos com o setor privado, enquanto outros 160 são grandes produtores rurais ou mantêm atividades relacionadas aos interesses desse setor.

Esse recorte pode ser reproduzido nas assembleias legislativas, câmaras municipais e no Executivo. A pergunta fundamental é: quais interesses estão por trás de cada candidato, vereador, deputado ou senador? Para nos aproximarmos de uma resposta, precisamos conhecer sua trajetória e, sobretudo, como votou ao longo do mandato: a favor de quais projetos? Contra quais? É nesse exercício de conhecer os atos concretos que podemos encontrar caminhos para enfrentar a corrupção.

Não adianta continuar alimentando a rinha entre o “cidadão de bem” e o “malvadão indigno”. Essa gritaria, muitas vezes, não passa de propaganda eleitoral, capaz de produzir mais divisão e violência sem resolver os problemas de quem trabalha e vive neste país.

Precisamos olhar para propostas concretas: geração de trabalho e renda, combate ao dinheiro das facções, uma política fiscal em que os mais ricos contribuam proporcionalmente mais que os pobres. Caso contrário, continuaremos falando de corrupção, sem resolvê-la e sem enfrentar aquilo que realmente emperra o desenvolvimento do país — e poderemos, mais uma vez, caminhar para a condição de colônia, com uma metrópole que fala inglês para a felicidade de quem tem casa em Miami”.

 Autor: Paulo Reguly – Professor no município de Caxias do Sul

Edição: A. R.

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