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A República de Platão

Num mundo invadido por fake news, por fanatismos de todos os gêneros, por autoritarismos que se manifestam de várias formas, a leitura e o estudo da República de Platão pode se apresentar com um bom antídoto para evitar o império da opinião que tem causado tantos estragos na condução dos rumos da sociedade e uma ameaça ao processo civilizacional.

Platão foi um dos grandes filósofos da humanidade que influenciou fortemente os pensadores ocidentais da cristandade e dos tempos modernos. Sua vasta obra continua sendo estudada não só no campo da filosofia, mas se estende para outras áreas do conhecimento como literatura, psicanálise, direito, religião, artes dentre outras.

Dentre as diversas obras escritas por Platão, uma das mais estudadas e conhecidas é A República. É nesta obra que Platão trata de um conjunto de temas do seu pensamento, dentre os quais destacam-se o papel que o filósofo deve ocupar na cidade ideal, quais são as ciências necessária para a formação do filósofo, a relação entre filosofia e política, a distinção entre opinião e ciência.

A República é composta de dez livros e um dos mais lidos e conhecidos é o livro VII, pois é nele que didaticamente o filósofo grego apresenta a alegoria da caverna e seus amplos e complexos significados. É nesta alegoria que Platão faz uma distinção entre mundo inteligível e mundo sensível, entre ciência e opinião, entre mundo das aparências e mundo das essências.

Para Platão, as ideias ou essências são percebidas unicamente pela inteligência, pelo esforço do pensamento dispensando o testemunho dos sentidos e o recurso da experiência sensível. As opiniões, por sua vez, são múltiplas e contraditórias, não possuem precisão e estabilidade, pois são fruto da experiência sensível de cada um.

A título de exemplo, podemos pegar a beleza: quando alguém emite uma opinião sobre a beleza de uma coisa (uma paisagem, um obra de arte, um rosto de homem ou de mulher), emite tal opinião porque está sensível a certos aspectos que lhe agrada e por isso diz que algo é belo. Mas o que agrada a um, pode desagradar o outro que talvez seja sensível a outros aspectos. Se a opinião é parcial, incompleta, superficial e mutável, o que hoje lhe agrada, pode desagradar em outro momento; o que agrada para uns, pode desagradar a outros.

O mesmo pode ocorrer com a justiça: uma pessoa pode acreditar estar elaborando uma opinião livre, verdadeira, honesta, pessoal sobre alguma coisa; mas na verdade, pode estar apenas baseando-se numa impressão passional sobre uma determinada situação, ou seguindo o opinião da maioria.

Em tempos de redes sociais e fake news, alguém pode estar emitindo juízos de valor sobre algo falso, acreditando estar emitindo um julgamento justo e verdadeiro sobre alguém ou sobre um acontecimento.

Para Platão, tanto a Beleza quanto a Justiça não podem estar baseadas na opinião, pois dificilmente compreenderíamos o que é Beleza ou Justiça, se nossos juízos estiverem baseados na nossa forma sensível de compreender o que é o Belo e o Justo.

Os sentidos, para Platão, constituem obstáculos ao conhecimento verdadeiro das coisas, pois retêm a compreensão no estágio das opiniões parciais e precárias, fazendo com que se torne verdadeiro o que nada mais é do que a aparência fragmentada e mutável da realidade.

Tanto a Beleza quanto a Justiça não podem ser reduzidas a opinião, pois cairíamos num relativismo infinito e dificilmente teríamos condições de compreender tanto uma quanto a outra.

Há certamente um valor pedagógico inestimável na forma como Platão coloca o problema da relação entre opinião e ciência, pois nos ajuda a perceber que não se pode basear a educação da nossas futuras gerações tendo por fundamento a opinião.

Num mundo invadido por fake news, por fanatismos de todos os gêneros, por autoritarismos que se manifestam de várias formas, a leitura e o estudo da República de Platão pode se apresentar com um bom antídoto para evitar o império da opinião que tem causado tantos estragos na condução dos rumos da sociedade e uma ameaça ao processo civilizacional.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

O eterno (e fracassado) desejo de mudar o outro

Quando pretendemos que ocorra uma mudança em alguém, melhor seria descobrir primeiro o que precisa ser modificado em nós, pois a insatisfação com o outro pode ser uma projeção de nossa própria infelicidade.

É clássica a expressão de que ninguém muda ninguém, pois toda a mudança que se possa entender por útil e desejada acontece somente numa direção: de dentro para fora. Quando pretendemos que ocorra uma mudança em alguém, melhor seria descobrir primeiro o que precisa ser modificado em nós, pois a insatisfação com o outro pode ser uma projeção de nossa própria infelicidade.

Temos tendência a apontarmos os defeitos estendendo o dedo para fora como quem diz “Está lá, não está vendo?”. Nosso inconsciente é pródigo nisto. Na tentativa de defender o ego, ele lança mão de variados mecanismos de defesa que mais servem para aliviar uma tensão, diminuir uma ansiedade, do que propriamente defender-nos.

Somente nos daremos conta da realidade quando endereçarmos a busca ao nosso interior, um trabalho de autodescobrimento que resulte em autoconhecimento, e consequente crescimento. 

Enquanto o olhar ficar voltado para o outro, é lá que pensaremos estar o problema.

O sociólogo Zygmunt Bauman ensina que uma das tantas dificuldades nos relacionamentos é aquela que se dá por fracassos na comunicação, daí surgindo o comportamento pervertido de tentar modificar o outro.

As queixas das relações entre casais que são faladas (quando não, choradas) diariamente nas sessões de psicoterapia, não ganham a verdadeira importância no cotidiano, tanto que o senso comum criou – e abreviou simplificando – o termo “De Erre” para a complexa discussão da relação.

Discutir, no sentido do termo debater (e não brigar) é a única fórmula para o entendimento e a solução de problemas conjugais. E se a discussão traz bons resultados é porque o casal chega à conscientização de que o crescimento deve ser mútuo, e isto implica necessariamente em mudanças de ambas as partes.

Dito isto, vem a pergunta: Como a psicoterapia pode auxiliar para que um relacionamento dê certo e valha o convívio quando a sessão não é feita pelo casal, mas sim, individualmente? Simples, pois para que haja vontade em mudar é imprescindível persistência, paciência e autoconfiança, e quando um integrante do casal muda, muda o outro. 

Avalie o quanto você dispõe destes atributos e quanto os utiliza no seu dia a dia olhando para si. Com o apoio psicoterápico, estas qualidades necessárias para melhorar o relacionamento afetivo também, se bem empregadas, servirão para seu crescimento pessoal e para maturidade psicológica, fortalecendo-o ante os desgastes da vida.

Autor: César Augusto Ribeiro de Oliveira

Não é errado a criança sentir raiva

A raiva é uma emoção necessária ao desenvolvimento da criança que precisa expressar o que sente e não fingir que tudo está bem quando ela própria não sabe como lidar com certas emoções que a frustra e causa medo.

É com alegria que trago o nosso amado poeta português Fernando Pessoa para abrilhantar o início deste meu texto com os seus versos:

 “A criança que fui chora na estrada. / Deixei-a ali quando vim ser quem sou. / Mas hoje, vendo que o que sou é nada, / Quero ir buscar quem fui onde ficou.”

Que nenhuma criança seja largada em uma estrada ou cantinho de castigo. É preciso respeitar o direito de ser criança.

O ser humano é feito de sentimentos e emoções. Muitas vezes ficamos tristes e nos recolhemos num canto para chorarmos as nossas dores e mágoas, noutras explodimos e somos tomados pela raiva quebrando tudo o que está à nossa frente, chutando o pau da barraca e xingando quem nos provoca. Cada um reage do seu jeito a sua raiva. E com as crianças não é diferente.

As nossas emoções sempre nos surpreendem e nunca sabemos como vamos reagir diante de alguém que nos grita ou diante de uma vitória. É por isso que as crianças são pegas de supetão quando sentem raiva por coisas que elas não conseguem compreender e precisam de cuidados para aprenderem que a raiva é algo que precisa ser compartilhado com os pais para que não se repita de novo.

A criança tem todo o direito de sentir raiva e jogar seus brinquedos para tudo quanto é canto, se jogar no chão ou até mesmo gritar. Elas também precisam expressar as suas fúrias ou ficarão com aquelas raivas presas dentro de si que mais tarde não saberão como resolver. Toda emoção deve ser extravasada para que não vire doença.

Existem aquelas crianças quietinhas e dóceis que nunca perdem a calma, que quando sentem raiva simplesmente se recolhem e não dizem nada para quem as machucou e devemos compreendê-las também. Mas, falar sobre o que fizeram com a criança é uma tentativa de aliviar a raiva que está presa no seu pequeno espírito e não consegue ser expressa em forma de explosão.

É preciso cuidar da criança que sente dificuldades de expressar as suas emoções, pois pode combinar junto com outras em situações delicadas de ansiedade e depressão mais tarde.

Todos nós sentimos raiva alguma vez na vida. Seja porque alguém não nos compreende ou porque não fazem o que desejamos. Mechem nas nossas coisas sem que autorizemos ou nos dizem coisas desagradáveis. A raiva das crianças deve ser respeitada. Assim como as suas formas de as expressarem. Tem criança que com tudo fica zangada e isso precisa ser investigado por que pode ser alguma falta ou excesso de cuidado por parte dos pais.

Quando ficamos com raiva de alguém ou de alguma coisa só queremos ir para bem longe daquilo, por isso as crianças devem ser respeitadas e quando pedirem para ir embora de um determinado lugar onde sentiram raiva e não tiveram os seus direitos respeitados os pais devem escutá-las e atendê-las, imediatamente. É desconfortável para criança ficar fingindo que tudo está bem para quem lhe provocou uma raiva mesmo porque criança não sabe lidar bem com mentiras e fingimentos.

As crises de raiva são frequentes na infância e podem surgir por vários motivos: cansaço, fome, frustração. Elas também podem sentir raiva por falta de atenção, cuidados ou por desejarem algo que os pais não as podem dar naquele momento.

Os pais, geralmente, se culpam por essas frequentes crises na tenra idade que vai diminuindo com o passar dos anos, trazendo para si uma responsabilidade que não lhes cabe por completo, pois faz parte do desenvolvimento da criança.

Algumas crianças podem prender a respiração voluntariamente por alguns segundos e depois voltar a respirar normalmente. Tudo o que elas querem é demonstrar as suas raivas. E para alcançar isso elas vão fazer as mais diversas formas que encontrarem para demonstrar que as suas raivas são importantes e que precisam de cuidados. Muitas delas se jogam no chão e fazem aqueles escândalos de gritos em meio a um público de pessoas estranhas que logo as vão chamá-las de mimadas.

As pessoas adultas não compreendem que se pudessem fariam a mesma coisa que as crianças quando estão com raiva. A gente só tem vontade de se jogar no chão e gritar bem muito, não é mesmo? Assim são as crianças. Elas não sabem o que fazer com as suas raivas e precisam colocá-las para fora de algum jeito. Externalizá-las é a melhor forma para não adoecer de raiva.

Apesar de muitas crianças conseguirem acalmar a si mesmas em alguns minutos quando colocadas em algum lugar confortável há outras que não sabem como lidar com a raiva e ela se prolonga por mais tempo. Na maioria dos casos, concentrar-se na origem da crise de raiva somente a prolonga. Assim, é preferível redirecionar e distrair as crianças oferecendo uma atividade alternativa na qual se concentrar. É possível que a criança se beneficie ao ser fisicamente removida da situação.

A raiva é uma emoção como qualquer outra, e o que é mais importante é conversar com a criança, saber quais os gatilhos que a fazem ocorrer com mais intensidade, acalmar a criança no momento certo e ouvi-la sempre que necessário. O impulso da raiva precisa ser controlado, pois a criança muitas vezes não sabe sozinha como lidar com essa emoção que desencadeia sempre que é contrariada.

Não é errado a criança ter raiva. Os pais devem aprender a lidar com essas situações. Errado é ignorar a raiva da sua criança. Fazer de conta que ela está sendo mimada ou birrenta por demais. A raiva pode demonstrar uma falta ou excesso de alguma coisa que está desagradando a criança. A raiva é o sintoma de algo que não está indo bem e preciso ser investigado pelos pais junto com a criança.

Quando a criança sente muita raiva provoca o surgimento do hormônio chamado de cortisol que é responsável pelo estresse. Geralmente, tem um motivo ao fundo, que pode ser totalmente diferente daquele que ativou a explosão. É o que estava alimentando antes que precisa ser investigado com atenção. A criança pode apresentar raiva até mesmo para se defender de algo.

O simples fato de saber que vai ficar sozinha com uma pessoa estranha ou que lhe faz mal pode desencadear na criança uma raiva que explode com gritos e esperneios porque é assim que ela sabe explodir a sua emoção. Os pais sem saberem que essa pessoa traz mal para a criança acabam achando que ela está sendo mimada por demais quando na verdade deveriam conversar com ela e procurar saber o motivo que a leva a ter tanta raiva de ficar ao lado daquela pessoa.

Durante a crise de raiva, a capacidade de compreensão fica muito prejudicada. Aí, qualquer explicação, sermão ou censura coloca ainda “mais lenha na fogueira”. Mas o que fazer durante a explosão? Como passar por esse momento sem reprimir as emoções?

Não adianta querer castigar a criança no momento de raiva. O ideal é que esperemos ela se acalmar para só depois conversarmos com ela sem julgamentos ou ameaças. A criança precisa o tempo todo saber que pode confiar em nós.

Uma coisa que podemos combinar com a criança é pedir para que ela extravase a sua raiva dentro de limites, ou seja, ela pode dar socos num pufe, numa almofada, numa poltrona confortável, desde que não se machuque e nem machuque ninguém. Outra forma de mostrar à criança que você se importa com as suas emoções é validar o que ela sente se permitindo conversar francamente e até mesmo dizer que entende o que ela está sentindo e tentar acalmá-la com carinho e cuidado.

Não é colocando a criança de castigo que vamos resolver a sua raiva. Ao contrário, isso provoca mais raiva nela que será desencadeada a qualquer momento ou que a levará a custar mais ainda a se curar da sua raiva.

Se a criança for acolhida com carinho e uma boa conversa essa raiva logo passará, mas se ao invés disso ela for abandonada num canto de parede, for tirado os seus brinquedos preferidos ou for impedida de fazer a sua alimentação isso só trará mais desconforto para ela.

Mudar o foco da raiva da criança é uma boa sugestão para que ela esqueça aquela emoção mais rapidamente. Pode ser um momento para se sentar no tapete da sala e respirar devagarzinho, ficar em silêncio total ouvindo os sons da rua ou da natureza. Ouvir uma música instrumental de ninar, brincar com um brinquedo que ajuda a acalmar a raiva, como massinhas de modelar, desenhar, pintar ou colar figuras. Se a raiva ainda continuar a criança pode ser convidada a fazer uma atividade física como nadar, correr, pular corda, brincar de amarelinha.

Sentar-se com a criança e perguntar se ela quer verdadeiramente dizer o que está sentindo para você, de repente falar sobre os seus sentimentos pode ser uma tarefa terapêutica para a criança. Ela vai se sentir aliviada falando das suas dores, medos e frustrações. Os pais podem pedir para elas falarem o que acham deles, do que fazem por ela, da forma como cuidam dela e do que ela gostaria que eles fizessem mais para que ela se sentisse feliz e nunca tivesse raiva.

Se a criança ainda estiver com muita raiva e não quiser falar neste momento, diga para ela que tudo bem, você vai aguardar o momento da raiva passar e dela querer conversar. Mostre para ela que o importante é o seu bem-estar, que você se preocupa com a felicidade e saúde dela. Deixe-a perceber o quanto é importante para você saber o motivo da raiva na tentativa de ajudá-la a nunca mais passar por aquela emoção tão fortemente.

Aqui vem uma dica valiosa para os pais de como lidar com as suas próprias raivas, vergonhas e decepções em relação as suas crianças quando fazem escândalos de raiva em público. Primeiro, aprender a lidar com a sua agressividade, você pode não perceber, mas muitas vezes um grito, uma ameaça, um pegar mais forte no braço da criança podem ser gestos agressivos que machucam não somente o corpo, mas o espírito do seu pequenino. Se for o caso se afaste por alguns minutos da situação, respire fundo, se tranquilize e peça para alguém da sua confiança ficar com a criança enquanto a sua raiva passa.

Alguns estudos mostram que, a partir dos 4 anos de idade, a criança tende a diminuir as crises de raiva. Se continuarem muito frequentes, pode ser um indicativo de que algo não vai tão bem. É difícil especular uma causa e vale avaliar o entorno das relações, na escola e na família.

Algumas condições neurológicas também podem provocar maior irritabilidade. É o caso do TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), da depressão infantil, da síndrome de Tourette, do TOD (transtorno opositor desafiador) e de autismo. O importante é tentar não tirar conclusões precipitadas. Todo e qualquer diagnóstico precisa ser dado por um profissional da saúde, que pode acompanhar o processo de pertinho e ajudar com mais eficácia.

Na inteligência emocional, existem algumas técnicas que ensinam aos pequenos a lidarem melhor com as suas emoções. O diálogo é sempre muito importante. Ele nos ajuda a colocar para fora o que sentimos com alguém que confiamos. Incentive a fala da criança.

Mostre que o diálogo é a base de tudo. Reconhecer os nossos sentimentos e emoções é importante até mesmo para o nosso crescimento e para quando acontecer novamente algo que nos deixou muito aborrecidos uma vez, que não nos aborreça mais com tanta força. Afinal, errar é humano, mas devemos aprender com os nossos erros.

Reconheça as qualidades do seu filho e incentive que ele faça o mesmo: adquirir esse hábito ajuda a aumentar a autoestima, além de estimular a criança a reconhecer seus defeitos e trabalhá-los de forma saudável.  Evite cobranças excessivas, para a criança não se sentir pressionada: isso pode afetar um pouco da autoestima também. É claro que é preciso impor limites e regras, mas o tom com que isso é passado faz toda a diferença.

Para esclarecer mais uma vez que os gritos, o castigo e a ameaça de bater na criança não resolvem a raiva, mas só desencadeiam mais medo e angústia e que é preciso evitar esse tipo de comportamento para educar a sua criança. Não é como um tirano que você educará a sua criança para o bem-viver. Saiba que tudo começa a partir de você, da sua compreensão e do seu jeito de lidar com os diversos momentos da sua criança.

Permita que a sua criança brinque mais e possa espalhar os brinquedos no meio da sala durante um horário que tem pouco movimento, que ela possa fazer o que gosta. Claro que tudo isso com limites. O pediatra Donald Woods Winnicott criou um termo bastante importante para o cuidado com os bebês que trago para as crianças de todas as idades chamado de holding.

O holding segundo Winnicott envolve um padrão empático e uma rotina nos cuidados do bebê e se expressa como um conjunto de comportamentos afetivos relacionados ao alimentar, limpar, proteger, uma vez que o bebê precisa estar fisicamente seguro e psicologicamente acolhido. Assim como os bebês são protegidos nos braços dos pais, devem ser também as crianças que só cresceram um pouco mais.

No holding de Winnicott a proteção e o cuidado deve ser uma permanente vigília para com o bebê e essa vigília eu peço que os pais a mantenham com suas crianças.

Afinal, a raiva é uma emoção necessária ao desenvolvimento da criança que precisa expressar o que sente e não fingir que tudo está bem quando ela própria não sabe como lidar com certas emoções que a frustra e causa medo. A criança pode e deve sentir raiva quando algo lhe desagradar ou lhe for negado e os pais precisam estar preparados para saberem o que fazer nestes momentos.

Abro um pequeno parêntese para pedir aos pais que não castiguem os seus filhos quando eles sentirem uma raiva prolongada, como também não os gritem ou os ameacem. Eu tenho tanto medo de pais que fazem isso com as suas crianças porque nas minhas andanças pelas cidades do nosso país já ouvi muitas crianças receberem gritos, serem xingadas e jogadas brutalmente em cantos de paredes porque simplesmente ficaram com raiva. Não façam isso com as suas crianças, eu lhes peço.

Para finalizar, deixo vocês com as palavras de Winnicott que já citei acima, mas para enfatizar o quanto o cuidado com os nossos pequenos deve ser sempre colocado em primeiro lugar, assim ele nos diz “quando o ato de segurar o bebê é perfeito (e de um modo geral assim é, já que as mães sabem exatamente como fazê-lo), o bebê pode adquirir confiança até mesmo no relacionamento ao vivo, e pode não integrar-se enquanto está sendo seguro.

Esta é a experiência mais enriquecedora. Freqüentemente, no entanto, o ato de segurar o bebê é irregular, e pode até mesmo ser desperdiçado pela ansiedade (o controle exagerado da mãe para não deixar o bebê cair) ou pela angústia (a mãe que treme, a pele quente, um coração batendo com muita força, etc.), casos em que o bebê não pode dar-se ao luxo de relaxar. O relaxamento acontece então, nestes casos, apenas por pura exaustão. Aqui, o berço ou a cama oferecem uma alternativa muito bem-vinda.”

Que toda criança continue a ser protegida e ninada nos braços dos pais com esse cuidado que Winnicott nos descreve logo acima por que amar uma criança é compreendê-la em todos os momentos da sua vida passando pelas emoções, sentimentos e curiosidades de quem cresce observando um mundo que todos os dias tem uma coisa nova para nos mostrar.

Amemos as crianças sempre!

Autora: Rosângela Trajano

Uma buscadora de direitos dá o seu adeus!

Esta publicação é uma homenagem a uma amiga, lutadora social, mãe dedicada à sua família, militante de direitos humanos, uma das primeiras mulheres formadas em Direito e que atuou no exercício da advocacia por mais de 30 anos, na cidade de Passo Fundo, Maria Sirlei Flor Vieira e que nos deixou, aos 64 anos, nos últimos dias de outubro de 2022, entregando a vida na luta contra um câncer.

Vamos falar um pouco das histórias e das lutas com as quais construímos solidariedade, amizade e parceria, através das lutas por um mundo e uma sociedade mais humanos, por mais solidariedade, por mais justiça e por mais amor. Estas últimas lutas, talvez, hoje, mais atuais do que nunca.

Maria Sirlei Flor Vieira deu entrevista ao site, através da jornalista Márcia Machado. Márcia Machado assim apresentou a matéria, há 06 anos.

Matéria completa: https://www.neipies.com/um-ato-subversivo/

Nos despedimos de 2016 com a última entrevista da Série “Profissões Educadoras” falando sobre direitos, quebra de paradigmas, lutas, conquistas e garantias. Nossa entrevistada, que no nome traz flor, na vida se destaca pela luta em defesa dos direitos sociais: a advogada Maria Sirlei Flor Vieira, pós-graduada em Direito do Trabalho e em Processo do Trabalho. Ela advogou e assessorou movimentos sociais há mais de 30 anos. Maria Sirlei lutou pelo direito das pessoas, numa época em que defender direitos era considerado um ato subversivo, quebrando paradigmas, fundou a Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF).

Pois é. Sirlei, junto com outros amigos, militantes e entidades da época, com muita coragem, fé e ousadia, resolveu empreender a organização da CDHPF (Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo), há 38 anos atrás. Muitos destes que a ajudaram já partiram, assim como ela parte do meio de nós, hoje. Mas ficam como legado, a coragem e a ousadia de construir uma Comissão de Direitos Humanos justamente numa cidade que, até hoje, é conservadora e, muitas vezes, avessa aos direitos humanos e sociais.

Vejamos o contexto daquela época:

Neste período de início dos anos 80, surgem em todo o país iniciativas em vista da reafirmação dos direitos humanos. Organizam-se entidades com o objetivo de lutar pelos direitos humanos, organizar, conscientizar e assessorar grupos e pessoas. Inserido nesse processo mais geral de mobilização e organização da sociedade em torno da luta pelos direitos humanos, pela reabertura política, pelo fim da repressão e pela construção de uma sociedade mais justa que surge a CDHPF. Ela é fruto desse processo mais amplo que mobilizou a sociedade brasileira, mas também é fruto da iniciativa e da vontade de pessoas comprometidas e imbuídas de objetivos comuns e que estavam dispostas a contribuir e realizar, de forma mais consistente, os anseios e demandas da sociedade. Era o momento da redemocratização. Logo no calor da luta pelas “Diretas Já!

Segundo a Ata de fundação

Aos cinco dias do mês de junho de um mil novecentos e oitenta e quatro, às dezoito horas, reuniu-se nos fundos da Catedral Nossa Senhora Aparecida, um grupo de cidadãos passofundenses para fundar a Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo.

A partir de grupos da igreja católica e de grupos de juventude e, a partir da sua formatura, ocorreu esta importante decisão.  

“A CDHPF em Passo Fundo e no Brasil, tinha a função de denunciar as disparidades e os abusos de poder, abuso contra as pessoas. Foi então, que a gente começou um trabalho de divulgação dos direitos humanos”, falou na sua entrevista.

“Qualquer pessoa que escrevesse sobre direitos das pessoas era considerada subversivo, e nessa época já havia abertura política.  Isso só mudou a partir da nova Constituição em 1988 com a garantia de direitos. Hoje, a Comissão é mais educativa e menos de luta”.

Disse ainda:

“Hoje não cabem mais ditadores, pois levaria a uma guerra civil. Cabe a CDHPF e, acho que será uma luta dela, esclarecer à população sobre essa diferença entre democracia e ditadura. Se a democracia não está sendo boa para as pessoas, a ditadura é pior, porque na ditadura ninguém tem direitos garantidos. É preciso que as pessoas façam valer os direitos conquistados pela Constituição de 1988, luta dos movimentos sociais que ficaram na clandestinidade por mais de 20 anos”.

Sobre sua profissão, escreveu:

Márcia Machado: Quais os desafios da sua profissão? Maria Sirlei respondeu: A nossa profissão de advogado é muito individualista, o maior problema é a individualização. Eu me preocupo com o meu problema e não com o do meu colega, nós não lutamos por direitos iguais dentro da nossa profissão. Existem grupos de advogados ligados a movimentos sociais, mas não grupos que defendam os trabalhadores da justiça, que defendam melhores condições de trabalho. Existe uma Ordem de Advogados (OAB), mas não uma associação de advogados. Nós somos os buscadores da justiça, os buscadores do direito.  Sem advogados, não existe justiça!

MARIA SIRLEI FLOR VIEIRA, PRESENTE!

Amiga Sirlei!

“O que mais me marcou neste tempo de convivência com a Dra. Maria Sirlei Flor Vieira foi a garra com a qual defendia as pessoas e seus direitos! Todo o processo era uma causa e, em todos dava o seu melhor. Defendeu a todos com extrema dedicação, mas dedicava especial atenção quando estavam envolvidos direitos dos menos favorecidos, das mulheres, dos doentes, das crianças. Nunca se afastou da luta pela construção dos “direitos humanos”. Fez da advocacia missão de vida. Obrigado por tudo o que nos ensinou! Fica o exemplo de uma vida, de trabalho, de solidariedade! Maria Sirlei, presente! (Rosiclér Terezinha Dalchiavon, advogada).

“Nesse momento do meu último adeus a você, o faço com o coração apertado, tudo que faço neste momento é agradecer você, o presente de sua amizade de anos (1983-2018), tempos de minha vivência em Passo Fundo. Agradeço pela oportunidade de ter conhecido alguém tão especial como você, agradeço pelos momentos lindos que tivemos nas várias frentes de luta em defesa da vida, principalmente das mulheres, agradeço pela sua bondade e pela sua afeição nos momentos que mais precisei. A notícia de sua Pascoa mexeu demais comigo, mas guardarei você no meu coração, pela vida inteira.

Continuarei lembrando seu exemplo e empenho em defesa dos Direitos Humanos, numa determinação ímpar. Lembro de suas convicções fortes e de sua alegria de viver, sempre expressadas no seu doce sorriso. Amiga Sirlei, a morte nos lembra como a vida é um sopro, como somos tão pequenos e frágeis e como é rápido perdermos aquelas pessoas que amamos.

Sei que será difícil aprender a conviver com sua ausência, porém, a morte é uma sabia conclusão de vida. Continuarei dando meu melhor, correndo atrás dos meus projetos e desfrutando de cada momento de nossa amizade. É meu compromisso com você, até o nosso encontro definitivo no Reino de Deus”. Com amizade, Pe. André da Costa, msf. (Caldas Novas, 28 de outubro de 2022)

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“Aprendi a fazer atuação em direitos humanos com Sirlei. Chegue muito jovem à CDHPF, alguns anos depois de sua fundação. Com ela entendi que o mais importante é ouvir as vítimas, compreender profundamente suas dores e seus anseios. Uma escuta amorosa e cuidadosa. Esta escuta é que nos leva a analisar as situações e a encontrar os melhores caminhos para proteger as pessoas e para denunciar as violações. Sirlei marcou presença na vida de muitos/as da CDHPF. Obrigado pela tua colaboração e pela tua proximidade sempre cuidadosa. Seguiremos levando teu legado. Em tua memória e por ela seguiremos em luta para avançar na realização dos direitos humanos. Sirlei, presente, agora e sempre!” (Paulo César Carbonari, militante de direitos humanos de Passo Fundo e do Brasil)

FOTOS: arquivo pessoal/redes sociais

Acesso à comida, desperdício de alimentos e danos ao clima

“No todo, são 17% da produção total de alimentos do mundo que terminam na lata de lixo, ou 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados de alimentos. Para um comparativo ainda mais assustador, se alinhados, esses caminhões dariam a volta na Terra sete vezes”.

Dura realidade, há uma contradição persistente que merece redobrada atenção. Organizados pela FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, os dados a seguir, com base no ano de 2020, longe de apresentar alguma novidade, são alarmantes e nos deixam perplexos: enquanto 811 milhões de pessoas passam fome e 132 milhões sofrem com as ameaças da insegurança alimentar, 14% da produção alimentar (para o caso de frutas e verduras, perde-se mais de 20%) mundial – equivalente a 400 bilhões de dólares –  são desperdiçados todos os anos entre a colheita e a venda no varejo.

Apenas três anos atrás, em 2019, 3 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) não podiam pagar por uma dieta saudável. Em termos gerais, desde 2014, ainda que lentamente, tem aumentado o número de pessoas afetadas pela fome.

Ainda assim, a escala de perdas de alimentos, para não perder de vista esse odioso problema, deixa qualquer um entre perplexo e estarrecido, uma vez que, numa conta geral, representa inaceitáveis 931 milhões de toneladas de comida (o equivalente a 321 mil Maracanãs) que vão parar no lixo. O problema é que isso, falando o óbvio, se repete todos os anos.

O Índice Global do Desperdício de Alimentos da ONU, de 2021, com base de dados apurados em 2019, estima em 121 quilos o desperdício de comida per capita anual. No todo, são 17% da produção total de alimentos do mundo que terminam na lata de lixo, ou 23 milhões de caminhões de 40 toneladas totalmente carregados de alimentos. Para um comparativo ainda mais assustador, se alinhados, esses caminhões dariam a volta na Terra sete vezes.

No caso brasileiro, e isso também não é nenhuma novidade, somos um dos dez países que mais desperdiçam alimentos em todo o mundo: 30% da nossa produção é desperdiçada na fase pós-colheita (ou porque estão fora do prazo de validade ou porque apresentam aparência fora do padrão estabelecido pela legislação do Ministério da Agricultura).

Mas há ainda outro detalhe não menos estarrecedor a ser mencionado.

Seguindo de perto a perda final de alimentos, num planeta já deteriorado por tantos desajustes ecológicos, há o desperdício sequencial de vários recursos utilizados na produção alimentar. Quer dizer, uso da terra, enorme volume de água, energia e trabalho humano que jamais retornarão à cadeia produtiva. Portanto, o impacto ambiental e a extensão dos problemas, bem sabemos, são enormes e aumentam a preocupação com a questão ecológica que afeta – e muito – nosso lar coletivo.

De toda maneira, sem abandonar a questão climática, tem mais um problema de igual importância, se não maior: A FAO/ONU estima que entre 8% e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa (notadamente óxido nitroso e metano) estão associados a alimentos que não são consumidos.

De perto ou de longe, igualmente estarrecedor aqui, para além de todas as fortes evidências mostradas, é se dar conta que, se fosse um país, o desperdício de alimentos seria o terceiro maior emissor do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

Inútil dizer, esse problema em particular, muito mais que um dilema cotidiano, arrasta consigo a possibilidade de se buscar alternativas plausíveis, tanto que o programa ambiental da ONU tem como meta reduzir pela metade o desperdício global de alimentos até 2030. Ainda assim, é preciso sempre identificar os pontos mais nebulosos que contribuem para ameaçar a estabilidade ecológica.

Nessa mesma direção, infelizmente, longe da prática de consumo consciente (bandeira fundamental de nosso tempo que precisamos levantar a todo o momento), a maior parte do desperdício de alimentos, 61%, vem das famílias. 13% vem do comércio (supermercados e pequenos estabelecimentos) e 26% vêm do setor de serviços, por exemplo, restaurantes e hotéis.

Autores:

Marcus Eduardo de Oliveira, economista (1994), pós-graduado em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1995) e ativista ambiental. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários (CRV, 2018), entre outros. 

Gilberto Natalini, médico cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi Secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017), e candidato à Governador do Estado de São Paulo, pelo Partido Verde, em 2014. 

Eduardo Jorge, médico sanitarista, por duas vezes foi secretário municipal de saúde e secretario do meio ambiente. Foi candidato a presidente da República em 2014.

FONTE: https://www.ihu.unisinos.br/623646-acesso-a-comida-desperdicio-de-alimentos-e-danos-ao-clima

Em busca da paz

A atitude mais coerente, no momento, é tranquilizar a vida em torno de nós e dos outros. Seguir adiante, avante, cumprindo seus deveres, certos de que a felicidade verdadeira significa paz em nossa consciência.

                                               “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” Jesus – M. 5:9

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, não vo-la dou como o mundo a dá…” Jesus –  João, 14:27

A paz é dinâmica, gloriosa, não é a paz do ócio, do descanso. Ela ajuda a pessoa a desenvolver a autoconsciência e se tornar solidária e fraterna.

A voz silenciosa da pessoa pacífica, que não revida a agressão, não discute e nem se envolve em conflitos desnecessários, conclama com mais vigor a verdade do que a gritaria inconsequente dos equivocados, muitas vezes agressivos e presunçosos.  É uma forma de agir de fulgurante coragem. É trabalho íntimo de abnegação em favor do próximo.  

A compreensão da ignorância do outro e o não revidar o ataque, a grosseria, causam surpresa e provocam reflexão na pessoa equivocada. Ter paciência, dar tempo ao tempo, que no momento certo a verdade surge soberana. A   paz no mundo é dom de Deus.

A razão precisa romper a noite da ignorância que ainda paira sobre muitos de nós, pois não superamos o processo de transição entre o mundo civilizado e a barbárie. A verdadeira paz é o serviço do bem, da caridade, do esclarecimento em favor da coletividade. 

A atitude mais coerente, no momento, é tranquilizar a vida em torno de nós e dos outros. Seguir adiante, avante, cumprindo seus deveres, certos de que a felicidade verdadeira significa paz em nossa consciência.  Evitar a divulgação da guerra nervosa, da aflição, da mentira. A propaganda da mentira (fake news), quando for repetida constantemente na cabeça do incauto, torna-se verdade.

Precisamos compreender que paciência, serenidade, calma, não significam aprovação do desequilíbrio, do abuso, da delinquência nem conivência com o erro deliberado mas a capacidade de verificar as dificuldades e buscar, sem alarde e irritação, a solução dos problemas, a transposição dos obstáculos, onde a verdade foi omitida e a perturbação se estabeleceu.

O momento de crise é o tempo de luta, do bom combate, da busca da harmonia.

Considerando o momento atual, a pessoa pacífica enfrenta muitas lutas por causa da agressividade e violência das paixões de muitos iludidos que se comprazem nestas propostas equivocadas e que servem a interesses mesquinhos de grupos específicos, porém ela está fortalecida e confia no triunfo do bem.

A coragem da fé lhe dá resistência para não recuar em sua posição. Poderá até sofrer as consequências da sua opção mas não vai se submeter nem revidar as agressões.

Segundo a mentora Joanna de Angelis, no livro Diretrizes para o Êxito, de Divaldo Pereira Franco, página 38:

“A sua resistência pacífica é silenciosa e resoluta, facultando o estabelecimento de operosa força do poder do amor que aquece as vidas, dá-lhes sentido e apresenta-lhes rumo feliz que deve ser percorrido. A pessoa de paz não é tímida, embora comedida, porque sempre se encontra onde sua presença se faz necessária, emulando a perseverança no empreendimento libertador. Viver em paz de espírito, não obstante a agitação, os enfrentamentos, a diversidade dos acontecimentos agressivos, é a meta. Não permitir que os transtornos de fora perturbem o equilíbrio interno”.

A palavra PAZ é portadora de energia muito positiva, a audição deste som promove harmonia íntima. Deveríamos verbalizá-la e escrevê-la mais seguidamente buscando introjetá-la em nós e nos outros. Não é por menos que a saudação de Jesus era sempre: “A paz seja convosco”!

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

O Holocausto é o maior exemplo do perigo da intolerância

As crianças reproduzem o que têm assistido nas ruas e, eventualmente, até uma postura inspirada em comportamentos dos pais. E isso ecoa no ambiente escolar, onde não é tão madura, entre os jovens, a percepção do quanto isso é sério.

O presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Claudio Lottenberg, em entrevista, afirma que são “muito sérios” os episódios de intolerância registrados em ambiente escolar durante e após as eleições. Ele avalia que o cenário “é fruto da polarização” e acrescenta que é preciso “inibir a percepção de que a diversidade não é uma riqueza”.

Por que a intolerância política invadiu o ambiente escolar?

As crianças reproduzem o que têm assistido nas ruas e, eventualmente, até uma postura inspirada em comportamentos dos pais. E isso ecoa no ambiente escolar, onde não é tão madura, entre os jovens, a percepção do quanto isso é sério. Se já havia propagação (de intolerância) a partir de pessoas intelectualizadas, imagina em crianças que não têm noção do que isso representa.

Qual o risco disso?

É algo muito sério porque pode trazer o sentimento de que é correto, de que é bom, de que não tem nenhum tipo de repercussão nas relações sociais. As pessoas devem trabalhar justamente pelo contrário, minimizando a discriminação, minimizando os discursos de ódio e inibindo a percepção de que a diversidade não é uma riqueza.

Manifestantes bolsonaristas fazem atos antidemocráticos pelas ruas e rodovias do país após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

O que as escolas devem fazer?

Ficar atentas. E, dentro do menor movimento, têm que coibir e explicar. E, se possível, inserir ensino sobre o Holocausto. O Holocausto é o maior exemplo da história do perigo que representa a intolerância. Entendo que esse episódio deve ser tomado como uma referência no processo educativo para acentuar os valores de respeito ao próximo, de aceitação à diversidade e de sentimento de compaixão. Tanto que, em vários locais no país, o Holocausto passou a ser tema obrigatório.

Qual é o papel dos pais?

Primeiro, repensar suas atitudes quando pais. Segundo, imaginar que o cenário político é uma das condições de relacionamento de uma sociedade, de uma comunidade.

Algumas pessoas defendem uma liberdade de expressão ilimitada. Onde está o limite?

Na própria Constituição brasileira, que diz que a liberdade de expressão deve existir desde que não crie uma situação de perigo frente ao próximo e, nesse caso, está criando.

Nos últimos dias, um aluno de uma escola de Valinhos (SP) publicou uma foto de Hitler e escreveu: “Se ele fez com judeus, eu faço com petistas”. Como o senhor avalia?

É fruto da polarização que vivemos em nosso país, na qual a posição divergente não é tratada com respeito. Não há problema em pensar diferente. O problema está em não aceitar as pessoas diferentes e, pior, repudiar com violência.

Como a intolerância política está ligada ao nazismo?

Primeiro, precisamos entender que o processo de globalização não diminuiu a desigualdade. Isso construiu todo um processo que levou à defesa de culturas mais nacionalistas, que muitas vezes criam uma visão exagerada de proteção, muitas vezes discriminatória. Nesse ambiente, é bastante fértil a propagação de ideias como o nazismo.

O antissemitismo também aumentou no Brasil?

Está documentado, cresceu muito nos últimos dois anos, assim como células nazistas.

Por quê?

É reflexo da geopolítica global. A reação à globalização é um movimento nacionalista.

O senhor foi presidente da Conib em 2010 e 2014, anos eleitorais. E, principalmente em 2014, a eleição foi muito polarizada…

Mas nunca com essa hostilidade.

Os episódios se intensificaram neste ano?

Não tenho a menor dúvida. Inclusive com o incentivo de alguns líderes, como o presidente (Jair Bolsonaro). Porque ele tem uma bandeira muito nacionalista. O movimento nacionalista o elegeu.

Vemos as instituições muitas vezes repudiando tais ações. Só repudiar é suficiente?

Não. Precisam tomar as medidas judiciais cabíveis.

Sobre crianças e adolescentes, o que precisa ser feito?

Temos que colocar os ministérios públicos para ver o que as escolas estão fazendo. Por serem episódios no ambiente escolar, a responsabilidade também é da escola. É preciso ver se as escolas estão sendo exigentes para evitar que isso se propague ou se estão sendo lenientes. Se estão sendo lenientes, precisam pagar por isso.

Claudio Lottenberg, líder da Confederação Israelita do Brasil 

Foto: Agência O Globo

FONTE: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2022/11/o-holocausto-e-o-maior-exemplo-do-perigo-da-intolerancia-diz-claudio-lottenberg-lider-da-conib.ghtml

Quando as disputas ideológicas deixam de ser saudáveis

O período eleitoral teve ânimos acirrados. Casos de violência foram contabilizados em todo o Brasil e o medo de mostrar seu posicionamento político também tomou conta do país, um fenômeno que não aparecia com tanta intensidade nos últimos pleitos.

Inúmeros são os relatos, também em Passo Fundo, da violência política que permeia as Eleições de 2022. Um adesivo no carro ou no peito se tornou motivo de apreensão e cuidado.  Defender o seu candidato em uma discussão respeitosa virou privilégio.

Intimidações, ameaças, agressões verbais e físicas, chegando até a morte em alguns casos. Como no caso do guarda municipal, sindicalista e tesoureiro do PT, Marcelo Aloizio de Arruda, que foi morto quando um policial penal federal, Jorge Guaranho, invadiu a festa de aniversário do tinha como tema o PT e imagens do ex-presidente Lula, em Foz do Iguaçu (PR).  Com gritos de “aqui é Bolsonaro”, o apoiador do presidente assassinou Marceli com três tiros.

A doutora em filosofia e professora Patrícia Ketzer explica que a violência política é toda violência usada com objetivos políticos. Pode incluir violência estatal, por parte dos poderes públicos, por parte do Estado contra civis, incluindo genocídio, tortura, perseguição, cerceamento da liberdade de expressão, brutalidade policial. Também inclui violência de organizações não estatais contra o Estado ou contra civis. Pode ocorrer por parte de um Estado contra outro, em forma de guerra, por exemplo.

Atualmente, tem como uma de suas principais armas a proliferação da desinformação e da mentira através de notícias falsas, o silenciamento e ataque constante a jornalistas e a criminalização de movimentos sociais. A conivência e, mais do que isso, a iniciativa do poder público, estatal, seja no Executivo, no Legislativo e muitas vezes até no Judiciário legitima a população, nas ruas e lares, a reproduzir a violência contra as mulheres”, afirmou.

Violência política de gênero

Muito antes do período eleitoral os ânimos já estavam alterados e diversos casos de violência, em todo o país, eram registrados. Em Passo Fundo, intimidação, assédio e ameaça foram relatados, especialmente por mulheres.

“Eu estava usando o carro da minha mãe, com bandeiras e adesivo do Lula, e ao parar na sinaleira uma pessoa aleatória começou a me xingar ‘Lula ladrão, sua vagabunda’.  Eu estava indo rezar, literalmente,” desabafou uma jovem nas redes sociais. Outra, relatou que estava andando com um adesivo do Lula no peito, quando cinco senhores começaram a se exaltar com o mesmo discurso.

Conforme Patrícia, qualquer ato que vise excluir as mulheres do espaço político, podendo ocorrer antes ou depois de sua eleição a cargos públicos é violência política de gênero. Se enquadram situações em que a mulher é coagida, ridicularizada, desacreditada. “Pode ocorrer por meio virtuais, nas ruas e nos espaços institucionais, por parte de representantes de cargos públicos, eleitores ou mesmo dentro de seus próprios partidos ou de suas casas,” explica.

É o que aconteceu com a vereadora Eva Valéria Lorenzato (PT), na Sessão Plenária do dia 17 de outubro, quando o colega Rodinei Candeia não respeitou o espaço de fala da parlamentar e protagonizou cenas de descontrole.

 “Iniciei uma reflexão sobre um tema amplamente divulgado na imprensa nacional que diz respeito à uma fala do presidente da República. Antes que eu pudesse concluir sequer a primeira parte, o vereador interrompeu a minha fala, utilizando o microfone de aparte. Aos gritos e me chamando de criminosa, o vereador pediu à Mesa Diretora que a Procuradoria Jurídica da Câmara analisasse o que eu dizia para ver se eu poderia ou não prosseguir,” contou Eva Valéria.

Em nenhum momento, Rodinei pediu que a vereadora concedesse o aparte, o que é a regra dentro da Casa Legislativa. Para um parlamentar fazer comentários durante a fala de outro, esta precisa conceder o espaço.

Ao analisar, a Procuradoria apontou o que é Lei e está inclusive no Regimento Interno da Câmara: as e os vereadores têm garantida a imunidade parlamentar quando estão na Tribuna e, portanto, têm o direito de expressar suas opiniões. Quem julgar que a fala é equivocada, pode acionar os mecanismos judiciais e pedir explicações. Porém, isso deve ser feito após a fala e não enquanto ela acontece.

“Depois do parecer da procuradoria, o vereador, inconformado interrompeu novamente, aos gritos, desrespeitando não só a mim, mas à Mesa Diretora e o Regimento Interno, que é a lei maior dentro da Casa. Usando de agressões verbais com termos como mentirosa, criminosa, dissimulada e injuriosa, tumultuou a Sessão, que foi suspensa pelo presidente da Câmara,” contou a vereadora.

O silenciamento dos colegas parlamentares ao presenciarem a situação, em especial as vereadoras, chocou os passo-fundenses que realizaram um ato simbólico de apoio à Eva Valéria No dia 19 outubro, lideranças ocuparam o plenário dando o recado: basta de violência política de gênero. “É reconfortante saber que a população apoia a postura democrática e repudia todos os atos autoritários”, confessa.

No mesmo dia o presidente do PT no município, Áureo Mesquita, acompanhado de advogados do partido, protocolou pedido para instauração de processo na Comissão de Ética da Câmara de Vereadores contra o vereador Rodinei Candeia por tentar impedir a manifestação da vereadora.

“Além de agredir os princípios da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar, praticou violência de gênero ao impedir uma vereadora de se manifestar, com agressividade que normalmente não utiliza com outros colegas vereadores homens. O PT espera que a Comissão de Ética analise o caso e aplique as sanções previstas regimentalmente e no Código de Ética daquela casa. Não é mais admissível atos desproporcionais como esse cometidos contra vereadoras em suas manifestações, como tem acontecido continuamente nas casas legislativas de todos os níveis do Brasil,” diz a nota do partido.

É preciso superar o ódio

Apesar de ficar estarrecida com a situação, Eva Valéria destaca que a divergência é parte da vida democrática: o problema é o uso da violência, o ataque, o desrespeito. “O ódio é um péssimo modo de orientar a convivência social. Ele aumenta a violência. A amizade e a fraternidade que se alimentam da amorosidade abrem para o diálogo e para mediações restauradas dos conflitos. Precisamos aprender a conviver democraticamente no sentido mais profundo da convivência,” afirmou.

Patrícia recorda que o enfrentamento a todo tipo de violência contra a mulher precisa se dar nos lares, nas ruas, bairros, empresas, escolas, instituições públicas e privadas, no executivo, no legislativo, no judiciário, com o apoio da mídia e dos movimentos sociais, sendo pautado constantemente por todos e todas que se identificam como aliados na luta por uma sociedade justa.

“Implica na revisão de atitudes diárias em todos esses espaços e numa vigilância constante para que não sejamos desrespeitadas ou silenciadas, como se tenta fazer em todos os espaços, inclusive na Câmara de Vereadores de Passo Fundo,” finaliza.

*Esta matéria foi produzida pela jornalista Ingra Costa e Silva e já publicada no Jornal Impresso Rotta, Ano 23, Número 415, de 14 a 27/10/2022.

Imagens: Arquivo pessoal/divulgação

O eleitorado sem religião foi o fiel da balança da vitória de Lula

“Discutir com uma pessoa que renunciou ao uso da razão é como administrar remédio aos mortos” – Thomas Paine (1737-1809)

“No tiroteio da guerra santa, o tiro da intolerância saiu pela culatra e o segmento do eleitorado que se declara sem religião foi decisivo para a derrota da extrema-direita”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador de meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 31-10-2022.

Segue artigo.

As eleições presidenciais de 2022 chegaram ao fim com a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 30 de outubro de 2022. Para um eleitorado de 156 milhões de votantes, houve 32,2 milhões de abstenções (20,6%), 118,53 milhões de votos válidos, 1,77 milhão de votos brancos (1,43%) e 3,93 milhões de votos nulos (3,16%). Lula obteve 60,33 milhões de votos (50,9%) e Bolsonaro 58,2 milhões de votos (49,1%).

Foram as eleições mais disputadas e mais polarizadas da história brasileira, com Lula sendo o campeão de votos de todos os tempos da democracia nacional.

Houve divisões marcantes do voto. Na região Norte, Lula ganhou com pequena diferença, mas estabeleceu grande vantagem na região Nordeste, que foi decisiva para o resultado final. O presidente Bolsonaro ganhou nas demais regiões, embora tenha perdido de pouco em Minas Gerais, estado que se manteve como o termômetro eleitoral do país, já que a vitória em Minas Gerais parece ser um pré-requisito para a vitória nacional. Lula teve grande vantagem entre as mulheres, entre a população preta e parda e entre os estratos de mais baixa escolaridade e de baixa renda.

No quesito religião, as clivagens foram marcantes, pois, segundo todas as pesquisas de opinião, Bolsonaro se manteve com proporção majoritária do voto evangélico, enquanto Lula se manteve com a percentagem majoritária dos votos católicos, das outras religiões e do segmento do eleitorado que se declara sem religião.

Entre as diversas denominações religiosas, o presidente Bolsonaro obteve uma pequena vantagem, mas o ex-presidente Lula ganhou as eleições com o voto do segmento sem religião, que foi o fiel da balança e definiu o resultado final das eleições, como veremos a seguir.

A tabela abaixo apresenta, na linha do total (linha vermelha), o resultado das eleições segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já os números dos segmentos religiosos foram construídos com base na pesquisa Datafolha de 29 de outubro. Nota-se que a última pesquisa antes do segundo turno apontou Lula com 52% dos votos e Bolsonaro com 48%, valores ligeiramente diferentes do resultado efetivo, mas dentro da margem de erro. A meu ver, o pequeno erro do Datafolha ocorreu, não pelos percentuais da intenção de votos, mas em decorrência do perfil da amostra.

O atraso do censo demográfico prejudicou a calibração da amostragem. Por exemplo, o Datafolha contabilizou algo em torno de 27% de evangélicos e 52% de católicos na amostra, quando na minha opinião, evangélicos e católicos representam, respectivamente 32% e 50% do eleitorado em 2022. Desta forma, a tabela abaixo utiliza os mesmos percentuais de intenção de voto da pesquisa Datafolha (29/10), mas recalibra o perfil da amostra. Por conseguinte, dos 118,2 milhões de votos válidos, estimamos 59,1 milhões de votos católicos (50%), 37,8 milhões de votos evangélicos (32%), 7,1 milhões de votos de outras religiões (6%) e 14,2 milhões de votos do segmento sem religião (12%).

Aplicando os percentuais de intenção de voto da pesquisa Datafolha, temos 34,6 milhões de votos católicos, 11,7 milhões de votos evangélicos, 3,8 milhões de votos das outras religiões e 10 milhões de votos do segmento sem religião. Enquanto Bolsonaro obteve 24,5 milhões, 26,1 milhões, 3,3 milhões e 4,2 milhões nos respectivos grupos religiosos.

Desta forma, Lula teve um superávit de 10 milhões de votos entre os católicos, Bolsonaro teve um superávit de 14,4 milhões de votos entre os evangélicos e Lula teve um superávit de 567 mil votos entre as outras religiões.

Considerando apenas estes 3 grupos, Bolsonaro ganharia as eleições com vantagem de 3,8 milhões de votos. Mas como Lula teve superávit de 5,9 milhões de votos entre o segmento sem religião, isto compensou a vantagem de Bolsonaro nos 3 grupos anteriores e propiciou uma vantagem final de 2,1 milhões de votos no resultado final.

Como já mostramos em outros artigos (Alves, 20172018 e 2019), existe uma forte relação entre o voto nos candidatos e a percentagem dos grupos religiosos nos estados. O gráfico abaixo apresenta a associação entre a razão de votos válidos para Lula em relação a Bolsonaro (RLB) e a soma do percentual de católicos e sem religião no Brasil e em todas as Unidades da Federação, segundo os dados do censo demográfico de 2010 (que são os últimos dados disponibilizados pelo IBGE). Ou seja, o gráfico testa como o desempenho do candidato Lula está correlacionado com maior proporção de católicos e sem religião e o desempenho de Bolsonaro está correlacionado com a proporção da presença evangélica.

Como pode ser visto pela curva logarítmica vermelha do gráfico, existe uma relação positiva entre o voto em Lula e a maior proporção de católicos e sem religião nos estados (com R2 de 71,9%). Obviamente, a variável religião não é a única que explica o resultado eleitoral de 2022, mas ela tem uma associação inquestionável.

Por exemplo, no Piauí, o percentual de católicos e sem religião é de 88,5%, o maior percentual do país. Não sem surpresa, foi onde Lula teve o maior percentual de votos tanto no primeiro, quanto no segundo turno das eleições de 2022. O percentual de católicos mais os sem religião está acima de 75% em todos os estados do Nordeste, local onde Lula teve uma vitória inconteste. Já AcreRondônia e Roraima são os estados com menor percentual de católicos e sem religião (e maior percentagem de evangélicos), em consequência foram as Unidades da Federação que deram a maior vantagem eleitoral para Bolsonaro. Mas como a religião não explica tudo, o caso de Santa Catarina mostra que uma das UFs com grande proporção de católicos e sem religião (semelhante à de Pernambuco) sufragou majoritariamente o presidente Bolsonaro.

Em síntese, a proporção de católicosevangélicosoutras religiões e sem religião influenciam o voto brasileiro. Mas entre o eleitorado cristão – que são os dois maiores grupos religiosos do Brasil, com cerca de 82% do total do eleitorado – houve uma vantagem de Bolsonaro. Já entre o segmento sem religião (que representa 12% do eleitorado) Lula teve uma vantagem de 5,9 milhões de votos, o que garantiu a vantagem final de 2,1 milhões de votos que deram a vitória ao candidato do Partido dos Trabalhadores. Portanto, católicos e sem religião foram fundamentais para superar o bolsonarismo da maioria do segmento evangélico, mas o fiel da balança foi indubitavelmente o segmento sem religião, que compensou as diferenças no voto cristão.

Retrocesso econômico, Estado Laico e “Guerra Santa”

As eleições gerais de 2022 ocorreram em um quadro de retrocesso econômico do Brasil, pois tem havido um processo de desindustrialização do país, reprimarização da estrutura produtiva e da pauta de exportações, além da economia brasileira ter crescido menos do que a média da economia global e a renda per capita do país tem permanecido estagnada na última década. Em consequência, tem aumentado os problemas sociais, como a pobreza, a fome, a inflação, a violência, o aumento da população de rua, o desemprego e a informalidade do trabalho.

Mas ao invés de discutir racionalmente um projeto de resolução dos problemas nacionais, dentro dos parâmetros do Estado Democrático de Direito, o atual Presidente da República – candidato à reeleição – privilegiou a campanha junto ao público religioso, dando ênfase à uma pauta marcada pelo conservadorismo moral (priorizando temas como abortocasamento homoafetivolegalização das drogasideologia de gênero, etc.) e pela alegação de que o seu o principal adversário pretenderia fechar igrejas e destruir a família tradicional.

Desta forma, o debate eleitoral se deslocou dos temas socioeconômicos para os assuntos da religiosidade. A religião transbordou da esfera privada para ser instrumentalizada em função de objetivos eleitoreiros.

A primeira semana do segundo turno foi protagonizada pelo embate envolvendo cristianismo, maçonaria, forças ocultas, canibalismo e satanismo. Na segunda semana do segundo turno, a polêmica ficou por conta da presença do Presidente da República nas festividades do Sírio de Nazaré, em Belém (Pará) e nas celebrações do dia da Padroeira do Brasil, no feriado nacional de 12 de outubro, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida (em São Paulo), onde houve atrito entre os apoiadores do presidente e os clérigos católicos. No mês de outubro houve repetidos ataques em igrejas, interrupções de missas e assaltos às sacristias em diversas partes do país.

A ex-ministra Damares Alves (senadora eleita pelo Distrito Federal) utilizou o púlpito de um templo para espalhar mentiras sobre pedofilia na ilha de Marajó e para difundir o medo e angariar votos para o atual presidente. Mas em uma fala infeliz, o próprio Bolsonaro foi envolvido na denúncia de pedofilia ao dizer que “pintou um clima” ao encontrar garotas venezuelanas menores de idade.

O autodenominado padre Kelmon utilizou a religião para participar dos debates eleitorais do primeiro turno e se envolveu nas conversações do triste episódio de ataque à polícia federal por parte do ex-deputado Roberto Jefferson no domingo 23 de outubro de 2022. Assim, o maniqueísmo entre o bem e o mal e entre a luz e a treva apequenou a democracia, obnubilando as possíveis formulações propositivas da campanha.

Por conseguinte, a tênue linha da laicidade, que separa estado e religião no Brasil, foi ultrapassada em vários momentos pela mobilização de dogmas religiososmentiras e desinformações. O debate eleitoral virou uma espécie de guerra santa, com acusações de heresia contra aquilo que é considerado sagrado pelas diversas religiões. Há relatos de pastores fazendo pressão por voto e ameaçando fiéis com punição divina e medidas disciplinares. Houve também perseguição política dentro das igrejas, deixando claro que, o vilipêndio da fé, vilipendia a própria democracia.

Todavia, no tiroteio da guerra santa, o tiro da intolerância saiu pela culatra e o segmento do eleitorado que se declara sem religião foi decisivo para a derrota da extrema-direita e para a vantagem de cerca de 2% do candidato da esquerda.

O obscurantismo foi derrotado e a tarefa daqui para frente é garantir a laicidade do Estado e o predomínio da racionalidade, da ciência e da democracia sobre as forças do atraso, da superstição e do preconceito. O século XXI está apenas começando e há muito a ser construído.

Autor: José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador de meio ambiente

Foto: Juliana Chalita – GN

FONTE: https://www.ihu.unisinos.br/623503-o-eleitorado-sem-religiao-foi-o-fiel-da-balanca-da-vitoria-de-lula-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves?

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